Uma Leitura de Efésios 4.11-12 a Partir dos Contextos Interpretativos Histórico, Literário e Teológico [1]
Uma Leitura de Efésios 4.11-12 a Partir dos Contextos Interpretativos Histórico, Literário e Teológico [1]
Leonardo Vieira Cintra [2]
Resumo
Resumo: O presente artigo tem como objetivo oferecer uma leitura de Efésios 4:11-12 a partir de uma abordagem interpretativa que privilegia os contextos histórico, literário e teológico do texto para responder a seguinte pergunta: como ler Ef 4:11-12 de modo que este texto continue sendo relevante para o cristão hoje? Por Ef 4:11-12 se tratar de um texto disputado, especialmente quanto à natureza da lista ali apresentada, três interpretações propostas são examinadas à luz dos contextos supracitados: dons espirituais, ofícios ministeriais e, uma terceira via, a do "dom singular". Para tanto, este estudo se desenvolve em três seções principais: uma análise histórica da epístola de Efésios com um todo e seu impacto na leitura de Ef 4:11-12; uma leitura literária e canônica do texto em relação com o todo de Efésios e com o corpus paulino; uma abordagem teológica de Ef 4:11-12 que examina as implicações de cada linha interpretativa para a contemporaneidade. O artigo dialoga com estudos recentes sobre a linguagem do dom em Paulo, tais como propostos pelo renomado John Barclay e aplicados no estudo de Efésios por Lynn Cohick. Pretende-se, assim, oferecer uma leitura atenta de Ef 4:11-12 que contribua tanto para discussões acadêmicas quanto para as comunidades eclesiásticas.
Palavras-chave: Teologia Bíblica; Interpretação e crítica; Paulo; Efésios; Dons; Ministérios; John Barclay; Paulo e o dom.
Abstract: This essay aims to offer a reading of Ephesians 4:11-12 from an interpretive approach that prioritizes the historical, literary, and theological contexts in relation to this passage to answer the following question: how does one read Eph 4:11-12 so this text may continue to be relevant for Christians today? Given that Eph 4:11-12 is a contested text—particularly concerning the nature of its list—three interpretations are critically examined in light of these contexts: spiritual gifts, ministerial offices, and a third alternative, the "singular gift." The study is organized into three main sections: a historical analysis of the epistle to the Ephesians as a whole and its relevance for the interpretation of Ef 4:11-12; a literary and canonical reading of the text in relation to the whole and to the Pauline corpus; and a theological approach to Eph 4:11-12 that examines the implications of each interpretive line for contemporary. This essay dialogues with recent studies on the language of the gift in Paul such as those proposed by the renewed scholar John Barclay and applied by Lynn Cohick in her study of Ephesians. This hopes to offer an attentive reading of Ef 4:11-12 in which contributes not only to scholarly discussions but also to Christian ecclesial communities.
Keywords: Biblical Theology; Interpretation and critic; Paul; Ephesians; Gifts; Ministries; John Barclay; Paul and the gift.
Artigo
1. INTRODUÇÃO
A epístola de Efésios possui um lugar notório no corpus paulino por abordar de forma profunda a identidade e a missão da igreja de Cristo. Dada sua densidade teológica e impacto na compreensão da igreja, não surpreende o fato de que textos como Ef 4:11-12, a passagem de interesse escolhida para este artigo, estejam no centro de debates interpretativos. O texto apresenta uma lista falando de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (v.11) e interliga o papel desses no propósito da edificação da igreja (v.12). Esses versículos, porém, têm gerado interpretações variadas, principalmente quanto a natureza dessa lista: se trata de dons espirituais, funções ministeriais ou se representa uma concessão única, formativa para a unidade da igreja. Este texto e debate é, portanto, de interesse da teologia bíblica e da interpretação.
Diante disso, este artigo buscará responder: como ler Ef 4:11-12 bem e de que modo este texto pode continuar sendo relevante para o cristão hoje? A resposta para esta pergunta está diretamente vinculada com o modo ou procedimento pelo qual o texto é objeto de escrutínio e interpretação. Com isso em mente, este artigo oferecerá uma análise de Ef 4:11-12 a partir de uma leitura que prioriza os contextos histórico, literário e teológico em busca de uma leitura adequada que venha esclarecer melhor a natureza dessa lista (BAUMANN, 2022; ANDIÑACH, 2015).
Este artigo se desenvolverá em três seções principais. A primeira seção analisará o possível contexto histórico de produção de Efésios, com atenção à autoria, data, destinatários e propósito original, em como alguns dos elementos históricos por trás do texto podem iluminar Ef 4:11-12 (ANDIÑACH, 2015, p. 27). A segunda seção oferecerá uma leitura literária e canônica de Ef 4:11-12, destacando sua localização estratégica na epístola, características de vocabulário, fluxo argumentativo e conexões com o restante de Efésios e, por conseguinte, do corpus paulino como um todo (GORMAN, 2017, p. 89-101). A terceira seção discutirá o contexto teológico de Ef 4:11-12 abordando criticamente três das principais interpretações do texto – dons espirituais, ofícios ministeriais e, a interpretação alternativa, a do "dom singular" (BAUMANN, 2022, p. 21-23). O diferencial desta terceira seção é que embora o artigo tenha inclinação para a terceira linha, ele avalia as implicações de cada uma delas para uma apropriação de Ef 4:11-12 na contemporaneidade de modo que cada linha interpretativa seja avaliada em seus próprios méritos. Com isso, o presente artigo espera contribuir para uma leitura mais atenta de Ef 4:11-12 para a edificação da igreja contemporânea.
2. ANÁLISE HISTÓRICA DE EFÉSIOS
Esta seção abordará uma análise histórica de Efésios, com o objetivo de contribuir para uma interpretação bem-informada de Ef 4:11-12. Serão discutidos os debates sobre a autoria da epístola, os possíveis locais de sua composição, as diferentes propostas de datação, a questão dos destinatários à luz da crítica textual e o provável propósito do autor ao redigi-la originalmente. Esta abordagem histórica fornecerá uma melhor compreensão dos fatores que podem ter gerado e influenciado o texto de Ef 4:11-12.
2.1 AUTOR, LOCAL DE ORIGEM E DATA
Efésios inicia reivindicando a autoria do apóstolo Paulo (1:1). A autenticidade da autoria paulina de Efésios parece ter tido ampla aceitação no período da igreja primitiva, permanecendo assim até a modernidade (HOEHNER, 2023, p.2-6). No entanto, a partir do século XIX, a autenticidade de Efésios tem sido questionada, a ponto de ser relegada a categoria de "carta deuteropaulina[3]" por alguns (KÖSTENBERGER; KELLUM; QUARLES, 2022, p. 790-791). Dessa forma, a declaração da identidade do autor expressa no texto tem sido alvo de debate nos últimos dois séculos.
