O Dia do Senhor: uma teologia bíblica do shabbat e sua aplicação na nova aliança
O Dia do Senhor: uma teologia bíblica do shabbat e sua aplicação na nova aliança
Bruno Eliseu Ferreira Ramos[1]
Resumo
Resumo: O objetivo deste artigo é suscitar uma reflexão bíblico/teológica a respeito do chamado Shabbat ou "dia do Senhor" no que diz respeito à sua aplicação à teologia da nova aliança. Para tal, num primeiro momento, será considerado a interpretação do shabbat a partir da visão reformada, isto é, a visão de modo geral predominante no ambiente reformado tradicional, que entende que a observância do shabbat permanece na nova aliança, contudo, sendo aplicado ao domingo como o verdadeiro dia do Senhor, em substituição ao antigo sábado da lei mosaica. Em seguida, daremos conta de entender a interpretação do aliancismo progressivo sobretudo com o auxílio de Thomas R. Schreiner que defende o shabbat a partir de sua culminância em Cristo, enxergando, assim, que a sua observância não é mais necessária aos crentes da nova aliança. Por último, engendrando Marcos 2. 23-28 como material da teologia bíblica, visando corroborar com esta última interpretação, faremos uma abordagem exegética desse texto com a tentativa de propor um argumento bíblico a partir do novo Testamento em favor da não obrigatoriedade da observância do shabbat, tampouco da sua transferência ao domingo, embora, ao longo do nosso ensaio, outros textos também serão citados.
Palavras-chave: Shabbat. Dia do Senhor. Aliancismo progressivo. Cristo. Descanso.
Abstract: The purpose of this article is to elicit a biblical/theological reflection on the so-called Shabbat or "Lord's day" with regard to its application to new covenant theology. To this end, at first, the interpretation of the Shabbat will be considered from the Reformed view, that is, the generally prevailing view in the traditional Reformed environment, which understands that the observance of the Shabbat remains in the new covenant, however, being applied to the Sunday as the true day of the Lord, replacing the ancient Sabbath of the Mosaic law. Then, we will realize how to understand the interpretation of progressive allianceism mainly as the help of Thomas R. Schreiner who defends the shabbat from its culmination in Christ, thus seeing that its observance is no longer necessary for believers of the new covenant. Finally, engendering Mark 2. 23-28 as material of biblical theology, aiming to corroborate this last interpretation, we will make an exegetical approach to this text with the attempt to propose a biblical argument from the New Testament in favor of the non-mandatory observance of the shabbat, although throughout our essay other texts will also be cited.
Keywords: Shabbat. Lord's day. Progressive alliance. Christ. Rest.
Resumo: O objetivo deste artigo é suscitar uma reflexão bíblico/teológica a respeito do chamado Shabbat ou "dia do Senhor" no que diz respeito à sua aplicação à teologia da nova aliança. Para tal, num primeiro momento, será considerado a interpretação do shabbat a partir da visão reformada, isto é, a visão de modo geral predominante no ambiente reformado tradicional, que entende que a observância do shabbat permanece na nova aliança, contudo, sendo aplicado ao domingo como o verdadeiro dia do Senhor, em substituição ao antigo sábado da lei mosaica. Em seguida, daremos conta de entender a interpretação do aliancismo progressivo sobretudo com o auxílio de Thomas R. Schreiner que defende o shabbat a partir de sua culminância em Cristo, enxergando, assim, que a sua observância não é mais necessária aos crentes da nova aliança. Por último, engendrando Marcos 2. 23-28 como material da teologia bíblica, visando corroborar com esta última interpretação, faremos uma abordagem exegética desse texto com a tentativa de propor um argumento bíblico a partir do novo Testamento em favor da não obrigatoriedade da observância do shabbat, tampouco da sua transferência ao domingo, embora, ao longo do nosso ensaio, outros textos também serão citados.
Palavras-chave: Shabbat. Dia do Senhor. Aliancismo progressivo. Cristo. Descanso.
Abstract: The purpose of this article is to elicit a biblical/theological reflection on the so-called Shabbat or "Lord's day" with regard to its application to new covenant theology. To this end, at first, the interpretation of the Shabbat will be considered from the Reformed view, that is, the generally prevailing view in the traditional Reformed environment, which understands that the observance of the Shabbat remains in the new covenant, however, being applied to the Sunday as the true day of the Lord, replacing the ancient Sabbath of the Mosaic law. Then, we will realize how to understand the interpretation of progressive allianceism mainly as the help of Thomas R. Schreiner who defends the shabbat from its culmination in Christ, thus seeing that its observance is no longer necessary for believers of the new covenant. Finally, engendering Mark 2. 23-28 as material of biblical theology, aiming to corroborate this last interpretation, we will make an exegetical approach to this text with the attempt to propose a biblical argument from the New Testament in favor of the non-mandatory observance of the shabbat, although throughout our essay other texts will also be cited.
Keywords: Shabbat. Lord's day. Progressive alliance. Christ. Rest.
Artigo
1. Introdução
A questão envolvendo o mandamento do Sabbath para os crentes da nova aliança tem suscitado grandes e acalorados debates, isto devido ao fato de que sem dúvidas este é um mandamento claro nas Escrituras, contudo, sua dificuldade gira em torno de sua aplicabilidade à igreja no contexto da nova aliança, ou seja, para considerar essa questão de forma coerente é necessário entender qual a relação entre a Igreja com o antigo Testamento, bem como, a forma com que o novo Testamento lida com o shabbat, assim, nosso objetivo será fugir de dois extremos, a saber: aquele que afirma que o mandamento nada tem a ver com o povo de Deus da nova aliança, ademais, também daquele que afirma que a necessidade de se observar o domingo como mandamento para o atual povo de Deus.
Assim, é importante ressaltar que não é nossa pretensão assumir que este artigo dará conta de esgotar a questão em torno da problemática envolvendo esse tema, tampouco, considerar que a interpretação aqui defendida é a única ortodoxa possível, dessa forma, nossa proposta se adequa a uma tentativa de contribuição ao debate, tendo em vista a glória de Deus e a edificação do seu povo santo, além disso, esse trabalho também visa refletir sobre a obra de Cristo, assumindo que é nEle que deve está o nosso verdadeiro descanso, entendendo ser este o verdadeiro propósito do shabbat.
Nesse sentido, entendemos também que o tema do Shabbat é considerado como secundário no que diz respeito às doutrinas da fé, sendo, portanto, passível de discordância entre os mais variados âmbitos cristãos, de maneira que é possível afirmar que os cristãos podem discordar entre si a respeito deste assunto sem perder a ortodoxia de vista, tampouco o amor cristão, pois, maior é aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.
No entanto, a posição que assumimos neste artigo é bem clara: constitui-se em um erro teológico afirmar a obrigatoriedade da observância do dia do Senhor no contexto da nova aliança, tampouco que o mandamento teria sofrido uma transferência de dia, isto é, do sabado para o domingo, como defendem alguns teólogos reformados, por isso tentaremos defender essa visão de forma bastante respeitosa, mas sem deixar de fazer as críticas necessárias, pois entendemos da mesma forma como afirmou CARSON (2006, P. 15): “…não estamos convencidos de que o Novo Testamento desenvolve, sem qualquer ambiguidade, uma 'teologia de transferência', de acordo com o qual o shabbat é transferido para o primeiro dia da semana.”
Dessa forma, cremos que não há uma base textual sólida que forneça tal percepção teológica, sendo, portanto, um equívoco, afinal, se não há um sólido indicativo bíblico/textual para que se possa fazer uma exegese adequada, não há como trazermos um peso teológico tão grande como este que se coloca sobre os ombros do povo de Deus da nova aliança. No entanto, assumimos que há um sim uma boa base textual que afirma o contrário, isto é, a não obrigatoriedade de observância de nenhum dia específico, nem o sábado, entendendo que este ficou restrito ao povo de Israel na antiga aliança, tampouco o domingo, embora, podemos afirmar que este seja sim um dia especial de adoração do povo de Deus.
Para tal empreendimento, serão considerados dois textos no novo Testamento de forma exegética, primeiro o de Romanos 14 e segundo o de Marcos 2.32-28 com intuito de lançar luz sobre esse tema, partindo do princípio que a palavra de Deus é a luz que ilumina nosso caminho, como afirma o salmista: "Tua palavra é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho." Salmos 119:105.
2. O shabbat Cristão: a visão reformada
Iremos considerar a interpretação reformada tradicional a respeito do Shabbat, analisando as confissões de fé Batista de 1689 e o catecismo de Westminster, bem como a forma como alguns teólogos que abraçam a visão do domingo como o novo shabbat defendem seu ponto, tentando entender seus argumentos e propondo alguns contrapontos.
A confissão de fé Batista de 1689 coloca a questão da seguinte forma:
Pelo desígnio de Deus, há uma lei da natureza que, em geral, uma proporção do tempo seja destinada ao culto a Deus; desta forma, em sua Palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, válido a todos os homens em todas as eras, Deus particularmente nomeou um dia em sete para um descanso, para ser-lhe santificado. Desde o início do mundo até à ressurreição de Cristo, foi o último dia da semana; e, a partir da ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que é chamado de Dia do Senhor, e deve continuar até o fim do mundo como o Sabbath Cristão; sendo abolida a observação do último dia da semana.[4]
Assim, no entendimento dos batistas reformados que subscrevem a CFB1689 o domingo constitui-se como o dia no qual os cristãos da nova aliança devem reservar para o descanso e adoração, baseando sua visão no entendimento de que o Dia de descanso para adorar a Deus se encontra na ética da criação, isto é, no que eles chamam de lei moral, portanto sendo perpétua e "válido para todos os homens em todas as eras" como afirma a confissão. Por isso, segundo este entendimento, a partir do estabelecimento da Nova aliança, o mandamento moral continua, embora trazendo uma mudança no dia. Vejamos o que diz o famoso pastor Batista do século XIX, Charles H. Spurgeon:
Nosso senhor arrebatou o dia de descanso de suas velhas e enferrujadas dobradiças em que fora anteriormente colocado pela lei, desde os tempos antigos, e o colocou sobre as novas dobradiças de ouro que seu amor tinha arquitetado. Ele colocou nosso dia de descanso, não ao fim de uma semana de trabalho, mas sim no começo do repouso que resta para o povo de Deus. Em cada primeiro dia da semana devemos meditar sobre a ressurreição de nosso Senhor, e devemos buscar entrar entrar em comunhão com Ele em Sua vida ressurreta.[5]
Dessa feita, podemos aferir que um dos fundamentos sob o qual é estabelecido o dia do Senhor como o domingo, na nova aliança, origina do fato de Cristo ter ressuscitado no primeiro dia da semana (mt 28:1, Mc 16:2, Jo 20.1) e de fato, não dá dúvida quanto a isto, definitivamente foi no domingo. Além disso, outras coisas importantes aconteceram neste dia, como, por exemplo, o fato de que os primeiros cristãos cultuavam no domingo (atos 20.7), Paulo pede para que a coleta seja feita no domingo (1Co 16:2) e Apocalipse fala sobre o domingo como o dia do Senhor (Ap 1.10). Nesse sentido, devido a isto, muitos irmãos acabam sugerindo ao primeiro dia da semana importância tal que este teria sido o dia que na nova aliança o shabbat deveria ser observado.
