Aspecto Verbal no Grego do Novo Testamento

Aspecto Verbal no Grego do Novo Testamento

Lucas Luciano de Araujo[1]

Resumo

Resumo: O propósito desse artigo é fazer uma introdução à teoria do aspecto verbal sob a premissa do Novo Testamento. O aspecto verbal surge como um rompimento à maneira antiga de se entender o sistema verbal grego que é baseada no Aktionsart. A compreensão do novo paradigma tem imensas contribuições para a exegese do Novo Testamento, tanto pelo provimento de maior nuance interpretativa quanto pelo afastamento de gafes linguísticos.

Palavras-chave: Aspecto Verbal. Grego. Novo Testamento. Aktionsart.

Abstract: The purpose of this article is to introduce the verbal aspect theory from the New Testament perspective. The verbal aspect emerges as a break with the old way of understanding the Greek verbal system that is based on Aktionsart. Understanding the new paradigm has immense contributions to the exegesis of the New Testament, both by providing greater interpretative nuance and by avoiding linguistic blunders.

Key-words: Verbal Aspect. Greek. New Testament. Aktionsart.

Resumo: O propósito desse artigo é fazer uma introdução à teoria do aspecto verbal sob a premissa do Novo Testamento. O aspecto verbal surge como um rompimento à maneira antiga de se entender o sistema verbal grego que é baseada no Aktionsart. A compreensão do novo paradigma tem imensas contribuições para a exegese do Novo Testamento, tanto pelo provimento de maior nuance interpretativa quanto pelo afastamento de gafes linguísticos.

Palavras-chave: Aspecto Verbal. Grego. Novo Testamento. Aktionsart.

Abstract: The purpose of this article is to introduce the verbal aspect theory from the New Testament perspective. The verbal aspect emerges as a break with the old way of understanding the Greek verbal system that is based on Aktionsart. Understanding the new paradigm has immense contributions to the exegesis of the New Testament, both by providing greater interpretative nuance and by avoiding linguistic blunders.

Key-words: Verbal Aspect. Greek. New Testament. Aktionsart.

Artigo

1. Introdução

É imprescindível que nos aprofundemos na língua original do Novo Testamento se queremos entender sua mensagem precisamente em primeira mão. Estar por dentro das discussões relacionadas ao grego é importante e sua área de maior avanço e engajamento dos últimos 30 anos é a teoria do aspecto verbal. Como diz Porter “aqueles que não incluem análise do aspecto verbal [...] nos seus estudos do texto grego não estão satisfatoriamente examinando o Novo Testamento Grego”. No entanto, sua literatura é complexa e inacessível, principalmente àqueles que tem o português como sua única língua de leitura. Desse modo, o propósito desse artigo é fazer uma introdução à teoria do aspecto verbal sob a ótica do Novo Testamento. [2]

Uma boa introdução a uma teoria deve conter sua definição, sua história de desenvolvimento e sua utilidade prática. Esse artigo é estruturado sobre as 3 colunas. Primeiro, definiremos aspecto verbal e falaremos dos aspectos existentes. Em seguida, discorreremos brevemente sobre a história da pesquisa recente (desde o séc. XX) e abordaremos os debates originados dela. Por fim, analisaremos como o aspecto verbal pode ser útil para exegese do Novo Testamento através da proeminência discursiva.

2. O que é aspecto verbal?

Antes de definirmos aspecto verbal, precisamos inserir seu surgimento no contexto dos estudos dominantes sobre o tempo verbal da língua grega. Embora a teoria possa parecer nova, ela floresce a partir de insatisfações recorrentes. Por isso devemos observar, pelo menos a partir do século 18, qual tem sido a visão tradicional sobre o tempo verbal grego.

2.1. A visão tradicional sobre o sistema verbal grego

As línguas são diferentes. É errado estudar uma língua sob a ótica e premissa de outra. Durante o período racionalista (séc. 17-19), pela influência do latim, estudiosos da língua grega afirmaram que tempo e formas-verbais são correspondentes. Pensava-se que para expressar uma ação no tempo passado, as formas usadas devem ser o aoristo, o imperfeito, e o mais-que-perfeito; para uma ação no tempo presente, a forma do presente e do perfeito; e para uma ação no futuro, a forma do futuro. O resultado era um sistema verbal completamente baseado no tempo.

Contudo, existem inúmeras exceções na língua grega. Há diversos verbos na forma do presente se referindo ao passado, como há verbos na forma do aoristo se referindo ao presente – e até mesmo ao futuro. Além disso, há exemplos de diferentes formas temporais usadas no mesmo contexto temporal.

A forma do tempo presente se referindo a diferentes contextos temporais: [3]

Mt 8:25: κύριε . . . ἀπολλύμεθα (“Senhor . . . nós estamos perecendo,” presente)

Mc 11:27: Καὶ ἔρχονται πάλιν εἰς Ἱεροσόλυμα (“e eles voltaram para Jerusalém,” passado)

Mt 26:18: πρὸς σὲ ποιῶ τὸ πάσχα μετὰ τῶν μαθητῶν μου (“com você, eu farei a Páscoa com meus discípulos,” futuro)

2 Cor 9:7: ἱλαρὸν γὰρ δότην ἀγαπᾷ ὁ θεός (“Pois Deus ama um alegre doador,” temporariamente aberto)

Diferentes formas verbais usadas no mesmo contexto temporal:[4]

Lc 21:10: Τότε ἔλεγεν αὐτοῖς (“Então ele disse a eles,” imperfeito)

Lc 20:41: Εἶπεν δὲ πρὸς αὐτούς (“e ele disse a eles,” aoristo)

At 20:38: τῷ λόγῳ ᾧ εἰρήκει, (“foi a palavra que ele falou” perfeito)

Mc 5:19: ἀλλὰ λέγει αὐτῷ (“mas ele disse a eles,” presente)

Até mesmo a forma verbal do aoristo sendo usado para o futuro:[5]

Jo 17.14,18: ὁ κόσμος ἐμίσησεν αὐτούς… κἀγὼ ἀπέστειλα αὐτοὺς εἰς τὸν κόσμον (“o mundo irá vos odiar... eu vou enviá-los ao mundo”, futuro)[6]

Jd 14: ἰδοὺ ἦλθεν κύριος ἐν ἁγίαις μυριάσιν αὐτοῦ (“veja, o Senhor virá com miríades de seus santos”, futuro)

A quantidade de exceções era enorme. Se uma mesma forma verbal pode se referir a diferentes contextos temporais e diferentes formas verbais podem se referir ao mesmo contexto verbal, parece convincente a afirmação de que o significado dessas formas verbais é outro que não seja o tempo. É nesse contexto que surgem desvios como o “presente histórico”. A maneira como se entendia o sistema verbal grego se demonstrava insuficiente e outra proposta foi buscada.[7][8]

Os estudiosos no século 19, para explicar as formas verbais, formularam aquilo que conhecemos por Aktionsart (‘tipo de ação’ em alemão). O modelo funcionava juntamente com o de tempo. A ideia era que as formas verbais comunicavam tanto o tempo da ação, “quando ocorreu” (no indicativo), quanto o tipo de ação, “como ocorreu” (em todo o resto). As formas verbais, portanto, além de comunicar o tempo, nos diziam a maneira como uma ação ocorria. Por exemplo, o aoristo indica uma ação pontiliniear, que começou e terminou, no tempo passado. A forma do presente indica uma ação contínua, progressiva. O perfeito, uma ação que ocorreu e terminou no passado, mas cujos resultados afetam o presente.

Essa tem sido a explicação dominante da maioria das gramáticas, comentários e cursos de grego. Diversos sermões exemplificam esse paradigma das formas verbais. Entretanto, embora seja a abordagem tradicional, ela tem sido desafiada nos últimos 30 anos. À luz do advento da linguística moderna e do tratamento sincrônico de uma língua (i.e. estudar o grego nos seus próprios termos, e não nos termos do latim), a teoria dominante tem sido substituída por um modelo conhecido como aspecto verbal. [9]

2.2. Definição

Aspecto vem da palavra francesa aspect, que significa ‘ponto de vista’. A ideia é que as formas verbais não indicam primariamente tempo da ação (ver debate em 5.3) nem o tipo de ação (Aktionsart), mas sim como o autor resolve conceber ou ver a ação. Aspecto se refere à perspectiva do autor sobre a ação. Segundo Porter: “Aspecto verbal é definido como uma categoria semântica (significado) pela qual o orador ou o escritor gramaticaliza (i.e., representa um sentido ao escolher uma forma verbal) uma perspectiva de uma ação pela seleção de uma forma-verbal específica no sistema-verbal”.[10]

De acordo com Fanning, “aspecto é a categoria na gramática do verbo que reflete o foco ou o ponto de vista do autor com relação à ação ou condição à qual o verbo descreve”. Mais uma vez, Campbell diz que aspecto verbal “se refere a maneira pela qual verbos são usados para ver uma ação ou estado”.[11][12]

Um importante princípio linguístico é que escolha implica em significado. E segundo Mathewson, “Ao escolher uma forma verbal”, seja essa escolha consciente ou não, “o autor escolhe ver a ação de um jeito específico”. Dessa maneira, existe uma relação implícita entre a ação descrita e o ponto de referência no qual ela é vista.[13][14]

Perceba que o aspecto tem natureza perspectiva e subjetiva, uma vez que depende do autor. As maneiras como o autor pode escolher enxergar uma ação por meio das formas verbais ficarão mais claras quando vermos os aspectos mais abaixo e alguns exemplos. Por enquanto, precisamos delinear uma distinção frequentemente confundida entre aspecto verbal e Aktionsart.

2.3. Aspecto Verbal x Aktionsart

Embora já se tenha feito considerável avanço nos estudos de aspecto verbal, muitos autores oscilam entre Aktionsart e aspecto verbal sem nenhuma dificuldade, indicando uma confusão quanto aos modelos.

Johannes Bergmann, em sua gramática antiga, parece ser um exemplo disso. Ele diz que a “função principal do tempo verbal em grego é expressar o aspecto, i.e. a qualidade, o estado ou o tipo da ação [...]” o que, na verdade, se refere a Aktionsart. E então, ele diz que “o aspecto verbal informa sobre a maneira em que o narrador subjetivamente vê a ação”, o que se refere ao aspecto de fato.[15]

Em sua gramática mais recente, ele mantém o pensamento: “A função principal do tempo verbal no grego não é indicar quando uma ação acontece (se no passado, presente ou futuro), mas como ela acontece. Neste caso, o tempo verbal focaliza mais no aspecto da questão”.[16]

Manuel Alexandre Júnior também parece confundir aspecto verbal e Aktionsart. Ele assume a importância secundária que o tempo tem no verbo e a primazia do aspecto. Ele prossegue dizendo que a ação do verbo, portanto, envolve “tempo da ação e qualidade da ação”, sendo o papel do aspecto descrever que a ação “é realizada de determinado modo – ação durativa ou contínua, ação pontual ou momentânea e ação resultativa ou completa”.[17]

Por último, a mistura de paradigmas em Esequias Soares é ainda sem menos nuance. Para ele, aspecto verbal “é o tipo de ação ou qualidade de ação, a forma que o verbo assume para expressar como e não quando se dá de o fato, também conhecido pela palavra alemã aktionsart”.[18]

Infelizmente, alguns dos poucos manuais de grego bíblico disponíveis em português revelam certa falta de compreensão entre os paradigmas antigo e novo. Contudo, a distinção está em que, no Aktionsart, as formas verbais no grego seriam usadas para demonstrar como a ação ocorria objetivamente; enquanto no aspecto verbal, como o autor percebe a ação subjetivamente. Carson nos adverte:

Os dois [modelos] estão constantemente confusos. Mesmo onde há reconhecimento formal de que os dois modelos são diferentes (assim o BDF §318 rotula Aktionsarten como 'tipos de ação' e aspectos como 'pontos de vista'), essas gramáticas não sentem nenhum constrangimento em atribuir uma forma verbal a um ou ao outro dependendo inteiramente das exigências aparentes do contexto.[19]

Repare que, enquanto o modelo de aspecto verbal vincula formas verbais à perspectiva do autor, o paradigma antigo vincula as formas verbais ao que realmente acontece. O aspecto verbal é a ponto de vista do autor sobre a ação (como a ação é vista), Aktionsart é o tipo de ação (como a ação acontece). O modelo de aspecto verbal é fundamentado subjetivamente; o modelo de Aktionsart, objetivamente. [20][21]

3. Os Aspectos

A definição sobre aspecto verbal como ponto de vista é um consenso entre os estudiosos. Depois de analisarmos os pontos de concordância, fará mais sentido vermos a história da pesquisa recente (ponto 4) e os pontos de discordância originados por ela (ponto 5). Por enquanto, vale notarmos que também é um consenso que existem pelo menos dois aspectos, e que sua noção é altamente espacial. Ao escolher uma forma verbal, o autor escolhe ver a ação de certa maneira – o que indica seu aspecto.

