A Impossibilidade do Pluralismo Religioso no Discurso Teológico
Paulo Francisco Ribeiro de Carvalho[1]
Resumo
Resumo: Em contraste com o exclusivismo religioso, o pluralismo é a crença em que toda religião é ou pode ser válida. Assim, este estudo objetiva demonstrar que essa doutrina é impossível na metodologia e discurso teológicos. Também, o exclusivismo não é uma falha moral, mas logicamente inevitável. Dessa forma, o religioso deve ter o direito de confessar sua crença religiosa e negar outras. Contudo, há pluralidade de interpretações dentro de um sistema teológico e a existência de tradições (e.g., reformada, luterana, arminiana) é benéfica para a ciência teológica.
Palavras-chave: Pluralismo religioso. Exclusivismo. Metodologia e discurso teológicos.
Abstract: In contrast with religious exclusivism, pluralism is the belief in which any religion is or can be valid. Hence, this study intends to demonstrate that such a doctrine is impossible in the theological discourse and methodology. Also, exclusivism is not a moral flaw, but logically inevitable. Thus, the believer must have the right to confess its belief and deny others. However, there is plurality of interpretations within a religious system and the existence of traditions (e.g., Reformed, Luteran, Arminian) is beneficial for the theological science.
Keywords: Religious pluralism. Exclusivism. Theological discourse and methodology.
Resumo: Em contraste com o exclusivismo religioso, o pluralismo é a crença em que toda religião é ou pode ser válida. Assim, este estudo objetiva demonstrar que essa doutrina é impossível na metodologia e discurso teológicos. Também, o exclusivismo não é uma falha moral, mas logicamente inevitável. Dessa forma, o religioso deve ter o direito de confessar sua crença religiosa e negar outras. Contudo, há pluralidade de interpretações dentro de um sistema teológico e a existência de tradições (e.g., reformada, luterana, arminiana) é benéfica para a ciência teológica.
Palavras-chave: Pluralismo religioso. Exclusivismo. Metodologia e discurso teológicos.
Abstract: In contrast with religious exclusivism, pluralism is the belief in which any religion is or can be valid. Hence, this study intends to demonstrate that such a doctrine is impossible in the theological discourse and methodology. Also, exclusivism is not a moral flaw, but logically inevitable. Thus, the believer must have the right to confess its belief and deny others. However, there is plurality of interpretations within a religious system and the existence of traditions (e.g., Reformed, Luteran, Arminian) is beneficial for the theological science.
Keywords: Religious pluralism. Exclusivism. Theological discourse and methodology.
Artigo
1. Introdução
De acordo com o pluralista, afirmar que crença religiosa A é verdadeira e B não seria arbitrário e até mesmo opressivo. Dessa forma, a primeira parte deste estudo objetiva demonstrar que o exclusivismo religioso não é uma falha moral, mas totalmente inevitável, considerando a natureza humana (PLANTINGA, 1995, p. 174). Assim, o pluralismo religioso, se definido como a impossibilidade de se alegar uma crença religiosa em detrimento de outra, não é em certo nível possível por teólogos e religiosos. [2]
A segunda objetiva demonstrar que a negação de uma proposição teológica poderia implicar na negação de outras, pois há uma intertextualidade lógica no sistema confessional. Por último, baseando-me em Vanhoozer, proponho uma relação entre pluralismo e exclusivismo religiosos. O pluralismo somente será possível no discurso teológico dentro de uma religião (e.g., Cristianismo), pois as religiões (e.g., Cristianismo, Judaísmo, Islamismo) se contradizem confessionalmente em níveis básicos.
