O enredo dos Evangelhos: Raízes etimológicas, mensagem teológica e complexidade literária no contexto do Novo Testamento

O enredo dos Evangelhos: Raízes etimológicas, mensagem teológica e complexidade literária no contexto do Novo Testamento

Paulo Sila da Silva Alves Junior[1]; Ana Karoline dos Santos da Silva[2]

Resumo

Resumo: Este artigo propõe uma análise metodológica da complexidade intrínseca ao termo "evangelho" e sua relação com a biografia de Jesus e o conceito teológico do reino de Deus nos Evangelhos. Inicialmente, destaca-se a importância da sociedade greco-romana na compreensão do termo "evangelho", explorando sua ligação com as proclamações imperiais e a recompensa associada às boas notícias. A metodologia empregada inclui a investigação de fontes históricas e teológicas, utilizando a pesquisa comparativa de gêneros literários. O artigo aborda o "problema sinóptico" criticamente, examinando as passagens paralelas e possíveis fontes compartilhadas nos Evangelhos. A análise concentra-se na independência na redação, na existência de fontes compartilhadas e em sua natureza, adotando uma abordagem comparativa dos estilos literários. Explorando o panorama histórico, o artigo destaca a evolução das compreensões do "problema sinóptico" desde a patrística até o Iluminismo, analisando as mudanças de paradigma e criticando hipóteses propostas. A metodologia enfoca a crítica das teorias, desde a Hipótese Agostiniana até a Teoria das Duas Fontes. No contexto do evangelho de João, a análise comparativa destaca diferenças temáticas, geográficas e teológicas, explorando a influência direta ou indireta dos sinópticos. O artigo busca compreender não apenas o conteúdo dos Evangelhos, mas também as metodologias subjacentes às interpretações desses textos fundamentais da tradição cristã.

Palavras-chave: Evangelho; Gêneros Literários; Problema Sinóptico.

Abstract: This article proposes a methodological analysis of the complexity intrinsic to the term "gospel" and its relationship with the biography of Jesus and the theological concept of the kingdom of God in the Gospels. Initially, the importance of Greco-Roman society in understanding the term "gospel" is highlighted, exploring its connection with imperial proclamations and the reward associated with good news. The methodology used includes the investigation of historical and theological sources, using comparative research of literary genres. The article approaches the "synoptic problem" critically by examining parallel passages and possible shared sources in the Gospels. The analysis focuses on independence in writing, the existence of shared sources and their nature, adopting a comparative approach to literary styles. Exploring the historical panorama, the article highlights the evolution of understandings of the "synoptic problem" from patristics to the Enlightenment, analyzing paradigm shifts and criticizing proposed hypotheses. The methodology focuses on the critique of theories, from the Augustinian Hypothesis to the Two-Source Theory. In the context of John's gospel, the comparative analysis highlights thematic, geographical and theological differences, exploring the direct or indirect influence of the synoptics. The article seeks to understand not only the content of the Gospels, but also the methodologies underlying the interpretations of these fundamental texts of the Christian tradition.

Keywords: Gospel; Literary Genres; Synoptic Problem.

Resumo: Este artigo propõe uma análise metodológica da complexidade intrínseca ao termo "evangelho" e sua relação com a biografia de Jesus e o conceito teológico do reino de Deus nos Evangelhos. Inicialmente, destaca-se a importância da sociedade greco-romana na compreensão do termo "evangelho", explorando sua ligação com as proclamações imperiais e a recompensa associada às boas notícias. A metodologia empregada inclui a investigação de fontes históricas e teológicas, utilizando a pesquisa comparativa de gêneros literários. O artigo aborda o "problema sinóptico" criticamente, examinando as passagens paralelas e possíveis fontes compartilhadas nos Evangelhos. A análise concentra-se na independência na redação, na existência de fontes compartilhadas e em sua natureza, adotando uma abordagem comparativa dos estilos literários. Explorando o panorama histórico, o artigo destaca a evolução das compreensões do "problema sinóptico" desde a patrística até o Iluminismo, analisando as mudanças de paradigma e criticando hipóteses propostas. A metodologia enfoca a crítica das teorias, desde a Hipótese Agostiniana até a Teoria das Duas Fontes. No contexto do evangelho de João, a análise comparativa destaca diferenças temáticas, geográficas e teológicas, explorando a influência direta ou indireta dos sinópticos. O artigo busca compreender não apenas o conteúdo dos Evangelhos, mas também as metodologias subjacentes às interpretações desses textos fundamentais da tradição cristã.

Palavras-chave: Evangelho; Gêneros Literários; Problema Sinóptico.

Abstract: This article proposes a methodological analysis of the complexity intrinsic to the term "gospel" and its relationship with the biography of Jesus and the theological concept of the kingdom of God in the Gospels. Initially, the importance of Greco-Roman society in understanding the term "gospel" is highlighted, exploring its connection with imperial proclamations and the reward associated with good news. The methodology used includes the investigation of historical and theological sources, using comparative research of literary genres. The article approaches the "synoptic problem" critically by examining parallel passages and possible shared sources in the Gospels. The analysis focuses on independence in writing, the existence of shared sources and their nature, adopting a comparative approach to literary styles. Exploring the historical panorama, the article highlights the evolution of understandings of the "synoptic problem" from patristics to the Enlightenment, analyzing paradigm shifts and criticizing proposed hypotheses. The methodology focuses on the critique of theories, from the Augustinian Hypothesis to the Two-Source Theory. In the context of John's gospel, the comparative analysis highlights thematic, geographical and theological differences, exploring the direct or indirect influence of the synoptics. The article seeks to understand not only the content of the Gospels, but also the methodologies underlying the interpretations of these fundamental texts of the Christian tradition.

Keywords: Gospel; Literary Genres; Synoptic Problem.

Artigo

1. Introdução

A proposta bíblica do que seja evangelho é para além da sujeição a Cristo ou mesmo seu reflexo biográfico no imaginário dos primeiros discípulos. De um lado, na cosmovisão da sociedade da Antiguidade Clássica, bem como a regionalização cultural helênica preponderante no contexto neotestamentário, surgiram de raízes comuns no cenário dos evangelhos em diferentes perspectivas, influenciando sobremaneira na formulação dos primeiros escritos do Novo Testamento.

Por outro lado, a ênfase no kerigma e a disseminação dos ensinamentos rabínicos nos arredores de Jerusalém e nas terras circunvizinhas, parecem demonstrar a ação evangélica doutrinária para a condução dos primeiros discípulos, em um método indutivo para o que viria ser o Didaquê, com um enfoque na práxis do discipulado dos primeiros cristãos.

O fato é que a postura dos evangelistas como verdadeiros redatores biográficos de uma personalidade um tanto quanto famosa naqueles dias, isto é, o próprio Cristo, é curiosa. Essa égide inclui o modo de pensar cultural da época, incluindo a redação dos primeiros textos, divergindo da vertente conceitual do que seja um “evangelista” – à guisa de Mateus; Marcos; Lucas e João – mas sim do porquê desses evangelistas terem se dedicado à pintura dessa figura tão proeminente como Jesus em sua época.[3]

Este artigo se propõe a explorar os Evangelhos sob uma perspectiva metodológica, buscando compreender a complexidade intrínseca ao termo "evangelho" e sua interseção com a biografia de Jesus e o conceito teológico do reino de Deus. A metodologia empregada para tal análise envolve a investigação de fontes históricas e teológicas, com ênfase nas contribuições de estudiosos como Richard A. Burridge, D. A Carson, Vicent Taylor e Craig S. Keener.

A abordagem inicial se concentra na análise do significado original da palavra "evangelho" na sociedade greco-romana, explorando sua conexão com as proclamações do imperador e a recompensa por trazer boas novas. A metodologia empregada destaca a relevância da cultura da época na compreensão dos Evangelhos, utilizando a pesquisa comparativa de gêneros literários, em particular, as biografias greco-romanas.

Similarmente, o presente artigo propõe-se a abordar o chamado "problema sinóptico", empregando uma abordagem metodológica que compreende a análise crítica das passagens paralelas e a exploração das possíveis fontes compartilhadas.

A metodologia adotada envolve a comparação direta das passagens, destacando o estilo literário utilizado pelos autores, inter-relacionando-os na descrição da biografia de Jesus.

O "problema sinóptico" se aprofunda na identificação de perguntas essenciais que constituem sua gênese. Indagações metodológicas são propostas: a independência na redação dos Evangelhos, a existência de fontes compartilhadas, a natureza dessas fontes e suas influências.

O artigo avança ao panorama histórico, destacando a evolução da compreensão do "problema sinóptico" ao longo do tempo. Desde os primórdios da patrística até as rupturas no Iluminismo, destacando-se as mudanças de paradigma. A metodologia empregada nessa seção envolve a crítica das hipóteses propostas, considerando a evolução das teorias, desde a Hipótese Agostiniana até a contemporânea Teoria das Duas Fontes.

Ao abordar as questões sobre o Evangelho de João, a metodologia destaca a análise comparativa entre esse Evangelho e os sinópticos. As diferenças temáticas, geográficas e teológicas são examinadas meticulosamente, empregando uma abordagem que busca compreender se João leu ou não os sinópticos e a natureza dessa possível influência.

2. O QUE É UM EVANGELHO?

2.1 O imaginário comum

A ideia de evangelho era parte integrante do senso-comum da sociedade do primeiro século, uma vez que já integrava há muito tempo o conteúdo vocabular desse povo. Exemplo disso, no grego mais antigo, em Homero, tem-se informações de que possuía o significado de “recompensa por trazer boas novas”. Atrelado a isso, essa palavra também se relacionava às “boas novas de vitória”; ao culto imperial, para “designar as proclamações do imperador divino, proclamações de boas novas que davam vida e salvação ao povo”. [4][5][6]

Outrossim, em outra perspectiva grega antiga, tratava-se do “sacrifício oferecido por causa das boas novas”, tendo sido ratificada apenas as próprias “boas novas”, como na Septuaginta, em um período mais recente.[7][8]

A partir dessa premissa, percebe-se que o significado latente de um “evangelho” parece estar diretamente relacionado à forma de comunicação entre imperadores, reinos ou autoridades influentes na cultura greco-romana. Desse modo, Richard A. Burridge (2004), em sua obra “What Are The Gospels? A Comparison With Graeco-Roman Biography”, desenvolve essa concepção ao identificar a “βιοι" como elemento comum pertencente à vida greco-romana, de modo que, na perspectiva lucana, a apresentação formal de Jesus no prefácio aliado ao seu trabalho redator, juntamente com Mateus e Marcos tendo a figura messiânica como sujeito central – por exemplo, vinte e cinco por cento de todos os verbos tendo Jesus como sujeito – reforça a similitude entre o pensamento greco-romano da “βιοι" com a literatura dos evangelhos, o que ratifica um forte indício desse “evangelho” como ambientação trivial à cultura da época.[9]

Para tanto, essa proposta é evidenciada ao pensar que a ressignificação do “evangelho” para o mundo político e social do período neotestamentário atendia às narrações caracterizadas como crônicas autênticas da vida do Cristo que viveu na terra a partir de diferentes perspectivas. Consoante R. N. Champlin e R. N. Bentes:[10]

O termo Evangelho para designar cada um dos Quatro Evangelhos começou nos escritos dos pais apostólicos. Os próprios Evangelhos não têm este uso. De modo geral, pode-se afirmar que a palavra tem atravessado três épocas no decorrer da história. 1. Nos antigos autores gregos: recompensa por trazer boas novas. 2. Na Septuaginta e outras obras: as próprias boas novas. 3. No Novo Testamento: as boas novas de Cristo, ou então os livros que apresentam as boas novas sobre Jesus. A palavra “evangelho”, como título do livro de Mateus, não foi usada pelo seu autor com esse sentido especifico, referindo-se ao livro em si, mas muitos autores posteriores têm usado a palavra dessa forma. (CHAMPLIN; BENTES, 1995, p. 601, grifo nosso).