3.1. Aspecto Perfectivo

Se o ponto de referência no qual o autor escolhe ver a ação é externo, o aspecto será o perfectivo, que é gramaticalizado pela forma do aoristo. No aspecto perfectivo, o autor olha para a ação em sua inteireza, como um todo completo (e não completada), como um resumo – sem referência a seu processo, início e fim. Portanto, o aoristo indica um ponto de vista do exterior, fora da ação.[22]

3.2. Aspecto Imperfectivo

Se o ponto de referência no qual o autor escolhe ver a ação é interno, o aspecto será o imperfectivo, que é gramaticalizado pela forma do presente e do imperfeito. No aspecto imperfectivo, o autor olha para a ação como se desenrolando na sua frente, uma ação em progresso, um desenvolvimento – o que não implica em uma ação contínua, habitual ou repetida. Dessa maneira, o presente e o imperfeito indicam um ponto de vista interior, uma visão de perto da ação.[23]

3.3. Exemplo do repórter na parada

O exemplo da parada é clássico para se compreender melhor os aspectos. Imagine uma parada, algo como um desfile, ocorrendo em uma cidade. Há uma repórter acompanhando a parada do helicóptero. Ela a está vendo externamente, como um todo completo. A repórter descreve a parada de forma genérica e resumida, sem se importar com seu processo, início e fim. Esse ponto de vista é o aspecto perfectivo. Contudo, se a repórter não vê a parada do helicóptero, mas da arquibancada, seu ponto de vista muda. Ela a vê passando na sua frente, progredindo, à medida que a parada se desenrola. Esse ponto de vista interno é o aspecto imperfectivo. Repare que (1) embora cada aspecto descreva a mesma circunstância, eles têm perspectivas diferentes dela, (2) nenhum aspecto tenta fazer uma descrição objetiva da circunstância, mas sim representar a concepção subjetiva do autor.[24][25]

Se o aspecto imperfectivo é indicado pela forma do presente e do imperfeito, qual a diferença entre eles? A resposta para isso está na noção de remoteness, um conceito complexo que não pode ser tratado com profundidade aqui. A ideia básica é a seguinte: se a repórter está mais distante, talvez no fundo da arquibancada, e vê a parada de longe, a forma verbal é a do imperfeito. Se a repórter está mais perto, à frente na arquibancada e vê a parada mais próxima, a forma verbal é a do presente. O ponto de vista do imperfeito é imperfectivo e mais remoto; o ponto de vista do presente, imperfectivo e não-remoto. A forma do perfeito, mais-que-perfeito e futuro são mais controversas e, por isso, serão tratadas adiante.[26]

4. Uma brevíssima história da pesquisa recente

Uma vez que já vimos já vimos a definição de aspecto verbal em contraste com os paradigmas anteriores, é útil que vejamos como essa teoria se desenvolveu ao longo das últimas décadas. Compreendendo seu desenvolvimento e seus contribuintes mais importantes, estaremos aptos para analisarmos os pontos de discordância entre os estudiosos.

4.1. O período inicial

A teoria do aspecto verbal se deparou com muito desenvolvimento no início do século XX, principalmente pelo estudo das línguas eslavas. Ao que parece, o primeiro encontro significativo entre aspecto verbal e a língua grega se deu pelas mãos de J. Holt (1943). Contudo, foi K.L. McKay – cujo foco era grego clássico antes de se voltar ao Novo Testamento – que introduziu o aspecto verbal ao grego do Novo Testamento.[27][28]

McKay escreveu sobre aspecto verbal pelos próximos 30 anos e se tornou cada vez mais assertivo em suas conclusões. Ao logo do tempo, ele minimizou cada vez mais o papel que o tempo tinha na semântica do verbo, até rejeitá-lo completamente em favor da unanimidade do aspecto (veja ponto 5.3). Embora McKay não tenha sido amplamente reconhecido à época, ele plantou a semente da revolução e preparou o caminho para figuras como Stanley Porter e Buist Fanning.[29]

4.2. O período moderno[30]

Tanto Porter quanto Fanning completaram seu doutorado na Inglaterra na mesma época. Stanler E. Porter publicou sua dissertação de doutorado pela Universidade de Sheffield, Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood (1989). Porter, além de teologia, é treinado formalmente em linguística, se tornando o primeiro a aplicar um método línguistico rigoroso à questão do aspecto verbal – a Linguística Sistêmica Funcional, fundada por M.A.K. Halliday.[31]

Buist Fanning publica, pouco depois, sua dissertação de doutorado pela Universidade de Oxford, Verbal Aspect in New Testament Greek (1990). Embora um não soubesse da pesquisa simultânea do outro, eles concordam muito entre si – o que é surpreendente e encorajador. Contudo, ainda há uma discordância significativa entre as duas figuras que renderam diversos debates (ver mais abaixo no ponto 5). Fanning é mais conservador em sua proposta e, portanto, mais aceito entre tradicionalistas. Porter é mais revolucionário e controverso. Por não ser tão rigoroso linguisticamente, Fanning não recebe muita apreciação de linguistas, – seus apreciadores são em maioria teólogos – o que não é o caso de Porter. [32][33]

Foram essas duas figuras que revolucionaram os debates e recolocaram aspecto verbal no mapa desde então. No ano de 1991, na conferência anual da Society of Biblical Literature que ocorreu em Kansas City, uma sessão foi dedicada à discussão dos recentes livros de Porter e Fanning, com um artigo de cada, duas respostas e uma introdução – gerando o conhecido Porter/Fanning Debate. Tamanha a importância de ambos, que os estudiosos subsequentes passam a se posicionar de acordo com Fanning ou Porter nos debates.[34]

Em seguida, temos as importantes contribuições de K.L.McKay, A New Syntax of the Verb in New Testament Greek: An Aspectual Approach (1993); Mari Broman Olsen, A Semantic and Pragmatic Model of Lexical and Grammatical Aspect (1997); Rodney Decker, Temporal Deixis of the Greek Verb in the Gospel of Mark with Reference to Verbal Aspect (2001); T.V. Evans, Verb Syntax in the Greek Pentateuch: Natural Greek Usage and Hebrew Interference (2001); Constantine R. Campbell, que veio a se tornar um dos principais expoentes do debate, Verbal Aspect, Indicative Mood, and Narrative: Soundings in the Greek of New Testament (2007); David L. Mathewson, Verbal Aspect in the book of Revelation: The Function of the Greek Verb Tenses in John’s Apocaypse (2010).

Em 2013, na conferência anual da Society of Biblical Literature em Baltimore, Porter, Fanning e Campbell se engajaram em um intenso debate sobre a forma verbal do perfeito e seu aspecto. Mais de 600 acadêmicos compareceram à sessão que, quase uma década depois, gerou um volume editado por D.A. Carson.[35]

Em 2015 ocorreu a Linguistics and the Greek Verb Conference, na Universidade de Cambridge. Conduzidos por Steven Runge, uma série de acadêmicos se reuniu para incorporar os insights recentes sobre o verbo grego em uma visão unificada (embora não uniforme), compreensiva e abrangente do verbo. A série de artigos foram publicadas em um único volume, editado por Runge e Fresch. No fim, o volume como um todo se posicionou mais ao lado de Fanning, que foi um dos contribuintes.[36]

Embora cada uma das obras acima discordem em um ou outro ponto sobre como os verbos funcionam no grego, elas concordam que (1) o aspecto verbal tem uma importância fundamental para a língua grega, (2) ainda que haja discussão sobre o lugar do tempo na forma verbal, a primazia do aspecto é central, (3) a teoria do aspecto verbal traz mais nuance para a exegese e tradução do texto grego, (4) aspecto se refere ao ponto de vista do autor e (5) existem pelo menos 2 aspectos, imperfectivo e o perfectivo. No entanto, as discordâncias são significativas e, por isso, não devem ser minimizadas.

5. Áreas de discordância

A discordância entre os estudiosos se dá em duas grandes áreas. Primeiro, com relação a quantidade de aspectos que existem. Qual é o aspecto do perfeito? E do futuro? Há um terceiro aspecto? Segundo, sobre o lugar da temporalidade no sistema verbal grego. Todos dizem sim para o aspecto, mas nem todos dizem sim para o tempo. Afinal, a forma verbal indica só aspecto ou aspecto e tempo?[37]

O debate é extenso e técnico, o que não nos permite aprofundar em demasia aqui. O que faremos é delinear superficialmente as posições defendidas pelos estudiosos e indicar a bibliografia para maior aprofundamento.

5.1. O tempo perfeito: um terceiro aspecto?

A semântica da forma do perfeito é tradicionalmente entendida como uma ação passada que tem consequências no presente. Contudo, com os avanços no estudo do grego, muito se discute sobre a semântica do perfeito. Ele é imperfectivo? Perfectivo? Um terceiro aspecto? Três estudiosos se figuram entre os principais expoentes do debate – Constantine Campbell, Buist Fanning e Stanley Porter. Embora haja outras visões do perfeito, nos concentraremos brevemente na visão dos três sobre o perfeito e nas críticas que cada uma recebeu. [38]

Fanning e Campbell afirmam que existem somente dois aspectos. No entanto, ambos discordam quanto ao aspecto do perfeito. Porter reconhece a existência de um terceiro aspecto – o estativo. Comecemos da posição menos controversa. Fanning concorda com a perspectiva tradicional do perfeito, “uma condição ou estado resultada por uma ação passada”. Contudo, ele a defende com algum refinamento. À medida que a perspectiva tradicional é construída sobre categorias de Aktionsart, Fanning reformula esse entendimento em um modelo aspectual.[39]

Fanning vê a importância de trabalhar o aspecto juntamente com Aktionsart – diferente de Porter que trabalha com o primeiro enquanto deixa o último para questões contextuais. Além disso, é crido na academia que, ao longo da história da língua grega, o perfeito fundiu-se com o aoristo em seu significado. Por isso, para Fanning, o perfeito é uma combinação de aspecto, Aktionsart e tempo: (1) aspecto perfectivo, (2) Aktionsart estativo e (3) tempo presente. Os 3 fatores se combinam, assim a forma do perfeito denota (1) uma ação terminada no passado (aoristo), (2) que tem um estado como resultado (3) no tempo presente; em outras palavras, “o estado presente resultado de um evento anterior que pode ser expresso pelo aoristo”.[40][41]

Entre as críticas ao modelo de Fanning, está a que seu modelo linguístico é muito flexível e simplesmente admite muitas exceções. E os perfeitos que não são estativos? E os que não tem o presente como referência temporal? É preciso de uma teoria que suporte as variações do perfeito. Segundo Campbell:

Esses usos “excepcionais” do perfeito são desajeitadamente acomodados pela visão tradicional. Se levarmos a sério o princípio linguístico do poder de explicação, é preferível uma abordagem que acomode de forma mais simples o uso pleno do perfeito.[42]

Campbell enxerga a forma do perfeito como aspecto imperfectivo, e seu principal argumento para isso é que “apesar da nomenclatura contraintuitiva, o aspecto imperfectivo fornece o poder explicativo mais forte para seu uso no contexto”. Muitos usos do perfeito parecem implicar a noção de estatividade, o que não é o mesmo sobre uma ação em progresso. Campbell argumenta que o aspecto imperfectivo não é progressivo em significado, mas essa é apenas uma de suas funções; e que, nas línguas, é do aspecto perfectivo que nasce a noção de estatividade, que para ele é uma categoria de Aktionsart. Sendo assim, o perfeito é semelhante a um presente em função, mas com uma proximidade aumentada.[43]

Tanto Campbell quanto Fanning são criticados por Porter por não apresentarem uma teoria linguística robusta de aspecto, se é que eles têm uma. Um exemplo dessa ausência de rigor linguístico é que Campbell começa com o uso do perfeito para estabelecer o método, e não o contrário. Ele assume sua conclusão (perfeito como aspecto imperfectivo) e vê se faz sentido, sem argumentar em profundidade.[44]

A terceira e última visão é de Porter, que enxerga a forma do perfeito como denotando aspecto estativo. O uso do perfeito por alguém quer dizer que “o usador concebe o processo verbal como estativo – a percepção da ação como uma condição ou estado de coisas em existência”. Por exemplo, o verbo γέγραπται em Mt 2.5 sugere a ideia “está em estado de ser escrito” e o verbo οἶδά em Mc 1.24 indica o estado de conhecimento do espírito maligno. Para fundamentar sua teoria, Porter adota um modelo linguístico rigoroso – a Linguística Sistêmica-Funcional. Por isso, ele prefere enxergar o perfeito em um sistema de escolhas que implicam em significado. Para ele, assim como há três raízes de verbos no grego, há 3 aspectos, e esse aspecto estativo é fundamentado por uma série de linguistas.[45][46][47][48]

Campbell e Fanning argumentam que estatividade não é questão de aspecto, mas uma categoria de Aktionsart. Isso porque estatividade foge da caracterização essencial do aspecto como “ponto de vista” (um termo que Porter não gosta muito). Além disso, eles dizem que Porter interpretou errado os linguistas que fundamentam sua posição e que, na verdade, é praticamente um consenso, pelo menos na linguística geral, que estatividade se refere a Aktionsart.[49][50]

Assim como o presente e o imperfeito se diferenciam por remoteness, o mais-que-perfeito mantém o aspecto estativo, mas se diferencia do perfeito na medida que é mais remoto da ação representada.

Embora seja um debate bem menos significativo, a forma do futuro também é contestada. Campbell argumenta que o futuro denota aspecto perfectivo. Porter e Fanning tratam o futuro como “aspectualmente vago” ou “não-aspectual”. Porter.[51][52][53]

5.3. Aspecto e Tempo

Outra área de extenso debate é com relação à temporalidade das formas verbais. O aoristo, ainda que seja de forma secundária, indica tempo passado ou não? É importante lembrar que o debate não consiste no dualismo “tempo ou aspecto”. Ninguém hoje discorda que a forma verbal gramaticaliza aspecto, mas alguns questionam se ela indica tempo. É “sim” para o aspecto, mas “talvez” para o tempo. Mais do que isso, o debate sobre o verbo denotar tempo se dá somente no modo indicativo. É reconhecido amplamente que, nos verbos não-indicativos, não há que se falar em tempo. Sendo assim, o debate é se, no indicativo, as formas verbais indicam “aspecto + tempo” ou “somente aspecto”.

