Jesus e Fariseus dentro do Judaísmo do seu Tempo: interação e rivalidade intra-judaica
Jesus e Fariseus dentro do Judaísmo do seu Tempo: interação e rivalidade intra-judaica
Douglas Alves de Sousa[1]
Resumo
Resumo: O foco deste artigo é explorar as relações de Jesus com aquilo que podemos conhecer do judaísmo tão variado que residia na região da Judeia e Galileia, e que comumente chamamos de judaísmo do segundo templo, em particular o grupo dos fariseus. Assim, o estudo se insere dentro dos esforços recentes para localizar, compreender e explicar a pessoa de Jesus, bem como seus atos e ensinos, dentro do seu tempo e espaço.
Palavras-chave: Jesus. Judaísmo do segundo templo. Fariseus. Evangelhos.
Abstract: The focus of this article is to explore Jesus' relationship with what we know about the diverse Judaism that lived in the region of Judea and Galilee, and which we commonly call Second Temple Judaism, in particular the group of Pharisees. Thus, the study fits into recent efforts to locate, understand and explain the person of Jesus, as well as his acts and teachings, within his time and space.
Keywords: Jesus. Second Temple Judaism. Pharisees. Gospels.
Resumo: O foco deste artigo é explorar as relações de Jesus com aquilo que podemos conhecer do judaísmo tão variado que residia na região da Judeia e Galileia, e que comumente chamamos de judaísmo do segundo templo, em particular o grupo dos fariseus. Assim, o estudo se insere dentro dos esforços recentes para localizar, compreender e explicar a pessoa de Jesus, bem como seus atos e ensinos, dentro do seu tempo e espaço.
Palavras-chave: Jesus. Judaísmo do segundo templo. Fariseus. Evangelhos.
Abstract: The focus of this article is to explore Jesus' relationship with what we know about the diverse Judaism that lived in the region of Judea and Galilee, and which we commonly call Second Temple Judaism, in particular the group of Pharisees. Thus, the study fits into recent efforts to locate, understand and explain the person of Jesus, as well as his acts and teachings, within his time and space.
Keywords: Jesus. Second Temple Judaism. Pharisees. Gospels.
Artigo
1. Introdução
Por muito tempo, a figura de Jesus, em ambientes religiosos ou de estudo acadêmico, foi desconectada do seu ambiente judaico. Desde metade do século 20, por meio de figuras como Martin Hengel, Joachim Jeremias, Geza Vermes, E.P.Sanders, N.T.Wright e tantos outros essa realidade tem mudado, ainda que haja muito a ser conhecido, explorado, refletido e dialogado. As principais literaturas atuais sobre isso são tão vastas que seria virtualmente impossível listá-las aqui, mas isto não é necessário. O que nos importa saber é que esta postura de reconexão entre a figura de Jesus e o judaísmo do seu tempo é parte de um esforço mais amplo, não estando limitada apenas a Jesus, mas alcançando também os estudos relativos a outros personagens como Paulo, Pedro, Tiago e literaturas como Apocalipse, Atos e o novo testamento de forma geral. [2][3][4][5][6][7][8]
Como é de se esperar em qualquer campo acadêmico as teorias e conclusões são diversas por muitos motivos. Uma das razões mais óbvias tem a ver com os diferentes pressupostos filosóficos, teológicos, sociais e políticos e pontos de partida de cada estudioso. Outra é sobre as divergências no que diz respeito às metodologias distintas. Um outro motivo adicional é ocasionado pela natureza das fontes, o que representa desafios em relação à consideração de quais materiais/documentos podem ser usados, da extensão das fontes e de quais devem ter prioridade sobre outras.
No entanto, uma questão relevante que pode vir à nossa mente é: o que fez com que muitos estudiosos, de diferentes tradições e escolas, se voltassem para o ambiente judaico de Jesus? Essa é uma das características da chamada terceira busca do Jesus histórico e James K. Beilby e Paul Rhodes Eddy informam três fatores para esse atual interesse:
(1) A consciência da necessidade premente de abordar a tragédia da “arianização” alemã de Jesus durante a era nazi, (2) a crescente consciência das formas como “Jesus” e “Judaísmo” foram usados uns contra os outros ao longo dos últimos dois milénios - com este último a ser retratado como a religião hipócrita e legalista de obras mortas, da qual Jesus e a tradição cristã foram libertados pela mensagem estrangeira (ou seja, anti-judaica) de graça, fé e amor - e (3) um reconhecimento agora generalizado do simples fato histórico de que um Jesus separado do judaísmo palestino do primeiro século não pode ser o Jesus da história.[9]
Estes fatores se tornaram mais vividos após o fim da segunda guerra mundial, e poderíamos acrescentar ainda que descobertas arqueológicas e textuais importantes como dos manuscritos do deserto da judeia e da biblioteca de Nag Hammadi contribuíram para que uma visão renovada em torno do judaísmo antigo surgisse e naturalmente levasse a novos insights, e percepções a respeito do Novo Testamento, como a chamada Nova Perspectiva sobre Paulo.
Como mencionamos anteriormente, a pesquisa em torno da judaicidade de Jesus e seu contexto mais amplo pode seguir inúmeras direções. Poderíamos nos concentrar no ministério exorcista e milagreiro de Jesus no mundo judaico, ou como líder de um movimento potencialmente revolucionário (segundo as elites romanas e judaicas), na relação de Jesus com o templo ou as escrituras hebraicas. Ainda que nosso estudo em alguns momentos possa tangenciar estes pontos, vamos nos concentrar em compreender Jesus na sua interação com grupos judaicos de sua época, mais especificamente fariseus.
Nossas fontes para esta análise serão os evangelhos canônicos do Novo Testamento, pois são os registros mais antigos das memórias sobre Jesus de acordo com as testemunhas oculares a que temos acesso; a literatura judaica da época como Josefo, manuscritos do deserto da Judeia, pois nos informam sobre muito do ambiente judaico da Judéia e dos diversos grupos atuantes; e os escritos judaicos posteriores ao século 1 das fontes rabínicas, pois, ainda que elas nem sempre reflitam os tempos de Jesus, são um material válido e útil diante de todas as lacunas que temos.
A partir de tais fontes, buscaremos compreender um pouco de como Jesus interagiu com os fariseus da sua época e região e como isso pode nos informar mais sobre Jesus e seus debatedores.
2. O judaísmo do segundo templo
A bíblia hebraica encerra o seu arco narrativo descrevendo os dias da dominação Persa sobre Judá, momento este no qual lemos as histórias dos exilados retornando a Judeia com Zorobabel, os eventos com Esdras e Neemias. Ainda há uma literatura que descreve parte da vida dos judeus na diáspora persa em Susã, retratada no livro de Ester. Depois disso, as escrituras cristãs do Novo Testamento retomam a história cerca de 4 ou 5 séculos depois. A religião judaica que se desenvolveu neste período, tanto em Judá quanto ao redor do mundo, é o chamado judaísmo do segundo templo. Nos concentraremos neste artigo em suas formas que floresceram na região de Judá. A respeito da nomenclatura judaísmo, Vanderkam explica que:
O termo judaísmo , como designação para todo o fenômeno dos modos de vida e crença judaicos, é um termo grego (Ioudaismos) atestado pela primeira vez em 2 Macabeus 2:21; 14:38. Está relacionado ao nome da terra onde muitos judeus viviam — a terra de Judá ou Judeia — e parece ter sido cunhado como uma forma de contrastar o judaísmo tradicional com o helenismo. [10]
Uma característica marcante do judaísmo neste período, como também naquele depois do século 1a.c é a sua enorme variedade, porém não podemos nos esquecer do que, em linhas gerais, definia o judaísmo mesmo com uma enorme variedade, ou em outras palavras, o que fazia alguém ou algum grupo pertencer ainda ao judaísmo. Essa resposta é difícil, ainda mais que muitos daqueles que chamamos de judeus desse período teriam olhado para outros grupos como apóstatas. Concordamos com aqueles estudiosos que têm identificado o monoteísmo, a noção da eleição de Israel, a consideração pelas escrituras hebraicas como revelação de Deus, a valorização da terra como herança divina e o templo como os pontos centrais do judaísmo, pelo menos em termos gerais de crenças e instituições. Cohick acrescenta no tema das instituições a sinagoga também. Wright ao se esforçar por esboçar a cosmovisão judaica deste período apresenta esses elementos centrais sintetizados e divididos nas categorias de história (a história central do povo de Israel na bíblia e as histórias secundárias desenvolvidas no judaísmo), símbolos (templo, terra, torah e etnia) e práxis (obediência à torah, que envolvia de modo central mas não exclusivo a guarda do sábado, circuncisão, leis alimentares e banhos rituais, e estudo da torah, cultos e festas sagradas). Existiam, é claro, exceções para estes elementos delimitadores e centrais e também existiam discussões a respeito de como definir e compreender cada um destes pontos centrais, o que contribuia para a grande variedade do judaísmo.[11][12][13]
Além das doutrinas e práticas comumente aceitas, existia aquilo que Cohick considera crenças e práticas contestadas. Entre as doutrinas, estavam os temas do reino de Deus, messias, assuntos escatológicos, a existência de anjos e seres espirituais, vida após a morte e a relação com o domínio romano. No que diz respeito às práticas, eram controversas as definições sobre trabalho no sábado, o jejum, calendários e algumas práticas ligadas a pureza ritual, principalmente a lavagem de mãos. Goodman esclarece que “Essas preocupações eram amplamente compartilhadas e constituíam os principais tópicos para a inovação e discussão ao longo de todo o espectro do judaísmo do período tardio do Segundo Templo.”[14][15]
Tal variedade é percebida até mesmo no novo testamento. Observamos nos evangelhos diversos grupos que parecem estar unidos unicamente por causa de um inimigo em comum, neste caso Jesus e seu movimento. Os fariseus, saduceus, escribas, sacerdotes e herodianos são grupos sociais ou movimentos religiosos, e possivelmente políticos, evidentes no texto. Além disso, por meio de outros textos da época, conhecemos a existência de outros grupos como essenios, terapeutas, sábios/rabinos e a comunidade de Qumran. Havia também aquilo que podemos chamar de tendências/espectros sociais ou teológicas, que tem menos a ver com uma associação mais formal/fixa e mais com um tipo de mentalidade ou comportamento específico em adesão ou oposição a algo. Dentro disso, podemos perceber judeus exorcistas, revolucionários, pretendentes a messias, profetas populares, apocalípticos, bandidos sociais, zelotes, sicários, nazireus e publicanos. No meio disto tudo, como nos lembra N.T.Wright estava o judeu comum. Mas, o que fazia com que o judaísmo estivesse tão variegado? [16]
Olhando para a longa, rica e complexa história judaica durante o período do segundo templo (518 a.c - 70 d.c) podemos entender, em parte, o que levou o judaísmo a uma grande variedade. A dispersão judaica, durante e após o exílio babilônico no século 6 a.c, levou muitos a viverem no norte da África, com concentração no Egito e outras partes do mundo. Isto fez com que os judeus desenvolvessem formas de culto antes não conhecidas, como as sinagogas, fossem influenciados e desafiados por outras formas de pensamento, filosofias e religiões, além de que “a Bíblia continha uma coleção tão rica de ideias que as decisões relacionadas ao que enfatizar diferiam na Antiguidade assim como diferem hoje.”. No ambiente de diáspora inicial sob os persas, a língua hebraica foi perdendo espaço no dia a dia e sendo substituída pelo aramaico, que veio a se tornar a língua internacional padrão. Isto levou ao surgimento da tradição dos targumim, que eram paráfrases e explicações aramaicas do texto bíblico hebraico sagrado lido nas reuniões nas sinagogas.[17]
Além disso, outras mudanças vieram com a ascensão de Alexandre, o grande, no século 4 a.c., expandindo a cultura helênica para o mundo conhecido, a mesclando com as culturas locais, inclusive com elementos judaicos, e fazendo com que o judaísmo sofresse impactos e alterações. O mais perceptível seria o da língua, pois o mundo passou a falar grego, principalmente os judeus moradores do Egito levando a necessidade de produção da primeira tradução da bíblia hebraica para outra língua, neste caso o grego. A Septuaginta nasceu deste esforço e influenciou grandemente o judaísmo. O novo mundo helenizado não tinha a ver apenas com o idioma falado, mas abarcava a vida em muitos outros pontos, como a pressão para sincretismos pagãos, a custo de marginalização social, mas não risco físico inicialmente. Esta realidade foi vista com maus olhos por muitos judeus que se mantiveram firmes em sua fé e tradições, mas foi moderada ou intensamente abraçada por muitos outros, que relativizavam pontos que eram vistos como essenciais da fé judaica, como a circuncisão, guarda do sábado, as leis alimentares, entre outros.[18]
Depois desse período, a tensão que a região de Judá experimentou ao ficar na disputa entre ptolomeus e selêucidas e após isso as pressões com Antíoco 4 levaram a revoltas judaicas, lideradas pelos Macabeus e a rachas significativas entre os judeus. O racha já existia entre os que aceitavam a helenização de forma mais ampla e os que resistiam, chamados posteriormente de hassideus (heb. piedosos), porém se tornou mais enfática quando, após a revolta macabéia, esta família usurpou o comando sacerdotal do templo e o controle político de Jerusalém, unindo os cargos religiosos e políticos em uma só pessoa. Tal atitude foi interpretada como ilegítima e corrupta, sem contar vários crimes e pecados associados a esta nova dinastia (suborno, assassinatos, traição). Acredita-se, a partir de Josefo, do livro de Macabeus e inferências nos manuscritos do deserto da Judeia, que aqui tem-se a origem dos fariseus, essênios, quramitas e saduceus. Este tempo experimentou o nascimento ou desenvolvimento de muitas ideias teológicas, visões hermenêuticas e práticas litúrgicas[19]
Nesta breve revisão histórica, que demonstra os contextos e contornos da variedade judaica, não poderia faltar os últimos grandes inimigos dos judeus, os romanos. Estes, inicialmente ajudaram a dinastia hasmoneia contra os seleûcidas, mas posteriormente dominaram as regiões de Judá e Galileia, colocando um idumeu para governar a região, o famoso Herodes, o grande. Este domínio romano não foi mais pacífico que os domínios anteriores, e muitas revoltas estão catalogadas neste período. É aqui que nascem os bandidos sociais, os candidatos a Messias, os profetas populares e grupos revolucionários, dentre os quais os mais famosos eram chamados de zelotes e sicários. O período de dominação romana também viu o nascimento dos publicanos, que trabalhavam para os romanos cobrando impostos.[20]
Um último comentário se faz necessário a respeito da intensa produção literária do judaísmo nesse período. Alguns estudiosos mais radicais chegam a imaginar que todo, ou boa parte, dos textos bíblicos surgiram ou tiveram a maior parte de sua composição durante o segundo templo. Apesar de não considerarmos essa visão plenamente convincente, é possível que vários textos tenham recebido a sua edição e organização final nestes séculos, mas para além disso, sabemos que os textos judaicos chamados de apócrifos ou pseudepígrafos, e muitos outros textos judaicos, tem aqui a sua composição. Isto indica que as classes de escribas estavam em intensa atividade literária e teológica. Os turbilhões da dominação persa, do avanço do helenismo, da revolução Macabeia e ascensão hasmoneia são fatores políticos e sociais por trás dessa realidade. Ao falar disso, estamos ampliando o escopo para o judaísmo desenvolvido na diáspora e não apenas na região da Judeia.[21]
Portanto, diversidade em vários sentidos e níveis, reações distintas a dominação estrangeira direta e influência cultural, e intensa produção literária marcam o judaísmo do segundo templo, o ambiente no qual nasceu Jesus e seu movimento. E embora tenhamos mencionado diversos movimentos/escolas filosóficas ou de pensamento é importante frisar que “apenas uma minoria adotava uma filosofia específica. Para aqueles que o faziam, parece ter sido uma questão de escolha pessoal.”, de maneira que concordamos com Wright de que: [22]
A maioria dos judeus na Palestina durante o período romano seguia mais ou menos suas leis bíblicas, orava à sua divindade ancestral e regulava suas vidas de modo a enfatizar as festas e os jejuns regulares do calendário. Provavelmente não eram teólogos profundamente reflexivos (mesmo Josefo, que havia estudado bastante, claramente não o era), mas seu mundo simbólico e sua práxis regular nos dão uma visão de primeira linha da teologia à qual, embora de forma inarticulada, eles se entregavam.[23]
3. Jesus, um judeu
Jesus foi um judeu. Ele nasceu numa família judaica, a quem os evangelhos atribuíram ascendência davídica (Mt 1:1-17; Lc 3:23-38), foi circuncidado (Lc 2:21) e apresentado no templo, com seus pais obedecendo a lei de levítico (Lc 2:22-24). Sabemos que sua família visitava Jerusalém na páscoa (Lc 2:41), onde vemos Jesus possivelmente no período de um ritual de passagem para a vida adulto análogo ao bar mitzvah e dialogando com mestres da época. Ele cresceu na região norte da Galiléia (Mt 2:22-23), trabalhando como construtor (Mc 6:3), uma profissão recebida de seu pai, frequentava as sinagogas (Mc 1:21), lia os rolos das escrituras (Lc 4:16-17), convidou discípulos a segui-lo, era chamado de mestre (rabino), sendo sustentado por doações (Lc 8:1-3), tinha práticas de oração (Lc 5:16), de jejum (Mt 4:2; Lc 4:2) e frequentava o templo (Jo 7:28) e as festas judaicas regulares (Jo 5:1; Festa dos tabernáculos/cabanas em Jo 7:2; Festa da dedicação/Chanucá em Jo 10:22; festa da páscoa em Jo 2:23, 12:1). Ele contava parábolas (Mc 4:33) , tinha a bíblia hebraica como escritura sagrada (Lc 24:27), era monoteista(Mc 12:29), acreditava na ressurreição futura (Mc 12:24-27) e em várias doutrinas escatológicas como um juízo final, uma futura restauração e usava linguagem apocalíptica (Mt 24,25). Obviamente, tudo isto está de acordo com o cristianismo tradicional, visto que Jesus atribui a si mesmo um papel vital nesses eventos escatológicos e viveu como ser humano perfeito. Ele deu início a um movimento messianico não revolucionário, que continuou depois de sua morte. Parentes da família judaica de Jesus desempenharam importantes papéis de liderança nas comunidades cristãs do século 1 na Palestina e Síria [24][25][26]
A região na qual Jesus viveu tem sido identificada pelos estudiosos como Palestina, o que incluiria a Galileia e a Judéia. Esta era uma sociedade agrária, na qual a maior parte das pessoas “residia em aldeias rurais e pequenas cidades, em vez de em cidades maiores como Tiberíades e Jerusalém. As sociedades agrárias geram diversos modelos socioeconômicos de poder e privilégio, mas todos enfatizam a estratificação entre diferentes níveis”. Esta sociedade, de acordo com Strange, era organizada socialmente pela ordem de nascimento e riquezas. No topo da sociedade estavam as elites que incluíam o governante, suas famílias e aliados (e.g Herodes e seus servos), seguidos dos proprietários de terra (kyrios , Mt 25:14-30), grandes importadores/exportadores ou comerciantes (emporos, Mt 13:45-46), chefes dos publicanos (architelō nēs, Lc 19 :1-10) e o juiz (kritēs, Mt 5:25). No estrato médio social e econômico estariam o escriba profissional (grammateus, Mt 2:4), o professor (didaskalos, Mt 8:19), o advogado (nomikos, Mt 22:34-40), o trabalhador manual como pedreiro, carpinteiro (tektōn, Mt 13:55), comerciantes, agricultor familiar, o banqueiro (trapezitēs, Mt 25:27), o pescador (halieus, Mt 4:18-22), o cobrador de impostos (telōnēs, Lc 18 :9-14), o administrador de uma casa ou mordomo (oikonomos, Lc 12:42-46; 16:1-8) e o ferreiro. A estes, pode-se acrescentar, de outras fontes, o trabalhador em couro, o soldado, o curandeiro, o exorcista, o médico, o herbalista, e os atores e artistas. Na base da estrutura social estaria o trabalhador diarista (misthios, “assalariado” ou “trabalhador contratado”, Lc 15:11-32), trabalhador agrícola, ceifeiro (theristēs, Mt 13:24-30), guarda de uma prisão (hyperetēs, Mt 5:25), pastor de ovelhas e cabras (poimēn, Mt 9:36), o escravo (doulos , por exemplo, Mt 13:24-30), mendigo (prosaitēs, Jo 9:8), ladrão (kleptēs, Jo 12:6), o doente (lepros, leproso), o pobre (ptōchos , desempregado Lc 14:16-24; Mt 22:1-14), a prostituta (pornē , Mt 21:31-32) e o rebelde ou bandido (lēstēs , Mt 27:38). [27][28]
Bird e Wright nos dizem “Jesus era um artesão (tektōn) que vivia na aldeia rural de Nazaré. Ele parece ter se identificado amplamente com a classe camponesa, frequentemente ensinando sobre a importância da generosidade para com os pobres; ele alertou severamente sobre os perigos da riqueza”. Toda esta discussão é relevante e atual, porque tem sido observado pelos estudiosos que a pesquisa pelo Jesus histórico não pode ser separada da pesquisa pela Galileia histórica, sobretudo nas condições econômicas provocadas pelas elites romanas, herodianas e civis que, ao oprimir as classes média e baixa, por meio da elevada tributação e exploração dos grandes proprietários de terra, os levaram a situações financeiras e sociais de vulnerabilidade.[29]
Retornando ao perfil judaico de Jesus, parte desse judaísmo de Jesus está presente em algo frequentemente ignorado nos estudos, o fato de que ele participou de debates com outros mestres e partidos judaicos, algo que o insere na dinâmica do ambiente judaico antigo. Nesta rivalidade, ficavam mais claras as posições, crenças, valores e a visão de mundo, de Jesus e de seus debatedores, nos aspectos em que discordavam e concordavam, quando se aproximavam e se distanciavam naquilo em que pensavam e priorizavam. A partir de agora voltaremos nosso olhar para esta questão no tocante ao partido dos fariseus.