Corroborando significativamente com essa perspectiva, as palavras da carta de Paulo aos filipenses apresentam uma visão radicalmente diferente de divindade da cultura grega daqueles dias. O apóstolo descreve Jesus como alguém que, embora estivesse na forma de Deus, não ambicionou a igualdade divina. Em um ato de humildade e renúncia, Jesus esvaziou-se e assumiu a forma de escravo, desafiando assim a cultura greco-romana que valorizava a busca por honra e evitava a vergonha. Essa retórica de autoesvaziamento propõe uma visão revolucionária da divindade e liderança, rompendo com as normas da sociedade da época, ratificando o conceito de Cristo é Deus, o verdadeiro rei e não o imperador romano, conforme se segue:[11]

Como já foi indicado na Seção II (A Cidade de Filipos), Paulo, o cidadão romano, e os habitantes da colônia romana de Filipos, tinham muito em comum. Em Roma, o culto ao imperador alcançara seu clímax. Naturalmente que isso ocorria em qualquer lugar do império, mas particularmente nas colônias romanas, assim como Filipos. Se Paulo está escrevendo de uma prisão em Roma, torna-se ainda mais fácil de entender o alcance de suas palavras, quando escritor e leitores estão “envolvidos no mesmo conflito” (Fp 1.30; notar especialmente o contexto: Fp 1.27), do que estando ele a escrever de qualquer outro lugar. Se ele está escrevendo de Roma, então se torna evidente a razão pela qual ele põe tanta ênfase no fato de ser ele fiel a Cristo, e que este é Deus (Cl 1.15; 2.9; Fp 2.6). (HENDRIKSEN; KISTEMAKER, 2019, p. 384, grifo nosso).

2.1 O imaginário teológico

Em um exame profundo dos evangelhos, a concepção do reino de Deus surge como uma mensagem transformadora. Em Marcos, a boa notícia é proclamada como a vinda de Jesus, enquanto em Mateus, o reino é apresentado como próximo (KEENER, 2004). A ligação entre o reino de Deus e a pessoa de Jesus revela-se em diversas perspectivas: como autoridade real, domínio geográfico, evento escatológico e personificação do reino em Jesus. [12][13][14]

Marcos enfatiza que os sacrifícios dos seguidores de Jesus serão recompensados, tanto na vida eterna quanto nas bênçãos terrenas, proporcionando uma compreensão rica e multifacetada do significado do reino, à guisa do evangelho segundo Marcos 1.14, 15. Com efeito, a apresentação do Reino de Deus é ressaltada na cosmovisão judaica:

Os judeus reconheciam que Deus governava o Universo em um certo sentido no presente, mas oravam diariamente pelo dia quando seu Reino, ou domínio, seria estabelecido sobre todos os povos da Terra. Então – eles criam – todas as pessoas se submeteriam a Deus. Pela razão dos Evangelhos afirmarem que Jesus deve vir duas vezes, eles reconhecem que o Reino vem em dois estágios: o domínio futuro de Deus é estabelecido no presente sobre as vidas daqueles que o obedecem, e sobre todo o mundo quando Jesus voltar. João, entretanto, ainda não estava em posição de fazer tal distinção. (KEENER, 2004, p. 142)

O Evangelho de Lucas, ao registrar a mensagem do anjo a Maria, destaca a promessa de que o filho a ser concebido será chamado Filho do Altíssimo, recebendo o trono de seu pai Davi e reinando sobre a casa de Jacó para sempre. O reino, nesta narrativa, é apresentado como um reinado contínuo, sem fim, consolidando a conexão entre a realeza messiânica e a promessa divina. Nessa perspectiva, o reinado de Jesus sobre a casa de Jacó é declarado como eterno, destacando a infindável duração do seu reino (Βασιλεια). Essa promessa ressalta não apenas a realeza de Jesus, mas também a continuidade perpétua do seu reinado.[15]

Dessa maneira, percebe-se a correlação entre a mensagem do εύαγγελιον e o Reino estabelecido, com o fulcro de estabelecer comunicação entre o rei e os seus súditos, no âmbito espiritual. Para tanto, a forma de descrição dessas boas notícias sob diferentes visões, em forma de biografia como o são nos evangelhos neotestamentários, confirmam essa premissa. Ao optar por apresentar as boas notícias através da estrutura narrativa de uma biografia, os evangelhos proporcionam uma riqueza de detalhes que vai além de simples relatos. A biografia oferece um mergulho profundo na vida e nos ensinamentos da figura central.[16]

Ademais, na Antiguidade, as biografias desempenhavam um papel peculiar ao relatar a vida de uma pessoa famosa, concentrando-se, porém, raramente em sua infância. Mais do que um simples registro cronológico, essas narrativas muitas vezes incluíam detalhes sobre a morte do indivíduo, considerando-a como uma representação significativa do caráter da pessoa (UNGER, 1988).

Na Antiguidade Romana, a concepção moderna de individualidade tinha pouca relevância, pois a identidade e importância das pessoas eram moldadas em relação aos grupos sociais aos quais pertenciam. Nesse fulcro, a própria ação de Jesus reforça esse conceito:

Os milagres são um dos capítulos mais extraordinários da biografia de Jesus. Ele fez milagres de todo tipo, que demonstraram seu poder e sua autoridade em diversas áreas: acalmou uma tempestade, multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho, curou leprosos, cegos de nascença, surdos-mudos, paralíticos, aleijados, libertou muitas pessoas da influência e do controle dos espíritos imundos. (KIVITZ, 2012, p. 401).

Dentro desse contexto, uma biografia destacava um indivíduo não apenas por suas realizações pessoais, mas também por como ele personificava as virtudes valorizadas pela sociedade da época. Essas virtudes eram fundamentais para a construção da reputação e reconhecimento social de um indivíduo. Essas virtudes personificadas pelo indivíduo retratado na biografia não apenas refletem padrões culturais e éticos da sociedade, mas também desempenham um papel significativo na definição do legado e na percepção duradoura que a comunidade terá desse indivíduo. Nas palavras de Juan Luis Segundo:

Esses são, obviamente, os fatos. Jesus, na narração, surge do nada. Dele nada se sabe, simplesmente porque, para quem narra, é um ser perdido na multidão anônima de Israel. O “princípio” de Jesus é, na realidade, o princípio da tarefa narrativa que o tira desse anonimato. “Antes” não se sabe quem é: ainda não começou. Quando aparece, e a atenção se fixa nele, trata-se de um dentre essa multidão que vai submeter-se ao rito penitencial do Batista. Aparentemente (“historicamente”, digamos), é um pecador que se confessa como tal, converte-se e recebe o rito, esperando com ele o perdão de seus pecados. (SEGUNDO, 1997, p. 104, grifo nosso).

Ao considerar os evangelhos, é interessante observar que, de acordo com uma perspectiva acadêmica, eles podem ser vistos como dirigidos às comunidades cristãs em vez de servirem como ferramentas de evangelização para não cristãos (KEENER, 2004). Esse direcionamento é evidenciado pelo pressuposto de que os leitores já internalizaram os valores não convencionais proclamados e vividos por Jesus. Em outras palavras, os evangelhos assumem uma audiência que compartilha certos princípios e crenças (BURRIDGE, 2004).

É crucial destacar que os Evangelhos, como formas literárias, são versáteis e capazes de incorporar diversas outras formas de expressão, como parábolas, histórias de nascimento, genealogias, discursos de despedida, sermões, entre outros. Esse aspecto é fundamental para compreender a tradição evangélica que contribuiu para a construção dessas narrativas, demonstrando a riqueza e a diversidade de elementos presentes nos textos (SEGUNDO, 1997).

Um fato intrigante é a ausência de assinaturas nos evangelhos, indicando que eles possuem uma origem tradicional, transmitida ao longo do tempo. A falta de autoria individual destaca a natureza coletiva e colaborativa da tradição, em que diferentes vozes e perspectivas convergem para formar os relatos evangélicos. Essa ausência de assinatura também levanta questões sobre a natureza da autoridade e autenticidade desses textos.[17]

2.3 A definição

Assim, ao analisar a relação entre biografias antigas e os evangelhos, percebe-se que não apenas diferenças superficiais, mas também nuances profundas que refletem as complexidades das sociedades em que esses relatos foram produzidos. Essas observações lançam luz sobre as estruturas sociais, valores e tradições que moldaram tanto as biografias quanto os evangelhos, proporcionando uma compreensão mais profunda do papel dessas narrativas na comunicação e preservação de valores culturais (SCOTT JR., 2017).

Portanto, a conceituação do que seja “evangelho” parece estar intrinsicamente relacionada à biografia de Jesus e ao Reino de Deus, este, como autoridade real, domínio geográfico, evento escatológico e personificação no Cristo – e aquela, revelando uma ligação profunda com a presença e a pessoa de Jesus em detalhes minuciosos. O próprio título do evangelho de Marcos desenvolve essa ideia e a responde: “Princípio do Evangelho (‘boa notícia’) de Jesus Cristo (o ‘Messias’), Filho de Deus.” [18]

Indubitavelmente, há uma característica distintiva que esclarece o caráter específico dessa narrativa. Não é por acaso que o termo geral "evangelhos" é atribuído a um gênero de obras que se diferencia tanto de "biografias" quanto de "histórias" (SEGUNDO, 1997). Também não se enquadra meramente como uma forma de jornalismo, destinada a relatar "notícias". Embora, de fato, a intenção seja comunicar uma notícia, o leitor é informado de que essa notícia é "boa". A partir desse ponto, tudo o que se desenrola na narrativa é, de certa forma, permeado pela tentativa de demonstrar que é verdadeiramente "boa". E sim, de fato, trata-se da figura do summum bonum.

2. O PROBLEMA SINÓPTICO

Ao iniciar a leitura dos Evangelhos, cuidando-se da descrição da vida e da obra de Jesus, fica evidente a similaridade entre os três primeiros, isto é, os evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas. A redação dos textos parece revelar uma fonte comum entre os autores, refletindo a possibilidade de até mesmo os colocar lado a lado a fim de compará-los. À guisa de exemplificação, parece que o evangelista Lucas sob orientação da tradição oral, no capítulo onze, dos versículos nove a treze, narra a parábola de Jesus:

9 E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; 10 Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á. 11 E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? 12 Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem? (BÍBLIA, 2023, p.1085).

Não obstante, Mateus, no capítulo sete, dos versículos sete a onze, também parece escrever em uso da mesma fonte oral:

7. Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. 8. Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á. 9. Ou qual dentre vós é o homem que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? 10. Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? 11. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhes pedirem? (BÍBLIA, 2023, p. 991).

Além disso, parece haver também uma relação literária entre os três evangelhos de forma a narrarem episódios idênticos, como observado no evangelho de Mateus, capítulo nove e versículo seis:

Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico): Levanta- te, toma o teu leito, e vai para tua casa. (BÍBLIA, 2023, p. 995).