A primeira posição é a mais tradicional e é defendida por Fanning. No modo indicativo, ele afirma, “os tenses carregam o senso duplo de tempo e de aspecto juntos”. Porter defende a segunda opção, que é mais controversa. Ele discorda de Fanning e diz que o verbo grego não indica temporalidade de forma alguma, mas somente aspecto. Porter insiste que, em vez da semântica do verbo, o que determina o tempo da ação são fatores pragmáticos, como o contexto, a lexis (o campo semântico de uma palavra) ou a dêixis (indicadores temporais como advérbios de tempo, νῦν, σήμερον, ποτέ). [54][55][56]

O principal argumento de Porter para isso são os exemplos que vimos acima onde formas verbais são usadas para referências temporais diferentes – como a forma do aoristo sendo usada para o futuro, a forma do presente sendo usada para o passado e assim por diante. A forma do presente não se refere ao tempo presente 30% das vezes; o aoristo se refere ao presente ou futuro 15% das vezes; e o perfeito indica uma ação passada com consequências no presente menos do que metade das vezes. [57]

É aqui que os pressupostos metodológicos se mostram relevantes para as discordâncias. Se alguém, como Porter, defende um modelo linguístico mais rígido, as exceções demonstrarão uma falha na teoria. Se, por outro lado, alguém como Fanning tem um modelo linguístico mais flexível, tais exemplos são apenas exceções à teoria que não provam sua falibilidade. [58]

Nesse ponto, permanece a objeção contra Porter do porquê a maioria dos aoristos e presentes se referem de fato aos respectivos contextos temporais do passado e do presente. Porter argumenta que uma ação passada é expressa por uma concepção temporal distante, vista como um todo; e uma concepção literária de pura narração de eventos objetivos como pano de fundo. Por isso o autor escolherá na maioria das vezes o aspecto perfectivo, expressado pelo aoristo, uma vez que ele é uma visão externa sem se importar com os pormenores e o desenvolvimento da ação.[59]

Fanning defende sua posição argumentando que (1) “o aumento é um indicador de tempo passado”, (2) “a diferença entre o imperfeito e o presente só pode ser explicada em termos de temporalidade, já que têm o mesmo aspecto” e (3) “o uso do presente performativo ou instantâneo”. Porter responde às objeções e afirma vez após outra que Fanning assume suas conclusões em vez de argumentar por elas. Nessa crítica permanece a maior de que Fanning não estabelece um modelo linguístico explícito nem adota uma distinção clara entre semântica e pragmática.[60][61]

Estudiosos mais uma vez se dividem com relação a Porter ou Fanning. Entre os aderentes da posição “aspecto + tempo” de Fanning, estão Moisés Silva, Daniel Wallace, Runge e seus colaboradores. Entre os que defendem a visão “somente aspecto” de Porter, estão Constantine Campbell, D. A. Carson, Rodney Decker e David Mathewson.

6. Aspecto Verbal e Proeminência

A leitura do artigo até aqui pode indicar para o leitor que a teoria do aspecto verbal permanece somente no campo teórico e não tem nenhuma utilidade prática para a exegese do Novo Testamento. Essa concepção não poderia ser mais errônea: o aspecto verbal contribui para uma exegese e tradução com muito mais nuance e precisão.

Uma das utilidades do aspecto verbal é indicar proeminência. Ao escreverem, os autores naturalmente querem que algumas partes do discurso saltem para fora em detrimento de outras. Há informações que o autor vê como mais importantes q quer enfatizar. Como diz Mathewson, proeminência “se refere aos meios linguísticos que o autor usa para realçar ou fazer alguma parte do texto se destacar”. Um discurso sem níveis de proeminência seria como ser apresentado a uma folha preta, e alguém dizer: este é um desenho de um camelo negro caminhando no deserto à noite. Não haveria destaque ou graus de importância – algo incomcebível. O autor pode se utilizar de diversos métodos para delinear os níveis do discurso e indicar proeminência – sendo um dos mais importantes o aspecto verbal.[62][63][64]

A questão não foge das discussões modernas, há debate sobre proeminência, análise de discurso e assim por diante – o que não poderá ser tratado aqui. Portanto, o objetivo dessa seção é apresentar o aspecto verbal como indicador de proeminência na perspectiva de Stanley Porter.[65][66]

6.1. Planos de Discurso

O autor indica planos diferentes do discurso ao utilizar aspectos verbais diferentes. Lembre-se de que escolha implica em significado, e ao escolher um aspecto em detrimento do outro, o autor estabelece ênfases e picos discursivos, como também informações de pano de fundo. Porter divide os planos discursivos em três: plano de fundo, primeiro plano e primeiríssimo plano.[67][68]

A informação de plano de fundo é comunicada pelo aoristo (aspecto perfectivo). O aoristo é a forma verbal padrão, mais comum e menos significativa – ou seja, quando o autor não tem nenhum motivo para utilizar outra forma verbal, ele utiliza o aoristo, a visão externa e resumida da ação. Essa forma verbal é especialmente útil para prover as informações contextuais, que formam a base do discurso. Isso tem duas implicações: (1) na narrativa, o aoristo é utilizado quando o autor quer narrar resumidamente os eventos da narrativa principal, a espinha dorsal para o primeiro plano, (2) na exposição, é utilizado para prover a base para o material mais importante, geralmente por meio de eventos passados como ilustração.

A informação de primeiro plano é comunicada pela forma do presente e imperfeito (aspecto imperfectivo). Ambas as formas são mais marcadas gramaticalmente e tem mais proeminência do que o aoristo. O imperfeito, por ser mais remoto, narra eventos que suplementam a narrativa principal e preenche as informações de fundo. O presente indica as informações importantes do discurso – nas narrativas, realça os eventos significativos e, na exposição, carrega o argumento principal para frente.

A informação de primeiríssimo plano é indicada pelo perfeito e mais-que-perfeito (aspecto estativo), a forma mais rara e cuja escolha por parte do autor implica em maior significado. Ao utilizar o perfeito, o autor deseja destacar a ação de uma maneira ainda mais enfática, definida e delineada do que o presente. Portanto, conclui-se que o autor pode conferir proeminência pelo uso de certo aspecto:[69][70][71]

ASPECTO plano de fundo (aoristo)

definido (presente)

primeiro plano

bem-definido, i.e.

primeiríssimo plano (perfeito)

6.2. Exemplos do Novo Testamento

Vejamos, finalmente, alguns exemplos de como o aspecto verbal pode conferir proeminência no discurso.

6.2.1. Apocalipse 5.1-7[72]

Apocalipse 5.1-7 continua a visão do trono de Deus nos apresentando duas figuras: o rolo e o Cordeiro. O capítulo mistura usos do aoristo, imperfeito, presente e perfeito. O capítulo se inicia com εἶδον (“eu vi”) que serve para marcar o início da visão, assim como introduz outras subseções (v. 2, 6, 8), provendo a estrutura básica do capítulo. Os outros aoristos providenciam as informações de plano de fundo para os eventos mais significativos. Por exemplo, estão no aoristo: João um anjo (εἶδον, v. 2); o anjo questiona quem é digno de abrir e quebrar os selos (ἀνοῖξαι e λῦσαι, v. 2, 3, 4); o anjo pede para João olhar para o Leão da Tribo de Judá que venceu para abrir o livro (ἰδού, ἐνίκησεν, ἀνοῖξαι, v. 5); João um Cordeiro, indicando o início de uma sub-unidade, e o cordeiro vai ao trono de Deus (εἶδον, ἦλθεν, v.6, 7). Essas são informações de plano de fundo e movem a narrativa, providenciando o contexto para as informações mais importantes.[73]

O presente, que indica o primeiro plano, é utilizado nos seguintes momentos: caracterizar aquele que está sentado no trono (καθημένου, v.1, 7); o anjo que proclama o dilema da visão (κηρύσσοντα, v.2); ninguém é digno nem mesmo de olhar para o livro, em contraste com o aoristo abrir, que provê o contexto para um exame posterior do rolo (βλέπειν, v. 3, 4); um dos anciãos diz para João não chorar mais (λέγει, κλαῖε, v. 5); a caracterização do Cordeiro, que tem sete chifres e sete olhos (ἔχων, v.6). Todas essas informações fazem parte do primeiro plano da narrativa, o qual João considera como mais significativos. O imperfeito, por ser mais remoto, serve para suplementar informações e dar cor à visão: dizendo que ninguém é capaz, contrastando com o aoristo abrir, se referindo ao rolo (ἐδύνατο, v.3) e descrevendo o choro de João (ἔκλαιον, v. 4). [74][75]

O perfeito, a forma verbal mais marcada gramaticalmente, indica os picos discursivos – o primeiríssimo plano. Nessa passagem, o perfeito é usado primeiramente para caracterizar as duas figuras centrais do livro. O rolo que é escrito e selado (γεγραμμένον, κατεσφραγισμένον, v. 1); e o Cordeiro em pé como tendo sido morto, cujos olhos são sete Espíritos enviados por toda a terra (ἑστηκὸς, ἐσφαγμένον, ἀπεσταλμένοιv, v. 6). Ambas as figuras constituem o foco do capítulo 5 de Apocalipse. O clímax do discurso é indicado pelo perfeito justamente quando essas figuras, o Cordeiro e o rolo, se encontram: “Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava assentado no trono” (εἴληφεν, v. 7). O foco deixa de ser aquele que está no trono e passa a ser o Cordeiro e o rolo tomado.

6.2.2. Romanos 5.1-2

No capítulo 5 de Romanos, Paulo muda o tópico da sua discussão. Por isso, no versículo 1, ele assume que, uma vez que seus leitores estão justificados (Δικαιωθέντες, aoristo), agora eles têm paz com Deus (ἔχομεν, presente). A realidade da justificação (em plano de fundo), é colocada como contexto para a questão de reconciliação (em primeiro plano), que é mais relevante para Paulo nesse momento. Em seguida Paulo declara enfaticamente, com dois perfeitos, o status o qual essa audiência tem: eles obtêm acesso à graça e permanecem nela (ἐσχήκαμεν, ἑστήκαμεν, v.2).[76]

6.2.3. Marcos 11.1-11

A última passagem que analisaremos é a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A passagem começa com uma série de 3 presentes fazendo a transição da passagem e colocando novos eventos da narrativa em primeiro plano: Eles se aproximam de Jerusalém, Jesus manda 2 dos discípulos e fala a eles (ἐγγίζουσιν, ἀποστέλλει, λέγει, v.1). A ordem de Jesus é marcada por uma série de 6 presentes intercalada por um perfeito e quatro aoristos. Os presentes narram a ordem em primeiro plano (Ὑπάγετε, εἰσπορευόμενοι, φέρετε, ποιεῖτε, ἔχει, ἀποστέλλει, v. 2-3). Os aoristos são informações de plano de fundo que dão suporte à linha principal da ordem, por exemplo, os discípulos devem desamarrar (aoristo) o jumentinho e trazê-lo (presente). A primeira ação é resumida e menos importante, fornecendo a espinha dorsal para a ação mais saliente de trazer.

A forma mais importante do perfeito na ordem de Jesus e no cumprimento dos discípulos está na caracterização do jumentinho que está amarrado e das pessoas que os questionam (δεδεμένον, ἑστηκότων, v. 2, 4, 5). O material parece estar em primeiríssimo plano por conta de ser o cumprimento da profecia de Jesus, que previu ambos os acontecimentos na sua ordem. Não somente isso, mas o jumentinho tem importância profética na entrada triunfal de Jesus.

No fim da passagem, Jesus é recebido em Jerusalém com a forma do perfeito abençoando-o (Εὐλογημένος, Εὐλογημένη, v. 9-10), enquanto a forma do presente narra os eventos de primeiro plano, como a obediência dos discípulos à ordem de Jesus e a caracterização daqueles que abençoavam sua entrada. O aoristo provê o plano de fundo narrando coisas como os preparativos para a entrada de Jesus (ἐκάθισεν, ἔστρωσαν, κόψαντες, v. 7-8). Pelo uso do primeiríssimo plano, o foco de Marcos na passagem parece ser (1) as profecias que se cumprindo na entrada de Jesus em Jerusalém e (2) o reconhecimento do povo.[77]

Conclusão

Embora o aspecto verbal já esteja no radar há algum tempo, são poucos os recursos que empregam sua teoria no uso do grego. São muitos os comentários, gramáticas e cursos que ainda adotam o paradigma antigo de se entender o verbo. Entretanto, nos últimos tempos, tem se trilhado um caminho para fora do entendimento desatualizado rumo a uma compreensão maior do sistema verbal grego. Os intensos debates, longe de destilar névoa nesse caminho, revelam a riqueza do assunto e as incríveis possibilidades de maior estudo e aprofundamento. Há muito trabalho a ser feito na área. Dessa maneira, sem o receio de abraçar o avanço, os estudos bíblicos do Novo Testamento têm um futuro promissor pela frente, podendo esperar por maior nuance nas suas exegeses e traduções.[78][79]

1. Introdução

É imprescindível que nos aprofundemos na língua original do Novo Testamento se queremos entender sua mensagem precisamente em primeira mão. Estar por dentro das discussões relacionadas ao grego é importante e sua área de maior avanço e engajamento dos últimos 30 anos é a teoria do aspecto verbal. Como diz Porter “aqueles que não incluem análise do aspecto verbal [...] nos seus estudos do texto grego não estão satisfatoriamente examinando o Novo Testamento Grego”. No entanto, sua literatura é complexa e inacessível, principalmente àqueles que tem o português como sua única língua de leitura. Desse modo, o propósito desse artigo é fazer uma introdução à teoria do aspecto verbal sob a ótica do Novo Testamento. [2]

Uma boa introdução a uma teoria deve conter sua definição, sua história de desenvolvimento e sua utilidade prática. Esse artigo é estruturado sobre as 3 colunas. Primeiro, definiremos aspecto verbal e falaremos dos aspectos existentes. Em seguida, discorreremos brevemente sobre a história da pesquisa recente (desde o séc. XX) e abordaremos os debates originados dela. Por fim, analisaremos como o aspecto verbal pode ser útil para exegese do Novo Testamento através da proeminência discursiva.

