As narrativas canônicas da infância de Jesus são inconciliáveis?

As narrativas canônicas da infância de Jesus são inconciliáveis?

Láion Gargano Ramos[1]

Resumo

Resumo: Dentre as várias tensões cronológicas nos Evangelhos, há um importante nas narrativas mateana e lucana da infância de Jesus. Segundo Brown (2005), a rejeição desses relatos por parte da crítica bíblica se dá devido seus problemas históricos. Diante disso, o propósito do presente artigo é analisar os registros de Mateus e Lucas da infância de Jesus a fim de verificar se é possível conciliá-los ou não em sua cronologia dos eventos narrados e assim demonstrar se os Evangelhos são dignos de confiança histórica naquilo que relatam. A ideia é contribuir com os estudos nos Evangelhos sinóticos e com a discussão acerca da sua confiabilidade histórica.

Palavras-chave: Narrativas da infância. Evangelhos Sinóticos. Harmonia dos Evangelhos. Historicidade.

Abstract: Among the various chronological tensions in the Gospels, there is an important one in the Matthean and Lucan narratives of Jesus' infancy. According to Brown (2005), the rejection of these accounts by biblical criticism is due to their historical problems. Therefore, the purpose of this article is to analyze the records of Matthew and Luke regarding the infancy of Jesus in order to ascertain whether it is possible to reconcile them or not in their chronology of the narrated events and thus demonstrate whether the Gospels are worthy of historical trust in what they report. The idea is to contribute to the studies on the synoptic Gospels and to the discussion about their historical reliability.

Keywords: Infancy narratives. Synoptic Gospels. Harmony of the Gospels. Historicity.

Resumo: Dentre as várias tensões cronológicas nos Evangelhos, há um importante nas narrativas mateana e lucana da infância de Jesus. Segundo Brown (2005), a rejeição desses relatos por parte da crítica bíblica se dá devido seus problemas históricos. Diante disso, o propósito do presente artigo é analisar os registros de Mateus e Lucas da infância de Jesus a fim de verificar se é possível conciliá-los ou não em sua cronologia dos eventos narrados e assim demonstrar se os Evangelhos são dignos de confiança histórica naquilo que relatam. A ideia é contribuir com os estudos nos Evangelhos sinóticos e com a discussão acerca da sua confiabilidade histórica.

Palavras-chave: Narrativas da infância. Evangelhos Sinóticos. Harmonia dos Evangelhos. Historicidade.

Abstract: Among the various chronological tensions in the Gospels, there is an important one in the Matthean and Lucan narratives of Jesus' infancy. According to Brown (2005), the rejection of these accounts by biblical criticism is due to their historical problems. Therefore, the purpose of this article is to analyze the records of Matthew and Luke regarding the infancy of Jesus in order to ascertain whether it is possible to reconcile them or not in their chronology of the narrated events and thus demonstrate whether the Gospels are worthy of historical trust in what they report. The idea is to contribute to the studies on the synoptic Gospels and to the discussion about their historical reliability.

Keywords: Infancy narratives. Synoptic Gospels. Harmony of the Gospels. Historicity.

Artigo

1. INTRODUÇÃO

Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são classificados nos estudos bíblicos como “Evangelhos Sinóticos” por causa da semelhança entre os relatos sobre Jesus. Segundo D. A. Carson, Douglas Moo e Leon Morris (1997), tais semelhanças não se aplicam apenas ao conteúdo, mas também a forma que os evangelistas estruturam os Evangelhos e as ênfases dadas. Porém, embora haja de fato muita similaridade entre os relatos, eles também possuem descrições de um mesmo evento com diferenças por vezes consideráveis e aparentemente sem conciliação, a ponto de soar como contradições. Tal tensão constitui o “problema sinótico”. Daniel Marguerat (2015, p. 17) arremata:

Ao se comparar os textos dos três evangelhos com o auxílio de uma sinopse, constata-se que suas relações recíprocas são feitas, ao mesmo tempo, de semelhanças impressionantes e de inegáveis divergências. Semelhanças e divergências caracterizam tanto a estrutura e o conteúdo da narrativa como a sucessão das perícopes (unidades literárias) ou a formulação do texto.

Diante desses vários relatos acerca da vida, missão e dos ensinos de Jesus (incluindo a versão joanina), e da tensão entre semelhanças e dessemelhanças, desde cedo os cristãos buscaram uma forma de harmonizar os Evangelhos canônicos e conciliar seus relatos aparentemente contraditórios. O testemunho mais antigo e famoso que se tem até então desse esforço de conciliar os registros evangélicos vem de Taciano, um cristão sírio. No século dois, ele escreveu um documento chamado “Diatessarão” (através dos quatro), onde buscou produzir uma harmonia entre os evangelhos canônicos, juntando os relatos em apenas uma narrativa. Richard Bauckham (2022) cita o “Evangelho dos Ebionitas” como um exemplo da tendência de combinar os relatos dos sinóticos no segundo século.[2][3]

Para Craig Blomberg (2019), uma das questões principais que fazem alguns críticos desconsiderarem a validade histórica dos Evangelhos são as claras diferenças na cronologia de alguns acontecimentos da vida de Cristo. Dentre as várias tensões cronológicas nos Evangelhos, há um importante nas narrativas mateana e lucana da infância de Jesus (Mt 1–2; Lc 1–2). Como afirma Marguerat (2015, p. 25): “Mateus e Lucas divergem consideravelmente em seus evangelhos da infância [...]”. [4]