O evangelho de Marcos também ressalta: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse ao paralítico)” (BÍBLIA, 2023, p. 1033). Também, Lucas, em seu evangelho, no capítulo cinco e versículo vinte e quatro, escreve: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te digo: Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa.” (BÍBLIA, 2023, p. 1072). Nesse sentido, surge o que é chamado de “problema sinóptico”, excetuando-se o evangelho de João. Em uma breve introdução, R. N. Champlin e R. N. Bentes afirmam:[19][20]

O termo sinóptico se deriva do grego synoptikos, forma adjetivada de «synopsis», formada de syn (com) e opsis (vista). O que, aplicado aos evangelhos, veio a significar «vistos de um ponto de vista comum». Isso significa que os três evangelhos chamados «sinópticos» encaram a vida, os ensinamentos e a significação da vida de Jesus do mesmo ponto de vista. em contraste com o ângulo de João, cuja apresentação é bem diferente. Pode reconstituir uma harmonia passável com os evangelhos sinópticos, que registram a vida de Jesus na Galileia, com algumas viagens laterais a outros lugares. (CHAMPLIN; BENTES, 1995, p. 601, grifo nosso).

Nessa perspectiva, pode-se postular algumas perguntas que incorporam em si mesmas a gênese do problema sinóptico:

Os evangelhos foram redigidos de maneira independente, sem depender uns dos outros, sem recorrer a fontes comuns, seja de tradição oral ou escrita, sendo as narrativas resultantes de recordações individuais?

Se houve, de fato, fontes compartilhadas, sejam elas de caráter oral ou escrito, qual a natureza dessas fontes e quantas delas existiram?

Quanto à questão de qual dos evangelhos sinópticos é o primário, e se este foi diretamente utilizado como fonte informativa pelos demais evangelistas, como explicar as discrepâncias, mesmo no material que foi utilizado em comum?

Quando um evangelho não-primário apresenta material distintivo, qual foi a fonte informativa que o influenciou?

2.1 Perspectivas do problema sinóptico

Essa reflexão crítica remete ao cerne da historiografia e do cronismo próprio dos evangelhos. Eusébio de Cesareia já discorria sobre esse conteúdo, ao afirmar aos cristãos do primeiro século que deveriam utilizar os escritos de Clemente, bem como os de Mateus, Marcos e Lucas recomendando a utilização dos Evangelhos, por serem redigidos por “homens inspirados” e por “apóstolos de Cristo” (CESAREIA, 2002, p. 64).

Entretanto, o historiador já fazia alguns apontamentos sobre a ordem do Evangelhos, em uma espécie de crítica literária antiga do que viria a ser o problema sinóptico:

6. Com efeito Mateus, que primeiramente tinha pregado aos hebreus, quando estava a ponto de ir para outros, entregou por escrito seu Evangelho, em sua língua materna, fornecendo assim por meio da escritura o que faltava de sua presença entre aqueles de quem se afastava. 7. Marcos e Lucas já tinham publicado seus respectivos evangelhos, enquanto de João se diz que em todo este tempo continuava usando a pregação não escrita, mas que por fim chegou também a escrever, pelo seguinte motivo. Os três evangelhos anteriormente escritos já haviam sido distribuídos para todos, inclusive para o próprio João, e diz-se que este os aceitou e deu testemunho de sua veracidade, mas também que lhes faltava unicamente a narrativa do que Cristo havia feito nos primeiros tempos e no começo de sua pregação. (CESAREIA, 2002, p. 65).

Para tanto, a sequência observada nos evangelhos sinópticos não pode ser considerada uma simples coincidência, sugerindo que há um propósito cuidadosamente planejado por trás dessa disposição. No entanto, é crucial destacar que essa ordem não necessariamente reflete de maneira precisa a cronologia real dos eventos no ministério de Jesus. A aparente sincronia na narrativa sugere uma organização deliberada, possivelmente com o objetivo de transmitir mensagens teológicas e temas específicos (HENGEL, 2000).

Além disso, a notável similaridade no vocabulário e estilo literário em passagens compartilhadas entre os evangelhos aponta para uma complexidade além da simples transmissão oral. A coincidência linguística vai além do que seria esperado em um contexto puramente oral, levantando a possibilidade de que os evangelistas podem ter tido acesso a fontes escritas ou compartilhado uma tradição literária comum (DUNN, 2006).

No período da patrística, aconteceram algumas discussões, embora incipientes, a respeito desse tema. Eusébio, por exemplo, destaca que, segundo Orígenes, a estrutura inicial, com Mateus seguido por Marcos e Lucas, era considerada significativa (CESAREIA, 2002). No entanto, uma perspectiva diferente é defendida por Tertuliano, que argumentava que Mateus e João foram os primeiros a serem escritos, seguidos por Marcos e Lucas (STEVENSON, 2013). Essas divergências foram objeto de análise e discussão, e no início do século V, Agostinho de Hipona aprofundou a proposta de Irineu e Orígenes. Ele elaborou a ideia de que os Evangelhos foram escritos de acordo com a ordem apresentada no cânon, adicionando mais detalhes à concepção existente. Essa visão mais elaborada proposta por Agostinho ficou conhecida como a Hipótese Agostiniana e manteve sua influência até o final do século XVIII (HENGEL, 2000).

Durante o Iluminismo, uma notável ruptura com o consenso da hipótese agostiniana ocorreu em 1776, quando Griesbach publicou uma sinopse dos evangelhos sinópticos. Em contraste com Agostinho, que procurou harmonizá-los, Griesbach adotou uma abordagem distinta ao colocá-los lado a lado, expondo abertamente suas semelhanças e diferenças.

Ao analisar a posição proeminente ocupada pelo evangelho de Marcos, Griesbach propôs a posterioridade do evangelho marcano, segundo D. A Carson:

As part of his ground-breaking critical approach to the Synoptic Gospels, J. J. Griesbach, while agreeing that Matthew was the first gospel written, maintained that Luke was second and that Mark was dependent on both Matthew and Luke. His proposal, dubbed the two-gospel hypothesis to contrast it with the two-source hypothesis, has enjoyed a considerable resurgence in popularity in the last thirty years. (CARSON, 2009, p. 94).

Essa perspectiva foi posteriormente reintroduzida em 1964 por William R. Farmer na obra "The Synoptic Problem", tornando-se conhecida como a "Hipótese dos Dois Evangelhos", referindo-se a Mateus e Lucas (FARMER, 1964).

No entanto, essa hipótese enfrentou resistência e não ganhou notoriedade devido à dificuldade em conceber que Marcos teria utilizado tanto o primeiro quanto o terceiro evangelho, omitindo, paradoxalmente, referências cruciais como o nascimento e a infância de Jesus, assim como as aparições pós-ressurreição.

No século XIX, estudiosos do Novo Testamento, principalmente na Alemanha, passaram a empregar de maneira mais rigorosa as ferramentas disponíveis na crítica literária ao enfrentar o problema sinóptico. As primeiras propostas nessa época giravam em torno de um novo evangelho, denominado "protoevangelho", originalmente escrito em aramaico e considerado como precedente aos demais Evangelhos (LACHMANN, 1835).

Nesse contexto, formou-se um consenso de que o evangelho de Marcos teria servido como a principal fonte para os evangelhos de Mateus e Lucas. Christian Hermann Weisse, em sua obra "Die Evangelische Geschichte" de 1838, foi pioneiro ao sugerir que Mateus e Lucas teriam se apropriado independentemente de duas fontes: Marcos e "Q" (abreviação alemã para "fonte") (WEISSE, 2010).

Segundo Weisse (2010), "Q" apareceu inicialmente como ditos mencionados por Pápias, que a teria chamado de "λογια". Cerca de um século depois, essa hipótese foi difundida nas regiões de língua anglo-saxônica por Burnett Hillman Streeter, em seu trabalho "The Four Gospels". Streeter (1924) fundamentou sua conclusão em quatro pontos principais:

1. A quase totalidade do conteúdo de Marcos também é encontrado em Mateus ou Lucas. 2. A ordem dos relatos em Marcos é consistentemente seguida por Mateus ou Lucas. 3. Streeter aplicou com precisão a mesma lógica ao fenômeno do fraseado presente em cada passagem de Marcos. 4. Ele observou que a linguagem narrativa de Marcos parecia mais fresca e vívida em comparação com os outros Evangelhos.

Essas proposições marcaram um avanço significativo na abordagem do problema sinóptico, influenciando a pesquisa subsequente sobre as relações entre os evangelhos sinópticos. A ênfase na identificação e análise de fontes específicas, como "Q" e a prioridade de Marcos, proporcionou uma base sólida para a compreensão das semelhanças e diferenças entre Mateus, Marcos e Lucas.

As intersecções entre os evangelhos vão além das passagens paralelas com Marcos, ocorrendo frequentemente entre Mateus e Lucas, mesmo na ausência de Marcos. Um exemplo é Mateus, capítulo 3, dos versículos sete a dez e Lucas, capítulo três, dos versículos sete a nove. A Teoria das Duas Fontes propõe que essa concordância se deve à dependência de Mateus e Lucas em relação a uma fonte não-marcana, comumente denominada "Q". Esta teoria, similar à prioridade marcana, é cumulativa e, em certo sentido, negativa, pois sugere uma alternativa à possibilidade de Lucas ter tido acesso direto a Mateus (CARSON, 2009).

A ordem do material da dupla tradição é crucial na avaliação dessa teoria. Se Lucas tivesse acessado Mateus, seria estranho ele ter alterado completamente a ordem do material didático de Mateus, que é claro e conciso, dividido em cinco blocos temáticos. Entretanto, Lucas não fez tantas mudanças na ordem de Marcos. A aparente relutância de Lucas em modificar a ordem da fonte marcana contrasta com a liberdade que ele exibiu na reorganização do material de Mateus (LINDSEY, 1963).

Alguns estudiosos consideram improvável que Lucas tenha tido acesso direto a Mateus. Parece mais plausível que ambos os evangelistas tenham dependido de uma tradição em comum para o material não-marcano compartilhado.[21]

A preservação mais fiel da ordem de “Q” por Lucas, em comparação com a reorganização temática de Mateus, sugere um paralelo com o tratamento de Marcos e reforça a ideia de uma fonte comum para o material. (CARSON, 2009).

Dessa forma, a maioria dos estudiosos atualmente assume que Lucas preservou a ordem de “Q” de maneira mais fidedigna do que Mateus, argumentando que a organização temática desse material pode ser explicada pela estrutura dos cinco discursos, conforme proposto por Taylor (1959).

Logo, a Teoria das Duas Fontes emerge como uma solução provavelmente mais coerente para o problema sinóptico, apresentando-se, pelo menos aparentemente, como a menos problemática. Contudo, sua aceitação não se dá sem desafios, sendo impossível prová-la com precisão matemática, uma vez que muitos argumentos utilizados na discussão são reversíveis.

Todos os argumentos surgem de afirmações que apontam para o desenvolvimento da tradição em uma direção como mais provável do que o desenvolvimento inverso. No entanto, reconhece-se que tais afirmações são subjetivas e sempre sujeitas a uma reconversão que explique a mudança oposta em questão. O máximo que se pode afirmar é que a Teoria das Duas Fontes fornece um relato razoavelmente abrangente no desenvolvimento da tradição, fundamentando-se nos princípios da dependência de Mateus e Lucas das tradições de Marcos e Q (FARMER, 1964).

O problema sinóptico, de grande importância em diversos campos, remete à busca do isolamento das vertentes mais antigas da tradição como uma possível via de acesso ao Jesus Histórico. No entanto, trabalhos como o de Weisee (2010), explorando o Segredo Messiânico de Marcos e as teorias sobre Q, indicam que mesmo as fontes mais antigas podem distanciar o leitor de Jesus. A resolução do problema sinóptico torna-se crucial para o retorno às partes iniciais da tradição.

Essa problemática também serve como base para inúmeros estudos críticos na redação dos evangelhos, muitos dos quais assumem a Teoria das Duas Fontes. Tais estudos buscam iluminar as teologias de Mateus e Lucas, analisando as alterações que realizaram em suas fontes. Qualquer teoria alternativa sobre as relações sinópticas pode implicar uma mudança drástica na avaliação das teologias dos evangelistas individuais (STREETER, 1924).