2. O que é aspecto verbal?

Antes de definirmos aspecto verbal, precisamos inserir seu surgimento no contexto dos estudos dominantes sobre o tempo verbal da língua grega. Embora a teoria possa parecer nova, ela floresce a partir de insatisfações recorrentes. Por isso devemos observar, pelo menos a partir do século 18, qual tem sido a visão tradicional sobre o tempo verbal grego.

2.1. A visão tradicional sobre o sistema verbal grego

As línguas são diferentes. É errado estudar uma língua sob a ótica e premissa de outra. Durante o período racionalista (séc. 17-19), pela influência do latim, estudiosos da língua grega afirmaram que tempo e formas-verbais são correspondentes. Pensava-se que para expressar uma ação no tempo passado, as formas usadas devem ser o aoristo, o imperfeito, e o mais-que-perfeito; para uma ação no tempo presente, a forma do presente e do perfeito; e para uma ação no futuro, a forma do futuro. O resultado era um sistema verbal completamente baseado no tempo.

Contudo, existem inúmeras exceções na língua grega. Há diversos verbos na forma do presente se referindo ao passado, como há verbos na forma do aoristo se referindo ao presente – e até mesmo ao futuro. Além disso, há exemplos de diferentes formas temporais usadas no mesmo contexto temporal.

A forma do tempo presente se referindo a diferentes contextos temporais: [3]

Mt 8:25: κύριε . . . ἀπολλύμεθα (“Senhor . . . nós estamos perecendo,” presente)

Mc 11:27: Καὶ ἔρχονται πάλιν εἰς Ἱεροσόλυμα (“e eles voltaram para Jerusalém,” passado)

Mt 26:18: πρὸς σὲ ποιῶ τὸ πάσχα μετὰ τῶν μαθητῶν μου (“com você, eu farei a Páscoa com meus discípulos,” futuro)

2 Cor 9:7: ἱλαρὸν γὰρ δότην ἀγαπᾷ ὁ θεός (“Pois Deus ama um alegre doador,” temporariamente aberto)

Diferentes formas verbais usadas no mesmo contexto temporal:[4]

Lc 21:10: Τότε ἔλεγεν αὐτοῖς (“Então ele disse a eles,” imperfeito)

Lc 20:41: Εἶπεν δὲ πρὸς αὐτούς (“e ele disse a eles,” aoristo)

At 20:38: τῷ λόγῳ ᾧ εἰρήκει, (“foi a palavra que ele falou” perfeito)

Mc 5:19: ἀλλὰ λέγει αὐτῷ (“mas ele disse a eles,” presente)

Até mesmo a forma verbal do aoristo sendo usado para o futuro:[5]

Jo 17.14,18: ὁ κόσμος ἐμίσησεν αὐτούς… κἀγὼ ἀπέστειλα αὐτοὺς εἰς τὸν κόσμον (“o mundo irá vos odiar... eu vou enviá-los ao mundo”, futuro)[6]

Jd 14: ἰδοὺ ἦλθεν κύριος ἐν ἁγίαις μυριάσιν αὐτοῦ (“veja, o Senhor virá com miríades de seus santos”, futuro)

A quantidade de exceções era enorme. Se uma mesma forma verbal pode se referir a diferentes contextos temporais e diferentes formas verbais podem se referir ao mesmo contexto verbal, parece convincente a afirmação de que o significado dessas formas verbais é outro que não seja o tempo. É nesse contexto que surgem desvios como o “presente histórico”. A maneira como se entendia o sistema verbal grego se demonstrava insuficiente e outra proposta foi buscada.[7][8]

Os estudiosos no século 19, para explicar as formas verbais, formularam aquilo que conhecemos por Aktionsart (‘tipo de ação’ em alemão). O modelo funcionava juntamente com o de tempo. A ideia era que as formas verbais comunicavam tanto o tempo da ação, “quando ocorreu” (no indicativo), quanto o tipo de ação, “como ocorreu” (em todo o resto). As formas verbais, portanto, além de comunicar o tempo, nos diziam a maneira como uma ação ocorria. Por exemplo, o aoristo indica uma ação pontiliniear, que começou e terminou, no tempo passado. A forma do presente indica uma ação contínua, progressiva. O perfeito, uma ação que ocorreu e terminou no passado, mas cujos resultados afetam o presente.

Essa tem sido a explicação dominante da maioria das gramáticas, comentários e cursos de grego. Diversos sermões exemplificam esse paradigma das formas verbais. Entretanto, embora seja a abordagem tradicional, ela tem sido desafiada nos últimos 30 anos. À luz do advento da linguística moderna e do tratamento sincrônico de uma língua (i.e. estudar o grego nos seus próprios termos, e não nos termos do latim), a teoria dominante tem sido substituída por um modelo conhecido como aspecto verbal. [9]

2.2. Definição

Aspecto vem da palavra francesa aspect, que significa ‘ponto de vista’. A ideia é que as formas verbais não indicam primariamente tempo da ação (ver debate em 5.3) nem o tipo de ação (Aktionsart), mas sim como o autor resolve conceber ou ver a ação. Aspecto se refere à perspectiva do autor sobre a ação. Segundo Porter: “Aspecto verbal é definido como uma categoria semântica (significado) pela qual o orador ou o escritor gramaticaliza (i.e., representa um sentido ao escolher uma forma verbal) uma perspectiva de uma ação pela seleção de uma forma-verbal específica no sistema-verbal”.[10]

De acordo com Fanning, “aspecto é a categoria na gramática do verbo que reflete o foco ou o ponto de vista do autor com relação à ação ou condição à qual o verbo descreve”. Mais uma vez, Campbell diz que aspecto verbal “se refere a maneira pela qual verbos são usados para ver uma ação ou estado”.[11][12]

Um importante princípio linguístico é que escolha implica em significado. E segundo Mathewson, “Ao escolher uma forma verbal”, seja essa escolha consciente ou não, “o autor escolhe ver a ação de um jeito específico”. Dessa maneira, existe uma relação implícita entre a ação descrita e o ponto de referência no qual ela é vista.[13][14]

Perceba que o aspecto tem natureza perspectiva e subjetiva, uma vez que depende do autor. As maneiras como o autor pode escolher enxergar uma ação por meio das formas verbais ficarão mais claras quando vermos os aspectos mais abaixo e alguns exemplos. Por enquanto, precisamos delinear uma distinção frequentemente confundida entre aspecto verbal e Aktionsart.

2.3. Aspecto Verbal x Aktionsart

Embora já se tenha feito considerável avanço nos estudos de aspecto verbal, muitos autores oscilam entre Aktionsart e aspecto verbal sem nenhuma dificuldade, indicando uma confusão quanto aos modelos.

Johannes Bergmann, em sua gramática antiga, parece ser um exemplo disso. Ele diz que a “função principal do tempo verbal em grego é expressar o aspecto, i.e. a qualidade, o estado ou o tipo da ação [...]” o que, na verdade, se refere a Aktionsart. E então, ele diz que “o aspecto verbal informa sobre a maneira em que o narrador subjetivamente vê a ação”, o que se refere ao aspecto de fato.[15]

Em sua gramática mais recente, ele mantém o pensamento: “A função principal do tempo verbal no grego não é indicar quando uma ação acontece (se no passado, presente ou futuro), mas como ela acontece. Neste caso, o tempo verbal focaliza mais no aspecto da questão”.[16]

Manuel Alexandre Júnior também parece confundir aspecto verbal e Aktionsart. Ele assume a importância secundária que o tempo tem no verbo e a primazia do aspecto. Ele prossegue dizendo que a ação do verbo, portanto, envolve “tempo da ação e qualidade da ação”, sendo o papel do aspecto descrever que a ação “é realizada de determinado modo – ação durativa ou contínua, ação pontual ou momentânea e ação resultativa ou completa”.[17]

Por último, a mistura de paradigmas em Esequias Soares é ainda sem menos nuance. Para ele, aspecto verbal “é o tipo de ação ou qualidade de ação, a forma que o verbo assume para expressar como e não quando se dá de o fato, também conhecido pela palavra alemã aktionsart”.[18]

Infelizmente, alguns dos poucos manuais de grego bíblico disponíveis em português revelam certa falta de compreensão entre os paradigmas antigo e novo. Contudo, a distinção está em que, no Aktionsart, as formas verbais no grego seriam usadas para demonstrar como a ação ocorria objetivamente; enquanto no aspecto verbal, como o autor percebe a ação subjetivamente. Carson nos adverte:

Os dois [modelos] estão constantemente confusos. Mesmo onde há reconhecimento formal de que os dois modelos são diferentes (assim o BDF §318 rotula Aktionsarten como 'tipos de ação' e aspectos como 'pontos de vista'), essas gramáticas não sentem nenhum constrangimento em atribuir uma forma verbal a um ou ao outro dependendo inteiramente das exigências aparentes do contexto.[19]

Repare que, enquanto o modelo de aspecto verbal vincula formas verbais à perspectiva do autor, o paradigma antigo vincula as formas verbais ao que realmente acontece. O aspecto verbal é a ponto de vista do autor sobre a ação (como a ação é vista), Aktionsart é o tipo de ação (como a ação acontece). O modelo de aspecto verbal é fundamentado subjetivamente; o modelo de Aktionsart, objetivamente. [20][21]

3. Os Aspectos

A definição sobre aspecto verbal como ponto de vista é um consenso entre os estudiosos. Depois de analisarmos os pontos de concordância, fará mais sentido vermos a história da pesquisa recente (ponto 4) e os pontos de discordância originados por ela (ponto 5). Por enquanto, vale notarmos que também é um consenso que existem pelo menos dois aspectos, e que sua noção é altamente espacial. Ao escolher uma forma verbal, o autor escolhe ver a ação de certa maneira – o que indica seu aspecto.

3.1. Aspecto Perfectivo

Se o ponto de referência no qual o autor escolhe ver a ação é externo, o aspecto será o perfectivo, que é gramaticalizado pela forma do aoristo. No aspecto perfectivo, o autor olha para a ação em sua inteireza, como um todo completo (e não completada), como um resumo – sem referência a seu processo, início e fim. Portanto, o aoristo indica um ponto de vista do exterior, fora da ação.[22]

3.2. Aspecto Imperfectivo

Se o ponto de referência no qual o autor escolhe ver a ação é interno, o aspecto será o imperfectivo, que é gramaticalizado pela forma do presente e do imperfeito. No aspecto imperfectivo, o autor olha para a ação como se desenrolando na sua frente, uma ação em progresso, um desenvolvimento – o que não implica em uma ação contínua, habitual ou repetida. Dessa maneira, o presente e o imperfeito indicam um ponto de vista interior, uma visão de perto da ação.[23]

3.3. Exemplo do repórter na parada

O exemplo da parada é clássico para se compreender melhor os aspectos. Imagine uma parada, algo como um desfile, ocorrendo em uma cidade. Há uma repórter acompanhando a parada do helicóptero. Ela a está vendo externamente, como um todo completo. A repórter descreve a parada de forma genérica e resumida, sem se importar com seu processo, início e fim. Esse ponto de vista é o aspecto perfectivo. Contudo, se a repórter não vê a parada do helicóptero, mas da arquibancada, seu ponto de vista muda. Ela a vê passando na sua frente, progredindo, à medida que a parada se desenrola. Esse ponto de vista interno é o aspecto imperfectivo. Repare que (1) embora cada aspecto descreva a mesma circunstância, eles têm perspectivas diferentes dela, (2) nenhum aspecto tenta fazer uma descrição objetiva da circunstância, mas sim representar a concepção subjetiva do autor.[24][25]

Se o aspecto imperfectivo é indicado pela forma do presente e do imperfeito, qual a diferença entre eles? A resposta para isso está na noção de remoteness, um conceito complexo que não pode ser tratado com profundidade aqui. A ideia básica é a seguinte: se a repórter está mais distante, talvez no fundo da arquibancada, e vê a parada de longe, a forma verbal é a do imperfeito. Se a repórter está mais perto, à frente na arquibancada e vê a parada mais próxima, a forma verbal é a do presente. O ponto de vista do imperfeito é imperfectivo e mais remoto; o ponto de vista do presente, imperfectivo e não-remoto. A forma do perfeito, mais-que-perfeito e futuro são mais controversas e, por isso, serão tratadas adiante.[26]

4. Uma brevíssima história da pesquisa recente

Uma vez que já vimos já vimos a definição de aspecto verbal em contraste com os paradigmas anteriores, é útil que vejamos como essa teoria se desenvolveu ao longo das últimas décadas. Compreendendo seu desenvolvimento e seus contribuintes mais importantes, estaremos aptos para analisarmos os pontos de discordância entre os estudiosos.