2. Alvin Plantinga sobre a objeção moral ao exclusivismo religioso
O pluralista alegaria que a posição exclusivista é “intelectualmente arrogante, egoísta, convenientemente arbitrária, desonesta, imperialista ou opressiva” (Ibidem, p. 175, tradução minha). Decerto, muitos exclusivistas têm essas características, mas isso não é devido à posição exclusivista em si. A exclusão de ideias é inevitável, e não é opressiva.[3][4]
Eu ouso dizer que há alguns entre vocês que rejeitam algumas coisas que acredito; eu não acredito que, assim, vocês estejam me oprimindo, mesmo se vocês não acreditassem que tenham um argumento que me convenceria. É concebível que o exclusivismo possa contribuir de alguma forma à opressão, mas não é opressivo em si (p. 176).[5]
O exclusivista acredita que crenças que não estejam de acordo com suas são falsas. Mas, para o pluralista, isso seria egoisticamente arbitrário, como o seria crer na seguinte proposição “(1) O mundo foi criado por Deus, um ser pessoal perfeitamente bom, onisciente e onipotente” (p. 173). [6]
Então, quais seriam as alternativas de um exclusivista sobre a proposição? Plantinga elenca três: (1) continuar a crê-la; (2) suspendê-la, não a crendo, nem aceitando sua recusa; (3) aceitar sua recusa (p. 177). Talvez, a alternativa (2) seja preferível ao pluralista, o qual Plantinga chama de abstêmio, mas, ironicamente, isso também seria uma posição exclusivista, já que as alternativas (1) e (2) seriam excluídas, assim como muitas outras não explicitadas por Plantinga.
O pluralista abstêmio, ao suspender a afirmação e recusa de uma proposição como a (1), tentaria evitar a condição que resulta em arrogância e egoísmo. Mas, ao afirmar a alternativa (2), estaria implicitamente excluindo (1) e (3). Assim, as acusações do pluralista voltar-se-iam contra ele mesmo.
Para o pluralista abstêmio, talvez a solução seria se abster da crença implícita de que sua posição seja melhor e mais sábia. Isto é, não acreditar em p, nem em –p e não acreditar que isso seja uma posição melhor do que outras. Mas, logo, ele não teria razões para suspensão, “ele não acredita que abstenção é melhor ou mais apropriada, ele simplesmente se abstém” (p. 178). Talvez, ele pudesse evitar uma atitude egoísta, mas não poderia afirmar que não se abster seja errado. Dessa forma, seu argumento não seria eficaz contra o exclusivista. [7]
Se o pluralista abstêmio acredita em (2) “Se S sabe que outros não acreditam em p e que ele está em condição C em relação a p, então S não deveria acreditar em p” (p. 178), teria em consequência um problema de inconsistência auto-referencial, pois certamente acredita em (2) e sabe que há aqueles que não acreditam em (2); sabe também, suponha-se, que dificilmente encontraria argumentos para defesa de (2), estando em condição C, sendo forçado a desacreditar em (2). [8]
Assim, basear-se nessa proposição para afirmar que a posição exclusivista é uma falha moral não é defensável. Se o pluralista religioso não estaria sendo imoral por concordar com a abstenção de crença, então o exclusivista também não estaria sendo imoral por excluir proposições de outras religiões.
3. Implicação lógica no discurso
Quando se diz “Deus existe”, nega-se que Deus não existe. Assim, a primeira proposição é o equivalente a Deus não existe (UNCHÔA, 2021, p. 124). Qualquer afirmação implica uma negativa; o contrário também é verdade. A afirmação “Deus é um em essência e trino pessoalmente” garante logicamente que Deus não seja muitos deuses e que ele não seja 4 pessoas, etc. Essa implicação (p = ~ (~p)) demonstra que, no nível mais básico do discurso, há negação e, portanto, exclusão proposicional. A negação de uma proposição também implica na negação de outras dentro de um sistema confessional.
O critério de incompatibilidade religiosa
Quando uma asserção formulada do período de revelação fundamental sustenta um sistema confessional, há uma proposição básica. E.g., a proposição (a) fundamenta ou é fundamentada por outras proposições na teologia cristã: [9][10]
Deus é infinito (Salmo 150.2).
