Uma cruz, muitas imagens: os significados da morte de Jesus em Colossenses 2.13-15
Uma cruz, muitas imagens: os significados da morte de Jesus em Colossenses 2.13-15
Gabriel Ramos de Souza[1]
Resumo
Resumo: O propósito deste artigo é analisar as imagens sobre a morte de Jesus em Colossenses 2.13-15 a fim de exemplificar a multiplicidade de metáforas presentes em todo o Novo Testamento para se referir aos significados da morte de Cristo na cruz. A análise concentrou-se nas imagens do cancelamento do escrito de dívida e do triunfo sobre os poderes, visando a demonstrar a necessidade de integração entre as diferentes metáforas da paixão de Cristo para a elaboração de uma teoria da expiação coerente com a riqueza da obra de Cristo.
Palavras-chave: Morte de Jesus. Colossenses. Perdão. Triunfo. Teorias da expiação.
Abstract: The purpose of this article is to analyze the images about Jesus' death in Colossians 2.13-15 in order to exemplify the multiplicity of metaphors present throughout the New Testament to refer to the meanings of Christ's death on the cross. The analysis focused on the images of the cancellation of the debt writing and the triumph over the powers, aiming to demonstrate the need for integration between the different metaphors of Christ's passion for the elaboration of a theory of atonement coherent with the richness of the work of Christ.
Keywords: Jesus’ death. Colossians. Forgiveness. Triumph. Atonement theories.
Resumo: O propósito deste artigo é analisar as imagens sobre a morte de Jesus em Colossenses 2.13-15 a fim de exemplificar a multiplicidade de metáforas presentes em todo o Novo Testamento para se referir aos significados da morte de Cristo na cruz. A análise concentrou-se nas imagens do cancelamento do escrito de dívida e do triunfo sobre os poderes, visando a demonstrar a necessidade de integração entre as diferentes metáforas da paixão de Cristo para a elaboração de uma teoria da expiação coerente com a riqueza da obra de Cristo.
Palavras-chave: Morte de Jesus. Colossenses. Perdão. Triunfo. Teorias da expiação.
Abstract: The purpose of this article is to analyze the images about Jesus' death in Colossians 2.13-15 in order to exemplify the multiplicity of metaphors present throughout the New Testament to refer to the meanings of Christ's death on the cross. The analysis focused on the images of the cancellation of the debt writing and the triumph over the powers, aiming to demonstrate the need for integration between the different metaphors of Christ's passion for the elaboration of a theory of atonement coherent with the richness of the work of Christ.
Keywords: Jesus’ death. Colossians. Forgiveness. Triumph. Atonement theories.
Artigo
1. Introdução
A presente pesquisa insere-se na insere-se na interseção entre os estudos bíblicos e a teologia sistemática. Por um lado, este artigo acompanha a pesquisa sobre as múltiplas interpretações acerca da morte de Jesus difundidas no séc. I, principalmente aquelas encontradas no Novo Testamento. Por outro lado, o presente artigo busca contribuir para o campo de estudos dogmáticos em sua tarefa de elaboração de teorias da expiação. A grande temática em que este artigo localiza-se é a questão da interpretação da morte de Jesus para além de um evento histórico passado, mas como evento salvífico presente.
Desde o início da história do cristianismo a morte de Jesus foi interpretada a partir de seus efeitos ou benefícios para a humanidade. O objetivo deste artigo é analisar um parágrafo do Novo Testamento, especificamente do corpus paulino, a fim de compreender a linguagem e a interpretação dada à morte de Cristo pelo autor. A expectativa é que a análise forneça princípios para uma interpretação mais adequada de outras perícopes e parágrafos do Novo Testamento que apresentem um significado para a morte de Jesus, assim como para uma melhor interpretação e articulação entre as diversas teorias da expiação desenvolvidas ao longo da história do cristianismo.
Para alcançar este objetivo, a pesquisa será dividida em três partes. Na primeira parte, a ênfase será em reconhecer a variedade de imagens e metáforas utilizadas em todo o Novo Testamento para dar sentido salvífico à morte de Jesus. Essa multiplicidade de temas bíblicos revelam a riqueza e complexidade do evento e a necessidade de se reinterpretá-lo diante da crença dos primeiros cristãos na ressurreição de Jesus.
Na segunda parte, a pesquisa se dedicará na análise das imagens presentes na Carta aos Colossenses 2.13-15. Esse parágrafo destaca-se como relevante para a pesquisa por concentrar em poucas orações múltiplas imagens sobre a morte de Jesus, além de serem imagens que não se repetem no restante do Novo Testamento com a mesma linguagem. A primeira grande imagem a ser analisada será a do cancelamento do escrito de dívida, descrita no versículo 14, seguida da imagem do triunfo sobre os poderes, descrita no versículo 15.
Na terceira parte, objetiva-se refletir acerca da tarefa contemporânea de articulação de uma teoria da expiação a partir das contribuições extraídas da análise do parágrafo de Colossenses. Diante dessa multiplicidade de imagens e metáforas empregadas pelos autores bíblicos, especialmente o apóstolo Paulo, para explicar o significado soteriológico da cruz de Cristo, alguns princípios para a tarefa contemporânea podem ser discernidos.
Como observação metodológica, esta pesquisa realizará uma análise semântica das palavras mais importantes para a compreensão das imagens presentes em Colossenses 2.13-15. Quanto às citações realizadas durante a pesquisa, os textos que não possuem tradução para o português serão traduzidos livremente pelo próprio pesquisador e citados em português.[2]
2. A multiplicidade de imagens e metáforas sobre a morte de Jesus no Novo Testamento.
A morte de Jesus, reinterpretada à luz de sua ressurreição, é o ponto central da mensagem apostólica. A importância deste evento para a igreja primitiva pode ser percebida pelo lugar que a morte de Cristo ocupa em todo o Novo Testamento. Nas cartas de Paulo, a cruz e a morte de Jesus possuem relevância máxima para a sua mensagem. Nos Evangelhos, a seção presente em todos eles são o testemunho da paixão de Jesus, que conclui a narrativa. Em Atos, os sermões dos apóstolos sempre culminam na morte e ressurreição de Jesus. Em Hebreus, a morte de Jesus é interpretada à luz da imagem do sacrifício. Em Apocalipse, o Cordeiro, uma imagem para Jesus, aparece a João como um ser que parecia ter estado morto e com seu sangue redimiu uma nova humanidade para Deus.[3]
Entretanto, além da mera alusão à morte de Jesus, os autores do Novo Testamento dedicaram-se a interpretar o significado da cruz à luz de toda a Escritura Hebraica e da história de Israel. Esse significado também foi descrito em termos salvíficos e de benefícios para a humanidade em seu relacionamento com Deus. Para isso, diversas imagens e metáforas foram utilizadas pelos autores neotestamentários a fim de expressar, diante da complexidade do evento, a relevância salvadora da morte do Messias.
Essas muitas imagens não visavam a descrever o fenômeno físico da crucificação nem o procedimento de crucifixão romana, que inclusive carece de descrições detalhadas no Novo Testamento excetuando os evangelhos. Antes, tais metáforas e imagens buscavam expressar a “experiência do poder salvífico de Deus” através da morte de Jesus. A essa experiência salvífica através da morte de Cristo denomina-se expiação.[4]
Acerca disso afirma o teólogo Joel B. Green, comentando sobre a interpretação do significado da morte de Cristo nas cartas paulinas:
Assim como a morte de Jesus está na base da teologia paulina, também parece que Paulo nunca se cansa de acrescentar novas imagens a seu vocabulário interpretativo para explicar seu significado. É verdade que Paulo se preocupa muito mais em explicar o significado da morte de Cristo que com suas circunstâncias históricas, e que ele comunica esse significado acima de tudo em termos de seus benefícios para a humanidade.[5]
Não somente há uma variedade de imagens e metáforas no corpus paulino para interpretar a morte de Jesus, como também essas imagens são utilizadas de forma combinada e interconectada. Em muitos textos, como é o caso do parágrafo a ser analisado neste artigo, uma explicação paulina sobre o efeito salvífico da morte de Cristo “mistura, em um espaço muito curto, uma variedade de imagens profundamente sugestivas e ricas.” Esta justaposição de metáforas aponta para a realidade de que nenhuma imagem sozinha consegue exaurir o significado da morte de Jesus.[6]
Assim defende a pastora episcopal Fleming Rutledge:
O Antigo e o Novo Testamento nos oferecem diversas imagens – extraídas de diversas fontes – que resultam em um reservatório caleidoscópico e inesgotavelmente rico a partir do qual depreendemos significado e sustentação para todas as épocas e gerações. Isoladamente, uma única imagem não pode fazer justiça ao todo; todas elas são parte do grande drama da salvação.[7]
A variedade e a complexidade das imagens aplicadas à morte de Cristo em todo o relato bíblico são tamanhas, que não há consenso ao identificar e agrupar tais imagens. Ao longo da história da interpretação da crucificação, diversos autores identificaram as imagens bíblicas da crucificação de formas diferentes. Joel Green e Mark Baker resumem a linguagem utilizada no Novo Testamento sobre o significado da morte de Jesus em cinco grandes constelações de imagens oriundas da vida pública no mundo mediterrâneo antigo: o tribunal de justiça (justificação), o mundo do comércio (redenção), relacionamentos pessoais (reconciliação), culto (sacrifício) e campo de batalha (triunfo sobre o mal). John Stott, em seu clássico A Cruz de Cristo, também identifica essas imagens para a morte de Cristo.[8][9]
Fleming Rutledge, por outro lado, divide as imagens bíblicas em oito grupos: páscoa e êxodo, sacrifício de sangue, resgate e redenção, grande veredito, guerra apocalíptica (Christus Victor), descida ao inferno, substituição e recapitulação. Entretanto, a autora reconhece a existência de outros temas bíblicos para a morte de Jesus, apesar de não abordá-los em sua obra. A autora também agrupa essas oito imagens em duas categorias gerais: expiação pelos pecados e libertação dos Poderes.[10]
Por sua vez, o missionário e teólogo John Driver identificou dez motifs extraídos das imagens sobre a morte de Jesus ao longo do Novo Testamento: conflito/vitória/libertação; sofrimento vicário; arquétipo (homem representativo); martírio; sacrifício; expiação/ira de Deus; redenção; reconciliação; justificação; adoção.[11]
Independentemente do número de imagens bíblicas identificadas como interpretações da morte de Jesus, o fato é que o querigma apostólico, em especial a mensagem da salvação através da morte do Messias, é um tema complexo e multifacetado, apesar de ser uma mensagem unificada pela pessoa de Jesus Cristo. Justamente por sua natureza rica e complexa que Rutledge adverte que “a forma mais verdadeira de recebermos o evangelho do Cristo crucificado é cultivando uma profunda apreciação da forma que os temas bíblicos interagem e expandem uns aos outros.”[12]
Para uma compreensão maior da importância para Paulo da morte de Jesus como evento a ser interpretado soteriologicamente, segue abaixo uma lista de textos paulinos que carregam uma imagem sobre a morte de Cristo e seu efeito salvífico. Essa coletânea de textos foi adaptada de uma lista do teólogo pentecostal Gordon Fee.
1Ts 1.10; 5.9-10
1Co 5.7; 6.20; 7.22-23; 11.24-26; 15.2-4
2Co 5.14-15, 18-19, 21
Gl 1.3-4; 3.13-14; 4.4-5; 5.1
Rm 3.24-25; 4.24-25; 5.6-18; 6.3-6; 8.3; 14.9
Cl 1.12-14, 19-22; 2.13-15
Ef 1.7; 2.14-16; 5.2, 25-27
1Tm 1.15; 2.5-6
Tt 2.13-14; 3.4-7
2Tm 1.9-10[13]
É notável a quantidade de menções à morte de Jesus não somente como um acontecimento histórico, mas como um evento que carrega significado escatológico e soteriológico para a humanidade. Analisar o corpus paulino, em especial os textos mencionados acima, é uma tarefa imprescindível para a compreensão do significado da morte de Jesus para a igreja cristã do primeiro século.
3. Análise das imagens sobre a morte de Jesus em Colossenses 2.13-15
Após a exposição da multiplicidade de imagens bíblicas sobre o significado da morte de Jesus, a presente pesquisa dará ênfase ao parágrafo de Colossenses 2.13-15. Esse trecho da Carta de Paulo aos Colossenses demonstra como os efeitos da morte de Jesus são explicados com múltiplas linguagens pelos autores neotestamentários. Segue abaixo o texto de Colossenses 2.13-15 em grego, segundo a 28ª edição do Novum Testamentum Graece, e em português por tradução própria.[14][15]
A delimitação desse parágrafo é justificada pela mudança do sujeito “vocês” nos versículos 11-12 para o sujeito “ele” no versículo 13b. Apesar dessa mudança, o conectivo καὶ, a descrição da condição humana antes da nova vida em Cristo como sendo de “incircuncisão da carne” e a ação de vivificação, que pode ser entendida como paralela à ressurreição, demonstram a continuação do tema presente nos versículos anteriores que mencionam a circuncisão espiritual recebida em Cristo e a ressurreição experimentada com ele.[16]
Portanto, apesar de ser um novo parágrafo no texto, há uma continuidade com o tema maior iniciado nos versículos 6 e 7, com a advertência feita no versículo 8 e com os argumentos presentes nos versículos 9-12 que fundamentam a advertência anterior. O propósito dos versículos 13-15 parece ser o de explicar como a participação na morte e ressurreição de Jesus promove a reconciliação com Deus de forma completa, demonstrando a suficiência de Cristo em contraste com o ensinamento falso colossense contra o qual Paulo está argumentando nesta carta. Para isso, o apóstolo Paulo recorre a imagens que descrevem o significado da morte de Jesus na cruz e como essa morte concedeu vida àqueles que se encontravam “mortos em suas transgressões e na incircuncisão da sua carne”.[17]
A análise dos versículos 13-15 tem como objetivo compreender as imagens sobre a morte de Jesus presentes neste parágrafo e os seus significados. Para alcançar esse objetivo, cinco perguntas podem ser feitas nesta análise exegética:
O que significa o termo χειρόγραφον neste contexto?
Qual é o significado do termo δόγμασιν neste parágrafo? Qual é a relação do termo χειρόγραφον com δόγμασιν?
O que representa os termos τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας na teologia paulina?
Qual é o significado dos verbos ἀπεκδυσάμενος, ἐδειγμάτισεν e θριαμβεύσας? Qual é a relação entre eles no versículo 15?