4.1. O período inicial

A teoria do aspecto verbal se deparou com muito desenvolvimento no início do século XX, principalmente pelo estudo das línguas eslavas. Ao que parece, o primeiro encontro significativo entre aspecto verbal e a língua grega se deu pelas mãos de J. Holt (1943). Contudo, foi K.L. McKay – cujo foco era grego clássico antes de se voltar ao Novo Testamento – que introduziu o aspecto verbal ao grego do Novo Testamento.[27][28]

McKay escreveu sobre aspecto verbal pelos próximos 30 anos e se tornou cada vez mais assertivo em suas conclusões. Ao logo do tempo, ele minimizou cada vez mais o papel que o tempo tinha na semântica do verbo, até rejeitá-lo completamente em favor da unanimidade do aspecto (veja ponto 5.3). Embora McKay não tenha sido amplamente reconhecido à época, ele plantou a semente da revolução e preparou o caminho para figuras como Stanley Porter e Buist Fanning.[29]

4.2. O período moderno[30]

Tanto Porter quanto Fanning completaram seu doutorado na Inglaterra na mesma época. Stanler E. Porter publicou sua dissertação de doutorado pela Universidade de Sheffield, Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood (1989). Porter, além de teologia, é treinado formalmente em linguística, se tornando o primeiro a aplicar um método línguistico rigoroso à questão do aspecto verbal – a Linguística Sistêmica Funcional, fundada por M.A.K. Halliday.[31]

Buist Fanning publica, pouco depois, sua dissertação de doutorado pela Universidade de Oxford, Verbal Aspect in New Testament Greek (1990). Embora um não soubesse da pesquisa simultânea do outro, eles concordam muito entre si – o que é surpreendente e encorajador. Contudo, ainda há uma discordância significativa entre as duas figuras que renderam diversos debates (ver mais abaixo no ponto 5). Fanning é mais conservador em sua proposta e, portanto, mais aceito entre tradicionalistas. Porter é mais revolucionário e controverso. Por não ser tão rigoroso linguisticamente, Fanning não recebe muita apreciação de linguistas, – seus apreciadores são em maioria teólogos – o que não é o caso de Porter. [32][33]

Foram essas duas figuras que revolucionaram os debates e recolocaram aspecto verbal no mapa desde então. No ano de 1991, na conferência anual da Society of Biblical Literature que ocorreu em Kansas City, uma sessão foi dedicada à discussão dos recentes livros de Porter e Fanning, com um artigo de cada, duas respostas e uma introdução – gerando o conhecido Porter/Fanning Debate. Tamanha a importância de ambos, que os estudiosos subsequentes passam a se posicionar de acordo com Fanning ou Porter nos debates.[34]

Em seguida, temos as importantes contribuições de K.L.McKay, A New Syntax of the Verb in New Testament Greek: An Aspectual Approach (1993); Mari Broman Olsen, A Semantic and Pragmatic Model of Lexical and Grammatical Aspect (1997); Rodney Decker, Temporal Deixis of the Greek Verb in the Gospel of Mark with Reference to Verbal Aspect (2001); T.V. Evans, Verb Syntax in the Greek Pentateuch: Natural Greek Usage and Hebrew Interference (2001); Constantine R. Campbell, que veio a se tornar um dos principais expoentes do debate, Verbal Aspect, Indicative Mood, and Narrative: Soundings in the Greek of New Testament (2007); David L. Mathewson, Verbal Aspect in the book of Revelation: The Function of the Greek Verb Tenses in John’s Apocaypse (2010).

Em 2013, na conferência anual da Society of Biblical Literature em Baltimore, Porter, Fanning e Campbell se engajaram em um intenso debate sobre a forma verbal do perfeito e seu aspecto. Mais de 600 acadêmicos compareceram à sessão que, quase uma década depois, gerou um volume editado por D.A. Carson.[35]

Em 2015 ocorreu a Linguistics and the Greek Verb Conference, na Universidade de Cambridge. Conduzidos por Steven Runge, uma série de acadêmicos se reuniu para incorporar os insights recentes sobre o verbo grego em uma visão unificada (embora não uniforme), compreensiva e abrangente do verbo. A série de artigos foram publicadas em um único volume, editado por Runge e Fresch. No fim, o volume como um todo se posicionou mais ao lado de Fanning, que foi um dos contribuintes.[36]

Embora cada uma das obras acima discordem em um ou outro ponto sobre como os verbos funcionam no grego, elas concordam que (1) o aspecto verbal tem uma importância fundamental para a língua grega, (2) ainda que haja discussão sobre o lugar do tempo na forma verbal, a primazia do aspecto é central, (3) a teoria do aspecto verbal traz mais nuance para a exegese e tradução do texto grego, (4) aspecto se refere ao ponto de vista do autor e (5) existem pelo menos 2 aspectos, imperfectivo e o perfectivo. No entanto, as discordâncias são significativas e, por isso, não devem ser minimizadas.

5. Áreas de discordância

A discordância entre os estudiosos se dá em duas grandes áreas. Primeiro, com relação a quantidade de aspectos que existem. Qual é o aspecto do perfeito? E do futuro? Há um terceiro aspecto? Segundo, sobre o lugar da temporalidade no sistema verbal grego. Todos dizem sim para o aspecto, mas nem todos dizem sim para o tempo. Afinal, a forma verbal indica só aspecto ou aspecto e tempo?[37]

O debate é extenso e técnico, o que não nos permite aprofundar em demasia aqui. O que faremos é delinear superficialmente as posições defendidas pelos estudiosos e indicar a bibliografia para maior aprofundamento.

5.1. O tempo perfeito: um terceiro aspecto?

A semântica da forma do perfeito é tradicionalmente entendida como uma ação passada que tem consequências no presente. Contudo, com os avanços no estudo do grego, muito se discute sobre a semântica do perfeito. Ele é imperfectivo? Perfectivo? Um terceiro aspecto? Três estudiosos se figuram entre os principais expoentes do debate – Constantine Campbell, Buist Fanning e Stanley Porter. Embora haja outras visões do perfeito, nos concentraremos brevemente na visão dos três sobre o perfeito e nas críticas que cada uma recebeu. [38]

Fanning e Campbell afirmam que existem somente dois aspectos. No entanto, ambos discordam quanto ao aspecto do perfeito. Porter reconhece a existência de um terceiro aspecto – o estativo. Comecemos da posição menos controversa. Fanning concorda com a perspectiva tradicional do perfeito, “uma condição ou estado resultada por uma ação passada”. Contudo, ele a defende com algum refinamento. À medida que a perspectiva tradicional é construída sobre categorias de Aktionsart, Fanning reformula esse entendimento em um modelo aspectual.[39]

Fanning vê a importância de trabalhar o aspecto juntamente com Aktionsart – diferente de Porter que trabalha com o primeiro enquanto deixa o último para questões contextuais. Além disso, é crido na academia que, ao longo da história da língua grega, o perfeito fundiu-se com o aoristo em seu significado. Por isso, para Fanning, o perfeito é uma combinação de aspecto, Aktionsart e tempo: (1) aspecto perfectivo, (2) Aktionsart estativo e (3) tempo presente. Os 3 fatores se combinam, assim a forma do perfeito denota (1) uma ação terminada no passado (aoristo), (2) que tem um estado como resultado (3) no tempo presente; em outras palavras, “o estado presente resultado de um evento anterior que pode ser expresso pelo aoristo”.[40][41]

Entre as críticas ao modelo de Fanning, está a que seu modelo linguístico é muito flexível e simplesmente admite muitas exceções. E os perfeitos que não são estativos? E os que não tem o presente como referência temporal? É preciso de uma teoria que suporte as variações do perfeito. Segundo Campbell:

Esses usos “excepcionais” do perfeito são desajeitadamente acomodados pela visão tradicional. Se levarmos a sério o princípio linguístico do poder de explicação, é preferível uma abordagem que acomode de forma mais simples o uso pleno do perfeito.[42]

Campbell enxerga a forma do perfeito como aspecto imperfectivo, e seu principal argumento para isso é que “apesar da nomenclatura contraintuitiva, o aspecto imperfectivo fornece o poder explicativo mais forte para seu uso no contexto”. Muitos usos do perfeito parecem implicar a noção de estatividade, o que não é o mesmo sobre uma ação em progresso. Campbell argumenta que o aspecto imperfectivo não é progressivo em significado, mas essa é apenas uma de suas funções; e que, nas línguas, é do aspecto perfectivo que nasce a noção de estatividade, que para ele é uma categoria de Aktionsart. Sendo assim, o perfeito é semelhante a um presente em função, mas com uma proximidade aumentada.[43]

Tanto Campbell quanto Fanning são criticados por Porter por não apresentarem uma teoria linguística robusta de aspecto, se é que eles têm uma. Um exemplo dessa ausência de rigor linguístico é que Campbell começa com o uso do perfeito para estabelecer o método, e não o contrário. Ele assume sua conclusão (perfeito como aspecto imperfectivo) e vê se faz sentido, sem argumentar em profundidade.[44]

A terceira e última visão é de Porter, que enxerga a forma do perfeito como denotando aspecto estativo. O uso do perfeito por alguém quer dizer que “o usador concebe o processo verbal como estativo – a percepção da ação como uma condição ou estado de coisas em existência”. Por exemplo, o verbo γέγραπται em Mt 2.5 sugere a ideia “está em estado de ser escrito” e o verbo οἶδά em Mc 1.24 indica o estado de conhecimento do espírito maligno. Para fundamentar sua teoria, Porter adota um modelo linguístico rigoroso – a Linguística Sistêmica-Funcional. Por isso, ele prefere enxergar o perfeito em um sistema de escolhas que implicam em significado. Para ele, assim como há três raízes de verbos no grego, há 3 aspectos, e esse aspecto estativo é fundamentado por uma série de linguistas.[45][46][47][48]

Campbell e Fanning argumentam que estatividade não é questão de aspecto, mas uma categoria de Aktionsart. Isso porque estatividade foge da caracterização essencial do aspecto como “ponto de vista” (um termo que Porter não gosta muito). Além disso, eles dizem que Porter interpretou errado os linguistas que fundamentam sua posição e que, na verdade, é praticamente um consenso, pelo menos na linguística geral, que estatividade se refere a Aktionsart.[49][50]

Assim como o presente e o imperfeito se diferenciam por remoteness, o mais-que-perfeito mantém o aspecto estativo, mas se diferencia do perfeito na medida que é mais remoto da ação representada.

Embora seja um debate bem menos significativo, a forma do futuro também é contestada. Campbell argumenta que o futuro denota aspecto perfectivo. Porter e Fanning tratam o futuro como “aspectualmente vago” ou “não-aspectual”. Porter.[51][52][53]

5.3. Aspecto e Tempo

Outra área de extenso debate é com relação à temporalidade das formas verbais. O aoristo, ainda que seja de forma secundária, indica tempo passado ou não? É importante lembrar que o debate não consiste no dualismo “tempo ou aspecto”. Ninguém hoje discorda que a forma verbal gramaticaliza aspecto, mas alguns questionam se ela indica tempo. É “sim” para o aspecto, mas “talvez” para o tempo. Mais do que isso, o debate sobre o verbo denotar tempo se dá somente no modo indicativo. É reconhecido amplamente que, nos verbos não-indicativos, não há que se falar em tempo. Sendo assim, o debate é se, no indicativo, as formas verbais indicam “aspecto + tempo” ou “somente aspecto”.

A primeira posição é a mais tradicional e é defendida por Fanning. No modo indicativo, ele afirma, “os tenses carregam o senso duplo de tempo e de aspecto juntos”. Porter defende a segunda opção, que é mais controversa. Ele discorda de Fanning e diz que o verbo grego não indica temporalidade de forma alguma, mas somente aspecto. Porter insiste que, em vez da semântica do verbo, o que determina o tempo da ação são fatores pragmáticos, como o contexto, a lexis (o campo semântico de uma palavra) ou a dêixis (indicadores temporais como advérbios de tempo, νῦν, σήμερον, ποτέ). [54][55][56]

O principal argumento de Porter para isso são os exemplos que vimos acima onde formas verbais são usadas para referências temporais diferentes – como a forma do aoristo sendo usada para o futuro, a forma do presente sendo usada para o passado e assim por diante. A forma do presente não se refere ao tempo presente 30% das vezes; o aoristo se refere ao presente ou futuro 15% das vezes; e o perfeito indica uma ação passada com consequências no presente menos do que metade das vezes. [57]

É aqui que os pressupostos metodológicos se mostram relevantes para as discordâncias. Se alguém, como Porter, defende um modelo linguístico mais rígido, as exceções demonstrarão uma falha na teoria. Se, por outro lado, alguém como Fanning tem um modelo linguístico mais flexível, tais exemplos são apenas exceções à teoria que não provam sua falibilidade. [58]

Nesse ponto, permanece a objeção contra Porter do porquê a maioria dos aoristos e presentes se referem de fato aos respectivos contextos temporais do passado e do presente. Porter argumenta que uma ação passada é expressa por uma concepção temporal distante, vista como um todo; e uma concepção literária de pura narração de eventos objetivos como pano de fundo. Por isso o autor escolherá na maioria das vezes o aspecto perfectivo, expressado pelo aoristo, uma vez que ele é uma visão externa sem se importar com os pormenores e o desenvolvimento da ação.[59]

Fanning defende sua posição argumentando que (1) “o aumento é um indicador de tempo passado”, (2) “a diferença entre o imperfeito e o presente só pode ser explicada em termos de temporalidade, já que têm o mesmo aspecto” e (3) “o uso do presente performativo ou instantâneo”. Porter responde às objeções e afirma vez após outra que Fanning assume suas conclusões em vez de argumentar por elas. Nessa crítica permanece a maior de que Fanning não estabelece um modelo linguístico explícito nem adota uma distinção clara entre semântica e pragmática.[60][61]

Estudiosos mais uma vez se dividem com relação a Porter ou Fanning. Entre os aderentes da posição “aspecto + tempo” de Fanning, estão Moisés Silva, Daniel Wallace, Runge e seus colaboradores. Entre os que defendem a visão “somente aspecto” de Porter, estão Constantine Campbell, D. A. Carson, Rodney Decker e David Mathewson.

6. Aspecto Verbal e Proeminência

A leitura do artigo até aqui pode indicar para o leitor que a teoria do aspecto verbal permanece somente no campo teórico e não tem nenhuma utilidade prática para a exegese do Novo Testamento. Essa concepção não poderia ser mais errônea: o aspecto verbal contribui para uma exegese e tradução com muito mais nuance e precisão.

