A Mensagem do Batismo de Jesus no Evangelho de Marcos
Matheus Ramos de Avila[1]
Resumo
Resumo: O batismo de Jesus é um evento narrado em todos os evangelhos sinóticos, sendo o relato de Marcos a fonte no qual Lucas e Mateus construíram seus respectivos relatos. Neste sentido tentaremos compreender qual mensagem o evangelho de Marcos pretendia comunicar com sua narrativa do batismo de Jesus, pois se tivermos uma compreensão da mensagem do evangelho de Marcos, também poderemos entender melhor os outros evangelhos. A mensagem que Marcos pretende transmitir é de que o novo de Deus enfim chegou!
Palavras-chave: Batismo, escatologia, perdão dos pecados, mensagem.
Abstract: The baptism of Jesus is an event narrated in all synoptic gospels, with Mark's account being the source on which Luke and Matthew built their respective accounts. In this sense, we will try to understand what message Mark's gospel intended to communicate with its narrative of Jesus' baptism, because if we have an understanding of the message of Mark's gospel, we will also be able to better understand the other gospels. The message that Mark intends to convey is that God's new has finally arrived!
Keywords: Baptism, eschatology, forgiveness of sins, message.
Resumo: O batismo de Jesus é um evento narrado em todos os evangelhos sinóticos, sendo o relato de Marcos a fonte no qual Lucas e Mateus construíram seus respectivos relatos. Neste sentido tentaremos compreender qual mensagem o evangelho de Marcos pretendia comunicar com sua narrativa do batismo de Jesus, pois se tivermos uma compreensão da mensagem do evangelho de Marcos, também poderemos entender melhor os outros evangelhos. A mensagem que Marcos pretende transmitir é de que o novo de Deus enfim chegou!
Palavras-chave: Batismo, escatologia, perdão dos pecados, mensagem.
Abstract: The baptism of Jesus is an event narrated in all synoptic gospels, with Mark's account being the source on which Luke and Matthew built their respective accounts. In this sense, we will try to understand what message Mark's gospel intended to communicate with its narrative of Jesus' baptism, because if we have an understanding of the message of Mark's gospel, we will also be able to better understand the other gospels. The message that Mark intends to convey is that God's new has finally arrived!
Keywords: Baptism, eschatology, forgiveness of sins, message.
Artigo
1. Introdução
O batismo de Jesus é um evento narrado em todos os evangelhos sinóticos. Por isso, muitos afirmam que esse é um evento da vida de Jesus que seguramente aconteceu. Um dos motivos para se confiar nisso é o fato de que essa é uma história que muitos poderiam considerar uma boa ideia omiti-la, caso esteja tentando convencer outros de que Jesus é o Senhor — ainda mais nos termos propostos pelos evangelhos. É perceptível, afirma Morna Hooker, que os evangelistas apresentam um certo “constrangimento” com a narrativa do batismo de Jesus. Até mesmo o não-canônico evangelho aos Hebreus demonstra esse “constrangimento” ao escrever o diálogo entre Jesus e sua mãe: “Eis que a mãe do Senhor e Seus irmãos lhe disseram: "João Batista batiza a remissão dos pecados. Vamos lá e sejamos batizados por ele". Mas Ele lhes disse: "Que pecado cometi eu para ir e ser batizado por ele? A menos que por acaso esta mesma afirmação que fiz é ignorância”. [2]
Mesmo sendo uma narrativa constrangedora, os evangelistas insistem em narrar esse evento, cada qual à sua maneira, de acordo com seus propósitos. No caso de Lucas diminuindo o relato, ao ponto de que seu relato sobre o batismo de Jesus consiga ser ainda menor do que o de Marcos. No caso de Mateus oferecendo uma explicação de que aquilo aconteceu para que “se cumprisse a justiça” (3:15). Marcos, porém, parece não possuir nenhum embaraço com as dificuldades que o seu relato poderia gerar. Afinal de contas, João Batista pregava o “batismo de arrependimento para o perdão dos pecados” (Mc 1:4, cf. Mt 3:3; Lc 3:3) os sinóticos afirmam que o batismo de João Batista acontecia após se confessar os pecados (cf. Mc 1:5, e.g. Mt 3:6). [3][4]
Considerando que o estudo do problema sinótico se faz necessário para compreender melhor as tendências e ênfases de cada autor. Apesar de existir debates acerca de outras fontes, entende-se que o evangelho de Marcos é a principal fonte de Mateus e Lucas. Assim sendo, para se compreender de forma mais profunda certa perícope de dupla ou tripla tradição em Mateus e Lucas, deve-se estudar a forma como a mesma foi recebida de Marcos. Por isso, neste artigo tentaremos compreender qual mensagem o evangelho de Marcos pretendia comunicar com sua narrativa do batismo de Jesus, pois se tivermos uma compreensão da mensagem do evangelho de Marcos, também poderemos entender melhor os outros evangelhos; afinal de contas, tanto os momentos em que Mateus e Lucas seguem Marcos, tanto os momentos em que eles seguem um outro caminho, modificando ou omitindo Marcos, revela muito sobre como eles pensam. Em outras palavras, o problema sinótico pode nos revelar muito sobre a teologia individual de cada evangelista. [5][6]
O evangelho de Marcos é um dos textos que os intérpretes mais encontram dificuldades no manuseio. A forma direta e apressada de suas narrativas, as poucas explicações, a pequena quantidade de ensinos faz com que ele seja preterido sempre que comparado com os outros sinóticos. Não é muito difícil encontrar pessoas que tenham a sensação de que Marcos não contou a história por completo. Não é incomum que alguém leia algum texto do evangelho de Marcos e complemente o que está ali disposto com informações de outro evangelista. Esse tipo de movimento pode fazer com que a mensagem de Marcos seja diluída.
Marcos inicia seu evangelho fazendo uma declaração sobre o que é esse texto, uma exposição do evangelho e sobre quem é este evangelho, Jesus Cristo o filho de Deus (1:1). Essa é uma declaração muito forte. O restante do evangelho de Marcos tem como objetivo descrever o evangelho do filho de Deus. Ele continua fazendo referência e combinação de três textos do Antigo Testamento: Êxodo 23:20, Isaías 40:3 e Malaquias 3:1. Os dois primeiros textos fazem referência à preparação de um caminho, sendo que o texto de Êxodo fala sobre um anjo preparando o caminho, o segundo faz referência a uma “voz” no deserto, enquanto o último faz referência a Elias, aquele que prepararia o caminho para o Senhor.