4. Os fariseus
Os fariseus são o grupo judaico mais famoso do tempo de Jesus. Antes de entrarmos em mais detalhes, é válido pontuarmos que as principais fontes sobre os fariseus do período do segundo templo ou próximas disso são os escritos de Josefo, o Novo Testamento, os manuscritos do deserto da Judeia e a literatura rabiníca. Algo que agrava e dificulta o nosso conhecimento histórico é a ausência de textos escritos diretamente pelos fariseus, apesar de alguns tentarem associar os Salmos de Salomão, encontrados em Qumran, aos fariseus por conta do conteúdo anti-hasmoneu. Vasile Babota nos oferece um importante estudo metodológico quanto às fontes que podemos usar para conhecer ou reconstruir a identidade e história farisaica.[30][31]
Flávio Josefo foi um aristocrata e sacerdote judeu que lutou contra os romanos na primeira revolta judaica, do ano 70 d.c. Ele escreveu quatro obras, nas quais atua como historiador e intérprete da Bíblia, a obra Guerra Judaica, Antiguidades dos Judeus, Vida e Contra Ápio. Na sua autobiografia Vida, ele escreve ter tido envolvimento com “as três seitas” do judaísmo, os fariseus, essênios e saduceus ( 2 §§10-11), o que, se for verdadeiro, nos dá acesso ao relato de alguém que afirmou ter sido um fariseu, o que aumenta sua importância. Josefo descreve as tensões dos fariseus com a dinastia hasmoneia, em especial com João Hircano e Alexandre Janeu, e o apoio em relação a Alexandra Salomé (Guerra 1.5.2 §§110-14. Antiguidades 13.372–373) Esse cenário parece apontar para um possível envolvimento com questões políticas, ao menos na era macabeia, e mostra a oposição religiosa, social e política em relação aos saduceus. Também aprendemos que os fariseus eram influentes sobre as massas, agiam como intérpretes da Lei, o que motiva muitos estudiosos a os conectarem com os escribas, alegavam ser seguidores da tradição oral dos anciãos e poderiam ter tendências revolucionárias ou violentas, as quais Josefo relata em alguns episódios de conflitos com hasmoneus e Herodes, o grande. Eles também são conhecidos por crerem na ressurreição dos justos, castigo para os ímpios, nos anjos e na responsabilidade humana diante de Deus, e “que tanto aspectos divinos quanto humanos individuais estavam envolvidos nas ações humanas, de modo que as pessoas tinham certa responsabilidade pelo que faziam.” Wright, de forma perspicaz, sugere que essas crenças estão profundamente conectadas com uma inclinação revolucionária e que isso os fazia agradáveis às massas que eram oprimidas por Roma. Também parece estar em jogo questões sobre como o reino de Deus se estabeleceria no mundo e como os judeus deveriam contribuir para isso, ao rejeitar o domínio romano e viver de forma pura. [32][33][34][35]
Além de Josefo, o novo testamento nos informa sobre os fariseus. Encontramos nos relatos dos evangelhos os fariseus como personagens proeminentes em conversas com Jesus, em conspirações políticas e chegamos a conhecer alguns fariseus por nome. Observamos ali, um retrato que reforça elementos apresentados por Josefo, como de que seguem as tradições orais dos anciãos (Mt 7:3-4), estão preocupados em que a comunidade judaica viva em pureza, esperam pelo Messias e valorizam toda a bíblia hebraica, não apenas a Torah de Moisés. Já no livro de Atos dos Apóstolos a característica mais reforçada é a crença farisaica na ressurreição e nos anjos (At 23:8), além de conhecermos Saulo/Paulo, um fariseu que em seu zelo perseguia os seguidores de Jesus, pelo que ele provavelmente considerava um tipo de devoção herética e apóstata, sendo apoiado pelos sacerdotes de Jerusalém, e se torna seguidor de Jesus (At 9). Também conhecemos Gamaliel, mestre fariseu de Paulo, e descobrimos mais sobre a participação farisaica no sinédrio com os saduceus (Atos 5), além de conflitos com este grupo, à semelhança do relato de Josefo. Outra contribuição do Novo Testamento vem das cartas de Paulo nas quais ele fala de si como hebreu da linha farisaica (e.g Filipenses 3).
Duas outras fontes literárias relevantes acerca dos fariseus são a literatura rabinica e os manuscritos do deserto da Judeia, também conhecidos como manuscritos do mar morto. Como diz Wright “A literatura rabínica é, naturalmente, uma mina de informações e um campo minado para os incautos.”, isso porque ela é um vasto corpo literário que foi escrito, compilado, editado, expandido e transmitido em hebraico e aramaico de 200 d.c a 500 d.c na Galileia e na Babilônia, sendo por isso complexa e multifacetada. Sua importância é por constituir “a fonte mais gratificante de informações sobre a vida judaica no primeiro século d.C, especialmente na Judeia e, em menor extensão, na Galileia.” Esta literatura pode ser classificada em dois tipos de materiais, a Halaká, que tem um foco de discussão legal organizado em temas sobre pureza, festivais e está contida em duas obras, a Mishnah. A outra parte se chama Agadah e tem um foco em comentar as escrituras. Muitas vezes estes materiais (legais e não legais) estão entrelaçados e chegam a nós na forma de discussões entre pares de sábios. O grande desafio é datar quais materiais são úteis para uma análise sobre os fariseus, visto que o material foi compilado no século 3 d.c. Jacob Neusner fez um trabalho magistral acerca disso e reconhece que “As tradições rabínicas sobre os fariseus antes de 70 d.C. são aquelas composições da Mishná (c. 200) ou da Tosefta (c. 300) nas quais encontramos os nomes de sábios rabínicos que se presume terem vivido antes de 70 d.C., ou das Casas de Shamai e Hillel, dois desses mestres”. Este corpo de textos é basilar para o judaísmo rabínico que se desenvolve pós 70 d.c A discussão também passa pela relação dos rabinos da mishnah em relação aos fariseus pré 70 d.c. Por isso, segundo Cohick:[36][37][38][39]
Os compiladores da Mishná nunca se referem a si mesmos como pĕrûšîm; contudo, eles distinguem este último grupo dos saduceus (m. Yad. 4:6). O termo rabínico mais usado para descrever o que os estudiosos hoje identificam como fariseus é ḥăkāmîm (“Sábios”). A Mishná traça seus próprios pontos de vista sobre questões-chave de pureza, como o dízimo, as leis alimentares e o sábado, para esses Sábios. Outro termo frequentemente usado para defender a natureza separatista dos fariseus éḥăbērîm (“associados”), descrevendo aqueles que se reúnem em comunidades exclusivas conhecidas como ḥăbûrôt. Na Mishná este grupo mostra grande preocupação com a lavagem das mãos e o dízimo (m. Demai 2:2-3) em comparação com um grupo identificado comoʿam-hāʾāreṣ (lit., “povo da terra”), judeus indisciplinados que não seguem os códigos rabínicos para a pureza dos alimentos e do dízimo. Mas não está claro se os ḥăbērîm são sinônimos de Sábios, ou se dois grupos diferentes, mas relacionados, são identificados. Em algumas fontes rabínicas (m. Ḥag. 2:2; m. ʾAbot 1:1-18) há listas de autoridades, incluindo Gamaliel e Simeon ben Gamaliel. O primeiro é identificado como fariseu em Atos 5:34, e o último como tal em Josefo, Vita 190-192. Isto pode ser evidência de que os Sábios eram fariseus, ou que estes homens pertenciam a ambos os grupos, como aparentemente era na opinião de Josefo. [40]
Diante disso, a literatura rabinica pinta um quadro de fariseus em oposição aos saduceus, de preocupados com a correta interpretação da Lei conforme a tradição dos anciãos, faltando aqui os elementos sobre pureza importantes no Novo testamento e do papel político e potencialmente revolucionário de Josefo. Os rabinos não se viam diretamente como descendentes dos fariseus, mas havia certa compatibilidade e alguns sábios do passado são caracterizados como fariseus e a proximidade da parte do rabinismo se dá porque “tinham uma afinidade natural com a interpretação farisaica, já que assim como os fariseus, eles aceitavam a validade das tradições ancestrais.” [41]
A última fonte antiga que devemos investigar sobre os fariseus são os manuscritos de Qumran. Em nenhuma parte das centenas de manuscritos o nome fariseu aparece, o que tem levado os estudiosos a investigar se há referências a eles em outras ocorrências. De acordo com Babota, há duas expressões que têm sido identificadas como os fariseus “O primeiro é dorshe hahalaqot , traduzido como “os buscadores/ de/atrás de coisas suaves” ou “intérpretes de coisas suaves”. O segundo é “Efraim”, que ocorre várias vezes em conjunto com “Manassés” — frequentemente interpretado como um codinome para os saduceus’’. Além disso, a expressão ‘halaqot” tem sido vista como trocadilho a expressão legal “halakot’’, que descredibiliza oponentes da comunidade quramita, os quais poderiam ser fariseus. O Documento de Damasco (CD/ 4Q226) e os hinos de 1QHodayot mencionam estes “intérpretes de coisas suaves’’, termo que dá a ideia de que este grupo interpretava a Lei de modo flexível para agradar a população e que os quramitas seriam mais rígidos. Estes textos indicam que tal grupo era popular em sua época, enquanto o papiro 4Qpap pIsa c (4Q163) os localiza em Jerusalém. Já o Pesher 4QpNah/4Q169 parece usar codinomes para criticar quando Janeu, da dinastia hasmoneia, puniu os de Efraim (fariseus), evento retratado por Josefo em Ant. 13.380 // Guerra 1.97. Também é dito em 4QpNah 3–4 II, 8–10 sobre os “enganadores de Efraim, que enganam a muitos com seus falsos ensinamentos (betalmud šqarim), e sua língua mentirosa e seus lábios astutos; reis, príncipes, sacerdotes e o povo junto com o estrangeiro residente.”. Babota explica que essas referências mostram que estes de Efraim tinham influência sobre o povo, os sacerdotes e governantes. Vanderkam examina em detalhes diversas dessas ocorrências e outras mais, com possíveis referências a uma liderança farisaica, e o retrato concluído é de que:[42][43]
Os manuscritos não comprovam que os fariseus tinham uma tradição oral, mas os ridicularizam consistentemente por seu abuso da fala, por meio do qual enganavam os outros. Em resumo, podemos dizer que os Manuscritos do Mar Morto se referem aos fariseus e ao seu líder sob uma variedade de nomes abusivos, e refletem algumas das características dos fariseus conhecidos de outras fontes. [44]
Sobre questões ainda abertas e obscuras quanto aos fariseus, Mason nos diz que as origens históricas e significado do nome continuam a ser muito debatidos. Alguns traçaram a origem dos fariseus desde a época salomônica, outros do início do período exílico, talvez em Esdras, mas a maioria assume a ideia de que eles vêm da era hasmoneia. Quanto ao nome, apesar de geralmente ser tratado como significando “separados’’, outros entendem que poderia ter o sentido de especificadores, com a ideia professores/explicadores ou mesmo que fosse “separados’’ seria necessário entender se é separado de algo (podendo ter a ideia de distinção, pureza) ou separado para algo (para algum propósito) ou ainda separado por alguém (a ideia de chamado por Deus). Craig Morrison analisa como a literatura acadêmica, léxicos, enciclopédias e comentários bíblicos têm interpretado o nome e chega a conclusão de que o sentido de fariseu “é, na melhor das hipóteses, obscuro e que a glosa adequada para o aramaico parisha é simplesmente "fariseu", sem comentários adicionais. Embora o nome fariseu tivesse um significado lexical original, hoje esse significado se perdeu”. [45][46]
À luz do exame destas fontes compreendemos que os fariseus foram um grupo judaico religioso, político e social, com grande influência sobre o povo, alguma participação entre as elites, em alguns momentos tendenciosos à revolução anti-romana, que eram eram marcados por suas ênfases na guarda da tradição oral dos ancestrais, manutenção da pureza e expectativas escaológicas. Eles foram considerados em algum nível, os antecessores do judaísmo rabínico, mas não em sua totalidade. Diante desta breve investigação quanto aos fariseus, estamos aptos a examiná-los no contexto com Jesus.
5. Jesus e os fariseus em debate
Pensar sobre as relações entre Jesus e os fariseus significa adentrar num território cheio de desafios. Em consonância com o que abordamos no início do artigo, Jens Schroter diz que as “reconstruções do Jesus histórico e dos fariseus históricos representam desafios hermenêuticos e metodológicos, mas são ao mesmo tempo, esforços legítimos e necessários da pesquisa histórica”. [47]
Nossa proposta agora é observar como se dá essa interação nos evangelhos canônicos. Alguém pode questionar o porquê de restringir a pesquisa somente a 4 evangelhos. Nós sabemos da menção de fariseus em alguns evangelhos não canônicos como o evangelho de Tomé, o Apócrifo de João e no Oxyrhynchus Papyri 840, mas concordamos com Schroter de que tais referências são influenciadas pelos evangelhos canônicos, ou seja, pressupõe a sua existência e não refletem uma importância histórica tão relevante como o novo testamento. [48]
A respeito dos evangelhos canônicos concordamos com Bauckham de que eles são o produto, não de comunidades anônimas, mas de testemunhas oculares, incluindo o evangelho de Mateus (contra Bauckham neste caso) seguindo Jeannine Brown, que foram escritos para circular em várias comunidades ao redor do mundo e não para grupos específicos, que os evangelhos têm menos a ver com o ambiente histórico no qual foram produzidos e estão mais preocupados em relatar eventos do passado sobre a vida de Jesus. Em outras palavras, são evangelhos e não cartas, não devemos buscar ler nas entrelinhas para descobrir mais(não primariamente) sobre a situação histórica e social de seu(s) autor(es) ou editor(es). Isto é importante pois demarca que aquilo que é relatado sobre os fariseus e Jesus não reflete (ao menos não em primeira instância) tensões entre cristãos e judeus pós 70 d.c e portanto é confiável historicamente. [49][50][51]
Enquanto Josefo menciona os fariseus algumas vezes e quase sempre indiretamente, os manuscritos de Qumran os descrevem de forma obscura e os textos rabínicos soam um tanto ambíguos, os evangelhos os citam diretamente quase cem vezes. Em comparação, outros grupos judaicos como saduceus e escribas aparecem menos vezes e os essênios e a Yahad de Qumran nunca são citados. No geral, os fariseus aparecem como “oponentes de Jesus, como seus interlocutores ou como representantes dos judeus”. Tendo considerado brevemente estas questões podemos prosseguir para como os evangelhos apresentam Jesus em interação com os fariseus. [52]
6. Jesus e os fariseus em Mateus
O lugar de proeminência dos fariseus nos evangelhos é muito evidente e bem elaborado em Mateus. Eles aparecem com função ativa na Galileia e Jerusalém, exceto na última semana de Jesus. Mateus os associa atuando com os saduceus em diversas passagens. Em Mt 3:7 João Batista direciona seu discurso sobre a ira divina contra os dois grupos, o que já mostra uma distinção entre o povo que aceita a mensagem e a liderança judaica que a rejeita; em Mt 16:1, 6, 11-12, Jesus alerta os discípulos contra os ensinos deles. [53]
Já outras passagens indicam os fariseus junto dos escribas/mestres da lei (5:20, 12:38, 15:1, 23:2) e a relação destes dois grupos é intrigante de modo que a relação do material de Mateus com Marcos pode nos dar informações interessantes. Não poderemos entrar em detalhes nisto, mas Martin Pickup demonstra com maestria essas relações e percebe que Mateus tem a tendência de identificar como fariseus aqueles que em Marcos são escribas questionando Jesus sobre questões da lei.[54]
Os principais sacerdotes também aparecem atuando com os fariseus na cena do sepultamento de Jesus em Mt 27. Esta união lembra aquilo que Atos 5 fala sobre fariseus e os sacerdotes deliberando no sinédrio a respeito dos apóstolos, e reforça a ideia de força política farisaica. Para Cohick, o fato de os fariseus serem retratados muitas vezes em cooperação com outros movimentos demonstra “uma rede interligada de influência desses grupos, todos os quais não conseguem compreender a mensagem de Jesus”.[55]
Alguns encontros de Jesus com os fariseus são narrados em Mateus. Em 9:11-14 há uma tensão quanto a diferentes práticas de jejum e códigos de pureza alimentar, o que demarcava também com que tipo de pessoa se poderia assentar a mesa. Os fariseus evitavam fontes de impureza diretas como sangue, certas doenças, cadáveres e o que eles consideravam fontes indiretas, como gentios e pecadores (ladrões, prostitutas, cobradores de impostos), mas Jesus desafiava tal visão com uma espécie de pureza contagiosa. Por conta dessas práticas a acusação de que Jesus opera com poderes demoníacos surge em 9:24 e em 12:24.[56]
No encontro de Jesus e os fariseus em Mateus 12:2 a tensão é quanto a definição de descanso no sábado e as atividades de cura de Jesus neste dia, se seria lícito ou não e a resposta de Jesus é que é lícito fazer o bem no sábado. Uma tradição rabínica concorda com Jesus, inclusive usando linguagem semelhante, porém não sabemos até que ponto essa tradição era existente em seu tempo e Jesus a confirma ou ela foi influenciada por Jesus.[57][58]
Em Mateus 15:1-2 os fariseus apelam para as tradições orais de seus ancestrais em defesa da prática da lavagem de mãos antes de comer. Em oposição a esta postura hermenêutica, em diversas partes (em especial no sermão do monte) Jesus apela a sua própria autoridade como intérprete autorizado da Lei sem recorrer a outra fonte direta. Estes embates preparam o terreno para o duro discurso de Jesus no capítulo 23, mas não sem antes passar por mais dois conflitos.