Para que Deus seja sem fim, ele não poderia ser corporal, pois estaria fisicamente limitado. Dessa forma, a proposição (a) corrobora a seguinte:
Deus é espírito (João 4.24).
Isso se repete em:
Deus é amor (1 João 4.16).
Se Deus fosse eternamente amor, ele teria de ser pessoal, o que também se confirma na Sagrada Escritura. Doutrinas como a trindade, expiação e ressureição são básicas, pois fundamentam outras. [11]
Essa lógica (se (não) A, então (não) B) também é encontrada em 1 Coríntios 15.13-19, em que Paulo diz:
E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.
Chamo de critério de incompatibilidade religiosa a comparação de proposições básicas de sistemas teológicos. E.g., quando o Cristianismo é comparado ao arianismo, há incompatibilidade, pois existe uma divergência na compreensão da trindade entre ambos os sistemas.
Para que uma dada crença seja compatível com outra, ela tem de partilhar os mesmos fundamentos com aquela. O Cristianismo explicita isso: “ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que já está colocado: Jesus Cristo” (1 Cor 3.11).
Ademais, o sistema teológico estabelece a metodologia teológica. A teologia, partindo de uma lógica não clássica, é ciência assim como também não. Ela partilha do rigor científico como as ciências formais, naturais e humanas, mas se diferencia na confissão (ALVES, 2019). Toda teologia é confessional:
Há muitos estudos sobre a religião que são feitos fora de qualquer confissão religiosa. Por exemplo, é o caso de estudos que adotam a teoria pluralista das religiões. Trata-se de uma teoria que emite juízos sobre as revelações divinas. A teoria pluralista das religiões sustenta que, de um modo geral, as diferentes revelações divinas que aconteceram nas diversas tradições religiosas de todo o mundo têm valor semelhante. Essa é uma noção fora de qualquer confissão religiosa. Metodologicamente, quando um estudo é feito desse modo, fora da confissão religiosa, ele será não teológico (Ibidem, p. 86).
4. A diversidade teológica
O teólogo, seja qual for seu campo específico, depende de um número limitado de asserções estáveis na história da revelação para poder pensar sobre Deus. Se esse não for o caso, ele não poderá trabalhar. É devido à limitação da revelação (Deus não se revelou em outras religiões) que a diversidade teológica é possível. Dessa forma, a proposta acima pode ser útil para permitir a diversidade teológica, em contraste com o pluralismo religioso, antagônico ao labor teológico.
A diversidade ou pluralismo somente existe no discurso teológico internamente. Isso ocorre semelhantemente ao signo linguístico. E.g., “leão” (signo) é um significado (conceito) na medida em que é um significante (imagem acústica); o conceito pode ser psicologicamente expresso em várias formas: um leão antropomórfico, branco, magro, forte, etc. Mas jamais irá um falante de língua portuguesa interpretar por “leão” um réptil, como uma cobra. Isso se dá por uma necessidade de convenção dos falantes da língua; se alguém quiser aprender um idioma, terá de aceitar sua convenção. [12]
Igualmente, quando um teólogo discute com outro teólogo, há elementos pré-estabelecidos que são arbitrários dentro da metodologia teológica. [13]
Há espaço para reinterpretações, assim como alguém pode interpretar muitas coisas do substantivo leão, desde que haja um limite semântico. Em síntese, a natureza do discurso teológico é polifônica, mas (e portanto) limitada. Podemos falar de um dado objeto de várias maneiras, mas não podemos falar qualquer coisa do objeto.
Toda ação comunicadora tem conteúdo propositivo, lida com a realidade e estabelece relações interpessoais. Resta apenas acrescentar que as formas bíblicas de discurso lidam com a realidade de maneiras diferentes. Nenhum dos Evangelhos esmiúça totalmente o evangelho. Precisamos de um testemunho quadrifônico – Mateus, Marcos, Lucas, João – justamente para ver, sentir e experimentar o que Deus estava fazendo em Jesus Cristo. Existe um só “caminho” (Jo 14.6), porém “muitas maneiras” (Hb 1.1) de falar sobre ele (VANHOOZER, 2016, p. 304, grifo meu).