Uma das utilidades do aspecto verbal é indicar proeminência. Ao escreverem, os autores naturalmente querem que algumas partes do discurso saltem para fora em detrimento de outras. Há informações que o autor vê como mais importantes q quer enfatizar. Como diz Mathewson, proeminência “se refere aos meios linguísticos que o autor usa para realçar ou fazer alguma parte do texto se destacar”. Um discurso sem níveis de proeminência seria como ser apresentado a uma folha preta, e alguém dizer: este é um desenho de um camelo negro caminhando no deserto à noite. Não haveria destaque ou graus de importância – algo incomcebível. O autor pode se utilizar de diversos métodos para delinear os níveis do discurso e indicar proeminência – sendo um dos mais importantes o aspecto verbal.[62][63][64]

A questão não foge das discussões modernas, há debate sobre proeminência, análise de discurso e assim por diante – o que não poderá ser tratado aqui. Portanto, o objetivo dessa seção é apresentar o aspecto verbal como indicador de proeminência na perspectiva de Stanley Porter.[65][66]

6.1. Planos de Discurso

O autor indica planos diferentes do discurso ao utilizar aspectos verbais diferentes. Lembre-se de que escolha implica em significado, e ao escolher um aspecto em detrimento do outro, o autor estabelece ênfases e picos discursivos, como também informações de pano de fundo. Porter divide os planos discursivos em três: plano de fundo, primeiro plano e primeiríssimo plano.[67][68]

A informação de plano de fundo é comunicada pelo aoristo (aspecto perfectivo). O aoristo é a forma verbal padrão, mais comum e menos significativa – ou seja, quando o autor não tem nenhum motivo para utilizar outra forma verbal, ele utiliza o aoristo, a visão externa e resumida da ação. Essa forma verbal é especialmente útil para prover as informações contextuais, que formam a base do discurso. Isso tem duas implicações: (1) na narrativa, o aoristo é utilizado quando o autor quer narrar resumidamente os eventos da narrativa principal, a espinha dorsal para o primeiro plano, (2) na exposição, é utilizado para prover a base para o material mais importante, geralmente por meio de eventos passados como ilustração.

A informação de primeiro plano é comunicada pela forma do presente e imperfeito (aspecto imperfectivo). Ambas as formas são mais marcadas gramaticalmente e tem mais proeminência do que o aoristo. O imperfeito, por ser mais remoto, narra eventos que suplementam a narrativa principal e preenche as informações de fundo. O presente indica as informações importantes do discurso – nas narrativas, realça os eventos significativos e, na exposição, carrega o argumento principal para frente.

A informação de primeiríssimo plano é indicada pelo perfeito e mais-que-perfeito (aspecto estativo), a forma mais rara e cuja escolha por parte do autor implica em maior significado. Ao utilizar o perfeito, o autor deseja destacar a ação de uma maneira ainda mais enfática, definida e delineada do que o presente. Portanto, conclui-se que o autor pode conferir proeminência pelo uso de certo aspecto:[69][70][71]

ASPECTO plano de fundo (aoristo)

definido (presente)

primeiro plano

bem-definido, i.e.

primeiríssimo plano (perfeito)

6.2. Exemplos do Novo Testamento

Vejamos, finalmente, alguns exemplos de como o aspecto verbal pode conferir proeminência no discurso.

6.2.1. Apocalipse 5.1-7[72]

Apocalipse 5.1-7 continua a visão do trono de Deus nos apresentando duas figuras: o rolo e o Cordeiro. O capítulo mistura usos do aoristo, imperfeito, presente e perfeito. O capítulo se inicia com εἶδον (“eu vi”) que serve para marcar o início da visão, assim como introduz outras subseções (v. 2, 6, 8), provendo a estrutura básica do capítulo. Os outros aoristos providenciam as informações de plano de fundo para os eventos mais significativos. Por exemplo, estão no aoristo: João um anjo (εἶδον, v. 2); o anjo questiona quem é digno de abrir e quebrar os selos (ἀνοῖξαι e λῦσαι, v. 2, 3, 4); o anjo pede para João olhar para o Leão da Tribo de Judá que venceu para abrir o livro (ἰδού, ἐνίκησεν, ἀνοῖξαι, v. 5); João um Cordeiro, indicando o início de uma sub-unidade, e o cordeiro vai ao trono de Deus (εἶδον, ἦλθεν, v.6, 7). Essas são informações de plano de fundo e movem a narrativa, providenciando o contexto para as informações mais importantes.[73]

O presente, que indica o primeiro plano, é utilizado nos seguintes momentos: caracterizar aquele que está sentado no trono (καθημένου, v.1, 7); o anjo que proclama o dilema da visão (κηρύσσοντα, v.2); ninguém é digno nem mesmo de olhar para o livro, em contraste com o aoristo abrir, que provê o contexto para um exame posterior do rolo (βλέπειν, v. 3, 4); um dos anciãos diz para João não chorar mais (λέγει, κλαῖε, v. 5); a caracterização do Cordeiro, que tem sete chifres e sete olhos (ἔχων, v.6). Todas essas informações fazem parte do primeiro plano da narrativa, o qual João considera como mais significativos. O imperfeito, por ser mais remoto, serve para suplementar informações e dar cor à visão: dizendo que ninguém é capaz, contrastando com o aoristo abrir, se referindo ao rolo (ἐδύνατο, v.3) e descrevendo o choro de João (ἔκλαιον, v. 4). [74][75]

O perfeito, a forma verbal mais marcada gramaticalmente, indica os picos discursivos – o primeiríssimo plano. Nessa passagem, o perfeito é usado primeiramente para caracterizar as duas figuras centrais do livro. O rolo que é escrito e selado (γεγραμμένον, κατεσφραγισμένον, v. 1); e o Cordeiro em pé como tendo sido morto, cujos olhos são sete Espíritos enviados por toda a terra (ἑστηκὸς, ἐσφαγμένον, ἀπεσταλμένοιv, v. 6). Ambas as figuras constituem o foco do capítulo 5 de Apocalipse. O clímax do discurso é indicado pelo perfeito justamente quando essas figuras, o Cordeiro e o rolo, se encontram: “Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava assentado no trono” (εἴληφεν, v. 7). O foco deixa de ser aquele que está no trono e passa a ser o Cordeiro e o rolo tomado.

6.2.2. Romanos 5.1-2

No capítulo 5 de Romanos, Paulo muda o tópico da sua discussão. Por isso, no versículo 1, ele assume que, uma vez que seus leitores estão justificados (Δικαιωθέντες, aoristo), agora eles têm paz com Deus (ἔχομεν, presente). A realidade da justificação (em plano de fundo), é colocada como contexto para a questão de reconciliação (em primeiro plano), que é mais relevante para Paulo nesse momento. Em seguida Paulo declara enfaticamente, com dois perfeitos, o status o qual essa audiência tem: eles obtêm acesso à graça e permanecem nela (ἐσχήκαμεν, ἑστήκαμεν, v.2).[76]

6.2.3. Marcos 11.1-11

A última passagem que analisaremos é a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A passagem começa com uma série de 3 presentes fazendo a transição da passagem e colocando novos eventos da narrativa em primeiro plano: Eles se aproximam de Jerusalém, Jesus manda 2 dos discípulos e fala a eles (ἐγγίζουσιν, ἀποστέλλει, λέγει, v.1). A ordem de Jesus é marcada por uma série de 6 presentes intercalada por um perfeito e quatro aoristos. Os presentes narram a ordem em primeiro plano (Ὑπάγετε, εἰσπορευόμενοι, φέρετε, ποιεῖτε, ἔχει, ἀποστέλλει, v. 2-3). Os aoristos são informações de plano de fundo que dão suporte à linha principal da ordem, por exemplo, os discípulos devem desamarrar (aoristo) o jumentinho e trazê-lo (presente). A primeira ação é resumida e menos importante, fornecendo a espinha dorsal para a ação mais saliente de trazer.

A forma mais importante do perfeito na ordem de Jesus e no cumprimento dos discípulos está na caracterização do jumentinho que está amarrado e das pessoas que os questionam (δεδεμένον, ἑστηκότων, v. 2, 4, 5). O material parece estar em primeiríssimo plano por conta de ser o cumprimento da profecia de Jesus, que previu ambos os acontecimentos na sua ordem. Não somente isso, mas o jumentinho tem importância profética na entrada triunfal de Jesus.

No fim da passagem, Jesus é recebido em Jerusalém com a forma do perfeito abençoando-o (Εὐλογημένος, Εὐλογημένη, v. 9-10), enquanto a forma do presente narra os eventos de primeiro plano, como a obediência dos discípulos à ordem de Jesus e a caracterização daqueles que abençoavam sua entrada. O aoristo provê o plano de fundo narrando coisas como os preparativos para a entrada de Jesus (ἐκάθισεν, ἔστρωσαν, κόψαντες, v. 7-8). Pelo uso do primeiríssimo plano, o foco de Marcos na passagem parece ser (1) as profecias que se cumprindo na entrada de Jesus em Jerusalém e (2) o reconhecimento do povo.[77]

Conclusão

Embora o aspecto verbal já esteja no radar há algum tempo, são poucos os recursos que empregam sua teoria no uso do grego. São muitos os comentários, gramáticas e cursos que ainda adotam o paradigma antigo de se entender o verbo. Entretanto, nos últimos tempos, tem se trilhado um caminho para fora do entendimento desatualizado rumo a uma compreensão maior do sistema verbal grego. Os intensos debates, longe de destilar névoa nesse caminho, revelam a riqueza do assunto e as incríveis possibilidades de maior estudo e aprofundamento. Há muito trabalho a ser feito na área. Dessa maneira, sem o receio de abraçar o avanço, os estudos bíblicos do Novo Testamento têm um futuro promissor pela frente, podendo esperar por maior nuance nas suas exegeses e traduções.[78][79]

Notas

[1] Graduando em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisador científico, participante do Grupo de Pesquisa Justiça e Democracia e monitor bolsista da disciplina de Filosofia do Direito, todos concentrados na UFMG. Membro do Grupo de Estudos Avançados em Novo Testamento Ginosko do Seminário Teológico Jonathan Edwards. Contato: lucas.araujo5@outlook.com

[2] Stanley Porter, Linguistic Analysis of the Greek New Testament: Studies in Tools, Methods, and Practice (Grand Rapids: Baker, 2015), p. 199.

[3] Stanley E. Porter. Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood, (New York, United States of America: Peter Lang Verlag, 1989), p.75.

[4] Idem, p. 83.

[5] Ibid. p, 75 e p.78-79 para a justificação dos verbos se referirem ao futuro.

[6] Algumas traduções trazem ambos os verbos como se referindo ao passado. Provavelmente isso se deva ao entendimento tradicional da importância que o contexto temporal tem na semântica do aoristo – justamente algo que a teoria do aspecto verbal visa corrigir. Veja D.A. Carson, O Comentário de João (São Paulo: Shedd Publicações, 2007), p. 558, nota de rodapé 69, e p. 567.

[7] Rodney J. Decker. Temporal Deixis of the Greek Verb in the Gospel of Mark with Reference to Verbal Aspect (New York: Peter Lang Inc, 2001), p. 34.

[8] “presente histórico” é a explicação tradicional para quando a forma do presente era usada para se referir a eventos no passado em narrativas. Alguns argumentam que a intenção do autor era colocar o ouvinte dentro de narrativas passadas. Para uma discussão, veja David Mathewson; Elodie Emig, Intermediate Greek Grammar: Syntax for Students of the New Testament (Grand Rapids: Baker Academic, 2016), p. 126-127.

[9] Embora dominante atualmente, não o é desde sempre. Há a concepção errada de que os defensores do aspecto verbal descobriram algo totalmente novo que estivera escondido há 2000 anos. A posição tradicional, portanto, parece ser mais segura. Contudo, isso manifesta certa ignorância quanto a história do estudo da língua grega. Gramáticos do séc. II (os estoicos) já demonstravam um contorno aspectual do sistema verbal grego. Veja Porter, 1989, p. 17-22; 84-86.

[10] Stanley E. Porter, Idioms of the Greek New Testament (Sheffield: JSOT Press, 1994), p. 20-21. Em outro momento, Porter dá uma definição mais técnica: “Aspecto verbal grego é uma categoria sintética semântica (realizada na forma de verbos) usada de oposições significativas em uma rede de sistemas de tense para gramaticalizar a escolha subjetiva fundamentada do autor da concepção de um processo”. Porter 1989, p. 88. Porter prefere examinar o aspecto como parte de uma rede sistêmica de escolhas em vez de entidades isoladas.

[11] Buist M. Fanning, Verbal Aspect in New Testament Greek (Oxford: Clarendon, 1990), p. 84.

[12] Constantine R. Campbell, Verbal Aspect and Non-Indicative Verbs: Further Soundings in the Greek of New Testament, Studies in Biblical Greek 15 (New York, Peter Lang, 2008), p. 6.

[13] Mathewson 2016, p.112.

[14] Fanning 1990, p. 85.

[15] Então, ele estranhamente divide os aspectos entre durativo, pontilinear e resultante. Lourenço Rega; Johannes Bergmann. Noções do Grego Bíblico (São Paulo: Vida Nova, 2004), p. 25-26.

[16] Johannes Bergmann. Introdução ao Grego Bíblico (São Paulo: Thomas Nelson, 2024), p. 32. Gusso, autor de outra muito utilizada gramática no Brasil, segue a mesma linha. Veja Antônio Renato Gusso, Gramática Instrumental do Grego (São Paulo: Vida Nova, 2009), p. 56.

[17] Exegese do Novo Testamento: Um Guia Básico para o Estudo do Texto Bíblico (São Paulo: Vida Nova, 2016), p. 184.

[18] Gramática Prática de Grego: um Curso Dinâmico para Leitura e Compreensão (São Paulo: Hagnos, 2011), p. 52.

[19] D. A. Carson. “An Introduction to the Porter/Fanning Debate” in Biblical Greek Language and Linguistics: Open Questions in Current Research, ed. Stanley E. Porter; Donald A. Carson (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993). p. 19.

[20] Constantine R. Campbell. “Aspect and Tense in New Testament Greek” in Linguistics and New Testament Greek, ed. David A. Black; Benjamin L. Merkle. (Grand Rapids: Baker Academic, 2020), p. 38-39.