Vejamos o que o que diz o catecismo maior de Westminster:
117. Como deve ser santificado o Sábado ou Dia do Senhor (=Domingo)? O Sábado, ou Dia do Senhor (=Domingo), deve ser santificado por meio de um santo descanso por todo aquele dia, não somente de tudo quanto é sempre pecaminoso, mas até de todas as ocupações e recreios seculares que são lícitos em outros dias; e em fazê-lo o nosso deleite, passando todo o tempo (exceto aquela parte que se deve empregar em obras de necessidade e misericórdia) nos exercícios públicos e particulares do culto de Deus. Para este fim havemos de preparar os nossos corações, e, com toda previsão, diligência e moderação, dispor e convenientemente arranjar os nossos negócios seculares, para que sejamos mais livres e mais prontos para os deveres desse dia.[6]
O catecismo de Westminster, diferente da CFB1689 não diz tão abertamente que o sábado da antiga aliança fora substituído pelo domingo, contudo, isto já parece ser um pressuposto, sendo portanto desnecessário afirmar diretamente, o catecismo usa apenas a expressão em parêntese (domingo) ao referir-se ao dia do Senhor muito provavelmente porque este tema já era algo estabelecido em sua doutrina, pois as mesmas palavras encontradas na CFB1689 são encontradas na confissão de fé de Westminster, visto que, em grande parte, a primeira se inspirou nesta segunda. A visão que entende o domingo como o shabbat Cristão se ampara grandemente na importância que o domingo teve para os apóstolos, bem como na defesa de sua observância por boa parte dos puritanos e em alguns escritos dos pais da igreja, como aponta o rev. Hernandes dias Lopes:
Os apóstolos, os nossos primeiros pais, os reformadores, os puritanos e aqueles que nos legaram o evangelho tiveram um santo zelo na observância do dia do Senhor. Entretanto, a secularização que invadiu a nossa cultura tem influenciado de tal forma a igreja, que os cristãos contemporâneos estão desprezando essa observância. Poucos são os crentes que se preparam espiritualmente para virem à Casa de Deus no domingo.[7]
Nesse sentido, é possível observar que o estabelecimento do domingo como dia do Senhor é grandemente amparado por teólogos de peso e de respeito, contudo, ainda assim, isto não significa que necessariamente sua visão esteja correta, pois argumento de autoridade nunca será válido neste debate, obviamente não é este o método usado pelos teólogos e irmãos que defendem este ponto, podemos perceber que há uma tentativa sincera em amparar sua visão elencando uma base bíblica sólida. Ora, tudo que fora mencionado acima sobre o domingo nenhum cristão coerente estaria disposto a negar, há sim uma importância significativa no primeiro dia da semana, sobretudo devido ao fato de que foi neste dia que o Senhor ressuscitou.
No entanto, a dificuldade se encontra nessa "teologia da transferência", nenhum texto utilizado na defesa do domingo como dia do Senhor sugere tal coisa, antes, apenas estabelece que de fato este dia tornou-se um dia especial de adoração do povo de Deus. Um dos teólogos aliancistas mais conhecidos na defesa do domingo como o dia do Senhor é Joseph Pipa, a respeito da mudança de dia do shabbath ele afirmou:
…visto que o quarto mandamento específica o sétimo dia, não estaríamos compelidos a guardar o sétimo dia como dia santo, ou então admitir que o quarto mandamento é datado e não mais vinculante? Não, pois, como temos visto, o quarto mandamento tinha aspectos cerimoniais. A confissão de fé de Westminster (21.7) refere-se à lei do Shabbat como positiva e moral…como o dia específico é uma lei positiva, o dia do Senhor pode ser mudado sem afetar a natureza moral da lei.[8]
Dessa forma, seguindo essa lógica, o domingo é este novo dia, desde a ressurreição, que fora estabelecido para os crentes na nova aliança como o novo shabbat, sendo sua observância também estabelecida. Contudo, alguns teólogos aliancistas argumentam em favor de um tipo de transferência menos problemático do ponto de vista bíblico/teológico, essa transferência se baseia no paralelo entre Israel e a igreja, que vê o dia de descanso como um memorial, Richard C. Barcellos, por exemplo, coloca sua visão da seguinte forma:
Como foi dado a Israel um dia memorial para recordar a sua libertação (isto é, o Sabbath), a igreja também recebeu um dia memorial (ou seja, o dia do Senhor) para recordar sua libertação. O que o antigo Testamento tipificada em Israel (isto é, o Filho e primogênito de Deus), encontra seu cumprimento em Jesus, o Filho e primogênito fiel de Deus, e no seu corpo, a igreja.[9]
Ora, o novo Testamento de fato interpreta a vinda de Cristo como cumprimento das esperanças de Israel (Lc 1:26-38, At 26:19-23), assim, de modo geral, não vemos problema nessa interpretação, o dia do Senhor pode sim ser visto como um memorial, no sentido de lembrarmos que foi neste dia que o Senhor ressuscitou e possibilitou nossa salvação, sem, contudo, atribuir um peso teológico de obrigatoriedade de observância, trazendo novamente um fardo que Cristo já levou sobre si.
Vejamos as palavras de João Calvino a esse respeito:
Mas, não há dúvida de que pela vinda do Senhor Jesus Cristo o que era aqui cerimonial foi abolido. Pois ele é a verdade, por cuja presença se desvanecem todas as figuras; o corpo, a cuja visão são deixadas para trás as sombras. Ele é, digo-o, o verdadeiro cumprimento do sábado. Com ele, sepultados por meio do batismo, fomos enxertados na participação de sua morte, para que, participantes de sua ressurreição, andemos em novidade de vida [Rm 6.4]. Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.[10]
O reformador, por outro lado, em nenhum dos seus escritos parece correlacionar o domingo, dia do Senhor, com o quarto mandamento no sentido de sua necessidade de obediência, tampouco parece sugerir que sua observância seria uma obrigação a igreja somente pelo fato de que fora neste dia que Jesus ressurgiu, embora, naturalmente, ele defende sua importância como dia escolhido pelos cristãos para adoração e o relaciona de alguma forma ao sábado judaico, contudo, asseverando contra a "superstição", ou seja, atribuir ao dia um significado religioso que ele não tem, assumindo, contudo, a necessidade de um dia para se conservar o "decoro a ordem e paz" na igreja:
Se porventura se teme superstição, muito mais perigo havia nos dias de guarda judaicos, nos dias do Senhor, do que agora observam os cristãos. Pois, visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo, para este fim.[11]
Portanto, embora possamos tratar o domingo como um dia especial para o povo de Deus na nova aliança, não estamos encontramos biblicamente nenhum respaldo sólido de que este dia se tornou o substituto do sábado judaico, a falta de elementos textuais que comprovem essa ideia é talvez o principal fator de dificuldade na crença dessa doutrina.
No entanto, por hora, nos ateremos apenas em expor a visão reformada em relação ao shabbat, propondo apenas o contraponto da visão de João Calvino. Em outro momento tentaremos fazer a defesa do porquê o domingo não deve ser visto como substituto do sábado judaico, no entanto, nosso argumento central gira em torno do fato de que não há uma boa base textual que corrobora com essa afirmativa, além disso, as evidências bíblicas apontam para o fato de que o shabbat foi instituído para o povo de Israel, a fim de ser celebrado como sinal semanal da aliança.[12]
3. O aliancismo progressivo e a culminância do sábado em Cristo
O aliancismo progressivo é uma visão, dentro dos sistemas teológicos, que tenta traçar uma posição mediadora no debate sobre as alianças e o seu cumprimento em Cristo, essa visão já encontra um bom número de adeptos, citamos os teólogos James M. Hamilton Jr, Stephen J Wellum, Brent E. Parker, estes dois últimos foram responsáveis por produzir uma excelente obra que propõe este sistema como uma terceira via entre o dispensacionalismo e o aliancismo, assim eles definem sua posição:
O termo progressivo busca sublinhar a natureza do desdobramento da revelação de Deus ao longo do tempo, enquanto a palavra aliancismo enfatiza que o plano de Deus se desenrola através das alianças, e que tudo das alianças encontra seu cumprimento, telos e término em Cristo.[13]
Dessa forma, com base neste princípio que diz respeito às alianças, Thomas Schreiner, no capítulo 6 do livro: "aliancismo progressivo - traçando uma via entre o dispensacionalismo e o aliancismo" (2017) lida com a controversa do Sábado, rejeitando a distinção tripartite da lei na teologia do pacto e fazendo uma definição de como o aliancismo progressivo entende o Sabbath, defendendo a tese de que ele não é mais necessário para os crentes da nova aliança, adiante veremos alguns dos seus argumentos.
Entretanto, para começarmos a entender o porquê não existe mais essa necessidade na nova aliança é preciso entender os aspectos de continuidade e descontinuidade entre a antiga e nova aliança, bem como entre os cristãos e a lei mosaica. Os teólogos aliancistas que defendem a necessidade da observância do quarto mandamento no novo Testamento entendem que a lei de Moisés permanece em vigor devido ao fato de enxergarem a lei de forma tripartite, isto é, a lei é tanto civil, quanto cerimonial e moral, ora, se a lei mosaica é de fato moral ela tem o seu caráter imutável pois o caráter moral (de Deus) não muda.