Dessa forma João Batista apareceu (egeneto) no deserto. Quem é esse homem? Qual a sua origem? O evangelho de Marcos não nos dá nenhuma informação. O que sabemos é que a sua entrada na narrativa serve para cumprir os oráculos divinos. Dessa forma, “Deus entra na narrativa por meio das palavras de seu profeta”. Ele é a voz que surgiria no deserto. A catena de textos da Bíblia hebraica falavam sobre ele. O uso dos textos do Êxodo, Isaías e Malaquias tem a “intenção de mostrar que o Batista é o anjo do Senhor que caminhou adiante do povo escolhido no deserto.” [7][8]
Apesar de normalmente o deserto ser associado com escassez, o deserto se tornou um lugar associado com a ideia de um tempo de graça, visto que Deus havia conduzido Israel no deserto após o êxodo. Moisés. Elias e Davi tiveram de fugir para o deserto (Ex 2:15; 1 Sm 23:14; 1 Rs 19:3-4); da mesma forma, Jesus irá aparecer no deserto e em diversos momentos na narrativa de Marcos irá retornar ao deserto (1:35, 45; 6:31-32, 35; 8:4). Como nos lembra Boring, para Israel, o deserto é o lugar de novos começos, o lugar onde eles tiveram de tomar a decisão de entrar ou não em aliança com Deus, onde de fato eles se tornaram povo de Deus (cf. Dt 29:19; 30:19) o lugar onde os profetas convocaram o povo para um novo começo (cf. Jr 2:2; Os 2:14; 9:14), e de onde viria o novo êxodo
Otto Piper afirma que “o deserto não é apenas um lugar de solitude, distante da vida agitada da cidade e da pressão do trabalho, mas também simboliza o intervalo entre a era pré-messiânica e a consumação, entre a libertação e a bem-aventurança final.” Assim sendo, o deserto não evoca somente a ideia da graça, onde a mão de Deus conduz o povo no êxodo, mas também simboliza o estado do povo que ainda não chegou ao seu destino final. Se por um lado temos o cuidado divino, por outro lado sabemos que o povo ainda não estava pronto para entrar na terra prometida. De qualquer maneira, se esperava que a manifestação da salvação e o Messias viessem do deserto. Este foi justamente neste lugar onde João Batista apareceu.[9][10][11]
João Batista estava batizando e pregando, Marcos ligava essas duas atividades de forma íntima. Ele proclamava um “batismo de arrependimento”. O batismo estava tão conectado com a pessoa de João, que a ação de batizar se tornou uma espécie de sobrenome para ele. Dessa forma, somos apresentados a João Batista. O verbo grego baptizō significa mergulhar, imergir, submergir e pode ser utilizado, como afirma Schnabel, para falar da ação de cravar uma faca em algum animal sacrificado, ou para falar sobre algum navio que submergiu na água, sobre algum tecido que é mergulhado em tinta e pode ser utilizado ainda, de forma metafórica, para falar sobre pessoas que estão imersas em dívidas, que foram vencidas em discussões ou até mesmo sobre pessoas que são dominadas por suas paixões.[12][13][14]
Por que João Batista estava batizando pessoas? Qual o significado deste ato? Em seu estudo sobre o batismo de João, Joel Marcus busca entender como entender a truncada expressão em 1:4 que afirma que João Batista estava “pregando um batismo de arrependimento [βάπτισμα μετανοίας] para o perdão dos pecados”. Era um batismo que consistia em arrependimento (genitivo de conteúdo)? Um batismo que resultava do arrependimento (genitivo de fonte)? O batismo de um arrependido (genitivo adjetivo)? Todas são possibilidades aceitáveis. Após analisar a descrição que Josefo faz de João, os paralelos veterotestamentários, a polêmica que os primeiros pais da igreja fazem com a pessoa de João Batista levam o autor a concluir que ele entendia a si mesmo como o pregador das boas novas de que a vitória escatológica de Deus já estava se manifestando em seu ministério. Ele era um transmissor da salvação. O tempo presente era o momento final para o arrependimento, visto que o Cristo está chegando. Assim sendo, [15][16]
João enxergava o seu batismo não como um rito preparatório [para a salvação futura], mas como um sacramento da salvação. Para João, o poder da nova era de Deus já estava invadindo a esfera terrena, limpando definitivamente tanto da impureza ritual quanto dos pecados, todos aqueles que iam até ele se batizar. E essa limpeza era necessária, e ela aconteceu independentemente da posição do batizado dentro da comunidade judaica— quer o batizando fosse judeu ou não. [17]
Ou como afirma Eugene Boring, “a ordem marcana não deve ser revertida, como se a sua mensagem fosse um moralista ‘você deve se arrepender’, no qual o batismo se tornou um símbolo. João não proclamou arrependimento, mas o batismo.” Assim sendo, o foco da pregação de João era o batismo em si; não era o arrependimento como a ‘disposição de coração’ correta ou algo do tipo. É claro que o batismo está intimamente ligado ao arrependimento, mas o ritual possuía um significado e, mais importante, comunicava algo. A correta ‘disposição do coração’ — um ‘coração’ arrependido — não era o foco, mas era o batismo que efetuava a purificação tanto ritual quanto moral. Dessa forma, se entendia que o batismo daquela pessoas as purificavam para a chegada do “Mais Forte”.[18]
Todos da Judeia e de Jerusalém iam até ele para se batizar no rio Jordão enquanto confessavam seus pecados. Obviamente o todos de Marcos pode ser considerado uma hipérbole ou um exagero, mas o que o autor pretende comunicar é o impacto e o sucesso do ministério de João Batista. Deus estava agindo e as pessoas estavam ouvindo por meio do ministério de João Batista. Todos da Judéia e todos de Jerusalém iam até ele. Mas todos iam até João Batista não por causa dele, mas por causa daquele sobre quem ele anunciava.
Toda essa movimentação estava acontecendo no rio Jordão. A menção a esse rio é significativa por este ser o principal rio de Israel. Em uma ação que rememora o êxodo, Elias abre o rio e o atravessa. Foi diante do rio Jordão que ele foi elevado aos céus. Eliseu posteriormente divide o rio Jordão no meio e o atravessa (2 Rs 2:1-15). Nesse rio, instruído por Eliseu, o rei estrangeiro Naamã recebe a instrução de se lavar neste rio, inicialmente ele se indigna com a possibilidade de que o rio Jordão seja melhor do que os rios de Damasco porém ele acabou indo se lavar ali e após ele se lavar (cf. 2 Rs 5:10-11). Para Adela Yarbro Collins, isso comunica a ideia de que o rio Jordão de fato era mais poderoso do que os outros rios e que tanto a terra de Israel quanto o seu rio são santos. Soma-se a isso o fato de que foi pelo rio Jordão que o povo de Israel entrou na terra prometida, em um evento que relembra a passagem do mar Vermelho. Pode ser significativo também o fato de que não somente as pessoas da Judeia, mas principalmente de Jerusalém estavam indo em direção a João Batista em busca do perdão dos pecados — afinal de contas, o esperado é que as pessoas se movam em direção ao Templo de Jerusalém, não o contrário. [19]
Em Marcos, a pregação de João Batista pode resumida a este ponto: a vinda daquele que é mais poderoso. A impressão que temos é de que Marcos está mais preocupado com a dieta e com as roupas de João do que com a sua pregação. Ele faz questão de falar sobre a indumentária de João Batista. Ele se veste de maneira pouco usual — até mesmo para os padrões daquela época: usava roupas feitas de pêlos de camelo e usava um cinto de couro na cintura. Além disso, a sua alimentação se destacava: ele comia gafanhotos e mel silvestre. Muito além da referência a Elias de Malaquias, a forma como Marcos apresenta a figura de João Batista deve fazer com que o leitor se lembre da figura de Elias. O evangelho se inicia com uma alusão à profecia de Malaquias 3:1. Não somente a profecia faz referência a Elias, mas também sua alimentação e vestimentas. Alguns autores enxergam na alimentação e nas vestimentas de João Batista alusões ao jardim do Éden ou apresentam um forte sabor escatológico, com qualidades quase que primitivas, de retorno à terra. Robert Stein acredita que João se vestiu dessa forma consciente que a sua imagem o ligaria a Elias.[20][21][22][23]
Mas João não estava apenas pregando sobre o batismo; ele estava falando sobre a chegada de uma pessoa. Ao contrário dos evangelhos de Mateus e Lucas, onde temos um relato da pregação de João Batista, o evangelho de Marcos não está preocupado em anunciar o conteúdo de sua pregação que conduziria as pessoas até o batismo. Por meio de Marcos, não temos acesso ao apelo de João Batista aos judeus — esse não era o objetivo de Marcos. Para Marcos, o motivo que conduziu todas aquelas pessoas até o batismo foi a mensagem escatológica da chegada de um outro alguém — as pessoas deveriam se batizar em preparação para a chegada dessa pessoa. Na compreensão de Marcos, a singularidade do batismo de João estava em “preparar uma comunidade escatológica para a chegada do Mais Forte e do Reino de Deus”.[24]
Além disso, João profetizou sobre aquele que era mais “poderoso” (cf. Mc 1:7). João falava sobre a chegada de alguém superior a ele. Essa profecia evocava a ideia de um guerreiro divino. A força daquele que haveria de vir está associada com o seu batismo no espírito, que é o poder divino que capacita Jesus e seus seguidores no confronto com espíritos malignos. Somente mais a frente o leitor irá descobrir que “essa metáfora se refere à luta de Jesus com o ‘homem forte’ de 3:27.” João está preparando o caminho para a vinda desse alguém mais forte do que ele. “O coração de sua pregação [de João Batista] era, ‘Ele está chegando’’’. Aquele que estava chegando seria a pessoa que batizaria os outros com o Espírito Santo. [25][26][27][28]
A escolha de Marcos de iniciar o evangelho com esta apresentação de João Batista, como explica William Lane, tem a intenção de recriar para os seus contemporâneos a mesma crise de decisão com que João confrontou Israel. Logo em sua primeira cena, o ouvinte/leitor do evangelho deve estar consciente de que estará diante de um momento em que ela deve decidir acerca daquele sobre quem João Batista estava profetizando.[29]