Qual é a relação entre a imagem do cancelamento do escrito de dívida e a do triunfo sobre os principados e potestades?
A primeira dificuldade encontrada diante dessas perguntas é a escassa ocorrência de alguns desses termos no corpus paulino ou até mesmo em todo o Novo Testamento. É o caso da palavra χειρόγραφον, que não ocorre em nenhum outro trecho do Novo Testamento; a palavra δόγμασιν, que aparece dessa forma somente em Efésios 2.15, além do trecho analisado; o verbo ἀπεκδυσάμενος, que ocorre novamente em Colossenses 3.9 apenas; o verbo ἐδειγμάτισεν, que não possui nenhuma outra ocorrência no corpus paulino, aparecendo novamente no Novo Testamento apenas em Mateus 1.19; e o verbo θριαμβεύσας, que ocorre novamente apenas em 2 Coríntios 2.14.
Essa escassez de ocorrências no Novo Testamento de algumas das expressões utilizadas por Paulo para descrever o significado da morte de Jesus neste parágrafo levou alguns comentaristas a supor que o apóstolo estaria citando uma tradição ou utilizando o vocabulário de fórmulas tradicionais. Entretanto, essa teoria não pode ser provada, já que não há registro da fonte na qual Paulo teria consultado, restringindo-a apenas ao campo da suposição. Por isso, não será dada atenção a essa teoria neste artigo.
3.1 A imagem do cancelamento do escrito de dívida
O primeiro vocábulo a ser analisado é o termo χειρόγραφον, que pode ser definido em seu campo semântico como um documento escrito a mão, um título de dívida, um certificado de dívida, uma promissória. Segundo Douglas Moo, em seu comentário à Carta aos Colossenses, a palavra χειρόγραφον carrega o sentido básico de certificado de dívida ou confissão de dívida, ou seja, “um documento que registra as dívidas que alguém é obrigado a pagar”. Esse sentido básico pode ser conferido em outros textos antigos, como é o caso do Testamento de Jó 11.11 e Tobias 5.3 e 9.2,5. O teólogo bíblico G. K. Beale também identifica esse mesmo sentido para a palavra em papiros antigos, no judaísmo helenístico contemporâneo a Paulo e em escritos clássicos e helenísticos, trazendo a ideia de uma confissão escrita de dívida, comumente escrita pela pessoa devedora.[18][19][20][21]
Entretanto, o significado específico deste termo no contexto utilizado por Paulo em referência aos efeitos da morte de Jesus é debatido entre múltiplas opções. Douglas Moo elenca três opções principais para definir o uso específico da palavra χειρόγραφον por Paulo. A primeira opção é a ideia de que esse certificado de dívida seja uma referência a “um documento “assinado” por Adão (e/ou por todos os seres humanos) e mantido sobre nós por Satanás”. A segunda opção é a perspectiva que liga este termo ao conceito judaico apocalíptico de um manuscrito que registra “as obras humanas trazidas à tona como um fundamento para o julgamento na corte celestial”. A terceira opção aponta para uma referência à lei mosaica, que seria “um registro da obrigação do ser humano que não foi cumprida”.[22][23][24]
Köstenberger, Wellum e Quarles definem o termo χειρόγραφον como uma referência a um costume romano de fixar na cruz um escrito que listava os crimes cometidos pela vítima de crucificação. Porém, para Paulo, esse escrito não listava os crimes de Jesus, mas sim os pecados dos transgressores. N. T. Wright também faz menção a essa possível referência ao citar o escrito de acusação pregado na cruz de Jesus por ordem de Pôncio Pilatos (Mateus 27.37; João 19.19).[25][26]
Entretanto, para definir melhor o sentido da palavra χειρόγραφον, faz-se necessário também analisar a palavra δόγμασιν. O substantivo δόγμασιν, cuja forma básica é δόγμα, pode ser traduzido por edito, lei, ordem, decisão, decreto; mandamento, ordenança, requisito. Segundo Douglas Moo, o sentido genérico atribuído a essa palavra na Septuaginta e no Novo Testamento é em referência a decretos feitos por reis. Mas, assim como no caso da palavra χειρόγραφον, seu sentido específico neste verso é debatido por diferentes intérpretes e comentaristas.[27][28][29]
A primeira hipótese é a de que o termo faz referência às ordenanças impostas pelos falsos mestres em Colossos. Essa hipótese é defendida com base na ocorrência do verbo δογματίζω em Colossenses 2.20 onde possui o significado mencionado acima. A segunda hipótese, defendida por alguns pais apostólicos gregos, é de que o termo δόγμασιν diz respeito aos ensinamentos do evangelho. De acordo com essa hipótese, a relação entre o cancelamento do escrito de dívida e os ensinamentos é instrumental, ou seja, a tradução do verso seria “cancelando o escrito de dívida por meio dos ensinamentos [do evangelho]”.[30][31]
A terceira hipótese identifica as ordenanças como sendo os mandamentos da lei mosaica ou até mesmo as ordenanças de Deus destinadas a toda humanidade, sejam presentes na lei de Moisés ou na revelação geral. Segundo esta hipótese, a relação entre o escrito de dívida e as ordenanças seria de explicação ou de definição, ou seja, a tradução seria algo semelhante a “cancelando o escrito de dívida, que consistia em ordenanças”.[32]
Há ainda uma quarta hipótese que segue o mesmo significado para a palavra δόγμασιν da hipótese anterior, porém defende que a relação entre o escrito de dívida e as ordenanças deve ser entendida como causal. Ou seja, o motivo pelo qual o escrito de dívida é contrário à humanidade seriam as ordenanças que foram desobedecidas. Seguindo essa percepção, a tradução poderia ser “cancelando o escrito de dívida, contrário a nós por causa das ordenanças”. G. K. Beale reconhece como possiblidade gramatical tanto o dativo de conteúdo (“que consistia de”), quanto o dativo de causa (“por causa de”). Beale também interpreta as “ordenanças”, como uma referência às ordenanças da lei do Antigo Testamento, principalmente as leis alimentares, baseado em Colossenses 2.20 e Efésios 2.15. [33][34]
Analisando toda a expressão χειρόγραφον τοῖς δόγμασιν, N. T. Wright também defende que τοῖς δόγμασιν faz referência aos mandamentos da lei mosaica como fundamento de acusação para o escrito de dívida. De acordo com Wright, a Lei Judaica era contrária aos judeus, por causa de sua desobediência à Lei, que os submetia à maldição de Deuteronômio 26-32. Assim como também era contrária aos gentios, já que as exigências da Lei e sua idolatria mantinham-nos afastados do povo da aliança. Portanto, ao cancelar o escrito de dívida, baseado nas exigências da lei mosaica, tanto judeus são libertos da maldição imposta pela Torá, quanto gentios são recebidos como membros da família de Deus.[35][36]
F. F. Bruce também atesta essa condenação dupla, judeus e gentios, já que ambos desobedeceram à vontade de Deus da forma como tiveram acesso e conheciam. Os judeus desobedeceram à vontade de Deus expressa na Lei e os gentios desobedeceram à vontade de Deus impressa em sua voz interior de consciência.[37]
Beale também atesta a interpretação de Wright, reconhecendo que o “certificado de dívida” condenava tanto judeus quanto gentios. Por isso Paulo teria usado os pronomes ἡμῶν/ἡμῖν indicando que toda a humanidade havia violado as leis de Deus. Sua interpretação pode ser resumida no seguinte parágrafo.
A lei de Deus condenou os judeus, que haviam assumido um compromisso com Deus de obedecer à sua lei, mas violaram (Dt 27.9-26; 30.15-20). Os gentios também eram culpados porque violaram os mandamentos morais da lei, que seriam conhecidos por meio da sua consciência (cf. Rm 2.14-15). Na verdade, Israel era uma figura adâmica coletiva que representava toda a humanidade na sua obrigação de obedecer a Deus. Assim, toda a humanidade precisava de perdão por violar a lei divina.[38]
Seguindo essa mesma interpretação, Lucien Cerfaux identifica no termo χειρόγραφον τοῖς δόγμασιν uma referência à Lei, aos mandamentos da Antiga Aliança, que teriam sido anulados na cruz de Cristo. Como o autor afirma: “Os preceitos da Lei, que não eram observados, sublinhavam nossos pecados e tornavam-se nosso ato de acusação. Cristo o anula.”[39]
Darrell Bock resume o sentido do parágrafo interpretando o escrito de dívida e as ordenanças também de acordo com essa última hipótese. “Assim, Deus “vivific[a]” ao perdoar o pecador, cancelando o débito do pecado revelado por meio dos requerimentos da lei e derrotando os que se opõem à humanidade por intermédio de Cristo e da cruz (2.13-15).”[40]
3.2 A imagem do triunfo sobre os poderes
O substantivo ἀρχὰς, cuja forma básica é ἀρχή, possui um amplo campo semântico. Porém, pode ser traduzido de forma adequada para o contexto deste parágrafo como autoridade, principado, potestade, poder; líder, autoridade, oficial, príncipe; referência a anjos e demônios. O substantivo ἐξουσίας, cuja forma básica é ἐξουσία, assim como o substantivo ἀρχή, também possui um campo semântico amplo. Dependendo do contexto, o termo pode ser traduzido por capacidade, direito; autoridade, poder; autoridade política; soberanias, autoridades espirituais, angélicas; poderes cósmicos acima e além da esfera humana, mas não separados dela.[41][42][43][44]
D. G. Reid define de forma mais detalhada o sentido de “autoridades e poderes” nas cartas paulinas. Segundo o autor essa expressão possui diferentes ênfases de acordo com a carta e o seu contexto, porém, no caso de Colossenses, a expressão é utilizada para indicar duas características principais: os poderes são criados por intermédio de Cristo (Colossenses 1.15-16; 2.10) e são inimigos de Deus, Cristo e seu povo (2.15). Para Reid, o apocalipticismo gestado no judaísmo sectário do século I a.C., expresso principalmente pela Regra da Guerra de Qumran, fornece o pano de fundo necessário para compreender a linguagem paulina sobre “as autoridades e os poderes”.[45]
Reid defende que, influenciado pela perspectiva apocalíptica de um conflito cósmico escatológico, porém o ressignificando à luz do evento Cristo, Paulo interpreta que os verdadeiros inimigos do povo de Deus não são os gentios, nem o Império Romano em si, mas “os poderes espirituais que estavam à espreita por trás das faces humanas das autoridades e dos impérios deste mundo.” Essa visão de mundo teria sido reforçada e fundamentada no Antigo Testamento, a partir de textos como Deuteronômio 32.8-9,17; Daniel 7.2-8; 10.13,20-21. Nesse sentido, “as autoridades e os poderes” seriam descritos como poderes cósmicos hostis do universo que exerciam autoridade e domínio neste mundo presente.[46]
Expandindo essa definição, N. T. Wright associa a expressão τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας, presente em Colossenses 1.16,18 e 2.10,15, com a expressão τὰ στοιχεῖα τοῦ κόσμου, que ocorre em Colossenses 2.8,20. Ao associar as duas expressões, Wright define o significado de ambos como sendo “hipotéticos deuses tutores de diferentes nações”. Nessa perspectiva, “os governantes e as autoridades” seriam poderes espirituais que exerciam domínio sobre as nações através de suas estruturas religiosas, políticas, sociais e culturais, mantendo-as escravas do pecado e da idolatria, e assim impedindo os gentios de fazerem parte do povo de Deus.[47]
Comentando sobre Colossenses 3.15, Wright reafirma sua definição para “poderes e autoridades”:
Quando Paulo fala sobre “poderes e autoridades”, ele se refere tanto aos poderes visíveis como Herodes, César, governadores e sacerdotes quanto aos poderes “invisíveis”, aqueles sombrios que apoiam e operam através dos visíveis. Quando o corpo de Jesus foi retirado da cruz, Paulo creu que esses “poderes e autoridades” haviam sido destituídos, envergonhados e derrotados.[48]
Douglas Moo também argumenta em seu comentário que, apesar do termo τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας poder se referir nas cartas de Paulo aos seres espirituais como um todo, bons e maus, em Colossenses 2.15, à semelhança de 1.20, o sentido mais coerente com o contexto e o argumento de Paulo é o de seres espirituais maus. Provavelmente, os falsos mestres presentes na igreja de Colossos questionavam a suficiência de Cristo para livrar os seres humanos do poder e da influência destes seres espirituais. O argumento de Paulo na carta é que Cristo é soberano sobre tais poderes espirituais e essa soberania é exposta principalmente na cruz.[49][50]
O teólogo bíblico George Eldon Ladd também define esses poderes como seres espirituais e sobrenaturais maus, que se opõem ao Reino de Deus, mas que foram subordinados a Cristo através de sua morte e ressurreição e serão destruídos na vinda do reino messiânico.[51]
O verbo ἀπεκδυσάμενος, cuja forma básica é ἀπεκδύομαι, pode ser traduzido por abandonar, despojar-se, desfazer-se: de algo; desarmar, despojar: alguém. A partir de seu sentido geral, alguns intérpretes buscaram definir o sentido específico deste verbo em Colossenses 2.15. Cada uma das hipóteses de significado específico para ἀπεκδυσάμενος depende do entendimento de qual é o sentido, o sujeito e o objeto do verbo neste contexto. Uma das hipóteses compreende que o sentido do verbo é reflexivo, devido à voz média, que Cristo é o sujeito do verbo e os principados e as potestades são o objeto do verbo. Segundo essa hipótese, Cristo teria se despido dos principados e potestades, pressupondo que Jesus, por ocasião de sua natureza humana, sofria influência destes. Na cruz, Jesus venceu os poderes do mal a começar libertando-se da influência deles.[52][53]
Outra hipótese, que também admite o sentido reflexivo para o verbo e Cristo como sujeito do verbo, defende o objeto do verbo como sendo a carne, em semelhança ao verso 11 em que aparece um substantivo cognato do verbo ἀπεκδύομαι. Nesse sentido, os principados e potestades são interpretados como objeto do verbo ἐδειγμάτισεν. Segundo essa hipótese, a tradução seria semelhante a “[Cristo] despindo-se da carne, fez dos principados e potestades um espetáculo público”.[54]
Uma terceira hipótese adota o sentido ativo para o verbo, interpretando que Deus é o sujeito do verbo e utilizando-o num sentido metafórico de tirar o poder ou desarmar. Essa interpretação é coerente com o uso desse verbo e seu substantivo cognato em Colossenses 3.9 e 2.11, onde o sentido da palavra é metafórica e também indica a ideia de tirar o poder. As duas hipóteses anteriores podem ser objetadas porque exigiriam uma troca repentina de sujeito no parágrafo, de Deus para Cristo, sem nenhuma indicação clara dessa mudança. Seguindo essa última hipótese, a tradução poderia ser “despojando os principados e potestades de seu poder”. Ladd e Wright também entendem que, neste caso, o verbo possui significado ativo, interpretando o sentido da expressão como um despojar de armas ou de poder.[55][56]
Essa também é a interpretação defendida por Lucien Cerfaux em seu clássico Cristo na Teologia de Paulo. O autor comenta o versículo 15 da seguinte forma:
A subordinação das potestades a Cristo é fruto da vitória que ele alcança pela morte, paralela a que ele obtém sobre a Lei. Despoja as potestades e os principados (de seu poder sobre o mundo) e expõe-nos publicamente à derrisão, levando sobre eles pleno triunfo na cruz (Cl 2.15).[57]
O verbo ἐδειγμάτισεν, cuja forma básica é δειγματίζω, pode ser traduzido por denunciar publicamente, expor à ignomínia: alguém; expor, desgraçar, infamar. Seu significado específico no parágrafo analisado acompanha seu sentido básico, já que o contexto reforça a ideia de uma exposição pública e vergonhosa da derrota dos poderes, despojados de suas armas e conduzidos cativos pelo Cristo vitorioso, como será analisado a diante.[58][59]
O verbo θριαμβεύσας, cuja forma básica é θριαμβεύω, pode ser traduzido por triunfo: de, sobre alguém; fazer participar do triunfo: alguém; liderar uma procissão triunfal; fazer triunfar ou exibir em uma procissão pública. Segundo Moo, este verbo faz alusão ao costume romano de recompensar generais vitoriosos com uma procissão triunfal, em que o general era seguido pelos prisioneiros conquistados na campanha concluída Essa alusão à prática romana também é atestada por outros comentaristas, como Wright e Beale. D. G. Reid amplia a interpretação ao afirmar que o verbo θριαμβεύσας, na verdade, não somente faz uma referência à marcha triunfal romana, mas também referência “o arquétipo judaico do guerreiro divino que derrota os inimigos.”[60][61][62][63][64][65]
O teólogo bíblico Frank Thielman também atesta tanto essa interpretação do verbo θριαμβεύσας quanto a percepção do verbo ἀπεκδυσάμενος como “despojar o poder” ao descrever o sentido do versículo 15. “Jesus também é superior a eles porque mediante sua morte sobre a cruz, ele os despiu de seus poderes malignos, como soldados capturados e despidos de suas armas e os guia da mesma forma que um general vitorioso conduz soldados vencidos à sua execução (2.15).”[66]
3.3 A relação entre as imagens do cancelamento e triunfo
Como conclusão da análise das imagens presentes em Colossenses 2.13-15, pode-se afirmar que a imagem do cancelamento do escrito de dívida elucida e descreve de forma poética o sentido do perdão dos pecados. Não somente a condenação imposta pela maldição da lei, por causa da transgressão da mesma, foi cancelada, mas também a escravidão aos poderes malignos foi abolida. Os principados e potestades foram desarmados e derrotados publicamente para que aqueles que pertencem ao reino de Deus não mais se submetam à Lei, instrumento de escravidão à antiga era má, imposta por esses poderes espirituais.