2.2 O evangelho de João e os sinópticos

Não é possível discorrer sobre os evangelhos sinópticos sem mencionar o evangelho de João, nem o correlacionar a estes. Afinal, onde está o evangelho de João? As diferenças entre João e os sinópticos permanecem sendo detalhadas. Para D. A. Carson (2009), entende-se que eventos importantes foram omitidos da perspectiva joanina, tais como: narrativas de parábolas e a Transfiguração, bem como temas centrais concernentes ao Reino de Deus parecem sair de cena, como se segue:

John omits many things that are characteristic of the Synoptics: narrative parables, the account of the transfiguration, the record of the institution of the Lord’s Supper, and many of Jesus’ pithy sayings. Themes central to the Synoptics have all but disappeared (especially the theme of the kingdom of God/heaven). Conversely, John includes a fair bit of material of which the synoptists make no mention: virtually all the material in John 1–5, Jesus’ frequent visits to Jerusalem and what takes place there, the resurrection of Lazarus, extended dialogues and discourses, and much more. (CARSON, 2009, p. 257)

Outrossim, o evangelista João possui um foco geográfico distinto dos demais evangelistas, posto que reporta a ação do ministério de Jesus no Sul, na Judeia e em Samaria, mais do que na Galileia, enquanto os sinópticos fazem o contrário. Entretanto, a questão geográfica não é um fator preponderante na comparação entre as narrativas. O fato é que em João, Jesus é explicitamente identificado como Deus, frequentemente utilizando-se da declaração “Eu sou”, algumas vezes como predicado, outras de forma absoluta. [22][23][24]

Por outro lado, muitas narrativas apresentadas no evangelho de João são detalhadas apenas nos sinópticos, como é o caso do julgamento de Jesus. Na narrativa, o julgamento acontece tão rapidamente na corte romana que é difícil perceber a ação judicial dos judeus, se houvesse, a fim de precipitar o julgamento – diferente do que é redigido pelos outros evangelistas. [25]

Em um momento anterior, é possível que Filipe aparentemente hesite em trazer os gentios para Jesus, em conversa com André antes da aproximação de Jesus, pensando na proibição de ir entre os gentios emitida pelo próprio Cristo, um ponto não relatado por João. [26][27]

Embora a maioria dos pesquisadores sustentem a tese de Dodd (1976) ao afirmarem que não há nenhuma evidência sólida para correlacionar João aos evangelhos sinópticos, um número considerável de eruditos sugere que João leu pelo menos Marcos e, talvez, também Mateus, ou, ainda, pelo menos leu a tradição sinóptica substancial. [28][29]

Certamente, todos concordam que se João fez uso de qualquer um dos sinópticos, a dependência é bem diferente daquela entre Marcos e Mateus, ou ainda, Judas e a Segunda Carta de Pedro. Sem dúvidas, nas palavras de D. A. Carson (2009, p. 259): “he fourth evangelist chose to write his own book”, isto é, “o quarto evangelista escolheu escrever seu próprio livro.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, a análise do conceito de "evangelho" revela sua raiz etimológica e sua conexão intrínseca com a cultura greco-romana do primeiro século. Originado como um termo associado às boas notícias, recompensas por vitórias e proclamações imperiais, o significado da palavra evoluiu ao longo do tempo, especialmente no contexto do Novo Testamento.

Além disso, o entendimento teológico do reino de Deus emerge como uma mensagem transformadora nos Evangelhos. O relacionamento entre o reino e a pessoa de Jesus é explorado em diferentes perspectivas, como autoridade real, domínio geográfico, evento escatológico e personificação do reino em Jesus. Os Evangelhos vão além da simples representação biográfica de Jesus em seu ministério terreno. Eles consistem em um conjunto temas que perpassam a influência cultural, social e teológica, tratando do reino de Deus em uma comunicação direta entre o Rei e seus súditos.

Ademais, a análise da estrutura literária dos Evangelhos, considerando-os como formas versáteis capazes de incorporar diversas expressões, como parábolas e discursos, destaca a natureza coletiva e colaborativa da tradição evangélica.

A ausência de assinaturas individuais levanta questões sobre a autenticidade e autoridade desses textos, sugerindo uma origem tradicional transmitida ao longo do tempo. Em conjunto, esses elementos contribuem para uma definição mais abrangente do que significa "evangelho" no contexto do Novo Testamento.

Nessa égide, ao analisar os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, observa-se uma similaridade notável, sugerindo uma fonte comum. Diversas narrativas são apresentadas nos três evangelhos de maneira semelhante. Essa semelhança, chamada de "problema sinóptico," levanta questões sobre a dependência entre os evangelhos e a natureza das fontes utilizadas.

Aliado a isso, o problema sinóptico refere-se à similaridade entre os evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) em contraste com João. Perguntas essenciais incluem se os evangelhos foram redigidos de maneira independente, a existência e natureza de fontes compartilhadas, e como explicar discrepâncias mesmo em material comum.

O evangelho de João difere dos sinópticos em ênfase geográfica, temas e detalhes narrativos. A questão de sua relação com os sinópticos gera debates, com alguns sugerindo que João leu pelo menos Marcos. No entanto, a dependência é vista como diferente daquela entre os próprios sinópticos, e o entendimento majoritário é que João optou por escrever seu próprio livro. Essas considerações ressaltam a riqueza e a complexidade do material evangélico, oferecendo aos estudiosos um campo vasto para investigações sobre as origens e o desenvolvimento das tradições evangélicas. A interseção entre fontes escritas e tradições orais, evidenciada pelo problema sinóptico, continua a intrigar pesquisadores, enquanto a exclusão de João do grupo sinóptico destaca a multiplicidade de abordagens na transmissão das histórias sobre Jesus. Nesse contexto, a compreensão dos Evangelhos se torna um desafio fascinante, enriquecendo a visão sobre o legado e a diversidade do cristianismo primitivo.

1. Introdução

A proposta bíblica do que seja evangelho é para além da sujeição a Cristo ou mesmo seu reflexo biográfico no imaginário dos primeiros discípulos. De um lado, na cosmovisão da sociedade da Antiguidade Clássica, bem como a regionalização cultural helênica preponderante no contexto neotestamentário, surgiram de raízes comuns no cenário dos evangelhos em diferentes perspectivas, influenciando sobremaneira na formulação dos primeiros escritos do Novo Testamento.

Por outro lado, a ênfase no kerigma e a disseminação dos ensinamentos rabínicos nos arredores de Jerusalém e nas terras circunvizinhas, parecem demonstrar a ação evangélica doutrinária para a condução dos primeiros discípulos, em um método indutivo para o que viria ser o Didaquê, com um enfoque na práxis do discipulado dos primeiros cristãos.

O fato é que a postura dos evangelistas como verdadeiros redatores biográficos de uma personalidade um tanto quanto famosa naqueles dias, isto é, o próprio Cristo, é curiosa. Essa égide inclui o modo de pensar cultural da época, incluindo a redação dos primeiros textos, divergindo da vertente conceitual do que seja um “evangelista” – à guisa de Mateus; Marcos; Lucas e João – mas sim do porquê desses evangelistas terem se dedicado à pintura dessa figura tão proeminente como Jesus em sua época.[3]

Este artigo se propõe a explorar os Evangelhos sob uma perspectiva metodológica, buscando compreender a complexidade intrínseca ao termo "evangelho" e sua interseção com a biografia de Jesus e o conceito teológico do reino de Deus. A metodologia empregada para tal análise envolve a investigação de fontes históricas e teológicas, com ênfase nas contribuições de estudiosos como Richard A. Burridge, D. A Carson, Vicent Taylor e Craig S. Keener.

A abordagem inicial se concentra na análise do significado original da palavra "evangelho" na sociedade greco-romana, explorando sua conexão com as proclamações do imperador e a recompensa por trazer boas novas. A metodologia empregada destaca a relevância da cultura da época na compreensão dos Evangelhos, utilizando a pesquisa comparativa de gêneros literários, em particular, as biografias greco-romanas.

Similarmente, o presente artigo propõe-se a abordar o chamado "problema sinóptico", empregando uma abordagem metodológica que compreende a análise crítica das passagens paralelas e a exploração das possíveis fontes compartilhadas.

A metodologia adotada envolve a comparação direta das passagens, destacando o estilo literário utilizado pelos autores, inter-relacionando-os na descrição da biografia de Jesus.

O "problema sinóptico" se aprofunda na identificação de perguntas essenciais que constituem sua gênese. Indagações metodológicas são propostas: a independência na redação dos Evangelhos, a existência de fontes compartilhadas, a natureza dessas fontes e suas influências.

O artigo avança ao panorama histórico, destacando a evolução da compreensão do "problema sinóptico" ao longo do tempo. Desde os primórdios da patrística até as rupturas no Iluminismo, destacando-se as mudanças de paradigma. A metodologia empregada nessa seção envolve a crítica das hipóteses propostas, considerando a evolução das teorias, desde a Hipótese Agostiniana até a contemporânea Teoria das Duas Fontes.

Ao abordar as questões sobre o Evangelho de João, a metodologia destaca a análise comparativa entre esse Evangelho e os sinópticos. As diferenças temáticas, geográficas e teológicas são examinadas meticulosamente, empregando uma abordagem que busca compreender se João leu ou não os sinópticos e a natureza dessa possível influência.

2. O QUE É UM EVANGELHO?

2.1 O imaginário comum

A ideia de evangelho era parte integrante do senso-comum da sociedade do primeiro século, uma vez que já integrava há muito tempo o conteúdo vocabular desse povo. Exemplo disso, no grego mais antigo, em Homero, tem-se informações de que possuía o significado de “recompensa por trazer boas novas”. Atrelado a isso, essa palavra também se relacionava às “boas novas de vitória”; ao culto imperial, para “designar as proclamações do imperador divino, proclamações de boas novas que davam vida e salvação ao povo”. [4][5][6]

Outrossim, em outra perspectiva grega antiga, tratava-se do “sacrifício oferecido por causa das boas novas”, tendo sido ratificada apenas as próprias “boas novas”, como na Septuaginta, em um período mais recente.[7][8]

A partir dessa premissa, percebe-se que o significado latente de um “evangelho” parece estar diretamente relacionado à forma de comunicação entre imperadores, reinos ou autoridades influentes na cultura greco-romana. Desse modo, Richard A. Burridge (2004), em sua obra “What Are The Gospels? A Comparison With Graeco-Roman Biography”, desenvolve essa concepção ao identificar a “βιοι" como elemento comum pertencente à vida greco-romana, de modo que, na perspectiva lucana, a apresentação formal de Jesus no prefácio aliado ao seu trabalho redator, juntamente com Mateus e Marcos tendo a figura messiânica como sujeito central – por exemplo, vinte e cinco por cento de todos os verbos tendo Jesus como sujeito – reforça a similitude entre o pensamento greco-romano da “βιοι" com a literatura dos evangelhos, o que ratifica um forte indício desse “evangelho” como ambientação trivial à cultura da época.[9]

Para tanto, essa proposta é evidenciada ao pensar que a ressignificação do “evangelho” para o mundo político e social do período neotestamentário atendia às narrações caracterizadas como crônicas autênticas da vida do Cristo que viveu na terra a partir de diferentes perspectivas. Consoante R. N. Champlin e R. N. Bentes:[10]

O termo Evangelho para designar cada um dos Quatro Evangelhos começou nos escritos dos pais apostólicos. Os próprios Evangelhos não têm este uso. De modo geral, pode-se afirmar que a palavra tem atravessado três épocas no decorrer da história. 1. Nos antigos autores gregos: recompensa por trazer boas novas. 2. Na Septuaginta e outras obras: as próprias boas novas. 3. No Novo Testamento: as boas novas de Cristo, ou então os livros que apresentam as boas novas sobre Jesus. A palavra “evangelho”, como título do livro de Mateus, não foi usada pelo seu autor com esse sentido especifico, referindo-se ao livro em si, mas muitos autores posteriores têm usado a palavra dessa forma. (CHAMPLIN; BENTES, 1995, p. 601, grifo nosso).