Assim, sua perspectiva assume a visão da continuidade dos Dez mandamentos no AT para o NT. Vejamos o que diz o teólogo aliancista Joseph Pipa: “…o mandamento do sabá não é senão a extensão e a aplicação da ordenança criacional. Assim como as responsabilidades morais do casamento e do trabalho permanecem, a responsabilidade moral de guardar santo um dia em sete também permanece.”[14][15]
Dessa feita, é razoável entender o porquê há uma defesa tão veementemente a respeito desse mandando por parte dos teólogos aliancistas, se este mandando segue como tendo o seu aspecto moral preservado no NT, inferir que ele foi abolido não parece ser adequado do ponto de vista da necessidade que temos, como crentes, em obedecer a lei moral do Senhor em voga no NT. Nesse aspecto, a única forma de entender este "mandamento" como inoperante na nova aliança é se defendermos a posição de que o Novo Testamento não estabelece essa divisão da lei, antes, propõe uma visão totalizante, como podemos ver em Gl 3.10-11: “Pois todos os que são das obras da lei estão debaixo de maldição. Porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece na prática de todas as coisas escritas no livro da lei. É evidente que ninguém é justificado diante de Deus pela lei, porque: O justo viverá pela fé.”
Desse modo, o novo testamento enfatiza que os crentes não estão mais sob a lei de Moisés, ou "debaixo da lei" (Gl 5.18) pelo simples fato de agora estamos em Cristo, portanto livres da lei (Rm 7.6). A lei tinha um prazo de validade, ela permaneceu em vigor até a sua completude em Cristo. Um aspecto fundamental que nos ajuda a entender isto é o tema da tipologia, isto é, como certos eventos e instituições (como o shabat) foram usados por Deus para prefigurar realidades maiores que culminam em Cristo, como Wellum e Brent colocam:[16]
Alguns tipos são plenamente cumpridos na primeira vinda de Cristo, enquanto outros são inicialmente cumpridos, ao mesmo tempo que têm cumprimento e realização antitípica na igreja e, finalmente, na nova criação. Mesmo assim, com a chegada do antítipo, ou seja, Jesus Cristo, o tipo é superado, pois o antítipo preenche o papel do tipo de forma tal que torna o tipo desnecessário e efetivamente obsoleto.[17]
Portanto, podemos afirmar que com a chegada de Cristo, todo e qualquer tipo é superado. O sábado, nesse ponto de vista, era uma instituição que apontava para nosso descanso eterno em Cristo.
3.1 O forte VS o fraco em Rm 14.
Lidando diretamente com o quarto mandamento, Rm 14.1-8 é talvez o texto que melhor estabelece sua relação com os crentes na nova aliança, neste verso, Paulo argumenta que o "forte" compreende melhor e mais adequadamente que o "fraco", isto é, o fraco seria aquele que faz diferença entre dia e dia (V.5a) já o "forte", seria aquele que entende que, de acordo com a visão de Chamblin (2013, p. 238): "as normas relativas ao sábado no AT são uma sombra apontando para a realidade, que é Cristo (Cl 2.16-23)." Por esse motivo, é possível julgar iguais todos os dias (V5). Desse modo, não parece que o NT em nenhum momento estabelece que esse aspecto do mandamento seguiu em algum nível moral, tampouco que ele fora substituído por outro dia.
O teólogo Douglas J. Moo coloca a questão da seguinte forma:
Uma dificuldade adicional é a questão de como determinar o que foi a lei "moral" e o que não foi. Mas a dificuldade básica, claro, é que o NT não trata o assunto dessa forma. A lei toda, cada i ou til, é cumprida em Cristo e somente pode ser compreendida e aplicada à luz desse cumprimento. Na prática ética real, muito pouco se perdeu. Porque o NT adota claramente todo o Decálogo, com exceção do sábado, como parte da lei de Cristo e, dessa forma, como fidedigno para os crentes. [18]
Assim, nenhuma acusação de antinomismo Cabe nessa interpretação, pois, a posição aqui defendida afirma que os crentes não estão mais sob a Lei mosaica, no entanto, não estão livres de toda a lei. Ela permanece à medida que vemos seu real significado em Cristo Jesus e a partir do que seguimos o que o NT determina como padrão moral a ser obedecido. Além disso, o argumento criacional também é evocado como parte da defesa dos teólogos aliancistas em torno do shabbat, como podemos ver na citação de Joseph Pipa, contudo, este argumento, embora pareça bastante convincente, tem algumas lacunas, que veremos no ensaio de Thomas R. Schreiner que chama-se: adeus e olá: o mandamento do Sabbath para os crentes da nova aliança. Nele, o autor entende que os crentes da nova aliança podem dizer "adeus" ao Sabbath uma vez que ele pertence à antiga aliança, no entanto, também devem dizer "olá" pois ele se cumpre em Cristo e aponta aponta para um descanso eterno. [19]
Não obstante, o autor também sugere que o argumento da criação não é convincente, pelos seguintes motivos: a) em primeiro lugar se o shabbat fosse de fato um decreto da criação ele teria sido necessário aos patriarcas, mas eles não parecem ter recebido essa ordem, b) Em segundo, não é tudo que se encontra na criação que deve ser obrigatório para os crentes hoje, por exemplo, não temos nenhuma obrigação hoje de "cultivar a terra e trabalhar como agricultores; e, ao contrário de Adão e Eva antes da queda, devemos usar roupas (Gn 2.25)." c) Por último, o apelo à criação como base para fundamentar essa visão acaba por não ter um bom testemunho canônico no Novo Testamento, pois, como já afirmamos há muitas evidências bíblicas que o mandamento do Sabbath já não está em vigor. Por isso, fazemos eco a afirmativa de Schneider: [20]
Os crentes em Jesus Cristo não são obrigados a guardar o Sabbath. Os cristãos podem observar o Sabbath se quiserem, mas não devem tratá-lo como requisito impostos a outros. O Sabbath era um sinal da aliança de Deus com Israel, assim como o arco-íris era um sinal da aliança com Noé…o Sabbath, como uma sombra, apontou para a realidade, para o cumprimento, que veio em Jesus Cristo.[21]
Assim, enxergar a questão do sábado como tendo seu real cumprimento em Jesus Cristo é a melhor forma de nos relacionarmos com o shabbat, ou seja, o descanso que nele existia apontava para o verdadeiro descanso que encontramos em Cristo, tanto o descanso em relação à nossa vida hoje, em relação aos nossos pecados e o legalismo da religião de obras que nos deixam cansados e sobrecarregados, quanto ao descanso escatológico que nos aguarda em nossa morada celestial. O verdadeiro descanso é abandonar todas as tentativas de fazer boas obras (Hebreus 4.10) como se elas trouxessem mérito perante Deus, render-se como um verdadeiro culpado e incapaz de obedecer a lei, para então se entregar a Jesus, entendo que se nosso descanso não estiver nele, nunca teremos paz.
O teólogo John Murray coloca a questão da seguinte forma a partir de seu comentário bíblico de Romanos:
O indivíduo que julgar iguais todos os dias, isto é, não considerando que dias particulares se revestem de significação religiosa peculiar, no julgamento do apóstolo, é reconhecidamente alguém que tem pleno direito de entreter esta postura. Isto não poderia ser verdade, se a distinção entre dias fosse um assunto vinculado à obrigação divina. Portanto, a pessoa que valoriza um dia mais que outro é fraca na fé; tal pessoa ainda não compreende o que está implícito na mudança da antiga aliança para a nova economia. [22]
Assim, em conformidade com o contexto de Rm 14, entendemos que a postura que estabelece a necessidade de um dia como mais especial que outro é a de alguém que ainda não compreendeu totalmente a nova aliança inaugurada com a vinda do Messias. No entanto, é importante mencionar que nosso intuito não é menosprezar os irmãos que crêem dessa forma, o próprio capítulo 14 de Romanos não nos permite fazer isso, pelo contrário, é dito que devemos acolher aqueles que são tidos como "fracos", além disso, eles têm liberdade de pensar dessa forma: "cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente", isso sugere aceitação mútua entre os crentes a despeito das discordâncias que possam existir entre eles.
4. O Senhor do sábado
Marcos 2. 23-28 é o nosso texto de análise nessa última parte, nossa proposta é fazer uma exegese minimamente detalhada deste texto, com intuito de entender como Jesus lidou com a controversa do Sábado, bem como ratificar que Jesus é o Senhor do sábado, entendendo que essa afirmação, de alguma forma, nos direciona ao entendimento de que é NEle que deve está o nosso verdadeiro descanso.