Um problema poderia surgir diante disso: então, uma crença é mutável, já que o discurso também o é? Nesse ponto, o discurso teológico se distingue de outros tipos de discursos; ele é axiomático, semelhante ao científico. Isto é, ele fundamenta-se em pressupostos imutáveis da revelação, e.g., Deus se encarnou, Jesus ressuscitou, etc. Sem esses pressupostos, Deus seria meramente uma ideia, sempre mutável e unicamente transcendente.
Considerações finais
A fé exclusivista, se não a considerarmos afetada pela arrogância e maldade humanas, não é opressiva. Certamente, como já dissemos, o exclusivismo pode contribuir à opressão, mas em si mesmo não afeta o direito de crença de outros. Desse modo, o religioso deve ter total direito à sua fé exclusivista, pois o exclusivismo é essencial em toda religião em algum nível.
Aqueles que afirmam o pluralismo religioso e não admitem o exclusivismo em qualquer nível são contraditórios, já que confessam uma única compreensão religiosa válida: que todas as religiões são ou podem ser válidas. Nesse sentido, o pluralismo religioso também é exclusivista. Assim, confirmamos que o exclusivismo é inevitável.
Contudo, isso não significa que não há pluralidade ou diversidade na revelação, pois, e.g., o Deus cristão revelou-se através de uma pluralidade de gêneros literários, escritos em épocas diferentes por várias camadas sociais. O pluralismo interno, inevitável, evidencia a complexidade do objeto de estudo da teologia e, logo, possibilita mais contribuições para essa ciência.
Também, o pluralismo religioso não é nem teológico, nem científico, pois não há sistema confessional algum que o admita e a metodologia científica moderna não se propõe a analisar a revelação (ALVES, 2019).
1. Introdução
De acordo com o pluralista, afirmar que crença religiosa A é verdadeira e B não seria arbitrário e até mesmo opressivo. Dessa forma, a primeira parte deste estudo objetiva demonstrar que o exclusivismo religioso não é uma falha moral, mas totalmente inevitável, considerando a natureza humana (PLANTINGA, 1995, p. 174). Assim, o pluralismo religioso, se definido como a impossibilidade de se alegar uma crença religiosa em detrimento de outra, não é em certo nível possível por teólogos e religiosos. [2]
A segunda objetiva demonstrar que a negação de uma proposição teológica poderia implicar na negação de outras, pois há uma intertextualidade lógica no sistema confessional. Por último, baseando-me em Vanhoozer, proponho uma relação entre pluralismo e exclusivismo religiosos. O pluralismo somente será possível no discurso teológico dentro de uma religião (e.g., Cristianismo), pois as religiões (e.g., Cristianismo, Judaísmo, Islamismo) se contradizem confessionalmente em níveis básicos.
2. Alvin Plantinga sobre a objeção moral ao exclusivismo religioso
O pluralista alegaria que a posição exclusivista é “intelectualmente arrogante, egoísta, convenientemente arbitrária, desonesta, imperialista ou opressiva” (Ibidem, p. 175, tradução minha). Decerto, muitos exclusivistas têm essas características, mas isso não é devido à posição exclusivista em si. A exclusão de ideias é inevitável, e não é opressiva.[3][4]
Eu ouso dizer que há alguns entre vocês que rejeitam algumas coisas que acredito; eu não acredito que, assim, vocês estejam me oprimindo, mesmo se vocês não acreditassem que tenham um argumento que me convenceria. É concebível que o exclusivismo possa contribuir de alguma forma à opressão, mas não é opressivo em si (p. 176).[5]
O exclusivista acredita que crenças que não estejam de acordo com suas são falsas. Mas, para o pluralista, isso seria egoisticamente arbitrário, como o seria crer na seguinte proposição “(1) O mundo foi criado por Deus, um ser pessoal perfeitamente bom, onisciente e onipotente” (p. 173). [6]
Então, quais seriam as alternativas de um exclusivista sobre a proposição? Plantinga elenca três: (1) continuar a crê-la; (2) suspendê-la, não a crendo, nem aceitando sua recusa; (3) aceitar sua recusa (p. 177). Talvez, a alternativa (2) seja preferível ao pluralista, o qual Plantinga chama de abstêmio, mas, ironicamente, isso também seria uma posição exclusivista, já que as alternativas (1) e (2) seriam excluídas, assim como muitas outras não explicitadas por Plantinga.