Corroborando significativamente com essa perspectiva, as palavras da carta de Paulo aos filipenses apresentam uma visão radicalmente diferente de divindade da cultura grega daqueles dias. O apóstolo descreve Jesus como alguém que, embora estivesse na forma de Deus, não ambicionou a igualdade divina. Em um ato de humildade e renúncia, Jesus esvaziou-se e assumiu a forma de escravo, desafiando assim a cultura greco-romana que valorizava a busca por honra e evitava a vergonha. Essa retórica de autoesvaziamento propõe uma visão revolucionária da divindade e liderança, rompendo com as normas da sociedade da época, ratificando o conceito de Cristo é Deus, o verdadeiro rei e não o imperador romano, conforme se segue:[11]

Como já foi indicado na Seção II (A Cidade de Filipos), Paulo, o cidadão romano, e os habitantes da colônia romana de Filipos, tinham muito em comum. Em Roma, o culto ao imperador alcançara seu clímax. Naturalmente que isso ocorria em qualquer lugar do império, mas particularmente nas colônias romanas, assim como Filipos. Se Paulo está escrevendo de uma prisão em Roma, torna-se ainda mais fácil de entender o alcance de suas palavras, quando escritor e leitores estão “envolvidos no mesmo conflito” (Fp 1.30; notar especialmente o contexto: Fp 1.27), do que estando ele a escrever de qualquer outro lugar. Se ele está escrevendo de Roma, então se torna evidente a razão pela qual ele põe tanta ênfase no fato de ser ele fiel a Cristo, e que este é Deus (Cl 1.15; 2.9; Fp 2.6). (HENDRIKSEN; KISTEMAKER, 2019, p. 384, grifo nosso).

2.1 O imaginário teológico

Em um exame profundo dos evangelhos, a concepção do reino de Deus surge como uma mensagem transformadora. Em Marcos, a boa notícia é proclamada como a vinda de Jesus, enquanto em Mateus, o reino é apresentado como próximo (KEENER, 2004). A ligação entre o reino de Deus e a pessoa de Jesus revela-se em diversas perspectivas: como autoridade real, domínio geográfico, evento escatológico e personificação do reino em Jesus. [12][13][14]

Marcos enfatiza que os sacrifícios dos seguidores de Jesus serão recompensados, tanto na vida eterna quanto nas bênçãos terrenas, proporcionando uma compreensão rica e multifacetada do significado do reino, à guisa do evangelho segundo Marcos 1.14, 15. Com efeito, a apresentação do Reino de Deus é ressaltada na cosmovisão judaica:

Os judeus reconheciam que Deus governava o Universo em um certo sentido no presente, mas oravam diariamente pelo dia quando seu Reino, ou domínio, seria estabelecido sobre todos os povos da Terra. Então – eles criam – todas as pessoas se submeteriam a Deus. Pela razão dos Evangelhos afirmarem que Jesus deve vir duas vezes, eles reconhecem que o Reino vem em dois estágios: o domínio futuro de Deus é estabelecido no presente sobre as vidas daqueles que o obedecem, e sobre todo o mundo quando Jesus voltar. João, entretanto, ainda não estava em posição de fazer tal distinção. (KEENER, 2004, p. 142)

O Evangelho de Lucas, ao registrar a mensagem do anjo a Maria, destaca a promessa de que o filho a ser concebido será chamado Filho do Altíssimo, recebendo o trono de seu pai Davi e reinando sobre a casa de Jacó para sempre. O reino, nesta narrativa, é apresentado como um reinado contínuo, sem fim, consolidando a conexão entre a realeza messiânica e a promessa divina. Nessa perspectiva, o reinado de Jesus sobre a casa de Jacó é declarado como eterno, destacando a infindável duração do seu reino (Βασιλεια). Essa promessa ressalta não apenas a realeza de Jesus, mas também a continuidade perpétua do seu reinado.[15]

Dessa maneira, percebe-se a correlação entre a mensagem do εύαγγελιον e o Reino estabelecido, com o fulcro de estabelecer comunicação entre o rei e os seus súditos, no âmbito espiritual. Para tanto, a forma de descrição dessas boas notícias sob diferentes visões, em forma de biografia como o são nos evangelhos neotestamentários, confirmam essa premissa. Ao optar por apresentar as boas notícias através da estrutura narrativa de uma biografia, os evangelhos proporcionam uma riqueza de detalhes que vai além de simples relatos. A biografia oferece um mergulho profundo na vida e nos ensinamentos da figura central.[16]

Ademais, na Antiguidade, as biografias desempenhavam um papel peculiar ao relatar a vida de uma pessoa famosa, concentrando-se, porém, raramente em sua infância. Mais do que um simples registro cronológico, essas narrativas muitas vezes incluíam detalhes sobre a morte do indivíduo, considerando-a como uma representação significativa do caráter da pessoa (UNGER, 1988).

Na Antiguidade Romana, a concepção moderna de individualidade tinha pouca relevância, pois a identidade e importância das pessoas eram moldadas em relação aos grupos sociais aos quais pertenciam. Nesse fulcro, a própria ação de Jesus reforça esse conceito:

Os milagres são um dos capítulos mais extraordinários da biografia de Jesus. Ele fez milagres de todo tipo, que demonstraram seu poder e sua autoridade em diversas áreas: acalmou uma tempestade, multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho, curou leprosos, cegos de nascença, surdos-mudos, paralíticos, aleijados, libertou muitas pessoas da influência e do controle dos espíritos imundos. (KIVITZ, 2012, p. 401).

Dentro desse contexto, uma biografia destacava um indivíduo não apenas por suas realizações pessoais, mas também por como ele personificava as virtudes valorizadas pela sociedade da época. Essas virtudes eram fundamentais para a construção da reputação e reconhecimento social de um indivíduo. Essas virtudes personificadas pelo indivíduo retratado na biografia não apenas refletem padrões culturais e éticos da sociedade, mas também desempenham um papel significativo na definição do legado e na percepção duradoura que a comunidade terá desse indivíduo. Nas palavras de Juan Luis Segundo:

Esses são, obviamente, os fatos. Jesus, na narração, surge do nada. Dele nada se sabe, simplesmente porque, para quem narra, é um ser perdido na multidão anônima de Israel. O “princípio” de Jesus é, na realidade, o princípio da tarefa narrativa que o tira desse anonimato. “Antes” não se sabe quem é: ainda não começou. Quando aparece, e a atenção se fixa nele, trata-se de um dentre essa multidão que vai submeter-se ao rito penitencial do Batista. Aparentemente (“historicamente”, digamos), é um pecador que se confessa como tal, converte-se e recebe o rito, esperando com ele o perdão de seus pecados. (SEGUNDO, 1997, p. 104, grifo nosso).

Ao considerar os evangelhos, é interessante observar que, de acordo com uma perspectiva acadêmica, eles podem ser vistos como dirigidos às comunidades cristãs em vez de servirem como ferramentas de evangelização para não cristãos (KEENER, 2004). Esse direcionamento é evidenciado pelo pressuposto de que os leitores já internalizaram os valores não convencionais proclamados e vividos por Jesus. Em outras palavras, os evangelhos assumem uma audiência que compartilha certos princípios e crenças (BURRIDGE, 2004).

É crucial destacar que os Evangelhos, como formas literárias, são versáteis e capazes de incorporar diversas outras formas de expressão, como parábolas, histórias de nascimento, genealogias, discursos de despedida, sermões, entre outros. Esse aspecto é fundamental para compreender a tradição evangélica que contribuiu para a construção dessas narrativas, demonstrando a riqueza e a diversidade de elementos presentes nos textos (SEGUNDO, 1997).

Um fato intrigante é a ausência de assinaturas nos evangelhos, indicando que eles possuem uma origem tradicional, transmitida ao longo do tempo. A falta de autoria individual destaca a natureza coletiva e colaborativa da tradição, em que diferentes vozes e perspectivas convergem para formar os relatos evangélicos. Essa ausência de assinatura também levanta questões sobre a natureza da autoridade e autenticidade desses textos.[17]

2.3 A definição

Assim, ao analisar a relação entre biografias antigas e os evangelhos, percebe-se que não apenas diferenças superficiais, mas também nuances profundas que refletem as complexidades das sociedades em que esses relatos foram produzidos. Essas observações lançam luz sobre as estruturas sociais, valores e tradições que moldaram tanto as biografias quanto os evangelhos, proporcionando uma compreensão mais profunda do papel dessas narrativas na comunicação e preservação de valores culturais (SCOTT JR., 2017).

Portanto, a conceituação do que seja “evangelho” parece estar intrinsicamente relacionada à biografia de Jesus e ao Reino de Deus, este, como autoridade real, domínio geográfico, evento escatológico e personificação no Cristo – e aquela, revelando uma ligação profunda com a presença e a pessoa de Jesus em detalhes minuciosos. O próprio título do evangelho de Marcos desenvolve essa ideia e a responde: “Princípio do Evangelho (‘boa notícia’) de Jesus Cristo (o ‘Messias’), Filho de Deus.” [18]

Indubitavelmente, há uma característica distintiva que esclarece o caráter específico dessa narrativa. Não é por acaso que o termo geral "evangelhos" é atribuído a um gênero de obras que se diferencia tanto de "biografias" quanto de "histórias" (SEGUNDO, 1997). Também não se enquadra meramente como uma forma de jornalismo, destinada a relatar "notícias". Embora, de fato, a intenção seja comunicar uma notícia, o leitor é informado de que essa notícia é "boa". A partir desse ponto, tudo o que se desenrola na narrativa é, de certa forma, permeado pela tentativa de demonstrar que é verdadeiramente "boa". E sim, de fato, trata-se da figura do summum bonum.

2. O PROBLEMA SINÓPTICO

Ao iniciar a leitura dos Evangelhos, cuidando-se da descrição da vida e da obra de Jesus, fica evidente a similaridade entre os três primeiros, isto é, os evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas. A redação dos textos parece revelar uma fonte comum entre os autores, refletindo a possibilidade de até mesmo os colocar lado a lado a fim de compará-los. À guisa de exemplificação, parece que o evangelista Lucas sob orientação da tradição oral, no capítulo onze, dos versículos nove a treze, narra a parábola de Jesus:

9 E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; 10 Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á. 11 E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? 12 Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem? (BÍBLIA, 2023, p.1085).

Não obstante, Mateus, no capítulo sete, dos versículos sete a onze, também parece escrever em uso da mesma fonte oral:

7. Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. 8. Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á. 9. Ou qual dentre vós é o homem que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? 10. Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? 11. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhes pedirem? (BÍBLIA, 2023, p. 991).

Além disso, parece haver também uma relação literária entre os três evangelhos de forma a narrarem episódios idênticos, como observado no evangelho de Mateus, capítulo nove e versículo seis:

Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico): Levanta- te, toma o teu leito, e vai para tua casa. (BÍBLIA, 2023, p. 995).