E aconteceu que Jesus passava pelos campos de cereais em dia de sábado e, enquanto caminhavam, seus discípulos começaram a colher espigas. E os fariseus lhe perguntaram: Por que eles estão fazendo o que não é permitido no sábado? Ele lhes respondeu: Acaso nunca lestes o que Davi fez quando ele e seus companheiros estavam em necessidade e com fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu dos pães consagrados, dos quais apenas os sacerdotes tinham permissão para comer, e deu também aos companheiros? E prosseguiu: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. De modo que o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado.[23]
O senhorio de Cristo é um tema caro para todo cristão ortodoxo, nenhum de nós estaria disposto a negar que em Cristo reside todo domínio e poder, de maneira que todas as coisas foram criadas por ele e para ele (cl 1. 16-18). Quando Jesus afirma, nos evangelhos, o seu senhorio e poder, ele o faz com todo o direito que lhe confere sua divindade, portanto, ao se colocar como Senhor do sábado, Jesus não está reeinvindicando algum tipo novo de poderio, antes, está apenas revelando uma realidade que ainda era desconhecida para o público judeu, assim, um dos propósitos do evangelho de Marcos, segundo Avila, é: "…a correção de falhas a respeito de quem é Jesus…" O intuito marcano, portanto, visa promover um real entendimento a respeito da pessoa e obra de Cristo. [24]
Nesse sentido, o público judeu, sem dúvidas, era o público que mais teve dificuldade em entender a pessoa e obra de Jesus, por isso, podemos afirmar que quando Jesus lida com a controversa sobre o sábado com os mestres da Lei, ele está querendo propor a verdadeira interpretação da instituição do sábado. No contexto da nossa passagem, temos a acusação por parte dos fariseus de que os discípulos de Jesus estavam fazendo o que não é lícito no sábado (v24), isto é, colher espigas, que poderia ser considerado o mesmo que ceifar, o que era de fato proibido pela lei (Êx 34.21). Jesus responde a acusação fazendo referência a Davi e o pão da proposição (1Sm 21. 1-7). Carson afirma o seguinte: "tal referência…não significa que Jesus está concordando com os princípios dos fariseus nesse momento, contentando-se em mostrar que tais regras admitem exceções."[25]
Assim, a tônica da argumentação de Jesus é que as Escrituras não condenam a Davi por sua atitude; mostrando que os fariseus não tinham uma compreensão adequada da lei em si e colocavam sobre ela um fardo desnecessário. mas a ênfase se encontra no verso final, a respeito do Senhorio de Cristo sobre o sábado. Carson coloca da seguinte forma: [26]
Se o Sabbath foi feito para o homem, não deve causar grande surpresa que o Filho do homem, o Messias, cuja autoridade para perdoar pecados foi enfatizada há pouco (2.10) também seja Senhor até mesmo do Shabbat. Aqui, como também em Mateus e Lucas, a ênfase recai sobre o termo "senhor" : o "filho do homem controla o shabbat, e não é controlado por ele", e Jesus é o Filho do Homem. Será que também é o "Senhor do Shabbat no sentido de que deve ser adorado? Não podemos afirmar com certeza que essa é a tônica do texto; ainda assim, trata-se de uma declaração momentosa, cujo significado vai muito além da autoridade para alterar as regras da Halaká.[27]
Nesse ínterim, dizer que Jesus é o Senhor do sábado é mais do que uma declaração messiânica, mas apresenta a possibilidade de uma mudança ou reinterpretação futura do shabbat, assim como a superioridade de Cristo sobre o templo apresenta certas possibilidades quanto à lei ritual. Por isso, podemos perceber que o Senhor estava ensinando que havia trazido uma renovação completa e integral de certas práticas religiosas no contexto da lei, e isto se aplica também à observância do shabbat. [28][29]
Ademais, em relação a questão da distinção feita em torno da lei como moral, cerimonial e civil, Carson argumenta que não fica absolutamente claro que os escritos no Antigo ou do novo Testamento classificam as leis do AT nessas categorias com precisão suficiente para que se possa determinar concordâncias ou discordâncias com base nessas distinções, ou seja, mesmo que se empregue tais categorias, é necessário observar que a transgressão da lei tanto por Davi quanto pelos sacerdotes tem sua origem na lei cerimonial, portanto, é perfeitamente possível sugerir que o Senhor coloca a lei do Shabbat nessa mesma classe de leis cerimoniais. Cristo é o cumprimento de toda a lei. Bavinck coloca isto desta forma:[30]
Ele é o cumprimento perfeito de toda a lei e profecia do Antigo Testamento, de todo sofrimento e de toda a glória que foi preparada e prefigurada em Israel; a contraparte de Reis e sacerdotes em Israel; a contraparte de todo o povo de Israel, que deveria ser um reino sacerdotal e um sacerdócio santo. Ele é o Rei-sacerdote e o Sacerdote-rei, Emanuel, Deus conosco.[31]
Portanto, aferir que o sábado no Novo Testamento é uma lei moral constitui-se em um erro. O shabbat e toda a lei esteve e está sob a autoridade de Jesus como Filho do Homem e, portanto, são os seus termos que estabelecem sua real observância, todo o antítipo presente na história e no povo de Israel tem sua culminância nEle. Jesus declarou ser maior que o sábado, esse é um argumento cabal, com base nessa autoridade Jesus podia de fato rejeitar os regulamentos farisaicos em relação ao sábado e restabelecer a intenção original de Deus. Em suma, o dia de descanso é a manifestação da graça de Deus concedida ao seu povo para lhes apresentar um vislumbre do nosso descanso eterno que está em Cristo, onde está nosso descanso definitivo e completo.
Considerações finais
Deus foi o autor da antiga aliança, contudo, ela tinha um propósito muito maior e mais profundo do que sua "simples" observância. Os aspectos cerimoniais da lei eram "cópias", "motivos", ou "sombras" de algo muito maior e verdadeiro que estava por vir. Como está escrito em Hebreus 7:18 - 22.[32]
Portanto, o mandamento anterior é anulado por causa de sua fraqueza e inutilidade. (pois a lei não aperfeiçoou coisa alguma) e, por outro lado, uma esperança melhor é introduzida, pela qual nos aproximamos de Deus. Não foi sem juramento que isso aconteceu. Pois aqueles foram feitos sacerdotes sem juramento, mas este se tornou sacerdote com o juramento daquele que lhe disse: O Senhor jurou e não mudará: Tu és sacerdote para sempre. Assim, Jesus tornou-se garantia de uma aliança melhor.
O livro de Hebreus faz uma excelente defesa da finalidade e da profunda superioridade de Cristo, nenhuma outra coisa ou pessoa, ou símbolo, ou dogma, chega perto de quem Ele é e do que Ele fez, ninguém era como Aquele que é maior que Moisés, que Davi, que todas as sombras que apontavam para Ele. Ele é o mediador da nova aliança, desde sua morte e ressurreição, a antiga aliança e a lei mosaica sofrem mudanças significativas em termos de progressão: [33]
Uma vez que a nova aliança foi instituída e inaugurada depois da morte e da ressurreição de Jesus, é imperativo entender que Jesus ministrou enquanto a aliança do Sinai ainda estava em vigor. Na verdade, o ministério terreno de Jesus focou particularmente em Israel (mt 10.6; 15.24). No entanto, os Evangelhos sugerem que a lei mosaica (especificamente o Sabbath) não se aplica da mesma forma desde que o Messias chegou (veja, p. ex., Mt 15.17-48; 17.24-27; Mc 7.1-23; jo 1.17).[34]
Desde que Ele chegou, portanto, Ele é nosso descanso. Timothy Keller colocou isso de uma forma maravilhosa:
A palavra Sábado significa descanso profundo, uma paz profunda. É um sinônimo bem próximo de shalom — um estado de integridade, de abundância em todas as dimensões da vida. Quando Jesus diz que ele é o Senhor do sábado, está dizendo que ele é sábado. Ele é a fonte do descanso profundo de que precisamos. Ele veio para mudar completamente a maneira como descansamos.[35]
Por isso, somente Cristo pode nos dar o descanso que buscamos e tanto projetamos em outras coisas. Jesus nos chama a descansar das nossas obras laboriosas, mas não em apenas um dia específico, mas nEle. Na cruz, Cristo viveu a experiência angustiante da separação de Deus, para que todo aquele que o busca sincera e verdadeiramente possa encontrar descanso para a alma. Esse é o seu eterno convite: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês." (Mt 11:28).
Ademais, nossa intenção com este artigo não é assumir a posição de que não podemos ter um dia para descanso, pelo contrário, valorizamos a tradição que se seguiu em eleger o domingo como o dia semanal de folga e adoração. Carson (2006) nos lembra que apesar de ser um fato inescapável que o Novo Testamento reinterpreta a questão do descanso literal no shabbath, fica clara a preocupação de Deus com a pessoa como um todo, assim, é perfeitamente provável que Deus deseja que tenhamos um dia semanal de descanso físico, e, se este dia for o domingo, que ele seja visto e considerado como uma dádiva e uma oportunidade de perceber a glória de Deus em todas as partes de nossas vidas, inclusive, na segunda-feira.[36]
1. Introdução
A questão envolvendo o mandamento do Sabbath para os crentes da nova aliança tem suscitado grandes e acalorados debates, isto devido ao fato de que sem dúvidas este é um mandamento claro nas Escrituras, contudo, sua dificuldade gira em torno de sua aplicabilidade à igreja no contexto da nova aliança, ou seja, para considerar essa questão de forma coerente é necessário entender qual a relação entre a Igreja com o antigo Testamento, bem como, a forma com que o novo Testamento lida com o shabbat, assim, nosso objetivo será fugir de dois extremos, a saber: aquele que afirma que o mandamento nada tem a ver com o povo de Deus da nova aliança, ademais, também daquele que afirma que a necessidade de se observar o domingo como mandamento para o atual povo de Deus.
Assim, é importante ressaltar que não é nossa pretensão assumir que este artigo dará conta de esgotar a questão em torno da problemática envolvendo esse tema, tampouco, considerar que a interpretação aqui defendida é a única ortodoxa possível, dessa forma, nossa proposta se adequa a uma tentativa de contribuição ao debate, tendo em vista a glória de Deus e a edificação do seu povo santo, além disso, esse trabalho também visa refletir sobre a obra de Cristo, assumindo que é nEle que deve está o nosso verdadeiro descanso, entendendo ser este o verdadeiro propósito do shabbat.
Nesse sentido, entendemos também que o tema do Shabbat é considerado como secundário no que diz respeito às doutrinas da fé, sendo, portanto, passível de discordância entre os mais variados âmbitos cristãos, de maneira que é possível afirmar que os cristãos podem discordar entre si a respeito deste assunto sem perder a ortodoxia de vista, tampouco o amor cristão, pois, maior é aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.
No entanto, a posição que assumimos neste artigo é bem clara: constitui-se em um erro teológico afirmar a obrigatoriedade da observância do dia do Senhor no contexto da nova aliança, tampouco que o mandamento teria sofrido uma transferência de dia, isto é, do sabado para o domingo, como defendem alguns teólogos reformados, por isso tentaremos defender essa visão de forma bastante respeitosa, mas sem deixar de fazer as críticas necessárias, pois entendemos da mesma forma como afirmou CARSON (2006, P. 15): “…não estamos convencidos de que o Novo Testamento desenvolve, sem qualquer ambiguidade, uma 'teologia de transferência', de acordo com o qual o shabbat é transferido para o primeiro dia da semana.”