A dificuldade, porém, não está apenas no fato de que “a narrativa de Mt a respeito da infância tem um conteúdo totalmente diferente da de Lc” (KONINGS, 2016, p. xi). Em termos histórico-geográficos, o desafio maior é sobre a possibilidade de conciliar a narrativa de Lucas que diz que Jesus (com um pouco mais de um mês de vida) é levado a Jerusalém para ser apresentado no Templo conforme as prescrições da Torah (Lc 2.22-24) e depois retorna a Nazaré com seu pais, enquanto que na narrativa de Mateus, ele, após seu nascimento, permanece com sua família em Belém durante um tempo, depois fogem para o Egito e quando voltam a Palestina se dirigem diretamente a Nazaré na Galiléia (Mt 2). Para Raymond Brown (2005, p. 595), em seu comentário seminal e de alto rigor técnico das narrativas da infância de Jesus, “os esforços para harmonizar as narrativas em uma história consecutiva são quase impossíveis”.[5]

O crítico textual Bart Ehrman (2017), por exemplo, classificou essa tensão como uma possível diferença, uma contradição que aponta para erros cometidos pelos autores dos Evangelhos. Destarte, Brown (2005) afirma que a rejeição desses relatos por parte da crítica bíblica se dá parcialmente devido seus problemas históricos. Será então que há realmente contradições entre as narrativas da infância? Será que um dos evangelistas se confundiu na cronologia dos fatos ou inseriu episódios não históricos?

De acordo com Craig Keener (2021), atualmente é lugar-comum entre a maioria dos estudiosos que os Evangelhos pareçam ter sido influenciados pelas biografias greco-romanas (bios), embora ele alerte sobre a diferença em relação as biografias modernas pelo fato de muitas vezes os relatos evangélicos seguirem uma abordagem temática, em vez de cronológica. Ou seja, nas biografias antigas não havia essa convenção de seguir toda a linha do tempo do personagem retratado de forma precisa. Todavia, a questão aqui não é a omissão de certos períodos da vida de Jesus e nem o rearranjo temático, mas sim aparentes contradições na cronologia dos fatos da sua infância.

Diante dessa discussão, o propósito do presente artigo é analisar os registros de Mateus e Lucas da infância de Jesus a fim de verificar se eles podem ser conciliados ou se são inconciliáveis na cronologia dos eventos narrados e assim demonstrar se os Evangelhos são dignos de confiança histórica ou não naquilo que relatam. A ideia é contribuir com os estudos nos Evangelhos sinóticos e com a discussão acerca da sua confiabilidade histórica.

Para tanto, na primeira seção, em grande parte baseada no livro “A Confiabilidade Histórica dos Evangelhos” de Craig Blomberg (2019), será examinado de maneira suscinta como se deu a discussão da validade histórica dos Evangelhos ao longo dos séculos. Na segunda e terceira seções, as duas narrativas da infância de Jesus contidas nos dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas serão analisadas de forma panorâmica respectivamente. Na quarta seção, serão apontadas algumas tensões e aparentes contradições entre os relatos mateano e lucano analisados. Por fim, na quinta e última seção, será investigado se as contradições se confirmam ou se há possiblidades de conciliação, bem como de defesa da confiabilidade histórica dos relatos da infância.

2. A DISCUSSÃO SOBRE A HISTORICIDADE DOS EVANGELHOS

Por muito tempo na história da igreja, as aparentes contradições e disparidades entre os evangelhos canônicos não foram um grande problema e nem motivo de desconfiança do seu valor histórico. Durante o período no qual “se consideravam os autores dos evangelhos testemunhas oculares da vida de Jesus e se acolhiam acriticamente as tradições da Igreja antiga [...], as diferenças entre os evangelhos representavam um problema somente para poucos” (SCHNELLE, 2004, p. 58). Sobre isso, Blomberg (2019, p. 32) afirma que

A convicção de que os apóstolos ou colaboradores próximos dos apóstolos escreveram os quatro Evangelhos já no primeiro século levou cristãos ao longo da maior parte da história da igreja a acreditar que eles registraram material historicamente confiável e não apenas teologicamente sancionado. Dessa maneira, tentavam regularmente conciliar contradições aparentes, confiantes de que surgiriam soluções plausíveis.

O mesmo autor (BLOMBERG, 2019) diz que o esforço para harmonizar os testemunhos dos Evangelhos e o foco naquilo que concordam foi o modus operandi preponderante da reflexão cristã durante 17 séculos. Udo Schnelle (2004), inclusive, aponta que tentativas intencionais de harmonizar relatos paralelos entre os sinóticos são uma das causas da existência de variantes nos manuscritos. Só a partir do final do século 18 que os estudos nos Evangelhos começaram a se concentrar nas suas dessemelhanças e aparentes contradições (BLOMBERG, 2019).

Isso não quer dizer que não haviam críticas já nos primeiros séculos. Richard Bauckham (2022, p. 319) diz que críticos “dentro e fora da igreja faziam muito caso destas diferenças [entre os evangelhos] durante o segundo século”. O próprio Blomberg (2019) cita Orígenes de Alexandria como alguém que admitiu que havia de fato contradições históricas e que algumas tentativas de combinação entre os relatos eram impossíveis (embora tenha seguido o caminho da alegorizarão dos textos como solução para essas contradições).

De acordo com Marguerat (2015), dentre os pais da igreja, quem primeiro lidou com a intertextualidade dos sinóticos foi Agostinho de Hipona, o qual em 400 d. C. escreveu uma obra (Sobre a Harmonia dos Evangelhos) a fim de dar uma resposta às críticas acerca das contradições entre os Evangelhos.

Em 1555, João Calvino (2023, pos. 636) publicou uma obra chamada “Harmonia dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas”, onde buscou “organizar as três histórias numa cadeia contínua, ou num quadro único, no qual o leitor conseguiria perceber, à primeira vista, eventuais semelhanças ou diversidades”.