O pluralista abstêmio, ao suspender a afirmação e recusa de uma proposição como a (1), tentaria evitar a condição que resulta em arrogância e egoísmo. Mas, ao afirmar a alternativa (2), estaria implicitamente excluindo (1) e (3). Assim, as acusações do pluralista voltar-se-iam contra ele mesmo.
Para o pluralista abstêmio, talvez a solução seria se abster da crença implícita de que sua posição seja melhor e mais sábia. Isto é, não acreditar em p, nem em –p e não acreditar que isso seja uma posição melhor do que outras. Mas, logo, ele não teria razões para suspensão, “ele não acredita que abstenção é melhor ou mais apropriada, ele simplesmente se abstém” (p. 178). Talvez, ele pudesse evitar uma atitude egoísta, mas não poderia afirmar que não se abster seja errado. Dessa forma, seu argumento não seria eficaz contra o exclusivista. [7]
Se o pluralista abstêmio acredita em (2) “Se S sabe que outros não acreditam em p e que ele está em condição C em relação a p, então S não deveria acreditar em p” (p. 178), teria em consequência um problema de inconsistência auto-referencial, pois certamente acredita em (2) e sabe que há aqueles que não acreditam em (2); sabe também, suponha-se, que dificilmente encontraria argumentos para defesa de (2), estando em condição C, sendo forçado a desacreditar em (2). [8]
Assim, basear-se nessa proposição para afirmar que a posição exclusivista é uma falha moral não é defensável. Se o pluralista religioso não estaria sendo imoral por concordar com a abstenção de crença, então o exclusivista também não estaria sendo imoral por excluir proposições de outras religiões.
3. Implicação lógica no discurso
Quando se diz “Deus existe”, nega-se que Deus não existe. Assim, a primeira proposição é o equivalente a Deus não existe (UNCHÔA, 2021, p. 124). Qualquer afirmação implica uma negativa; o contrário também é verdade. A afirmação “Deus é um em essência e trino pessoalmente” garante logicamente que Deus não seja muitos deuses e que ele não seja 4 pessoas, etc. Essa implicação (p = ~ (~p)) demonstra que, no nível mais básico do discurso, há negação e, portanto, exclusão proposicional. A negação de uma proposição também implica na negação de outras dentro de um sistema confessional.
O critério de incompatibilidade religiosa
Quando uma asserção formulada do período de revelação fundamental sustenta um sistema confessional, há uma proposição básica. E.g., a proposição (a) fundamenta ou é fundamentada por outras proposições na teologia cristã: [9][10]
Deus é infinito (Salmo 150.2).
Para que Deus seja sem fim, ele não poderia ser corporal, pois estaria fisicamente limitado. Dessa forma, a proposição (a) corrobora a seguinte:
Deus é espírito (João 4.24).
Isso se repete em:
Deus é amor (1 João 4.16).
Se Deus fosse eternamente amor, ele teria de ser pessoal, o que também se confirma na Sagrada Escritura. Doutrinas como a trindade, expiação e ressureição são básicas, pois fundamentam outras. [11]
Essa lógica (se (não) A, então (não) B) também é encontrada em 1 Coríntios 15.13-19, em que Paulo diz:
E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.
Chamo de critério de incompatibilidade religiosa a comparação de proposições básicas de sistemas teológicos. E.g., quando o Cristianismo é comparado ao arianismo, há incompatibilidade, pois existe uma divergência na compreensão da trindade entre ambos os sistemas.