[21] Para uma distinção mais rigorosa de aspecto e Aktionsart, veja Buist Fanning, “Approaches to Verbal Aspect in the New Testament Greek: Issues in Definition and Method” in Biblical Greek Language and Linguistics, p. 48-51.

[22] Fanning 1990, p. 97. Veja também Mathewson 2016, p.113.

[23] Fanning 1990, p. 103.

[24] Ilustração adaptada por Porter 1989, p. 91.

[25] Idem.

[26] Mathewson 2016, p. 130. Campbell desenvolve um conceito parecido, mas substituindo não-remoto por proximidade. Basics of Verbal Aspect in Biblical Greek (Grand Rapids: Zondervan, 2008), p. 41-42.

[27] Porter 1989, p. 30-32.

[28] J. Holt, Etudes d’aspect (Acta Jutlandica Aarskrift for Aarhus Universitet, 15.2; Copenhagen: Universitetsforlaget I Aarhus, 1943).

[29] Alguns dos seus trabalhos mais importantes nesse período foram: K.L.McKay, “Further Remarks on the ‘Historical’ Present and Other Phenomena”, Foundations of Language 11 (1974); K.L.McKay “On the Perfect and Other Aspects in New Testament Greek Non-Literary Papyri”, Bulletin of the Institute of Classical Studies 27 (1980).

[30] Para uma breve história da pesquisa recente sobre aspecto verbal até sua data de publicação, veja S. E. Porter e A. W. Pitts, “New Testament Greek Language and Linguistics in Recent Research”, Currents in Research: Biblical Studies 6 (2008), p. 215-222.

[31] Para um excelente resumo da magnum opus de Porter, veja Rodney Decker, “The Poor Man’s Porter” A condensation and summarization of Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood by Stanley E. Porter. É interessante que, embora a tese seja revolucionária, ela foi um “plano B”. Porter planejava fazer seu doutorado em Sheffield sobre a hermenêutica do reader-response, algo que (felizmente) pareceu ser inviável à época. Então, Anthony Thiselton o apresentou um colega linguista, que fascinou Porter pelo tópico do aspecto verbal.

[32] Em uma aula de exegese do Dr. Tom Schreiner (setembro de 2023), eu o perguntei pessoalmente sua opinião acerca do modelo de aspecto verbal do Stanley Porter. Ele respondeu que, na década de 90, todos pareciam convencidos pela sua teoria, mas com o tempo, os teólogos foram tendendo ao lado do Fanning. Essa é também a perspectiva do professor uma vez que ele se intitula como “tradicionalista em seu grego”. Tive a mesma conversa com o Dr. Jarvis Williams e o Dr. Robert Plummer à época, cujas respostas foram no mesmo sentido.

[33] Constantine R. Campbell, Basics of Verbal Aspect in Biblical Greek (Grand Rapids: Zondervan, 2008), p. 29-30.

[34] Os 5 artigos vieram a ser publicados como a Parte I do livro Biblical Greek Language and Linguistics: Open Questions in Current Research, ed. Stanley E. Porter; Donald A. Carson (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993), p. 18-82.

[35] Os três, com incentivo de Carson, concordaram em reunir suas contribuições em um livro onde se teria maior espaço para interação e debate entre os autores. Veja The Perfect Storm: Critical Discussion of the Semantics of the Greek Perfect Tense under Aspect, ed. D. A. Carson (New York: Peter Lang, 2021).

[36] Steven E. Runge & Christopher J. Fresch (ed.), The Greek Verb Revisited: A Fresh Approach for Biblical Exegesis (Bellingham: Lexham, 2016).

[37] Para pelo menos outras 5 áreas de discordância menos significativas entre os expoentes da teoria do aspecto verbal, veja Porter 2015, p. 200-203.

[38] Por exemplo, Robert Crellin, “The Semantics of the Perfect in the Greek of the New Testament,” in The Greek Verb Revisited, p. 430–57. Mais extenso, The Syntax and Semantics of the Perfect Active in Koine Greek (Publications of the Philological Society 47; Chichester: Wiley Blackwell, 2016).

[39] Buist Fanning, “Defining the Ancient Greek Perfect: Interaction with Recent Alternatives to the Traditional View of the Perfect” in The Perfect Storm, p. 62.

[40] Idem, p. 73.

[41] Ibid., p. 64. Em outro momento, ele dá uma formulação mais técnica: o perfeito é “uma intersecção de aspecto (perfectivo/aorístico), localidade temporal (ocorrência anterior do evento relativo ao estado que ele produz), e procedural character (estativo)” (p.74). Por procedural character, Fanning se refere a Aktionsart.

[42] The Perfect Storm, p. 7.

[43] Constantine Campbell, “The Greek Perfect: Why It Isn’t”, in The Perfect Storm, p. 5.

[44] Porter 2015, p. 203.

[45] Porter 2015, p. 198. Ver também "Greek Linguistics and Lexicography" In Understanding the Times: New Testament Studies in the 21st Century (Nottingham: Inter-Varsity Press, 2011), p. 48.

[46] Para uma excelente exemplificação de diversos perfeitos indicando estatividade e sua tradução, veja Porter 2015, p. 213-215.

[47] Porter 2015, p. 200.

[48] Uma das críticas de Campbell é justamente que há 4 raízes no verbo grego, não 3. Porter argumenta que a raiz do futuro é excluída. Ele afirma que o futuro é aspectualmente vago por não ser bem definido morfologicamente. Idem, p. 210.

[49] The Perfect Storm, p. 71.

[50] Idem, p. 17-18. Porter responde à crítica de má interpretação dos linguistas em Porter 2015, p. 205-206.

[51] Campbell 2008, p. 39.

[52] Porter 1989, p. 410. Porter entende ainda que a forma do futuro “gramaticaliza um recurso semântico único [+expectativa]” (p. 438).

[53] Fanning 1990, p. 123.

[54] . “Approaches to Verbal Aspect in the New Testament Greek: Issues in Definition and Method” in Biblical Greek Language and Linguistics, p. 58. tenses porque, ao longo do artigo, preferi usar formas verbais no lugar de tempo como tradução para evitar confusão entre tense forms e time no português.

[55] Porter 1989, p. 75-78, 81.

[56] Idem, p. 98-102.

[57] Constantine R. Campbell, “Aspect and Tense in New Testament Greek” in Linguistics and New Testament Greek, p. 46

[58] Campbell 2015, p. 70.

[59] O mesmo com a forma do presente e o aspecto imperfectivo. Porter 1989, p. 102-107. “Para os gregos, o aspecto perfectivo (expresso pela forma aoristo), com sua perspectiva de ver ações em sua totalidade ou completude, era aparentemente sentido como mais compatível para falar sobre ações vistas como concluídas; daí seu uso frequente em narrativas. O aspecto imperfectivo (expresso pela forma presente), com sua perspectiva de ver o desenvolvimento progressivo de uma ação; era aparentemente sentido como compatível com o exame contínuo; daí seu uso frequente em descrição ou exposição”. Porter, Idioms of the Greek New Testament, p. 26.

[60] Buist Fanning, “Greek Presents, Imperfects, and Aorists in the Synoptic Gospels” in Discourse Studies and Biblical Interpretations: A Festschrift in Honor of Stephen H. Levinsohn, Steven Runge (ed.) (Bellingham: Logos Bible Software, 2011), p. 157-190.

[61] Stanley Porter, “Three Arguments regarding Aspect and Temporality: A Response to Buist Fanning, with an Excursus on Aspectually Vague Verbs”, in Linguistic Analysis of the Greek New Testament, p. 174-194.

[62] Por discurso, aqui, me refiro a unidades de textos maiores que vão além das frases e até mesmo parágrafos.

[63] Mathewson 2016, p. 277. Veja também Porter, Idioms of the Greek New Testament: “Os planos do discurso como indicados pelo uso dos aspectos verbais são os meios pelos quais pontos de ênfase ou picos discursivos são indicados” (p. 302).

[64] É claro que há outros indicadores de proeminência além de aspecto verbal. Stanley Porter, “Proeminence: An Overview” in The Linguist as Pedagogue: Trends in the Teaching and Linguistic Analysis of Greek New Testament, ed. Stanley Porter; Matthew Brook O’Donnell, New Testament Monographs 11 (Sheffield: Sheffield Phoenix, 2009), p. 58-61; Jeffrey T. Reed, “Identifying Theme in the New Testament: Insights from Discourse Analysis”, in Discourse Analysis and Other Topics in Biblical Greek, ed. Stanley Porter; D. A. Carson (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1995), p. 84.

[65] Stanley Porter, “Discourse Analysis and New Testament Studies: An Introductory Survey”, in Discourse Analysis and Other Topics in Biblical Greek, p. 14-35.

[66] Para uma excelente monografia sobre o tema, veja Guilherme Nunes, “ASPECTO VERBAL COMO INDICADOR DE PROEMINÊNCIA NO GREGO DO NOVO TESTAMENTO NA PERSPECTIVA DE STANLEY E. PORTER E JEFFREY T. REED”, 2015.

[67] Importante lembrar que essa não é a única função do aspecto, nem mesmo sua função principal. Antes de tudo, o sentido das formas verbais é indicar a perspectiva subjetiva da ação.

[68] Porter, Idioms of the Greek New Testament, p. 23.

[69] Se significado pressupõe escolha, o contrário também é verdade: falta de opções para serem escolhidas implicam em falta de significado. Há verbos, como εἰμί, que não oferecem ao autor a escolha entre aspecto perfectivo e imperfectivo pois ocorrem somente no presente e no imperfeito. Tais verbos são “aspectualmente vagos” e não indicam proeminência. Mathewson 2016, p. 114-115.

[70] Stanley Porter, “Proeminence: An Overview”, p. 59.

[71] Porter 1989, p. 93.

[72] Tenho consciência de que o discurso não quebra no versículo 7. Não abordei o restante da unidade por motivo de espaço e porque os versículos abordados já cumprem os nossos propósitos.

[73] Veja a análise em David Mathewson, Verbal Aspect in the Book of Revelation: The Function of Greek Verb Tenses in John’s Apocalypse (Leiden: Brill, 2010), p. 123-129.

[74] Ao mudar do aoristo para o presente, João vê o ato de olhar (presente) o livro como mais significativo do que abrir o livro. Assim, a ideia de abrir o livro serve de contexto para a ação mais saliente, que é examiná-lo. Idem, p. 125-126.

[75] Embora o verbo ser em “que são os sete Espíritos de Deus” (εἰσιν, v. 6), esteja no presente, como dissemos acima, ele é aspectualmente vago e não indica proeminência.

[76] Porter, Idioms of Greek New Testament, p. 23.

[77] Stanley Porter, “Proeminence: An Overview”, p. 61.

[78] É claro que vários já tem interagido com o novo modelo. Veja, por exemplo, D. A. Carson, O Comentário de João (São Paulo: Shedd Publicações, 2007); Douglas Moo, Romanos: Comentário Exegético (São Paulo: Vida Nova, 2023). David E. Aune, Revelation, Word Biblical Commentary 52A–B (Nashville: Nelson, 1997–1998); Peter T. O’Brien, The Letter to the Ephesians, Pillar New Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1999); Buist Fanning, Revelation, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Zondervan Academic, 2020); Stanley Porter, The Pastoral Epistles: A Commentary on the Greek Text (Grand Rapids: Baker Academic, 2023).

[79] Uma possibilidade talvez seja o estudo do aspecto verbal na Septuaginta e no uso dos respectivos textos pelo Novo Testamento, comparando as mudanças de aspecto e suas implicações.

[1] Graduando em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisador científico, participante do Grupo de Pesquisa Justiça e Democracia e monitor bolsista da disciplina de Filosofia do Direito, todos concentrados na UFMG. Membro do Grupo de Estudos Avançados em Novo Testamento Ginosko do Seminário Teológico Jonathan Edwards. Contato: lucas.araujo5@outlook.com

[2] Stanley Porter, Linguistic Analysis of the Greek New Testament: Studies in Tools, Methods, and Practice (Grand Rapids: Baker, 2015), p. 199.

[3] Stanley E. Porter. Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood, (New York, United States of America: Peter Lang Verlag, 1989), p.75.

[4] Idem, p. 83.

[5] Ibid. p, 75 e p.78-79 para a justificação dos verbos se referirem ao futuro.

[6] Algumas traduções trazem ambos os verbos como se referindo ao passado. Provavelmente isso se deva ao entendimento tradicional da importância que o contexto temporal tem na semântica do aoristo – justamente algo que a teoria do aspecto verbal visa corrigir. Veja D.A. Carson, O Comentário de João (São Paulo: Shedd Publicações, 2007), p. 558, nota de rodapé 69, e p. 567.

[7] Rodney J. Decker. Temporal Deixis of the Greek Verb in the Gospel of Mark with Reference to Verbal Aspect (New York: Peter Lang Inc, 2001), p. 34.

[8] “presente histórico” é a explicação tradicional para quando a forma do presente era usada para se referir a eventos no passado em narrativas. Alguns argumentam que a intenção do autor era colocar o ouvinte dentro de narrativas passadas. Para uma discussão, veja David Mathewson; Elodie Emig, Intermediate Greek Grammar: Syntax for Students of the New Testament (Grand Rapids: Baker Academic, 2016), p. 126-127.

[9] Embora dominante atualmente, não o é desde sempre. Há a concepção errada de que os defensores do aspecto verbal descobriram algo totalmente novo que estivera escondido há 2000 anos. A posição tradicional, portanto, parece ser mais segura. Contudo, isso manifesta certa ignorância quanto a história do estudo da língua grega. Gramáticos do séc. II (os estoicos) já demonstravam um contorno aspectual do sistema verbal grego. Veja Porter, 1989, p. 17-22; 84-86.