A controvérsia sobre a autoria da Epístola aos Efésios concentra-se no debate entre a atribuição a Paulo e a possibilidade de um autor pseudônimo, com Kümmel (1982, p. 469-472) apontando diferenças significativas no vocabulário, estilo e teologia de Efésios, como a ausência da expectativa da parousia, e Koester (2005, p. 287-289) reforçando a dependência literária de Colossenses e um contexto pós-apostólico, sugerindo um "catolicismo primitivo" que tornaria a autoria paulina improvável; em contrapartida, Carson, Moo e Morris (1997, p. 338) argumentam que o vocabulário exclusivo de Efésios está dentro da média das cartas paulinas autênticas, enquanto Köstenberger, Kellum e Quarles (2022, p. 793-794) e Hoehner (2023, p. 45) defendem que as semelhanças e diferenças com Colossenses, bem como o estilo literário, incluindo doxologias, são consistentes com o corpus paulino, explicáveis por variações de propósito, público e contexto, sustentando que as peculiaridades de Efésios não justificam a atribuição a um autor posterior, mas refletem a diversidade teológica e literária de Paulo. Este estudo, em consonância com os autores supracitados, adota a posição que Paulo é o autor de Efésios, por compreender que os argumentos contra a autoria paulina são satisfatoriamente respondidos por eles.
Com esse debate sobre a autoria em mente, passa-se a analisar as possibilidades do local de origem de Efésios e sua data. A declaração do autor da epístola de que estava preso (Ef 3.1; 4.1), levanta debates sobre o local e a data de sua composição. Carson, Moo e Morris (1997, p. 367-368) sugerindo três possíveis locais de origem — Roma, Cesareia e Éfeso —, considerando a provável conexão com Colossenses e Filemom, sendo a prisão domiciliar em Roma (At 28.16) a opção mais tradicional devido à liberdade de Paulo para receber visitas (Hoehner, 2023, p. 92), embora não haja consenso definitivo entre os estudiosos; quanto à datação, as hipóteses variam entre meados da década de 50 d.C. para Éfeso ou Cesareia (Köstenberger; Kellum; Quarles, 2022, p. 797) e 60-62 d.C. para Roma (Carson; Moo; Morris, 1997, p. 340), com a citação de Efésios por Clemente de Roma sugerindo uma data anterior a 96 d.C. (Hoehner, 2023, p. 6), reforçando a improbabilidade de uma origem deutero-paulina ou pseudoepígrafe e vinculando a carta a uma situação histórica do ministério de Paulo. Assim, este estudo acompanha a proposta de Carson, Moo e Morris (1997), que identificam Roma como o local mais provável de redação da carta, pois entende que seus argumentos são coerentes.
2.2 DESTINATÁRIOS E PROPÓSITO
A Epístola aos Efésios identifica seus destinatários como "santos que vivem em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus" (Ef 1:1b), mas a ausência do termo "em Éfeso" em alguns manuscritos antigos, conforme apontado por Kümmel (1982, p. 462), e o tom impessoal da carta, que contrasta com a relação pessoal de Paulo com os efésios (At 19:1-41; 20:17-38), levantam dúvidas sobre seu público-alvo, levando alguns a propor que seria uma carta circular sem destinatários específicos (Köstenberger; Kellum; Quarles, 2022, p. 798). Kümmel (1982, p. 464), no entanto, rejeita a ideia de um "template" para diferentes endereços por falta de paralelos na antiguidade, enquanto Carson, Moo e Morris (1997, p. 341) argumentam que os manuscritos, mesmo sem "em Éfeso", intitulam a carta como "Aos efésios", sugerindo um público definido. Essa tensão textual e contextual alimenta o debate sobre se a epístola foi escrita exclusivamente para Éfeso ou destinada a uma circulação mais ampla.
A hipótese de uma carta encíclica enfrenta objeções, mas também oferece explicações para as peculiaridades de Efésios. Carson, Moo e Morris (1997, p. 336) destacam a ausência de manuscritos indicando outros destinos e a falta de saudações genéricas, comuns em cartas amplas, enquanto Barth (apud Stott, 2007, p. 3) sugere que a epístola visava gentios ou novos convertidos em Éfeso, e Cho (2023, p. 28) propõe que, embora originalmente escrita para os efésios, a carta logo se tornou circular, refletindo um uso expandido. Hoehner (2023, p. 87) defende que o público-alvo incluía igrejas domésticas em Éfeso e na Ásia Menor, sustentando que as evidências internas e externas favorecem manter "em Éfeso" no texto. A ausência de uma ocasião específica, diferentemente de cartas como Romanos ou 1 Coríntios, sugere propósitos como combater divisões entre judeus e gentios (Carson; Moo; Morris, 1997, p. 343) ou responder à influência pagã em Éfeso, marcada pela adoração a Ártemis (Cho, 2023, p. 27-28; Reinke, 2019, p. 269), com Paulo buscando esclarecer a identidade cristã em um contexto hostil.
O caráter universal de Efésios, percebido desde o século I com a possível citação por Clemente de Roma (Hoehner, 2023, p. 2-3), sugere que, mesmo destinada originalmente a Éfeso, a epístola foi compartilhada com outras igrejas. Cho (2023, p. 28) argumenta que Paulo escreveu para orientar os crentes da Ásia Menor, imersos em uma cultura pagã, sobre o significado de serem igreja, povo de Deus e templo do Espírito Santo, um propósito que transcende o contexto local. Assim, as evidências textuais e históricas favorecem Éfeso como destino original, mas o uso precoce da carta em outros contextos aponta para sua relevância canônica.
2.3 UMA COMPREENSÃO DE EFÉSIOS 4:11-12 A PARTIR DA ANÁLISE HISTÓRICA DE EFÉSIOS
Passa-se a analisar algumas implicações das hipóteses apresentadas para uma interpretação inicial de Ef 4:11-12 a partir das questões históricas comentadas anteriormente. Em relação a autoria da carta, Efésios 4 inicia com uma declaração pessoal de Paulo, preso como resultado de sua obediência ao Senhor e de seu amor pelos crentes gentios (Ef 3:1-13): "Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados" (Ef 4:1). Assim, Paulo utiliza seu próprio exemplo para exortar os efésios a também viverem "de maneira digna da vocação a que foram chamados".
A opção pela hipótese do local e data de composição de Efésios impacta até certo ponto na leitura de Ef 4:11-12. Optando-se pela perspectiva que defende que Ef 3:1 e 4:1 referem-se a prisão de Paulo em Roma, os anos mais prováveis para escrita da carta seriam 60-62 d.C. Essa escolha consequentemente enfraquece a hipótese de que Ef 4:11-12 se trate originalmente de um texto pós-paulino, que teria como objetivo validar a hierarquia baseada na eclesiologia de um catolicismo primitivo, como alguns propõem (CARSON; MOO; MORRIS, 1997, p. 339).
Ef 4:11-12 poderia reforçar a hipótese de que a carta foi inicialmente destinada à igreja em Éfeso, que posteriormente e, ao longo dos anos, a compartilhou com outras comunidades locais. A linguagem do dom presente no texto para tratar do assunto da unidade da igreja também está presente em outros textos do corpus paulino que possuem um objetivo semelhante (1 Co 12:28; Rm 12:3-21). Embora o propósito específico das cartas seja distinto, as semelhanças nos argumentos sugerem que questões relativas à unidade eram uma preocupação central de Paulo em diversas igrejas gentílicas, bem como a questão dos χαρισμάτων e πνευματικά. Assim, os crentes em Éfeso, em algum momento, consideraram relevante compartilhar a epístola com outras igrejas, reconhecendo a autoridade paulina e a importância do tema, especialmente em seu contexto de encarceramento e sua subsequente morte. Somente a partir disso é que Ef 4:11-12 pode ter sido aplicado a ofícios típicos da igreja local, como argumentam os defensores de autoria pseudônima.