Enfim, aquele que estava chegando,chega. Jesus enfim entra na narrativa. Assim como João Batista, Jesus também “apareceu” (kai egeneto). Contudo, a aparição de Jesus soa de uma forma diferente. Moloney afirma que, ao contrário da introdução abrupta de João Batista, a forma como Jesus é inserido na narrativa possui um tom semítico carregado de solenidade. “E aconteceu que naqueles dias” (kai egeneto en ekeinais tais hēmerais). Ele afirma ainda que essa fórmula é carregada de uma natureza escatológica. Outro autor afirma que a fórmula “naqueles dias” faz alusão a textos que lidam com o fim dos tempos nos livros proféticos, no evangelho de Marcos e no de Mateus, assim sendo “o efeito cumulativo parece sugerir, sem sombra de dúvidas, que Jesus é vinda da figura escatológica para a qual João apontava”.[30][31]
As pessoas que iam até João Batista para serem batizadas vinham da Judeia, entretanto Jesus veio de Nazaré da Galiléia. Enquanto todos da Judeia e todos de Jerusalém iam até João Batista, um único e solitário galileu chega para a fim de ser batizado. O povo da Judéia estava respondendo à pregação de João Batista; o povo da Galiléia não. Expectativas são criadas no leitor, aparentemente o povo galileu não respondeu ao chamado de arrependimento de João, somente o povo da Judéia — mas este não é o caso. João Batista fez sucesso entre o povo da Judeia; o ministério de Jesus teve sucesso na Galileia. Na Judeia Jesus encontra oposição e o único milagre daquela região será a do cego Bartimeu, em Jericó. O início da viagem de Jesus para a Judéia aponta para sua morte — Jesus será executado em uma cruz em Jerusalém. Enquanto a Galileia é reconhecida como a terra da salvação, a Judéia é a terra da rejeição. O contraste entre a Galileia e a Judeia começa aqui.[32][33]
Como Morna Hooker bem lembra, em Marcos, ao contrário dos outros evangelhos, não há nenhuma indicação de que João Batista tenha reconhecido quem era Jesus. Não temos o João Batista que se nega a batizar Jesus de Mateus Jesus simplesmente surgiu e foi batizado. Nem mesmo se faz qualquer espécie de explicação sobre se Jesus teve algum rito de batismo diferenciado ou não, visto que no v. 5 nos é dito que todos que se batizavam o faziam enquanto confessavam os seus pecados. Jesus teve um rito de batismo diferente? Ou Jesus confessou algum pecado, mesmo não tendo pecados? Jesus confessou o pecado de outras pessoas? Jesus confessou os pecados do povo de Deus? Simplesmente não temos resposta. O que sabemos é aquilo que Marcos nos diz de forma direta e clara: “Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão”. Apenas isso.[34]
Jesus sobe (anabainōn) da água; o espírito desce (katabainon). E então os céus se rasgam. Trata-se de um termo que possui uma certa violência. Duas diferentes teofanias no evangelho de Marcos fazem referência a algo se “rasgar”: no batismo de Jesus os céus se rasgam, na crucificação de Jesus o véu do Templo também se rasga. Os céus se rasgam é uma expressão pouco usual, não aparecendo em nenhum outro lugar na Bíblia. Tanto que Mateus e Lucas preferem um menos dramático "abrir". Um autor notou que “aquilo que está aberto pode ser fechado; o que está rasgado não pode retornar facilmente ao seu estado anterior.” Um céu rasgado é um céu que não mais se fecha. Eugene Boring enxerga em ambos os rasgares, tanto do céus quanto do véu do Templo tons de perigo e de promessa: de perigo pois Deus não está mais no distante céu ou preso no Templo, mas está à solto no mundo; de promessa pois isso significa que a longa espera terminou e a revelação final de Deus já começou. [35][36][37]
Existe a possibilidade de que o rasgar dos céus no batismo de Jesus seja uma referência a Isaías 63:11 — 64:1:
Então o seu povo recordou o passado, o tempo de Moisés e seu povo: onde está aquele que os fez passar através do mar, com o pastor do seu rebanho? Onde está aquele que entre eles pôs o seu Espírito Santo, que com o seu glorioso braço esteve à mão direita de Moisés, que dividiu as águas diante deles para alcançar renome eterno, e os conduziu através das profundezas? Como o cavalo em campo aberto, eles não tropeçaram; como o gado que desce à planície, foi-lhes dado descanso pelo Espírito do Senhor. Foi assim que guiaste o teu povo para fazer para ti um nome glorioso. Olha dos altos céus, da tua habitação elevada, santa e gloriosa. Onde estão o teu zelo e o teu poder? [...] Ah, se rompesses os céus e descesses! Os montes tremeriam diante de ti!.” (Is 63:11-15a— 64:1).
Percebe-se que nesse texto temos o tema do rasgar dos céus, da descida do Espírito, da doação do Espírito Santo, sendo esse um texto onde encontramos um clamor para que Deus aja da mesma forma como agiu no tempo de Moisés, enviando um outro pastor para guiar o povo de Israel. [38]
Após o seu batismo, Jesus tem uma “experiência” sensorial. Ele “vê” e ele “ouve”. Importante destacar que, em Marcos, essa é uma experiência exclusiva de Jesus. Não é como no evangelho de Lucas onde o Espírito desce de forma corpórea (Lc 1:22) Jesus viu os céus se abrindo e o espírito descendo sobre ele como uma pomba. Por que uma pomba? Qual significado Marcos pretende transmitir? Dale Allison, ao analisar um manuscrito do Mar Morto, afirma que dentre as possíveis interpretações para a ligação do Espírito uma pomba seja o livro de Gênesis. Em Gênesis 1:2 lê-se que “o Espírito pairava sobre as águas”, fazendo referência a três elementos em comum com a narrativa do batismo de Jesus: a água, o Espírito e o pairar da pomba. Dessa forma, ele afirma que é possível que os primeiros cristãos enxergassem no batismo de Jesus a renovação da criação. Em suas palavras: “No início das coisas, o Espírito de Deus pairava sobre a face do caos aquoso, e no advento do Messias o Espírito flutuou sobre as águas do Jordão.”[39]
Jesus vê o espírito descendo como uma pomba e também ouve uma voz. Essa voz ratifica aquilo que foi falado sobre Jesus em 1:1 que Jesus é o filho de Deus. A informação que o narrador traz no início do evangelho agora está confirmada na boca de Deus. Mas a voz do céu faz muito mais do que simplesmente ratificar aquela informação, ela diz: "Tu és o meu Filho amado; de ti me agrado". A voz se dirige para Jesus e o chama de Filho, confirmando a sua identidade e missão. "A declaração dos céus não deve ser confundida com algum sentido adocionista", alerta Boring. Afinal de contas, a mesma declaração aparece novamente na Transfiguração em 9:7, e é confirmada pelo centurião após a morte de Jesus em 15:39, o que deve nos levar a entender que aqui está se apenas apontando algo sobre a identidade de Jesus. Além disso, ela enfatiza que a repetição da fórmula na Transfiguração e na Crucificação deixam claro que Jesus não estava aceitando o papel de Servo Sofredor de Isaías 53 em seu batismo — lembrando que em Marcos não há nenhuma alusão a Isaías 53. Essa voz se dirige diretamente a Jesus, fazendo claras alusões a dois textos do AT, Salmo 2:7 e Isaías 42:1, contudo, vale destacar que nenhum dos dois textos anteriores chamam o filho de “amado”. [40][41]
Jesus recebe o Espírito. Eis que estamos diante da cena em que as três pessoas da Trindade estão juntas. Jesus recebe o Espírito e a partir de então ele se torna uma pessoa possuída pelo Espírito de Deus, de forma que as suas ações também são ações do Espírito de Deus (cf. 3:23-30). Duas imagens também do livro de Isaías podem vir à mente, uma de Isaías 11:1-5, onde o espírito do Senhor repousaria sobre “um rebento de Jessé”, um filho de Davi, logo uma figura messiânica, e ele traria a justiça. Um outro texto é o de Isaías 61, onde temos uma figura ungida por Deus, mais uma vez uma figura messiânica, para pregar um evangelho e trazer liberdade aos pobres e oprimidos, proclamando o jubileu do povo de Deus.
Donald Juel percebe que o padrão narrativo do batismo de Jesus se repete na crucificação a história de Jesus abre com o rasgar dos céus, a descida do Espírito e uma declaração sobre sua relação com Deus como seu “Filho”. O ministério de Jesus conclui com o véu do Templo se rasgando, o Espírito deixando Jesus (cf. 15:37) e o centurião declarando que Jesus é de fato o filho de Deus.[42]
E esse foi o batismo de Jesus. Esse foi o momento em que aquele que batizará as pessoas com o Espírito Santo recebe esse Espírito. A pergunta que permanece é: “Afinal de contas, por que Jesus precisou se batizar?”
É comum a interpretação de que o batismo de Jesus é exemplar, ou seja, ou leitores de Marcos deveriam reconhecer aquilo que Jesus fez e assumir que aquele é o paradigma do início da vida de qualquer cristão. Alguém pode até mesmo se perguntar se os leitores de Marcos tinham consciência de alguma noção semelhante a teologia paulina expressa em Romanos 6, em que o batismo está relacionado com os temas da morte e ressurreição, onde o crente, por meio de seu batismo, é unido à pessoa de Jesus. [43]
Outros ainda argumentam que Jesus se batizou de forma “vicária”, visto que o salvador deve se identificar com os salvos, como por exemplo William Lane, que enxerga uma correspondência entre o v. 5 e o v. 9. Assim sendo, para ele , Jesus de fato se submeteu ao batismo com arrependimento. “O doador da vida […] é o mesmo que surgiu de forma humilde e penitente e passivamente recebe o sinal do arrependimento em favor do povo de Deus". Dessa forma, Jesus, representando Israel, como o perfeito arrependido surge. Fazendo isso, ele se identifica com uma geração rebelde. [44]
Porém, Morna Hooker argumenta em direção contrária, afirmando que é desnecessário entender o batismo de Jesus como um ato “vicário” de arrependimento, onde ele se identifica com os pecadores. Para ela, seguindo uma ideia semelhante a apresentada até aqui neste artigo, o batismo de João Batista pretendia ser uma preparação para uma Nova Era, de forma que o batismo era o rito que reunia um povo santo de Deus para esse grande momento. Dessa forma, nada mais natural que o próprio Jesus se associar com esse momento por meio do batismo.