N. T. Wright atesta essa relação entre as imagens ao conectar o parágrafo analisado com toda a narrativa do Antigo Testamento, especialmente com o tema da idolatria e do Êxodo. Para o erudito do Novo Testamento, a relação entre perdão e triunfo pode ser explicada pela compreensão de que os “poderes” detinham as nações cativas por meio da idolatria e do pecado. Na visão de Wright, a humanidade possui a vocação de adorar a Deus e governar sobre o mundo criado. Porém, ao se entregar à idolatria, o ser humano é corrompido pelo pecado e entrega seu poder aos ídolos, que dominam, escravizam e destroem a humanidade e o mundo. Porém, “quando os pecados são perdoados, os ídolos perdem seu poder.” Em outras palavras: “Quando Jesus foi crucificado, os “principados” perderam seu poder, porque o pecado havia sido derrotado e os pecadores perdoados.”[67][68]
G. K. Beale compartilha de uma visão semelhante com relação à conexão entre o perdão e o triunfo de Cristo na cruz. Em seu comentário, o teólogo bíblico afirma que “A ligação específica entre os versículos 14 e 15 talvez seja que o “despir” desses poderes malignos, “cuja posse da acusação condenatória” mantinha as pessoas sob seu domínio, é o que destruiu seu domínio cruel sobre aqueles que creram”. Em Colossenses 1.13-14, Paulo já teria indicado certa relação entre a libertação dos poderes das trevas e a remissão dos pecados, mas em 2.13-15 essa relação torna-se mais clara.[69]
Beale resume, à luz de Efésios 2.1-3, a essência da vitória de Cristo na cruz, de acordo com Colossenses 2.13-15.
Os pecados dos crentes foram perdoados por meio da fraqueza da cruz, que derrotou o controle poderoso das forças diabólicas sobre sua antiga vida de incredulidade e “despiu” os inimigos satânicos do seu poder sobre os redimidos. [...] Esse poder satânico sobre as pessoas por causa do domínio do pecado sobre elas foi destruído por meio do perdão na cruz.[70]
Diante dessa relação entre as imagens, é possível compreender melhor a função retórica deste parágrafo na argumentação de Paulo. Douglas Moo resume bem o argumento do parágrafo analisado e sua importância retórica diante do falso ensino colossense, principal motivação de escrita da carta. Moo reconstrói o pano de fundo da carta da seguinte forma:
Podemos imaginar os falsos mestres em Colossos, alimentando um medo difundido na Antiguidade de vários espíritos celestiais, insistindo que os cristãos precisavam seguir seus próprios procedimentos orientados por regras para conseguir se libertar do poder desses espíritos. Paulo, em resposta a isso, insiste que Deus, ao enviar Cristo para a cruz como o meio final e definitivo para cuidar do problema do pecado, removeu qualquer poder que esses espíritos malignos possam ter sobre nós. Essa vitória, celebrada e exposta na ressurreição e ascensão de Cristo, é o que os cristãos precisam para tomá-la como deles mesmos. A autoridade de Cristo sobre os poderes e as autoridades (v. 10) tem sido manifestada de forma decisiva; e os cristãos, “nele”, compartilham essa autoridade.[71]
Na mesma linha de Moo, Reid também reconstrói o contexto do século I e a resposta paulina da seguinte forma:
Embora desempenhassem esse papel na narrativa paulina de Cristo, os poderes também eram reconhecidos como poderes cósmicos hostis do universo, que enchiam de medo os corações de muita gente no mundo romano do tempo de Paulo. Quer associados à magia, quer aos mistérios ou à astrologia, a religião popular do mundo mediterrâneo do século I imaginava o cosmos assombrado por espíritos nos céus, na terra e debaixo dela. Paulo abordou a situação anunciando que os poderes das trevas foram derrotados por Cristo na cruz. Embora seu poder ainda fosse real e potente, eles não deviam ser temidos pelos “em Cristo” (Rm 8,37-39).[72]
Tanto Moo quanto Reid demonstram que o uso de um vocabulário inédito por Paulo é coerente diante da necessidade retórica de responder ao falso ensino propagado em Colossos. A resposta de Paulo é contundente em reafirmar a suficiência de Cristo para a reconciliação dos crentes a Deus. Em Cristo, a acusação da lei é cancelada, a escravidão aos poderes é abolida e a vida da nova criação começa no presente.
4. Contribuições para a elaboração de uma teoria da expiação
A análise das imagens de Colossenses 2.13-15 exemplifica a complexidade da tarefa da elaboração de uma teoria da expiação. Em apenas três versículos, o apóstolo Paulo utilizou duas grandes imagens, conectadas e carregadas de referências do contexto judaico e greco-romano, para enfatizar alguns aspectos do significado da morte de Jesus para os crentes colossenses. A partir desta análise, podem ser extraídas algumas contribuições para a construção de uma teoria da expiação fiel às interpretações bíblicas sobre a morte de Cristo.
Em primeiro lugar, deve-se reconhecer o caráter circunstancial das cartas neotestamentárias e o contexto de escrita de cada uma delas. A análise do parágrafo colossense deixou claro que o uso das imagens do escrito de dívida e dos principados e potestades possuíam importância retórica diante do falso ensinamento difundido na igreja de Colossos. Portanto, é importante ressaltar que o uso das imagens e metáforas feitas por Paulo e pelos demais autores neotestamentários não visava a construir uma teoria unificada, que privilegia um aspecto da morte de Jesus em relação ao outro, mas buscava responder ao contexto do cristianismo primitivo, aplicando a obra de Cristo de forma adequada às necessidades das igrejas do século I d.C.[73]
Como conclui Joel B. Green, “esse fato tem sérias ramificações para a contínua missão intercultural da Igreja, pois sugere que, ao destacar o significado da crucifixão de Jesus, os intérpretes precisam buscar continuamente metáforas que falem de modo específico à cultura e/ou à circunstância.”[74]
Em segundo lugar, deve-se interpretar adequadamente a linguagem utilizada pelos autores bíblicos, especialmente no caso das metáforas ou linguagem figurada a fim de evitar distorções feitas por uma leitura literalista. A clássica obra de G. B. Caird sobre o uso da linguagem e das imagens na Bíblia estabelece seis sinais de que o autor bíblico não pretendia ser lido de maneira literal, mas sim metafórica. Dois destes sinais são proeminentes no parágrafo analisado neste artigo: justaposição de imagens e originalidade.[75]
Em Colossenses 2.13-15, o apóstolo Paulo utiliza múltiplas imagens para descrever o significado e os efeitos da morte de Jesus, justapondo uma imagem a outra. Além disso, o apóstolo também apresenta originalidade no uso das imagens do cancelamento do escrito de dívida e da procissão triunfal com os principados e potestades cativos. Essa originalidade é demonstrada pela baixíssima ocorrência de muitas palavras desse parágrafo em outros textos do Novo Testamento. Algumas dessas palavras ocorrem novamente apenas no corpus paulino ou nem mesmo possuem outra ocorrência na Escritura, como é o caso da palavra χειρόγραφον.
James D. G. Dunn também ressalta a variedade e o caráter metafórico de cada uma das imagens utilizadas pelo apóstolo Paulo, incluindo as de Colossenses 2.13-15. Dunn deixa claro que a metáfora era a linguagem adequada para expressar o significado complexo da morte de Cristo, e que não é correto traduzi-la de forma literal para alcançar seu sentido real. Além disso, Dunn sublinha a facilidade com que Paulo reúne mais de uma metáfora em um mesmo parágrafo ou carta. Isso aponta para o fato de que nenhuma imagem sozinha é capaz de esgotar o significado completo da morte de Jesus, nem mesmo pode ser eleita como a imagem normativa e soberana sobre as demais. Essa última observação de James Dunn conduz à terceira colaboração para a construção de uma teoria da expiação.[76]
Em terceiro lugar, deve-se compreender que uma única teoria da expiação não é suficiente para explicar a totalidade do significado da morte de Jesus para a reconciliação do ser humano a Deus. Se os próprios autores bíblicos, como Paulo em Colossenses, articularam múltiplas metáforas para representar o efeito salvífico da morte de Cristo, faz-se necessário que a teologia contemporânea também articule as múltiplas teorias a fim de cumprir a tarefa de comunicar fielmente a mensagem da cruz nos dias atuais. Entretanto, a questão da natureza dessa articulação permanece em aberto.
O estudioso do Novo Testamento Scot McKnight aponta para a dificuldade de combinar todas essas imagens bíblicas de uma forma integrada, sem hierarquia e sem excluir nenhuma delas. A tendência simplista ao desenvolver uma teoria da expiação é eleger uma imagem específica e torcer todas as outras a fim de se submeter a esta. Porém, McKnight chama atenção para o fato de que a própria ideia de expiação é uma metáfora para a descrição dos “atos de Deus para resolver o pecado e restaurar os seres humanos em seu relacionamento com Deus, consigo mesmo, com os outros, e com o mundo.”[77][78]
A pastora episcopal Fleming Rutledge também chama atenção para essa realidade. “Todavia, nunca podemos perder de vista o fato de que a própria cruz é uma metáfora. O propósito de metáforas e imagens usadas no Novo Testamento é nos ajudar a compreender o acontecimento histórico – e, acima de tudo, responder a ele.” Por isso, uma teoria da expiação precisa estar atenta às imagens e metáforas bíblicas que expressam a forma como Deus resolve o problema do pecado e restaura os relacionamentos humanos, a fim de articulá-las de forma fiel e equilibrada.[79]
O teólogo alemão Wolfhart Pannenberg também comenta acerca do desafio de articular essa multiplicidade de interpretações sobre o significado da morte de Jesus no Novo Testamento.
A diversidade das interpretações neotestamentárias da morte de Jesus é um indício para as especiais dificuldades da compreensão que desde o início estavam implícitas nesse tema. No entanto, também nesse caso a força de expressão das diversas interpretações deve ser medida pelo recurso ao próprio evento interpretado e medida nele. Somente assim é possível alcançar um juízo fundamentado a respeito do direito objetivo diferenciado das diferentes interpretações.[80]
Pannenberg reconhece a variedade de interpretações neotestamentárias sobre a morte de Jesus, mas defende que estas não devem ser avaliadas como iguais em importância. Segundo o teólogo alemão, o critério para avaliação de cada um dessas interpretações não deve ser a ocorrência no cristianismo primitivo, nem sua antiguidade, nem mesmo sua origem veterotestamentária, mas o critério principal deve ser a singularidade do evento da morte de Jesus. Independente do critério a ser utilizado, Pannenberg expressa de forma clara que a tarefa de sistematização da doutrina da expiação, que o autor prefere chamar de doutrina da reconciliação, exige o arranjo das diferentes interpretações neotestamentárias sobre a morte de Jesus reconhecendo diferente peso para cada uma delas.