A relação do propósito abrangente de Ef com Ef 4:11-12 também deve ser compreendido a partir da unidade literária de 4:1-16. Considerando que objetivo de Paulo ao redigir a epístola foi instruir os crentes em Éfeso nos fundamentos da fé em Cristo e suas implicações, a exortação para "preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" pode ser entendida como uma necessidade de fortalecer a unidade entre cristãos judeus e cristãos gentios nessa região predominantemente gentílica (HOEHNER, p. 567). Nesse contexto, 4:11-12 faria parte da argumentação maior quanto a unidade da igreja em Ef 4:1-16, mas também estaria em concordância com o que fora exposto na carta como um todo acerca da união entre judeus e gentios em Cristo.
Assim, situando Ef 4:11-12 em seu contexto histórico, percebe-se como o texto incentivava a unidade entre judeus e gentios na igreja de Éfeso. As funções de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, descritas nesses versículos, poderiam refletir dons carismáticos concedidos por Cristo (sua recepção original) e funções/ministérios (no subsequente uso da carta circular) para edificar a igreja em um contexto desafiador. Alinhando-se ao propósito maior da epístola, essa lista de Ef 4:11 tinha em vista promover a unidade da igreja e seu crescimento em maturidade (Ef 4:12), embora a questão se essa lista se trate de dons carismáticos ou ofícios ainda seja motivo de controvérsia entre intérpretes, como passa a ser discutido na sequência.
3. ANÁLISE LITERÁRIA-CANÔNICA DE EFÉSIOS 4:11-12 COMO UM TODO
Esta seção aborda uma análise literária de Ef 4:11-12 como um todo, privilegiando o texto em sua forma final e em seu contexto canônico. Inicialmente, examina-se a estrutura literária de Efésios para uma melhor compreensão da epístola em geral. Em seguida, discute-se o impacto da estrutura da carta em uma leitura de Ef 4:11-12, mais especificamente. Por fim, serão exploradas as conexões de Ef 4:11-12 dentro do próprio corpus paulino, considerando seu contexto discursivo mais amplo, que é a Bíblia cristã como um todo.
3.1 ESTRUTURA LITERÁRIA DE EFÉSIOS E A LOCALIZAÇÃO ESTRATÉGICA DE EF 4:11-12
A estrutura de Efésios pode ser dividida em duas partes principais: doutrina (1-3) e deveres (4-6). Tradicionalmente esta divisão em duas partes da carta tem sido denominada de "indicativos" e "imperativos" (CHO, 2023, p. 34). Assim, a seção indicativa da carta visa expor verdades teológicas aos destinatários, enquanto a seção imperativa apresenta exortações decorrentes dessa exposição (KÖSTENBERGER; KELLUM; QUARLES, 2022, p. 802). Para Cho (2023, p. 33), essa estrutura possui um objetivo didático: inicia-se com aquilo que Deus fez em Cristo para o surgimento da igreja (1-3), somente após, trata-se de como a igreja deve agir em decorrência disso (4-6). Com base nessa divisão geral, é possível analisar de maneira mais pormenorizada a estrutura literária da carta e o desenvolvimento do fluxo do texto na epístola. A Epístola aos Efésios estrutura-se em duas partes principais: os capítulos 1 a 3, que apresentam verdades teológicas (indicativos), iniciando com um prólogo (1:1-2), seguido por um louvor a Deus pelos benefícios espirituais em Cristo (1:3-14), uma oração pela fé dos leitores (1:15-23), a exposição da conversão como passagem da morte à vida (2:1-10), a união de judeus e gentios em Cristo formando a igreja (2:11-22), o ministério de Paulo aos gentios (3:1-13) e uma oração final com doxologia (3:13-21); já os capítulos 4 a 6, com tom exortativo marcado por imperativos (Hoehner, 2023, p. 554), desenvolvem as implicações práticas dessas verdades, começando com a exortação à unidade (4:1-16), seguida por chamados à santidade (4:17-32), amor (5:1-6), sabedoria na vida doméstica e pública (5:15-6:9), e resistência espiritual (6:10-20), encerrando com uma conclusão (6:21-24).
Desta forma, Ef 4:11-12 está inserido diretamente na seção 4:1-16. A delimitação de 4:1-16 como a unidade literária em que 4:11-12 se encontra, baseia-se na repetição da palavra-chave "unidade" e seus cognatos em 4:3, 4:4, 4:5, 4:6, 4:13, de modo que o termo está presente oito vezes apenas nos versículos de 3 a 6 (CHO, 2023, p. 113). Hoehner intitula esta passagem como "andem em unidade", baseando-se na utilização do verbo περιπατέω, i.e, "andar", em 4:1, usado metaforicamente no sentido de "viver", que dá início a primeira exortação da seção imperativa da carta e se desenvolve até 4:16 (2023, p. 556). Assim, percebe-se que Ef 4:1-16 localiza-se na transição entre as seções indicativas e imperativas da carta, tendo como assunto a exortação à unidade da igreja.
Mais especificamente, Ef 4:1-16 inicia-se com a exortação a necessidade de preservar a unidade "do Espírito no vínculo da paz" (4:1-3). Esta unidade está baseada na obra trinitária de Deus na igreja (4:4-6). Para que a igreja cresça na unidade, o próprio Cristo concede de uma medida de sua graça para cada pessoa da igreja (4:7-10). Desta forma, ao que o fluxo do texto indica algumas pessoas e/ou grupos são concedidos por Cristo (v.11) com o objetivo de preparar os crentes para o crescimento em unidade (v.12), o que é ilustrado pelas metáforas da edificação arquitetônica e do crescimento do corpo humano (4:11-16).
3.2 EM DIREÇÃO A EF 4:11-12: EF 4:7-10 E SUA RELAÇÃO COM SALMO 68:18 (LXX 67:19)
A similaridade entre Ef 4:7-10 e Salmo 68:18 tem sido amplamente reconhecida. Considerando Ef 4:7-10, entre a afirmação do v.7 e a lista do v.11, que é de primário interesse neste artigo, há um texto intrusivo que faz alusão ao Salmo 68:18 nos v.8-10. No entanto, existem diferenças entre o Sl 68:18 no AT e a maneira como Paulo o menciona em Ef 4:8. Enquanto as traduções do Sl 68:18 no TM[4] e na LXX[5] estão geralmente de acordo, a citação de Ef 4:8 possui duas principais diferenças significativas em relação a sua contraparte na LXX:
Sl 68:18 (LXX 67:19): ἀναβὰς εἰς ὕψος ᾐχμαλώτευσας αἰχμαλωσίαν, ἔλαβες δόματα ἐν ἀνθρώποις, καὶ γὰρ ἀπειθοῦντας τοῦ κατασκηνῶσαι.
Ef 4:7-10: διὸ λέγει· Ἀναβὰς εἰς ὕψος ᾐχμαλώτευσεν αἰχμαλωσίαν, ἔδωκεν δόματα τοῖς ἀνθρώποις.