Dessa forma, cremos que não há uma base textual sólida que forneça tal percepção teológica, sendo, portanto, um equívoco, afinal, se não há um sólido indicativo bíblico/textual para que se possa fazer uma exegese adequada, não há como trazermos um peso teológico tão grande como este que se coloca sobre os ombros do povo de Deus da nova aliança. No entanto, assumimos que há um sim uma boa base textual que afirma o contrário, isto é, a não obrigatoriedade de observância de nenhum dia específico, nem o sábado, entendendo que este ficou restrito ao povo de Israel na antiga aliança, tampouco o domingo, embora, podemos afirmar que este seja sim um dia especial de adoração do povo de Deus.
Para tal empreendimento, serão considerados dois textos no novo Testamento de forma exegética, primeiro o de Romanos 14 e segundo o de Marcos 2.32-28 com intuito de lançar luz sobre esse tema, partindo do princípio que a palavra de Deus é a luz que ilumina nosso caminho, como afirma o salmista: "Tua palavra é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho." Salmos 119:105.
2. O shabbat Cristão: a visão reformada
Iremos considerar a interpretação reformada tradicional a respeito do Shabbat, analisando as confissões de fé Batista de 1689 e o catecismo de Westminster, bem como a forma como alguns teólogos que abraçam a visão do domingo como o novo shabbat defendem seu ponto, tentando entender seus argumentos e propondo alguns contrapontos.
A confissão de fé Batista de 1689 coloca a questão da seguinte forma:
Pelo desígnio de Deus, há uma lei da natureza que, em geral, uma proporção do tempo seja destinada ao culto a Deus; desta forma, em sua Palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, válido a todos os homens em todas as eras, Deus particularmente nomeou um dia em sete para um descanso, para ser-lhe santificado. Desde o início do mundo até à ressurreição de Cristo, foi o último dia da semana; e, a partir da ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que é chamado de Dia do Senhor, e deve continuar até o fim do mundo como o Sabbath Cristão; sendo abolida a observação do último dia da semana.[4]
Assim, no entendimento dos batistas reformados que subscrevem a CFB1689 o domingo constitui-se como o dia no qual os cristãos da nova aliança devem reservar para o descanso e adoração, baseando sua visão no entendimento de que o Dia de descanso para adorar a Deus se encontra na ética da criação, isto é, no que eles chamam de lei moral, portanto sendo perpétua e "válido para todos os homens em todas as eras" como afirma a confissão. Por isso, segundo este entendimento, a partir do estabelecimento da Nova aliança, o mandamento moral continua, embora trazendo uma mudança no dia. Vejamos o que diz o famoso pastor Batista do século XIX, Charles H. Spurgeon:
Nosso senhor arrebatou o dia de descanso de suas velhas e enferrujadas dobradiças em que fora anteriormente colocado pela lei, desde os tempos antigos, e o colocou sobre as novas dobradiças de ouro que seu amor tinha arquitetado. Ele colocou nosso dia de descanso, não ao fim de uma semana de trabalho, mas sim no começo do repouso que resta para o povo de Deus. Em cada primeiro dia da semana devemos meditar sobre a ressurreição de nosso Senhor, e devemos buscar entrar entrar em comunhão com Ele em Sua vida ressurreta.[5]
Dessa feita, podemos aferir que um dos fundamentos sob o qual é estabelecido o dia do Senhor como o domingo, na nova aliança, origina do fato de Cristo ter ressuscitado no primeiro dia da semana (mt 28:1, Mc 16:2, Jo 20.1) e de fato, não dá dúvida quanto a isto, definitivamente foi no domingo. Além disso, outras coisas importantes aconteceram neste dia, como, por exemplo, o fato de que os primeiros cristãos cultuavam no domingo (atos 20.7), Paulo pede para que a coleta seja feita no domingo (1Co 16:2) e Apocalipse fala sobre o domingo como o dia do Senhor (Ap 1.10). Nesse sentido, devido a isto, muitos irmãos acabam sugerindo ao primeiro dia da semana importância tal que este teria sido o dia que na nova aliança o shabbat deveria ser observado.
Vejamos o que o que diz o catecismo maior de Westminster:
117. Como deve ser santificado o Sábado ou Dia do Senhor (=Domingo)? O Sábado, ou Dia do Senhor (=Domingo), deve ser santificado por meio de um santo descanso por todo aquele dia, não somente de tudo quanto é sempre pecaminoso, mas até de todas as ocupações e recreios seculares que são lícitos em outros dias; e em fazê-lo o nosso deleite, passando todo o tempo (exceto aquela parte que se deve empregar em obras de necessidade e misericórdia) nos exercícios públicos e particulares do culto de Deus. Para este fim havemos de preparar os nossos corações, e, com toda previsão, diligência e moderação, dispor e convenientemente arranjar os nossos negócios seculares, para que sejamos mais livres e mais prontos para os deveres desse dia.[6]
O catecismo de Westminster, diferente da CFB1689 não diz tão abertamente que o sábado da antiga aliança fora substituído pelo domingo, contudo, isto já parece ser um pressuposto, sendo portanto desnecessário afirmar diretamente, o catecismo usa apenas a expressão em parêntese (domingo) ao referir-se ao dia do Senhor muito provavelmente porque este tema já era algo estabelecido em sua doutrina, pois as mesmas palavras encontradas na CFB1689 são encontradas na confissão de fé de Westminster, visto que, em grande parte, a primeira se inspirou nesta segunda. A visão que entende o domingo como o shabbat Cristão se ampara grandemente na importância que o domingo teve para os apóstolos, bem como na defesa de sua observância por boa parte dos puritanos e em alguns escritos dos pais da igreja, como aponta o rev. Hernandes dias Lopes:
Os apóstolos, os nossos primeiros pais, os reformadores, os puritanos e aqueles que nos legaram o evangelho tiveram um santo zelo na observância do dia do Senhor. Entretanto, a secularização que invadiu a nossa cultura tem influenciado de tal forma a igreja, que os cristãos contemporâneos estão desprezando essa observância. Poucos são os crentes que se preparam espiritualmente para virem à Casa de Deus no domingo.[7]
Nesse sentido, é possível observar que o estabelecimento do domingo como dia do Senhor é grandemente amparado por teólogos de peso e de respeito, contudo, ainda assim, isto não significa que necessariamente sua visão esteja correta, pois argumento de autoridade nunca será válido neste debate, obviamente não é este o método usado pelos teólogos e irmãos que defendem este ponto, podemos perceber que há uma tentativa sincera em amparar sua visão elencando uma base bíblica sólida. Ora, tudo que fora mencionado acima sobre o domingo nenhum cristão coerente estaria disposto a negar, há sim uma importância significativa no primeiro dia da semana, sobretudo devido ao fato de que foi neste dia que o Senhor ressuscitou.
No entanto, a dificuldade se encontra nessa "teologia da transferência", nenhum texto utilizado na defesa do domingo como dia do Senhor sugere tal coisa, antes, apenas estabelece que de fato este dia tornou-se um dia especial de adoração do povo de Deus. Um dos teólogos aliancistas mais conhecidos na defesa do domingo como o dia do Senhor é Joseph Pipa, a respeito da mudança de dia do shabbath ele afirmou:
…visto que o quarto mandamento específica o sétimo dia, não estaríamos compelidos a guardar o sétimo dia como dia santo, ou então admitir que o quarto mandamento é datado e não mais vinculante? Não, pois, como temos visto, o quarto mandamento tinha aspectos cerimoniais. A confissão de fé de Westminster (21.7) refere-se à lei do Shabbat como positiva e moral…como o dia específico é uma lei positiva, o dia do Senhor pode ser mudado sem afetar a natureza moral da lei.[8]
Dessa forma, seguindo essa lógica, o domingo é este novo dia, desde a ressurreição, que fora estabelecido para os crentes na nova aliança como o novo shabbat, sendo sua observância também estabelecida. Contudo, alguns teólogos aliancistas argumentam em favor de um tipo de transferência menos problemático do ponto de vista bíblico/teológico, essa transferência se baseia no paralelo entre Israel e a igreja, que vê o dia de descanso como um memorial, Richard C. Barcellos, por exemplo, coloca sua visão da seguinte forma:
Como foi dado a Israel um dia memorial para recordar a sua libertação (isto é, o Sabbath), a igreja também recebeu um dia memorial (ou seja, o dia do Senhor) para recordar sua libertação. O que o antigo Testamento tipificada em Israel (isto é, o Filho e primogênito de Deus), encontra seu cumprimento em Jesus, o Filho e primogênito fiel de Deus, e no seu corpo, a igreja.[9]
Ora, o novo Testamento de fato interpreta a vinda de Cristo como cumprimento das esperanças de Israel (Lc 1:26-38, At 26:19-23), assim, de modo geral, não vemos problema nessa interpretação, o dia do Senhor pode sim ser visto como um memorial, no sentido de lembrarmos que foi neste dia que o Senhor ressuscitou e possibilitou nossa salvação, sem, contudo, atribuir um peso teológico de obrigatoriedade de observância, trazendo novamente um fardo que Cristo já levou sobre si.
Vejamos as palavras de João Calvino a esse respeito:
Mas, não há dúvida de que pela vinda do Senhor Jesus Cristo o que era aqui cerimonial foi abolido. Pois ele é a verdade, por cuja presença se desvanecem todas as figuras; o corpo, a cuja visão são deixadas para trás as sombras. Ele é, digo-o, o verdadeiro cumprimento do sábado. Com ele, sepultados por meio do batismo, fomos enxertados na participação de sua morte, para que, participantes de sua ressurreição, andemos em novidade de vida [Rm 6.4]. Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.[10]
O reformador, por outro lado, em nenhum dos seus escritos parece correlacionar o domingo, dia do Senhor, com o quarto mandamento no sentido de sua necessidade de obediência, tampouco parece sugerir que sua observância seria uma obrigação a igreja somente pelo fato de que fora neste dia que Jesus ressurgiu, embora, naturalmente, ele defende sua importância como dia escolhido pelos cristãos para adoração e o relaciona de alguma forma ao sábado judaico, contudo, asseverando contra a "superstição", ou seja, atribuir ao dia um significado religioso que ele não tem, assumindo, contudo, a necessidade de um dia para se conservar o "decoro a ordem e paz" na igreja:
Se porventura se teme superstição, muito mais perigo havia nos dias de guarda judaicos, nos dias do Senhor, do que agora observam os cristãos. Pois, visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo, para este fim.[11]
Portanto, embora possamos tratar o domingo como um dia especial para o povo de Deus na nova aliança, não estamos encontramos biblicamente nenhum respaldo sólido de que este dia se tornou o substituto do sábado judaico, a falta de elementos textuais que comprovem essa ideia é talvez o principal fator de dificuldade na crença dessa doutrina.