Uma outra possível interpretação para o batismo de Jesus é a sua consagração como Messias. Adela Yarbro Collins inclusive encontra paralelos em biografias antigas onde, no início das narrativas, os personagens principais passam por alguma transformação que os preparam para a obra de sua vida. “Jesus vê os céus se abrindo e o Espírito Santo descendo como uma pomba e ouve a voz divina dirigindo-se a ele como o filho amado, e nesse momento ele é ungido como o Messias, ou um profeta ou para um papel escatológico que combina ambos os ofícios. Esse é o momento que, de acordo com a autora, ele recebe o poder que o capacita a ensinar com autoridade, a curar e a expulsar demônios.[45]
Destaco, porém, a plausível compreensão de Joel Marcus acerca do batismo de Jesus ao afirmar que “na concepção de Marcos, aparentemente, Jesus foi impregnado de uma ‘força’ para exorcismos em seu batismo”. O autor entende que o evangelho de Marcos possui uma escatologia apocalíptica cósmica. Para o autor, os temas tratados nessa perícope, a saber, o perdão de pecados (1:4), o advento do Espírito e o rasgar dos céus (1:8) são temas apocalípticos. Dessa forma, ele entende que Jesus, após o seu batismo está preparado e que, na perspectiva desse evangelho, o ministério e a obra de Jesus deve ser lido com a chave do conflito cósmico com os poderes das trevas. Assim sendo, para este autor, o batismo de Jesus é o momento em que aquele que é o “ainda mais forte”, recebe a sua força para iniciar o seu conflito com Satanás. Dessa forma, ele entende que Jesus, após o seu batismo está preparado para amarrar o homem forte (cf. 3:27); o que ele fará em sua “exorcística morte na cruz”.[46][47]
De qualquer forma, a intenção de Marcos não parece ser a de dar explicações para as questões que nós fazemos, no caso, qual o motivo que conduziu Jesus ao batismo. Como afirma R. T. France, parece que a intenção de Marcos é simplesmente mostrar a chegada do “ainda mais forte” profetizado por João, aquele que iria batizar as pessoas com o espírito, aquele que daria início a nova de Deus. [48]
A pergunta sobre o motivo do batismo de Jesus, talvez nenhuma resposta seja satisfatória para a nossa curiosidade. Talvez a resposta seja mais simples e fácil do que gostaríamos. O batismo de Jesus pode também simbolizar a travessia do Mar Vermelho no êxodo, a transição de uma vocação de um Moisés para um Josué, ou de um Elias para um Eliseu, ou uma unção para o reinado assim como Samuel ungiu Davi? Pode ser que de fato qualquer um desses temas estejam nas entrelinhas do relato que Marcos faz do batismo de Jesus, quem sabe. Por fim, Marcos pretende transmitir muita coisa no início de seu evangelho e em seu relato sobre o batismo, mas a mensagem que se sobressai é a de que o novo de Deus enfim chegou!
1. Introdução
O batismo de Jesus é um evento narrado em todos os evangelhos sinóticos. Por isso, muitos afirmam que esse é um evento da vida de Jesus que seguramente aconteceu. Um dos motivos para se confiar nisso é o fato de que essa é uma história que muitos poderiam considerar uma boa ideia omiti-la, caso esteja tentando convencer outros de que Jesus é o Senhor — ainda mais nos termos propostos pelos evangelhos. É perceptível, afirma Morna Hooker, que os evangelistas apresentam um certo “constrangimento” com a narrativa do batismo de Jesus. Até mesmo o não-canônico evangelho aos Hebreus demonstra esse “constrangimento” ao escrever o diálogo entre Jesus e sua mãe: “Eis que a mãe do Senhor e Seus irmãos lhe disseram: "João Batista batiza a remissão dos pecados. Vamos lá e sejamos batizados por ele". Mas Ele lhes disse: "Que pecado cometi eu para ir e ser batizado por ele? A menos que por acaso esta mesma afirmação que fiz é ignorância”. [2]
Mesmo sendo uma narrativa constrangedora, os evangelistas insistem em narrar esse evento, cada qual à sua maneira, de acordo com seus propósitos. No caso de Lucas diminuindo o relato, ao ponto de que seu relato sobre o batismo de Jesus consiga ser ainda menor do que o de Marcos. No caso de Mateus oferecendo uma explicação de que aquilo aconteceu para que “se cumprisse a justiça” (3:15). Marcos, porém, parece não possuir nenhum embaraço com as dificuldades que o seu relato poderia gerar. Afinal de contas, João Batista pregava o “batismo de arrependimento para o perdão dos pecados” (Mc 1:4, cf. Mt 3:3; Lc 3:3) os sinóticos afirmam que o batismo de João Batista acontecia após se confessar os pecados (cf. Mc 1:5, e.g. Mt 3:6). [3][4]
Considerando que o estudo do problema sinótico se faz necessário para compreender melhor as tendências e ênfases de cada autor. Apesar de existir debates acerca de outras fontes, entende-se que o evangelho de Marcos é a principal fonte de Mateus e Lucas. Assim sendo, para se compreender de forma mais profunda certa perícope de dupla ou tripla tradição em Mateus e Lucas, deve-se estudar a forma como a mesma foi recebida de Marcos. Por isso, neste artigo tentaremos compreender qual mensagem o evangelho de Marcos pretendia comunicar com sua narrativa do batismo de Jesus, pois se tivermos uma compreensão da mensagem do evangelho de Marcos, também poderemos entender melhor os outros evangelhos; afinal de contas, tanto os momentos em que Mateus e Lucas seguem Marcos, tanto os momentos em que eles seguem um outro caminho, modificando ou omitindo Marcos, revela muito sobre como eles pensam. Em outras palavras, o problema sinótico pode nos revelar muito sobre a teologia individual de cada evangelista. [5][6]
O evangelho de Marcos é um dos textos que os intérpretes mais encontram dificuldades no manuseio. A forma direta e apressada de suas narrativas, as poucas explicações, a pequena quantidade de ensinos faz com que ele seja preterido sempre que comparado com os outros sinóticos. Não é muito difícil encontrar pessoas que tenham a sensação de que Marcos não contou a história por completo. Não é incomum que alguém leia algum texto do evangelho de Marcos e complemente o que está ali disposto com informações de outro evangelista. Esse tipo de movimento pode fazer com que a mensagem de Marcos seja diluída.
Marcos inicia seu evangelho fazendo uma declaração sobre o que é esse texto, uma exposição do evangelho e sobre quem é este evangelho, Jesus Cristo o filho de Deus (1:1). Essa é uma declaração muito forte. O restante do evangelho de Marcos tem como objetivo descrever o evangelho do filho de Deus. Ele continua fazendo referência e combinação de três textos do Antigo Testamento: Êxodo 23:20, Isaías 40:3 e Malaquias 3:1. Os dois primeiros textos fazem referência à preparação de um caminho, sendo que o texto de Êxodo fala sobre um anjo preparando o caminho, o segundo faz referência a uma “voz” no deserto, enquanto o último faz referência a Elias, aquele que prepararia o caminho para o Senhor.