A primeira é a alteração da segunda pessoa do singular "você subiu" (ἀνέβης) na LXX para o particípio "subindo" (Ἀναβὰς). O sujeito de ἀνέβης é Deus. O sujeito de Ἀναβὰς é incerto, pois se trata de um particípio aoristo ativo – embora o sujeito de ἔδωκεν (que funciona como um correspondente direto de ἔλαβες) esteja claramente na terceira pessoa do aoristo singular e indique a Cristo. Daí, Ef 4:8 Paulo relacionar o sujeito da frase de Sl 68:18 com Cristo (Ἀνέβη, "ele subiu").
A segunda diferença é quem recebe os dons. Na LXX, quem recebe os dons é Deus da parte de homens ou entre homens (ἔλαβες δόματα ἐν ἀνθρώπῳ). Já em Ef 4:8, quem recebe os dons são os homens (ἔδωκεν δόματα τοῖς ἀνθρώποις). Os versículos subsequentes servem como uma interpretação cristológica da citação do versículo 8. Sendo assim, Paulo estaria aludindo a morte, ressurreição e ascensão de Cristo nos versículos 9-10, de modo que o Cristo triunfante, ao ser elevado após sua vitória sobre a morte, distribui dons para o seu povo.
Hoehner (2023, p. 587-588), sugere que as diferenças entre os Sl 68:18 e Ef 4:8 podem ser mais bem compreendidas ao considerar que Paulo não está fazendo uma citação direta de Sl 68:18 (daí a consideração acima como alusão), mas apresentando um resumo temático do salmo com um todo, aplicando-o a Cristo. O Salmo 68 apresenta Deus como um guerreiro vitorioso que recebe os despojos de suas vitórias. Já em Ef 4:8-10, Cristo é descrito neste papel de rei conquistador que, ao vencer a batalha, distribui dons ao seu povo. Desta forma, Paulo, com suas lentes cristológicas, faz uso do Salmo 68:18 para relacionar o Salmo com a obra de Cristo e a concessão de dons para a igreja.
O v.11 inicia com a conjunção καὶ, "e", estabelecendo a ligação com os versículos anteriores. A repetição do verbo ἔδωκεν, "concedeu", no v.11 pode ter como objetivo vincular a "concessão" (ἔδωκεν) do v.7 e a "concessão" do v.8 (ἔδωκεν) com a concessão dos dons/grupos citados no v. 11. Esta questão, porém, não define se os dons que Cristo concedeu (v.7) são exatamente as funções estabelecidas no v.11.
Ainda no v. 11, Paulo utiliza o termo enfático αὐτὸς do v.10 (traduzido como "ele mesmo"), estabelecendo uma continuidade de raciocínio, de modo que é possível afirmar que aquele que "desceu" e "subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas" (v. 10), Cristo (v. 7), é quem concede a lista de 4:11. A combinação dos termos χάρις, "graça", δίδωμι, "concedido" e δωρεά, "dons" em 4:7 é utilizada por Paulo em 3:2 e 3:7-9. Em 3:2 e 3:7-9 Paulo se refere a "graça" que lhe "concedeu" o "dom" de "anunciar o evangelho" aos gentios. A mesma combinação de termos em 4:7 pode sugerir que da mesma forma que Deus capacitou graciosamente Paulo para desempenhar seu ministério, também capacita "cada um" dos membros da igreja.
Neste sentido, em Ef 1:22 Deus também concedeu Cristo como dádiva à igreja. Hahn e Boor (2006, p. 86) apontam a relação verbal entre 4:11 e 1:22 no uso do verbo ἔδωκεν, i.e, "conceder", de modo que, em Ef 1:22, Cristo é concedido como cabeça da igreja, e, em 4:11, é ele quem concede dons/grupos para a igreja. Eles sugerem que essa relação intenta apresentar Cristo como "a dadiva (dom) principal" dada a igreja (1:22-23), de modo que o próprio Cristo que é "concedido" também concede pessoas ou dons ao seu povo (4:7-11).
No entanto, ainda que Ef 4:11 esteja em continuidade com 4:7-10, há uma mudança em relação ao que é declarado em 4:7. Enquanto em 4:7 a χάρις é concedido "a cada um", no v.11 Paulo não se refere apenas a concessão da graça, mas a concessão de dons/grupos com funções específicas, o que é evidenciado pelo uso de "uns" e "outros" no texto. Esse reconhecimento da continuidade entre Ef 4:7-10 e Ef 4:11-12 em relação ao uso paulino do Salmo 68:18 impactará a interpretação geral do texto de interesse, como será explorado na seção a seguir.
3.3 UMA LEITURA DE EF 4:11-12
Os primeiros dois grupos em Ef 4:11 são "apóstolos e profetas". O termo ἀποστόλους, "apóstolos", ocorre quatro vezes na carta (1:1; 2:20; 3:5; 4:11), a primeira em referência ao próprio Paulo, nas outras três em conjunto com os προφήτας, "profetas". Em 2:20, a igreja é edificada sobre o "fundamento dos apóstolos e profetas", já em 3:5, os apóstolos e profetas são aqueles que receberam a revelação do "mistério" da união de judeus e gentios em Cristo.
Sobre a ordem de aparição na lista, Thielman (2010, p. 273) sugere que apóstolos e profetas são citados juntamente, e nessa ordem, pelo fato de serem o "fundamento do novo povo multiétnico de Deus" (2:20) e que essa posição lhes cabe por seu papel em comunicar o evangelho aos gentios (3:5). Para ele, a proeminência dos "apóstolos" nessa lista se dá por sua conexão com o "Jesus histórico", e, em segundo lugar, os "profetas" por seu papel de revelação do mistério da união de gentios e judeus que teria um significado importante para a igreja de Éfeso.
O termo εὐαγγελιστής "evangelistas" aparece exclusivamente em Ef 4:11 no corpus paulino. Embora Cristo seja apresentado como a fonte do evangelho em 2:17, o uso técnico de εὐαγγελιστής aqui encontra correspondência apenas em At 21:8, referindo-se a Filipe, e em 2 Tm 4:5, onde Timóteo é exortado a cumprir essa função. O uso do termo ficará mais evidente quando for tratado mais adiante sobre a natureza desta lista em que εὐαγγελιστής faz parte, se refere-se a dons ou ofícios/ministérios.
Quanto aos "pastores e mestres", o texto grego apresentar um único artigo para se referir a eles, como τοὺς δὲ ποιμένας καὶ διδασκάλους. Essa questão tem gerado debate se o texto apresenta dois dons/funções ou um dom/função com dois aspectos (HOEHENER, 2023, p.604). Vaughan (1986, p. 110) afirma que pastores e mestres "constituem um só ofício com dupla função". Cho (2023, p. 122), nessa mesma perspectiva, sustenta que a sintaxe do texto sugere "algo como 'pastores-mestres', pessoas que atuam em uma área composta por duas funções". Calvino (1997, p. 122) reconhece que Crisóstomo e Agostinho interpretavam os dois grupos como um só, mas difere desta opinião, afirmando que ainda que o texto apresente pastores e mestres em conjunto, há diferença entre os ofícios. Hoehner (2023, p. 605), baseado em uma análise da estrutura gramatical do texto, sustenta que o primeiro substantivo é subconjunto do segundo, e afirma que, em vista disso, pode-se dizer que "todo pastor é mestre, mas nem todo mestre é pastor". A melhor conclusão em relação a isso é reconhecer a abertura do texto bíblico permitindo ao leitor a escolha entre duas possibilidades.