No entanto, por hora, nos ateremos apenas em expor a visão reformada em relação ao shabbat, propondo apenas o contraponto da visão de João Calvino. Em outro momento tentaremos fazer a defesa do porquê o domingo não deve ser visto como substituto do sábado judaico, no entanto, nosso argumento central gira em torno do fato de que não há uma boa base textual que corrobora com essa afirmativa, além disso, as evidências bíblicas apontam para o fato de que o shabbat foi instituído para o povo de Israel, a fim de ser celebrado como sinal semanal da aliança.[12]
3. O aliancismo progressivo e a culminância do sábado em Cristo
O aliancismo progressivo é uma visão, dentro dos sistemas teológicos, que tenta traçar uma posição mediadora no debate sobre as alianças e o seu cumprimento em Cristo, essa visão já encontra um bom número de adeptos, citamos os teólogos James M. Hamilton Jr, Stephen J Wellum, Brent E. Parker, estes dois últimos foram responsáveis por produzir uma excelente obra que propõe este sistema como uma terceira via entre o dispensacionalismo e o aliancismo, assim eles definem sua posição:
O termo progressivo busca sublinhar a natureza do desdobramento da revelação de Deus ao longo do tempo, enquanto a palavra aliancismo enfatiza que o plano de Deus se desenrola através das alianças, e que tudo das alianças encontra seu cumprimento, telos e término em Cristo.[13]
Dessa forma, com base neste princípio que diz respeito às alianças, Thomas Schreiner, no capítulo 6 do livro: "aliancismo progressivo - traçando uma via entre o dispensacionalismo e o aliancismo" (2017) lida com a controversa do Sábado, rejeitando a distinção tripartite da lei na teologia do pacto e fazendo uma definição de como o aliancismo progressivo entende o Sabbath, defendendo a tese de que ele não é mais necessário para os crentes da nova aliança, adiante veremos alguns dos seus argumentos.
Entretanto, para começarmos a entender o porquê não existe mais essa necessidade na nova aliança é preciso entender os aspectos de continuidade e descontinuidade entre a antiga e nova aliança, bem como entre os cristãos e a lei mosaica. Os teólogos aliancistas que defendem a necessidade da observância do quarto mandamento no novo Testamento entendem que a lei de Moisés permanece em vigor devido ao fato de enxergarem a lei de forma tripartite, isto é, a lei é tanto civil, quanto cerimonial e moral, ora, se a lei mosaica é de fato moral ela tem o seu caráter imutável pois o caráter moral (de Deus) não muda.
Assim, sua perspectiva assume a visão da continuidade dos Dez mandamentos no AT para o NT. Vejamos o que diz o teólogo aliancista Joseph Pipa: “…o mandamento do sabá não é senão a extensão e a aplicação da ordenança criacional. Assim como as responsabilidades morais do casamento e do trabalho permanecem, a responsabilidade moral de guardar santo um dia em sete também permanece.”[14][15]
Dessa feita, é razoável entender o porquê há uma defesa tão veementemente a respeito desse mandando por parte dos teólogos aliancistas, se este mandando segue como tendo o seu aspecto moral preservado no NT, inferir que ele foi abolido não parece ser adequado do ponto de vista da necessidade que temos, como crentes, em obedecer a lei moral do Senhor em voga no NT. Nesse aspecto, a única forma de entender este "mandamento" como inoperante na nova aliança é se defendermos a posição de que o Novo Testamento não estabelece essa divisão da lei, antes, propõe uma visão totalizante, como podemos ver em Gl 3.10-11: “Pois todos os que são das obras da lei estão debaixo de maldição. Porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece na prática de todas as coisas escritas no livro da lei. É evidente que ninguém é justificado diante de Deus pela lei, porque: O justo viverá pela fé.”
Desse modo, o novo testamento enfatiza que os crentes não estão mais sob a lei de Moisés, ou "debaixo da lei" (Gl 5.18) pelo simples fato de agora estamos em Cristo, portanto livres da lei (Rm 7.6). A lei tinha um prazo de validade, ela permaneceu em vigor até a sua completude em Cristo. Um aspecto fundamental que nos ajuda a entender isto é o tema da tipologia, isto é, como certos eventos e instituições (como o shabat) foram usados por Deus para prefigurar realidades maiores que culminam em Cristo, como Wellum e Brent colocam:[16]
Alguns tipos são plenamente cumpridos na primeira vinda de Cristo, enquanto outros são inicialmente cumpridos, ao mesmo tempo que têm cumprimento e realização antitípica na igreja e, finalmente, na nova criação. Mesmo assim, com a chegada do antítipo, ou seja, Jesus Cristo, o tipo é superado, pois o antítipo preenche o papel do tipo de forma tal que torna o tipo desnecessário e efetivamente obsoleto.[17]
Portanto, podemos afirmar que com a chegada de Cristo, todo e qualquer tipo é superado. O sábado, nesse ponto de vista, era uma instituição que apontava para nosso descanso eterno em Cristo.
3.1 O forte VS o fraco em Rm 14.
Lidando diretamente com o quarto mandamento, Rm 14.1-8 é talvez o texto que melhor estabelece sua relação com os crentes na nova aliança, neste verso, Paulo argumenta que o "forte" compreende melhor e mais adequadamente que o "fraco", isto é, o fraco seria aquele que faz diferença entre dia e dia (V.5a) já o "forte", seria aquele que entende que, de acordo com a visão de Chamblin (2013, p. 238): "as normas relativas ao sábado no AT são uma sombra apontando para a realidade, que é Cristo (Cl 2.16-23)." Por esse motivo, é possível julgar iguais todos os dias (V5). Desse modo, não parece que o NT em nenhum momento estabelece que esse aspecto do mandamento seguiu em algum nível moral, tampouco que ele fora substituído por outro dia.
O teólogo Douglas J. Moo coloca a questão da seguinte forma:
Uma dificuldade adicional é a questão de como determinar o que foi a lei "moral" e o que não foi. Mas a dificuldade básica, claro, é que o NT não trata o assunto dessa forma. A lei toda, cada i ou til, é cumprida em Cristo e somente pode ser compreendida e aplicada à luz desse cumprimento. Na prática ética real, muito pouco se perdeu. Porque o NT adota claramente todo o Decálogo, com exceção do sábado, como parte da lei de Cristo e, dessa forma, como fidedigno para os crentes. [18]
Assim, nenhuma acusação de antinomismo Cabe nessa interpretação, pois, a posição aqui defendida afirma que os crentes não estão mais sob a Lei mosaica, no entanto, não estão livres de toda a lei. Ela permanece à medida que vemos seu real significado em Cristo Jesus e a partir do que seguimos o que o NT determina como padrão moral a ser obedecido. Além disso, o argumento criacional também é evocado como parte da defesa dos teólogos aliancistas em torno do shabbat, como podemos ver na citação de Joseph Pipa, contudo, este argumento, embora pareça bastante convincente, tem algumas lacunas, que veremos no ensaio de Thomas R. Schreiner que chama-se: adeus e olá: o mandamento do Sabbath para os crentes da nova aliança. Nele, o autor entende que os crentes da nova aliança podem dizer "adeus" ao Sabbath uma vez que ele pertence à antiga aliança, no entanto, também devem dizer "olá" pois ele se cumpre em Cristo e aponta aponta para um descanso eterno. [19]
Não obstante, o autor também sugere que o argumento da criação não é convincente, pelos seguintes motivos: a) em primeiro lugar se o shabbat fosse de fato um decreto da criação ele teria sido necessário aos patriarcas, mas eles não parecem ter recebido essa ordem, b) Em segundo, não é tudo que se encontra na criação que deve ser obrigatório para os crentes hoje, por exemplo, não temos nenhuma obrigação hoje de "cultivar a terra e trabalhar como agricultores; e, ao contrário de Adão e Eva antes da queda, devemos usar roupas (Gn 2.25)." c) Por último, o apelo à criação como base para fundamentar essa visão acaba por não ter um bom testemunho canônico no Novo Testamento, pois, como já afirmamos há muitas evidências bíblicas que o mandamento do Sabbath já não está em vigor. Por isso, fazemos eco a afirmativa de Schneider: [20]
Os crentes em Jesus Cristo não são obrigados a guardar o Sabbath. Os cristãos podem observar o Sabbath se quiserem, mas não devem tratá-lo como requisito impostos a outros. O Sabbath era um sinal da aliança de Deus com Israel, assim como o arco-íris era um sinal da aliança com Noé…o Sabbath, como uma sombra, apontou para a realidade, para o cumprimento, que veio em Jesus Cristo.[21]
Assim, enxergar a questão do sábado como tendo seu real cumprimento em Jesus Cristo é a melhor forma de nos relacionarmos com o shabbat, ou seja, o descanso que nele existia apontava para o verdadeiro descanso que encontramos em Cristo, tanto o descanso em relação à nossa vida hoje, em relação aos nossos pecados e o legalismo da religião de obras que nos deixam cansados e sobrecarregados, quanto ao descanso escatológico que nos aguarda em nossa morada celestial. O verdadeiro descanso é abandonar todas as tentativas de fazer boas obras (Hebreus 4.10) como se elas trouxessem mérito perante Deus, render-se como um verdadeiro culpado e incapaz de obedecer a lei, para então se entregar a Jesus, entendo que se nosso descanso não estiver nele, nunca teremos paz.
O teólogo John Murray coloca a questão da seguinte forma a partir de seu comentário bíblico de Romanos:
O indivíduo que julgar iguais todos os dias, isto é, não considerando que dias particulares se revestem de significação religiosa peculiar, no julgamento do apóstolo, é reconhecidamente alguém que tem pleno direito de entreter esta postura. Isto não poderia ser verdade, se a distinção entre dias fosse um assunto vinculado à obrigação divina. Portanto, a pessoa que valoriza um dia mais que outro é fraca na fé; tal pessoa ainda não compreende o que está implícito na mudança da antiga aliança para a nova economia. [22]
Assim, em conformidade com o contexto de Rm 14, entendemos que a postura que estabelece a necessidade de um dia como mais especial que outro é a de alguém que ainda não compreendeu totalmente a nova aliança inaugurada com a vinda do Messias. No entanto, é importante mencionar que nosso intuito não é menosprezar os irmãos que crêem dessa forma, o próprio capítulo 14 de Romanos não nos permite fazer isso, pelo contrário, é dito que devemos acolher aqueles que são tidos como "fracos", além disso, eles têm liberdade de pensar dessa forma: "cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente", isso sugere aceitação mútua entre os crentes a despeito das discordâncias que possam existir entre eles.