Para que uma dada crença seja compatível com outra, ela tem de partilhar os mesmos fundamentos com aquela. O Cristianismo explicita isso: “ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que já está colocado: Jesus Cristo” (1 Cor 3.11).
Ademais, o sistema teológico estabelece a metodologia teológica. A teologia, partindo de uma lógica não clássica, é ciência assim como também não. Ela partilha do rigor científico como as ciências formais, naturais e humanas, mas se diferencia na confissão (ALVES, 2019). Toda teologia é confessional:
Há muitos estudos sobre a religião que são feitos fora de qualquer confissão religiosa. Por exemplo, é o caso de estudos que adotam a teoria pluralista das religiões. Trata-se de uma teoria que emite juízos sobre as revelações divinas. A teoria pluralista das religiões sustenta que, de um modo geral, as diferentes revelações divinas que aconteceram nas diversas tradições religiosas de todo o mundo têm valor semelhante. Essa é uma noção fora de qualquer confissão religiosa. Metodologicamente, quando um estudo é feito desse modo, fora da confissão religiosa, ele será não teológico (Ibidem, p. 86).
4. A diversidade teológica
O teólogo, seja qual for seu campo específico, depende de um número limitado de asserções estáveis na história da revelação para poder pensar sobre Deus. Se esse não for o caso, ele não poderá trabalhar. É devido à limitação da revelação (Deus não se revelou em outras religiões) que a diversidade teológica é possível. Dessa forma, a proposta acima pode ser útil para permitir a diversidade teológica, em contraste com o pluralismo religioso, antagônico ao labor teológico.
A diversidade ou pluralismo somente existe no discurso teológico internamente. Isso ocorre semelhantemente ao signo linguístico. E.g., “leão” (signo) é um significado (conceito) na medida em que é um significante (imagem acústica); o conceito pode ser psicologicamente expresso em várias formas: um leão antropomórfico, branco, magro, forte, etc. Mas jamais irá um falante de língua portuguesa interpretar por “leão” um réptil, como uma cobra. Isso se dá por uma necessidade de convenção dos falantes da língua; se alguém quiser aprender um idioma, terá de aceitar sua convenção. [12]
Igualmente, quando um teólogo discute com outro teólogo, há elementos pré-estabelecidos que são arbitrários dentro da metodologia teológica. [13]
Há espaço para reinterpretações, assim como alguém pode interpretar muitas coisas do substantivo leão, desde que haja um limite semântico. Em síntese, a natureza do discurso teológico é polifônica, mas (e portanto) limitada. Podemos falar de um dado objeto de várias maneiras, mas não podemos falar qualquer coisa do objeto.
Toda ação comunicadora tem conteúdo propositivo, lida com a realidade e estabelece relações interpessoais. Resta apenas acrescentar que as formas bíblicas de discurso lidam com a realidade de maneiras diferentes. Nenhum dos Evangelhos esmiúça totalmente o evangelho. Precisamos de um testemunho quadrifônico – Mateus, Marcos, Lucas, João – justamente para ver, sentir e experimentar o que Deus estava fazendo em Jesus Cristo. Existe um só “caminho” (Jo 14.6), porém “muitas maneiras” (Hb 1.1) de falar sobre ele (VANHOOZER, 2016, p. 304, grifo meu).
Um problema poderia surgir diante disso: então, uma crença é mutável, já que o discurso também o é? Nesse ponto, o discurso teológico se distingue de outros tipos de discursos; ele é axiomático, semelhante ao científico. Isto é, ele fundamenta-se em pressupostos imutáveis da revelação, e.g., Deus se encarnou, Jesus ressuscitou, etc. Sem esses pressupostos, Deus seria meramente uma ideia, sempre mutável e unicamente transcendente.