Em tempo, é necessário discutir se essa lista se refere a dons ou funções, embora as opiniões também divirjam quanto a qual é a natureza constitutiva da lista de Ef 4:11. Hoehner (2023, p. 599-601), argumenta que a construção gramatical do texto original se refere aos "dons" do v.8 e "visa destacar pessoas com dons claramente diferentes". Ainda na opinião de Hoehner, no v.11 ele diz de modo categórico que "não há dúvidas de que o texto não trata de ofícios". Já Arnold (2010, p. 255-256) argumenta que a lista do v.11 apresenta líderes da igreja (oficiais) que são capacitados com dons espirituais para desempenharem seus papéis. Para ele, a lista não intenta ser exaustiva, mas foca nos líderes que possuem um papel fundamental para o ensino da palavra de Deus na igreja local. A gramática do texto ainda mantém a discussão inconclusiva, onde cada intérprete oferece uma tendência, geralmente exclusiva uma da outra.
Lopes (2014, p.157-158) apresenta uma interpretação que se põe entre ambas as supracitadas, argumentando que Paulo não tem a intenção de descrever uma lista que seja apenas de dons, ou apenas de oficiais da igreja, mas uma "lista daqueles diferentes ministérios que Deus usa para abençoar seu povo". Segundo ele, as expressões de Ef 4:11 devem ser compreendidas como grupos de "ministérios" e, como grupos, não precisam estar concatenados em uma única categoria de dons ou oficiais da igreja onde cada ministério acumularia uma série de dons dentro deles.
Há, no entanto, uma interpretação alternativa às que foram citadas. Cohick (2020, p. 264-266), comparando o uso do substantivo δῶρον e sua relação com χάρις em Ef 4:7 com os outros textos de Ef, entende que há apenas um dom em vista em 4:7-11. Para ela, Paulo não está falando de dons espirituais nesta passagem, como ocorre em 1 Co 12-14, no uso dos termos χαρισμάτων, διακονιῶν e πνευματικά: em vez disso, seu foco está no δῶρον, isto é, no "dom da graça, evidenciado na nova composição da família de Deus, à medida que judeus e gentios são feitos um só em Cristo e agora crescem juntos em maturidade nesse novo corpo". Segundo essa perspectiva, o "dom singular" de Cristo é "equipar" os crentes para o serviço do ministério que é a edificação do corpo de Cristo em seu crescimento em unidade (4:12-16).
Aprofundando um pouco mais a comparação da linguagem paulina do "dom" em Ef e da linguagem usada para "dons espirituais" em 1 Co 12-14, é notório observar as diferenças entre ambos os textos. Enquanto em 1 Co 12-14 Paulo faz uso dos termos πνευματικά (1 Co 12:1; 14:1), χαρισμάτων (1 Co 12:4), ἐνεργήματα (1 Co 12:6) e διακονιῶν (1 Co 12:5) para se referir a diversidade das manifestações do Espírito na igreja, em Ef 4:7 o termo usado é δῶρον, que está relacionado ao "dom de Deus" em Cristo que, em outras palavras, é a salvação que gerou a igreja e sua unidade (Ef 2:8-10; 3:7;3:8). Um exemplo da diferença entre 1 Co 12-14 e Ef 4:7-16 é o uso do termo διακονίας. Em 1 Co 12:5, é utilizado um termo no genitivo plural, διακονιῶν, para se referir a variedade de serviços, enquanto em Ef 4:12, encontra-se διακονίας, genitivo singular, para se referir ao "serviço", que é a edificação do corpo de Cristo.
Em vista disso, é possível aferir que aquilo que a teologia moderna comumente generaliza como "dons", na verdade concentra em uma única palavra uma variedade de termos que se referem as manifestações do Espírito Santo, mas também a salvação e graça de Deus que opera na igreja. A partir da comparação de 1 Co 12-14 e Ef 4:7-12, observa-se que nenhum dos termos utilizados em 1 Co 12-14 encontra-se em Ef 4:7-12, mas sim um termo relacionado em toda carta de Ef com salvação que gerou a unidade da igreja. Deste modo, é possível sugerir que Paulo não estaria tratando de dons espirituais em Ef 4:11-12 como em 1 Co 12-14, em que o uso da linguagem do "dom" é mais abrangente do que apenas o tema dos "dons espirituais".
Deste modo, adiantando um pouco do que será discutido na próxima seção, a natureza constitutiva da lista é definida pelo "dom" que está centrado no ensino da verdade de Deus e de seu plano de salvação (Ef 4:13). Logo, os grupos citados em Ef 4:11 são dados por Cristo como "componentes do dom" que equipam toda a igreja para seu serviço (COHICK, 2020, p. 266). Cohick complementa: "o dom em si é composto de várias funções ou ofícios, incluindo apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres". De acordo com essa leitura, sugere-se que a ênfase do texto não recai sobre dons/ofícios individuais, mas sobre a capacitação para a unidade e maturidade da igreja como resultado do dom concedido por Cristo.
Assim, junto com Cohick, é possível sugerir que independente se a natureza constitutiva da lista de Ef 4:11, se "dons" ou "funções", e ainda que os grupos do texto sejam diferentes, em vez de referirem-se apenas a uma função geral de proclamador ou direção na igreja, toda lista estaria relacionada a proclamação e ensino da igreja como um todo. Essa interpretação utiliza a lógica inerente do parágrafo em que Ef 4:11-12 se insere sem isolar cada uma das expressões, entendendo-as a partir do assunto central subjacente ao texto bíblico, sem se perder em especificidades. Essa leitura inclusive, está alinhada com o propósito de 4:12 e ilumina o seu significado mais amplo. Notoriamente, 4:11 é compreendido melhor à luz do versículo seguinte que apresenta o objetivo, πρὸς, da concessão da lista em 4:11.
Em Efésios 4:12-16, o propósito dos ministérios é aperfeiçoar (τὸν καταρτισμὸν) os santos para o serviço (διακονίας) e a edificação (οἰκοδομὴν) do corpo de Cristo, usando metáforas de um edifício em construção e um corpo em crescimento, que remetem a 2:11-22, onde Cristo, como "pedra angular" e "cabeça", une judeus e gentios em uma "nova humanidade" (2:15) e edifica a igreja como um "santuário dedicado ao Senhor" (Hoehner, 2023, p. 613; Thielman, 2010, p. 280). A pontuação de 4:12 gera debate: a ACF sugere três propósitos distintos (aperfeiçoamento, ministério, edificação) centrados nos líderes, enquanto Stott (2007, p. 160) propõe dois objetivos — equipar todos os crentes para o serviço e edificar a igreja, indicando que todos participam da edificação, com o texto permitindo ambas as interpretações.