O evangelho de Marcos também ressalta: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse ao paralítico)” (BÍBLIA, 2023, p. 1033). Também, Lucas, em seu evangelho, no capítulo cinco e versículo vinte e quatro, escreve: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te digo: Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa.” (BÍBLIA, 2023, p. 1072). Nesse sentido, surge o que é chamado de “problema sinóptico”, excetuando-se o evangelho de João. Em uma breve introdução, R. N. Champlin e R. N. Bentes afirmam:[19][20]

O termo sinóptico se deriva do grego synoptikos, forma adjetivada de «synopsis», formada de syn (com) e opsis (vista). O que, aplicado aos evangelhos, veio a significar «vistos de um ponto de vista comum». Isso significa que os três evangelhos chamados «sinópticos» encaram a vida, os ensinamentos e a significação da vida de Jesus do mesmo ponto de vista. em contraste com o ângulo de João, cuja apresentação é bem diferente. Pode reconstituir uma harmonia passável com os evangelhos sinópticos, que registram a vida de Jesus na Galileia, com algumas viagens laterais a outros lugares. (CHAMPLIN; BENTES, 1995, p. 601, grifo nosso).

Nessa perspectiva, pode-se postular algumas perguntas que incorporam em si mesmas a gênese do problema sinóptico:

Os evangelhos foram redigidos de maneira independente, sem depender uns dos outros, sem recorrer a fontes comuns, seja de tradição oral ou escrita, sendo as narrativas resultantes de recordações individuais?

Se houve, de fato, fontes compartilhadas, sejam elas de caráter oral ou escrito, qual a natureza dessas fontes e quantas delas existiram?

Quanto à questão de qual dos evangelhos sinópticos é o primário, e se este foi diretamente utilizado como fonte informativa pelos demais evangelistas, como explicar as discrepâncias, mesmo no material que foi utilizado em comum?

Quando um evangelho não-primário apresenta material distintivo, qual foi a fonte informativa que o influenciou?

2.1 Perspectivas do problema sinóptico

Essa reflexão crítica remete ao cerne da historiografia e do cronismo próprio dos evangelhos. Eusébio de Cesareia já discorria sobre esse conteúdo, ao afirmar aos cristãos do primeiro século que deveriam utilizar os escritos de Clemente, bem como os de Mateus, Marcos e Lucas recomendando a utilização dos Evangelhos, por serem redigidos por “homens inspirados” e por “apóstolos de Cristo” (CESAREIA, 2002, p. 64).

Entretanto, o historiador já fazia alguns apontamentos sobre a ordem do Evangelhos, em uma espécie de crítica literária antiga do que viria a ser o problema sinóptico:

6. Com efeito Mateus, que primeiramente tinha pregado aos hebreus, quando estava a ponto de ir para outros, entregou por escrito seu Evangelho, em sua língua materna, fornecendo assim por meio da escritura o que faltava de sua presença entre aqueles de quem se afastava. 7. Marcos e Lucas já tinham publicado seus respectivos evangelhos, enquanto de João se diz que em todo este tempo continuava usando a pregação não escrita, mas que por fim chegou também a escrever, pelo seguinte motivo. Os três evangelhos anteriormente escritos já haviam sido distribuídos para todos, inclusive para o próprio João, e diz-se que este os aceitou e deu testemunho de sua veracidade, mas também que lhes faltava unicamente a narrativa do que Cristo havia feito nos primeiros tempos e no começo de sua pregação. (CESAREIA, 2002, p. 65).

Para tanto, a sequência observada nos evangelhos sinópticos não pode ser considerada uma simples coincidência, sugerindo que há um propósito cuidadosamente planejado por trás dessa disposição. No entanto, é crucial destacar que essa ordem não necessariamente reflete de maneira precisa a cronologia real dos eventos no ministério de Jesus. A aparente sincronia na narrativa sugere uma organização deliberada, possivelmente com o objetivo de transmitir mensagens teológicas e temas específicos (HENGEL, 2000).

Além disso, a notável similaridade no vocabulário e estilo literário em passagens compartilhadas entre os evangelhos aponta para uma complexidade além da simples transmissão oral. A coincidência linguística vai além do que seria esperado em um contexto puramente oral, levantando a possibilidade de que os evangelistas podem ter tido acesso a fontes escritas ou compartilhado uma tradição literária comum (DUNN, 2006).

No período da patrística, aconteceram algumas discussões, embora incipientes, a respeito desse tema. Eusébio, por exemplo, destaca que, segundo Orígenes, a estrutura inicial, com Mateus seguido por Marcos e Lucas, era considerada significativa (CESAREIA, 2002). No entanto, uma perspectiva diferente é defendida por Tertuliano, que argumentava que Mateus e João foram os primeiros a serem escritos, seguidos por Marcos e Lucas (STEVENSON, 2013). Essas divergências foram objeto de análise e discussão, e no início do século V, Agostinho de Hipona aprofundou a proposta de Irineu e Orígenes. Ele elaborou a ideia de que os Evangelhos foram escritos de acordo com a ordem apresentada no cânon, adicionando mais detalhes à concepção existente. Essa visão mais elaborada proposta por Agostinho ficou conhecida como a Hipótese Agostiniana e manteve sua influência até o final do século XVIII (HENGEL, 2000).

Durante o Iluminismo, uma notável ruptura com o consenso da hipótese agostiniana ocorreu em 1776, quando Griesbach publicou uma sinopse dos evangelhos sinópticos. Em contraste com Agostinho, que procurou harmonizá-los, Griesbach adotou uma abordagem distinta ao colocá-los lado a lado, expondo abertamente suas semelhanças e diferenças.

Ao analisar a posição proeminente ocupada pelo evangelho de Marcos, Griesbach propôs a posterioridade do evangelho marcano, segundo D. A Carson:

As part of his ground-breaking critical approach to the Synoptic Gospels, J. J. Griesbach, while agreeing that Matthew was the first gospel written, maintained that Luke was second and that Mark was dependent on both Matthew and Luke. His proposal, dubbed the two-gospel hypothesis to contrast it with the two-source hypothesis, has enjoyed a considerable resurgence in popularity in the last thirty years. (CARSON, 2009, p. 94).

Essa perspectiva foi posteriormente reintroduzida em 1964 por William R. Farmer na obra "The Synoptic Problem", tornando-se conhecida como a "Hipótese dos Dois Evangelhos", referindo-se a Mateus e Lucas (FARMER, 1964).

No entanto, essa hipótese enfrentou resistência e não ganhou notoriedade devido à dificuldade em conceber que Marcos teria utilizado tanto o primeiro quanto o terceiro evangelho, omitindo, paradoxalmente, referências cruciais como o nascimento e a infância de Jesus, assim como as aparições pós-ressurreição.

No século XIX, estudiosos do Novo Testamento, principalmente na Alemanha, passaram a empregar de maneira mais rigorosa as ferramentas disponíveis na crítica literária ao enfrentar o problema sinóptico. As primeiras propostas nessa época giravam em torno de um novo evangelho, denominado "protoevangelho", originalmente escrito em aramaico e considerado como precedente aos demais Evangelhos (LACHMANN, 1835).

Nesse contexto, formou-se um consenso de que o evangelho de Marcos teria servido como a principal fonte para os evangelhos de Mateus e Lucas. Christian Hermann Weisse, em sua obra "Die Evangelische Geschichte" de 1838, foi pioneiro ao sugerir que Mateus e Lucas teriam se apropriado independentemente de duas fontes: Marcos e "Q" (abreviação alemã para "fonte") (WEISSE, 2010).

Segundo Weisse (2010), "Q" apareceu inicialmente como ditos mencionados por Pápias, que a teria chamado de "λογια". Cerca de um século depois, essa hipótese foi difundida nas regiões de língua anglo-saxônica por Burnett Hillman Streeter, em seu trabalho "The Four Gospels". Streeter (1924) fundamentou sua conclusão em quatro pontos principais:

1. A quase totalidade do conteúdo de Marcos também é encontrado em Mateus ou Lucas. 2. A ordem dos relatos em Marcos é consistentemente seguida por Mateus ou Lucas. 3. Streeter aplicou com precisão a mesma lógica ao fenômeno do fraseado presente em cada passagem de Marcos. 4. Ele observou que a linguagem narrativa de Marcos parecia mais fresca e vívida em comparação com os outros Evangelhos.

Essas proposições marcaram um avanço significativo na abordagem do problema sinóptico, influenciando a pesquisa subsequente sobre as relações entre os evangelhos sinópticos. A ênfase na identificação e análise de fontes específicas, como "Q" e a prioridade de Marcos, proporcionou uma base sólida para a compreensão das semelhanças e diferenças entre Mateus, Marcos e Lucas.

As intersecções entre os evangelhos vão além das passagens paralelas com Marcos, ocorrendo frequentemente entre Mateus e Lucas, mesmo na ausência de Marcos. Um exemplo é Mateus, capítulo 3, dos versículos sete a dez e Lucas, capítulo três, dos versículos sete a nove. A Teoria das Duas Fontes propõe que essa concordância se deve à dependência de Mateus e Lucas em relação a uma fonte não-marcana, comumente denominada "Q". Esta teoria, similar à prioridade marcana, é cumulativa e, em certo sentido, negativa, pois sugere uma alternativa à possibilidade de Lucas ter tido acesso direto a Mateus (CARSON, 2009).

A ordem do material da dupla tradição é crucial na avaliação dessa teoria. Se Lucas tivesse acessado Mateus, seria estranho ele ter alterado completamente a ordem do material didático de Mateus, que é claro e conciso, dividido em cinco blocos temáticos. Entretanto, Lucas não fez tantas mudanças na ordem de Marcos. A aparente relutância de Lucas em modificar a ordem da fonte marcana contrasta com a liberdade que ele exibiu na reorganização do material de Mateus (LINDSEY, 1963).

Alguns estudiosos consideram improvável que Lucas tenha tido acesso direto a Mateus. Parece mais plausível que ambos os evangelistas tenham dependido de uma tradição em comum para o material não-marcano compartilhado.[21]

A preservação mais fiel da ordem de “Q” por Lucas, em comparação com a reorganização temática de Mateus, sugere um paralelo com o tratamento de Marcos e reforça a ideia de uma fonte comum para o material. (CARSON, 2009).

Dessa forma, a maioria dos estudiosos atualmente assume que Lucas preservou a ordem de “Q” de maneira mais fidedigna do que Mateus, argumentando que a organização temática desse material pode ser explicada pela estrutura dos cinco discursos, conforme proposto por Taylor (1959).

Logo, a Teoria das Duas Fontes emerge como uma solução provavelmente mais coerente para o problema sinóptico, apresentando-se, pelo menos aparentemente, como a menos problemática. Contudo, sua aceitação não se dá sem desafios, sendo impossível prová-la com precisão matemática, uma vez que muitos argumentos utilizados na discussão são reversíveis.

Todos os argumentos surgem de afirmações que apontam para o desenvolvimento da tradição em uma direção como mais provável do que o desenvolvimento inverso. No entanto, reconhece-se que tais afirmações são subjetivas e sempre sujeitas a uma reconversão que explique a mudança oposta em questão. O máximo que se pode afirmar é que a Teoria das Duas Fontes fornece um relato razoavelmente abrangente no desenvolvimento da tradição, fundamentando-se nos princípios da dependência de Mateus e Lucas das tradições de Marcos e Q (FARMER, 1964).

O problema sinóptico, de grande importância em diversos campos, remete à busca do isolamento das vertentes mais antigas da tradição como uma possível via de acesso ao Jesus Histórico. No entanto, trabalhos como o de Weisee (2010), explorando o Segredo Messiânico de Marcos e as teorias sobre Q, indicam que mesmo as fontes mais antigas podem distanciar o leitor de Jesus. A resolução do problema sinóptico torna-se crucial para o retorno às partes iniciais da tradição.