[10] Stanley E. Porter, Idioms of the Greek New Testament (Sheffield: JSOT Press, 1994), p. 20-21. Em outro momento, Porter dá uma definição mais técnica: “Aspecto verbal grego é uma categoria sintética semântica (realizada na forma de verbos) usada de oposições significativas em uma rede de sistemas de tense para gramaticalizar a escolha subjetiva fundamentada do autor da concepção de um processo”. Porter 1989, p. 88. Porter prefere examinar o aspecto como parte de uma rede sistêmica de escolhas em vez de entidades isoladas.

[11] Buist M. Fanning, Verbal Aspect in New Testament Greek (Oxford: Clarendon, 1990), p. 84.

[12] Constantine R. Campbell, Verbal Aspect and Non-Indicative Verbs: Further Soundings in the Greek of New Testament, Studies in Biblical Greek 15 (New York, Peter Lang, 2008), p. 6.

[13] Mathewson 2016, p.112.

[14] Fanning 1990, p. 85.

[15] Então, ele estranhamente divide os aspectos entre durativo, pontilinear e resultante. Lourenço Rega; Johannes Bergmann. Noções do Grego Bíblico (São Paulo: Vida Nova, 2004), p. 25-26.

[16] Johannes Bergmann. Introdução ao Grego Bíblico (São Paulo: Thomas Nelson, 2024), p. 32. Gusso, autor de outra muito utilizada gramática no Brasil, segue a mesma linha. Veja Antônio Renato Gusso, Gramática Instrumental do Grego (São Paulo: Vida Nova, 2009), p. 56.

[17] Exegese do Novo Testamento: Um Guia Básico para o Estudo do Texto Bíblico (São Paulo: Vida Nova, 2016), p. 184.

[18] Gramática Prática de Grego: um Curso Dinâmico para Leitura e Compreensão (São Paulo: Hagnos, 2011), p. 52.

[19] D. A. Carson. “An Introduction to the Porter/Fanning Debate” in Biblical Greek Language and Linguistics: Open Questions in Current Research, ed. Stanley E. Porter; Donald A. Carson (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993). p. 19.

[20] Constantine R. Campbell. “Aspect and Tense in New Testament Greek” in Linguistics and New Testament Greek, ed. David A. Black; Benjamin L. Merkle. (Grand Rapids: Baker Academic, 2020), p. 38-39.

[21] Para uma distinção mais rigorosa de aspecto e Aktionsart, veja Buist Fanning, “Approaches to Verbal Aspect in the New Testament Greek: Issues in Definition and Method” in Biblical Greek Language and Linguistics, p. 48-51.

[22] Fanning 1990, p. 97. Veja também Mathewson 2016, p.113.

[23] Fanning 1990, p. 103.

[24] Ilustração adaptada por Porter 1989, p. 91.

[25] Idem.

[26] Mathewson 2016, p. 130. Campbell desenvolve um conceito parecido, mas substituindo não-remoto por proximidade. Basics of Verbal Aspect in Biblical Greek (Grand Rapids: Zondervan, 2008), p. 41-42.

[27] Porter 1989, p. 30-32.

[28] J. Holt, Etudes d’aspect (Acta Jutlandica Aarskrift for Aarhus Universitet, 15.2; Copenhagen: Universitetsforlaget I Aarhus, 1943).

[29] Alguns dos seus trabalhos mais importantes nesse período foram: K.L.McKay, “Further Remarks on the ‘Historical’ Present and Other Phenomena”, Foundations of Language 11 (1974); K.L.McKay “On the Perfect and Other Aspects in New Testament Greek Non-Literary Papyri”, Bulletin of the Institute of Classical Studies 27 (1980).

[30] Para uma breve história da pesquisa recente sobre aspecto verbal até sua data de publicação, veja S. E. Porter e A. W. Pitts, “New Testament Greek Language and Linguistics in Recent Research”, Currents in Research: Biblical Studies 6 (2008), p. 215-222.

[31] Para um excelente resumo da magnum opus de Porter, veja Rodney Decker, “The Poor Man’s Porter” A condensation and summarization of Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood by Stanley E. Porter. É interessante que, embora a tese seja revolucionária, ela foi um “plano B”. Porter planejava fazer seu doutorado em Sheffield sobre a hermenêutica do reader-response, algo que (felizmente) pareceu ser inviável à época. Então, Anthony Thiselton o apresentou um colega linguista, que fascinou Porter pelo tópico do aspecto verbal.

[32] Em uma aula de exegese do Dr. Tom Schreiner (setembro de 2023), eu o perguntei pessoalmente sua opinião acerca do modelo de aspecto verbal do Stanley Porter. Ele respondeu que, na década de 90, todos pareciam convencidos pela sua teoria, mas com o tempo, os teólogos foram tendendo ao lado do Fanning. Essa é também a perspectiva do professor uma vez que ele se intitula como “tradicionalista em seu grego”. Tive a mesma conversa com o Dr. Jarvis Williams e o Dr. Robert Plummer à época, cujas respostas foram no mesmo sentido.

[33] Constantine R. Campbell, Basics of Verbal Aspect in Biblical Greek (Grand Rapids: Zondervan, 2008), p. 29-30.

[34] Os 5 artigos vieram a ser publicados como a Parte I do livro Biblical Greek Language and Linguistics: Open Questions in Current Research, ed. Stanley E. Porter; Donald A. Carson (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993), p. 18-82.

[35] Os três, com incentivo de Carson, concordaram em reunir suas contribuições em um livro onde se teria maior espaço para interação e debate entre os autores. Veja The Perfect Storm: Critical Discussion of the Semantics of the Greek Perfect Tense under Aspect, ed. D. A. Carson (New York: Peter Lang, 2021).

[36] Steven E. Runge & Christopher J. Fresch (ed.), The Greek Verb Revisited: A Fresh Approach for Biblical Exegesis (Bellingham: Lexham, 2016).

[37] Para pelo menos outras 5 áreas de discordância menos significativas entre os expoentes da teoria do aspecto verbal, veja Porter 2015, p. 200-203.

[38] Por exemplo, Robert Crellin, “The Semantics of the Perfect in the Greek of the New Testament,” in The Greek Verb Revisited, p. 430–57. Mais extenso, The Syntax and Semantics of the Perfect Active in Koine Greek (Publications of the Philological Society 47; Chichester: Wiley Blackwell, 2016).

[39] Buist Fanning, “Defining the Ancient Greek Perfect: Interaction with Recent Alternatives to the Traditional View of the Perfect” in The Perfect Storm, p. 62.

[40] Idem, p. 73.

[41] Ibid., p. 64. Em outro momento, ele dá uma formulação mais técnica: o perfeito é “uma intersecção de aspecto (perfectivo/aorístico), localidade temporal (ocorrência anterior do evento relativo ao estado que ele produz), e procedural character (estativo)” (p.74). Por procedural character, Fanning se refere a Aktionsart.

[42] The Perfect Storm, p. 7.

[43] Constantine Campbell, “The Greek Perfect: Why It Isn’t”, in The Perfect Storm, p. 5.

[44] Porter 2015, p. 203.

[45] Porter 2015, p. 198. Ver também "Greek Linguistics and Lexicography" In Understanding the Times: New Testament Studies in the 21st Century (Nottingham: Inter-Varsity Press, 2011), p. 48.

[46] Para uma excelente exemplificação de diversos perfeitos indicando estatividade e sua tradução, veja Porter 2015, p. 213-215.

[47] Porter 2015, p. 200.

[48] Uma das críticas de Campbell é justamente que há 4 raízes no verbo grego, não 3. Porter argumenta que a raiz do futuro é excluída. Ele afirma que o futuro é aspectualmente vago por não ser bem definido morfologicamente. Idem, p. 210.

[49] The Perfect Storm, p. 71.

[50] Idem, p. 17-18. Porter responde à crítica de má interpretação dos linguistas em Porter 2015, p. 205-206.

[51] Campbell 2008, p. 39.

[52] Porter 1989, p. 410. Porter entende ainda que a forma do futuro “gramaticaliza um recurso semântico único [+expectativa]” (p. 438).

[53] Fanning 1990, p. 123.

[54] . “Approaches to Verbal Aspect in the New Testament Greek: Issues in Definition and Method” in Biblical Greek Language and Linguistics, p. 58. tenses porque, ao longo do artigo, preferi usar formas verbais no lugar de tempo como tradução para evitar confusão entre tense forms e time no português.

[55] Porter 1989, p. 75-78, 81.

[56] Idem, p. 98-102.

[57] Constantine R. Campbell, “Aspect and Tense in New Testament Greek” in Linguistics and New Testament Greek, p. 46

[58] Campbell 2015, p. 70.

[59] O mesmo com a forma do presente e o aspecto imperfectivo. Porter 1989, p. 102-107. “Para os gregos, o aspecto perfectivo (expresso pela forma aoristo), com sua perspectiva de ver ações em sua totalidade ou completude, era aparentemente sentido como mais compatível para falar sobre ações vistas como concluídas; daí seu uso frequente em narrativas. O aspecto imperfectivo (expresso pela forma presente), com sua perspectiva de ver o desenvolvimento progressivo de uma ação; era aparentemente sentido como compatível com o exame contínuo; daí seu uso frequente em descrição ou exposição”. Porter, Idioms of the Greek New Testament, p. 26.

[60] Buist Fanning, “Greek Presents, Imperfects, and Aorists in the Synoptic Gospels” in Discourse Studies and Biblical Interpretations: A Festschrift in Honor of Stephen H. Levinsohn, Steven Runge (ed.) (Bellingham: Logos Bible Software, 2011), p. 157-190.

[61] Stanley Porter, “Three Arguments regarding Aspect and Temporality: A Response to Buist Fanning, with an Excursus on Aspectually Vague Verbs”, in Linguistic Analysis of the Greek New Testament, p. 174-194.

[62] Por discurso, aqui, me refiro a unidades de textos maiores que vão além das frases e até mesmo parágrafos.

[63] Mathewson 2016, p. 277. Veja também Porter, Idioms of the Greek New Testament: “Os planos do discurso como indicados pelo uso dos aspectos verbais são os meios pelos quais pontos de ênfase ou picos discursivos são indicados” (p. 302).

[64] É claro que há outros indicadores de proeminência além de aspecto verbal. Stanley Porter, “Proeminence: An Overview” in The Linguist as Pedagogue: Trends in the Teaching and Linguistic Analysis of Greek New Testament, ed. Stanley Porter; Matthew Brook O’Donnell, New Testament Monographs 11 (Sheffield: Sheffield Phoenix, 2009), p. 58-61; Jeffrey T. Reed, “Identifying Theme in the New Testament: Insights from Discourse Analysis”, in Discourse Analysis and Other Topics in Biblical Greek, ed. Stanley Porter; D. A. Carson (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1995), p. 84.

[65] Stanley Porter, “Discourse Analysis and New Testament Studies: An Introductory Survey”, in Discourse Analysis and Other Topics in Biblical Greek, p. 14-35.

[66] Para uma excelente monografia sobre o tema, veja Guilherme Nunes, “ASPECTO VERBAL COMO INDICADOR DE PROEMINÊNCIA NO GREGO DO NOVO TESTAMENTO NA PERSPECTIVA DE STANLEY E. PORTER E JEFFREY T. REED”, 2015.

[67] Importante lembrar que essa não é a única função do aspecto, nem mesmo sua função principal. Antes de tudo, o sentido das formas verbais é indicar a perspectiva subjetiva da ação.

[68] Porter, Idioms of the Greek New Testament, p. 23.

[69] Se significado pressupõe escolha, o contrário também é verdade: falta de opções para serem escolhidas implicam em falta de significado. Há verbos, como εἰμί, que não oferecem ao autor a escolha entre aspecto perfectivo e imperfectivo pois ocorrem somente no presente e no imperfeito. Tais verbos são “aspectualmente vagos” e não indicam proeminência. Mathewson 2016, p. 114-115.

[70] Stanley Porter, “Proeminence: An Overview”, p. 59.

[71] Porter 1989, p. 93.

[72] Tenho consciência de que o discurso não quebra no versículo 7. Não abordei o restante da unidade por motivo de espaço e porque os versículos abordados já cumprem os nossos propósitos.

[73] Veja a análise em David Mathewson, Verbal Aspect in the Book of Revelation: The Function of Greek Verb Tenses in John’s Apocalypse (Leiden: Brill, 2010), p. 123-129.

[74] Ao mudar do aoristo para o presente, João vê o ato de olhar (presente) o livro como mais significativo do que abrir o livro. Assim, a ideia de abrir o livro serve de contexto para a ação mais saliente, que é examiná-lo. Idem, p. 125-126.

[75] Embora o verbo ser em “que são os sete Espíritos de Deus” (εἰσιν, v. 6), esteja no presente, como dissemos acima, ele é aspectualmente vago e não indica proeminência.

[76] Porter, Idioms of Greek New Testament, p. 23.

[77] Stanley Porter, “Proeminence: An Overview”, p. 61.

[78] É claro que vários já tem interagido com o novo modelo. Veja, por exemplo, D. A. Carson, O Comentário de João (São Paulo: Shedd Publicações, 2007); Douglas Moo, Romanos: Comentário Exegético (São Paulo: Vida Nova, 2023). David E. Aune, Revelation, Word Biblical Commentary 52A–B (Nashville: Nelson, 1997–1998); Peter T. O’Brien, The Letter to the Ephesians, Pillar New Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1999); Buist Fanning, Revelation, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Zondervan Academic, 2020); Stanley Porter, The Pastoral Epistles: A Commentary on the Greek Text (Grand Rapids: Baker Academic, 2023).

[79] Uma possibilidade talvez seja o estudo do aspecto verbal na Septuaginta e no uso dos respectivos textos pelo Novo Testamento, comparando as mudanças de aspecto e suas implicações.

Referências

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