Quando os fariseus, junto com os sacerdotes, em Mt 21:33-46, compreendem que as parábolas de Jesus são contra eles, por sua falha na liderança judaica eles planejam prendê-lo e quando decidem testar Jesus e comprometê-lo com suas respostas, eles vão junto com os herodianos questioná-lo quanto ao pagamento de impostos romanos (Mt 22:15), o que coloca em cheque em nós para nós o nível de envolvimento dos fariseus com apoiadores romanos na causa contra Jesus. Em Mateus 23 está o discurso mais duro de Jesus contra os fariseus (e também escribas), apesar de antes, ele já ter feito críticas, como no sermão do monte em Mt 5:20. Como Keener reconhece, “Os fariseus também enfatizavam a intenção correta do coração (kavana). Jesus critica não a doutrina deles, mas seu coração como grupo religioso”.[59]
Este discurso é o ápice da seção em que Jesus foi confrontado por diversos grupos em suas preocupações específicas. Ele inicia apresentando os fariseus lendo a Lei de Moisés sentados na cadeira de Moisés, possivelmente uma referência ao ensino em sinagogas, depois os elogia, encoraja os discípulos a ouvir as palavras farisaicas, reconhece que eles prestam atenção a pontos importantes da Lei como o dízimo e que estão devidamente preocupados em transmitir suas tradições a outros. Mas, como diz Cohick “essas notas positivas são abafadas pelas acusações estrondosas de hipocrisia e cegueira”. Ela oferece ainda uma análise perspicaz sobre o possível uso de Jesus do termo hipócrita, talvez baseado na Septuaginta de Jó e nos Salmos de Salomão. A crítica geral seria mais do que sobre uma pessoa que finge ser algo e envolve alguém que se desvia dos caminhos de Deus e oprime os pobres. [60]
Podemos concluir então que, em Mateus, os fariseus atuam tanto na Galileia quanto na Judeia, têm disputas com Jesus sobre temas relacionados a autoridade para interpretar a lei, em especial em questões de pureza, jejum e o sábado, e embora apareçam constantemente com outros grupos, são os principais rivais de Jesus.
Jesus e os fariseus em Marcos
O evangelho de Marcos cita os fariseus bem menos do que Mateus, pois aqui os escribas é que são os principais rivais de Jesus. Um estudo à parte seria necessário para compreender este fenômeno e deve ficar para outra ocasião, mas é válido saber que “ Marcos menciona os vinte e uma vezes: eles são mencionados ao lado dos fariseus (7:1, 5), dos principais sacerdotes (10:33; 11:18; 14:1; 15:31) e dos anciãos e principais sacerdotes (8:31; 11:27; 14:43, 53; 15:1).’’[61]
Voltando ao nosso presente foco, em Marcos nós “encontramos os fariseus discutindo com Jesus sobre jejum, divórcio, impostos, leis alimentares e práticas do Sabbath”, algo comum com Mateus. No entanto, dois pontos de interesse surgem no relato marcano sobre os fariseus. O primeiro diz respeito à íntima conexão identitária entre fariseus e mestres da lei conforme é dita em Marcos 2:16 “Alguns mestres da lei que eram fariseus”. Schnabel explica acerca disso que “Os fariseus são repetidamente descritos como pessoas que transmitem, preservam e desenvolvem a tradição da lei em sua forma escrita e oral. Alguns fariseus eram escribas formalmente treinados, o que explica sua presença nas sinagogas locais’’. Também chama atenção Marcos descrever os escribas/mestres da lei como vindo de Jerusalém, enquanto conecta os fariseus com a região da Galileia. Thellman compreende que os escribas de Jerusalém podem ser aqueles associados aos principais sacerdotes, diz que não é totalmente claro se Marcos vê os escribas de Jerusalém como farisaicos e assim, Marcos faz “uma diferenciação entre os escribas farisaicos e de Jerusalém, mas principalmente associa os escribas a Jerusalém e à morte de Jesus, juntamente com a sua falta de autoridade de ensino e, por vezes, uma interpretação escatológica errada das Escrituras”.[62][63][64]
O segundo ponto relevante na discussão sobre fariseus e Jesus em Marcos é a associação entre este grupo e Herodes, em Marcos 8:15, onde Jesus alerta contra o fermento(ensino) dos fariseus e de Herodes. Dois elementos tornam as questões mais intrigantes ainda. O primeiro é que o texto paralelo de Mateus 16:6 fala sobre o “fermento dos fariseus e dos saduceus’’ e o segundo é que algumas variantes trazem sobre “o fermento dos herodianos” no lugar de Herodes. As questões que se levantam são se os saduceus eram equivalentes aos herodianos e qual a relação deste grupo com os fariseus. Cohick entende que mencionar esses grupos juntos fortalece a ideia de que os fariseus tinham participação e influência política, mas ainda permanece em aberto como seria esta atuação e traz sete possibilidades, que seriam:[65]
(1) revolta aberta e armada; (2) revolta esporádica, espontânea e armada; (3) dar encorajamento verbal àqueles que pegaram em armas; (4) lutar por poder político direto dentro das cortes hasmoneu e herodiana ou com o governo romano; (5) lutar para influenciar líderes políticos como Herodes, o Grande; (6) ocupar cargos oficiais dentro do conselho judaico/Sinédrio; (7) influenciar o diálogo sobre o domínio romano sobre a Judeia e a Galileia. [66]
Quanto à proximidade de saduceus e herodianos, o problema é que os primeiros haviam sido apoiadores dos hasmoneus, os quais foram desbancados por Herodes. No entanto, Hoehner acredita que tais tensões podem ter sido desfeitas quando Herodes se casa com Herodias, da dinastia hasmoneia, o que faria com que herodianos e saduceus estivessem do mesmo lado teológica e politicamente, em oposição aos fariseus que eram anti-hasmoneus, anti- herodianos e anti-romanos. Os primeiros desejavam manter o domínio enquanto os últimos almejavam um reino divino que removeria os romanos, mas ambos “se uniram para se opor a Jesus, pois ele estava introduzindo um novo reino que nenhum dos dois desejava”.[67]
7. Jesus e os fariseus em Lucas
O papel dos fariseus em Lucas encontra certa continuidade em relação aos demais evangelhos sinóticos, porém sob uma luz diferente. Os fariseus aparecem às vezes com os mestres da lei (5:17-26; 7:30, 33; 14:1-3), mas nunca com os saduceus. Três elementos distinguem a relação de Jesus com os fariseus no tocante a Marcos e Mateus; em Lucas, Jesus participa de banquetes ao ser convidados por fariseus (7:36-50; 11:37-39; 14:1-6), conhecemos alguns indivíduos fariseus e às vezes eles são vistos positivamente. [68]
Nos banquetes, Jesus é convidado por um fariseu para a sua casa. Keener explica que “Considerava-se uma ação honrada convidar um mestre para jantar, especialmente se fosse de fora da cidade ou houvesse acabado de ensinar na sinagoga”. Apesar disso, a conversa de Jesus conduz a repreensões aos fariseus. Na primeira cena tem a ver com a interação de Jesus e uma mulher pecadora, a quem ele aceita o toque de honra e para quem declara perdão de pecados; a segunda cena de banquete inclui severas críticas de Jesus, as quais Bock sintetiza: “O relato resume as falhas da liderança religiosa. Jesus castiga os líderes por serem hipócritas, ignorarem a justiça de Deus, sobrecarregarem o povo com exigências que eles próprios não cumprem, seguirem seus ancestrais assassinos e bloquearem a entrada para o céu” (1105). Na terceira cena, à semelhança de outros conflitos sinóticos, o tema é sobre a cura no sábado ser lícita ou não. Apesar destes conflitos, há atitudes positivas dos fariseus em relação a Jesus, pois alertam Jesus contra os planos de Herodes de matá-lo em Lucas 13:31. [69][70]
A prática de Lucas de nos apresentar a alguns fariseus individualmente sugere que “Enquanto os fariseus funcionam como uma massa mais ou menos indiferenciada, como personagens "planos", em Marcos e Mateus, Lucas faz diferença entre alguns fariseus e outros fariseus” e deste modo notamos que há exceções entre os fariseus, algo que será melhor explorado por Lucas em Atos dos Apóstolos com a postura branda de Gamaliel (At5), a conversão de Paulo a Jesus (At 9) e a aceitação do evangelho por muitos fariseus (At 15). Lucas até mesmo suaviza a oposição farisaica e em alguns momentos “consegue diferenciar que apenas alguns fariseus estavam envolvidos em certos conflitos (6:2).” No lugar de desejar "matar" Jesus (Mc 3:6), o paralelo de Lucas diz que eles apenas buscavam "o que fazer" (6:11)” [71][72]
Mesmo assim, conforme a trama avança, os fariseus vão se tornando oponentes de Jesus, criticando suas atitudes de jejum, guarda do sábado e comunhão com pecadores (Lucas 5:17, 6:2, 7:39, 15:2). Mesmo que inicialmente os fariseus estejam junto com multidão glorificando a Deus pelos milagres de Jesus (Lc 5:21-26), depois eles aparecem como aqueles que, ao contrário do povo e dos cobradores de impostos, se recusam a ser batizados e rejeitam o propósito de Deus para eles (7:30). Mason consegue resumir bem o perfil e papel dos fariseus em Lucas em relação a Jesus:
O retrato dos fariseus por Lucas lembra retratos dos sofistas em textos helenísticos. Eles são os respeitados professores das pessoas comuns que saem para examinar as atividades de Jesus (Lc 5:17). Jesus é muito mais estridente em sua crítica a eles pelas falhas típicas dos sofistas — supostamente por serem ávidos por dinheiro, complacentes e ineficazes em trazer mudanças reais (Lc 11:39-44; 12:1; 16:14-15; 18:9-14). Os fariseus de Lucas permanecem fora de Jerusalém e, portanto, são nitidamente distinguidos das autoridades do templo relacionadas aos saduceus, que imediatamente planejam matar Jesus em sua chegada (Lc 20:47). [73]
8. Jesus e os fariseus em João
Qualquer pessoa que tenha lido o evangelho de João percebe que ele é diferente dos outros três em estilo literário, vocabulário e foco teológico, geográfico e histórico. Obviamente isso não significa que ele seja inteiramente distinto, pois há muitas semelhanças e episódios correlatos. Por conta destes elementos de diferença e outros como uma maior distância temporal em relação aos eventos narrados, o quarto evangelho tem sido deixado de lado na pesquisa histórica sobre Jesus e seu mundo. No que diz respeito aos embates com os fariseus, muitos estudiosos acreditam que João está descrevendo mais o seu próprio cenário histórico, do movimento dos seguidores de Jesus em tensão com o judaísmo rabínico nascente do final do século 1 d.c, do que eventos da vida de Jesus. Yinger é exemplo disso, ao asseverar que “devemos ser mais cautelosos ao simplesmente adotar a perspectiva de João ao descrever os fariseus históricos”. [74]
Todavia, discordamos dessa posição e mantemos a perspectiva de que João está preocupado em descrever eventos do passado e que as diferenças entre João e os outros, sobretudo em questões históricas e narrativas, são bem explicadas caso João e seus leitores já conhecessem os evangelhos sinóticos ou suas tradições, como aponta Blomberg. De forma convincente, Carson afirma que é impressionante “os muitos lugares onde João e os Sinóticos representam uma tradição interligada, isto é, onde se reforçam ou se explicam mutuamente, sem trair dependência literária evidente’’ Também é oportuno mencionar que recentemente diversos acadêmicos têm apontado que este evangelho não pode mais ser ignorado nas discussões históricas sobre Jesus. [75][76][77]
Os fariseus aparecem no quarto evangelho em menos passagens do que nos sinóticos. Na maior parte das vezes eles estão em oposição a Jesus e sua mensagem, atuam em parceria com os principais sacerdotes, enquanto os saduceus e escribas nunca são mencionados diretamente, mas é possível que alguns sacerdotes fossem saduceus. [78][79]
Uma característica chamativa de João é seu uso expressivo do termo “os judeus”. Por exemplo, em João 9:22 é afirmado que os judeus expulsariam da sinagoga quem reconhecesse Jesus como Messias. Carson nota que esta expressão, usada cerca de 70 vezes, pode variar dependendo do contexto, pois “às vezes, a expressão é bastante neutra, explicando um ritual para leitores distantes da Palestina (2:6)”, já em outros momentos, como em 7:1, “a expressão assume um tom de coloração geográfica: o povo da Judeia. Mais comumente, refere-se aos líderes judeus, especialmente os de Jerusalém e da Judéia (1:19), e geralmente são retratados como aqueles que se opõem ativamente a Jesus, não o compreendem e que, por fim, buscam sua morte’’. Este último caso aponta para uma influência religiosa, política e social farisaica sobre a Judeia, sobretudo quando “judeus” e “fariseus” aparecem como sinônimos como em João 1 e 9. Os fariseus também são associados com “governantes” ou “líderes” (Jo 3:1; 7:48) o que reforça o quadro de que “os fariseus eram um grupo identificado, talvez uma hairesis, como Josefo os chama (Ant. 13.171), que colabora com outros líderes judeus.”[80][81]
Segundo, as semelhanças descritivas com os sinóticos estão nas críticas à cura no sábado (Jo 5:10), fariseus como mestres influentes, alguns crendo em Jesus (Jo 3), apesar de outros crerem mas temerem as consequências (Jo 12:42) e a ausência durante a prisão e julgamento de Jesus. É sensato concluir, que os indícios textuais levam-nos a compreender estes judeus como “aqueles líderes centrados em Jerusalém que falam com autoridade sobre questões jurídicas judaicas. Esses líderes teriam incluído fariseus em seu número, mas não devemos presumir que todos os líderes judeus seguiam os ensinamentos farisaicos”. Essa influência também é vista quando os fariseus enviaram, junto com os sacerdotes, alguns guardas do templo (levitas) para prender Jesus enquanto ensinava no templo (Jo 7:32)[82][83]
Evidência dessa influência regional é que em João 4:1 Jesus decide sair da Judeia e ir para a Galileia por conta dos fariseus. Este foco na região de Jerusalém como o local da presença farisaica e sua representação como um partido político influente combinam com o relato de Josefo do programa político farisaico, principalmente durante a dinastia dos Hasmoneus. Observamos, em João 1:19, que os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para questionar João Batista, e é plausível que estes judeus fossem os líderes do Sinédrio, instituição controlada pela família do sumo sacerdote, que estariam interessados nas questões de purificação ritual, o que de alguma forma João estava promovendo com seu batismo.[84]
Em João 3 encontramos o famoso fariseu Nicodemos, que está interessado em Jesus. Ele faz sua visita a noite, alguns entendendo ser uma reminiscência de memória histórica, outros comparam com o fato de rabinos estudarem e debaterem a noite, outros vêem aqui uma forma de não ser visto em público com Jesus, mas a chave talvez esteja no uso de João com o termo/motivo “noite” ((3:2; 9:4; 11:10; 13:30) apontando para escuridão moral, espiritual e de ignorância, o que se encaixa com Nicodemos. Este homem é aquilo que Attridge chama de um fariseu especial. Ele surge em outros dois momentos neste evangelho, uma segunda vez em Jo 7:50-52 ao defender Jesus perante os fariseus e em Jo 19:38-42, acompanhando José de Arimateia. Esta dupla de ricos e influentes providência que o corpo morto de Jesus tenha um sepultamento digno.[85]
Outros dois detalhes acerca dos fariseus em João valem a pena ser comentados. O primeiro tem a ver com a participação de Nicodemos defendendo Jesus, na cena já citada de João 7:45-53, após os levitas voltarem admirando as palavras de Jesus e sem tê-lo prendido. Os fariseus e líderes ficam irados por causa da “ralé” (NVI) ou ‘povo da terra’’ que está crendo em Jesus. Keener explica:
Os rabinos instruídos costumavam desprezar o ‘am hã’ãrets, isto é, “o povo terra”, as pessoas comuns que nem sequer buscavam seguir as interpretações rabínicas da Lei. Muitos textos indicam a animosidade entre os rabinos fariseus e ‘am hã’ãrets (p. ex., Akiba afirmou que, antes de se tornar rabino, fazia parte do ‘am hã’ãrets e tinha vontade de espancar os mestres).[86]
Nicodemos, então, argumenta que Jesus não deveria ser condenado sem primeiro ser ouvido, uma questão que encontra certo respaldo processual em regras rabínicas e no direito romano. A resposta farisaica, de que o problema é Jesus ser galileu, é completamente hostil e demonstra preconceito regional ao invés de conhecimento bíblico. Koester capta bem o significado da cena:[87][88]
Nicodemos expõe a verdade sobre os outros fariseus em dois níveis. Primeiro, eles alegam que aqueles que ouvem Jesus são ignorantes da lei, mas, ao desconsiderar o devido processo legal em sua condenação de Jesus, demonstram sua própria ignorância da lei. Segundo, Nicodemos mostra que os fariseus, que não ouviram Jesus primeiro, não podem alegar "saber" o que ele está fazendo (7.51). Quando Nicodemos foi até Jesus anteriormente (pro/teron, 7.50), Jesus lhe mostrou o quão pouco ele poderia alegar "saber" (3.10). Neste episódio, Nicodemos é quem expõe a falta de conhecimento entre seus pares.[89]
Attridge contribui com um entendimento profundo sobre o papel de Nicodemos como um todo em João:
Para João, assim como para Atos, ser fariseu e líder judeu não é incompatível com a simpatia por Jesus e sua mensagem. No contexto da retórica do Evangelho, os episódios de Nicodemos funcionam como um contraponto crítico ao tema dominante da hostilidade dos "judeus" e dos fariseus a Jesus. A história ressalta que alguns líderes dos judeus, alguns fariseus, simpatizaram com Jesus o suficiente para defendê-lo e participar generosamente de seu sepultamento. A mensagem para os leitores: estejam abertos a eles; ajudem-nos a chegar à plena fé e ao renascimento.[90]
O segundo detalhe é que em João há apenas um debate haláquico (sobre questões legais), que é sobre a validade da cura no sábado em João 5. A resposta de Jesus é que tendo a mesma autoridade que o Pai, Ele pode fazer estas obras; uma outra resposta sua está em João 7:19-24 apelando para prioridades na Lei mosaica, Estas duas respostas encontram eco em respostas em passagens nos sinóticos (Mt 12:1-8; Mc 2:23-28). Em João 9 a cura também é no sábado, mas o debate gira em torno da identidade de Jesus.[91]
Conclui-se então que em João, os fariseus são uma oposição desde o início a Jesus, atuam quase sempre com outras forças religiosas, têm um papel proeminente e de liderança na Judeia mas com alguma autoridade na Galileia também e são cheios de soberba por seu conhecimento da Lei de Moisés e dos anciãos. Este evangelho não foca nas suas crenças e debates (talvez pressupondo que os leitores já saibam disso a partir dos demais evangelhos e podendo focar em outros aspectos) e somos apresentados a um mestre fariseu curioso por Jesus e que ao final se torna um seguidor público, um exemplo do verdadeiro testemunho.
9. Considerações finais
Os fariseus podiam ser muito diversos entre si. Certamente eles não eram um grupo fechado e monolítico, mas aberto a debates. Se as memórias rabínicas estiverem corretas, havia discordâncias e até mesmo tipos de fariseus distintos. Eles também estavam espalhados para além da Judeia, o que aumentaria a sua diversidade. Níveis diferentes de tolerância a Jesus são percebidos neles, desde ferrenhos opositores que queriam matá-lo, até aqueles que ouviam Jesus em jantares no seu lar, o procuravam para conversar ou aceitavam sua mensagem. A reflexão em torno deste assunto ainda tem muito a recompensar àqueles que se debruçam sobre estes personagens e histórias antigas. Esperamos com este estudo estimular a reflexão, interesse e pesquisa sobre Jesus em seu contexto.
1. Introdução
Por muito tempo, a figura de Jesus, em ambientes religiosos ou de estudo acadêmico, foi desconectada do seu ambiente judaico. Desde metade do século 20, por meio de figuras como Martin Hengel, Joachim Jeremias, Geza Vermes, E.P.Sanders, N.T.Wright e tantos outros essa realidade tem mudado, ainda que haja muito a ser conhecido, explorado, refletido e dialogado. As principais literaturas atuais sobre isso são tão vastas que seria virtualmente impossível listá-las aqui, mas isto não é necessário. O que nos importa saber é que esta postura de reconexão entre a figura de Jesus e o judaísmo do seu tempo é parte de um esforço mais amplo, não estando limitada apenas a Jesus, mas alcançando também os estudos relativos a outros personagens como Paulo, Pedro, Tiago e literaturas como Apocalipse, Atos e o novo testamento de forma geral. [2][3][4][5][6][7][8]
Como é de se esperar em qualquer campo acadêmico as teorias e conclusões são diversas por muitos motivos. Uma das razões mais óbvias tem a ver com os diferentes pressupostos filosóficos, teológicos, sociais e políticos e pontos de partida de cada estudioso. Outra é sobre as divergências no que diz respeito às metodologias distintas. Um outro motivo adicional é ocasionado pela natureza das fontes, o que representa desafios em relação à consideração de quais materiais/documentos podem ser usados, da extensão das fontes e de quais devem ter prioridade sobre outras.