Porém, com o surgimento do Iluminismo e sua grande ênfase na razão humana e no avanço científico, bem como sua descontinuidade no que se refere a submissão a autoridade da religião para responder questões acerca da vida humana, os estudos bíblicos e teológicos tomaram outro rumo. Na academia, se iniciou um movimento de estudiosos críticos da Bíblia, os quais começaram a abandonar as tentativas de harmonização dos Evangelhos e passaram a defender que algumas diferenças entre os relatos apontavam para contradições históricas irreconciliáveis. Marguerat (2015) declara que a partir do final do século 18 a questão da dependência literária entre os sinóticos migrou do campo dogmático para o histórico-literário.

Segundo Blomberg (2019), J. S. Semler e J. D. Michaelis, dois estudiosos alemães do século 18, são tidos como pioneiros dessa nova abordagem. De acordo com Paulo Won (2020), Hermann S. Reimarus e Heinrich Paulus também são nomes importantes desse período, os quais buscaram ler os Evangelhos como qualquer outro tipo de literatura. Com isso, começou a haver um esforço de separar aquilo que era de fato histórico de relatos fantasiosos nos Evangelhos. Esse tendência ganhou força no século 19, com D. F. Strauss, o qual apontava que a presença de contradições entre os relatos paralelos dos Evangelhos era possivelmente um sinal de que essas narrativas eram mitos (BLOMBERG, 2019). Ainda de acordo com Blomberg (2019, p. 38), a partir da aplicação da dialética hegeliana nos estudos críticos do Novo Testamento por F. C. Baur (século 19), “seu princípio geral de que teologias contraditórias são a melhor explicação para as divergências entre os Evangelhos é um pressuposto comum da pesquisa atual”.[6][7]

Como descreve Bauckham (2011), há quem defenda, inclusive, que os Evangelhos são coleções de tradições adaptadas e criadas a fim de atender as demandas das comunidades, sem muito interesse em conservar tradições do passado sobre Jesus. Devido a isso, os Evangelhos não seriam fontes históricas confiáveis acerca de Jesus. Em consonância, David deSilva (2004), se referindo aos pressupostos da crítica da forma, diz que muitos estudiosos que seguem essa abordagem creem que várias unidades nos Evangelhos servem mais para conhecer a vida da igreja da época do que a vida de Jesus.

Por outro lado, alguns estudiosos se posicionam contra uma tentativa forçada de conciliar as narrativas evangélicas, defendendo que o formato canônico dos quatro Evangelhos precisa ser respeitado. Carson, Moo e Morris citam um desses estudiosos (Brevard Childs) e concordam em parte com a crítica acerca de uma harmonização que desconsidera o valor dos relatos em seus próprios termos. Porém, alertam que “a verdade daquilo que os evangelistas dizem está inevitavelmente vinculada à realidade histórica daquilo que narram”. Assim, a “tentativa de costurar essa realidade — a vida e o ministério de Jesus de Nazaré — é ao mesmo tempo necessária e significativa” (1997, p. 61).

Acerca das diferenças entre os Evangelhos, Blomberg (2019, p. 84) afirma que “muitas simplesmente refletem interpretações teológicas variadas dos mesmos acontecimentos históricos, sem pôr em questão a historicidade fundamental dos acontecimentos em si”. Com entusiasmo e confiança, o mesmo autor também declara:

Se problemas anteriormente “intratáveis” foram solucionados com uma análise paciente, o comentarista pode estar cada vez mais confiante de que novos desafios podem ser enfrentados com igual êxito e cada vez menos disposto a ingenuamente equiparar divergência superficial com contradição real. E, apesar de dois séculos de investidas céticas, é justo dizer que todas as supostas incoerências entre os Evangelhos receberam soluções pelo menos plausíveis (2019, p. 41).

O esforço para conciliar os evangelhos em uma narrativa única e coerente continua sendo uma empreitada ainda hoje. Uma obra atual que serve de exemplo é a do James Barlow chamada “Jesus, o livro” (2024), na qual o autor organiza uma única narrativa de forma cronológica da história de Cristo, costurando os relatos dos quatro Evangelhos.[8]

Assim, para R. T. France (2003, p. 281), há espaço para uma harmonização dos Evangelhos, “contanto que seja feita com a devida sensibilidade literária e histórica, e não com uma determinação mecânica, que visa eliminar todas as diferenças a qualquer custo, independente da probabilidade histórica”.

Por fim, de acordo com Brown (2005) — escrevendo em meados da década de 1970, mas que ainda pode ser afirmado como tendência atual —, nas últimas décadas o foco da pesquisa nos Evangelhos deixou de ser na história anterior aos relatos evangélicos para o papel desses relatos no texto definitivo.

3. NARRATIVA DA INFÂNCIA EM MATEUS 1—2

Mateus começa seu relato com o registro da genealogia de Jesus, retrocedendo até Abraão, não sem enfatizar que ele é filho de Davi, uma vez que faz parte do propósito do autor demonstrar que Jesus é o Messias-Rei prometido (1.1-17). Em seu evangelho, Mateus demonstra como em Jesus as esperanças de Israel e as promessas de Deus encontram seu cumprimento escatológico. Ele faz isso ao destacar pontos que deixam claro a origem judaica de Jesus, bem como sua linhagem davídica, repetidamente.

Após isso, há uma versão resumida da gravidez de Maria, operada pelo Espírito, e da manifestação de um anjo de Deus a José a fim de impedi-lo em sua intenção de não tomar Maria como esposa. O anjo explica a José (e Mateus descreve isso a fim de comunicar aos seus leitores e ouvintes) que aquele que está no útero de Maria foi gerado pelo poder do Espírito de Deus e que ele será aquele que irá salvar seu povo dos seus pecados e que seu nome deverá ser Jesus. Diante disso, José concretiza e oficializa o casamento com Maria (1.18-24).