Essa problemática também serve como base para inúmeros estudos críticos na redação dos evangelhos, muitos dos quais assumem a Teoria das Duas Fontes. Tais estudos buscam iluminar as teologias de Mateus e Lucas, analisando as alterações que realizaram em suas fontes. Qualquer teoria alternativa sobre as relações sinópticas pode implicar uma mudança drástica na avaliação das teologias dos evangelistas individuais (STREETER, 1924).

2.2 O evangelho de João e os sinópticos

Não é possível discorrer sobre os evangelhos sinópticos sem mencionar o evangelho de João, nem o correlacionar a estes. Afinal, onde está o evangelho de João? As diferenças entre João e os sinópticos permanecem sendo detalhadas. Para D. A. Carson (2009), entende-se que eventos importantes foram omitidos da perspectiva joanina, tais como: narrativas de parábolas e a Transfiguração, bem como temas centrais concernentes ao Reino de Deus parecem sair de cena, como se segue:

John omits many things that are characteristic of the Synoptics: narrative parables, the account of the transfiguration, the record of the institution of the Lord’s Supper, and many of Jesus’ pithy sayings. Themes central to the Synoptics have all but disappeared (especially the theme of the kingdom of God/heaven). Conversely, John includes a fair bit of material of which the synoptists make no mention: virtually all the material in John 1–5, Jesus’ frequent visits to Jerusalem and what takes place there, the resurrection of Lazarus, extended dialogues and discourses, and much more. (CARSON, 2009, p. 257)

Outrossim, o evangelista João possui um foco geográfico distinto dos demais evangelistas, posto que reporta a ação do ministério de Jesus no Sul, na Judeia e em Samaria, mais do que na Galileia, enquanto os sinópticos fazem o contrário. Entretanto, a questão geográfica não é um fator preponderante na comparação entre as narrativas. O fato é que em João, Jesus é explicitamente identificado como Deus, frequentemente utilizando-se da declaração “Eu sou”, algumas vezes como predicado, outras de forma absoluta. [22][23][24]

Por outro lado, muitas narrativas apresentadas no evangelho de João são detalhadas apenas nos sinópticos, como é o caso do julgamento de Jesus. Na narrativa, o julgamento acontece tão rapidamente na corte romana que é difícil perceber a ação judicial dos judeus, se houvesse, a fim de precipitar o julgamento – diferente do que é redigido pelos outros evangelistas. [25]

Em um momento anterior, é possível que Filipe aparentemente hesite em trazer os gentios para Jesus, em conversa com André antes da aproximação de Jesus, pensando na proibição de ir entre os gentios emitida pelo próprio Cristo, um ponto não relatado por João. [26][27]

Embora a maioria dos pesquisadores sustentem a tese de Dodd (1976) ao afirmarem que não há nenhuma evidência sólida para correlacionar João aos evangelhos sinópticos, um número considerável de eruditos sugere que João leu pelo menos Marcos e, talvez, também Mateus, ou, ainda, pelo menos leu a tradição sinóptica substancial. [28][29]

Certamente, todos concordam que se João fez uso de qualquer um dos sinópticos, a dependência é bem diferente daquela entre Marcos e Mateus, ou ainda, Judas e a Segunda Carta de Pedro. Sem dúvidas, nas palavras de D. A. Carson (2009, p. 259): “he fourth evangelist chose to write his own book”, isto é, “o quarto evangelista escolheu escrever seu próprio livro.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, a análise do conceito de "evangelho" revela sua raiz etimológica e sua conexão intrínseca com a cultura greco-romana do primeiro século. Originado como um termo associado às boas notícias, recompensas por vitórias e proclamações imperiais, o significado da palavra evoluiu ao longo do tempo, especialmente no contexto do Novo Testamento.

Além disso, o entendimento teológico do reino de Deus emerge como uma mensagem transformadora nos Evangelhos. O relacionamento entre o reino e a pessoa de Jesus é explorado em diferentes perspectivas, como autoridade real, domínio geográfico, evento escatológico e personificação do reino em Jesus. Os Evangelhos vão além da simples representação biográfica de Jesus em seu ministério terreno. Eles consistem em um conjunto temas que perpassam a influência cultural, social e teológica, tratando do reino de Deus em uma comunicação direta entre o Rei e seus súditos.

Ademais, a análise da estrutura literária dos Evangelhos, considerando-os como formas versáteis capazes de incorporar diversas expressões, como parábolas e discursos, destaca a natureza coletiva e colaborativa da tradição evangélica.

A ausência de assinaturas individuais levanta questões sobre a autenticidade e autoridade desses textos, sugerindo uma origem tradicional transmitida ao longo do tempo. Em conjunto, esses elementos contribuem para uma definição mais abrangente do que significa "evangelho" no contexto do Novo Testamento.

Nessa égide, ao analisar os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, observa-se uma similaridade notável, sugerindo uma fonte comum. Diversas narrativas são apresentadas nos três evangelhos de maneira semelhante. Essa semelhança, chamada de "problema sinóptico," levanta questões sobre a dependência entre os evangelhos e a natureza das fontes utilizadas.

Aliado a isso, o problema sinóptico refere-se à similaridade entre os evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) em contraste com João. Perguntas essenciais incluem se os evangelhos foram redigidos de maneira independente, a existência e natureza de fontes compartilhadas, e como explicar discrepâncias mesmo em material comum.

O evangelho de João difere dos sinópticos em ênfase geográfica, temas e detalhes narrativos. A questão de sua relação com os sinópticos gera debates, com alguns sugerindo que João leu pelo menos Marcos. No entanto, a dependência é vista como diferente daquela entre os próprios sinópticos, e o entendimento majoritário é que João optou por escrever seu próprio livro. Essas considerações ressaltam a riqueza e a complexidade do material evangélico, oferecendo aos estudiosos um campo vasto para investigações sobre as origens e o desenvolvimento das tradições evangélicas. A interseção entre fontes escritas e tradições orais, evidenciada pelo problema sinóptico, continua a intrigar pesquisadores, enquanto a exclusão de João do grupo sinóptico destaca a multiplicidade de abordagens na transmissão das histórias sobre Jesus. Nesse contexto, a compreensão dos Evangelhos se torna um desafio fascinante, enriquecendo a visão sobre o legado e a diversidade do cristianismo primitivo.

Notas

[1] Mestrando em Estudos Bíblicos e Teológicos do Novo Testamento (Seminário Teológico Jonathan Edwards),pós-graduado em Teologia Pentecostal (Faculdade do Maciço de Baturité), teólogo (Faculdade de TeologiaHokemah), graduado em Segurança Pública (Universidade Estadual do Maranhão), acadêmico de Medicina(Universidade Federal do Maranhão). Contato: contate.paulojunior@outlook.com

[2] Médica (Centro Universitário do Maranhão) e graduanda em Teologia (Faculdade do Maciço de Baturité).Contato: anakaroliness@outlook.com

[3] Aquele que é chamado para pregar o Evangelho em muitos lugares. Palavra derivada do verbo euatigelizo. Evangelizar significa trazer boas novas a alguém, especificamente anunciar informações a respeito da salvação cristã (1 Co 15.14). (PLEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Wycliffe Bible Dictonary. 4. ed. Massachusetts, EUA: Hendrickson Publishers, 2000).

[4] Hom. Od. Xiv. 152.

[5] Plut Demetr. 17, 1.896c.

[6] CHAMPLIN, R. N; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 6 Volumes. São Paulo: Candeia, 1995, pp. 601.

[7] Arisoph, eq. 658.

[8] II Reis 18.20, 22, 25.

[9] BURRIDGE, Richard. What Are The Gospels? A Comparison With Graeco-Roman Biography. 2. ed. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 2004.

[10] CHAMPLIN, R. N; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 6 Volumes. São Paulo: Candeia, 1995.

[11] HENDRIKSEN, William; KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento. Vol. 1. 3. ed. São Paulo: Cultura Bíblica, 2019, pp. 464-498.

[12] Βασιλεια (basileia) é primariamente substantivo abstrato e denota "soberania, poder real, domínio” (por exemplo, Ap 17.18, “que reina”, literalmente. “tem um reino”); então, por metonímia, substantivo concreto, que denota o território ou povo sobre quem um rei reina (por exemplo, Mt 4.8: Mc 3.24). É usado especialmente acerca do “Reino” de Deus e de Cristo. (VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR, William. Dicionário Vine – O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. São Paulo: CPAD, 2002, pp. 936).

[13] Marcos 10.29.

[14] Mateus 4.23.

[15] Lucas 2.1-14.

[16] Do grego, euangelion, originalmente para denotar as “boas novas” do Reino de Deus e da salvação por intermédio de Cristo, a fim de serem recebidas por meio da fé, baseada em Sua morte expiatória, sepultamento, ressurreição e ascensão (At 15.7; 20.24). (STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002, pp. 1375).

[17] A Escritura parece compartilhar a autoridade com os costumes ou a tradição (“a tradição dos líderes religiosos” ou “tradição dos homens”, como é chamada em Mc 7.5,8). [...] Grande parte das tradições religiosas, associadas ao judaísmo intertestamentário, circulava de forma oral. Só depois da destruição do templo de Herodes, em 70 d.C., houve o esforço conjunto dos rabinos para coletar e submeter o material à escrita. (SCOTT JR., J. Julius. Origens Judaicas do Novo Testamento: um estudo do judaísmo intertestamentário. São Paulo: Shedd Publicações, 2017, pp. 16, 33).

[18] Marcos 1.1.

[19] O "problema sinóptico" faz referência à complexidade intrínseca associada à precisa determinação das relações entre os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Essa dificuldade, inerentemente ligada à questão, estende-se à identificação das exatas "fontes informativas" que fundamentaram a redação desses evangelhos, implicando, por conseguinte, na compreensão minuciosa das bases teológicas subjacentes a cada um desses relatos. (HENGEL, Martin. The Four Gospels and The One Gospel of Jesus Christ. Harrisburg: Trinity Press International, 2000).

[20] Essa afirmação será detalhada à frente. Todavia, diferentemente, o evangelho de João se restringe inteiramente à obra de Jesus em Jerusalém. Por consequência, dificilmente se adapta às narrativas dos evangelhos sinópticos com precisão.

[21] Para mais detalhes, os seguintes pesquisadores sugerem essa teoria: MCKNIGHT, Scot. Source Criticism. Nashville: Broadman and Holman, 2001.; FITZMYER, Joseph A. The Priority of Mark and the “Q” Source in Luke. Pittsburgh: Pittsburgh Theological Seminary, 1970.

[22] João 1.1, 18; 20.28.

[23] João 6.35; 8.12; 15.1-5.

[24] João 8.28, 58.

[25] João 18 – 19.

[26] João 12.21-22

[27] Mateus 10.5.

[28] DE SOLANGES, Mgr. Jean et les synoptiques. Leiden: Brill, 1979.; SEIGMAN, E. F. St. John’s Use of the Synoptic Material. London: CBQ, 1968.; BRODIE, Thomas L. The Quest for the Origin of John’s Gospel: A Source-Oriented Approach. New York: Oxford University Press, 1993.

[29] BARRET, John; BRODIE, Thomas L. The Gospel According to John: A Literary and Theological Commentary. New York: Oxford University Press, 1993.

[1] Mestrando em Estudos Bíblicos e Teológicos do Novo Testamento (Seminário Teológico Jonathan Edwards),pós-graduado em Teologia Pentecostal (Faculdade do Maciço de Baturité), teólogo (Faculdade de TeologiaHokemah), graduado em Segurança Pública (Universidade Estadual do Maranhão), acadêmico de Medicina(Universidade Federal do Maranhão). Contato: contate.paulojunior@outlook.com

[2] Médica (Centro Universitário do Maranhão) e graduanda em Teologia (Faculdade do Maciço de Baturité).Contato: anakaroliness@outlook.com

[3] Aquele que é chamado para pregar o Evangelho em muitos lugares. Palavra derivada do verbo euatigelizo. Evangelizar significa trazer boas novas a alguém, especificamente anunciar informações a respeito da salvação cristã (1 Co 15.14). (PLEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Wycliffe Bible Dictonary. 4. ed. Massachusetts, EUA: Hendrickson Publishers, 2000).