No entanto, uma questão relevante que pode vir à nossa mente é: o que fez com que muitos estudiosos, de diferentes tradições e escolas, se voltassem para o ambiente judaico de Jesus? Essa é uma das características da chamada terceira busca do Jesus histórico e James K. Beilby e Paul Rhodes Eddy informam três fatores para esse atual interesse:
(1) A consciência da necessidade premente de abordar a tragédia da “arianização” alemã de Jesus durante a era nazi, (2) a crescente consciência das formas como “Jesus” e “Judaísmo” foram usados uns contra os outros ao longo dos últimos dois milénios - com este último a ser retratado como a religião hipócrita e legalista de obras mortas, da qual Jesus e a tradição cristã foram libertados pela mensagem estrangeira (ou seja, anti-judaica) de graça, fé e amor - e (3) um reconhecimento agora generalizado do simples fato histórico de que um Jesus separado do judaísmo palestino do primeiro século não pode ser o Jesus da história.[9]
Estes fatores se tornaram mais vividos após o fim da segunda guerra mundial, e poderíamos acrescentar ainda que descobertas arqueológicas e textuais importantes como dos manuscritos do deserto da judeia e da biblioteca de Nag Hammadi contribuíram para que uma visão renovada em torno do judaísmo antigo surgisse e naturalmente levasse a novos insights, e percepções a respeito do Novo Testamento, como a chamada Nova Perspectiva sobre Paulo.
Como mencionamos anteriormente, a pesquisa em torno da judaicidade de Jesus e seu contexto mais amplo pode seguir inúmeras direções. Poderíamos nos concentrar no ministério exorcista e milagreiro de Jesus no mundo judaico, ou como líder de um movimento potencialmente revolucionário (segundo as elites romanas e judaicas), na relação de Jesus com o templo ou as escrituras hebraicas. Ainda que nosso estudo em alguns momentos possa tangenciar estes pontos, vamos nos concentrar em compreender Jesus na sua interação com grupos judaicos de sua época, mais especificamente fariseus.
Nossas fontes para esta análise serão os evangelhos canônicos do Novo Testamento, pois são os registros mais antigos das memórias sobre Jesus de acordo com as testemunhas oculares a que temos acesso; a literatura judaica da época como Josefo, manuscritos do deserto da Judeia, pois nos informam sobre muito do ambiente judaico da Judéia e dos diversos grupos atuantes; e os escritos judaicos posteriores ao século 1 das fontes rabínicas, pois, ainda que elas nem sempre reflitam os tempos de Jesus, são um material válido e útil diante de todas as lacunas que temos.
A partir de tais fontes, buscaremos compreender um pouco de como Jesus interagiu com os fariseus da sua época e região e como isso pode nos informar mais sobre Jesus e seus debatedores.
2. O judaísmo do segundo templo
A bíblia hebraica encerra o seu arco narrativo descrevendo os dias da dominação Persa sobre Judá, momento este no qual lemos as histórias dos exilados retornando a Judeia com Zorobabel, os eventos com Esdras e Neemias. Ainda há uma literatura que descreve parte da vida dos judeus na diáspora persa em Susã, retratada no livro de Ester. Depois disso, as escrituras cristãs do Novo Testamento retomam a história cerca de 4 ou 5 séculos depois. A religião judaica que se desenvolveu neste período, tanto em Judá quanto ao redor do mundo, é o chamado judaísmo do segundo templo. Nos concentraremos neste artigo em suas formas que floresceram na região de Judá. A respeito da nomenclatura judaísmo, Vanderkam explica que:
O termo judaísmo , como designação para todo o fenômeno dos modos de vida e crença judaicos, é um termo grego (Ioudaismos) atestado pela primeira vez em 2 Macabeus 2:21; 14:38. Está relacionado ao nome da terra onde muitos judeus viviam — a terra de Judá ou Judeia — e parece ter sido cunhado como uma forma de contrastar o judaísmo tradicional com o helenismo. [10]
Uma característica marcante do judaísmo neste período, como também naquele depois do século 1a.c é a sua enorme variedade, porém não podemos nos esquecer do que, em linhas gerais, definia o judaísmo mesmo com uma enorme variedade, ou em outras palavras, o que fazia alguém ou algum grupo pertencer ainda ao judaísmo. Essa resposta é difícil, ainda mais que muitos daqueles que chamamos de judeus desse período teriam olhado para outros grupos como apóstatas. Concordamos com aqueles estudiosos que têm identificado o monoteísmo, a noção da eleição de Israel, a consideração pelas escrituras hebraicas como revelação de Deus, a valorização da terra como herança divina e o templo como os pontos centrais do judaísmo, pelo menos em termos gerais de crenças e instituições. Cohick acrescenta no tema das instituições a sinagoga também. Wright ao se esforçar por esboçar a cosmovisão judaica deste período apresenta esses elementos centrais sintetizados e divididos nas categorias de história (a história central do povo de Israel na bíblia e as histórias secundárias desenvolvidas no judaísmo), símbolos (templo, terra, torah e etnia) e práxis (obediência à torah, que envolvia de modo central mas não exclusivo a guarda do sábado, circuncisão, leis alimentares e banhos rituais, e estudo da torah, cultos e festas sagradas). Existiam, é claro, exceções para estes elementos delimitadores e centrais e também existiam discussões a respeito de como definir e compreender cada um destes pontos centrais, o que contribuia para a grande variedade do judaísmo.[11][12][13]
Além das doutrinas e práticas comumente aceitas, existia aquilo que Cohick considera crenças e práticas contestadas. Entre as doutrinas, estavam os temas do reino de Deus, messias, assuntos escatológicos, a existência de anjos e seres espirituais, vida após a morte e a relação com o domínio romano. No que diz respeito às práticas, eram controversas as definições sobre trabalho no sábado, o jejum, calendários e algumas práticas ligadas a pureza ritual, principalmente a lavagem de mãos. Goodman esclarece que “Essas preocupações eram amplamente compartilhadas e constituíam os principais tópicos para a inovação e discussão ao longo de todo o espectro do judaísmo do período tardio do Segundo Templo.”[14][15]
Tal variedade é percebida até mesmo no novo testamento. Observamos nos evangelhos diversos grupos que parecem estar unidos unicamente por causa de um inimigo em comum, neste caso Jesus e seu movimento. Os fariseus, saduceus, escribas, sacerdotes e herodianos são grupos sociais ou movimentos religiosos, e possivelmente políticos, evidentes no texto. Além disso, por meio de outros textos da época, conhecemos a existência de outros grupos como essenios, terapeutas, sábios/rabinos e a comunidade de Qumran. Havia também aquilo que podemos chamar de tendências/espectros sociais ou teológicas, que tem menos a ver com uma associação mais formal/fixa e mais com um tipo de mentalidade ou comportamento específico em adesão ou oposição a algo. Dentro disso, podemos perceber judeus exorcistas, revolucionários, pretendentes a messias, profetas populares, apocalípticos, bandidos sociais, zelotes, sicários, nazireus e publicanos. No meio disto tudo, como nos lembra N.T.Wright estava o judeu comum. Mas, o que fazia com que o judaísmo estivesse tão variegado? [16]
Olhando para a longa, rica e complexa história judaica durante o período do segundo templo (518 a.c - 70 d.c) podemos entender, em parte, o que levou o judaísmo a uma grande variedade. A dispersão judaica, durante e após o exílio babilônico no século 6 a.c, levou muitos a viverem no norte da África, com concentração no Egito e outras partes do mundo. Isto fez com que os judeus desenvolvessem formas de culto antes não conhecidas, como as sinagogas, fossem influenciados e desafiados por outras formas de pensamento, filosofias e religiões, além de que “a Bíblia continha uma coleção tão rica de ideias que as decisões relacionadas ao que enfatizar diferiam na Antiguidade assim como diferem hoje.”. No ambiente de diáspora inicial sob os persas, a língua hebraica foi perdendo espaço no dia a dia e sendo substituída pelo aramaico, que veio a se tornar a língua internacional padrão. Isto levou ao surgimento da tradição dos targumim, que eram paráfrases e explicações aramaicas do texto bíblico hebraico sagrado lido nas reuniões nas sinagogas.[17]
Além disso, outras mudanças vieram com a ascensão de Alexandre, o grande, no século 4 a.c., expandindo a cultura helênica para o mundo conhecido, a mesclando com as culturas locais, inclusive com elementos judaicos, e fazendo com que o judaísmo sofresse impactos e alterações. O mais perceptível seria o da língua, pois o mundo passou a falar grego, principalmente os judeus moradores do Egito levando a necessidade de produção da primeira tradução da bíblia hebraica para outra língua, neste caso o grego. A Septuaginta nasceu deste esforço e influenciou grandemente o judaísmo. O novo mundo helenizado não tinha a ver apenas com o idioma falado, mas abarcava a vida em muitos outros pontos, como a pressão para sincretismos pagãos, a custo de marginalização social, mas não risco físico inicialmente. Esta realidade foi vista com maus olhos por muitos judeus que se mantiveram firmes em sua fé e tradições, mas foi moderada ou intensamente abraçada por muitos outros, que relativizavam pontos que eram vistos como essenciais da fé judaica, como a circuncisão, guarda do sábado, as leis alimentares, entre outros.[18]
Depois desse período, a tensão que a região de Judá experimentou ao ficar na disputa entre ptolomeus e selêucidas e após isso as pressões com Antíoco 4 levaram a revoltas judaicas, lideradas pelos Macabeus e a rachas significativas entre os judeus. O racha já existia entre os que aceitavam a helenização de forma mais ampla e os que resistiam, chamados posteriormente de hassideus (heb. piedosos), porém se tornou mais enfática quando, após a revolta macabéia, esta família usurpou o comando sacerdotal do templo e o controle político de Jerusalém, unindo os cargos religiosos e políticos em uma só pessoa. Tal atitude foi interpretada como ilegítima e corrupta, sem contar vários crimes e pecados associados a esta nova dinastia (suborno, assassinatos, traição). Acredita-se, a partir de Josefo, do livro de Macabeus e inferências nos manuscritos do deserto da Judeia, que aqui tem-se a origem dos fariseus, essênios, quramitas e saduceus. Este tempo experimentou o nascimento ou desenvolvimento de muitas ideias teológicas, visões hermenêuticas e práticas litúrgicas[19]
Nesta breve revisão histórica, que demonstra os contextos e contornos da variedade judaica, não poderia faltar os últimos grandes inimigos dos judeus, os romanos. Estes, inicialmente ajudaram a dinastia hasmoneia contra os seleûcidas, mas posteriormente dominaram as regiões de Judá e Galileia, colocando um idumeu para governar a região, o famoso Herodes, o grande. Este domínio romano não foi mais pacífico que os domínios anteriores, e muitas revoltas estão catalogadas neste período. É aqui que nascem os bandidos sociais, os candidatos a Messias, os profetas populares e grupos revolucionários, dentre os quais os mais famosos eram chamados de zelotes e sicários. O período de dominação romana também viu o nascimento dos publicanos, que trabalhavam para os romanos cobrando impostos.[20]
Um último comentário se faz necessário a respeito da intensa produção literária do judaísmo nesse período. Alguns estudiosos mais radicais chegam a imaginar que todo, ou boa parte, dos textos bíblicos surgiram ou tiveram a maior parte de sua composição durante o segundo templo. Apesar de não considerarmos essa visão plenamente convincente, é possível que vários textos tenham recebido a sua edição e organização final nestes séculos, mas para além disso, sabemos que os textos judaicos chamados de apócrifos ou pseudepígrafos, e muitos outros textos judaicos, tem aqui a sua composição. Isto indica que as classes de escribas estavam em intensa atividade literária e teológica. Os turbilhões da dominação persa, do avanço do helenismo, da revolução Macabeia e ascensão hasmoneia são fatores políticos e sociais por trás dessa realidade. Ao falar disso, estamos ampliando o escopo para o judaísmo desenvolvido na diáspora e não apenas na região da Judeia.[21]
Portanto, diversidade em vários sentidos e níveis, reações distintas a dominação estrangeira direta e influência cultural, e intensa produção literária marcam o judaísmo do segundo templo, o ambiente no qual nasceu Jesus e seu movimento. E embora tenhamos mencionado diversos movimentos/escolas filosóficas ou de pensamento é importante frisar que “apenas uma minoria adotava uma filosofia específica. Para aqueles que o faziam, parece ter sido uma questão de escolha pessoal.”, de maneira que concordamos com Wright de que: [22]
A maioria dos judeus na Palestina durante o período romano seguia mais ou menos suas leis bíblicas, orava à sua divindade ancestral e regulava suas vidas de modo a enfatizar as festas e os jejuns regulares do calendário. Provavelmente não eram teólogos profundamente reflexivos (mesmo Josefo, que havia estudado bastante, claramente não o era), mas seu mundo simbólico e sua práxis regular nos dão uma visão de primeira linha da teologia à qual, embora de forma inarticulada, eles se entregavam.[23]
3. Jesus, um judeu
Jesus foi um judeu. Ele nasceu numa família judaica, a quem os evangelhos atribuíram ascendência davídica (Mt 1:1-17; Lc 3:23-38), foi circuncidado (Lc 2:21) e apresentado no templo, com seus pais obedecendo a lei de levítico (Lc 2:22-24). Sabemos que sua família visitava Jerusalém na páscoa (Lc 2:41), onde vemos Jesus possivelmente no período de um ritual de passagem para a vida adulto análogo ao bar mitzvah e dialogando com mestres da época. Ele cresceu na região norte da Galiléia (Mt 2:22-23), trabalhando como construtor (Mc 6:3), uma profissão recebida de seu pai, frequentava as sinagogas (Mc 1:21), lia os rolos das escrituras (Lc 4:16-17), convidou discípulos a segui-lo, era chamado de mestre (rabino), sendo sustentado por doações (Lc 8:1-3), tinha práticas de oração (Lc 5:16), de jejum (Mt 4:2; Lc 4:2) e frequentava o templo (Jo 7:28) e as festas judaicas regulares (Jo 5:1; Festa dos tabernáculos/cabanas em Jo 7:2; Festa da dedicação/Chanucá em Jo 10:22; festa da páscoa em Jo 2:23, 12:1). Ele contava parábolas (Mc 4:33) , tinha a bíblia hebraica como escritura sagrada (Lc 24:27), era monoteista(Mc 12:29), acreditava na ressurreição futura (Mc 12:24-27) e em várias doutrinas escatológicas como um juízo final, uma futura restauração e usava linguagem apocalíptica (Mt 24,25). Obviamente, tudo isto está de acordo com o cristianismo tradicional, visto que Jesus atribui a si mesmo um papel vital nesses eventos escatológicos e viveu como ser humano perfeito. Ele deu início a um movimento messianico não revolucionário, que continuou depois de sua morte. Parentes da família judaica de Jesus desempenharam importantes papéis de liderança nas comunidades cristãs do século 1 na Palestina e Síria [24][25][26]
A região na qual Jesus viveu tem sido identificada pelos estudiosos como Palestina, o que incluiria a Galileia e a Judéia. Esta era uma sociedade agrária, na qual a maior parte das pessoas “residia em aldeias rurais e pequenas cidades, em vez de em cidades maiores como Tiberíades e Jerusalém. As sociedades agrárias geram diversos modelos socioeconômicos de poder e privilégio, mas todos enfatizam a estratificação entre diferentes níveis”. Esta sociedade, de acordo com Strange, era organizada socialmente pela ordem de nascimento e riquezas. No topo da sociedade estavam as elites que incluíam o governante, suas famílias e aliados (e.g Herodes e seus servos), seguidos dos proprietários de terra (kyrios , Mt 25:14-30), grandes importadores/exportadores ou comerciantes (emporos, Mt 13:45-46), chefes dos publicanos (architelō nēs, Lc 19 :1-10) e o juiz (kritēs, Mt 5:25). No estrato médio social e econômico estariam o escriba profissional (grammateus, Mt 2:4), o professor (didaskalos, Mt 8:19), o advogado (nomikos, Mt 22:34-40), o trabalhador manual como pedreiro, carpinteiro (tektōn, Mt 13:55), comerciantes, agricultor familiar, o banqueiro (trapezitēs, Mt 25:27), o pescador (halieus, Mt 4:18-22), o cobrador de impostos (telōnēs, Lc 18 :9-14), o administrador de uma casa ou mordomo (oikonomos, Lc 12:42-46; 16:1-8) e o ferreiro. A estes, pode-se acrescentar, de outras fontes, o trabalhador em couro, o soldado, o curandeiro, o exorcista, o médico, o herbalista, e os atores e artistas. Na base da estrutura social estaria o trabalhador diarista (misthios, “assalariado” ou “trabalhador contratado”, Lc 15:11-32), trabalhador agrícola, ceifeiro (theristēs, Mt 13:24-30), guarda de uma prisão (hyperetēs, Mt 5:25), pastor de ovelhas e cabras (poimēn, Mt 9:36), o escravo (doulos , por exemplo, Mt 13:24-30), mendigo (prosaitēs, Jo 9:8), ladrão (kleptēs, Jo 12:6), o doente (lepros, leproso), o pobre (ptōchos , desempregado Lc 14:16-24; Mt 22:1-14), a prostituta (pornē , Mt 21:31-32) e o rebelde ou bandido (lēstēs , Mt 27:38). [27][28]
Bird e Wright nos dizem “Jesus era um artesão (tektōn) que vivia na aldeia rural de Nazaré. Ele parece ter se identificado amplamente com a classe camponesa, frequentemente ensinando sobre a importância da generosidade para com os pobres; ele alertou severamente sobre os perigos da riqueza”. Toda esta discussão é relevante e atual, porque tem sido observado pelos estudiosos que a pesquisa pelo Jesus histórico não pode ser separada da pesquisa pela Galileia histórica, sobretudo nas condições econômicas provocadas pelas elites romanas, herodianas e civis que, ao oprimir as classes média e baixa, por meio da elevada tributação e exploração dos grandes proprietários de terra, os levaram a situações financeiras e sociais de vulnerabilidade.[29]
Retornando ao perfil judaico de Jesus, parte desse judaísmo de Jesus está presente em algo frequentemente ignorado nos estudos, o fato de que ele participou de debates com outros mestres e partidos judaicos, algo que o insere na dinâmica do ambiente judaico antigo. Nesta rivalidade, ficavam mais claras as posições, crenças, valores e a visão de mundo, de Jesus e de seus debatedores, nos aspectos em que discordavam e concordavam, quando se aproximavam e se distanciavam naquilo em que pensavam e priorizavam. A partir de agora voltaremos nosso olhar para esta questão no tocante ao partido dos fariseus.