No início do capítulo 2, o autor informa o local do nascimento de Jesus: Belém da Judeia. Segundo Carson (2010), ele especifica porque havia outro local chamado Belém de Zebulom. Isso já funciona como uma preparação do que Mateus irá descrever a seguir, ou seja, a profecia acerca do local do nascimento do Messias. O evangelista passa então a relatar a chegada de magos pagãos em Jerusalém vindos do Oriente, os quais perguntaram: “onde está o recém-nascido rei dos judeus?” (v.2), pois eles tinham sido guiados por uma estrela até lá e vieram para adorá-lo. “Aparentemente, esses homens foram a Belém estimulados por cálculos astrológicos” (CARSON, 2010, p. 112). Ao ouvir isso, Herodes, rei da Judeia, fica perturbado, pois seu trono estava sendo ameaçado.[9][10]

Assim, Herodes manda chamar alguns líderes religiosos dos judeus, incluindo os especialistas na Escritura, e pergunta onde está previsto que o Messias nasça. A resposta dos líderes é que a cidade de Belém (a qual ficava cerca de 8km a sudoeste de onde eles estavam, i.e., Jerusalém) é aquela que está predita como o local do nascimento do Messias, conforme Mq 5.2 (2.3-6).[11]

Herodes, então, chama os magos e questiona quando exatamente a estrela apareceu a eles, fingindo que também queria adorar o menino e reconhecer a sua realeza, e os envia a Belém para que encontrem a Jesus e o informe onde ele está. Para Carson (2010), a razão de Herodes coletar essas informações com os magos é porque o assassinato dos bebês de Belém já estava em seus planos. Em seguida, Mateus relata que a estrela que os guiou até a Judeia os leva agora até o local onde o menino está com a sua família. Destarte, eles reverenciam Jesus, entregam presentes e retornam ao seu local de origem depois de serem avisados por meio de um sonho sobre as reais intenções de Herodes. Comparado com histórias de nascimento milagroso na antiguidade, nas quais era comum o uso de linguagem mítica e enfeitada, Keener (2017) afirma que isso contrasta com forma direta e simples de Mateus narrar o nascimento de Jesus (2.7-12).

Após a partida dos magos, um anjo do Senhor aparece a José novamente em sonho e o alerta sobre os planos perversos de Herodes de matar Jesus. Então, conforme a ordem do anjo, José foge com Maria e Jesus para o Egito, a fim de se refugiarem (2.13-15). Pois o Egito era “uma província romana próxima, bem organizada e fora da jurisdição de Herodes[...] (CARSON, 2010, p. 119)”. Mateus faz questão de registrar isso a fim de destacar a correlação da história de Jesus com a de Israel e em cumprimento desta, algo que fica explícito quando o autor cita Os 11.1 (que se refere originalmente a saída de Israel do Egito e, de acordo com o contexto maior, também a promessa de um novo êxodo) no v.15.

Ao perceber que foi enganado pelos magos, Mateus diz que Herodes, cheio de fúria, ordena que todas as crianças do sexo masculino com até dois anos sejam assassinadas em Belém e região (2.16-18).[12]

Mateus, então, encerra o capítulo informando que após a morte de Herodes o anjo do Senhor aparece mais uma vez a José e o informa que ele e sua família já podem retornar à terra de Israel. Eles obedecem ao anjo e voltam a Palestina, passando a ficar não mais em Belém, na Judeia (pois o filho de Herodes era o novo governante dali), mas sim em Nazaré, na Galiléia (2.19-23). Assim, um “tema geográfico percorre o cap. 2, de modo que o nascimento em Belém, a fuga para o Egito e a viagem de volta a Nazaré constituem um itinerário de orientação divina” (BROWN, 2005, p. 62, grifos do autor).

Portanto, nesses capítulos Mateus “apresenta temas como o Filho de Davi, o cumprimento de profecia, a origem sobrenatural de Jesus, o Messias, e a proteção soberana do Filho pelo Pai a fim de o levar a Nazaré e realizar o plano divino de salvação do pecado” (CARSON, 2010, p. 84). Destarte, “toda a ‘narrativa da infância’ apresenta uma demonstração da evidencia escritural para a pessoa e para a origem de Jesus como o Messias” (FRANCE, 2003, p. 287).

4. NARRATIVA DA INFÂNCIA EM LUCAS 1—2

Lucas inicia com um prefácio à sua obra. Ele menciona relatos anteriores que foram produzidos, os quais foram baseados no testemunho de testemunhas oculares, e informa que decidiu investigar acuradamente e escrever um relato ordenado do que aconteceu quando Jesus se manifestou (1.1-4). O uso do termo διήγησιν (relato/narração) era comum na historiografia antiga (KEENER, 2017; MARGUERAT, 2015). Para Marguerat (2015), nesse prefácio transparece as habilidades de Lucas como historiador, escritor e teólogo.

Após isso, Lucas passa a descrever a história de João Batista antes de iniciar a narrativa acerca de Jesus. Ele relata como um anjo aparece a um sacerdote chamado Zacarias e revela que sua mulher, Isabel, terá um filho dele e que deverá se chamar João (ambos já tinham idade avançada e Isabel era estéril). O anjo avisa também que o ministério de João será conduzir os judeus de volta ao Senhor em preparação para a sua vinda (1.5-25).

O autor, então, interrompe sua narrativa da história de João Batista e passa a relatar a manifestação de um anjo à uma mulher chamada Maria, a qual morava em Nazaré e estava prestes a se casar com um homem por nome José. O anjo diz a Maria que ela ficará grávida (pelo poder do Espírito de Deus, pois é uma jovem virgem) e que a criança deverá se chamar Jesus. O anjo avisa que é nesse Jesus que se cumprirá as esperanças de Israel e as promessas de Deus acerca do rei davídico esperado, o qual reinará para sempre (1.26-38).