4. O Senhor do sábado
Marcos 2. 23-28 é o nosso texto de análise nessa última parte, nossa proposta é fazer uma exegese minimamente detalhada deste texto, com intuito de entender como Jesus lidou com a controversa do Sábado, bem como ratificar que Jesus é o Senhor do sábado, entendendo que essa afirmação, de alguma forma, nos direciona ao entendimento de que é NEle que deve está o nosso verdadeiro descanso.
E aconteceu que Jesus passava pelos campos de cereais em dia de sábado e, enquanto caminhavam, seus discípulos começaram a colher espigas. E os fariseus lhe perguntaram: Por que eles estão fazendo o que não é permitido no sábado? Ele lhes respondeu: Acaso nunca lestes o que Davi fez quando ele e seus companheiros estavam em necessidade e com fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu dos pães consagrados, dos quais apenas os sacerdotes tinham permissão para comer, e deu também aos companheiros? E prosseguiu: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. De modo que o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado.[23]
O senhorio de Cristo é um tema caro para todo cristão ortodoxo, nenhum de nós estaria disposto a negar que em Cristo reside todo domínio e poder, de maneira que todas as coisas foram criadas por ele e para ele (cl 1. 16-18). Quando Jesus afirma, nos evangelhos, o seu senhorio e poder, ele o faz com todo o direito que lhe confere sua divindade, portanto, ao se colocar como Senhor do sábado, Jesus não está reeinvindicando algum tipo novo de poderio, antes, está apenas revelando uma realidade que ainda era desconhecida para o público judeu, assim, um dos propósitos do evangelho de Marcos, segundo Avila, é: "…a correção de falhas a respeito de quem é Jesus…" O intuito marcano, portanto, visa promover um real entendimento a respeito da pessoa e obra de Cristo. [24]
Nesse sentido, o público judeu, sem dúvidas, era o público que mais teve dificuldade em entender a pessoa e obra de Jesus, por isso, podemos afirmar que quando Jesus lida com a controversa sobre o sábado com os mestres da Lei, ele está querendo propor a verdadeira interpretação da instituição do sábado. No contexto da nossa passagem, temos a acusação por parte dos fariseus de que os discípulos de Jesus estavam fazendo o que não é lícito no sábado (v24), isto é, colher espigas, que poderia ser considerado o mesmo que ceifar, o que era de fato proibido pela lei (Êx 34.21). Jesus responde a acusação fazendo referência a Davi e o pão da proposição (1Sm 21. 1-7). Carson afirma o seguinte: "tal referência…não significa que Jesus está concordando com os princípios dos fariseus nesse momento, contentando-se em mostrar que tais regras admitem exceções."[25]
Assim, a tônica da argumentação de Jesus é que as Escrituras não condenam a Davi por sua atitude; mostrando que os fariseus não tinham uma compreensão adequada da lei em si e colocavam sobre ela um fardo desnecessário. mas a ênfase se encontra no verso final, a respeito do Senhorio de Cristo sobre o sábado. Carson coloca da seguinte forma: [26]
Se o Sabbath foi feito para o homem, não deve causar grande surpresa que o Filho do homem, o Messias, cuja autoridade para perdoar pecados foi enfatizada há pouco (2.10) também seja Senhor até mesmo do Shabbat. Aqui, como também em Mateus e Lucas, a ênfase recai sobre o termo "senhor" : o "filho do homem controla o shabbat, e não é controlado por ele", e Jesus é o Filho do Homem. Será que também é o "Senhor do Shabbat no sentido de que deve ser adorado? Não podemos afirmar com certeza que essa é a tônica do texto; ainda assim, trata-se de uma declaração momentosa, cujo significado vai muito além da autoridade para alterar as regras da Halaká.[27]
Nesse ínterim, dizer que Jesus é o Senhor do sábado é mais do que uma declaração messiânica, mas apresenta a possibilidade de uma mudança ou reinterpretação futura do shabbat, assim como a superioridade de Cristo sobre o templo apresenta certas possibilidades quanto à lei ritual. Por isso, podemos perceber que o Senhor estava ensinando que havia trazido uma renovação completa e integral de certas práticas religiosas no contexto da lei, e isto se aplica também à observância do shabbat. [28][29]
Ademais, em relação a questão da distinção feita em torno da lei como moral, cerimonial e civil, Carson argumenta que não fica absolutamente claro que os escritos no Antigo ou do novo Testamento classificam as leis do AT nessas categorias com precisão suficiente para que se possa determinar concordâncias ou discordâncias com base nessas distinções, ou seja, mesmo que se empregue tais categorias, é necessário observar que a transgressão da lei tanto por Davi quanto pelos sacerdotes tem sua origem na lei cerimonial, portanto, é perfeitamente possível sugerir que o Senhor coloca a lei do Shabbat nessa mesma classe de leis cerimoniais. Cristo é o cumprimento de toda a lei. Bavinck coloca isto desta forma:[30]
Ele é o cumprimento perfeito de toda a lei e profecia do Antigo Testamento, de todo sofrimento e de toda a glória que foi preparada e prefigurada em Israel; a contraparte de Reis e sacerdotes em Israel; a contraparte de todo o povo de Israel, que deveria ser um reino sacerdotal e um sacerdócio santo. Ele é o Rei-sacerdote e o Sacerdote-rei, Emanuel, Deus conosco.[31]
Portanto, aferir que o sábado no Novo Testamento é uma lei moral constitui-se em um erro. O shabbat e toda a lei esteve e está sob a autoridade de Jesus como Filho do Homem e, portanto, são os seus termos que estabelecem sua real observância, todo o antítipo presente na história e no povo de Israel tem sua culminância nEle. Jesus declarou ser maior que o sábado, esse é um argumento cabal, com base nessa autoridade Jesus podia de fato rejeitar os regulamentos farisaicos em relação ao sábado e restabelecer a intenção original de Deus. Em suma, o dia de descanso é a manifestação da graça de Deus concedida ao seu povo para lhes apresentar um vislumbre do nosso descanso eterno que está em Cristo, onde está nosso descanso definitivo e completo.
Considerações finais
Deus foi o autor da antiga aliança, contudo, ela tinha um propósito muito maior e mais profundo do que sua "simples" observância. Os aspectos cerimoniais da lei eram "cópias", "motivos", ou "sombras" de algo muito maior e verdadeiro que estava por vir. Como está escrito em Hebreus 7:18 - 22.[32]
Portanto, o mandamento anterior é anulado por causa de sua fraqueza e inutilidade. (pois a lei não aperfeiçoou coisa alguma) e, por outro lado, uma esperança melhor é introduzida, pela qual nos aproximamos de Deus. Não foi sem juramento que isso aconteceu. Pois aqueles foram feitos sacerdotes sem juramento, mas este se tornou sacerdote com o juramento daquele que lhe disse: O Senhor jurou e não mudará: Tu és sacerdote para sempre. Assim, Jesus tornou-se garantia de uma aliança melhor.
O livro de Hebreus faz uma excelente defesa da finalidade e da profunda superioridade de Cristo, nenhuma outra coisa ou pessoa, ou símbolo, ou dogma, chega perto de quem Ele é e do que Ele fez, ninguém era como Aquele que é maior que Moisés, que Davi, que todas as sombras que apontavam para Ele. Ele é o mediador da nova aliança, desde sua morte e ressurreição, a antiga aliança e a lei mosaica sofrem mudanças significativas em termos de progressão: [33]
Uma vez que a nova aliança foi instituída e inaugurada depois da morte e da ressurreição de Jesus, é imperativo entender que Jesus ministrou enquanto a aliança do Sinai ainda estava em vigor. Na verdade, o ministério terreno de Jesus focou particularmente em Israel (mt 10.6; 15.24). No entanto, os Evangelhos sugerem que a lei mosaica (especificamente o Sabbath) não se aplica da mesma forma desde que o Messias chegou (veja, p. ex., Mt 15.17-48; 17.24-27; Mc 7.1-23; jo 1.17).[34]
Desde que Ele chegou, portanto, Ele é nosso descanso. Timothy Keller colocou isso de uma forma maravilhosa:
A palavra Sábado significa descanso profundo, uma paz profunda. É um sinônimo bem próximo de shalom — um estado de integridade, de abundância em todas as dimensões da vida. Quando Jesus diz que ele é o Senhor do sábado, está dizendo que ele é sábado. Ele é a fonte do descanso profundo de que precisamos. Ele veio para mudar completamente a maneira como descansamos.[35]
Por isso, somente Cristo pode nos dar o descanso que buscamos e tanto projetamos em outras coisas. Jesus nos chama a descansar das nossas obras laboriosas, mas não em apenas um dia específico, mas nEle. Na cruz, Cristo viveu a experiência angustiante da separação de Deus, para que todo aquele que o busca sincera e verdadeiramente possa encontrar descanso para a alma. Esse é o seu eterno convite: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês." (Mt 11:28).
Ademais, nossa intenção com este artigo não é assumir a posição de que não podemos ter um dia para descanso, pelo contrário, valorizamos a tradição que se seguiu em eleger o domingo como o dia semanal de folga e adoração. Carson (2006) nos lembra que apesar de ser um fato inescapável que o Novo Testamento reinterpreta a questão do descanso literal no shabbath, fica clara a preocupação de Deus com a pessoa como um todo, assim, é perfeitamente provável que Deus deseja que tenhamos um dia semanal de descanso físico, e, se este dia for o domingo, que ele seja visto e considerado como uma dádiva e uma oportunidade de perceber a glória de Deus em todas as partes de nossas vidas, inclusive, na segunda-feira.[36]
Notas
[1] Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Pós graduando em Teologia Sistemática pelo Seminário teológico Jonathan Edwards. Pastor auxiliar na Primeira Igreja Batista de Benevides. E-mail: brunoeliseufr23@gmail.com
[2] Com visão reformada tradicional queremos dizer aquela interpretação dos que subscrevem a confissão de fé de Westminster, no caso da igreja e dos teólogos presbiterianos, bem como a visão Batista reformada dos teólogos que subscrevem a confissão de fé Batista de 1698. Ou daqueles que de alguma maneira seguem estas tradições.