Dessa forma João Batista apareceu (egeneto) no deserto. Quem é esse homem? Qual a sua origem? O evangelho de Marcos não nos dá nenhuma informação. O que sabemos é que a sua entrada na narrativa serve para cumprir os oráculos divinos. Dessa forma, “Deus entra na narrativa por meio das palavras de seu profeta”. Ele é a voz que surgiria no deserto. A catena de textos da Bíblia hebraica falavam sobre ele. O uso dos textos do Êxodo, Isaías e Malaquias tem a “intenção de mostrar que o Batista é o anjo do Senhor que caminhou adiante do povo escolhido no deserto.” [7][8]
Apesar de normalmente o deserto ser associado com escassez, o deserto se tornou um lugar associado com a ideia de um tempo de graça, visto que Deus havia conduzido Israel no deserto após o êxodo. Moisés. Elias e Davi tiveram de fugir para o deserto (Ex 2:15; 1 Sm 23:14; 1 Rs 19:3-4); da mesma forma, Jesus irá aparecer no deserto e em diversos momentos na narrativa de Marcos irá retornar ao deserto (1:35, 45; 6:31-32, 35; 8:4). Como nos lembra Boring, para Israel, o deserto é o lugar de novos começos, o lugar onde eles tiveram de tomar a decisão de entrar ou não em aliança com Deus, onde de fato eles se tornaram povo de Deus (cf. Dt 29:19; 30:19) o lugar onde os profetas convocaram o povo para um novo começo (cf. Jr 2:2; Os 2:14; 9:14), e de onde viria o novo êxodo
Otto Piper afirma que “o deserto não é apenas um lugar de solitude, distante da vida agitada da cidade e da pressão do trabalho, mas também simboliza o intervalo entre a era pré-messiânica e a consumação, entre a libertação e a bem-aventurança final.” Assim sendo, o deserto não evoca somente a ideia da graça, onde a mão de Deus conduz o povo no êxodo, mas também simboliza o estado do povo que ainda não chegou ao seu destino final. Se por um lado temos o cuidado divino, por outro lado sabemos que o povo ainda não estava pronto para entrar na terra prometida. De qualquer maneira, se esperava que a manifestação da salvação e o Messias viessem do deserto. Este foi justamente neste lugar onde João Batista apareceu.[9][10][11]
João Batista estava batizando e pregando, Marcos ligava essas duas atividades de forma íntima. Ele proclamava um “batismo de arrependimento”. O batismo estava tão conectado com a pessoa de João, que a ação de batizar se tornou uma espécie de sobrenome para ele. Dessa forma, somos apresentados a João Batista. O verbo grego baptizō significa mergulhar, imergir, submergir e pode ser utilizado, como afirma Schnabel, para falar da ação de cravar uma faca em algum animal sacrificado, ou para falar sobre algum navio que submergiu na água, sobre algum tecido que é mergulhado em tinta e pode ser utilizado ainda, de forma metafórica, para falar sobre pessoas que estão imersas em dívidas, que foram vencidas em discussões ou até mesmo sobre pessoas que são dominadas por suas paixões.[12][13][14]
Por que João Batista estava batizando pessoas? Qual o significado deste ato? Em seu estudo sobre o batismo de João, Joel Marcus busca entender como entender a truncada expressão em 1:4 que afirma que João Batista estava “pregando um batismo de arrependimento [βάπτισμα μετανοίας] para o perdão dos pecados”. Era um batismo que consistia em arrependimento (genitivo de conteúdo)? Um batismo que resultava do arrependimento (genitivo de fonte)? O batismo de um arrependido (genitivo adjetivo)? Todas são possibilidades aceitáveis. Após analisar a descrição que Josefo faz de João, os paralelos veterotestamentários, a polêmica que os primeiros pais da igreja fazem com a pessoa de João Batista levam o autor a concluir que ele entendia a si mesmo como o pregador das boas novas de que a vitória escatológica de Deus já estava se manifestando em seu ministério. Ele era um transmissor da salvação. O tempo presente era o momento final para o arrependimento, visto que o Cristo está chegando. Assim sendo, [15][16]
João enxergava o seu batismo não como um rito preparatório [para a salvação futura], mas como um sacramento da salvação. Para João, o poder da nova era de Deus já estava invadindo a esfera terrena, limpando definitivamente tanto da impureza ritual quanto dos pecados, todos aqueles que iam até ele se batizar. E essa limpeza era necessária, e ela aconteceu independentemente da posição do batizado dentro da comunidade judaica— quer o batizando fosse judeu ou não. [17]
Ou como afirma Eugene Boring, “a ordem marcana não deve ser revertida, como se a sua mensagem fosse um moralista ‘você deve se arrepender’, no qual o batismo se tornou um símbolo. João não proclamou arrependimento, mas o batismo.” Assim sendo, o foco da pregação de João era o batismo em si; não era o arrependimento como a ‘disposição de coração’ correta ou algo do tipo. É claro que o batismo está intimamente ligado ao arrependimento, mas o ritual possuía um significado e, mais importante, comunicava algo. A correta ‘disposição do coração’ — um ‘coração’ arrependido — não era o foco, mas era o batismo que efetuava a purificação tanto ritual quanto moral. Dessa forma, se entendia que o batismo daquela pessoas as purificavam para a chegada do “Mais Forte”.[18]
Todos da Judeia e de Jerusalém iam até ele para se batizar no rio Jordão enquanto confessavam seus pecados. Obviamente o todos de Marcos pode ser considerado uma hipérbole ou um exagero, mas o que o autor pretende comunicar é o impacto e o sucesso do ministério de João Batista. Deus estava agindo e as pessoas estavam ouvindo por meio do ministério de João Batista. Todos da Judéia e todos de Jerusalém iam até ele. Mas todos iam até João Batista não por causa dele, mas por causa daquele sobre quem ele anunciava.
Toda essa movimentação estava acontecendo no rio Jordão. A menção a esse rio é significativa por este ser o principal rio de Israel. Em uma ação que rememora o êxodo, Elias abre o rio e o atravessa. Foi diante do rio Jordão que ele foi elevado aos céus. Eliseu posteriormente divide o rio Jordão no meio e o atravessa (2 Rs 2:1-15). Nesse rio, instruído por Eliseu, o rei estrangeiro Naamã recebe a instrução de se lavar neste rio, inicialmente ele se indigna com a possibilidade de que o rio Jordão seja melhor do que os rios de Damasco porém ele acabou indo se lavar ali e após ele se lavar (cf. 2 Rs 5:10-11). Para Adela Yarbro Collins, isso comunica a ideia de que o rio Jordão de fato era mais poderoso do que os outros rios e que tanto a terra de Israel quanto o seu rio são santos. Soma-se a isso o fato de que foi pelo rio Jordão que o povo de Israel entrou na terra prometida, em um evento que relembra a passagem do mar Vermelho. Pode ser significativo também o fato de que não somente as pessoas da Judeia, mas principalmente de Jerusalém estavam indo em direção a João Batista em busca do perdão dos pecados — afinal de contas, o esperado é que as pessoas se movam em direção ao Templo de Jerusalém, não o contrário. [19]
Em Marcos, a pregação de João Batista pode resumida a este ponto: a vinda daquele que é mais poderoso. A impressão que temos é de que Marcos está mais preocupado com a dieta e com as roupas de João do que com a sua pregação. Ele faz questão de falar sobre a indumentária de João Batista. Ele se veste de maneira pouco usual — até mesmo para os padrões daquela época: usava roupas feitas de pêlos de camelo e usava um cinto de couro na cintura. Além disso, a sua alimentação se destacava: ele comia gafanhotos e mel silvestre. Muito além da referência a Elias de Malaquias, a forma como Marcos apresenta a figura de João Batista deve fazer com que o leitor se lembre da figura de Elias. O evangelho se inicia com uma alusão à profecia de Malaquias 3:1. Não somente a profecia faz referência a Elias, mas também sua alimentação e vestimentas. Alguns autores enxergam na alimentação e nas vestimentas de João Batista alusões ao jardim do Éden ou apresentam um forte sabor escatológico, com qualidades quase que primitivas, de retorno à terra. Robert Stein acredita que João se vestiu dessa forma consciente que a sua imagem o ligaria a Elias.[20][21][22][23]
Mas João não estava apenas pregando sobre o batismo; ele estava falando sobre a chegada de uma pessoa. Ao contrário dos evangelhos de Mateus e Lucas, onde temos um relato da pregação de João Batista, o evangelho de Marcos não está preocupado em anunciar o conteúdo de sua pregação que conduziria as pessoas até o batismo. Por meio de Marcos, não temos acesso ao apelo de João Batista aos judeus — esse não era o objetivo de Marcos. Para Marcos, o motivo que conduziu todas aquelas pessoas até o batismo foi a mensagem escatológica da chegada de um outro alguém — as pessoas deveriam se batizar em preparação para a chegada dessa pessoa. Na compreensão de Marcos, a singularidade do batismo de João estava em “preparar uma comunidade escatológica para a chegada do Mais Forte e do Reino de Deus”.[24]