Considerações finais
A fé exclusivista, se não a considerarmos afetada pela arrogância e maldade humanas, não é opressiva. Certamente, como já dissemos, o exclusivismo pode contribuir à opressão, mas em si mesmo não afeta o direito de crença de outros. Desse modo, o religioso deve ter total direito à sua fé exclusivista, pois o exclusivismo é essencial em toda religião em algum nível.
Aqueles que afirmam o pluralismo religioso e não admitem o exclusivismo em qualquer nível são contraditórios, já que confessam uma única compreensão religiosa válida: que todas as religiões são ou podem ser válidas. Nesse sentido, o pluralismo religioso também é exclusivista. Assim, confirmamos que o exclusivismo é inevitável.
Contudo, isso não significa que não há pluralidade ou diversidade na revelação, pois, e.g., o Deus cristão revelou-se através de uma pluralidade de gêneros literários, escritos em épocas diferentes por várias camadas sociais. O pluralismo interno, inevitável, evidencia a complexidade do objeto de estudo da teologia e, logo, possibilita mais contribuições para essa ciência.
Também, o pluralismo religioso não é nem teológico, nem científico, pois não há sistema confessional algum que o admita e a metodologia científica moderna não se propõe a analisar a revelação (ALVES, 2019).
Notas
[1] Licenciando em Letras-Português pelo Instituto Federal de São Paulo, Campus Salto. É membro da Igreja Batista Reformada de Indaiatuba. E-mail: francisco.r.c.paulo2@gmail.com.
[2] Em contraste com o de fato, o pluralismo tratado neste texto é o de princípio, que “representa a aceitação da pluralidade nas mais diferentes áreas como algo benéfico” (LAUTER, 2020, p. 225).
[3] Em seu texto, Plantinga somente considera exclusivista aquele que têm total consciência de outras crenças religiosas e que reflete sobre os problemas do pluralismo religioso. Também, o exclusivista está condição C, definida como estar consciente de outras religiões; saber que há piedade e devoção genuínas nelas; acreditar que se sabe de nenhum argumento que necessariamente convença o opositor honesto e inteligente sobre as crenças religiosas do exclusivista (p. 176).
[4] “I first turn to the moral complaints: that the exclusivist is intellectually arrogant, or egotistical, or self-servingly arbitrary, or dishonest, or imperialistic, or oppressive.”
[5] “I daresay there are some among you who reject some of the things I believe; I do not believe you are thereby oppressing me, even if you do not believe you have an argument that would convince me. It is conceivable that exclusivism might in some way contribute to oppression, but it isn't in itself oppressive”.
[6] “(1) The world was created by God, an almighty, all-knowing, and perfectly good personal being”.
[7] “he doesn’t believe that abstention is better or more appropriate; he simply does abstain.”
[8] “(3) If S knows that others don’t believe p and that he is in condition C with respect to p, then he should not believe p.”
[9] Como Unchôa, não faço distinção entre asserção e proposição neste texto.
[10] Alves distingue período de revelação fundamental de revelação dependente: “o primeiro é normativo e referência como revelação de Deus; o segundo por aquele é normatizado e àquele se refere em tudo que concerne à revelação” (2019, p. 36). Com o primeiro, referimo-nos ao Antigo e Novo Testamentos.
[11] Ao que me parece, Deus não seria eternamente amor se não fosse trinitário. Assim, a doutrina do amor, em certo ponto, dependeria da trindade.
[12] Vide Saussure (1995, pp. 79-84).
[13] Aqui, arbitrário não significa sem razão de ser, mas simplesmente estabelecido por uma comunidade. Também, não quero dizer que a revelação é meramente cultural, como se o homem tivesse criado Deus. Por último, não uso o termo como o faz Plantinga acima. Somente estou fazendo uma analogia entre teologia e teoria do signo.
[1] Licenciando em Letras-Português pelo Instituto Federal de São Paulo, Campus Salto. É membro da Igreja Batista Reformada de Indaiatuba. E-mail: francisco.r.c.paulo2@gmail.com.