Com grande habilidade narrativa, Lucas faz com que o relato de Zacarias, Isabel e seu bebê se conecte com Maria e seu bebê. Como o anjo havia informado que sua parente Isabel estava grávida, Maria vai até a casa dela. Então, ao receber uma inspiração profética, Isabel cumprimenta Maria, declarando o quão especial é o filho que ela está esperando. Dessa forma, assim como fez com Isabel no v.25, Lucas descreve um cântico de Maria, no qual ela glorifica ao Senhor por abater os soberbos e levantar os humildes, fazendo com que seus propósitos para o seu povo se cumpram por meio dos pequenos, desprezados e fracos, algo bem comum na teologia lucana (1.39-56).

Destarte, o autor retoma o seu relato sobre João Batista, narrando como foi seu nascimento e o temor que sobreveio aos vizinhos quando ouviram falar da obra do Senhor na vida da sua família e que o menino exerceria um papel importante nos planos salvíficos de Deus. Mais uma vez, Lucas insere um cântico em seu relato, os quais “são um modo de comentar a significância dos eventos na narrativa [...]” (BAUCKHAM, 2022, p. 197). Agora, de Zacarias, o qual profetiza declarando que Deus irá cumprir as suas promessas de visitar o seu povo, trazendo perdão e salvação dos seus inimigos, e que seu filho João terá um papel importante nesse processo (1.57-80).

Após isso, Lucas volta a narrar a história de Jesus. Ele não só descreve que Jesus nasceu em Belém da Judéia, pois informa as circunstâncias que levaram a família de Jesus até lá, uma vez que moravam em Nazaré, na Galiléia. Ele diz que José e Maria, ainda grávida, precisaram ir a Belém devido um recenseamento feito pelo então Imperador César Augusto. As informações que ele traz sobre os governantes que estavam no poder nessa época servem para localizar historicamente, de acordo com as convenções da época, o evento do nascimento de Jesus que irá descrever a seguir. Ao que parece, faz parte do programa de Lucas “colocar sua história no contexto secular (cf. 3.1)” (MORRIS, 1983, p. 79). Sendo José da linhagem de Davi (como ficará ainda mais claro na genealogia que Lucas irá inserir mais adiante no cp. 3.23-38), ele se alista na cidade de Davi. Estando em Belém, Lucas informa que Jesus nasce em um contexto nada pomposo e solene, como era de se esperar se tratando do nascimento de um rei (2.1-6).

Após isso, Lucas diz que um anjo do Senhor aparece a uns pastores que estavam trabalhando próximo a Belém e os avisa sobre o nascimento do Messias, do Salvador. Diante dessa proclamação, os pastores vão a Belém e encontram o bebê Jesus e passam a contar tudo o que viram e ouviram às pessoas (2.7-20).

Assim como fez com João Batista, Lucas relata a circuncisão de Jesus ao oitavo dia, conforme a Torah, e o registro do seu nome. Depois, narra a ida dos pais de Jesus (presumivelmente) de Belém até Jerusalém a fim de cumprirem com os ritos estipulados na Torah: consagração e resgate do primogênito e os sacrifícios pela purificação da mãe após o parto (Cf. Êx 13.1-16; Lv 12). Uma vez que Lv 12.2-4 diz que a mãe ficaria ritualmente impura por 40 dias após o parto de um menino, e só depois disso ela poderia ir ao espaço sagrado realizar os ritos exigidos pela sua purificação, Jesus e seus pais só vão ao templo em Jerusalém depois desse período. Lucas registra mais declarações proféticas feitas em Jerusalém sobre quem é Jesus e sua missão. “Jesus é o Messias que Deus envia a seu povo Israel para salvá-lo: o evangelho da infância significa isso claramente no limiar do relato[...]” (MARGUERAT, 2015, p. 129). “Um grupo dentro da religião antiga, portanto, estava esperando o Messias” (MORRIS, 1983, p. 86). Dessa forma, após cumprirem com as exigências da Torah, Lucas informa que José, Maria e Jesus voltam para o local onde moravam antes de Jesus nascer, a cidade de Nazaré, e diz que Jesus crescia e se desenvolvia cada dia mais (2.21-40).[13]

Por fim, Lucas informa que todos os anos os pais de Jesus iam a Jerusalém para participar da Páscoa. Depois ele dá um salto temporal e narra um episódio quando Jesus tinha 12 anos. Eles vão a Jerusalém participar da festa novamente e Jesus fica no Templo conversando com os mestres. Seus pais, ao retornarem para Nazaré, percebem a ausência de Jesus e voltam a Jerusalém para o buscar. Assim, Lucas encerra a narrativa da infância de Jesus com uma nota sobre sua obediência aos pais e, mais uma vez, sobre o seu crescimento (2.41-52).

5. TENSÕES ENTRE AS NARRATIVAS

Algumas diferenças entre Mateus e Lucas em seu relato da infância de Jesus podem ser explicadas pela intenção teológica e/ou pela tradição recebida de cada autor. O fato de Lucas gastar mais tempo e dar mais detalhes sobre como foi o nascimento de Jesus, enquanto que Mateus é bem mais sucinto, não se constitui um problema. Cada autor resolver registrar ou omitir certos eventos e detalhes de uma mesma história não necessariamente implica em contradições. Por questões linguísticas, tanto Blomberg (2019) quanto Marguerat (2015) falam da probabilidade de Lucas ter dependido de uma tradição mais antiga e já consagrada em seus dois primeiros capítulos. Bauckham (2022), no entanto, não crer ser provável que Lucas tenha feito uso de fontes escritas em seu relato da infância, devido as suas habilidades como escritor.