Além disso, João profetizou sobre aquele que era mais “poderoso” (cf. Mc 1:7). João falava sobre a chegada de alguém superior a ele. Essa profecia evocava a ideia de um guerreiro divino. A força daquele que haveria de vir está associada com o seu batismo no espírito, que é o poder divino que capacita Jesus e seus seguidores no confronto com espíritos malignos. Somente mais a frente o leitor irá descobrir que “essa metáfora se refere à luta de Jesus com o ‘homem forte’ de 3:27.” João está preparando o caminho para a vinda desse alguém mais forte do que ele. “O coração de sua pregação [de João Batista] era, ‘Ele está chegando’’’. Aquele que estava chegando seria a pessoa que batizaria os outros com o Espírito Santo. [25][26][27][28]
A escolha de Marcos de iniciar o evangelho com esta apresentação de João Batista, como explica William Lane, tem a intenção de recriar para os seus contemporâneos a mesma crise de decisão com que João confrontou Israel. Logo em sua primeira cena, o ouvinte/leitor do evangelho deve estar consciente de que estará diante de um momento em que ela deve decidir acerca daquele sobre quem João Batista estava profetizando.[29]
Enfim, aquele que estava chegando,chega. Jesus enfim entra na narrativa. Assim como João Batista, Jesus também “apareceu” (kai egeneto). Contudo, a aparição de Jesus soa de uma forma diferente. Moloney afirma que, ao contrário da introdução abrupta de João Batista, a forma como Jesus é inserido na narrativa possui um tom semítico carregado de solenidade. “E aconteceu que naqueles dias” (kai egeneto en ekeinais tais hēmerais). Ele afirma ainda que essa fórmula é carregada de uma natureza escatológica. Outro autor afirma que a fórmula “naqueles dias” faz alusão a textos que lidam com o fim dos tempos nos livros proféticos, no evangelho de Marcos e no de Mateus, assim sendo “o efeito cumulativo parece sugerir, sem sombra de dúvidas, que Jesus é vinda da figura escatológica para a qual João apontava”.[30][31]
As pessoas que iam até João Batista para serem batizadas vinham da Judeia, entretanto Jesus veio de Nazaré da Galiléia. Enquanto todos da Judeia e todos de Jerusalém iam até João Batista, um único e solitário galileu chega para a fim de ser batizado. O povo da Judéia estava respondendo à pregação de João Batista; o povo da Galiléia não. Expectativas são criadas no leitor, aparentemente o povo galileu não respondeu ao chamado de arrependimento de João, somente o povo da Judéia — mas este não é o caso. João Batista fez sucesso entre o povo da Judeia; o ministério de Jesus teve sucesso na Galileia. Na Judeia Jesus encontra oposição e o único milagre daquela região será a do cego Bartimeu, em Jericó. O início da viagem de Jesus para a Judéia aponta para sua morte — Jesus será executado em uma cruz em Jerusalém. Enquanto a Galileia é reconhecida como a terra da salvação, a Judéia é a terra da rejeição. O contraste entre a Galileia e a Judeia começa aqui.[32][33]
Como Morna Hooker bem lembra, em Marcos, ao contrário dos outros evangelhos, não há nenhuma indicação de que João Batista tenha reconhecido quem era Jesus. Não temos o João Batista que se nega a batizar Jesus de Mateus Jesus simplesmente surgiu e foi batizado. Nem mesmo se faz qualquer espécie de explicação sobre se Jesus teve algum rito de batismo diferenciado ou não, visto que no v. 5 nos é dito que todos que se batizavam o faziam enquanto confessavam os seus pecados. Jesus teve um rito de batismo diferente? Ou Jesus confessou algum pecado, mesmo não tendo pecados? Jesus confessou o pecado de outras pessoas? Jesus confessou os pecados do povo de Deus? Simplesmente não temos resposta. O que sabemos é aquilo que Marcos nos diz de forma direta e clara: “Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão”. Apenas isso.[34]
Jesus sobe (anabainōn) da água; o espírito desce (katabainon). E então os céus se rasgam. Trata-se de um termo que possui uma certa violência. Duas diferentes teofanias no evangelho de Marcos fazem referência a algo se “rasgar”: no batismo de Jesus os céus se rasgam, na crucificação de Jesus o véu do Templo também se rasga. Os céus se rasgam é uma expressão pouco usual, não aparecendo em nenhum outro lugar na Bíblia. Tanto que Mateus e Lucas preferem um menos dramático "abrir". Um autor notou que “aquilo que está aberto pode ser fechado; o que está rasgado não pode retornar facilmente ao seu estado anterior.” Um céu rasgado é um céu que não mais se fecha. Eugene Boring enxerga em ambos os rasgares, tanto do céus quanto do véu do Templo tons de perigo e de promessa: de perigo pois Deus não está mais no distante céu ou preso no Templo, mas está à solto no mundo; de promessa pois isso significa que a longa espera terminou e a revelação final de Deus já começou. [35][36][37]
Existe a possibilidade de que o rasgar dos céus no batismo de Jesus seja uma referência a Isaías 63:11 — 64:1:
Então o seu povo recordou o passado, o tempo de Moisés e seu povo: onde está aquele que os fez passar através do mar, com o pastor do seu rebanho? Onde está aquele que entre eles pôs o seu Espírito Santo, que com o seu glorioso braço esteve à mão direita de Moisés, que dividiu as águas diante deles para alcançar renome eterno, e os conduziu através das profundezas? Como o cavalo em campo aberto, eles não tropeçaram; como o gado que desce à planície, foi-lhes dado descanso pelo Espírito do Senhor. Foi assim que guiaste o teu povo para fazer para ti um nome glorioso. Olha dos altos céus, da tua habitação elevada, santa e gloriosa. Onde estão o teu zelo e o teu poder? [...] Ah, se rompesses os céus e descesses! Os montes tremeriam diante de ti!.” (Is 63:11-15a— 64:1).
Percebe-se que nesse texto temos o tema do rasgar dos céus, da descida do Espírito, da doação do Espírito Santo, sendo esse um texto onde encontramos um clamor para que Deus aja da mesma forma como agiu no tempo de Moisés, enviando um outro pastor para guiar o povo de Israel. [38]
Após o seu batismo, Jesus tem uma “experiência” sensorial. Ele “vê” e ele “ouve”. Importante destacar que, em Marcos, essa é uma experiência exclusiva de Jesus. Não é como no evangelho de Lucas onde o Espírito desce de forma corpórea (Lc 1:22) Jesus viu os céus se abrindo e o espírito descendo sobre ele como uma pomba. Por que uma pomba? Qual significado Marcos pretende transmitir? Dale Allison, ao analisar um manuscrito do Mar Morto, afirma que dentre as possíveis interpretações para a ligação do Espírito uma pomba seja o livro de Gênesis. Em Gênesis 1:2 lê-se que “o Espírito pairava sobre as águas”, fazendo referência a três elementos em comum com a narrativa do batismo de Jesus: a água, o Espírito e o pairar da pomba. Dessa forma, ele afirma que é possível que os primeiros cristãos enxergassem no batismo de Jesus a renovação da criação. Em suas palavras: “No início das coisas, o Espírito de Deus pairava sobre a face do caos aquoso, e no advento do Messias o Espírito flutuou sobre as águas do Jordão.”[39]
Jesus vê o espírito descendo como uma pomba e também ouve uma voz. Essa voz ratifica aquilo que foi falado sobre Jesus em 1:1 que Jesus é o filho de Deus. A informação que o narrador traz no início do evangelho agora está confirmada na boca de Deus. Mas a voz do céu faz muito mais do que simplesmente ratificar aquela informação, ela diz: "Tu és o meu Filho amado; de ti me agrado". A voz se dirige para Jesus e o chama de Filho, confirmando a sua identidade e missão. "A declaração dos céus não deve ser confundida com algum sentido adocionista", alerta Boring. Afinal de contas, a mesma declaração aparece novamente na Transfiguração em 9:7, e é confirmada pelo centurião após a morte de Jesus em 15:39, o que deve nos levar a entender que aqui está se apenas apontando algo sobre a identidade de Jesus. Além disso, ela enfatiza que a repetição da fórmula na Transfiguração e na Crucificação deixam claro que Jesus não estava aceitando o papel de Servo Sofredor de Isaías 53 em seu batismo — lembrando que em Marcos não há nenhuma alusão a Isaías 53. Essa voz se dirige diretamente a Jesus, fazendo claras alusões a dois textos do AT, Salmo 2:7 e Isaías 42:1, contudo, vale destacar que nenhum dos dois textos anteriores chamam o filho de “amado”. [40][41]
Jesus recebe o Espírito. Eis que estamos diante da cena em que as três pessoas da Trindade estão juntas. Jesus recebe o Espírito e a partir de então ele se torna uma pessoa possuída pelo Espírito de Deus, de forma que as suas ações também são ações do Espírito de Deus (cf. 3:23-30). Duas imagens também do livro de Isaías podem vir à mente, uma de Isaías 11:1-5, onde o espírito do Senhor repousaria sobre “um rebento de Jessé”, um filho de Davi, logo uma figura messiânica, e ele traria a justiça. Um outro texto é o de Isaías 61, onde temos uma figura ungida por Deus, mais uma vez uma figura messiânica, para pregar um evangelho e trazer liberdade aos pobres e oprimidos, proclamando o jubileu do povo de Deus.