4. Os fariseus
Os fariseus são o grupo judaico mais famoso do tempo de Jesus. Antes de entrarmos em mais detalhes, é válido pontuarmos que as principais fontes sobre os fariseus do período do segundo templo ou próximas disso são os escritos de Josefo, o Novo Testamento, os manuscritos do deserto da Judeia e a literatura rabiníca. Algo que agrava e dificulta o nosso conhecimento histórico é a ausência de textos escritos diretamente pelos fariseus, apesar de alguns tentarem associar os Salmos de Salomão, encontrados em Qumran, aos fariseus por conta do conteúdo anti-hasmoneu. Vasile Babota nos oferece um importante estudo metodológico quanto às fontes que podemos usar para conhecer ou reconstruir a identidade e história farisaica.[30][31]
Flávio Josefo foi um aristocrata e sacerdote judeu que lutou contra os romanos na primeira revolta judaica, do ano 70 d.c. Ele escreveu quatro obras, nas quais atua como historiador e intérprete da Bíblia, a obra Guerra Judaica, Antiguidades dos Judeus, Vida e Contra Ápio. Na sua autobiografia Vida, ele escreve ter tido envolvimento com “as três seitas” do judaísmo, os fariseus, essênios e saduceus ( 2 §§10-11), o que, se for verdadeiro, nos dá acesso ao relato de alguém que afirmou ter sido um fariseu, o que aumenta sua importância. Josefo descreve as tensões dos fariseus com a dinastia hasmoneia, em especial com João Hircano e Alexandre Janeu, e o apoio em relação a Alexandra Salomé (Guerra 1.5.2 §§110-14. Antiguidades 13.372–373) Esse cenário parece apontar para um possível envolvimento com questões políticas, ao menos na era macabeia, e mostra a oposição religiosa, social e política em relação aos saduceus. Também aprendemos que os fariseus eram influentes sobre as massas, agiam como intérpretes da Lei, o que motiva muitos estudiosos a os conectarem com os escribas, alegavam ser seguidores da tradição oral dos anciãos e poderiam ter tendências revolucionárias ou violentas, as quais Josefo relata em alguns episódios de conflitos com hasmoneus e Herodes, o grande. Eles também são conhecidos por crerem na ressurreição dos justos, castigo para os ímpios, nos anjos e na responsabilidade humana diante de Deus, e “que tanto aspectos divinos quanto humanos individuais estavam envolvidos nas ações humanas, de modo que as pessoas tinham certa responsabilidade pelo que faziam.” Wright, de forma perspicaz, sugere que essas crenças estão profundamente conectadas com uma inclinação revolucionária e que isso os fazia agradáveis às massas que eram oprimidas por Roma. Também parece estar em jogo questões sobre como o reino de Deus se estabeleceria no mundo e como os judeus deveriam contribuir para isso, ao rejeitar o domínio romano e viver de forma pura. [32][33][34][35]
Além de Josefo, o novo testamento nos informa sobre os fariseus. Encontramos nos relatos dos evangelhos os fariseus como personagens proeminentes em conversas com Jesus, em conspirações políticas e chegamos a conhecer alguns fariseus por nome. Observamos ali, um retrato que reforça elementos apresentados por Josefo, como de que seguem as tradições orais dos anciãos (Mt 7:3-4), estão preocupados em que a comunidade judaica viva em pureza, esperam pelo Messias e valorizam toda a bíblia hebraica, não apenas a Torah de Moisés. Já no livro de Atos dos Apóstolos a característica mais reforçada é a crença farisaica na ressurreição e nos anjos (At 23:8), além de conhecermos Saulo/Paulo, um fariseu que em seu zelo perseguia os seguidores de Jesus, pelo que ele provavelmente considerava um tipo de devoção herética e apóstata, sendo apoiado pelos sacerdotes de Jerusalém, e se torna seguidor de Jesus (At 9). Também conhecemos Gamaliel, mestre fariseu de Paulo, e descobrimos mais sobre a participação farisaica no sinédrio com os saduceus (Atos 5), além de conflitos com este grupo, à semelhança do relato de Josefo. Outra contribuição do Novo Testamento vem das cartas de Paulo nas quais ele fala de si como hebreu da linha farisaica (e.g Filipenses 3).
Duas outras fontes literárias relevantes acerca dos fariseus são a literatura rabinica e os manuscritos do deserto da Judeia, também conhecidos como manuscritos do mar morto. Como diz Wright “A literatura rabínica é, naturalmente, uma mina de informações e um campo minado para os incautos.”, isso porque ela é um vasto corpo literário que foi escrito, compilado, editado, expandido e transmitido em hebraico e aramaico de 200 d.c a 500 d.c na Galileia e na Babilônia, sendo por isso complexa e multifacetada. Sua importância é por constituir “a fonte mais gratificante de informações sobre a vida judaica no primeiro século d.C, especialmente na Judeia e, em menor extensão, na Galileia.” Esta literatura pode ser classificada em dois tipos de materiais, a Halaká, que tem um foco de discussão legal organizado em temas sobre pureza, festivais e está contida em duas obras, a Mishnah. A outra parte se chama Agadah e tem um foco em comentar as escrituras. Muitas vezes estes materiais (legais e não legais) estão entrelaçados e chegam a nós na forma de discussões entre pares de sábios. O grande desafio é datar quais materiais são úteis para uma análise sobre os fariseus, visto que o material foi compilado no século 3 d.c. Jacob Neusner fez um trabalho magistral acerca disso e reconhece que “As tradições rabínicas sobre os fariseus antes de 70 d.C. são aquelas composições da Mishná (c. 200) ou da Tosefta (c. 300) nas quais encontramos os nomes de sábios rabínicos que se presume terem vivido antes de 70 d.C., ou das Casas de Shamai e Hillel, dois desses mestres”. Este corpo de textos é basilar para o judaísmo rabínico que se desenvolve pós 70 d.c A discussão também passa pela relação dos rabinos da mishnah em relação aos fariseus pré 70 d.c. Por isso, segundo Cohick:[36][37][38][39]
Os compiladores da Mishná nunca se referem a si mesmos como pĕrûšîm; contudo, eles distinguem este último grupo dos saduceus (m. Yad. 4:6). O termo rabínico mais usado para descrever o que os estudiosos hoje identificam como fariseus é ḥăkāmîm (“Sábios”). A Mishná traça seus próprios pontos de vista sobre questões-chave de pureza, como o dízimo, as leis alimentares e o sábado, para esses Sábios. Outro termo frequentemente usado para defender a natureza separatista dos fariseus éḥăbērîm (“associados”), descrevendo aqueles que se reúnem em comunidades exclusivas conhecidas como ḥăbûrôt. Na Mishná este grupo mostra grande preocupação com a lavagem das mãos e o dízimo (m. Demai 2:2-3) em comparação com um grupo identificado comoʿam-hāʾāreṣ (lit., “povo da terra”), judeus indisciplinados que não seguem os códigos rabínicos para a pureza dos alimentos e do dízimo. Mas não está claro se os ḥăbērîm são sinônimos de Sábios, ou se dois grupos diferentes, mas relacionados, são identificados. Em algumas fontes rabínicas (m. Ḥag. 2:2; m. ʾAbot 1:1-18) há listas de autoridades, incluindo Gamaliel e Simeon ben Gamaliel. O primeiro é identificado como fariseu em Atos 5:34, e o último como tal em Josefo, Vita 190-192. Isto pode ser evidência de que os Sábios eram fariseus, ou que estes homens pertenciam a ambos os grupos, como aparentemente era na opinião de Josefo. [40]
Diante disso, a literatura rabinica pinta um quadro de fariseus em oposição aos saduceus, de preocupados com a correta interpretação da Lei conforme a tradição dos anciãos, faltando aqui os elementos sobre pureza importantes no Novo testamento e do papel político e potencialmente revolucionário de Josefo. Os rabinos não se viam diretamente como descendentes dos fariseus, mas havia certa compatibilidade e alguns sábios do passado são caracterizados como fariseus e a proximidade da parte do rabinismo se dá porque “tinham uma afinidade natural com a interpretação farisaica, já que assim como os fariseus, eles aceitavam a validade das tradições ancestrais.” [41]
A última fonte antiga que devemos investigar sobre os fariseus são os manuscritos de Qumran. Em nenhuma parte das centenas de manuscritos o nome fariseu aparece, o que tem levado os estudiosos a investigar se há referências a eles em outras ocorrências. De acordo com Babota, há duas expressões que têm sido identificadas como os fariseus “O primeiro é dorshe hahalaqot , traduzido como “os buscadores/ de/atrás de coisas suaves” ou “intérpretes de coisas suaves”. O segundo é “Efraim”, que ocorre várias vezes em conjunto com “Manassés” — frequentemente interpretado como um codinome para os saduceus’’. Além disso, a expressão ‘halaqot” tem sido vista como trocadilho a expressão legal “halakot’’, que descredibiliza oponentes da comunidade quramita, os quais poderiam ser fariseus. O Documento de Damasco (CD/ 4Q226) e os hinos de 1QHodayot mencionam estes “intérpretes de coisas suaves’’, termo que dá a ideia de que este grupo interpretava a Lei de modo flexível para agradar a população e que os quramitas seriam mais rígidos. Estes textos indicam que tal grupo era popular em sua época, enquanto o papiro 4Qpap pIsa c (4Q163) os localiza em Jerusalém. Já o Pesher 4QpNah/4Q169 parece usar codinomes para criticar quando Janeu, da dinastia hasmoneia, puniu os de Efraim (fariseus), evento retratado por Josefo em Ant. 13.380 // Guerra 1.97. Também é dito em 4QpNah 3–4 II, 8–10 sobre os “enganadores de Efraim, que enganam a muitos com seus falsos ensinamentos (betalmud šqarim), e sua língua mentirosa e seus lábios astutos; reis, príncipes, sacerdotes e o povo junto com o estrangeiro residente.”. Babota explica que essas referências mostram que estes de Efraim tinham influência sobre o povo, os sacerdotes e governantes. Vanderkam examina em detalhes diversas dessas ocorrências e outras mais, com possíveis referências a uma liderança farisaica, e o retrato concluído é de que:[42][43]
Os manuscritos não comprovam que os fariseus tinham uma tradição oral, mas os ridicularizam consistentemente por seu abuso da fala, por meio do qual enganavam os outros. Em resumo, podemos dizer que os Manuscritos do Mar Morto se referem aos fariseus e ao seu líder sob uma variedade de nomes abusivos, e refletem algumas das características dos fariseus conhecidos de outras fontes. [44]
Sobre questões ainda abertas e obscuras quanto aos fariseus, Mason nos diz que as origens históricas e significado do nome continuam a ser muito debatidos. Alguns traçaram a origem dos fariseus desde a época salomônica, outros do início do período exílico, talvez em Esdras, mas a maioria assume a ideia de que eles vêm da era hasmoneia. Quanto ao nome, apesar de geralmente ser tratado como significando “separados’’, outros entendem que poderia ter o sentido de especificadores, com a ideia professores/explicadores ou mesmo que fosse “separados’’ seria necessário entender se é separado de algo (podendo ter a ideia de distinção, pureza) ou separado para algo (para algum propósito) ou ainda separado por alguém (a ideia de chamado por Deus). Craig Morrison analisa como a literatura acadêmica, léxicos, enciclopédias e comentários bíblicos têm interpretado o nome e chega a conclusão de que o sentido de fariseu “é, na melhor das hipóteses, obscuro e que a glosa adequada para o aramaico parisha é simplesmente "fariseu", sem comentários adicionais. Embora o nome fariseu tivesse um significado lexical original, hoje esse significado se perdeu”. [45][46]
À luz do exame destas fontes compreendemos que os fariseus foram um grupo judaico religioso, político e social, com grande influência sobre o povo, alguma participação entre as elites, em alguns momentos tendenciosos à revolução anti-romana, que eram eram marcados por suas ênfases na guarda da tradição oral dos ancestrais, manutenção da pureza e expectativas escaológicas. Eles foram considerados em algum nível, os antecessores do judaísmo rabínico, mas não em sua totalidade. Diante desta breve investigação quanto aos fariseus, estamos aptos a examiná-los no contexto com Jesus.
5. Jesus e os fariseus em debate
Pensar sobre as relações entre Jesus e os fariseus significa adentrar num território cheio de desafios. Em consonância com o que abordamos no início do artigo, Jens Schroter diz que as “reconstruções do Jesus histórico e dos fariseus históricos representam desafios hermenêuticos e metodológicos, mas são ao mesmo tempo, esforços legítimos e necessários da pesquisa histórica”. [47]
Nossa proposta agora é observar como se dá essa interação nos evangelhos canônicos. Alguém pode questionar o porquê de restringir a pesquisa somente a 4 evangelhos. Nós sabemos da menção de fariseus em alguns evangelhos não canônicos como o evangelho de Tomé, o Apócrifo de João e no Oxyrhynchus Papyri 840, mas concordamos com Schroter de que tais referências são influenciadas pelos evangelhos canônicos, ou seja, pressupõe a sua existência e não refletem uma importância histórica tão relevante como o novo testamento. [48]
A respeito dos evangelhos canônicos concordamos com Bauckham de que eles são o produto, não de comunidades anônimas, mas de testemunhas oculares, incluindo o evangelho de Mateus (contra Bauckham neste caso) seguindo Jeannine Brown, que foram escritos para circular em várias comunidades ao redor do mundo e não para grupos específicos, que os evangelhos têm menos a ver com o ambiente histórico no qual foram produzidos e estão mais preocupados em relatar eventos do passado sobre a vida de Jesus. Em outras palavras, são evangelhos e não cartas, não devemos buscar ler nas entrelinhas para descobrir mais(não primariamente) sobre a situação histórica e social de seu(s) autor(es) ou editor(es). Isto é importante pois demarca que aquilo que é relatado sobre os fariseus e Jesus não reflete (ao menos não em primeira instância) tensões entre cristãos e judeus pós 70 d.c e portanto é confiável historicamente. [49][50][51]
Enquanto Josefo menciona os fariseus algumas vezes e quase sempre indiretamente, os manuscritos de Qumran os descrevem de forma obscura e os textos rabínicos soam um tanto ambíguos, os evangelhos os citam diretamente quase cem vezes. Em comparação, outros grupos judaicos como saduceus e escribas aparecem menos vezes e os essênios e a Yahad de Qumran nunca são citados. No geral, os fariseus aparecem como “oponentes de Jesus, como seus interlocutores ou como representantes dos judeus”. Tendo considerado brevemente estas questões podemos prosseguir para como os evangelhos apresentam Jesus em interação com os fariseus. [52]
6. Jesus e os fariseus em Mateus
O lugar de proeminência dos fariseus nos evangelhos é muito evidente e bem elaborado em Mateus. Eles aparecem com função ativa na Galileia e Jerusalém, exceto na última semana de Jesus. Mateus os associa atuando com os saduceus em diversas passagens. Em Mt 3:7 João Batista direciona seu discurso sobre a ira divina contra os dois grupos, o que já mostra uma distinção entre o povo que aceita a mensagem e a liderança judaica que a rejeita; em Mt 16:1, 6, 11-12, Jesus alerta os discípulos contra os ensinos deles. [53]
Já outras passagens indicam os fariseus junto dos escribas/mestres da lei (5:20, 12:38, 15:1, 23:2) e a relação destes dois grupos é intrigante de modo que a relação do material de Mateus com Marcos pode nos dar informações interessantes. Não poderemos entrar em detalhes nisto, mas Martin Pickup demonstra com maestria essas relações e percebe que Mateus tem a tendência de identificar como fariseus aqueles que em Marcos são escribas questionando Jesus sobre questões da lei.[54]
Os principais sacerdotes também aparecem atuando com os fariseus na cena do sepultamento de Jesus em Mt 27. Esta união lembra aquilo que Atos 5 fala sobre fariseus e os sacerdotes deliberando no sinédrio a respeito dos apóstolos, e reforça a ideia de força política farisaica. Para Cohick, o fato de os fariseus serem retratados muitas vezes em cooperação com outros movimentos demonstra “uma rede interligada de influência desses grupos, todos os quais não conseguem compreender a mensagem de Jesus”.[55]
Alguns encontros de Jesus com os fariseus são narrados em Mateus. Em 9:11-14 há uma tensão quanto a diferentes práticas de jejum e códigos de pureza alimentar, o que demarcava também com que tipo de pessoa se poderia assentar a mesa. Os fariseus evitavam fontes de impureza diretas como sangue, certas doenças, cadáveres e o que eles consideravam fontes indiretas, como gentios e pecadores (ladrões, prostitutas, cobradores de impostos), mas Jesus desafiava tal visão com uma espécie de pureza contagiosa. Por conta dessas práticas a acusação de que Jesus opera com poderes demoníacos surge em 9:24 e em 12:24.[56]
No encontro de Jesus e os fariseus em Mateus 12:2 a tensão é quanto a definição de descanso no sábado e as atividades de cura de Jesus neste dia, se seria lícito ou não e a resposta de Jesus é que é lícito fazer o bem no sábado. Uma tradição rabínica concorda com Jesus, inclusive usando linguagem semelhante, porém não sabemos até que ponto essa tradição era existente em seu tempo e Jesus a confirma ou ela foi influenciada por Jesus.[57][58]
Em Mateus 15:1-2 os fariseus apelam para as tradições orais de seus ancestrais em defesa da prática da lavagem de mãos antes de comer. Em oposição a esta postura hermenêutica, em diversas partes (em especial no sermão do monte) Jesus apela a sua própria autoridade como intérprete autorizado da Lei sem recorrer a outra fonte direta. Estes embates preparam o terreno para o duro discurso de Jesus no capítulo 23, mas não sem antes passar por mais dois conflitos.
Quando os fariseus, junto com os sacerdotes, em Mt 21:33-46, compreendem que as parábolas de Jesus são contra eles, por sua falha na liderança judaica eles planejam prendê-lo e quando decidem testar Jesus e comprometê-lo com suas respostas, eles vão junto com os herodianos questioná-lo quanto ao pagamento de impostos romanos (Mt 22:15), o que coloca em cheque em nós para nós o nível de envolvimento dos fariseus com apoiadores romanos na causa contra Jesus. Em Mateus 23 está o discurso mais duro de Jesus contra os fariseus (e também escribas), apesar de antes, ele já ter feito críticas, como no sermão do monte em Mt 5:20. Como Keener reconhece, “Os fariseus também enfatizavam a intenção correta do coração (kavana). Jesus critica não a doutrina deles, mas seu coração como grupo religioso”.[59]
Este discurso é o ápice da seção em que Jesus foi confrontado por diversos grupos em suas preocupações específicas. Ele inicia apresentando os fariseus lendo a Lei de Moisés sentados na cadeira de Moisés, possivelmente uma referência ao ensino em sinagogas, depois os elogia, encoraja os discípulos a ouvir as palavras farisaicas, reconhece que eles prestam atenção a pontos importantes da Lei como o dízimo e que estão devidamente preocupados em transmitir suas tradições a outros. Mas, como diz Cohick “essas notas positivas são abafadas pelas acusações estrondosas de hipocrisia e cegueira”. Ela oferece ainda uma análise perspicaz sobre o possível uso de Jesus do termo hipócrita, talvez baseado na Septuaginta de Jó e nos Salmos de Salomão. A crítica geral seria mais do que sobre uma pessoa que finge ser algo e envolve alguém que se desvia dos caminhos de Deus e oprime os pobres. [60]
Podemos concluir então que, em Mateus, os fariseus atuam tanto na Galileia quanto na Judeia, têm disputas com Jesus sobre temas relacionados a autoridade para interpretar a lei, em especial em questões de pureza, jejum e o sábado, e embora apareçam constantemente com outros grupos, são os principais rivais de Jesus.