Os dois evangelistas estão de acordo quanto ao local do nascimento de Jesus e sobre quem são seus pais. Além disso, embora em Mateus o anjo apareça e fale com José enquanto que em Lucas isso acontece com Maria (informações que não são auto excludentes), em ambos os relatos vemos declarações semelhantes acerca da identidade e missão de Jesus. Também é destacado pelos autores a natureza miraculosa da gestação de Maria. A cidade de Nazaré também aparece nos dois Evangelhos, embora em Lucas já seja informado desde o início que José e Maria moravam nessa cidade antes de Jesus nascer e em Mateus só é dito que após voltarem do Egito eles passam a morar lá. Conforme Johan Konings (2016, p. xi):[14]

Quanto ao anúncio do nascimento, Mt o narra do ponto de vista de José, Lc do ponto de vista de Maria. Mas ambos concordam em transmitir que Jesus nasceu em Belém, o povoado de Davi, e que seu nascimento é “assinalado” pelo poder de Deus (nasce de uma virgem, realizando a profecia de Is 7,14). Esta é a tradição transmitida por ambos, mas não há indícios de uma fonte escrita comum.[15]

Entretanto, embora Carson, Moo e Morris (1997) afirmem que as divergências entre Mateus e Lucas em suas narrativas da infância de Jesus não apresentem contradições, e sim, relatos que quase não possuem similaridades, há diferenças na cronologia dos acontecimentos que são bastante difíceis de serem conciliadas e parecem apontar para contradições histórico-geográficas entre os relatos. Ulrich Luz (2007) defende que as tradições mateana e lucana da narrativa da infância são inconciliáveis em muitos pontos (inclusive cronológicos), não só divergentes. Em consonância, Brown (2005, p. 46) afirma que isso “nos leva a observar que as duas narrativas não são só diferentes; são opostas em vários detalhes”.

Em Lucas, após o nascimento de Jesus, sua família parece permanecer em Belém até cumprir todos os ritos conforme a Torah em Jerusalém e depois retornam a Nazaré, não a Belém. Já em Mateus, a família de Jesus foge de Belém para o Egito, fica lá até a morte de Herodes e depois retorna para a Palestina, se dirigindo a Nazaré. A complexidade dessa tensão se mostra na afirmação de Morris (1983) de que, a partir do relato lucano, não há como saber se a visita a Jerusalém foi antes ou depois da fuga para o Egito.

Assim, a ida da família de Jesus a Jerusalém a fim de cumprir com as exigências da lei de Moisés, conforme Lucas registra, parece não encontrar espaço na linha do tempo da narrativa da infância de Mateus. Em outras palavras, a questão toda é onde seria possível encaixar a sequência de acontecimentos da infância de Jesus segundo Lucas na cronologia dos eventos conforme a narrativa mateana. Onde se encaixaria a fuga de Jesus e seus pais do relato mateano na narrativa de Lucas, uma vez que de Belém eles vão a Jerusalém e depois a Nazaré? Da mesma forma, onde a visita a Jerusalém do relato lucano se encaixaria na narrativa de Mateus, uma vez que de Belém, Jesus e seus pais precisam fugir para o Egito e então de lá é que eles vão para Nazaré na Galiléia, e não para Judéia? Luz (2007, p. 106)assevera, por exemplo, que “o fato de Lucas não conhecer nada similar à [...] história [mateana] fala contra um núcleo histórico”.[16]

É verdade que vários eruditos bíblicos tem visto no relato da infância de Jesus segundo Mateus um paralelo com a história de Moisés (BAUCKHAM, 2022; FRANCE, 2003; KEENER, 2017; BROWN, 2005; OVERMAN, 2020; SILVA; NOBRE, 2016), embora Carson (2010) seja reticente quanto a isso. No que diz respeito à narrativa da infância segundo Lucas, tem sido visto alusões a Samuel (BAUCKHAM, 2022; KEENER, 2017; BROWN, 2005). Além disso, alguns estudiosos destacam também a importância que a cidade de Jerusalém tem em todo Evangelho de Lucas (MARGUERAT, 2015; BLOMBERG, 2019; BROWN, 2005; MOREIRA, 2012). Isso pode ser visto no fato de que a narrativa começa (1.5-25) e termina (24.53) no Templo em Jerusalém e de que quase metade do Evangelho se encontra durante a viagem de Jesus até Jerusalém (Lc 9.51—19.28). Talvez isso explique, pelo menos parcialmente, a seleção dos evangelistas de quais eventos registar. Não obstante o entendimento dos propósitos teológicos dos evangelistas seja fundamental no estudo dos Evangelhos, isso ainda não explica a aparente contradição entre a sequências dos eventos da infância de Jesus nas narrativas mateana e lucana e nem contribui para a defesa da confiabilidade histórica dos relatos. Ao invés disso, a simetria com a história de Moisés vista em Mateus, por exemplo, “suscita a dúvida da historicidade do fato. Afinal, a narrativa seria histórica ou apenas uma releitura teológica do episódio descrito no Êxodo à luz do evento Jesus de Nazaré?” (SILVA; NOBRE, 2016, p. 157).

Assim, o grande problema não é com o fato de Mateus omitir a ida da família de Jesus a Jerusalém e nem de Lucas não ter relatado a fuga deles para o Egito devido a perseguição de Herodes, uma vez que é sabido que os Evangelistas nem sempre seguem uma cronologia rígida e precisa no arranjo do seu relato como em biografias modernas. A questão é sobre como lidar com as aparentes contradições entre a sequência dos eventos relatados e com o fato de parecer ser impossível conciliar as duas narrativas do trajeto da família de Jesus após seu nascimento. Principalmente pelo fato de Lucas demonstrar sua preocupação com a historicidade do relato, algo que vemos tanto no prefácio quanto em seu uso de “indicações de cronologia mundial (1,5; 2,1; 3,1-2, etc.)” (KONINGS, 2016, p. xiii). Por causa disso, Brown (2005, p. 223) declara:

O harmonizador mais determinado seria vencido pela impossibilidade de conciliar uma viagem da família de Belém para o Egito com o relato lucano de que José e Maria levaram o menino a Jerusalém quando ele completou quarenta dias e que, de Jerusalém, foram para Nazaré, onde permaneceram.