Donald Juel percebe que o padrão narrativo do batismo de Jesus se repete na crucificação a história de Jesus abre com o rasgar dos céus, a descida do Espírito e uma declaração sobre sua relação com Deus como seu “Filho”. O ministério de Jesus conclui com o véu do Templo se rasgando, o Espírito deixando Jesus (cf. 15:37) e o centurião declarando que Jesus é de fato o filho de Deus.[42]
E esse foi o batismo de Jesus. Esse foi o momento em que aquele que batizará as pessoas com o Espírito Santo recebe esse Espírito. A pergunta que permanece é: “Afinal de contas, por que Jesus precisou se batizar?”
É comum a interpretação de que o batismo de Jesus é exemplar, ou seja, ou leitores de Marcos deveriam reconhecer aquilo que Jesus fez e assumir que aquele é o paradigma do início da vida de qualquer cristão. Alguém pode até mesmo se perguntar se os leitores de Marcos tinham consciência de alguma noção semelhante a teologia paulina expressa em Romanos 6, em que o batismo está relacionado com os temas da morte e ressurreição, onde o crente, por meio de seu batismo, é unido à pessoa de Jesus. [43]
Outros ainda argumentam que Jesus se batizou de forma “vicária”, visto que o salvador deve se identificar com os salvos, como por exemplo William Lane, que enxerga uma correspondência entre o v. 5 e o v. 9. Assim sendo, para ele , Jesus de fato se submeteu ao batismo com arrependimento. “O doador da vida […] é o mesmo que surgiu de forma humilde e penitente e passivamente recebe o sinal do arrependimento em favor do povo de Deus". Dessa forma, Jesus, representando Israel, como o perfeito arrependido surge. Fazendo isso, ele se identifica com uma geração rebelde. [44]
Porém, Morna Hooker argumenta em direção contrária, afirmando que é desnecessário entender o batismo de Jesus como um ato “vicário” de arrependimento, onde ele se identifica com os pecadores. Para ela, seguindo uma ideia semelhante a apresentada até aqui neste artigo, o batismo de João Batista pretendia ser uma preparação para uma Nova Era, de forma que o batismo era o rito que reunia um povo santo de Deus para esse grande momento. Dessa forma, nada mais natural que o próprio Jesus se associar com esse momento por meio do batismo.
Uma outra possível interpretação para o batismo de Jesus é a sua consagração como Messias. Adela Yarbro Collins inclusive encontra paralelos em biografias antigas onde, no início das narrativas, os personagens principais passam por alguma transformação que os preparam para a obra de sua vida. “Jesus vê os céus se abrindo e o Espírito Santo descendo como uma pomba e ouve a voz divina dirigindo-se a ele como o filho amado, e nesse momento ele é ungido como o Messias, ou um profeta ou para um papel escatológico que combina ambos os ofícios. Esse é o momento que, de acordo com a autora, ele recebe o poder que o capacita a ensinar com autoridade, a curar e a expulsar demônios.[45]
Destaco, porém, a plausível compreensão de Joel Marcus acerca do batismo de Jesus ao afirmar que “na concepção de Marcos, aparentemente, Jesus foi impregnado de uma ‘força’ para exorcismos em seu batismo”. O autor entende que o evangelho de Marcos possui uma escatologia apocalíptica cósmica. Para o autor, os temas tratados nessa perícope, a saber, o perdão de pecados (1:4), o advento do Espírito e o rasgar dos céus (1:8) são temas apocalípticos. Dessa forma, ele entende que Jesus, após o seu batismo está preparado e que, na perspectiva desse evangelho, o ministério e a obra de Jesus deve ser lido com a chave do conflito cósmico com os poderes das trevas. Assim sendo, para este autor, o batismo de Jesus é o momento em que aquele que é o “ainda mais forte”, recebe a sua força para iniciar o seu conflito com Satanás. Dessa forma, ele entende que Jesus, após o seu batismo está preparado para amarrar o homem forte (cf. 3:27); o que ele fará em sua “exorcística morte na cruz”.[46][47]
De qualquer forma, a intenção de Marcos não parece ser a de dar explicações para as questões que nós fazemos, no caso, qual o motivo que conduziu Jesus ao batismo. Como afirma R. T. France, parece que a intenção de Marcos é simplesmente mostrar a chegada do “ainda mais forte” profetizado por João, aquele que iria batizar as pessoas com o espírito, aquele que daria início a nova de Deus. [48]
A pergunta sobre o motivo do batismo de Jesus, talvez nenhuma resposta seja satisfatória para a nossa curiosidade. Talvez a resposta seja mais simples e fácil do que gostaríamos. O batismo de Jesus pode também simbolizar a travessia do Mar Vermelho no êxodo, a transição de uma vocação de um Moisés para um Josué, ou de um Elias para um Eliseu, ou uma unção para o reinado assim como Samuel ungiu Davi? Pode ser que de fato qualquer um desses temas estejam nas entrelinhas do relato que Marcos faz do batismo de Jesus, quem sabe. Por fim, Marcos pretende transmitir muita coisa no início de seu evangelho e em seu relato sobre o batismo, mas a mensagem que se sobressai é a de que o novo de Deus enfim chegou!
Notas
[1] Mestrando em estudos bíblicos e teológicos do Novo Testamento pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards (STJE). É bacharel em Administração de empresas pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Reformada de Brasília (FTRB). Possui especialização em Teologia do Novo Testamento Aplicada pela Faculdade Batista do Paraná (FABAPAR). É ministro leigo e postulante às sagradas ordens junto à Igreja Anglicana no Brasil (IAB). Contato: matheusravila@gmail.com
[2] Cf. registra São Jerônimo em Against the Pelagians, livro 3, seção 2. O texto deste evangelho apócrifo foi perdido, restando apenas fragmentos nos escritos de Irineu de Lião, São Jerônimo, Clemente de Alexandria entre outros pais da Igreja.
[3] HOOKER, Gospel According To St. Mark, p. 44.O evangelho de João apenas faz alusão ao batismo de Jesus, afirmando que Jesus era superior a ele (cf. Jo 1:30).
[4] Lucas omite a informação de que se confessava pecados antes do batismo.
[5] Sobre o Problema Sinótico, ver The Synoptic Problem, de Mark Goodacre, podendo buscar também The Synoptic Problem de Robert H. Stein e Studying the Synoptic Gospels de Sanders e Davies.
[6] Isso considerando a possível existência de uma fonte Q e que Lucas era ignorando quanto a existência do evangelho de Mateus. Mark Goodacre é uma das principais vozes a defender a teoria de Ferrer, que dispensa a necessidade de uma fonte Q.
[7] Moloney, Mark, p. 32.
[8] PIPER, Unchanging Promises, p. 18.
[9] PIPER, Unchanging Promises, p. 17.
[10] Alguns autores enxergam o tema do novo êxodo aqui, e.g. “Visto que João também chamou as pessoas para irem ao deserto, onde a aliança original foi feita, para depois reentrar na “terra prometida”, o batismo como entrada no povo escatológico de Deus, aguardando a libertação vindoura, se ajustaria ao entendimento de Marcos sobre seu batismo, no entanto, o próprio João pode ter entendido isso.” (Boring, Mark, p. 40).
[11] CRANFIELD, p. 41-42, contra STEIN, p. 45, que não enxerga qualquer simbolismo na imagem do deserto.
[12] STEIN, p. 44.
[13] Para mais sobre o batismo de João, ver o excurso de Collins, p. 138-140.
[14] SCHNABEL, Mark, p. 40.
[15] MARCUS, John The Baptist in History and Theology, p. 62-63. A discussão completa acerca do batismo de João Batista vai de 62-80.
[16] MARCUS, John The Baptist in History and Theology,p. 74.
[17] Marcus, John The Baptist in History and Theology, p. 80. Importante lembrar que o autor está buscando entender a forma como o João Batista “histórico” compreendia a si mesmo.
[18] BORING, Mark, 40.
[19] COLLINS, Mark, p. 142.
[20] COLLINS, Mark, p. 145-46.
[21] Boring, Mark, p. 41.
[22] Marcus, Mark, p.157.
[23] STEIN, p. 48. Contra Guelich que não enxerga nenhuma mensagem especial nas roupas de João Batista: “No máximo, alguém poderia encontrar uma nota ascética semelhante em seu traje, uma nota apoiada por sua dieta.”(Guelich, p. 21).
[24] STEIN, p. 45. “[...] nós devemos entender João como que pregando o batismo de arrependimento para o perdão dos pecados (1:4) a fim de preparar o povo para o “Mais Forte” que estava para chegar (1:7-8). Assim, o arrependimento e suas consequências são incitados por João não porque é isso o que Deus sempre exigiu, mas por causa dos eventos cristológicos e escatológicos que estavam chegando. Porque “ele está chegando (1:7) e traz consigo o reino de Deus (1:15) é que as pessoas precisam se arrepender.” (p. 45).
[25] ibid, P. 146.
[26] Myers, Binding the Strong Man, p. 127.
[27] Joel Marcus, Mark, p. 157-58
[28] Stein, Mark, p. 49.