Ao longo da história do cristianismo, diversas teorias da expiação foram desenvolvidas a fim de sistematizar essa pluralidade de metáforas e imagens bíblicas e articular esses múltiplos temas. Algumas dessas teorias, por sua semelhança entre si são agrupadas em paradigmas maiores. Essa foi uma das grandes contribuições de Gustaf Aulén em sua obra clássica sobre expiação chamada Christus Victor, na qual o autor revisa a história da interpretação da morte de Jesus dividindo-a em três grandes paradigmas: o paradigma clássico ou dramático, o paradigma objetivo ou latino e o paradigma subjetivo ou humanista. Aulén identifica as teorias da expiação desenvolvidas desde a Patrística até período de escrita de seu livro em cada um desses paradigmas. A teoria do resgate, de alguns pais da Igreja, seria um exemplo do paradigma clássico, enquanto a teoria da satisfação, de Anselmo de Cantuária, pertenceria ao paradigma objetivo. Já a teoria da influência moral, de Pedro Abelardo, seria classificada dentro do paradigma subjetivo.[81]
Joel B. Green sintetiza a interpretação de cada uma dessas teorias em seu verbete sobre a morte de Cristo.
Por outro lado, depois de séculos de debate, agora é difícil ler Paulo sem a superposição de uma ou mais das chamadas teorias clássicas da reparação — em especial a “teoria dramática”, que descreve a obra salvífica de Cristo como drama cósmico de conflito e vitória; a “teoria da satisfação”, que apresenta a cruz de Cristo como o meio pelo qual a barreira entre Deus e a humanidade é removida, de modo que, pela morte de Cristo, é dada “satisfação” a Deus; ou a “teoria da influência moral”, que se concentra na cruz como demonstração à humanidade do amor infinito de Deus que deve servir de exemplo.[82]
Cada uma dessas teorias enfatiza um dos efeitos da morte de Jesus e privilegia alguns temas bíblicos em detrimento de outros. O desafio é integrar cada uma dessas teorias, reconhecendo as imagens bíblicas que lhe deram origem, e articulá-las a fim de aproximar-se de uma compreensão mais completa da morte de Jesus.
O teólogo Joshua M. McNall propõe que a melhor metáfora para descrever essa integração entre as diversas teorias da expiação que foram articuladas ao longo da história do cristianismo é a metáfora do mosaico. O autor utiliza essa metáfora como uma via média entre dois extremos: o reducionismo e o relativismo. O reducionismo, também chamado de hierarquia defensiva, é a posição que defende uma teoria da expiação como a mais importante, estabelecendo assim uma hierarquia em que os demais modelos de expiação se submetem àquele que é definido como sendo central. Já o relativismo, também chamado de pluralidade desconectada, é a perspectiva que defende que os temas bíblicos sobre a expiação se apresentam de forma variada e sem nenhuma necessidade de arranjo ou ordenação. Um exemplo dessa perspectiva é o modelo caleidoscópio da expiação, defendido por Joel Green.[83][84][85][86]
Para McNall, a visão caleidoscópia da expiação acerta em descrever a variedade de imagens presentes na Escritura para descrever a obra de Cristo, mas erra ao dizer que a Escritura não dá razões para relacionar as diferentes imagens e os diferentes modelos de expiação de uma forma particular. A fim de ilustrar sua proposta de arranjo e reintegração entre os diferentes modelos de expiação, McNall utiliza a metáfora do mosaico. McNall divide os modelos da expiação em quatro principais, que são identificados, em sua metáfora, como partes do mosaico de uma imagem de Jesus.[87]
O modelo da recapitulação, cuja origem remonta ao pai da igreja Irineu, representaria os pés de Jesus, o fundamento para os outros modelos. No tema da recapitulação, Jesus se identifica como o Segundo Adão, que representa toda a humanidade. Porém, em contraste com Adão, por meio da fidelidade e obediência de Jesus a graça de Deus foi manifesta aos homens. Já o modelo da substituição penal, ou julgamento vicário, seria simbolizado pelo coração de Jesus. Segundo este modelo, Jesus, como o novo e verdadeiro Adão, representa e substitui a humanidade ao receber a penalidade pelo pecado em seu lugar.
O modelo do Christus Victor seria representado pela cabeça coroada de Jesus no mosaico, já que, para McNall, o triunfo de Cristo sobre os poderes do mal é o telos, o propósito da expiação. A vitória, a glorificação e a exaltação de Jesus é a finalidade última de sua obra salvífica e o meio para essa vitória é sua obra substitutiva. Em contraste com muitas articulações atuais entre os dois últimos modelos, McNall diz que não se deve escolher pelo modelo Christus Victor ou substituição penal, nem simplesmente Christus Victor e substituição penal, colocando-os lado a lado. Mas sim reconhecer que a vitória de Cristo vem através da substituição penal: Christus Victor através da substituição penal.[88]
Por último, o modelo da influência moral é identificado pelas mãos de Jesus que agem através da igreja no mundo ainda não restaurado. Segundo esse modelo, a morte de Jesus é a maior demonstração do amor de Deus pelo mundo, sendo o exemplo de como a igreja deve agir neste mundo caído, participando da transformação que Deus está promovendo no mundo através de um amor sacrificial e gracioso.
Essa metáfora do mosaico e esse arranjo entre as teorias da expiação, apesar de não ser exaustivo nem isento de simplificações, é uma possibilidade de articulação entre as diversas teorias da expiação. O princípio fundamental a ser defendido é de que as diferentes teorias da expiação, derivadas das diferentes imagens e metáforas bíblicas para a morte de Jesus, não estão em uma relação de oposição excludente nem de justaposição independente, mas sim em uma relação complexa, conectada, que se ajustam e modificam mutuamente e compõem a riqueza da obra de Cristo pela humanidade.
Considerações finais
A pesquisa demonstrou-se frutífera, atingindo seu objetivo principal de compreender as imagens sobre a morte de Jesus presentes em Colossenses 2.13-15. A principal dificuldade encontrada durante a pesquisa é a baixa ocorrência de muitas das palavras analisadas no parágrafo. Entretanto, o contexto de escrita da carta e o fluxo argumentativo do autor ajudam a elucidar o sentido dos termos principais.
As perguntas realizadas ao parágrafo foram respondidas, embora não haja consenso em todos os detalhes de cada resposta. Em primeiro lugar, concluiu-se que a expressão χειρόγραφον τοῖς δόγμασιν representa um escrito de dívida contrário à humanidade, tanto judeus quanto gentios, por causa da desobediência à vontade de Deus, expressa pelas ordenanças da lei, mas também reveladas à consciência humana. Portanto, o seu cancelamento é uma forma metafórica de explicar o perdão dos pecados garantido pela morte de Jesus.
Em segundo lugar, concluiu-se que os termos τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας representam, para Paulo, de maneira geral, seres espirituais maus em oposição ao reino de Deus e hostis à humanidade. Estes seres escravizam através da lei, do pecado e da morte aqueles que pertencem ao reino das trevas. Entretanto, em sua morte e ressurreição, Cristo derrota estes poderes, despojando-os de suas armas contra a humanidade, expondo-os à vergonha pública ao conduzi-los cativos como em uma procissão triunfal.
Em terceiro lugar, concluiu-se que as duas imagens podem ser relacionadas, já que a vitória de Cristo sobre as autoridades e poderes ocorre na medida em que sua morte os desarma dos instrumentos utilizados por eles para escravizar o ser humano, a saber, a lei e o pecado que os acusavam. Ao cancelar o escrito de dívida, o poder destes seres espirituais sobre a humanidade é retirado. Nesse sentido, o cancelamento da dívida é o fundamento para a libertação dos poderes.
Toda essa análise destacou três contribuições principais para o exercício teológico de elaboração de teorias a respeito do mecanismo da salvação por meio da cruz. Concluiu-se que a tarefa teológica demanda análise detalhada das imagens bíblicas sobre a morte de Jesus levando em consideração seu caráter circunstancial, metafórico e múltiplo. Além disso, diante dessa multiplicidade de imagens bíblicas e pluralidade de teorias desenvolvidas ao longo da história do cristianismo, é importante buscar uma integração entre as teorias da expiação visando a contemplar a riqueza e complexidade da obra de Cristo, já que cada teoria aponta para um efeito da morte de Jesus representado por alguma imagem bíblica.
Portanto, esta pesquisa abre horizonte para a análise de outros textos bíblicos que apresentem imagens da morte de Jesus que possam auxiliar na integração dessas múltiplas teorias. Por situar-se na interseção entre os estudos bíblicos e teológicos, também abre caminho para pesquisa histórica das principais teorias da expiação e análise dos textos bíblicos elencados como base de seus argumentos.
Em suma, a presente pesquisa demonstrou que a multiplicidade de imagens sobre o significado da morte de Jesus pode ser percebida mesmo em um pequeno parágrafo das cartas paulinas. Portanto, faz-se necessário uma análise mais profunda e detalhada de cada imagem atribuída à morte de Jesus em todo o Novo Testamento a fim de definir a importância de cada uma delas para a compreensão teológica do cristianismo primitivo e para uma adequada sistematização e aplicação da doutrina da expiação para a igreja e sociedade contemporâneas.
1. Introdução
A presente pesquisa insere-se na insere-se na interseção entre os estudos bíblicos e a teologia sistemática. Por um lado, este artigo acompanha a pesquisa sobre as múltiplas interpretações acerca da morte de Jesus difundidas no séc. I, principalmente aquelas encontradas no Novo Testamento. Por outro lado, o presente artigo busca contribuir para o campo de estudos dogmáticos em sua tarefa de elaboração de teorias da expiação. A grande temática em que este artigo localiza-se é a questão da interpretação da morte de Jesus para além de um evento histórico passado, mas como evento salvífico presente.
Desde o início da história do cristianismo a morte de Jesus foi interpretada a partir de seus efeitos ou benefícios para a humanidade. O objetivo deste artigo é analisar um parágrafo do Novo Testamento, especificamente do corpus paulino, a fim de compreender a linguagem e a interpretação dada à morte de Cristo pelo autor. A expectativa é que a análise forneça princípios para uma interpretação mais adequada de outras perícopes e parágrafos do Novo Testamento que apresentem um significado para a morte de Jesus, assim como para uma melhor interpretação e articulação entre as diversas teorias da expiação desenvolvidas ao longo da história do cristianismo.
Para alcançar este objetivo, a pesquisa será dividida em três partes. Na primeira parte, a ênfase será em reconhecer a variedade de imagens e metáforas utilizadas em todo o Novo Testamento para dar sentido salvífico à morte de Jesus. Essa multiplicidade de temas bíblicos revelam a riqueza e complexidade do evento e a necessidade de se reinterpretá-lo diante da crença dos primeiros cristãos na ressurreição de Jesus.
Na segunda parte, a pesquisa se dedicará na análise das imagens presentes na Carta aos Colossenses 2.13-15. Esse parágrafo destaca-se como relevante para a pesquisa por concentrar em poucas orações múltiplas imagens sobre a morte de Jesus, além de serem imagens que não se repetem no restante do Novo Testamento com a mesma linguagem. A primeira grande imagem a ser analisada será a do cancelamento do escrito de dívida, descrita no versículo 14, seguida da imagem do triunfo sobre os poderes, descrita no versículo 15.
Na terceira parte, objetiva-se refletir acerca da tarefa contemporânea de articulação de uma teoria da expiação a partir das contribuições extraídas da análise do parágrafo de Colossenses. Diante dessa multiplicidade de imagens e metáforas empregadas pelos autores bíblicos, especialmente o apóstolo Paulo, para explicar o significado soteriológico da cruz de Cristo, alguns princípios para a tarefa contemporânea podem ser discernidos.
Como observação metodológica, esta pesquisa realizará uma análise semântica das palavras mais importantes para a compreensão das imagens presentes em Colossenses 2.13-15. Quanto às citações realizadas durante a pesquisa, os textos que não possuem tradução para o português serão traduzidos livremente pelo próprio pesquisador e citados em português.[2]
2. A multiplicidade de imagens e metáforas sobre a morte de Jesus no Novo Testamento.
A morte de Jesus, reinterpretada à luz de sua ressurreição, é o ponto central da mensagem apostólica. A importância deste evento para a igreja primitiva pode ser percebida pelo lugar que a morte de Cristo ocupa em todo o Novo Testamento. Nas cartas de Paulo, a cruz e a morte de Jesus possuem relevância máxima para a sua mensagem. Nos Evangelhos, a seção presente em todos eles são o testemunho da paixão de Jesus, que conclui a narrativa. Em Atos, os sermões dos apóstolos sempre culminam na morte e ressurreição de Jesus. Em Hebreus, a morte de Jesus é interpretada à luz da imagem do sacrifício. Em Apocalipse, o Cordeiro, uma imagem para Jesus, aparece a João como um ser que parecia ter estado morto e com seu sangue redimiu uma nova humanidade para Deus.[3]
Entretanto, além da mera alusão à morte de Jesus, os autores do Novo Testamento dedicaram-se a interpretar o significado da cruz à luz de toda a Escritura Hebraica e da história de Israel. Esse significado também foi descrito em termos salvíficos e de benefícios para a humanidade em seu relacionamento com Deus. Para isso, diversas imagens e metáforas foram utilizadas pelos autores neotestamentários a fim de expressar, diante da complexidade do evento, a relevância salvadora da morte do Messias.