Tendo em vista todas as perspectivas apresentadas, é possível sugerir a função de Ef 4:11-12 em sua unidade literária. Em 4:11-12 Paulo apresenta como o Cristo vitorioso (4:8-10), segundo sua graça (4:7), concede os grupos de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestre para a edificação da igreja em unidade. Os grupos de pessoas relacionados a proclamação e ao ensino (4:11) são concedidos para equipar todos os crentes para o serviço. Assim, todos são vocacionados (4:1) e preparados para a edificação do corpo de Cristo (4:12). Através do serviço, cada membro da igreja contribui para o crescimento em unidade do corpo, para que, deixando a imaturidade, a igreja atinja a "estatura da plenitude de Cristo", edificando a si mesma em amor (4:13-16).
4. ANÁLISE TEOLÓGICA DE EF 4:11-12
Uma das discussões mais frequentes que gira em torno de Ef 4:11-12 é quanto a natureza da lista do v.11 e seu objetivo no v.12. Nessas leituras, discute-se majoritariamente se o texto trata de dons espirituais ou de funções ministeriais específicas e quais seriam seus propósitos. Entretanto, como foi brevemente abordado na seção anterior, há uma terceira via a ser considerada: a que será chamada aqui de "dom singular". A partir disto, esta seção abordará criticamente as três linhas interpretativas propostas, sugerindo implicações teológicas positivas e negativas para cada uma delas culminando na sugestão de que a terceira linha oferece uma melhor compreensão teológica sobre o texto para a contemporaneidade.
4.1 EF 4:11-12 COMO DONS ESPIRITUAIS
A interpretação de Efésios 4:11 como dons espirituais é defendida por diversos estudiosos, que enfatizam a diversidade de manifestações carismáticas concedidas por Deus para a edificação da igreja. Hoehner (2023, p. 600) argumenta que a lista de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres reflete "pessoas com dons" ilimitados, distintos de ofícios restritos. Carson (2013, p. 38) e Stott (2007, p. 114-116) concordam que o texto apresenta dons espirituais, mas divergem quanto à extensão do apostolado, com Carson limitando-o aos Doze e Paulo, e Stott propondo paralelos contemporâneos, como missionários.
Essa linha interpretativa possui implicações benéficas. Considerar 4:11 como dons espirituais e não ofícios/ministérios específicos, pode contribuir para mitigar uma noção equivocada de que os únicos responsáveis pela edificação da igreja são um grupo seleto de oficiais (HOEHNER, 2023, p. 613). Da mesma forma, uma comparação das chamadas "listas de dons" do NT, que considere Ef 4:11 entre elas, demonstra a grande variedade de dons espirituais, tendo em vista que nenhuma dessas listas é igual e nem intenta ser exaustiva (CARSON, 2013, p. 37). Sendo assim, há muitas formas diferentes de manifestações do Espírito para a edificação da igreja, que não se limitam aos "dons" de Ef 4:11, caso o texto seja considerado nessa categoria. Dessa forma, há uma ênfase na diversidade da igreja, e não na uniformidade, de modo que as formas de servir a igreja não se limitam a "cinco dons ministeriais" (STOTT, 2007, p. 111).
Entretanto, essa interpretação esbarra em algumas dificuldades. Em primeiro lugar, há a ausência em Ef 4:7-16 dos termos utilizados no corpus paulino para se referir aos dons espirituais, conforme abordado na seção anterior. Neste sentido, é notório observar que Stott (2007, p. 111) faz sua abordagem de dons espirituais em Ef 4:11 baseando-se em um termo emprestado de 1 Co 12-14, i. e., χαρίσματα. Essa abordagem também não explica a utilização do termo δῶρον, relacionado a salvação e constituição da igreja em outros textos de Ef e que é repetido em 4:7-8.
Em segundo lugar, a lista de Ef 4:11 não é descrita de maneira abstrata, como, por exemplo, "apostolado, profecia", como em outras listas (cf. 1Co 12.4-11; 28-29; Rm 12.6-8), mas de maneira pessoal, como "uns para apóstolos, outros para profetas[…]" (LOPES, 2014, p. 155). Essa formulação sugere que Paulo enfatiza pessoas específicas como dádivas de Cristo à igreja, em vez de qualidades carismáticas generalizadas. Tal abordagem pode implicar uma intenção de destacar papéis funcionais concretos voltados para a liderança e o ensino, desafiando a interpretação de dons espirituais amplamente distribuídos.
Em terceiro lugar, a leitura de dons espirituais em Ef 4:11 (principalmente relacionando a 1Co 12:28) pode incorrer na tentativa de definir uma hierarquia de dons espirituais, ou de "pessoas espirituais", na igreja, como se o "dom de apóstolo" fosse superior ao de "profeta" e assim por diante. Em vista dessas dificuldades, alguns sugerem uma interpretação alternativa do texto, que não considera que Ef 4:11 trate de dons espirituais, mas de ofícios/ministérios.
4.2 EF 4:11-12 COMO OFÍCIOS/MINISTÉRIOS
A interpretação de Efésios 4:11 como ofícios ou ministérios destaca que a lista de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres refere-se a pessoas concedidas por Cristo como dádivas à igreja, em vez de dons espirituais carismáticos. Osborne (2023, p. 133) argumenta que esses líderes são designados para equipar os membros na edificação do corpo de Cristo, enquanto Cho (2023, p. 121), apoiado por Snodgrass (citado por Lopes, 2014, p. 155), enfatiza que todos os membros da igreja constituem o "presente" coletivo de Cristo. Lopes (2014) sugere que esses ministérios, contextuais, visam a unidade e expansão da igreja, com possível descontinuidade na atualidade.
Essa interpretação possui implicações teológicas benéficas para a dinâmica da igreja. Ela desloca o foco do indivíduo para a coletividade da igreja, destacando que todo o corpo de Cristo é equipado para o ministério, não apenas aqueles que receberam dons espirituais específicos. Neste sentido, é notório observar que o próprio Paulo, mesmo sendo um apóstolo, se inclui na necessidade de seguir a verdade em unidade para o crescimento da igreja (Ef 4:15). Cho (2023, p. 126) destacando que as próprias pessoas são o presente dado por Cristo à igreja, sugere que isso implica que, no lugar de buscar dons espirituais para uma validação pessoal, a vida como um todo dos crentes em Cristo deve estar a serviço da igreja.
Outra implicação positiva dessa linha interpretativa é a valorização do ensino bíblico-teológico para a edificação da igreja. Neste sentido, a listagem de apóstolos e profetas, sendo eles citados em conjunto para remeter a junção do AT e NT, ou em referência aos Doze, Paulo e os profetas do NT (cf. Atos 13:1-2; HOEHNER, 2023, p. 442-443; CARSON, 2013, p. 93), em conjunto com os evangelistas, pastores e mestres, demonstram a centralidade da pregação do evangelho para o amadurecimento do corpo de Cristo. Essa centralidade da importância do ensino do evangelho para a união da igreja de judeus e gentios pode explicar o porquê que três das quatro citações de apóstolos e profetas em conjunto no NT se encontram em Ef, tendo em vista a preocupação de Paulo com esse tema na carta (1 Co 12:28; Ef 2:20; 3:5; 4:11). Assim, o correto ensino doutrinário é primordial para o amadurecimento da comunidade. Por fim, essa leitura se alinha com o argumento teológico amplo de Ef, que é a formação de um povo unificado por Cristo, que é edificado e amadurece, crescendo na verdade em amor.