É aqui que diferenças começam a se parecer com contradições entre os relatos. Diferenças podem sem explicadas pela forma e propósito de cada autor em contar uma história, mas contradições apontam para implausibilidade e equívocos históricos. Por isso que, segundo Blomberg (2019), tanto a narrativa da infância de Lucas quanto a de Mateus são tidas por alguns estudiosos como criativas a fim de atender os seus objetivos literários. Brown (2005) afirma que, de fato, uma das evidências de que as narrativas não são completamente históricas é a discordância entre elas.

6. PROPOSTA DE CONCILIAÇÃO

Em uma leitura mais atenta à narrativa de Mateus é possível identificar algumas informações que podem trazer luz à discussão sobre a aparente contradição e implausibilidade histórica dos relatos. Mateus inicia o cp. 2 dizendo que após Jesus nascer os magos vieram a Jerusalém. O autor não deixa claro quanto tempo depois do nascimento de Jesus ocorreu a chegada dos magos. Todavia, na ordem para matar as crianças dada por Herodes está algo implícito que ajuda nessa informação.

Herodes ordena o assassinato de “todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades [...]” (Mt 2.16, grifo nosso). Mas por que incluir crianças de até dois anos se Jesus tivesse nascido a pouco tempo? Segundo Carson (2010), esse limite de idade tinha por objetivo assassinar Jesus de qualquer forma, uma vez que ele tinha na época entre seis a vinte meses de vida. Vemos um sinal disso antes de finalizar o versículo, quando Mateus diz que Herodes estabeleceu esse limite de idade com base nas informações dos magos. O autor parece estar se referindo ao que disse em no cp. 2.7: “Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido”. Ele mataria “todas as crianças do sexo masculino em Belém e suas redondezas, a saber, as que tivessem nascido a partir do tempo em que os astrólogos primeiro viram a estrela[...]” (TASKER, 1980, p. 34). Brown (2005) vê o v.7 como uma preparação de Mateus para a ordem de Herodes no v.16.

Ou seja, as informações que Herodes recebeu dos magos foi sobre o tempo exato que eles viram a estrela que os guiou até a Judéia. Isso parece apontar para o fato de que quando os magos foram visitar Jesus já tinha se passado um período desde o seu nascimento. Tanto Carson (2010) quanto R. V. G. Tasker (1980), afirmam que quando os magos visitaram Jesus já havia passado algum tempo desde o seu nascimento, de modo que ele já estava na casa, não no local onde nasceu. Inclusive, como observa Tasker (1980), o termo usado em Mateus 2.11 para se referir ao menino (παιδίον) Jesus é distinto do que Lucas 2.16 usa em referência a Jesus enquanto recém-nascido (βρέφος), o que está de acordo com o uso do mesmo termo por Lucas em outras passagens que claramente designam fetos ou bebês (cf. ainda no útero, 1.41,44; recém-nascido, 2.12). Embora Luz (2007, p. 75) afirme que Lc 2.21-40 e Mt 2.1-15 podem ser reconciliados “somente quando alguém assume partes da tradição da igreja antiga de que os magos não vieram a Belém até dois anos depois”, isso parece claro no próprio texto, sem a necessidade de apelar para a tradição da igreja. Até mesmo Brown (2005), que não considera que as duas narrativas possam ser completamente históricas, reconhece que no relato de Mateus 2 Jesus tinha quase dois anos quando teve que fugir com sua família para o Egito. [17]

Dessa forma, haveria tempo suficiente para que os pais de Jesus o levassem a Jerusalém e cumprissem com os rituais exigidos. Afinal, qual judeu, ainda mais estando tão perto de Jerusalém, não observaria algo tão importante da Torah como a apresentação e resgate do primogênito, o qual servia como sinal da ação de Deus no Egito para libertar o seu povo (cf. Êx 13.13-16)? Além disso, é dificil pensar que uma mulher judia piedosa não passaria pelas cerimônias que marcavam sua purificação após o período de impureza ritual/cultual devido ao parto. A devoção de José e Maria e seu compromisso com a Torah é visto, dentre outras passagens, em Lc 2.41,42.

Destarte, ao que parece, após irem a Jerusalém, José, Maria e Jesus retornam a Belém, ficam ainda quase dois anos lá, fogem para o Egito quando são avisados pelo anjo acerca da ordem de Herodes e de lá eles se dirigem a cidade onde moravam, Nazaré. Portanto, a afirmação de Brown (2005, p. 268) de que “uma viagem ao Egito é inconciliável com o relato de Lucas de uma volta pacífica e rotineira de Belém para Nazaré logo depois do nascimento do menino” é, no mínimo, exagerada. Pois não parece haver uma real contradição histórico-geográfica entre as narrativas. Todavia, algumas questões se interpõem à essa reconstrução da cronologia dos fatos e conciliação entre os relatos.

6.1 Recém-Nascido?

A palavra recém-nascido que aparece na maioria das versões em português (Mt 2.2, ARA/NAA/NVI/NVT) parece indicar que quando os magos chegaram em Jerusalém, Jesus tinha nascido a pouco tempo.