Essas muitas imagens não visavam a descrever o fenômeno físico da crucificação nem o procedimento de crucifixão romana, que inclusive carece de descrições detalhadas no Novo Testamento excetuando os evangelhos. Antes, tais metáforas e imagens buscavam expressar a “experiência do poder salvífico de Deus” através da morte de Jesus. A essa experiência salvífica através da morte de Cristo denomina-se expiação.[4]
Acerca disso afirma o teólogo Joel B. Green, comentando sobre a interpretação do significado da morte de Cristo nas cartas paulinas:
Assim como a morte de Jesus está na base da teologia paulina, também parece que Paulo nunca se cansa de acrescentar novas imagens a seu vocabulário interpretativo para explicar seu significado. É verdade que Paulo se preocupa muito mais em explicar o significado da morte de Cristo que com suas circunstâncias históricas, e que ele comunica esse significado acima de tudo em termos de seus benefícios para a humanidade.[5]
Não somente há uma variedade de imagens e metáforas no corpus paulino para interpretar a morte de Jesus, como também essas imagens são utilizadas de forma combinada e interconectada. Em muitos textos, como é o caso do parágrafo a ser analisado neste artigo, uma explicação paulina sobre o efeito salvífico da morte de Cristo “mistura, em um espaço muito curto, uma variedade de imagens profundamente sugestivas e ricas.” Esta justaposição de metáforas aponta para a realidade de que nenhuma imagem sozinha consegue exaurir o significado da morte de Jesus.[6]
Assim defende a pastora episcopal Fleming Rutledge:
O Antigo e o Novo Testamento nos oferecem diversas imagens – extraídas de diversas fontes – que resultam em um reservatório caleidoscópico e inesgotavelmente rico a partir do qual depreendemos significado e sustentação para todas as épocas e gerações. Isoladamente, uma única imagem não pode fazer justiça ao todo; todas elas são parte do grande drama da salvação.[7]
A variedade e a complexidade das imagens aplicadas à morte de Cristo em todo o relato bíblico são tamanhas, que não há consenso ao identificar e agrupar tais imagens. Ao longo da história da interpretação da crucificação, diversos autores identificaram as imagens bíblicas da crucificação de formas diferentes. Joel Green e Mark Baker resumem a linguagem utilizada no Novo Testamento sobre o significado da morte de Jesus em cinco grandes constelações de imagens oriundas da vida pública no mundo mediterrâneo antigo: o tribunal de justiça (justificação), o mundo do comércio (redenção), relacionamentos pessoais (reconciliação), culto (sacrifício) e campo de batalha (triunfo sobre o mal). John Stott, em seu clássico A Cruz de Cristo, também identifica essas imagens para a morte de Cristo.[8][9]
Fleming Rutledge, por outro lado, divide as imagens bíblicas em oito grupos: páscoa e êxodo, sacrifício de sangue, resgate e redenção, grande veredito, guerra apocalíptica (Christus Victor), descida ao inferno, substituição e recapitulação. Entretanto, a autora reconhece a existência de outros temas bíblicos para a morte de Jesus, apesar de não abordá-los em sua obra. A autora também agrupa essas oito imagens em duas categorias gerais: expiação pelos pecados e libertação dos Poderes.[10]
Por sua vez, o missionário e teólogo John Driver identificou dez motifs extraídos das imagens sobre a morte de Jesus ao longo do Novo Testamento: conflito/vitória/libertação; sofrimento vicário; arquétipo (homem representativo); martírio; sacrifício; expiação/ira de Deus; redenção; reconciliação; justificação; adoção.[11]
Independentemente do número de imagens bíblicas identificadas como interpretações da morte de Jesus, o fato é que o querigma apostólico, em especial a mensagem da salvação através da morte do Messias, é um tema complexo e multifacetado, apesar de ser uma mensagem unificada pela pessoa de Jesus Cristo. Justamente por sua natureza rica e complexa que Rutledge adverte que “a forma mais verdadeira de recebermos o evangelho do Cristo crucificado é cultivando uma profunda apreciação da forma que os temas bíblicos interagem e expandem uns aos outros.”[12]
Para uma compreensão maior da importância para Paulo da morte de Jesus como evento a ser interpretado soteriologicamente, segue abaixo uma lista de textos paulinos que carregam uma imagem sobre a morte de Cristo e seu efeito salvífico. Essa coletânea de textos foi adaptada de uma lista do teólogo pentecostal Gordon Fee.
1Ts 1.10; 5.9-10
1Co 5.7; 6.20; 7.22-23; 11.24-26; 15.2-4
2Co 5.14-15, 18-19, 21
Gl 1.3-4; 3.13-14; 4.4-5; 5.1
Rm 3.24-25; 4.24-25; 5.6-18; 6.3-6; 8.3; 14.9
Cl 1.12-14, 19-22; 2.13-15
Ef 1.7; 2.14-16; 5.2, 25-27
1Tm 1.15; 2.5-6
Tt 2.13-14; 3.4-7
2Tm 1.9-10[13]
É notável a quantidade de menções à morte de Jesus não somente como um acontecimento histórico, mas como um evento que carrega significado escatológico e soteriológico para a humanidade. Analisar o corpus paulino, em especial os textos mencionados acima, é uma tarefa imprescindível para a compreensão do significado da morte de Jesus para a igreja cristã do primeiro século.
3. Análise das imagens sobre a morte de Jesus em Colossenses 2.13-15
Após a exposição da multiplicidade de imagens bíblicas sobre o significado da morte de Jesus, a presente pesquisa dará ênfase ao parágrafo de Colossenses 2.13-15. Esse trecho da Carta de Paulo aos Colossenses demonstra como os efeitos da morte de Jesus são explicados com múltiplas linguagens pelos autores neotestamentários. Segue abaixo o texto de Colossenses 2.13-15 em grego, segundo a 28ª edição do Novum Testamentum Graece, e em português por tradução própria.[14][15]
A delimitação desse parágrafo é justificada pela mudança do sujeito “vocês” nos versículos 11-12 para o sujeito “ele” no versículo 13b. Apesar dessa mudança, o conectivo καὶ, a descrição da condição humana antes da nova vida em Cristo como sendo de “incircuncisão da carne” e a ação de vivificação, que pode ser entendida como paralela à ressurreição, demonstram a continuação do tema presente nos versículos anteriores que mencionam a circuncisão espiritual recebida em Cristo e a ressurreição experimentada com ele.[16]
Portanto, apesar de ser um novo parágrafo no texto, há uma continuidade com o tema maior iniciado nos versículos 6 e 7, com a advertência feita no versículo 8 e com os argumentos presentes nos versículos 9-12 que fundamentam a advertência anterior. O propósito dos versículos 13-15 parece ser o de explicar como a participação na morte e ressurreição de Jesus promove a reconciliação com Deus de forma completa, demonstrando a suficiência de Cristo em contraste com o ensinamento falso colossense contra o qual Paulo está argumentando nesta carta. Para isso, o apóstolo Paulo recorre a imagens que descrevem o significado da morte de Jesus na cruz e como essa morte concedeu vida àqueles que se encontravam “mortos em suas transgressões e na incircuncisão da sua carne”.[17]
A análise dos versículos 13-15 tem como objetivo compreender as imagens sobre a morte de Jesus presentes neste parágrafo e os seus significados. Para alcançar esse objetivo, cinco perguntas podem ser feitas nesta análise exegética:
O que significa o termo χειρόγραφον neste contexto?
Qual é o significado do termo δόγμασιν neste parágrafo? Qual é a relação do termo χειρόγραφον com δόγμασιν?
O que representa os termos τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας na teologia paulina?
Qual é o significado dos verbos ἀπεκδυσάμενος, ἐδειγμάτισεν e θριαμβεύσας? Qual é a relação entre eles no versículo 15?
Qual é a relação entre a imagem do cancelamento do escrito de dívida e a do triunfo sobre os principados e potestades?
A primeira dificuldade encontrada diante dessas perguntas é a escassa ocorrência de alguns desses termos no corpus paulino ou até mesmo em todo o Novo Testamento. É o caso da palavra χειρόγραφον, que não ocorre em nenhum outro trecho do Novo Testamento; a palavra δόγμασιν, que aparece dessa forma somente em Efésios 2.15, além do trecho analisado; o verbo ἀπεκδυσάμενος, que ocorre novamente em Colossenses 3.9 apenas; o verbo ἐδειγμάτισεν, que não possui nenhuma outra ocorrência no corpus paulino, aparecendo novamente no Novo Testamento apenas em Mateus 1.19; e o verbo θριαμβεύσας, que ocorre novamente apenas em 2 Coríntios 2.14.
Essa escassez de ocorrências no Novo Testamento de algumas das expressões utilizadas por Paulo para descrever o significado da morte de Jesus neste parágrafo levou alguns comentaristas a supor que o apóstolo estaria citando uma tradição ou utilizando o vocabulário de fórmulas tradicionais. Entretanto, essa teoria não pode ser provada, já que não há registro da fonte na qual Paulo teria consultado, restringindo-a apenas ao campo da suposição. Por isso, não será dada atenção a essa teoria neste artigo.
3.1 A imagem do cancelamento do escrito de dívida
O primeiro vocábulo a ser analisado é o termo χειρόγραφον, que pode ser definido em seu campo semântico como um documento escrito a mão, um título de dívida, um certificado de dívida, uma promissória. Segundo Douglas Moo, em seu comentário à Carta aos Colossenses, a palavra χειρόγραφον carrega o sentido básico de certificado de dívida ou confissão de dívida, ou seja, “um documento que registra as dívidas que alguém é obrigado a pagar”. Esse sentido básico pode ser conferido em outros textos antigos, como é o caso do Testamento de Jó 11.11 e Tobias 5.3 e 9.2,5. O teólogo bíblico G. K. Beale também identifica esse mesmo sentido para a palavra em papiros antigos, no judaísmo helenístico contemporâneo a Paulo e em escritos clássicos e helenísticos, trazendo a ideia de uma confissão escrita de dívida, comumente escrita pela pessoa devedora.[18][19][20][21]
Entretanto, o significado específico deste termo no contexto utilizado por Paulo em referência aos efeitos da morte de Jesus é debatido entre múltiplas opções. Douglas Moo elenca três opções principais para definir o uso específico da palavra χειρόγραφον por Paulo. A primeira opção é a ideia de que esse certificado de dívida seja uma referência a “um documento “assinado” por Adão (e/ou por todos os seres humanos) e mantido sobre nós por Satanás”. A segunda opção é a perspectiva que liga este termo ao conceito judaico apocalíptico de um manuscrito que registra “as obras humanas trazidas à tona como um fundamento para o julgamento na corte celestial”. A terceira opção aponta para uma referência à lei mosaica, que seria “um registro da obrigação do ser humano que não foi cumprida”.[22][23][24]
Köstenberger, Wellum e Quarles definem o termo χειρόγραφον como uma referência a um costume romano de fixar na cruz um escrito que listava os crimes cometidos pela vítima de crucificação. Porém, para Paulo, esse escrito não listava os crimes de Jesus, mas sim os pecados dos transgressores. N. T. Wright também faz menção a essa possível referência ao citar o escrito de acusação pregado na cruz de Jesus por ordem de Pôncio Pilatos (Mateus 27.37; João 19.19).[25][26]
Entretanto, para definir melhor o sentido da palavra χειρόγραφον, faz-se necessário também analisar a palavra δόγμασιν. O substantivo δόγμασιν, cuja forma básica é δόγμα, pode ser traduzido por edito, lei, ordem, decisão, decreto; mandamento, ordenança, requisito. Segundo Douglas Moo, o sentido genérico atribuído a essa palavra na Septuaginta e no Novo Testamento é em referência a decretos feitos por reis. Mas, assim como no caso da palavra χειρόγραφον, seu sentido específico neste verso é debatido por diferentes intérpretes e comentaristas.[27][28][29]
A primeira hipótese é a de que o termo faz referência às ordenanças impostas pelos falsos mestres em Colossos. Essa hipótese é defendida com base na ocorrência do verbo δογματίζω em Colossenses 2.20 onde possui o significado mencionado acima. A segunda hipótese, defendida por alguns pais apostólicos gregos, é de que o termo δόγμασιν diz respeito aos ensinamentos do evangelho. De acordo com essa hipótese, a relação entre o cancelamento do escrito de dívida e os ensinamentos é instrumental, ou seja, a tradução do verso seria “cancelando o escrito de dívida por meio dos ensinamentos [do evangelho]”.[30][31]
A terceira hipótese identifica as ordenanças como sendo os mandamentos da lei mosaica ou até mesmo as ordenanças de Deus destinadas a toda humanidade, sejam presentes na lei de Moisés ou na revelação geral. Segundo esta hipótese, a relação entre o escrito de dívida e as ordenanças seria de explicação ou de definição, ou seja, a tradução seria algo semelhante a “cancelando o escrito de dívida, que consistia em ordenanças”.[32]
Há ainda uma quarta hipótese que segue o mesmo significado para a palavra δόγμασιν da hipótese anterior, porém defende que a relação entre o escrito de dívida e as ordenanças deve ser entendida como causal. Ou seja, o motivo pelo qual o escrito de dívida é contrário à humanidade seriam as ordenanças que foram desobedecidas. Seguindo essa percepção, a tradução poderia ser “cancelando o escrito de dívida, contrário a nós por causa das ordenanças”. G. K. Beale reconhece como possiblidade gramatical tanto o dativo de conteúdo (“que consistia de”), quanto o dativo de causa (“por causa de”). Beale também interpreta as “ordenanças”, como uma referência às ordenanças da lei do Antigo Testamento, principalmente as leis alimentares, baseado em Colossenses 2.20 e Efésios 2.15. [33][34]
Analisando toda a expressão χειρόγραφον τοῖς δόγμασιν, N. T. Wright também defende que τοῖς δόγμασιν faz referência aos mandamentos da lei mosaica como fundamento de acusação para o escrito de dívida. De acordo com Wright, a Lei Judaica era contrária aos judeus, por causa de sua desobediência à Lei, que os submetia à maldição de Deuteronômio 26-32. Assim como também era contrária aos gentios, já que as exigências da Lei e sua idolatria mantinham-nos afastados do povo da aliança. Portanto, ao cancelar o escrito de dívida, baseado nas exigências da lei mosaica, tanto judeus são libertos da maldição imposta pela Torá, quanto gentios são recebidos como membros da família de Deus.[35][36]
F. F. Bruce também atesta essa condenação dupla, judeus e gentios, já que ambos desobedeceram à vontade de Deus da forma como tiveram acesso e conheciam. Os judeus desobedeceram à vontade de Deus expressa na Lei e os gentios desobedeceram à vontade de Deus impressa em sua voz interior de consciência.[37]
Beale também atesta a interpretação de Wright, reconhecendo que o “certificado de dívida” condenava tanto judeus quanto gentios. Por isso Paulo teria usado os pronomes ἡμῶν/ἡμῖν indicando que toda a humanidade havia violado as leis de Deus. Sua interpretação pode ser resumida no seguinte parágrafo.