Jesus e os fariseus em Marcos
O evangelho de Marcos cita os fariseus bem menos do que Mateus, pois aqui os escribas é que são os principais rivais de Jesus. Um estudo à parte seria necessário para compreender este fenômeno e deve ficar para outra ocasião, mas é válido saber que “ Marcos menciona os vinte e uma vezes: eles são mencionados ao lado dos fariseus (7:1, 5), dos principais sacerdotes (10:33; 11:18; 14:1; 15:31) e dos anciãos e principais sacerdotes (8:31; 11:27; 14:43, 53; 15:1).’’[61]
Voltando ao nosso presente foco, em Marcos nós “encontramos os fariseus discutindo com Jesus sobre jejum, divórcio, impostos, leis alimentares e práticas do Sabbath”, algo comum com Mateus. No entanto, dois pontos de interesse surgem no relato marcano sobre os fariseus. O primeiro diz respeito à íntima conexão identitária entre fariseus e mestres da lei conforme é dita em Marcos 2:16 “Alguns mestres da lei que eram fariseus”. Schnabel explica acerca disso que “Os fariseus são repetidamente descritos como pessoas que transmitem, preservam e desenvolvem a tradição da lei em sua forma escrita e oral. Alguns fariseus eram escribas formalmente treinados, o que explica sua presença nas sinagogas locais’’. Também chama atenção Marcos descrever os escribas/mestres da lei como vindo de Jerusalém, enquanto conecta os fariseus com a região da Galileia. Thellman compreende que os escribas de Jerusalém podem ser aqueles associados aos principais sacerdotes, diz que não é totalmente claro se Marcos vê os escribas de Jerusalém como farisaicos e assim, Marcos faz “uma diferenciação entre os escribas farisaicos e de Jerusalém, mas principalmente associa os escribas a Jerusalém e à morte de Jesus, juntamente com a sua falta de autoridade de ensino e, por vezes, uma interpretação escatológica errada das Escrituras”.[62][63][64]
O segundo ponto relevante na discussão sobre fariseus e Jesus em Marcos é a associação entre este grupo e Herodes, em Marcos 8:15, onde Jesus alerta contra o fermento(ensino) dos fariseus e de Herodes. Dois elementos tornam as questões mais intrigantes ainda. O primeiro é que o texto paralelo de Mateus 16:6 fala sobre o “fermento dos fariseus e dos saduceus’’ e o segundo é que algumas variantes trazem sobre “o fermento dos herodianos” no lugar de Herodes. As questões que se levantam são se os saduceus eram equivalentes aos herodianos e qual a relação deste grupo com os fariseus. Cohick entende que mencionar esses grupos juntos fortalece a ideia de que os fariseus tinham participação e influência política, mas ainda permanece em aberto como seria esta atuação e traz sete possibilidades, que seriam:[65]
(1) revolta aberta e armada; (2) revolta esporádica, espontânea e armada; (3) dar encorajamento verbal àqueles que pegaram em armas; (4) lutar por poder político direto dentro das cortes hasmoneu e herodiana ou com o governo romano; (5) lutar para influenciar líderes políticos como Herodes, o Grande; (6) ocupar cargos oficiais dentro do conselho judaico/Sinédrio; (7) influenciar o diálogo sobre o domínio romano sobre a Judeia e a Galileia. [66]
Quanto à proximidade de saduceus e herodianos, o problema é que os primeiros haviam sido apoiadores dos hasmoneus, os quais foram desbancados por Herodes. No entanto, Hoehner acredita que tais tensões podem ter sido desfeitas quando Herodes se casa com Herodias, da dinastia hasmoneia, o que faria com que herodianos e saduceus estivessem do mesmo lado teológica e politicamente, em oposição aos fariseus que eram anti-hasmoneus, anti- herodianos e anti-romanos. Os primeiros desejavam manter o domínio enquanto os últimos almejavam um reino divino que removeria os romanos, mas ambos “se uniram para se opor a Jesus, pois ele estava introduzindo um novo reino que nenhum dos dois desejava”.[67]
7. Jesus e os fariseus em Lucas
O papel dos fariseus em Lucas encontra certa continuidade em relação aos demais evangelhos sinóticos, porém sob uma luz diferente. Os fariseus aparecem às vezes com os mestres da lei (5:17-26; 7:30, 33; 14:1-3), mas nunca com os saduceus. Três elementos distinguem a relação de Jesus com os fariseus no tocante a Marcos e Mateus; em Lucas, Jesus participa de banquetes ao ser convidados por fariseus (7:36-50; 11:37-39; 14:1-6), conhecemos alguns indivíduos fariseus e às vezes eles são vistos positivamente. [68]
Nos banquetes, Jesus é convidado por um fariseu para a sua casa. Keener explica que “Considerava-se uma ação honrada convidar um mestre para jantar, especialmente se fosse de fora da cidade ou houvesse acabado de ensinar na sinagoga”. Apesar disso, a conversa de Jesus conduz a repreensões aos fariseus. Na primeira cena tem a ver com a interação de Jesus e uma mulher pecadora, a quem ele aceita o toque de honra e para quem declara perdão de pecados; a segunda cena de banquete inclui severas críticas de Jesus, as quais Bock sintetiza: “O relato resume as falhas da liderança religiosa. Jesus castiga os líderes por serem hipócritas, ignorarem a justiça de Deus, sobrecarregarem o povo com exigências que eles próprios não cumprem, seguirem seus ancestrais assassinos e bloquearem a entrada para o céu” (1105). Na terceira cena, à semelhança de outros conflitos sinóticos, o tema é sobre a cura no sábado ser lícita ou não. Apesar destes conflitos, há atitudes positivas dos fariseus em relação a Jesus, pois alertam Jesus contra os planos de Herodes de matá-lo em Lucas 13:31. [69][70]
A prática de Lucas de nos apresentar a alguns fariseus individualmente sugere que “Enquanto os fariseus funcionam como uma massa mais ou menos indiferenciada, como personagens "planos", em Marcos e Mateus, Lucas faz diferença entre alguns fariseus e outros fariseus” e deste modo notamos que há exceções entre os fariseus, algo que será melhor explorado por Lucas em Atos dos Apóstolos com a postura branda de Gamaliel (At5), a conversão de Paulo a Jesus (At 9) e a aceitação do evangelho por muitos fariseus (At 15). Lucas até mesmo suaviza a oposição farisaica e em alguns momentos “consegue diferenciar que apenas alguns fariseus estavam envolvidos em certos conflitos (6:2).” No lugar de desejar "matar" Jesus (Mc 3:6), o paralelo de Lucas diz que eles apenas buscavam "o que fazer" (6:11)” [71][72]
Mesmo assim, conforme a trama avança, os fariseus vão se tornando oponentes de Jesus, criticando suas atitudes de jejum, guarda do sábado e comunhão com pecadores (Lucas 5:17, 6:2, 7:39, 15:2). Mesmo que inicialmente os fariseus estejam junto com multidão glorificando a Deus pelos milagres de Jesus (Lc 5:21-26), depois eles aparecem como aqueles que, ao contrário do povo e dos cobradores de impostos, se recusam a ser batizados e rejeitam o propósito de Deus para eles (7:30). Mason consegue resumir bem o perfil e papel dos fariseus em Lucas em relação a Jesus:
O retrato dos fariseus por Lucas lembra retratos dos sofistas em textos helenísticos. Eles são os respeitados professores das pessoas comuns que saem para examinar as atividades de Jesus (Lc 5:17). Jesus é muito mais estridente em sua crítica a eles pelas falhas típicas dos sofistas — supostamente por serem ávidos por dinheiro, complacentes e ineficazes em trazer mudanças reais (Lc 11:39-44; 12:1; 16:14-15; 18:9-14). Os fariseus de Lucas permanecem fora de Jerusalém e, portanto, são nitidamente distinguidos das autoridades do templo relacionadas aos saduceus, que imediatamente planejam matar Jesus em sua chegada (Lc 20:47). [73]
8. Jesus e os fariseus em João
Qualquer pessoa que tenha lido o evangelho de João percebe que ele é diferente dos outros três em estilo literário, vocabulário e foco teológico, geográfico e histórico. Obviamente isso não significa que ele seja inteiramente distinto, pois há muitas semelhanças e episódios correlatos. Por conta destes elementos de diferença e outros como uma maior distância temporal em relação aos eventos narrados, o quarto evangelho tem sido deixado de lado na pesquisa histórica sobre Jesus e seu mundo. No que diz respeito aos embates com os fariseus, muitos estudiosos acreditam que João está descrevendo mais o seu próprio cenário histórico, do movimento dos seguidores de Jesus em tensão com o judaísmo rabínico nascente do final do século 1 d.c, do que eventos da vida de Jesus. Yinger é exemplo disso, ao asseverar que “devemos ser mais cautelosos ao simplesmente adotar a perspectiva de João ao descrever os fariseus históricos”. [74]
Todavia, discordamos dessa posição e mantemos a perspectiva de que João está preocupado em descrever eventos do passado e que as diferenças entre João e os outros, sobretudo em questões históricas e narrativas, são bem explicadas caso João e seus leitores já conhecessem os evangelhos sinóticos ou suas tradições, como aponta Blomberg. De forma convincente, Carson afirma que é impressionante “os muitos lugares onde João e os Sinóticos representam uma tradição interligada, isto é, onde se reforçam ou se explicam mutuamente, sem trair dependência literária evidente’’ Também é oportuno mencionar que recentemente diversos acadêmicos têm apontado que este evangelho não pode mais ser ignorado nas discussões históricas sobre Jesus. [75][76][77]
Os fariseus aparecem no quarto evangelho em menos passagens do que nos sinóticos. Na maior parte das vezes eles estão em oposição a Jesus e sua mensagem, atuam em parceria com os principais sacerdotes, enquanto os saduceus e escribas nunca são mencionados diretamente, mas é possível que alguns sacerdotes fossem saduceus. [78][79]
Uma característica chamativa de João é seu uso expressivo do termo “os judeus”. Por exemplo, em João 9:22 é afirmado que os judeus expulsariam da sinagoga quem reconhecesse Jesus como Messias. Carson nota que esta expressão, usada cerca de 70 vezes, pode variar dependendo do contexto, pois “às vezes, a expressão é bastante neutra, explicando um ritual para leitores distantes da Palestina (2:6)”, já em outros momentos, como em 7:1, “a expressão assume um tom de coloração geográfica: o povo da Judeia. Mais comumente, refere-se aos líderes judeus, especialmente os de Jerusalém e da Judéia (1:19), e geralmente são retratados como aqueles que se opõem ativamente a Jesus, não o compreendem e que, por fim, buscam sua morte’’. Este último caso aponta para uma influência religiosa, política e social farisaica sobre a Judeia, sobretudo quando “judeus” e “fariseus” aparecem como sinônimos como em João 1 e 9. Os fariseus também são associados com “governantes” ou “líderes” (Jo 3:1; 7:48) o que reforça o quadro de que “os fariseus eram um grupo identificado, talvez uma hairesis, como Josefo os chama (Ant. 13.171), que colabora com outros líderes judeus.”[80][81]
Segundo, as semelhanças descritivas com os sinóticos estão nas críticas à cura no sábado (Jo 5:10), fariseus como mestres influentes, alguns crendo em Jesus (Jo 3), apesar de outros crerem mas temerem as consequências (Jo 12:42) e a ausência durante a prisão e julgamento de Jesus. É sensato concluir, que os indícios textuais levam-nos a compreender estes judeus como “aqueles líderes centrados em Jerusalém que falam com autoridade sobre questões jurídicas judaicas. Esses líderes teriam incluído fariseus em seu número, mas não devemos presumir que todos os líderes judeus seguiam os ensinamentos farisaicos”. Essa influência também é vista quando os fariseus enviaram, junto com os sacerdotes, alguns guardas do templo (levitas) para prender Jesus enquanto ensinava no templo (Jo 7:32)[82][83]
Evidência dessa influência regional é que em João 4:1 Jesus decide sair da Judeia e ir para a Galileia por conta dos fariseus. Este foco na região de Jerusalém como o local da presença farisaica e sua representação como um partido político influente combinam com o relato de Josefo do programa político farisaico, principalmente durante a dinastia dos Hasmoneus. Observamos, em João 1:19, que os judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas para questionar João Batista, e é plausível que estes judeus fossem os líderes do Sinédrio, instituição controlada pela família do sumo sacerdote, que estariam interessados nas questões de purificação ritual, o que de alguma forma João estava promovendo com seu batismo.[84]
Em João 3 encontramos o famoso fariseu Nicodemos, que está interessado em Jesus. Ele faz sua visita a noite, alguns entendendo ser uma reminiscência de memória histórica, outros comparam com o fato de rabinos estudarem e debaterem a noite, outros vêem aqui uma forma de não ser visto em público com Jesus, mas a chave talvez esteja no uso de João com o termo/motivo “noite” ((3:2; 9:4; 11:10; 13:30) apontando para escuridão moral, espiritual e de ignorância, o que se encaixa com Nicodemos. Este homem é aquilo que Attridge chama de um fariseu especial. Ele surge em outros dois momentos neste evangelho, uma segunda vez em Jo 7:50-52 ao defender Jesus perante os fariseus e em Jo 19:38-42, acompanhando José de Arimateia. Esta dupla de ricos e influentes providência que o corpo morto de Jesus tenha um sepultamento digno.[85]
Outros dois detalhes acerca dos fariseus em João valem a pena ser comentados. O primeiro tem a ver com a participação de Nicodemos defendendo Jesus, na cena já citada de João 7:45-53, após os levitas voltarem admirando as palavras de Jesus e sem tê-lo prendido. Os fariseus e líderes ficam irados por causa da “ralé” (NVI) ou ‘povo da terra’’ que está crendo em Jesus. Keener explica:
Os rabinos instruídos costumavam desprezar o ‘am hã’ãrets, isto é, “o povo terra”, as pessoas comuns que nem sequer buscavam seguir as interpretações rabínicas da Lei. Muitos textos indicam a animosidade entre os rabinos fariseus e ‘am hã’ãrets (p. ex., Akiba afirmou que, antes de se tornar rabino, fazia parte do ‘am hã’ãrets e tinha vontade de espancar os mestres).[86]
Nicodemos, então, argumenta que Jesus não deveria ser condenado sem primeiro ser ouvido, uma questão que encontra certo respaldo processual em regras rabínicas e no direito romano. A resposta farisaica, de que o problema é Jesus ser galileu, é completamente hostil e demonstra preconceito regional ao invés de conhecimento bíblico. Koester capta bem o significado da cena:[87][88]
Nicodemos expõe a verdade sobre os outros fariseus em dois níveis. Primeiro, eles alegam que aqueles que ouvem Jesus são ignorantes da lei, mas, ao desconsiderar o devido processo legal em sua condenação de Jesus, demonstram sua própria ignorância da lei. Segundo, Nicodemos mostra que os fariseus, que não ouviram Jesus primeiro, não podem alegar "saber" o que ele está fazendo (7.51). Quando Nicodemos foi até Jesus anteriormente (pro/teron, 7.50), Jesus lhe mostrou o quão pouco ele poderia alegar "saber" (3.10). Neste episódio, Nicodemos é quem expõe a falta de conhecimento entre seus pares.[89]
Attridge contribui com um entendimento profundo sobre o papel de Nicodemos como um todo em João:
Para João, assim como para Atos, ser fariseu e líder judeu não é incompatível com a simpatia por Jesus e sua mensagem. No contexto da retórica do Evangelho, os episódios de Nicodemos funcionam como um contraponto crítico ao tema dominante da hostilidade dos "judeus" e dos fariseus a Jesus. A história ressalta que alguns líderes dos judeus, alguns fariseus, simpatizaram com Jesus o suficiente para defendê-lo e participar generosamente de seu sepultamento. A mensagem para os leitores: estejam abertos a eles; ajudem-nos a chegar à plena fé e ao renascimento.[90]
O segundo detalhe é que em João há apenas um debate haláquico (sobre questões legais), que é sobre a validade da cura no sábado em João 5. A resposta de Jesus é que tendo a mesma autoridade que o Pai, Ele pode fazer estas obras; uma outra resposta sua está em João 7:19-24 apelando para prioridades na Lei mosaica, Estas duas respostas encontram eco em respostas em passagens nos sinóticos (Mt 12:1-8; Mc 2:23-28). Em João 9 a cura também é no sábado, mas o debate gira em torno da identidade de Jesus.[91]
Conclui-se então que em João, os fariseus são uma oposição desde o início a Jesus, atuam quase sempre com outras forças religiosas, têm um papel proeminente e de liderança na Judeia mas com alguma autoridade na Galileia também e são cheios de soberba por seu conhecimento da Lei de Moisés e dos anciãos. Este evangelho não foca nas suas crenças e debates (talvez pressupondo que os leitores já saibam disso a partir dos demais evangelhos e podendo focar em outros aspectos) e somos apresentados a um mestre fariseu curioso por Jesus e que ao final se torna um seguidor público, um exemplo do verdadeiro testemunho.
9. Considerações finais
Os fariseus podiam ser muito diversos entre si. Certamente eles não eram um grupo fechado e monolítico, mas aberto a debates. Se as memórias rabínicas estiverem corretas, havia discordâncias e até mesmo tipos de fariseus distintos. Eles também estavam espalhados para além da Judeia, o que aumentaria a sua diversidade. Níveis diferentes de tolerância a Jesus são percebidos neles, desde ferrenhos opositores que queriam matá-lo, até aqueles que ouviam Jesus em jantares no seu lar, o procuravam para conversar ou aceitavam sua mensagem. A reflexão em torno deste assunto ainda tem muito a recompensar àqueles que se debruçam sobre estes personagens e histórias antigas. Esperamos com este estudo estimular a reflexão, interesse e pesquisa sobre Jesus em seu contexto.
Notas
[1] Graduando em Teologia pela Faculdade Internacional Cidade Viva. Email: Dougla.sousa@cru.org.br
[2] No que tem sido chamado de segunda busca do Jesus histórico, parte da metodologia envolvia rejeitar como autêntico em Jesus tudo o que pudesse parecer concordar com o judaísmo. O mesmo também foi aplicado em relação às crenças do cristianismo posterior, ou seja, o Jesus autêntico, segundo estes autores, deveria ser diferente do cristianismo e do judaísmo.
[3] SILVA, Pedro. “Jesus e Paulo dentro do Judaísmo: Abordagens históricas e perspectivas recentes” Revista Teológica Jonathan Edwards – v.3, n.1, p.7-35, maio. 2023. Disponível em https://www.stjedwards.com/revista
[4] HELYER, Larry. “The Life and Witness of Peter”. Downers Grove: IVP. 2012
[5] Uma visão sucinta e rápida, mas magistral considerando o ambiente judaico está no ensaio de BAUCKHAM, Richard, “Tiago no centro”In: “O Mundo cristão em torno do novo testamento’’; Veja também CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “The brother of Jesus: James the just and his mission”. Louisville, London: Westminster John Knox Press, 2001
[6] COLLINS, John J. “A imaginação apocalíptica: Uma introdução à literatura apocalíptica judaica”. São Paulo: Paulus, 2022
[7] Atenção especial é dada em KEENER, Craig. “Comentário exegético Atos-Volume 01: Atos 1.1-à 2.47” Rio de Janeiro: CPAD. 2022
[8] Nenhuma obra hoje importante sobre o novo testamento deixa de lidar com o mundo judaico tanto da região da judeia quanto da diáspora. Veja SCOTT, J. Julius JR. “Origens judaicas do Novo Testamento: Um estudo do judaísmo intertestamentário”. São Paulo: Shedd Publicações
[9] BEILBY J. K. e EDDY P. R. (eds). “The quest for the historical Jesus: an introduction”In: ‘The Historical Jesus: Five Views”. Downers Grove: IVP Academic. 2009, n.p
[10] VANDERKAM, James C. “Judaism in the land of Israel” in COLLNS, John J. HARLOW, Daniel C. “The Eerdmans Dictionary of Early Judaism.” Grand Rapids, Michigan: Eerdmans. 2010, p. 57
[11] SANDERS, E.P. “Judaism: Practice and Belief, 63 BCE-66 CE”. Philadelphia: Trinity Press International, 1992
[12] COHICK, Lynn. “Judaism common" in GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 452-257
[13] Veja o capítulo 8 Story, symbol, praxys: Elements of Israel’s worldview”In: WRIGHT, N.T. “The New Testament and the people of God”. London: Society for Promoting Christian Knowledge. 1992, n. p
[14] COHICK, Lynn. Op cit. p. 456
[15] GOODMAN, Martin, “Preocupações e expectativas’’In: “História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais” São Paulo: Crítica, 2020, n.p.
[16] WRIGHT, N.T. “The developing diversity” op. cit. n.p
[17] GOODMAN, Martin. “A doutrina judaica assume três formas’’Op cit. n.p.
[18] Para mais detalhes sobre este período veja REINKE, André. Aqueles da Bíblia. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil, 2021; DE SILVA, David. "Período helenístico" in ARNOLD, Bill T.; HESS, Richard. "História do antigo Israel: uma introdução ao tema e às fontes". Rio de Janeiro: Central Gospel. 2020; WON, Paulo. "E Deus falou na língua dos homens: uma introdução à bíblia". Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.
[19] Angelologia e demonologia mais complexa, diferentes técnicas de interpretação bíblica, práticas de batismo, as sinagogas fazem parte disso.