[3] (PhD, Fuller Theological Seminary) leciona há mais de vinte anos no Southern Baptist Theological Seminary, onde atualmente ocupa a cátedra James Harrison Buchanan de Interpretação do Novo Testamento. É pastor da igreja Clifton Baptist Church, em Louisville,
[4] A confissão de fé Batista de 1689: um catecismo compilado por C.H. Spurgeon. 9ª ed. Francisco morato: O estandarte de Cristo, 2019. p. 83.
[5] SPURGEON, apud ANGELIM, 2019, p. 213.
[6] Catecismo maior de Westminster. Disponível em: https://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm. acesso em: 07/09/2023.
[7] A observância do domingo, o dia do Senhor. Disponível em: https://www.igrejapresbiterianadepraiagrande.com/a-observncia-do-domingo-o-dia-do-senho. Acesso em: 07/09/2023.
[8] PIPA, 2021, p. 19.
[9] BARCELLOS, 2022, p. 185.
[10] Calvino e o quarto mandamento. Disponível em: http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/joao-calvino/calvino-e-o-quarto-mandamento.html. acesso em: 07/09/2023.
[11] Ibidem.
[12] Para um maior aprofundamento, veja uma análise abrangente do tema em: CARSON, D. A. Do Sabbath ao dia do Senhor [tradução Susana Klassen]. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
[13] WELLUM, PARKER, 2020, p. 14
[14] Para maior aprofundamento do assunto, veja: WELLUM, Stephen J. PARKER, Brent E. Aliancismo progressivo: traçando uma via entre o dispensacionalismo e o aliancismo. Brasília, DF: dois dedos de teologia, 2020.
[15] O debate sobre o sabá: o domingo puritano. Disponível em: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2015/01/o-debate-sobre-o-saba-o-domingo-puritano/. Acesso em: 07/09/23.
[16] Um tipo é um evento, pessoa ou instituição que serve como um exemplo ou padrão para outros eventos, pessoas ou instituições. [...] A base da tipologia é a consistente atividade de Deus na história do seu povo escolhido. O antítipo seria o nível mais profundo ou climático dos eventos, pessoas ou instituições referidas. (Retirado da aula sobre Sistemas teológicos com o professor Rômulo Monteiro, 2023).
[17] WELLUM, BRENT, 2020, p. 62.
[18] MOO, 2013. p. 265. In: FEINBERG, John S. Continuidade e descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento entre o antigo e o novo Testamentos. São Paulo: Hagnos, 2013.
[19] Anti = contra nomos = lei, contrário a lei, ou seja, aquele que se opõe em seguir qualquer mandamento ou lei, no contexto teológico, ppderia dizer que é alguem ou algum grupo de pessoas que sao contra seguir a lei De Deus no sentido de que esta teria perdido sua obrigatoriedade. Para melhor entendimento ver: https://estudodedeus.com.br/o-que-e-antinomismo-na-biblia/. Acesso em: 07/09/23.
[20] WELLUM, BRENT, 2020. P. 181.
[21] Ibid, p. 200.
[22] MURRAY, 2003, p. 539.
[23] Marcos 2. 23-28.
[24] AVILA, 2023, p. 9-10.
[25] CARSON, 2006, p 61.
[26] Ibid, apud, Cranfield.
[27] Halachá (הלכה) é o nome do conjunto de LEIS do povo e da religião judaica para os 613 Mandamentos que constam na Torá.
[28] CARSON, 2006, p 66.
[29] Ibid, p. 67.
[30] Ibid, p. 69.
[31] BAVINCK, 2021, p. 375.
[32] KAISER, 2011, p 390.
[33] Ibid, p. 392.
[34] SCHREINER, 2020, p. 183. In: WELLUM, Stephen J. PARKER, Brent E. Aliancismo progressivo: traçando uma via entre o dispensacionalismo e o aliancismo
[35] KELLER, 2012, p. 60.
[36] CARSON, 2006, p. 419.
[1] Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Pós graduando em Teologia Sistemática pelo Seminário teológico Jonathan Edwards. Pastor auxiliar na Primeira Igreja Batista de Benevides. E-mail: brunoeliseufr23@gmail.com
[2] Com visão reformada tradicional queremos dizer aquela interpretação dos que subscrevem a confissão de fé de Westminster, no caso da igreja e dos teólogos presbiterianos, bem como a visão Batista reformada dos teólogos que subscrevem a confissão de fé Batista de 1698. Ou daqueles que de alguma maneira seguem estas tradições.
[3] (PhD, Fuller Theological Seminary) leciona há mais de vinte anos no Southern Baptist Theological Seminary, onde atualmente ocupa a cátedra James Harrison Buchanan de Interpretação do Novo Testamento. É pastor da igreja Clifton Baptist Church, em Louisville,
[4] A confissão de fé Batista de 1689: um catecismo compilado por C.H. Spurgeon. 9ª ed. Francisco morato: O estandarte de Cristo, 2019. p. 83.
[5] SPURGEON, apud ANGELIM, 2019, p. 213.
[6] Catecismo maior de Westminster. Disponível em: https://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm. acesso em: 07/09/2023.
[7] A observância do domingo, o dia do Senhor. Disponível em: https://www.igrejapresbiterianadepraiagrande.com/a-observncia-do-domingo-o-dia-do-senho. Acesso em: 07/09/2023.
[8] PIPA, 2021, p. 19.
[9] BARCELLOS, 2022, p. 185.
[10] Calvino e o quarto mandamento. Disponível em: http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/joao-calvino/calvino-e-o-quarto-mandamento.html. acesso em: 07/09/2023.
[11] Ibidem.
[12] Para um maior aprofundamento, veja uma análise abrangente do tema em: CARSON, D. A. Do Sabbath ao dia do Senhor [tradução Susana Klassen]. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
[13] WELLUM, PARKER, 2020, p. 14
[14] Para maior aprofundamento do assunto, veja: WELLUM, Stephen J. PARKER, Brent E. Aliancismo progressivo: traçando uma via entre o dispensacionalismo e o aliancismo. Brasília, DF: dois dedos de teologia, 2020.
[15] O debate sobre o sabá: o domingo puritano. Disponível em: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2015/01/o-debate-sobre-o-saba-o-domingo-puritano/. Acesso em: 07/09/23.
[16] Um tipo é um evento, pessoa ou instituição que serve como um exemplo ou padrão para outros eventos, pessoas ou instituições. [...] A base da tipologia é a consistente atividade de Deus na história do seu povo escolhido. O antítipo seria o nível mais profundo ou climático dos eventos, pessoas ou instituições referidas. (Retirado da aula sobre Sistemas teológicos com o professor Rômulo Monteiro, 2023).
[17] WELLUM, BRENT, 2020, p. 62.
[18] MOO, 2013. p. 265. In: FEINBERG, John S. Continuidade e descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento entre o antigo e o novo Testamentos. São Paulo: Hagnos, 2013.
[19] Anti = contra nomos = lei, contrário a lei, ou seja, aquele que se opõe em seguir qualquer mandamento ou lei, no contexto teológico, ppderia dizer que é alguem ou algum grupo de pessoas que sao contra seguir a lei De Deus no sentido de que esta teria perdido sua obrigatoriedade. Para melhor entendimento ver: https://estudodedeus.com.br/o-que-e-antinomismo-na-biblia/. Acesso em: 07/09/23.
[20] WELLUM, BRENT, 2020. P. 181.
[21] Ibid, p. 200.
[22] MURRAY, 2003, p. 539.
[23] Marcos 2. 23-28.
[24] AVILA, 2023, p. 9-10.
[25] CARSON, 2006, p 61.
[26] Ibid, apud, Cranfield.
[27] Halachá (הלכה) é o nome do conjunto de LEIS do povo e da religião judaica para os 613 Mandamentos que constam na Torá.
[28] CARSON, 2006, p 66.
[29] Ibid, p. 67.
[30] Ibid, p. 69.
[31] BAVINCK, 2021, p. 375.
[32] KAISER, 2011, p 390.
[33] Ibid, p. 392.
[34] SCHREINER, 2020, p. 183. In: WELLUM, Stephen J. PARKER, Brent E. Aliancismo progressivo: traçando uma via entre o dispensacionalismo e o aliancismo
[35] KELLER, 2012, p. 60.
[36] CARSON, 2006, p. 419.
Referências
ANGELIM, Fernando. Teologia bíblica Batista reformada: uma introdução baseada na confissão de fé Batista de 1689. Francisco Morato, SP: o estandarte de Cristo, 2020.
AVILA, Matheus Ramos de. Cristologia nos evangelhos de Marcos e Mateus: uma breve análise da cristologia narrativa. Revista teológica Jonathan Edwards III, Nº 2. (2023) 6 - 21.
BARCELLOS, Richard C. Melhor que no princípio. SP: O estandarte de Cristo, 2022.
BAVINCK, Herman. As maravilhas de Deus: instrução na religião cristã de acordo com a confissão reformada. São Paulo: Pilgrim serviços e aplicações; Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.
CARSON, D. A. Do Sabbath ao dia do Senhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
FEINBERG, John S. Continuidade e descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento entre o antigo e o novo Testamentos. São Paulo: Hagnos, 2013.
MURRAY, John. Comentário bíblico de Romanos. São José dos Campos - SP: Editora fiel. 2003.
PIPA, Joseph A. O dia do Senhor é para você? Brasília, DF: Editora Monergismo. 2021.
KAISER, Walter C., Jr. O plano da promessa se Deus: teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Trad Gordon Chown, A. G. Mendes. São Paulo: Vida nova, 2011.
KELLER, Thimoty. A cruz do Rei: a história do mundo na vida de Jesus. Trad Marisa K. A. de S. Lopes. São Paulo: Vida nova, 2012.
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