A lei de Deus condenou os judeus, que haviam assumido um compromisso com Deus de obedecer à sua lei, mas violaram (Dt 27.9-26; 30.15-20). Os gentios também eram culpados porque violaram os mandamentos morais da lei, que seriam conhecidos por meio da sua consciência (cf. Rm 2.14-15). Na verdade, Israel era uma figura adâmica coletiva que representava toda a humanidade na sua obrigação de obedecer a Deus. Assim, toda a humanidade precisava de perdão por violar a lei divina.[38]
Seguindo essa mesma interpretação, Lucien Cerfaux identifica no termo χειρόγραφον τοῖς δόγμασιν uma referência à Lei, aos mandamentos da Antiga Aliança, que teriam sido anulados na cruz de Cristo. Como o autor afirma: “Os preceitos da Lei, que não eram observados, sublinhavam nossos pecados e tornavam-se nosso ato de acusação. Cristo o anula.”[39]
Darrell Bock resume o sentido do parágrafo interpretando o escrito de dívida e as ordenanças também de acordo com essa última hipótese. “Assim, Deus “vivific[a]” ao perdoar o pecador, cancelando o débito do pecado revelado por meio dos requerimentos da lei e derrotando os que se opõem à humanidade por intermédio de Cristo e da cruz (2.13-15).”[40]
3.2 A imagem do triunfo sobre os poderes
O substantivo ἀρχὰς, cuja forma básica é ἀρχή, possui um amplo campo semântico. Porém, pode ser traduzido de forma adequada para o contexto deste parágrafo como autoridade, principado, potestade, poder; líder, autoridade, oficial, príncipe; referência a anjos e demônios. O substantivo ἐξουσίας, cuja forma básica é ἐξουσία, assim como o substantivo ἀρχή, também possui um campo semântico amplo. Dependendo do contexto, o termo pode ser traduzido por capacidade, direito; autoridade, poder; autoridade política; soberanias, autoridades espirituais, angélicas; poderes cósmicos acima e além da esfera humana, mas não separados dela.[41][42][43][44]
D. G. Reid define de forma mais detalhada o sentido de “autoridades e poderes” nas cartas paulinas. Segundo o autor essa expressão possui diferentes ênfases de acordo com a carta e o seu contexto, porém, no caso de Colossenses, a expressão é utilizada para indicar duas características principais: os poderes são criados por intermédio de Cristo (Colossenses 1.15-16; 2.10) e são inimigos de Deus, Cristo e seu povo (2.15). Para Reid, o apocalipticismo gestado no judaísmo sectário do século I a.C., expresso principalmente pela Regra da Guerra de Qumran, fornece o pano de fundo necessário para compreender a linguagem paulina sobre “as autoridades e os poderes”.[45]
Reid defende que, influenciado pela perspectiva apocalíptica de um conflito cósmico escatológico, porém o ressignificando à luz do evento Cristo, Paulo interpreta que os verdadeiros inimigos do povo de Deus não são os gentios, nem o Império Romano em si, mas “os poderes espirituais que estavam à espreita por trás das faces humanas das autoridades e dos impérios deste mundo.” Essa visão de mundo teria sido reforçada e fundamentada no Antigo Testamento, a partir de textos como Deuteronômio 32.8-9,17; Daniel 7.2-8; 10.13,20-21. Nesse sentido, “as autoridades e os poderes” seriam descritos como poderes cósmicos hostis do universo que exerciam autoridade e domínio neste mundo presente.[46]
Expandindo essa definição, N. T. Wright associa a expressão τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας, presente em Colossenses 1.16,18 e 2.10,15, com a expressão τὰ στοιχεῖα τοῦ κόσμου, que ocorre em Colossenses 2.8,20. Ao associar as duas expressões, Wright define o significado de ambos como sendo “hipotéticos deuses tutores de diferentes nações”. Nessa perspectiva, “os governantes e as autoridades” seriam poderes espirituais que exerciam domínio sobre as nações através de suas estruturas religiosas, políticas, sociais e culturais, mantendo-as escravas do pecado e da idolatria, e assim impedindo os gentios de fazerem parte do povo de Deus.[47]
Comentando sobre Colossenses 3.15, Wright reafirma sua definição para “poderes e autoridades”:
Quando Paulo fala sobre “poderes e autoridades”, ele se refere tanto aos poderes visíveis como Herodes, César, governadores e sacerdotes quanto aos poderes “invisíveis”, aqueles sombrios que apoiam e operam através dos visíveis. Quando o corpo de Jesus foi retirado da cruz, Paulo creu que esses “poderes e autoridades” haviam sido destituídos, envergonhados e derrotados.[48]
Douglas Moo também argumenta em seu comentário que, apesar do termo τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας poder se referir nas cartas de Paulo aos seres espirituais como um todo, bons e maus, em Colossenses 2.15, à semelhança de 1.20, o sentido mais coerente com o contexto e o argumento de Paulo é o de seres espirituais maus. Provavelmente, os falsos mestres presentes na igreja de Colossos questionavam a suficiência de Cristo para livrar os seres humanos do poder e da influência destes seres espirituais. O argumento de Paulo na carta é que Cristo é soberano sobre tais poderes espirituais e essa soberania é exposta principalmente na cruz.[49][50]
O teólogo bíblico George Eldon Ladd também define esses poderes como seres espirituais e sobrenaturais maus, que se opõem ao Reino de Deus, mas que foram subordinados a Cristo através de sua morte e ressurreição e serão destruídos na vinda do reino messiânico.[51]
O verbo ἀπεκδυσάμενος, cuja forma básica é ἀπεκδύομαι, pode ser traduzido por abandonar, despojar-se, desfazer-se: de algo; desarmar, despojar: alguém. A partir de seu sentido geral, alguns intérpretes buscaram definir o sentido específico deste verbo em Colossenses 2.15. Cada uma das hipóteses de significado específico para ἀπεκδυσάμενος depende do entendimento de qual é o sentido, o sujeito e o objeto do verbo neste contexto. Uma das hipóteses compreende que o sentido do verbo é reflexivo, devido à voz média, que Cristo é o sujeito do verbo e os principados e as potestades são o objeto do verbo. Segundo essa hipótese, Cristo teria se despido dos principados e potestades, pressupondo que Jesus, por ocasião de sua natureza humana, sofria influência destes. Na cruz, Jesus venceu os poderes do mal a começar libertando-se da influência deles.[52][53]
Outra hipótese, que também admite o sentido reflexivo para o verbo e Cristo como sujeito do verbo, defende o objeto do verbo como sendo a carne, em semelhança ao verso 11 em que aparece um substantivo cognato do verbo ἀπεκδύομαι. Nesse sentido, os principados e potestades são interpretados como objeto do verbo ἐδειγμάτισεν. Segundo essa hipótese, a tradução seria semelhante a “[Cristo] despindo-se da carne, fez dos principados e potestades um espetáculo público”.[54]
Uma terceira hipótese adota o sentido ativo para o verbo, interpretando que Deus é o sujeito do verbo e utilizando-o num sentido metafórico de tirar o poder ou desarmar. Essa interpretação é coerente com o uso desse verbo e seu substantivo cognato em Colossenses 3.9 e 2.11, onde o sentido da palavra é metafórica e também indica a ideia de tirar o poder. As duas hipóteses anteriores podem ser objetadas porque exigiriam uma troca repentina de sujeito no parágrafo, de Deus para Cristo, sem nenhuma indicação clara dessa mudança. Seguindo essa última hipótese, a tradução poderia ser “despojando os principados e potestades de seu poder”. Ladd e Wright também entendem que, neste caso, o verbo possui significado ativo, interpretando o sentido da expressão como um despojar de armas ou de poder.[55][56]
Essa também é a interpretação defendida por Lucien Cerfaux em seu clássico Cristo na Teologia de Paulo. O autor comenta o versículo 15 da seguinte forma:
A subordinação das potestades a Cristo é fruto da vitória que ele alcança pela morte, paralela a que ele obtém sobre a Lei. Despoja as potestades e os principados (de seu poder sobre o mundo) e expõe-nos publicamente à derrisão, levando sobre eles pleno triunfo na cruz (Cl 2.15).[57]
O verbo ἐδειγμάτισεν, cuja forma básica é δειγματίζω, pode ser traduzido por denunciar publicamente, expor à ignomínia: alguém; expor, desgraçar, infamar. Seu significado específico no parágrafo analisado acompanha seu sentido básico, já que o contexto reforça a ideia de uma exposição pública e vergonhosa da derrota dos poderes, despojados de suas armas e conduzidos cativos pelo Cristo vitorioso, como será analisado a diante.[58][59]
O verbo θριαμβεύσας, cuja forma básica é θριαμβεύω, pode ser traduzido por triunfo: de, sobre alguém; fazer participar do triunfo: alguém; liderar uma procissão triunfal; fazer triunfar ou exibir em uma procissão pública. Segundo Moo, este verbo faz alusão ao costume romano de recompensar generais vitoriosos com uma procissão triunfal, em que o general era seguido pelos prisioneiros conquistados na campanha concluída Essa alusão à prática romana também é atestada por outros comentaristas, como Wright e Beale. D. G. Reid amplia a interpretação ao afirmar que o verbo θριαμβεύσας, na verdade, não somente faz uma referência à marcha triunfal romana, mas também referência “o arquétipo judaico do guerreiro divino que derrota os inimigos.”[60][61][62][63][64][65]
O teólogo bíblico Frank Thielman também atesta tanto essa interpretação do verbo θριαμβεύσας quanto a percepção do verbo ἀπεκδυσάμενος como “despojar o poder” ao descrever o sentido do versículo 15. “Jesus também é superior a eles porque mediante sua morte sobre a cruz, ele os despiu de seus poderes malignos, como soldados capturados e despidos de suas armas e os guia da mesma forma que um general vitorioso conduz soldados vencidos à sua execução (2.15).”[66]
3.3 A relação entre as imagens do cancelamento e triunfo
Como conclusão da análise das imagens presentes em Colossenses 2.13-15, pode-se afirmar que a imagem do cancelamento do escrito de dívida elucida e descreve de forma poética o sentido do perdão dos pecados. Não somente a condenação imposta pela maldição da lei, por causa da transgressão da mesma, foi cancelada, mas também a escravidão aos poderes malignos foi abolida. Os principados e potestades foram desarmados e derrotados publicamente para que aqueles que pertencem ao reino de Deus não mais se submetam à Lei, instrumento de escravidão à antiga era má, imposta por esses poderes espirituais.
N. T. Wright atesta essa relação entre as imagens ao conectar o parágrafo analisado com toda a narrativa do Antigo Testamento, especialmente com o tema da idolatria e do Êxodo. Para o erudito do Novo Testamento, a relação entre perdão e triunfo pode ser explicada pela compreensão de que os “poderes” detinham as nações cativas por meio da idolatria e do pecado. Na visão de Wright, a humanidade possui a vocação de adorar a Deus e governar sobre o mundo criado. Porém, ao se entregar à idolatria, o ser humano é corrompido pelo pecado e entrega seu poder aos ídolos, que dominam, escravizam e destroem a humanidade e o mundo. Porém, “quando os pecados são perdoados, os ídolos perdem seu poder.” Em outras palavras: “Quando Jesus foi crucificado, os “principados” perderam seu poder, porque o pecado havia sido derrotado e os pecadores perdoados.”[67][68]
G. K. Beale compartilha de uma visão semelhante com relação à conexão entre o perdão e o triunfo de Cristo na cruz. Em seu comentário, o teólogo bíblico afirma que “A ligação específica entre os versículos 14 e 15 talvez seja que o “despir” desses poderes malignos, “cuja posse da acusação condenatória” mantinha as pessoas sob seu domínio, é o que destruiu seu domínio cruel sobre aqueles que creram”. Em Colossenses 1.13-14, Paulo já teria indicado certa relação entre a libertação dos poderes das trevas e a remissão dos pecados, mas em 2.13-15 essa relação torna-se mais clara.[69]
Beale resume, à luz de Efésios 2.1-3, a essência da vitória de Cristo na cruz, de acordo com Colossenses 2.13-15.
Os pecados dos crentes foram perdoados por meio da fraqueza da cruz, que derrotou o controle poderoso das forças diabólicas sobre sua antiga vida de incredulidade e “despiu” os inimigos satânicos do seu poder sobre os redimidos. [...] Esse poder satânico sobre as pessoas por causa do domínio do pecado sobre elas foi destruído por meio do perdão na cruz.[70]
Diante dessa relação entre as imagens, é possível compreender melhor a função retórica deste parágrafo na argumentação de Paulo. Douglas Moo resume bem o argumento do parágrafo analisado e sua importância retórica diante do falso ensino colossense, principal motivação de escrita da carta. Moo reconstrói o pano de fundo da carta da seguinte forma:
Podemos imaginar os falsos mestres em Colossos, alimentando um medo difundido na Antiguidade de vários espíritos celestiais, insistindo que os cristãos precisavam seguir seus próprios procedimentos orientados por regras para conseguir se libertar do poder desses espíritos. Paulo, em resposta a isso, insiste que Deus, ao enviar Cristo para a cruz como o meio final e definitivo para cuidar do problema do pecado, removeu qualquer poder que esses espíritos malignos possam ter sobre nós. Essa vitória, celebrada e exposta na ressurreição e ascensão de Cristo, é o que os cristãos precisam para tomá-la como deles mesmos. A autoridade de Cristo sobre os poderes e as autoridades (v. 10) tem sido manifestada de forma decisiva; e os cristãos, “nele”, compartilham essa autoridade.[71]
Na mesma linha de Moo, Reid também reconstrói o contexto do século I e a resposta paulina da seguinte forma:
Embora desempenhassem esse papel na narrativa paulina de Cristo, os poderes também eram reconhecidos como poderes cósmicos hostis do universo, que enchiam de medo os corações de muita gente no mundo romano do tempo de Paulo. Quer associados à magia, quer aos mistérios ou à astrologia, a religião popular do mundo mediterrâneo do século I imaginava o cosmos assombrado por espíritos nos céus, na terra e debaixo dela. Paulo abordou a situação anunciando que os poderes das trevas foram derrotados por Cristo na cruz. Embora seu poder ainda fosse real e potente, eles não deviam ser temidos pelos “em Cristo” (Rm 8,37-39).[72]
Tanto Moo quanto Reid demonstram que o uso de um vocabulário inédito por Paulo é coerente diante da necessidade retórica de responder ao falso ensino propagado em Colossos. A resposta de Paulo é contundente em reafirmar a suficiência de Cristo para a reconciliação dos crentes a Deus. Em Cristo, a acusação da lei é cancelada, a escravidão aos poderes é abolida e a vida da nova criação começa no presente.
4. Contribuições para a elaboração de uma teoria da expiação
A análise das imagens de Colossenses 2.13-15 exemplifica a complexidade da tarefa da elaboração de uma teoria da expiação. Em apenas três versículos, o apóstolo Paulo utilizou duas grandes imagens, conectadas e carregadas de referências do contexto judaico e greco-romano, para enfatizar alguns aspectos do significado da morte de Jesus para os crentes colossenses. A partir desta análise, podem ser extraídas algumas contribuições para a construção de uma teoria da expiação fiel às interpretações bíblicas sobre a morte de Cristo.