[20] HEARD, WJ e EVANS, C.A “Revolutionary Movements, Jewish”In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley E. Dictionary of New Testament Background (DNTB), Downers Grove: IVP, 2000, p 936-936
[21] Este assunto também toca o tema do cânon da bíblia hebraica. Veja uma discussão atualizada em DEMPSTER, S.G. “Old Testament Canons’”In: HARDY II, H. H. e CARROL, M. Daniel Carroll “The State of Old Testament Studies”. Grand Rapids: Baker Academic, 2024
[22] GOODMAN, ibid
[23] WRIGHT, N.T. op. cit. n.p
[24] “Embora a cerimônia oficial do bar mitzvá judaico talvez não existisse na época de Jesus, sua analogia com os rituais romanos de passagem de idade apoiam as evidências que indicam um ritual, na cultura judaica, de ingresso oficial’’ KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017. p 216
[25] Não podemos ignorar também, ainda que não consigamos entrar em pormenores, a questão da autocompreensão de Jesus, se ele se via como o Messias ou mesmo como Deus. Concordamos com a posição cristã de que Jesus era o Deus de Israel encarnado e de que os seus primeiros seguidores, ao menos pós-páscoa, entenderam assim. Ou seja, ainda no século 1 já era bem estabelecido na doutrina, culto e literatura cristã o lugar exaltado e divino de Jesus.
[26] BAUCKHAM, Richard ‘’Relatives of Jesus” MARTIN, Ralph e DAVIDS, Peter (ed)In: Dictionary of New Testament Later and its developments”, Downers Grove, 1997, n p. Veja também BAUCKHAM, Richard.“Jude and the Relatives of Jesus in the Early Church” Edinburgh: T & T Clark, 1990
[27] WRIGHT, N.T e BIRD. Michael “he Jewish Context of Jesus and the Early Church”In: “The New Testament in its world”. London: Society for Promoting Christian Knowledge. 2019
[28] STRANGE. J.F. “Galilee”In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley E. Dictionary of New Testament Background (DNTB), Downers Grove: IVP, 2000, p 391-397. Adaptamos a profissões, referências e estágios sociais a seguir deste artigo.
[29] WRIGHT, N.T e BIRD. Michael. Op cit.
[30] Alguns podem estranhar a ausência do importante texto de 1 Macabeus, que descreve os eventos que deram origem à dinastia dos hasmoneus, e onde se crê que foi o momento de origem de grupos como os fariseus, saduceus e quramitas. Este texto fala sobre os hassidim, piedosos judeus que lutaram contra o helenismo. É possível que dos hassidim que romperam com os hasmoneus tenham surgido grupos como fariseus, mas é incerto e Macabeus, sendo propaganda pró-hasmoneia se cala sobre.
[31] BABOTA, Vasile “In the search of the origins of the Pharisees'’In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021, n.p
[32] FELDMAN, L.H “Josephus: Interpretive Methods and Tendencies’’In: Craig A. PORTER, Stanley E. (ed) DNTB, Downers Grove: IVP, 2000, p 590-595
[33] Citado por GOODMAN, Martin, “A doutrina judaica assume três formas’’In: “História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais", São Paulo: Crítica, 2020, n.p.
[34] WRIGHT, N.T. “ The Jewish Context of Jesus and the Early Church’In:“The New Testament and the people of God”. London: Society for Promoting Christian Knowledge. 1992, n p
[35] “A resposta geral de Israel à agitação foi a revolta, mas nem sempre por meio de rebelião armada. Os bandidos sociais, zelotes, sicários e pretendentes messiânicos geralmente defendiam a rebelião armada e lutavam por uma solução militar. Esses grupos, no entanto, frequentemente lutavam entre si, enfraquecendo significativamente seu impacto. A outra resposta, geralmente defendida pelos apocalípticos, profetas e mártires, acreditava em esperar em Deus, que, acreditavam eles, estava prestes a intervir e derrotar pessoalmente o inimigo. A Quarta Filosofia, geralmente identificável como tendo um vínculo genealógico com os mártires macabeus, defendia o sofrimento e o martírio para induzir Deus a libertar Israel. Nenhuma dessas respostas, contudo, foi adequada para lidar com a ameaça romana. Após a Segunda Revolta Judaica ( 132-135 d.C.), Israel perdeu sua identidade política por quase dois milênios’’ HEARD, WJ e EVANS, C.A “Revolutionary movements, Jewish” em EVANS, Craig A. PORTER, Stanley (ed) “DNTB”, Downers Grove: IVP, 2000, p 936-936.
[36] WRIGHT, N.T, Op cit.
[37] BREWER, D. Instone “Rabbinic Traditions and Writings”In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “DJG” 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 757
[38] NEUSNER, Jacob. “The rabinic tradition about the Pharisees before 70 CE: an Overview”In: CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “In quest of the historical Pharisees” Waco, Texas: Baylor University Press 2007, p 297.
[39] Mas essa avaliação não fica sem críticas e Keener pondera que “em muitos pontos, as fontes rabínicas são tudo o que temos. Quando nossas evidências são limitadas, nossas conclusões são tênues; mas alguma evidência permanece melhor do que nenhuma” e que uma fonte de alguns séculos depois de Cristo “que se move em algum lugar no continuum cultural geral da antiguidade mediterrânea tem mais probabilidade de fornecer a base para uma suposição útil e fundamentada do que um argumento moderno baseado no silêncio.” KEENER, Craig, S. “The Gospel of John : 2 Volumes.” Baker Academic. 2010, p 171
[40] COHICK, Lynn. “Pharisees"In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 678
[41] GOODMAN, Martin, “ “A doutrina judaica assume três formas’’In: “História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais,” São Paulo: Crítica, 2020, n.p.
[42] BABOTA, Vasile “In the search of the origins of the Pharisees'’In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021
[43] BABOTA, Vasile. Ibid
[44] VANDERKAM, James C. “The Pharisees and the Dead Sea Scrolls’’.In: CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “In quest of the historical Pharisees” Waco, Texas: Baylor University Press 2007. p 247
[45] MASON, S. “Pharisees’’In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley (ed) “DNTB”, Downers Grove: IVP, 2000, p 783
[46] MORRISON, Craig E. “Interpreting the name Pharisse”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021
[47] SCRÖTER, Jens. “How Close Were Jesus and the Pharisees?”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed). Op cit
[48] “Ocasionalmente, os fariseus também aparecem em evangelhos não canônicos. O Evangelho de Tomé os menciona duas vezes: o dito 39 afirma que os fariseus e os escribas tomaram as chaves do conhecimento e as esconderam, e, de acordo com o dito 102, os fariseus são como um cão dormindo na manjedoura dos bois — ele não come nem deixa os bois comerem. O Apócrifo de João menciona um fariseu chamado Arimanias (ou Arimânio) que encontra João, filho de Zebedeu, no Monte do Templo. Em Oxyrhynchus Papyri 840, um fariseu e sumo sacerdote, provavelmente chamado Levi, aparece em um diálogo crítico com Jesus sobre a purificação. Essas referências, influenciadas pelos evangelhos do Novo Testamento, revelam uma atitude crítica dos seguidores de Jesus em relação aos fariseus (e aos judeus e ao judaísmo em geral), embora permaneça duvidoso se eles tinham conhecimento real sobre os judeus em geral e os fariseus em particular. É mais provável que a oposição entre Jesus e os fariseus em textos não canônicos reflita visões opostas, como sobre o significado de rituais judaicos como a observância do sábado e a circuncisão, ou sobre ritos cristãos como o batismo, entre diferentes vertentes do cristianismo pós-70. Para uma reconstrução histórica, esses textos são, portanto, menos importantes do que os retratos dos fariseus nos evangelhos do Novo Testamento”. SCRÖTER, Jens. Ibid
[49] BAUCKHAM, Richard. “Jesus e as testemunhas oculares: os evangelhos como testemunhos de testemunhas oculares’’. São Paulo: Paulus, 2011, p 371
[50] BROWN, Jeannine K. e ROBERTS, Kyle “Matthew’’Grand Rapids : Eerdmans, 2018
[51] O tipo de pensamento que considera os evangelhos como prioritariamente revelando ou lidando com problemas de suas comunidades contemporâneas ao invés de eventos reais do passado leva a uma interpretação quase alegórica que Bauckham exemplifica no seu capítulo “Para quem os evangelhos foram escritos?’’. Ele diz: “Personagens e eventos nas histórias do evangelho são tomados para representar grupos da mesma comunidade e experiências da mesma. Os discípulos em Marcos servem como proponentes de uma cristologia theios-aner que Marcos estaria combatendo dentro de sua própria comunidade, os parentes de Jesus representam as lideranças da Jerusalém judaico-cristã, Nicodemos representa cristãos cuja cristologia inadequada os impede de romper definitivamente com as sinagogas, e assim por diante. O sucesso da missão de Jesus e seus discípulos entre os samaritanos em João 4 supostamente refletem um estádio na história da comunidade joanina quando a mesma experimentou sucesso em sua missão junto aos samaritanos’ BAUCKHAM, Richard “Para quem os evangelhos foram escritos?’In: “O mundo cristão em torno do novo testamento”: Petrópolis, Vozes. 2022, n.p
[52] SCRÖTER, Jens. “How Close Were Jesus and the Pharisees?”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed). Op cit.
[53] BROWN, Jeannine K. e ROBERTS, Kyle “Matthew’’Grand Rapids : Eerdmans, 2018, p 41
[54] PICKUP, Martin “Matthew’s and Mark’s Pharisees”In: CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “In quest of the historical Pharisees” Waco, Texas: Baylor University Press 2007, p. 94
[55] COHICK, Lynn. “Pharisees" in GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 674.
[56] SCRÖTER, Jens. “How Close Were Jesus and the Pharisees?”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed). Op cit
[57] KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017. p 81
[58] KEENER, Craig S. Ibid
[59] KEENER, Craig S. Ibid, p 58
[60] COHICK, Lynn. “Pharisees" in GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 673-678
[61] SCHNABEL, Eckhard J. “ Introduction’’In: “ Mark: An introduction and commentary” Downers Grove, InterVarsity Press. 2017, n.p
[62] COHICK, Lynn. Op cit. p 675
[63] SCHNABEL, Eckhard J. Op cit
[64] THELLMAN, Gregory S. “Scribes”In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 842
[65] Nos papiros P45 , W, Θ ƒ 1, 13
[66] COHICK, Lynn. Op cit. p 675
[67] HOEHNER, H.W. “Herodian Dinasty”In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley E. Dictionary of New Testament Background (DNTB), Downers Grove: IVP, 2000, p
[68] Contudo, o autor de Lucas-Atos sabia da atuação de fariseus e saduceus, pois isso aparece em Atos 5.
[69] KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017. p 232
[70] Embora Marshall informe: “os fariseus têm sido vistos de várias maneiras como agindo de forma amigável com Jesus, alertando-o sobre um possível perigo (M. Rese, 209-212), ou como se opondo a Jesus e, portanto, deturpando Herodes (A. Denaux*, 261-263), ou agindo em conluio com ele, ou fazendo uso do conhecimento de suas intenções de tirar Jesus da Galileia.” MARSHALL, H. “The Gospel of Luke.” Grand Rapids: Eerdmans. 1978. p 571
[71] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In: “The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p.
[72] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In:“The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p
[73] MASON, S.“Pharisees’’In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley (ed) “DNTB”, Downers Grove: IVP, 2000, p. 86
[74] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In: “The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p.
[75] BLOMBERG, Craig L. “O prenúncio da quarta busca: a reabilitação do evangelho de João”In: “Jesus, o purificador:O Evangelho de João e a quarta busca pelo Jesus histórico” São Paulo: Vida Nova, 2024. n.p
[76] CARSON, D. “The Gospel According To John’’. U.K :Apollos. 1991, p 35. Carson também comenta sobre o caminho inverso, isto é, quando João esclarece algo não explicado nos sinóticos. “O relato de João sobre um extenso ministério na Judeia é necessário para explicar diversas características dos Sinóticos, que registram um ministério galileu relativamente breve (cerca de um ano) e apenas alguns dias em Jerusalém antes da morte de Jesus. Por que, então, mesmo em Marcos (14:49) Jesus diz que ensinava nos pátios do templo "todos os dias" (NEB "dia após dia")? Como as autoridades poderiam ter ficado tão zangadas com ele a ponto de planejar sua execução, a menos que ele tivesse passado períodos anteriores na Judeia? Da mesma forma, por que a viagem final para o sul teria sido vista com tanta apreensão (Mc 10:32; cf. Mt 20:17; Lc 18:31), a menos que Jesus tivesse estado no sul em ocasiões anteriores e a animosidade dos líderes judeus já fosse evidente? O Quarto Evangelho fornece uma ocasião concreta (Jo 11,1ss). Até mesmo a capacidade de Jesus de reunir um jumento (Mc 11,1ss) e garantir um quarto superior mobiliado (Mc 14,12-16) é muito mais fácil de entender se pressupormos que ele tinha numerosos contatos na Judeia, em viagens anteriores àquela província. Nos Sinóticos, Jesus conhece a família de Maria e Marta (Lc 10,38-42), mas somente a descrição de João do ministério de Jesus no sul explica como a intimidade poderia ser mantida com uma família que vivia em Betânia.” p. 53
[77] “Após um século e meio excluindo programaticamente o Evangelho de João da pesquisa sobre Jesus por estudiosos críticos, a desistoricização de João e a desjoanificação de Jesus não podem mais ser vistas como criticamente viáveis… se todos os recursos valiosos devem ser incluídos na pesquisa sobre Jesus no século XXI, o Evangelho de João não pode mais ser ignorado em buscas criticamente úteis. A questão é como incluir João” ANDERSON, Paul N. “The John, Jesus and History Project and Fourth Quest for Jesus’’In: BOCK, D. e KOMOSZEWSKI, E. “Jesus, Skepticism, and the Problem of History.” Grand Rapids: Zondervan, 2019.
[78] “O único uso do termo por João (Jo 8:3) está em uma passagem não encontrada nos manuscritos mais antigos e é considerado pela maioria como uma interpolação posterior. Quaisquer que sejam suas origens, ele se conforma a uma cena típica de escriba-fariseu sinótico” THELLMAN, Gregory S. “Scribes”In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 843
[79] COHICK, Lynn. “Pharisees. Op cit, p. 675.
[80] CARSON, D. Ibid, p 142
[81] ATTRIDGE, Harold W. “ Pharisees in the fourth gospel and one special pharisee’’In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021, n.p
[82] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In: “The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p
[83] COHICK, Lynn. “Pharisees". Op cit, p 678.
[84] CARSON, D. Op cit, p 143
[85] ATTRIDGE, Harold W. “ Pharisees in the fourth gospel and one special pharisee’. Op cit, n.p
[86] KEENER, Craig S. “Comentário histórico-cultural da Bíblia:Novo Testamento” São Paulo: Vida Nova, 2017. p 22
[87] CARSON, D. Op cit. p 332
[88] KEENER, Craig S. Op cit, p 322
[89] KOSTER, Craig. “Theological Complexity and the Characterization of Nicodemus”In: SKINNER, C. Characters and Characterization in the Gospel of John”. T&T Clark. 2013, p 177
[90] ATTRIDGE, Harold W. “Pharisees in the fourth gospel and one special pharisee’. Op cit, n.p. Ele apresenta uma discussão proveitosa a respeito do possível contexto judaico em torno do nome e da pessoa de Nicodemos no século 1, também fazendo uso do estudo de Bauckham. Josefo cita um Gorion, envolvido na revolta de 66.dc, filho de um Nicodemos na versão latina, a versão grega lê Nicomedes. Outros dois Gorions aparecem no texto de Josefo sobre a revolta. Josefo também cita um Nicodeme (latim) enviado por Aristóbulo II a Pompeu. Isso revela a importância do nome Nicodemos entre famílias judaicas ricas e influentes da Judeia. O Talmude Babilônico Gittin 56a (séculos IV-VI) fala de três homens ricos na derrota da primeira revolta de Jerusalém, sendo um deles Naqdimon ben Gorion. Este homem aparece associado a milagres em Ta' anit 19b–20a . Um sábio anônimo diz que o verdadeiro nome de Naqdimon era Buni, e Bauckham menciona outro texto rabínico, n. Sanh. 43a, com uma lista de cinco seguidores de Jesus, sendo um deles chamado Buni. Isso leva alguns a acreditarem que Nicodemos foi lembrado como Buni. O comentário rabínico Gênesis Rabá 42:1 diz que o rabino Eliezer Ben Hircano ensinava os três homens mais ricos de Jerusalém, incluindo Naqdimon, o que faz deste um discípulo dos fariseus ou de algum rabino importante. O texto b. Ketub. 66b, 67a nos apresenta a caridade deste Naqdimon e Lam. Rab . 1:1.48, junto com outros textos falam dos sofrimentos de sua família, especialmente sua filha Miriam no pós-guerra em Jerusalém. Os dados são complexos, mas curiosos e Attridge conclui no capítulo supracitado: “Esses relatos da antiguidade tardia refletem tradições judaicas, talvez em alguns casos influenciadas por fontes cristãs, sobre os discípulos de Jesus. Talvez também contenham algum elemento de historicidade. John A. T. Robinson acreditava que o Nicodemos da época de Jesus era o avô do rabino Naqdimon. Bauckham prefere a possibilidade de que a figura da época de Jesus fosse tio do Nicodemos mencionado por Josefo e irmão de um Gurion, 19 mas tais identificações permanecem especulativas.”
[91] “As violações não intencionais do sábado ou as divergências sobre o que consttuía o trabalho (questões que eram discutidas nos tribunais judaicos) costumavam ser tratadas de forma branda; a pena de morte (Êx 31.14; 35.2) só era considerada adequada para os que rejeitavam o sábado de modo obstinado. As penas que de fato eram aplicadas raramente excediam à multa ou ao açoitamento público nas sinagogas. O principal grupo fariseu do período, o dos seguidores de Shammai , proibia a oração pelos enfermos no sábado, mas não tentava matar os fariseus seguidores de Hillel por permitirem esse tipo de oração (embora o conflito entre os dois grupos às vezes se intensificasse). Mais uma vez, assim como muitos seres humanos, os oponentes de Jesus, aqui, vão muito além das próprias tradições.” KEENER, Craig S. Op cit, p 152.
[1] Graduando em Teologia pela Faculdade Internacional Cidade Viva. Email: Dougla.sousa@cru.org.br
[2] No que tem sido chamado de segunda busca do Jesus histórico, parte da metodologia envolvia rejeitar como autêntico em Jesus tudo o que pudesse parecer concordar com o judaísmo. O mesmo também foi aplicado em relação às crenças do cristianismo posterior, ou seja, o Jesus autêntico, segundo estes autores, deveria ser diferente do cristianismo e do judaísmo.
[3] SILVA, Pedro. “Jesus e Paulo dentro do Judaísmo: Abordagens históricas e perspectivas recentes” Revista Teológica Jonathan Edwards – v.3, n.1, p.7-35, maio. 2023. Disponível em https://www.stjedwards.com/revista
[4] HELYER, Larry. “The Life and Witness of Peter”. Downers Grove: IVP. 2012
[5] Uma visão sucinta e rápida, mas magistral considerando o ambiente judaico está no ensaio de BAUCKHAM, Richard, “Tiago no centro”In: “O Mundo cristão em torno do novo testamento’’; Veja também CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “The brother of Jesus: James the just and his mission”. Louisville, London: Westminster John Knox Press, 2001
[6] COLLINS, John J. “A imaginação apocalíptica: Uma introdução à literatura apocalíptica judaica”. São Paulo: Paulus, 2022
[7] Atenção especial é dada em KEENER, Craig. “Comentário exegético Atos-Volume 01: Atos 1.1-à 2.47” Rio de Janeiro: CPAD. 2022
[8] Nenhuma obra hoje importante sobre o novo testamento deixa de lidar com o mundo judaico tanto da região da judeia quanto da diáspora. Veja SCOTT, J. Julius JR. “Origens judaicas do Novo Testamento: Um estudo do judaísmo intertestamentário”. São Paulo: Shedd Publicações
[9] BEILBY J. K. e EDDY P. R. (eds). “The quest for the historical Jesus: an introduction”In: ‘The Historical Jesus: Five Views”. Downers Grove: IVP Academic. 2009, n.p
[10] VANDERKAM, James C. “Judaism in the land of Israel” in COLLNS, John J. HARLOW, Daniel C. “The Eerdmans Dictionary of Early Judaism.” Grand Rapids, Michigan: Eerdmans. 2010, p. 57
[11] SANDERS, E.P. “Judaism: Practice and Belief, 63 BCE-66 CE”. Philadelphia: Trinity Press International, 1992
[12] COHICK, Lynn. “Judaism common" in GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 452-257
[13] Veja o capítulo 8 Story, symbol, praxys: Elements of Israel’s worldview”In: WRIGHT, N.T. “The New Testament and the people of God”. London: Society for Promoting Christian Knowledge. 1992, n. p
[14] COHICK, Lynn. Op cit. p. 456
[15] GOODMAN, Martin, “Preocupações e expectativas’’In: “História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais” São Paulo: Crítica, 2020, n.p.