Entretanto, alguns cuidados devem ser tomados em relação a esta linha interpretativa. Considerar Ef 4:11 como ofícios/ministérios pode acarretar na delimitação de "cinco ministérios" que são essenciais para todas as igrejas em todas as épocas, ou mesmo em uma noção ministerial que se limita a enquadrar todo membro da igreja em uma dessas "cinco categorias ministeriais" (CHO, 2023, p. 122). Da mesma forma, uma abordagem que não considere os contextos interpretativos deste texto pode gerar uma busca por uma estrutura hierárquica específica de igreja, o que parece não harmonizar com a perícope. Para Lopes (2014, p. 143), que fala a partir do contexto das igrejas brasileiras, Ef 4:11 é um dos principais textos para movimentos restauracionistas que interpretam que os ministérios listados são o modelo ideal da igreja e precisam estar em voga atualmente. Sendo assim, é crucial que essa interpretação seja equilibrada com uma leitura canônica das Escrituras.
4.3 EF 4:11-12 E O "DOM SINGULAR"
A terceira via interpretativa para Ef 4:11-12, distinta das leituras anteriores que enfocam os dons espirituais ou os ofícios/ministérios, é a do "dom singular", proposta por Cohick (2020, p. 255). Perspectiva esta em diálogo com aquela desenvolvida por Barclay em seu livro Paulo e Dom (2018) e com discussões recentes dos estudos paulinos. O "dom singular" refere-se à graça coletiva dada por Cristo para equipar a igreja na unidade e ensino da verdade, distinta de dons carismáticos ou ofícios fixos. Cohick (cf. 2020, p. 264-266) argumenta sobre a lista de Ef 4:11 que "essas funções formativas constituem o dom singular dado por Cristo", i.e., equipar os santos para o crescimento em unidade baseado na verdade (v.13-16). Em sua opinião, a preocupação de Paulo no texto não é oferecer uma estrutura específica de igreja, nem mesmo tratar a respeito dos carismas, mas seu foco está na disseminação de conhecimento correto acerca do evangelho, que promove unidade entre judeus e gentios na igreja. Desta forma, os cinco grupos de Ef 4:11 seriam componentes do "dom", que por sua vez "se concentra no ensino da verdade de Deus e do seu plano de salvação", e estão relacionados a composição multiétnica dessa "nova humanidade" (2:15).
Para aprofundar esta discussão, Barclay (2018), através de uma abordagem histórica e antropológica, sugere que as diferentes noções de "dom" podem afetar a interpretação da "linguagem do dom" em Paulo. Para ele o "dom" é o que molda a teologia da missão de Paulo, uma vez que "fundamenta a formação de comunidades inovadoras que cruzam fronteiras étnicas e outras" (2018, p. 15). Assim, ele aborda o "dom como domínio semântico" central para a compreensão da "soteriologia de Paulo, sua hermenêutica escritural, eclesiologia, ética e muito mais" (BARCLAY, 2021, p. 298-316). Dessa forma, a leitura de Cohick ressoa com a de Barclay, situando o "dom" como eixo central para a unidade de judeus e gentios na igreja.
Barclay sugere seis compreensões, que ele chama de "aperfeiçoamentos" do dom, que podem estar presentes na utilização do termo por determinado grupo: superabundância, prioridade, singularidade, eficácia, incoerência e não circularidade (BARCLAY, 2018, p. 67-78). Aqui se utiliza apenas os dois últimos desses "aperfeiçoamentos" para iluminar a presente análise de Ef 4:11-12: a "incongruência" do dom divino e a expectativa de reciprocidade, que se opõe a compreensão de "não circularidade".
Em primeiro lugar, a análise de Efésios 4:7-16 sob o conceito de "dom incongruente" desenvolvido (BARCLAY, 2018, 2021) entende o dom como a graça divina distribuída sem considerar o mérito do receptor. Em 4:7 (assim como em Ef 2:1-12) a terminologia χάρις e δῶρον utilizada em 2:8 se repete, agora para tratar a respeito da concessão da χάρις para cada crente individualmente dentro do contexto da "cooperação de cada parte" para a preservação da unidade (4:16). Desta forma, é possível sugerir, juntamente com Cohick (2020, p. 74; 265), que o propósito do "dom incongruente" em 4:7-16 é equipar os crentes para a preservação e amadurecimento dessa unidade entre judeus e gentios na igreja. Deste modo, a ênfase do texto não estaria em "dons" particulares, mas na composição multiétnica da igreja e a importância de sua unidade.
Os grupos de Ef 4:11 também podem ser compreendidos como presentes "incongruentes" da graça para a edificação do corpo de Cristo (4:12). É notório observar que os "apóstolos e profetas" citados em 4:11 também estão presentes em 2:20 e 3:5. Nos dois textos "apóstolos e profetas" estão relacionados a união de judeus e gentios na igreja. Cho (2023, p. 122) sugere que em 4:11 Paulo está apenas "mencionando pessoas que, no contexto do surgimento do povo escatológico de Deus, atuavam na unidade da igreja". Nessa perspectiva, os evangelistas, pastores e mestres, citados em conjunto com apóstolos e profetas, também são citados em prol do contexto da união de judeus e gentios na igreja, ou seja, pelo papel que desempenhavam na missão gentílica no estabelecimento do cristianismo no primeiro século (cf. Atos 8; 13:1-2). Decorrente disso, pode-se sugerir que os grupos de 4:11 são citados apenas por conta de seu contexto histórico, recaindo a ênfase do texto na participação de cada crente na edificação da igreja, não no estabelecimento dos cinco grupos específicos do v.11 para todas as épocas.
Algumas implicações decorrem dessa abordagem. A concessão da graça e os papéis desempenhados na igreja não podem ser considerados como fruto de mérito, mas como um "dom incongruente" (cf. CRISÓSTOMO 2010, p. 359). Da mesma forma que todos que compõe o corpo de Cristo são "salvos pela graça mediante a fé" (Ef 2:8), todos que contribuem para a edificação da igreja também o fazem mediante a graça concedida por Cristo, de modo que não há espaço para orgulho ou soberba. Assim, os grupos de Ef 4:11 são presentes da graça, não pessoas notórias que alcançaram por seus méritos posições de destaque na igreja.
Em segundo lugar, complementando a análise do "dom singular" em Efésios 4:7-16, passa-se a examinar o conceito de "não circularidade" (BARCLAY, 2018), que questiona a ideia de um dom divino sem expectativa de retorno. Por "não circularidade" ele se refere a compreensão de "dom puro", i.e., que é dado sem expectativa de retorno. Para ele, seria anacrônico interpretar esse aperfeiçoamento por Paulo, uma vez que "essa não era uma noção comum de dom perfeito na Antiguidade" (2018, p. 74). Desta forma, o dom divino possui uma expectativa de retorno, que é um relacionamento com Deus em Cristo (COHICK, 2020, p. 73). Essa perspectiva pode ser aplicada a Ef 4:7-16, principalmente ao v.12 que trata do objetivo da concessão da graça segundo o dom de Cristo. A partir desse entendimento, Cristo não distribui de forma desordenada e despretensiosa sua dádiva na igreja, mas faz isso com a expectativa da "edificação do corpo".