Em primeiro lugar, deve-se reconhecer o caráter circunstancial das cartas neotestamentárias e o contexto de escrita de cada uma delas. A análise do parágrafo colossense deixou claro que o uso das imagens do escrito de dívida e dos principados e potestades possuíam importância retórica diante do falso ensinamento difundido na igreja de Colossos. Portanto, é importante ressaltar que o uso das imagens e metáforas feitas por Paulo e pelos demais autores neotestamentários não visava a construir uma teoria unificada, que privilegia um aspecto da morte de Jesus em relação ao outro, mas buscava responder ao contexto do cristianismo primitivo, aplicando a obra de Cristo de forma adequada às necessidades das igrejas do século I d.C.[73]
Como conclui Joel B. Green, “esse fato tem sérias ramificações para a contínua missão intercultural da Igreja, pois sugere que, ao destacar o significado da crucifixão de Jesus, os intérpretes precisam buscar continuamente metáforas que falem de modo específico à cultura e/ou à circunstância.”[74]
Em segundo lugar, deve-se interpretar adequadamente a linguagem utilizada pelos autores bíblicos, especialmente no caso das metáforas ou linguagem figurada a fim de evitar distorções feitas por uma leitura literalista. A clássica obra de G. B. Caird sobre o uso da linguagem e das imagens na Bíblia estabelece seis sinais de que o autor bíblico não pretendia ser lido de maneira literal, mas sim metafórica. Dois destes sinais são proeminentes no parágrafo analisado neste artigo: justaposição de imagens e originalidade.[75]
Em Colossenses 2.13-15, o apóstolo Paulo utiliza múltiplas imagens para descrever o significado e os efeitos da morte de Jesus, justapondo uma imagem a outra. Além disso, o apóstolo também apresenta originalidade no uso das imagens do cancelamento do escrito de dívida e da procissão triunfal com os principados e potestades cativos. Essa originalidade é demonstrada pela baixíssima ocorrência de muitas palavras desse parágrafo em outros textos do Novo Testamento. Algumas dessas palavras ocorrem novamente apenas no corpus paulino ou nem mesmo possuem outra ocorrência na Escritura, como é o caso da palavra χειρόγραφον.
James D. G. Dunn também ressalta a variedade e o caráter metafórico de cada uma das imagens utilizadas pelo apóstolo Paulo, incluindo as de Colossenses 2.13-15. Dunn deixa claro que a metáfora era a linguagem adequada para expressar o significado complexo da morte de Cristo, e que não é correto traduzi-la de forma literal para alcançar seu sentido real. Além disso, Dunn sublinha a facilidade com que Paulo reúne mais de uma metáfora em um mesmo parágrafo ou carta. Isso aponta para o fato de que nenhuma imagem sozinha é capaz de esgotar o significado completo da morte de Jesus, nem mesmo pode ser eleita como a imagem normativa e soberana sobre as demais. Essa última observação de James Dunn conduz à terceira colaboração para a construção de uma teoria da expiação.[76]
Em terceiro lugar, deve-se compreender que uma única teoria da expiação não é suficiente para explicar a totalidade do significado da morte de Jesus para a reconciliação do ser humano a Deus. Se os próprios autores bíblicos, como Paulo em Colossenses, articularam múltiplas metáforas para representar o efeito salvífico da morte de Cristo, faz-se necessário que a teologia contemporânea também articule as múltiplas teorias a fim de cumprir a tarefa de comunicar fielmente a mensagem da cruz nos dias atuais. Entretanto, a questão da natureza dessa articulação permanece em aberto.
O estudioso do Novo Testamento Scot McKnight aponta para a dificuldade de combinar todas essas imagens bíblicas de uma forma integrada, sem hierarquia e sem excluir nenhuma delas. A tendência simplista ao desenvolver uma teoria da expiação é eleger uma imagem específica e torcer todas as outras a fim de se submeter a esta. Porém, McKnight chama atenção para o fato de que a própria ideia de expiação é uma metáfora para a descrição dos “atos de Deus para resolver o pecado e restaurar os seres humanos em seu relacionamento com Deus, consigo mesmo, com os outros, e com o mundo.”[77][78]
A pastora episcopal Fleming Rutledge também chama atenção para essa realidade. “Todavia, nunca podemos perder de vista o fato de que a própria cruz é uma metáfora. O propósito de metáforas e imagens usadas no Novo Testamento é nos ajudar a compreender o acontecimento histórico – e, acima de tudo, responder a ele.” Por isso, uma teoria da expiação precisa estar atenta às imagens e metáforas bíblicas que expressam a forma como Deus resolve o problema do pecado e restaura os relacionamentos humanos, a fim de articulá-las de forma fiel e equilibrada.[79]
O teólogo alemão Wolfhart Pannenberg também comenta acerca do desafio de articular essa multiplicidade de interpretações sobre o significado da morte de Jesus no Novo Testamento.
A diversidade das interpretações neotestamentárias da morte de Jesus é um indício para as especiais dificuldades da compreensão que desde o início estavam implícitas nesse tema. No entanto, também nesse caso a força de expressão das diversas interpretações deve ser medida pelo recurso ao próprio evento interpretado e medida nele. Somente assim é possível alcançar um juízo fundamentado a respeito do direito objetivo diferenciado das diferentes interpretações.[80]
Pannenberg reconhece a variedade de interpretações neotestamentárias sobre a morte de Jesus, mas defende que estas não devem ser avaliadas como iguais em importância. Segundo o teólogo alemão, o critério para avaliação de cada um dessas interpretações não deve ser a ocorrência no cristianismo primitivo, nem sua antiguidade, nem mesmo sua origem veterotestamentária, mas o critério principal deve ser a singularidade do evento da morte de Jesus. Independente do critério a ser utilizado, Pannenberg expressa de forma clara que a tarefa de sistematização da doutrina da expiação, que o autor prefere chamar de doutrina da reconciliação, exige o arranjo das diferentes interpretações neotestamentárias sobre a morte de Jesus reconhecendo diferente peso para cada uma delas.
Ao longo da história do cristianismo, diversas teorias da expiação foram desenvolvidas a fim de sistematizar essa pluralidade de metáforas e imagens bíblicas e articular esses múltiplos temas. Algumas dessas teorias, por sua semelhança entre si são agrupadas em paradigmas maiores. Essa foi uma das grandes contribuições de Gustaf Aulén em sua obra clássica sobre expiação chamada Christus Victor, na qual o autor revisa a história da interpretação da morte de Jesus dividindo-a em três grandes paradigmas: o paradigma clássico ou dramático, o paradigma objetivo ou latino e o paradigma subjetivo ou humanista. Aulén identifica as teorias da expiação desenvolvidas desde a Patrística até período de escrita de seu livro em cada um desses paradigmas. A teoria do resgate, de alguns pais da Igreja, seria um exemplo do paradigma clássico, enquanto a teoria da satisfação, de Anselmo de Cantuária, pertenceria ao paradigma objetivo. Já a teoria da influência moral, de Pedro Abelardo, seria classificada dentro do paradigma subjetivo.[81]
Joel B. Green sintetiza a interpretação de cada uma dessas teorias em seu verbete sobre a morte de Cristo.
Por outro lado, depois de séculos de debate, agora é difícil ler Paulo sem a superposição de uma ou mais das chamadas teorias clássicas da reparação — em especial a “teoria dramática”, que descreve a obra salvífica de Cristo como drama cósmico de conflito e vitória; a “teoria da satisfação”, que apresenta a cruz de Cristo como o meio pelo qual a barreira entre Deus e a humanidade é removida, de modo que, pela morte de Cristo, é dada “satisfação” a Deus; ou a “teoria da influência moral”, que se concentra na cruz como demonstração à humanidade do amor infinito de Deus que deve servir de exemplo.[82]
Cada uma dessas teorias enfatiza um dos efeitos da morte de Jesus e privilegia alguns temas bíblicos em detrimento de outros. O desafio é integrar cada uma dessas teorias, reconhecendo as imagens bíblicas que lhe deram origem, e articulá-las a fim de aproximar-se de uma compreensão mais completa da morte de Jesus.
O teólogo Joshua M. McNall propõe que a melhor metáfora para descrever essa integração entre as diversas teorias da expiação que foram articuladas ao longo da história do cristianismo é a metáfora do mosaico. O autor utiliza essa metáfora como uma via média entre dois extremos: o reducionismo e o relativismo. O reducionismo, também chamado de hierarquia defensiva, é a posição que defende uma teoria da expiação como a mais importante, estabelecendo assim uma hierarquia em que os demais modelos de expiação se submetem àquele que é definido como sendo central. Já o relativismo, também chamado de pluralidade desconectada, é a perspectiva que defende que os temas bíblicos sobre a expiação se apresentam de forma variada e sem nenhuma necessidade de arranjo ou ordenação. Um exemplo dessa perspectiva é o modelo caleidoscópio da expiação, defendido por Joel Green.[83][84][85][86]
Para McNall, a visão caleidoscópia da expiação acerta em descrever a variedade de imagens presentes na Escritura para descrever a obra de Cristo, mas erra ao dizer que a Escritura não dá razões para relacionar as diferentes imagens e os diferentes modelos de expiação de uma forma particular. A fim de ilustrar sua proposta de arranjo e reintegração entre os diferentes modelos de expiação, McNall utiliza a metáfora do mosaico. McNall divide os modelos da expiação em quatro principais, que são identificados, em sua metáfora, como partes do mosaico de uma imagem de Jesus.[87]
O modelo da recapitulação, cuja origem remonta ao pai da igreja Irineu, representaria os pés de Jesus, o fundamento para os outros modelos. No tema da recapitulação, Jesus se identifica como o Segundo Adão, que representa toda a humanidade. Porém, em contraste com Adão, por meio da fidelidade e obediência de Jesus a graça de Deus foi manifesta aos homens. Já o modelo da substituição penal, ou julgamento vicário, seria simbolizado pelo coração de Jesus. Segundo este modelo, Jesus, como o novo e verdadeiro Adão, representa e substitui a humanidade ao receber a penalidade pelo pecado em seu lugar.
O modelo do Christus Victor seria representado pela cabeça coroada de Jesus no mosaico, já que, para McNall, o triunfo de Cristo sobre os poderes do mal é o telos, o propósito da expiação. A vitória, a glorificação e a exaltação de Jesus é a finalidade última de sua obra salvífica e o meio para essa vitória é sua obra substitutiva. Em contraste com muitas articulações atuais entre os dois últimos modelos, McNall diz que não se deve escolher pelo modelo Christus Victor ou substituição penal, nem simplesmente Christus Victor e substituição penal, colocando-os lado a lado. Mas sim reconhecer que a vitória de Cristo vem através da substituição penal: Christus Victor através da substituição penal.[88]
Por último, o modelo da influência moral é identificado pelas mãos de Jesus que agem através da igreja no mundo ainda não restaurado. Segundo esse modelo, a morte de Jesus é a maior demonstração do amor de Deus pelo mundo, sendo o exemplo de como a igreja deve agir neste mundo caído, participando da transformação que Deus está promovendo no mundo através de um amor sacrificial e gracioso.
Essa metáfora do mosaico e esse arranjo entre as teorias da expiação, apesar de não ser exaustivo nem isento de simplificações, é uma possibilidade de articulação entre as diversas teorias da expiação. O princípio fundamental a ser defendido é de que as diferentes teorias da expiação, derivadas das diferentes imagens e metáforas bíblicas para a morte de Jesus, não estão em uma relação de oposição excludente nem de justaposição independente, mas sim em uma relação complexa, conectada, que se ajustam e modificam mutuamente e compõem a riqueza da obra de Cristo pela humanidade.
Considerações finais
A pesquisa demonstrou-se frutífera, atingindo seu objetivo principal de compreender as imagens sobre a morte de Jesus presentes em Colossenses 2.13-15. A principal dificuldade encontrada durante a pesquisa é a baixa ocorrência de muitas das palavras analisadas no parágrafo. Entretanto, o contexto de escrita da carta e o fluxo argumentativo do autor ajudam a elucidar o sentido dos termos principais.
As perguntas realizadas ao parágrafo foram respondidas, embora não haja consenso em todos os detalhes de cada resposta. Em primeiro lugar, concluiu-se que a expressão χειρόγραφον τοῖς δόγμασιν representa um escrito de dívida contrário à humanidade, tanto judeus quanto gentios, por causa da desobediência à vontade de Deus, expressa pelas ordenanças da lei, mas também reveladas à consciência humana. Portanto, o seu cancelamento é uma forma metafórica de explicar o perdão dos pecados garantido pela morte de Jesus.
Em segundo lugar, concluiu-se que os termos τὰς ἀρχὰς καὶ τὰς ἐξουσίας representam, para Paulo, de maneira geral, seres espirituais maus em oposição ao reino de Deus e hostis à humanidade. Estes seres escravizam através da lei, do pecado e da morte aqueles que pertencem ao reino das trevas. Entretanto, em sua morte e ressurreição, Cristo derrota estes poderes, despojando-os de suas armas contra a humanidade, expondo-os à vergonha pública ao conduzi-los cativos como em uma procissão triunfal.
Em terceiro lugar, concluiu-se que as duas imagens podem ser relacionadas, já que a vitória de Cristo sobre as autoridades e poderes ocorre na medida em que sua morte os desarma dos instrumentos utilizados por eles para escravizar o ser humano, a saber, a lei e o pecado que os acusavam. Ao cancelar o escrito de dívida, o poder destes seres espirituais sobre a humanidade é retirado. Nesse sentido, o cancelamento da dívida é o fundamento para a libertação dos poderes.
Toda essa análise destacou três contribuições principais para o exercício teológico de elaboração de teorias a respeito do mecanismo da salvação por meio da cruz. Concluiu-se que a tarefa teológica demanda análise detalhada das imagens bíblicas sobre a morte de Jesus levando em consideração seu caráter circunstancial, metafórico e múltiplo. Além disso, diante dessa multiplicidade de imagens bíblicas e pluralidade de teorias desenvolvidas ao longo da história do cristianismo, é importante buscar uma integração entre as teorias da expiação visando a contemplar a riqueza e complexidade da obra de Cristo, já que cada teoria aponta para um efeito da morte de Jesus representado por alguma imagem bíblica.
Portanto, esta pesquisa abre horizonte para a análise de outros textos bíblicos que apresentem imagens da morte de Jesus que possam auxiliar na integração dessas múltiplas teorias. Por situar-se na interseção entre os estudos bíblicos e teológicos, também abre caminho para pesquisa histórica das principais teorias da expiação e análise dos textos bíblicos elencados como base de seus argumentos.