[16] WRIGHT, N.T. “The developing diversity” op. cit. n.p
[17] GOODMAN, Martin. “A doutrina judaica assume três formas’’Op cit. n.p.
[18] Para mais detalhes sobre este período veja REINKE, André. Aqueles da Bíblia. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil, 2021; DE SILVA, David. "Período helenístico" in ARNOLD, Bill T.; HESS, Richard. "História do antigo Israel: uma introdução ao tema e às fontes". Rio de Janeiro: Central Gospel. 2020; WON, Paulo. "E Deus falou na língua dos homens: uma introdução à bíblia". Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.
[19] Angelologia e demonologia mais complexa, diferentes técnicas de interpretação bíblica, práticas de batismo, as sinagogas fazem parte disso.
[20] HEARD, WJ e EVANS, C.A “Revolutionary Movements, Jewish”In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley E. Dictionary of New Testament Background (DNTB), Downers Grove: IVP, 2000, p 936-936
[21] Este assunto também toca o tema do cânon da bíblia hebraica. Veja uma discussão atualizada em DEMPSTER, S.G. “Old Testament Canons’”In: HARDY II, H. H. e CARROL, M. Daniel Carroll “The State of Old Testament Studies”. Grand Rapids: Baker Academic, 2024
[22] GOODMAN, ibid
[23] WRIGHT, N.T. op. cit. n.p
[24] “Embora a cerimônia oficial do bar mitzvá judaico talvez não existisse na época de Jesus, sua analogia com os rituais romanos de passagem de idade apoiam as evidências que indicam um ritual, na cultura judaica, de ingresso oficial’’ KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017. p 216
[25] Não podemos ignorar também, ainda que não consigamos entrar em pormenores, a questão da autocompreensão de Jesus, se ele se via como o Messias ou mesmo como Deus. Concordamos com a posição cristã de que Jesus era o Deus de Israel encarnado e de que os seus primeiros seguidores, ao menos pós-páscoa, entenderam assim. Ou seja, ainda no século 1 já era bem estabelecido na doutrina, culto e literatura cristã o lugar exaltado e divino de Jesus.
[26] BAUCKHAM, Richard ‘’Relatives of Jesus” MARTIN, Ralph e DAVIDS, Peter (ed)In: Dictionary of New Testament Later and its developments”, Downers Grove, 1997, n p. Veja também BAUCKHAM, Richard.“Jude and the Relatives of Jesus in the Early Church” Edinburgh: T & T Clark, 1990
[27] WRIGHT, N.T e BIRD. Michael “he Jewish Context of Jesus and the Early Church”In: “The New Testament in its world”. London: Society for Promoting Christian Knowledge. 2019
[28] STRANGE. J.F. “Galilee”In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley E. Dictionary of New Testament Background (DNTB), Downers Grove: IVP, 2000, p 391-397. Adaptamos a profissões, referências e estágios sociais a seguir deste artigo.
[29] WRIGHT, N.T e BIRD. Michael. Op cit.
[30] Alguns podem estranhar a ausência do importante texto de 1 Macabeus, que descreve os eventos que deram origem à dinastia dos hasmoneus, e onde se crê que foi o momento de origem de grupos como os fariseus, saduceus e quramitas. Este texto fala sobre os hassidim, piedosos judeus que lutaram contra o helenismo. É possível que dos hassidim que romperam com os hasmoneus tenham surgido grupos como fariseus, mas é incerto e Macabeus, sendo propaganda pró-hasmoneia se cala sobre.
[31] BABOTA, Vasile “In the search of the origins of the Pharisees'’In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021, n.p
[32] FELDMAN, L.H “Josephus: Interpretive Methods and Tendencies’’In: Craig A. PORTER, Stanley E. (ed) DNTB, Downers Grove: IVP, 2000, p 590-595
[33] Citado por GOODMAN, Martin, “A doutrina judaica assume três formas’’In: “História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais", São Paulo: Crítica, 2020, n.p.
[34] WRIGHT, N.T. “ The Jewish Context of Jesus and the Early Church’In:“The New Testament and the people of God”. London: Society for Promoting Christian Knowledge. 1992, n p
[35] “A resposta geral de Israel à agitação foi a revolta, mas nem sempre por meio de rebelião armada. Os bandidos sociais, zelotes, sicários e pretendentes messiânicos geralmente defendiam a rebelião armada e lutavam por uma solução militar. Esses grupos, no entanto, frequentemente lutavam entre si, enfraquecendo significativamente seu impacto. A outra resposta, geralmente defendida pelos apocalípticos, profetas e mártires, acreditava em esperar em Deus, que, acreditavam eles, estava prestes a intervir e derrotar pessoalmente o inimigo. A Quarta Filosofia, geralmente identificável como tendo um vínculo genealógico com os mártires macabeus, defendia o sofrimento e o martírio para induzir Deus a libertar Israel. Nenhuma dessas respostas, contudo, foi adequada para lidar com a ameaça romana. Após a Segunda Revolta Judaica ( 132-135 d.C.), Israel perdeu sua identidade política por quase dois milênios’’ HEARD, WJ e EVANS, C.A “Revolutionary movements, Jewish” em EVANS, Craig A. PORTER, Stanley (ed) “DNTB”, Downers Grove: IVP, 2000, p 936-936.
[36] WRIGHT, N.T, Op cit.
[37] BREWER, D. Instone “Rabbinic Traditions and Writings”In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “DJG” 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 757
[38] NEUSNER, Jacob. “The rabinic tradition about the Pharisees before 70 CE: an Overview”In: CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “In quest of the historical Pharisees” Waco, Texas: Baylor University Press 2007, p 297.
[39] Mas essa avaliação não fica sem críticas e Keener pondera que “em muitos pontos, as fontes rabínicas são tudo o que temos. Quando nossas evidências são limitadas, nossas conclusões são tênues; mas alguma evidência permanece melhor do que nenhuma” e que uma fonte de alguns séculos depois de Cristo “que se move em algum lugar no continuum cultural geral da antiguidade mediterrânea tem mais probabilidade de fornecer a base para uma suposição útil e fundamentada do que um argumento moderno baseado no silêncio.” KEENER, Craig, S. “The Gospel of John : 2 Volumes.” Baker Academic. 2010, p 171
[40] COHICK, Lynn. “Pharisees"In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 678
[41] GOODMAN, Martin, “ “A doutrina judaica assume três formas’’In: “História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais,” São Paulo: Crítica, 2020, n.p.
[42] BABOTA, Vasile “In the search of the origins of the Pharisees'’In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021
[43] BABOTA, Vasile. Ibid
[44] VANDERKAM, James C. “The Pharisees and the Dead Sea Scrolls’’.In: CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “In quest of the historical Pharisees” Waco, Texas: Baylor University Press 2007. p 247
[45] MASON, S. “Pharisees’’In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley (ed) “DNTB”, Downers Grove: IVP, 2000, p 783
[46] MORRISON, Craig E. “Interpreting the name Pharisse”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021
[47] SCRÖTER, Jens. “How Close Were Jesus and the Pharisees?”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed). Op cit
[48] “Ocasionalmente, os fariseus também aparecem em evangelhos não canônicos. O Evangelho de Tomé os menciona duas vezes: o dito 39 afirma que os fariseus e os escribas tomaram as chaves do conhecimento e as esconderam, e, de acordo com o dito 102, os fariseus são como um cão dormindo na manjedoura dos bois — ele não come nem deixa os bois comerem. O Apócrifo de João menciona um fariseu chamado Arimanias (ou Arimânio) que encontra João, filho de Zebedeu, no Monte do Templo. Em Oxyrhynchus Papyri 840, um fariseu e sumo sacerdote, provavelmente chamado Levi, aparece em um diálogo crítico com Jesus sobre a purificação. Essas referências, influenciadas pelos evangelhos do Novo Testamento, revelam uma atitude crítica dos seguidores de Jesus em relação aos fariseus (e aos judeus e ao judaísmo em geral), embora permaneça duvidoso se eles tinham conhecimento real sobre os judeus em geral e os fariseus em particular. É mais provável que a oposição entre Jesus e os fariseus em textos não canônicos reflita visões opostas, como sobre o significado de rituais judaicos como a observância do sábado e a circuncisão, ou sobre ritos cristãos como o batismo, entre diferentes vertentes do cristianismo pós-70. Para uma reconstrução histórica, esses textos são, portanto, menos importantes do que os retratos dos fariseus nos evangelhos do Novo Testamento”. SCRÖTER, Jens. Ibid
[49] BAUCKHAM, Richard. “Jesus e as testemunhas oculares: os evangelhos como testemunhos de testemunhas oculares’’. São Paulo: Paulus, 2011, p 371
[50] BROWN, Jeannine K. e ROBERTS, Kyle “Matthew’’Grand Rapids : Eerdmans, 2018
[51] O tipo de pensamento que considera os evangelhos como prioritariamente revelando ou lidando com problemas de suas comunidades contemporâneas ao invés de eventos reais do passado leva a uma interpretação quase alegórica que Bauckham exemplifica no seu capítulo “Para quem os evangelhos foram escritos?’’. Ele diz: “Personagens e eventos nas histórias do evangelho são tomados para representar grupos da mesma comunidade e experiências da mesma. Os discípulos em Marcos servem como proponentes de uma cristologia theios-aner que Marcos estaria combatendo dentro de sua própria comunidade, os parentes de Jesus representam as lideranças da Jerusalém judaico-cristã, Nicodemos representa cristãos cuja cristologia inadequada os impede de romper definitivamente com as sinagogas, e assim por diante. O sucesso da missão de Jesus e seus discípulos entre os samaritanos em João 4 supostamente refletem um estádio na história da comunidade joanina quando a mesma experimentou sucesso em sua missão junto aos samaritanos’ BAUCKHAM, Richard “Para quem os evangelhos foram escritos?’In: “O mundo cristão em torno do novo testamento”: Petrópolis, Vozes. 2022, n.p
[52] SCRÖTER, Jens. “How Close Were Jesus and the Pharisees?”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed). Op cit.
[53] BROWN, Jeannine K. e ROBERTS, Kyle “Matthew’’Grand Rapids : Eerdmans, 2018, p 41
[54] PICKUP, Martin “Matthew’s and Mark’s Pharisees”In: CHILTON, Bruce; NEUSNER, Jacob. “In quest of the historical Pharisees” Waco, Texas: Baylor University Press 2007, p. 94
[55] COHICK, Lynn. “Pharisees" in GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 674.
[56] SCRÖTER, Jens. “How Close Were Jesus and the Pharisees?”In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed). Op cit
[57] KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017. p 81
[58] KEENER, Craig S. Ibid
[59] KEENER, Craig S. Ibid, p 58
[60] COHICK, Lynn. “Pharisees" in GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 673-678
[61] SCHNABEL, Eckhard J. “ Introduction’’In: “ Mark: An introduction and commentary” Downers Grove, InterVarsity Press. 2017, n.p
[62] COHICK, Lynn. Op cit. p 675
[63] SCHNABEL, Eckhard J. Op cit
[64] THELLMAN, Gregory S. “Scribes”In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 842
[65] Nos papiros P45 , W, Θ ƒ 1, 13
[66] COHICK, Lynn. Op cit. p 675
[67] HOEHNER, H.W. “Herodian Dinasty”In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley E. Dictionary of New Testament Background (DNTB), Downers Grove: IVP, 2000, p
[68] Contudo, o autor de Lucas-Atos sabia da atuação de fariseus e saduceus, pois isso aparece em Atos 5.
[69] KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017. p 232
[70] Embora Marshall informe: “os fariseus têm sido vistos de várias maneiras como agindo de forma amigável com Jesus, alertando-o sobre um possível perigo (M. Rese, 209-212), ou como se opondo a Jesus e, portanto, deturpando Herodes (A. Denaux*, 261-263), ou agindo em conluio com ele, ou fazendo uso do conhecimento de suas intenções de tirar Jesus da Galileia.” MARSHALL, H. “The Gospel of Luke.” Grand Rapids: Eerdmans. 1978. p 571
[71] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In: “The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p.
[72] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In:“The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p
[73] MASON, S.“Pharisees’’In: EVANS, Craig A. PORTER, Stanley (ed) “DNTB”, Downers Grove: IVP, 2000, p. 86
[74] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In: “The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p.
[75] BLOMBERG, Craig L. “O prenúncio da quarta busca: a reabilitação do evangelho de João”In: “Jesus, o purificador:O Evangelho de João e a quarta busca pelo Jesus histórico” São Paulo: Vida Nova, 2024. n.p
[76] CARSON, D. “The Gospel According To John’’. U.K :Apollos. 1991, p 35. Carson também comenta sobre o caminho inverso, isto é, quando João esclarece algo não explicado nos sinóticos. “O relato de João sobre um extenso ministério na Judeia é necessário para explicar diversas características dos Sinóticos, que registram um ministério galileu relativamente breve (cerca de um ano) e apenas alguns dias em Jerusalém antes da morte de Jesus. Por que, então, mesmo em Marcos (14:49) Jesus diz que ensinava nos pátios do templo "todos os dias" (NEB "dia após dia")? Como as autoridades poderiam ter ficado tão zangadas com ele a ponto de planejar sua execução, a menos que ele tivesse passado períodos anteriores na Judeia? Da mesma forma, por que a viagem final para o sul teria sido vista com tanta apreensão (Mc 10:32; cf. Mt 20:17; Lc 18:31), a menos que Jesus tivesse estado no sul em ocasiões anteriores e a animosidade dos líderes judeus já fosse evidente? O Quarto Evangelho fornece uma ocasião concreta (Jo 11,1ss). Até mesmo a capacidade de Jesus de reunir um jumento (Mc 11,1ss) e garantir um quarto superior mobiliado (Mc 14,12-16) é muito mais fácil de entender se pressupormos que ele tinha numerosos contatos na Judeia, em viagens anteriores àquela província. Nos Sinóticos, Jesus conhece a família de Maria e Marta (Lc 10,38-42), mas somente a descrição de João do ministério de Jesus no sul explica como a intimidade poderia ser mantida com uma família que vivia em Betânia.” p. 53
[77] “Após um século e meio excluindo programaticamente o Evangelho de João da pesquisa sobre Jesus por estudiosos críticos, a desistoricização de João e a desjoanificação de Jesus não podem mais ser vistas como criticamente viáveis… se todos os recursos valiosos devem ser incluídos na pesquisa sobre Jesus no século XXI, o Evangelho de João não pode mais ser ignorado em buscas criticamente úteis. A questão é como incluir João” ANDERSON, Paul N. “The John, Jesus and History Project and Fourth Quest for Jesus’’In: BOCK, D. e KOMOSZEWSKI, E. “Jesus, Skepticism, and the Problem of History.” Grand Rapids: Zondervan, 2019.
[78] “O único uso do termo por João (Jo 8:3) está em uma passagem não encontrada nos manuscritos mais antigos e é considerado pela maioria como uma interpolação posterior. Quaisquer que sejam suas origens, ele se conforma a uma cena típica de escriba-fariseu sinótico” THELLMAN, Gregory S. “Scribes”In: GREEN, Joel. BROWN, Jeannine K, PERRIN, Nicholas. “Dictionary of Jesus and the Gospels”. (DJG) 2. ed. Downers Grove, InterVarsity Press. 2013. p. 843
[79] COHICK, Lynn. “Pharisees. Op cit, p. 675.
[80] CARSON, D. Ibid, p 142
[81] ATTRIDGE, Harold W. “ Pharisees in the fourth gospel and one special pharisee’’In: SIEVERS, Joseph; LEVINE, Amy-Jill (ed) “The Pharisees”. Grand Rapids : Eerdmans., 2021, n.p
[82] YINGER , Kent L. “Jesus and the Pharisees: Introductory Matters”In: “The Pharisees Their History, Character, and New Testament Portrait”, Eugene, OR: Cascade Books, 2022, n.p
[83] COHICK, Lynn. “Pharisees". Op cit, p 678.
[84] CARSON, D. Op cit, p 143
[85] ATTRIDGE, Harold W. “ Pharisees in the fourth gospel and one special pharisee’. Op cit, n.p
[86] KEENER, Craig S. “Comentário histórico-cultural da Bíblia:Novo Testamento” São Paulo: Vida Nova, 2017. p 22
[87] CARSON, D. Op cit. p 332
[88] KEENER, Craig S. Op cit, p 322
[89] KOSTER, Craig. “Theological Complexity and the Characterization of Nicodemus”In: SKINNER, C. Characters and Characterization in the Gospel of John”. T&T Clark. 2013, p 177
[90] ATTRIDGE, Harold W. “Pharisees in the fourth gospel and one special pharisee’. Op cit, n.p. Ele apresenta uma discussão proveitosa a respeito do possível contexto judaico em torno do nome e da pessoa de Nicodemos no século 1, também fazendo uso do estudo de Bauckham. Josefo cita um Gorion, envolvido na revolta de 66.dc, filho de um Nicodemos na versão latina, a versão grega lê Nicomedes. Outros dois Gorions aparecem no texto de Josefo sobre a revolta. Josefo também cita um Nicodeme (latim) enviado por Aristóbulo II a Pompeu. Isso revela a importância do nome Nicodemos entre famílias judaicas ricas e influentes da Judeia. O Talmude Babilônico Gittin 56a (séculos IV-VI) fala de três homens ricos na derrota da primeira revolta de Jerusalém, sendo um deles Naqdimon ben Gorion. Este homem aparece associado a milagres em Ta' anit 19b–20a . Um sábio anônimo diz que o verdadeiro nome de Naqdimon era Buni, e Bauckham menciona outro texto rabínico, n. Sanh. 43a, com uma lista de cinco seguidores de Jesus, sendo um deles chamado Buni. Isso leva alguns a acreditarem que Nicodemos foi lembrado como Buni. O comentário rabínico Gênesis Rabá 42:1 diz que o rabino Eliezer Ben Hircano ensinava os três homens mais ricos de Jerusalém, incluindo Naqdimon, o que faz deste um discípulo dos fariseus ou de algum rabino importante. O texto b. Ketub. 66b, 67a nos apresenta a caridade deste Naqdimon e Lam. Rab . 1:1.48, junto com outros textos falam dos sofrimentos de sua família, especialmente sua filha Miriam no pós-guerra em Jerusalém. Os dados são complexos, mas curiosos e Attridge conclui no capítulo supracitado: “Esses relatos da antiguidade tardia refletem tradições judaicas, talvez em alguns casos influenciadas por fontes cristãs, sobre os discípulos de Jesus. Talvez também contenham algum elemento de historicidade. John A. T. Robinson acreditava que o Nicodemos da época de Jesus era o avô do rabino Naqdimon. Bauckham prefere a possibilidade de que a figura da época de Jesus fosse tio do Nicodemos mencionado por Josefo e irmão de um Gurion, 19 mas tais identificações permanecem especulativas.”
[91] “As violações não intencionais do sábado ou as divergências sobre o que consttuía o trabalho (questões que eram discutidas nos tribunais judaicos) costumavam ser tratadas de forma branda; a pena de morte (Êx 31.14; 35.2) só era considerada adequada para os que rejeitavam o sábado de modo obstinado. As penas que de fato eram aplicadas raramente excediam à multa ou ao açoitamento público nas sinagogas. O principal grupo fariseu do período, o dos seguidores de Shammai , proibia a oração pelos enfermos no sábado, mas não tentava matar os fariseus seguidores de Hillel por permitirem esse tipo de oração (embora o conflito entre os dois grupos às vezes se intensificasse). Mais uma vez, assim como muitos seres humanos, os oponentes de Jesus, aqui, vão muito além das próprias tradições.” KEENER, Craig S. Op cit, p 152.
Referências
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