[29] Lane, The Gospel of Mark, p. 52-53.
[30] Moloney, The Gospel of Mark, p. 35.
[31] Joel Marcus, Mark
[32] Marcus, Mark, p. 171.
[33] Boring, Mark, p. 44.
[34] Hooker, The Gospel According to St. Mark, p. 45.
[35] Yarbro Collins, p. 148.
[36] Donal Juel, apud, Joel Marcus.
[37] “A imagem dos céus se rasgando deve ser considerada como um sinal da invasão [de Deus] ao invés de um convite para se entrar no espaço sagrado” (Donal Juel, Mark, p. 64)
[38] Buse, The Markan Account of the Baptism of Jesus and Isaiah LXIII, p.74. idem Boring, Mark, p.45. Stein (p. 57) é um exemplo de autor que apresenta uma posição contrária, afirmando que as tentativas de associar Isaías 64 ao batismo de Jesus não são convincentes, justamente pelo fato de não haver correspondência gramatical grega, entre o texto de Isaías e Marcos.
[39] Dale Allison, The Baptism of Jesus and a New Dead Sea Scroll. Em seu a Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew Vol 1., em coautoria com W. D. Davies, estão listadas 16 (!) possíveis interpretações para a pomba, p. 331-335.
[40] Boring, p. 46.
[41] Hooker, Mark, p. 45, 48. Ele ainda lembra que a filiação de Jesus também aparece em 12:1-11, contudo, neste momento não há uma clara repetição a essa fórmula, apenas uma menção à ideia da filiação de Jesus.
[42] Juel, Mark, p. 60-61.
[43] Boring, p. 44. Robert Stein se opõe a essa ideia, lembrando que em nenhum lugar no NT há menção ao batismo de Jesus como um exemplo a ser seguido. (Mark, p. 56).
[44] William Lane, Mark, p. 54-55.
[45] Adela Yarbro Collins, Mark, p. 146-147. Stein também parece entender que o batismo de Jesus é a sua "unção" como Cristo, contudo se mostra reticente em entender que o batismo de Jesus seja a causa do início de seu ministério. Ela afirma que "o batismo de Jesus não é bem a causa da sua unção [...], pois a missão de João e o seu batismo são o "início" temporal das boas novas sobre Jesus, não o início causal” (Stein, Mark, p. 56).
[46] Joel Marcus, p. 158.
[47] Joel Marcus, p. 1068.
[48] R. T. France, Mark, p. 76.
[1] Mestrando em estudos bíblicos e teológicos do Novo Testamento pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards (STJE). É bacharel em Administração de empresas pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Reformada de Brasília (FTRB). Possui especialização em Teologia do Novo Testamento Aplicada pela Faculdade Batista do Paraná (FABAPAR). É ministro leigo e postulante às sagradas ordens junto à Igreja Anglicana no Brasil (IAB). Contato: matheusravila@gmail.com
[2] Cf. registra São Jerônimo em Against the Pelagians, livro 3, seção 2. O texto deste evangelho apócrifo foi perdido, restando apenas fragmentos nos escritos de Irineu de Lião, São Jerônimo, Clemente de Alexandria entre outros pais da Igreja.
[3] HOOKER, Gospel According To St. Mark, p. 44.O evangelho de João apenas faz alusão ao batismo de Jesus, afirmando que Jesus era superior a ele (cf. Jo 1:30).
[4] Lucas omite a informação de que se confessava pecados antes do batismo.
[5] Sobre o Problema Sinótico, ver The Synoptic Problem, de Mark Goodacre, podendo buscar também The Synoptic Problem de Robert H. Stein e Studying the Synoptic Gospels de Sanders e Davies.
[6] Isso considerando a possível existência de uma fonte Q e que Lucas era ignorando quanto a existência do evangelho de Mateus. Mark Goodacre é uma das principais vozes a defender a teoria de Ferrer, que dispensa a necessidade de uma fonte Q.
[7] Moloney, Mark, p. 32.
[8] PIPER, Unchanging Promises, p. 18.
[9] PIPER, Unchanging Promises, p. 17.
[10] Alguns autores enxergam o tema do novo êxodo aqui, e.g. “Visto que João também chamou as pessoas para irem ao deserto, onde a aliança original foi feita, para depois reentrar na “terra prometida”, o batismo como entrada no povo escatológico de Deus, aguardando a libertação vindoura, se ajustaria ao entendimento de Marcos sobre seu batismo, no entanto, o próprio João pode ter entendido isso.” (Boring, Mark, p. 40).
[11] CRANFIELD, p. 41-42, contra STEIN, p. 45, que não enxerga qualquer simbolismo na imagem do deserto.
[12] STEIN, p. 44.
[13] Para mais sobre o batismo de João, ver o excurso de Collins, p. 138-140.
[14] SCHNABEL, Mark, p. 40.
[15] MARCUS, John The Baptist in History and Theology, p. 62-63. A discussão completa acerca do batismo de João Batista vai de 62-80.
[16] MARCUS, John The Baptist in History and Theology,p. 74.
[17] Marcus, John The Baptist in History and Theology, p. 80. Importante lembrar que o autor está buscando entender a forma como o João Batista “histórico” compreendia a si mesmo.
[18] BORING, Mark, 40.
[19] COLLINS, Mark, p. 142.
[20] COLLINS, Mark, p. 145-46.
[21] Boring, Mark, p. 41.
[22] Marcus, Mark, p.157.
[23] STEIN, p. 48. Contra Guelich que não enxerga nenhuma mensagem especial nas roupas de João Batista: “No máximo, alguém poderia encontrar uma nota ascética semelhante em seu traje, uma nota apoiada por sua dieta.”(Guelich, p. 21).
[24] STEIN, p. 45. “[...] nós devemos entender João como que pregando o batismo de arrependimento para o perdão dos pecados (1:4) a fim de preparar o povo para o “Mais Forte” que estava para chegar (1:7-8). Assim, o arrependimento e suas consequências são incitados por João não porque é isso o que Deus sempre exigiu, mas por causa dos eventos cristológicos e escatológicos que estavam chegando. Porque “ele está chegando (1:7) e traz consigo o reino de Deus (1:15) é que as pessoas precisam se arrepender.” (p. 45).
[25] ibid, P. 146.
[26] Myers, Binding the Strong Man, p. 127.
[27] Joel Marcus, Mark, p. 157-58
[28] Stein, Mark, p. 49.
[29] Lane, The Gospel of Mark, p. 52-53.
[30] Moloney, The Gospel of Mark, p. 35.
[31] Joel Marcus, Mark
[32] Marcus, Mark, p. 171.
[33] Boring, Mark, p. 44.
[34] Hooker, The Gospel According to St. Mark, p. 45.
[35] Yarbro Collins, p. 148.
[36] Donal Juel, apud, Joel Marcus.
[37] “A imagem dos céus se rasgando deve ser considerada como um sinal da invasão [de Deus] ao invés de um convite para se entrar no espaço sagrado” (Donal Juel, Mark, p. 64)
[38] Buse, The Markan Account of the Baptism of Jesus and Isaiah LXIII, p.74. idem Boring, Mark, p.45. Stein (p. 57) é um exemplo de autor que apresenta uma posição contrária, afirmando que as tentativas de associar Isaías 64 ao batismo de Jesus não são convincentes, justamente pelo fato de não haver correspondência gramatical grega, entre o texto de Isaías e Marcos.
[39] Dale Allison, The Baptism of Jesus and a New Dead Sea Scroll. Em seu a Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew Vol 1., em coautoria com W. D. Davies, estão listadas 16 (!) possíveis interpretações para a pomba, p. 331-335.
[40] Boring, p. 46.
[41] Hooker, Mark, p. 45, 48. Ele ainda lembra que a filiação de Jesus também aparece em 12:1-11, contudo, neste momento não há uma clara repetição a essa fórmula, apenas uma menção à ideia da filiação de Jesus.
[42] Juel, Mark, p. 60-61.
[43] Boring, p. 44. Robert Stein se opõe a essa ideia, lembrando que em nenhum lugar no NT há menção ao batismo de Jesus como um exemplo a ser seguido. (Mark, p. 56).
[44] William Lane, Mark, p. 54-55.
[45] Adela Yarbro Collins, Mark, p. 146-147. Stein também parece entender que o batismo de Jesus é a sua "unção" como Cristo, contudo se mostra reticente em entender que o batismo de Jesus seja a causa do início de seu ministério. Ela afirma que "o batismo de Jesus não é bem a causa da sua unção [...], pois a missão de João e o seu batismo são o "início" temporal das boas novas sobre Jesus, não o início causal” (Stein, Mark, p. 56).
[46] Joel Marcus, p. 158.
[47] Joel Marcus, p. 1068.
[48] R. T. France, Mark, p. 76.
Referências
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