Em suma, a presente pesquisa demonstrou que a multiplicidade de imagens sobre o significado da morte de Jesus pode ser percebida mesmo em um pequeno parágrafo das cartas paulinas. Portanto, faz-se necessário uma análise mais profunda e detalhada de cada imagem atribuída à morte de Jesus em todo o Novo Testamento a fim de definir a importância de cada uma delas para a compreensão teológica do cristianismo primitivo e para uma adequada sistematização e aplicação da doutrina da expiação para a igreja e sociedade contemporâneas.
Notas
[1] Pós-graduando em Teologia do Novo Testamento pelo Centro Universitário Filadélfia – UNIFIL/CPGJE. Pós graduado em Plantação e Revitalização de Igrejas pela Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba – FATEV/CTPI. Bacharel em Teologia pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro – FABAT/STBSB. E-mail: teo.gabrielrs@gmail.com
[2] Para maiores detalhes da metodologia utilizada confira: GORMAN, Michael J. Introdução à exegese bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
[3] C.f. 1Co 2.2; 1Co 15.3.
[4] HOOKER, Morna D. Not Ashamed of the Gospel: New Testament Interpretations of the Death of Christ. Grand Rapids: W. B. Eerdmans Publishing, 1994. p. 19.
[5] GREEN, J. B. Morte de Cristo. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 855.
[6] MCGRATH, A. E. Cruz, Teologia da. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 359.
[7] RUTLEDGE, Fleming. A crucificação: entendendo a morte de Jesus Cristo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2023. p. 37-38.
[8] BAKER, Mark D.; GREEN, Joel B. Recovering the Scandal of the Cross. Atonement in New Testament and Contemporary Contexts. 2. ed. Downers Grove: InterVarsity Press, 2011. n. p.
[9] STOTT, John. A Cruz de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2006.
[10] RUTLEDGE, p. 242-243.
[11] BEILBY, James; EDDY, Paul (Ed.). The Nature of the Atonement: Four Views. Downers Grove: InterVarsity Press, 2006. n. p.
[12] RUTLEDGE, p. 37.
[13] FEE, Gordon. Cristologia Paulina: um estudo exegético-teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 2023. n. p.
[14] Quanto à autoria da carta aos Colossenses, o pressuposto adotado por este artigo é a da autenticidade da autoria paulina. Não há espaço para sustentar tal posição neste artigo, nem é o objetivo do mesmo. Porém, os principais argumentos a favor da autoria paulina de Colossenses podem ser encontrados em KÖSTENBERGER, Andreas J.; KELLUM, L. Scott; QUARLES, Charles L. Introdução ao Novo Testamento: a manjedoura, a cruz e a coroa. São Paulo: Vida Nova, 2022. n.p.; CARSON, D. A.; MOO, Douglas J. O comentário de Colossenses e Filemon. São Paulo: Shedd Publicações, 2020. p. 50-66; O’BRIEN, P. T. Colossenses, Carta aos. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 251-253; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 364-367.
[15] NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
[16] MOO, Douglas J. O comentário de Colossenses e Filemon. São Paulo: Shedd Publicações, 2020. p. 264.
[17] Para uma descrição mais detalhada dos princípios básicos defendidos por esse falso ensino, confira: MOO, p. 76-89.
[18] RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2003. p. 493.
[19] GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 1993. p. 223.
[20] MOO, p. 268.
[21] BEALE, G. K. Colossenses e Filemon: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2022. n. p.
[22] MOO, p. 268.
[23] MOO, p. 269.
[24] MOO, p. 269.
[25] KÖSTENBERGER, Andreas J.; KELLUM, L. Scott; QUARLES, Charles L. Introdução ao Novo Testamento: a manjedoura, a cruz e a coroa. São Paulo: Vida Nova, 2022. n.p.
[26] WRIGHT, N. T. Colossians and Philemon: an introduction and commentary. Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1986. n. p.
[27] RUSCONI, p. 135.
[28] GINGRICH; DANKER, p. 58.
[29] MOO, p. 269.
[30] MOO, p. 269.
[31] MOO, p. 269-270.
[32] MOO, p. 270.
[33] MOO, p. 270-271.
[34] BEALE, n. p.
[35] WRIGHT, N. T. O dia em que a revolução começou; reinterpretando a crucificação de Jesus. Brasília: Editora Chara, 2017. p. 274.
[36] WRIGHT, 1986. n. p.
[37] BRUCE, F. F. The epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1984. p. 108-109.
[38] BEALE, n. p.
[39] CERFAUX, Lucien. Cristo na teologia de Paulo. São Paulo: Editora Teológica, 2003. p. 123.
[40] BOCK, Darrell. Teologia das Epístolas Paulinas Escritas na Prisão. In: ZUCK, Roy B. (Ed.) Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 333-334.
[41] RUSCONI, p. 79.
[42] GINGRICH; DANKER, p. 35.
[43] RUSCONI, p. 180.
[44] GINGRICH; DANKER, p. 77.
[45] REID, D. G. Autoridades e Poderes. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 144-145.
[46] REID, D. G. Autoridades e Poderes, p. 145.
[47] WRIGHT, 1986, n. p.
[48] WRIGHT, 2017, p. 273.
[49] MOO, p. 94.
[50] MOO, p. 94.
[51] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. 2. ed. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985. p. 376.
[52] RUSCONI, p. 61. GINGRICH; DANKER, p. 28.
[53] MOO, p. 272-273.
[54] MOO, p. 273.
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[56] LADD, p. 407. WRIGHT, 1986, n. p.
[57] CERFAUX, p. 85.
[58] RUSCONI, p. 116.
[59] GINGRICH; DANKER, p. 50.
[60] RUSCONI, p. 228.
[61] GINGRICH; DANKER, p. 98.
[62] MOO, p. 275.
[63] WRIGHT, 1986. n. p.
[64] BEALE, n. p.
[65] REID, D. G. Triunfo. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 1210.
[66] THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: uma abordagem canônica e sintética. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p. 460.
[67] WRIGHT, 2017, p. 274.
[68] WRIGHT, 2017, p. 275.
[69] BEALE, n. p.
[70] BEALE, n. p.
[71] MOO, p. 276-277.
[72] REID, D. G. Autoridades e Poderes, p. 146.
[73] GREEN, J. B. Morte de Cristo, p. 856.
[74] GREEN, J. B. Morte de Cristo, p. 856.
[75] CAIRD, George. The Language and Imagery of the Bible. Philadelphia: The Westminster Press, 1980. p. 190-193.
[76] DUNN, James D. G. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 277.Morna Hooker afirma algo semelhante em seu livro sobre as interpretações do Novo Testamento para a morte de Jesus. HOOKER, Morna D. Not Ashamed of the Gospel: New Testament Interpretations of the Death of Christ. Grand Rapids: W. B. Eerdmans Publishing, 1994. p. 45.
[77] MCKNIGHT, Scot. A Community Called Atonement. Nashville: Abingdon Press, 2007. n. p.
[78] MCKNIGHT, n. p.
[79] RUTLEDGE, p. 246.
[80] PANNENBERG, Wolfhart. Teologia Sistemática – Volume II. Santo André; São Paulo: Editora Academia Cristã; Paulus, 2009. p. 588.
[81] AULÉN, Gustaf. Christus Victor. An historical study of the three main types of the idea of the atonement. London: SPCK Publishing, 1975.
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[83] MCNALL, Joshua M. The mosaic of atonement: an integrated approach to Christ’s work. Grand Rapids: Zondervan Academic, 2019.
[84] MCNALL, p. 19-20.
[85] MCNALL, p. 20.
[86] BEILBY, James; EDDY, Paul (Ed.). The Nature of the Atonement: Four Views. Downers Grove: InterVarsity Press, 2006. n. p.
[87] MCNALL, p. 22.
[88] MCNALL, p. 23.
[1] Pós-graduando em Teologia do Novo Testamento pelo Centro Universitário Filadélfia – UNIFIL/CPGJE. Pós graduado em Plantação e Revitalização de Igrejas pela Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba – FATEV/CTPI. Bacharel em Teologia pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro – FABAT/STBSB. E-mail: teo.gabrielrs@gmail.com
[2] Para maiores detalhes da metodologia utilizada confira: GORMAN, Michael J. Introdução à exegese bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
[3] C.f. 1Co 2.2; 1Co 15.3.
[4] HOOKER, Morna D. Not Ashamed of the Gospel: New Testament Interpretations of the Death of Christ. Grand Rapids: W. B. Eerdmans Publishing, 1994. p. 19.
[5] GREEN, J. B. Morte de Cristo. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 855.
[6] MCGRATH, A. E. Cruz, Teologia da. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 359.
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[8] BAKER, Mark D.; GREEN, Joel B. Recovering the Scandal of the Cross. Atonement in New Testament and Contemporary Contexts. 2. ed. Downers Grove: InterVarsity Press, 2011. n. p.
[9] STOTT, John. A Cruz de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2006.
[10] RUTLEDGE, p. 242-243.
[11] BEILBY, James; EDDY, Paul (Ed.). The Nature of the Atonement: Four Views. Downers Grove: InterVarsity Press, 2006. n. p.
[12] RUTLEDGE, p. 37.
[13] FEE, Gordon. Cristologia Paulina: um estudo exegético-teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 2023. n. p.
[14] Quanto à autoria da carta aos Colossenses, o pressuposto adotado por este artigo é a da autenticidade da autoria paulina. Não há espaço para sustentar tal posição neste artigo, nem é o objetivo do mesmo. Porém, os principais argumentos a favor da autoria paulina de Colossenses podem ser encontrados em KÖSTENBERGER, Andreas J.; KELLUM, L. Scott; QUARLES, Charles L. Introdução ao Novo Testamento: a manjedoura, a cruz e a coroa. São Paulo: Vida Nova, 2022. n.p.; CARSON, D. A.; MOO, Douglas J. O comentário de Colossenses e Filemon. São Paulo: Shedd Publicações, 2020. p. 50-66; O’BRIEN, P. T. Colossenses, Carta aos. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 251-253; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 364-367.
[15] NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
[16] MOO, Douglas J. O comentário de Colossenses e Filemon. São Paulo: Shedd Publicações, 2020. p. 264.
[17] Para uma descrição mais detalhada dos princípios básicos defendidos por esse falso ensino, confira: MOO, p. 76-89.
[18] RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2003. p. 493.
[19] GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 1993. p. 223.
[20] MOO, p. 268.
[21] BEALE, G. K. Colossenses e Filemon: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2022. n. p.
[22] MOO, p. 268.
[23] MOO, p. 269.
[24] MOO, p. 269.
[25] KÖSTENBERGER, Andreas J.; KELLUM, L. Scott; QUARLES, Charles L. Introdução ao Novo Testamento: a manjedoura, a cruz e a coroa. São Paulo: Vida Nova, 2022. n.p.
[26] WRIGHT, N. T. Colossians and Philemon: an introduction and commentary. Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1986. n. p.
[27] RUSCONI, p. 135.
[28] GINGRICH; DANKER, p. 58.
[29] MOO, p. 269.
[30] MOO, p. 269.
[31] MOO, p. 269-270.
[32] MOO, p. 270.
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[34] BEALE, n. p.
[35] WRIGHT, N. T. O dia em que a revolução começou; reinterpretando a crucificação de Jesus. Brasília: Editora Chara, 2017. p. 274.
[36] WRIGHT, 1986. n. p.
[37] BRUCE, F. F. The epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1984. p. 108-109.
[38] BEALE, n. p.
[39] CERFAUX, Lucien. Cristo na teologia de Paulo. São Paulo: Editora Teológica, 2003. p. 123.
[40] BOCK, Darrell. Teologia das Epístolas Paulinas Escritas na Prisão. In: ZUCK, Roy B. (Ed.) Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 333-334.
[41] RUSCONI, p. 79.
[42] GINGRICH; DANKER, p. 35.
[43] RUSCONI, p. 180.
[44] GINGRICH; DANKER, p. 77.
[45] REID, D. G. Autoridades e Poderes. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 144-145.
[46] REID, D. G. Autoridades e Poderes, p. 145.
[47] WRIGHT, 1986, n. p.
[48] WRIGHT, 2017, p. 273.
[49] MOO, p. 94.
[50] MOO, p. 94.
[51] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. 2. ed. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985. p. 376.
[52] RUSCONI, p. 61. GINGRICH; DANKER, p. 28.
[53] MOO, p. 272-273.
[54] MOO, p. 273.
[55] MOO, p. 274.
[56] LADD, p. 407. WRIGHT, 1986, n. p.
[57] CERFAUX, p. 85.
[58] RUSCONI, p. 116.
[59] GINGRICH; DANKER, p. 50.
[60] RUSCONI, p. 228.
[61] GINGRICH; DANKER, p. 98.
[62] MOO, p. 275.
[63] WRIGHT, 1986. n. p.
[64] BEALE, n. p.
[65] REID, D. G. Triunfo. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p. 1210.
[66] THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: uma abordagem canônica e sintética. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p. 460.
[67] WRIGHT, 2017, p. 274.
[68] WRIGHT, 2017, p. 275.
[69] BEALE, n. p.
[70] BEALE, n. p.
[71] MOO, p. 276-277.
[72] REID, D. G. Autoridades e Poderes, p. 146.
[73] GREEN, J. B. Morte de Cristo, p. 856.
[74] GREEN, J. B. Morte de Cristo, p. 856.
[75] CAIRD, George. The Language and Imagery of the Bible. Philadelphia: The Westminster Press, 1980. p. 190-193.
[76] DUNN, James D. G. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 277.Morna Hooker afirma algo semelhante em seu livro sobre as interpretações do Novo Testamento para a morte de Jesus. HOOKER, Morna D. Not Ashamed of the Gospel: New Testament Interpretations of the Death of Christ. Grand Rapids: W. B. Eerdmans Publishing, 1994. p. 45.
[77] MCKNIGHT, Scot. A Community Called Atonement. Nashville: Abingdon Press, 2007. n. p.
[78] MCKNIGHT, n. p.
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[80] PANNENBERG, Wolfhart. Teologia Sistemática – Volume II. Santo André; São Paulo: Editora Academia Cristã; Paulus, 2009. p. 588.
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[83] MCNALL, Joshua M. The mosaic of atonement: an integrated approach to Christ’s work. Grand Rapids: Zondervan Academic, 2019.
[84] MCNALL, p. 19-20.
[85] MCNALL, p. 20.
[86] BEILBY, James; EDDY, Paul (Ed.). The Nature of the Atonement: Four Views. Downers Grove: InterVarsity Press, 2006. n. p.
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