[4] Hom. Od. Xiv. 152.

[5] Plut Demetr. 17, 1.896c.

[6] CHAMPLIN, R. N; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 6 Volumes. São Paulo: Candeia, 1995, pp. 601.

[7] Arisoph, eq. 658.

[8] II Reis 18.20, 22, 25.

[9] BURRIDGE, Richard. What Are The Gospels? A Comparison With Graeco-Roman Biography. 2. ed. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 2004.

[10] CHAMPLIN, R. N; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 6 Volumes. São Paulo: Candeia, 1995.

[11] HENDRIKSEN, William; KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento. Vol. 1. 3. ed. São Paulo: Cultura Bíblica, 2019, pp. 464-498.

[12] Βασιλεια (basileia) é primariamente substantivo abstrato e denota "soberania, poder real, domínio” (por exemplo, Ap 17.18, “que reina”, literalmente. “tem um reino”); então, por metonímia, substantivo concreto, que denota o território ou povo sobre quem um rei reina (por exemplo, Mt 4.8: Mc 3.24). É usado especialmente acerca do “Reino” de Deus e de Cristo. (VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR, William. Dicionário Vine – O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. São Paulo: CPAD, 2002, pp. 936).

[13] Marcos 10.29.

[14] Mateus 4.23.

[15] Lucas 2.1-14.

[16] Do grego, euangelion, originalmente para denotar as “boas novas” do Reino de Deus e da salvação por intermédio de Cristo, a fim de serem recebidas por meio da fé, baseada em Sua morte expiatória, sepultamento, ressurreição e ascensão (At 15.7; 20.24). (STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002, pp. 1375).

[17] A Escritura parece compartilhar a autoridade com os costumes ou a tradição (“a tradição dos líderes religiosos” ou “tradição dos homens”, como é chamada em Mc 7.5,8). [...] Grande parte das tradições religiosas, associadas ao judaísmo intertestamentário, circulava de forma oral. Só depois da destruição do templo de Herodes, em 70 d.C., houve o esforço conjunto dos rabinos para coletar e submeter o material à escrita. (SCOTT JR., J. Julius. Origens Judaicas do Novo Testamento: um estudo do judaísmo intertestamentário. São Paulo: Shedd Publicações, 2017, pp. 16, 33).

[18] Marcos 1.1.

[19] O "problema sinóptico" faz referência à complexidade intrínseca associada à precisa determinação das relações entre os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Essa dificuldade, inerentemente ligada à questão, estende-se à identificação das exatas "fontes informativas" que fundamentaram a redação desses evangelhos, implicando, por conseguinte, na compreensão minuciosa das bases teológicas subjacentes a cada um desses relatos. (HENGEL, Martin. The Four Gospels and The One Gospel of Jesus Christ. Harrisburg: Trinity Press International, 2000).

[20] Essa afirmação será detalhada à frente. Todavia, diferentemente, o evangelho de João se restringe inteiramente à obra de Jesus em Jerusalém. Por consequência, dificilmente se adapta às narrativas dos evangelhos sinópticos com precisão.

[21] Para mais detalhes, os seguintes pesquisadores sugerem essa teoria: MCKNIGHT, Scot. Source Criticism. Nashville: Broadman and Holman, 2001.; FITZMYER, Joseph A. The Priority of Mark and the “Q” Source in Luke. Pittsburgh: Pittsburgh Theological Seminary, 1970.

[22] João 1.1, 18; 20.28.

[23] João 6.35; 8.12; 15.1-5.

[24] João 8.28, 58.

[25] João 18 – 19.

[26] João 12.21-22

[27] Mateus 10.5.

[28] DE SOLANGES, Mgr. Jean et les synoptiques. Leiden: Brill, 1979.; SEIGMAN, E. F. St. John’s Use of the Synoptic Material. London: CBQ, 1968.; BRODIE, Thomas L. The Quest for the Origin of John’s Gospel: A Source-Oriented Approach. New York: Oxford University Press, 1993.

[29] BARRET, John; BRODIE, Thomas L. The Gospel According to John: A Literary and Theological Commentary. New York: Oxford University Press, 1993.

Referências

BARRET, John; BRODIE, Thomas L. The Gospel According to John: A Literary and Theological Commentary. New York: Oxford University Press, 1993.

BÍBLIA. Bíblia do Pescador de Almas. Rio de Janeiro: CPAD, 2023.

BRODIE, Thomas L. The Quest for the Origin of John’s Gospel: A Source-Oriented Approach. New York: Oxford University Press, 1993.

BURRIDGE, Richard. What Are The Gospels? A Comparison With Graeco-Roman Biography. 2. ed. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 2004.

CARSON, D. A. An Introduction to the New Testament. 2. ed. Michigan: Zondervan, 2009.

CESAREIA, Eusébio. História Eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século, 2002.

CHAMPLIN, R. N; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 6 Volumes. São Paulo: Candeia, 1995.

DE SOLANGES, Mgr. Jean et les synoptiques. Leiden: Brill, 1979.

DODD, C. H. Historical Tradition in The Fourth Gospel. London: Cambridge University Press, 1976.

DUNN, James D. Unity and Diversity in the New Testament: An inquiry into the Character of Earliest Christianity. London: SCM Press, 2006.

FARMER, William. The Synoptic Problem: A Critical Analysis. New York: Macmillan, 1964.

FITZMYER, Joseph A. The Priority of Mark and the “Q” Source in Luke. Pittsburgh: Pittsburgh Theological Seminary, 1970.

HENDRIKSEN, William; KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento. Vol. 1. 3. ed. São Paulo: Cultura Bíblica, 2019.

HENGEL, Martin. The Four Gospels and The One Gospel of Jesus Christ. Harrisburg: Trinity Press International, 2000.

KEENER, Craig. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Tradução de José Gabriel Said. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.

KIVITZ, Ed René. Talmidim: o passo a passo de Jesus. São Paulo: Mundo Cristão, 2012.

LACHMANN, Karl. De Ordine narrationum im evangeliis synopticis. Berlin: TSK, 1835.

LINDSEY, R. L. A Modified Two-Document Theory of the Synoptic Dependence and Interdependence. Boston: Brill, 1963.

MCKNIGHT, Scot. Source Criticism. Nashville: Broadman and Holman, 2001.

PLEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Wycliffe Bible Dictonary. 4. ed. Massachusetts, EUA: Hendrickson Publishers, 2000.

SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos Sínóticos a Paulo. São Paulo: Paulus, 1997.

SEIGMAN, E. F. St. John’s Use of the Synoptic Material. London: CBQ, 1968.

STEVENSON, J. A New Eusebius: Documents Illustrating The History of The Church to AD 337. Ada: Baker Academic, 2013.

STREETER, B. H. The Four Gospels: A Study of Origins. London: Macmillan, 1924.

STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

TAYLOR, Vincent. The Person of Christ in New Testament Teaching. London: Macmillan, 1959.

UNGER, Merril F. The New Unger’s Bible Dictionary. 3. ed. Chicago: Moody Press, 1988.

VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR, William. Dicionário Vine – O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. São Paulo: CPAD, 2002.

WEISSE, C. H. Die evangelische Geschite kritisch und philosophisch bearbeitet. Berlin: Nabu Press, 2010.

BARRET, John; BRODIE, Thomas L. The Gospel According to John: A Literary and Theological Commentary. New York: Oxford University Press, 1993.

BÍBLIA. Bíblia do Pescador de Almas. Rio de Janeiro: CPAD, 2023.

BRODIE, Thomas L. The Quest for the Origin of John’s Gospel: A Source-Oriented Approach. New York: Oxford University Press, 1993.

BURRIDGE, Richard. What Are The Gospels? A Comparison With Graeco-Roman Biography. 2. ed. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 2004.

CARSON, D. A. An Introduction to the New Testament. 2. ed. Michigan: Zondervan, 2009.

CESAREIA, Eusébio. História Eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século, 2002.

CHAMPLIN, R. N; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 6 Volumes. São Paulo: Candeia, 1995.

DE SOLANGES, Mgr. Jean et les synoptiques. Leiden: Brill, 1979.

DODD, C. H. Historical Tradition in The Fourth Gospel. London: Cambridge University Press, 1976.

DUNN, James D. Unity and Diversity in the New Testament: An inquiry into the Character of Earliest Christianity. London: SCM Press, 2006.

FARMER, William. The Synoptic Problem: A Critical Analysis. New York: Macmillan, 1964.

FITZMYER, Joseph A. The Priority of Mark and the “Q” Source in Luke. Pittsburgh: Pittsburgh Theological Seminary, 1970.

HENDRIKSEN, William; KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento. Vol. 1. 3. ed. São Paulo: Cultura Bíblica, 2019.

HENGEL, Martin. The Four Gospels and The One Gospel of Jesus Christ. Harrisburg: Trinity Press International, 2000.

KEENER, Craig. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Tradução de José Gabriel Said. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.

KIVITZ, Ed René. Talmidim: o passo a passo de Jesus. São Paulo: Mundo Cristão, 2012.

LACHMANN, Karl. De Ordine narrationum im evangeliis synopticis. Berlin: TSK, 1835.

LINDSEY, R. L. A Modified Two-Document Theory of the Synoptic Dependence and Interdependence. Boston: Brill, 1963.

MCKNIGHT, Scot. Source Criticism. Nashville: Broadman and Holman, 2001.

PLEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Wycliffe Bible Dictonary. 4. ed. Massachusetts, EUA: Hendrickson Publishers, 2000.

SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos Sínóticos a Paulo. São Paulo: Paulus, 1997.

SEIGMAN, E. F. St. John’s Use of the Synoptic Material. London: CBQ, 1968.

STEVENSON, J. A New Eusebius: Documents Illustrating The History of The Church to AD 337. Ada: Baker Academic, 2013.

STREETER, B. H. The Four Gospels: A Study of Origins. London: Macmillan, 1924.

STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

TAYLOR, Vincent. The Person of Christ in New Testament Teaching. London: Macmillan, 1959.

UNGER, Merril F. The New Unger’s Bible Dictionary. 3. ed. Chicago: Moody Press, 1988.

VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR, William. Dicionário Vine – O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. São Paulo: CPAD, 2002.

WEISSE, C. H. Die evangelische Geschite kritisch und philosophisch bearbeitet. Berlin: Nabu Press, 2010.

SEMINARIO TEOLOGICO JONATHAN EDWARDS

CNPJ. 34.466.065/0001-49

Praça Presidente Getúlio Vargas, 75 – Nossa Senhora das Dores – Caruaru/PE

Horário de atendimento: das 14h às 17h; das 18h às 22h.

© STJEdwards, 2026. Todos os direitos reservados.

SEMINARIO TEOLOGICO JONATHAN EDWARDS

CNPJ. 34.466.065/0001-49

Praça Presidente Getúlio Vargas, 75 – Nossa Senhora das Dores – Caruaru/PE

Horário de atendimento: das 14h às 17h; das 18h às 22h.

© STJEdwards, 2026. Todos os direitos reservados.

SEMINARIO TEOLOGICO JONATHAN EDWARDS

CNPJ. 34.466.065/0001-49

Praça Presidente Getúlio Vargas, 75 – Nossa Senhora das Dores – Caruaru/PE

Horário de atendimento: das 14h às 17h; das 18h às 22h.

© STJEdwards, 2026. Todos os direitos reservados.