Decorrente disso, implica-se que há uma expectativa sobre cada crente, que é chamado (4:1) para contribuir com o "serviço" da "edificação" da igreja. Assim como os crentes são salvos por conta do "dom de Deus" que os leva a prática de "boas obras" (2:8-10), eles também são capacitados pela graça para o serviço (4:7;12). Logo, mais uma vez, a ênfase recai sobre a importância da "justa cooperação de cada parte", sem a qual a maturidade do corpo não pode ser alcançada (4:13).
Em semelhança das outras linhas interpretativas abordadas, algumas limitações também devem ser consideradas. Entende-se que pode haver a tendência de limitar as implicações do texto ao seu contexto histórico germinal, uma vez que as tensões entre judeus e gentios não são mais uma realidade no contexto majoritário das igrejas cristãs atuais. Ademais, uma leitura isolada do texto a partir dessa perspectiva também pode gerar uma desvalorização de vocações ministeriais específicas e o encargo de oficiais na igreja, como pastores, presbíteros etc. Em contrapartida, na tentativa de superar o contexto de origem do texto e recontextualizá-lo, pode haver também o risco de supervalorizar a unidade comunitária em diálogo com ideias marxistas, enfatizando comunidades eclesiais de base vinculadas à teologia da libertação, negligenciando o significado teológico do texto. Uma análise teológica robusta deve integrar os contextos histórico, literário e canônico para implicações equilibradas.
Finalmente, após as críticas às interpretações de Efésios 4:11-12 como dons espirituais, ofícios/ministérios e dom singular, sem prejuízo ao valor de cada abordagem, abre-se espaço para possibilidades interpretativas diversas: se dons, enfatizam a diversidade carismática; se ofícios, destacam funções contextuais; se dom singular, sublinham a graça coletiva para a unidade. Quando lido em seu contexto histórico e, principalmente, levando a sério o texto em si, a lista de Ef 4:11 ganha uma abrangência maior de interpretação, não tão restrita a dons carismáticos, nem tão aberta a estruturas hierárquicas fixas ou desvios ideológicos que reduzem o foco teológico. Assim, Ef 4:11-12, no contexto de Efésios 4, do livro como um todo e da Bíblia cristã, aponta para a realidade de uma igreja capacitada pela graça de Cristo para viver em unidade, maturidade e missão, onde todos os crentes, independentemente de papéis, e até mesmo dons, contribuem para a edificação do corpo de Cristo, refletindo a nova humanidade reconciliada com Deus e uns com os outros.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo objetivou responder: como ler Ef 4:11-12 bem e de que modo este texto pode continuar sendo relevante para o cristão hoje? Para tanto, as análises desenvolvidas ao longo deste artigo – a partir de uma análise dos contextos interpretativos histórico, literário e teológico – permitiram uma compreensão abrangente e bem fundamentada de Ef 4:11-12 e de suas possíveis implicações.
Em primeiro lugar, a análise histórica parte da sugestão de que Éfeso foi o destino original da carta e que ela tenha posteriormente alcançado circulação mais ampla entre diversas comunidades cristãs (CHO, 2023, p. 28). Lido a partir dessa perspectiva, Ef 4:11-12 reforça a hipótese de que Paulo estava preocupado em promover a unidade entre judeus e gentios em um contexto desafiador, apresentando os grupos mencionados no v.11 como responsáveis pelo ensino do evangelho que gerou e sustenta tal unidade (Ef 2:11-22; 4:1-16). A lista do v.11, sob perspectiva puramente da intenção do autor, poderia estar vinculada a dons espirituais carismáticos (tal como em 1 Co 12-14) e que, posteriormente, à medida que a carta aos Efésios se torna uma circular, a lista é reinterpretada como representando uma possível lista de oficiais ou funções básicas da igreja do primeiro para o segundo séculos.
Em segundo lugar, a leitura literária e canônica de Ef 4:11-12 evidenciou a posição estratégica do texto na epístola, dando destaque a centralidade do assunto da unidade na perícope na qual os v.11-12 se encontram (Ef 4:1-16). Compreendeu-se que a ênfase do texto recai na participação de todos os crentes no serviço da edificação da igreja (Ef 4:7-16), lançando luz assim ao propósito daqueles do v.11, que é equipar os crentes para esse serviço (Ef 4:12). Destacou-se que os termos δῶρον e χάρις, relacionados a obra de salvação em outros lugares de Efésios, se repetem em Ef 4:7-16, enquanto os termos que são frequentemente utilizados no corpus paulino para se referir aos "dons espirituais", como πνευματικά, χαρισμάτων e ἐνεργήματα, não estão presentes na perícope. Sugeriu-se a partir disso que o termo "dom" não se limita aos chamados "dons espirituais" e que a análise de vocabulário do texto solicita uma interpretação alternativa em relação àquelas tradicionalmente atribuídas a dons ou ofícios – sem qualquer prejuízo para estas visões, uma vez que a análise do contexto histórico, até certo ponto, dada as devidas proporções, atende ambas as interpretações.
Em terceiro lugar, a análise teológica de Ef 4:11-12, por sua vez, abordou criticamente as linhas interpretativas dos dons espirituais, ofícios ministeriais e do "dom singular" à luz das discussões histórica e literária-canônica. Ao abordar as implicações de cada linha interpretativa, proporcionou-se avaliá-las em seus próprios méritos. No entanto, enfatizou-se a perspectiva do "dom singular" pois ela sugere uma linguagem do dom, em que ela funciona como eixo principal para a compreensão do propósito do texto: demonstrar que Cristo equipa sua igreja para a edificação e amadurecimento em unidade e não se limita a isolar cada um dos elementos da lista do v.11.
A partir de toda esta análise, é possível sugerir que a principal implicação para as comunidades cristãs contemporâneas – independentemente se a linha interpretativa adotada seja de dons espirituais, ofícios ministeriais ou a do "dom singular" – é a valorização de cada membro na edificação e amadurecimento da igreja. Todos que estão em Cristo recebem da mesma χάρις concedida por ele (Ef 4:7) e são equipados para edificar a igreja em unidade.
Conclui-se, portanto, que a pergunta norteadora deste artigo foi satisfatoriamente respondida, ainda que não de maneira exaustiva dado as limitações do presente propósito. Este trabalho, no entanto, abre horizontes para uma futura pesquisa em que se poderá mapear a apropriação de Ef 4:11-12 em diferentes segmentos no decorrer da história da igreja, avaliando as diferentes perspectivas acerca da recepção deste texto. Também seria pertinente explorar a proposta do "dom singular" ainda mais em Efésios em relação com outros textos paulinos e suas possíveis implicações, já que Barclay deixou Efésios de lado em sua obra-prima (2018) e, por conseguinte, deixando espaço para futuras discussões sobre o dom em Efésios.
Notas
[1] Trabalho de conclusão de curso do Bacharelado em Teologia, na modalidade EAD, da FABAPAR. Orientador: Dr. Igor Pohl Baumann.
[2] Bacharelando em Teologia pela FABAPAR. Brasil. E-mail para contato: leovcjss@gmail.com
[3] Deuteropaulina é o termo utilizado para as cartas do NT que são tradicionalmente atribuídas ao apóstolo Paulo, mas cuja autoria é questionada ou considerada incerta por alguns estudiosos.
[4] A localização desse versículo no TM é Sl 68:19.
[5] Na LXX, a localização do versículo é 67:19.
Referências
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