[2] Em contraste com o de fato, o pluralismo tratado neste texto é o de princípio, que “representa a aceitação da pluralidade nas mais diferentes áreas como algo benéfico” (LAUTER, 2020, p. 225).
[3] Em seu texto, Plantinga somente considera exclusivista aquele que têm total consciência de outras crenças religiosas e que reflete sobre os problemas do pluralismo religioso. Também, o exclusivista está condição C, definida como estar consciente de outras religiões; saber que há piedade e devoção genuínas nelas; acreditar que se sabe de nenhum argumento que necessariamente convença o opositor honesto e inteligente sobre as crenças religiosas do exclusivista (p. 176).
[4] “I first turn to the moral complaints: that the exclusivist is intellectually arrogant, or egotistical, or self-servingly arbitrary, or dishonest, or imperialistic, or oppressive.”
[5] “I daresay there are some among you who reject some of the things I believe; I do not believe you are thereby oppressing me, even if you do not believe you have an argument that would convince me. It is conceivable that exclusivism might in some way contribute to oppression, but it isn't in itself oppressive”.
[6] “(1) The world was created by God, an almighty, all-knowing, and perfectly good personal being”.
[7] “he doesn’t believe that abstention is better or more appropriate; he simply does abstain.”
[8] “(3) If S knows that others don’t believe p and that he is in condition C with respect to p, then he should not believe p.”
[9] Como Unchôa, não faço distinção entre asserção e proposição neste texto.
[10] Alves distingue período de revelação fundamental de revelação dependente: “o primeiro é normativo e referência como revelação de Deus; o segundo por aquele é normatizado e àquele se refere em tudo que concerne à revelação” (2019, p. 36). Com o primeiro, referimo-nos ao Antigo e Novo Testamentos.
[11] Ao que me parece, Deus não seria eternamente amor se não fosse trinitário. Assim, a doutrina do amor, em certo ponto, dependeria da trindade.
[12] Vide Saussure (1995, pp. 79-84).
[13] Aqui, arbitrário não significa sem razão de ser, mas simplesmente estabelecido por uma comunidade. Também, não quero dizer que a revelação é meramente cultural, como se o homem tivesse criado Deus. Por último, não uso o termo como o faz Plantinga acima. Somente estou fazendo uma analogia entre teologia e teoria do signo.
Referências
ALVES, César Andrade. Método teológico e ciência: a teologia entre as disciplinas acadêmicas. São Paulo: Edições Loyola, 2019.
LAUTER, Gabriel Girotto. Uma visão geral da história da teologia do pluralismo religioso. Via Teológica, v. 21, n. 41, 2020.
PLANTINGA, Alvin. Pluralism: a defense of religious exclusivism. In: SENOR, Thomas D. The rationality of belief and the plurality of faith. Ithaca: Cornell UP, 1995.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1995.
UNCHÔA, Bruno. Ayer, Flew, Hick e Plantinga: a epistemologia religiosa no século XX. In: PLANTINGA, Alvin. Conselho aos filósofos cristãos. Brasília: Academia Monergista, 2021.
VANHOOZER, K. J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. São Paulo: Vida Nova, 2016.
ALVES, César Andrade. Método teológico e ciência: a teologia entre as disciplinas acadêmicas. São Paulo: Edições Loyola, 2019.
LAUTER, Gabriel Girotto. Uma visão geral da história da teologia do pluralismo religioso. Via Teológica, v. 21, n. 41, 2020.
PLANTINGA, Alvin. Pluralism: a defense of religious exclusivism. In: SENOR, Thomas D. The rationality of belief and the plurality of faith. Ithaca: Cornell UP, 1995.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1995.
UNCHÔA, Bruno. Ayer, Flew, Hick e Plantinga: a epistemologia religiosa no século XX. In: PLANTINGA, Alvin. Conselho aos filósofos cristãos. Brasília: Academia Monergista, 2021.
VANHOOZER, K. J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. São Paulo: Vida Nova, 2016.
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