Sobre a expressão recém-nascido, o que aparece no texto grego é o termo τεχθεὶς que indica apenas que alguém nasceu, nesse caso “o rei dos judeus”. Nada no termo em si estabelece o tempo que alguém tem de nascido. Isso deve ser determinado pelo contexto que, como já foi exposto, parece indicar um período maior de tempo entre o nascimento de Jesus e a visita dos magos. Carson (2010, p. 114, grifo nosso) defende que a melhor tradução para a pergunta dos magos seja: onde está “o que nasceu rei dos judeus?”. Enquanto Tasker (1980, p. 16, grifo nosso) apresenta a opção: onde está a “criança nascida para ser ‘Rei dos Judeus’”? Outros, conforme Brown (2005, p. 201, grifo nosso), “traduzem apositivamente: [onde está] ‘o que acabou de nascer, a saber, o rei dos judeus’”? Independentemente de qual seja a melhor tradução, o “particípio na construção ὁ τεχθεὶς βασιλεὺς [...] é adjetivo, não substantivo e é usado atributivamente. Além disso, não há sugestão de ‘recém-nascido’ [...], o que já foi descartado pelas notas cronológicas[...]” (CARSON, 2010, p. 118, n. 2). Dessa forma, a “tradução usual ‘o recém-nascido rei’ dá ocasião para enganos, pois induz sempre de novo à suposição de que a história dos ‘magos’ teria acontecido imediatamente após o nascimento de Jesus” (RIENECKER, 1998, p. 23).[18][19]

6.2 Retorno a Nazaré

A segunda dificuldade é mais complexa e de difícil resolução. Lucas 2.39 parece mesmo afirmar que Jesus e seus pais retornaram a Nazaré após cumprirem com as exigências da Torah em Jerusalém. Isso fica ainda mais complicado quando se lembra o que Lucas disse em seu prefácio: “Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado [καθεξῆς], ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas” (1.3,4, grifo nosso). Uma vez que desde o início o autor deixa claro que fez uma exposição sobre Jesus em ordem, como ele poderia deixar passar um episódio tão importante como a volta de Jesus e seus pais a Belém e sua fuga para o Egito? Há pelo menos duas hipóteses que podem servir de alternativas a afirmação de que Lucas ou Mateus cometeram erros históricos ou fabricaram alguns eventos na narrativa da infância de Jesus. [20]

Primeiro, a afirmação lucana de que Jesus e sua família retornaram a Nazaré não quer dizer necessariamente que fizeram isso imediatamente após a ida a Jerusalém. Lucas pode estar muito bem resumindo o itinerário da família de Jesus ou pode estar seguindo o resumo da tradição que recebeu. Alguém que relata como foi até Santa Catarina e que depois de alguns meses retornou a Bahia, sem mencionar que passou em São Paulo antes de retornar, não está de maneira nenhuma cometendo um erro na sequência dos eventos (o mesmo vale para o relato mateano). Como afirma Carson (2010, p. 111): “Lucas 2.39 não faz menção de uma estadia prolongada em Belém e uma viagem ao Egito antes do retorno a Nazaré; se Lucas conhecia esses eventos, achou-os irrelevantes para seu propósito”. Ademais, o v. 39 faz parte de uma moldura literária lucana, pois serve de desfecho à perícope iniciada no v.22 (ULLOA, 2013). Assim, o v.39 “faz parte da estrutura da cena da apresentação, relacionada, por meio de inclusão, com” os vv.22-24 (BROWN, 2005, p. 561).

Segundo, embora menos provável, Lucas diz no cp. 2.41 que todos os anos os pais de Jesus se dirigiam a Jerusalém. Não se sabe se levavam Jesus com eles, mas se sim, pode ter ocorrido que em uma dessa ocasiões durante os dois primeiros anos de vida de Jesus sua fuga de Belém para o Egito possa ter acontecido. [21]

Sobre a questão da aparente contradição entre o método de Lucas de expor os acontecimentos em ordem e a possiblidade de ele ter omitido parte da sequência dos acontecimentos da infância de Jesus não gera nenhuma surpresa, uma vez que há um grande salto temporal dos primeiros meses do nascimento de Jesus, para ele com doze anos (2.42) e para depois com trinta anos (3.23). De acordo com Morris (1983, p. 64), tomar a expressão do prefácio como “‘ordem cronológica’ [...] atribui demais ao texto”. Pois, frequentemente “o sentido lucano de ‘ordem’ é lógico, não cronológico” (BROWN, 2005).

6.3 Local Onde José e Maria Moravam

Enquanto Mateus perece apontar Belém como o local que José e Maria moravam e que eles se mudaram para Nazaré só depois de voltarem do Egito, Lucas informa que os pais de Jesus moravam em Nazaré, foram a Belém apenas para participar do censo e depois retornaram pra lá. Assim, os relatos aparentemente contraditórios sobre o local que os pais de Jesus moravam também se constitui uma grande dificuldade para uma harmonia entre eles e para validação da sua historicidade, conforme aponta Luz (2007).

Porém, Keener (2017) afirma que, devido os critérios de recenseamento da época, é bem provável que José possuísse alguma propriedade em Belém e que sua residência legal era lá. Além disso, Lucas diz no cp. 2.3 que as pessoas iam se alistar “cada um à sua própria cidade” (ACF/ARA/NAA). Brown (2005, p. 531) assevera que “Belém era ‘sua cidade’ (de José), em Lc 2.3”. Uma vez que Lucas parece afirmar que Belém era o local de origem de José, será que não é possível inferir que ele possuía propriedade lá, a qual constava nos registros romanos? Isso explicaria como Jesus e seus pais puderam ficar tanto tempo em Belém (cerca de dois anos, conforme a proposta exposta acima). [22][23]

Embora Morris (1983) concorde também que era no local de residência que se baseava o censo segundo os critérios do Império Romano, ele diz que o registro foi feito baseado no lar dos antepassados (cf. Lc 2.4), isso devido a uma articulação política de Herodes como disfarce para uma ordem estrangeira. Brown (2005), por sua vez, também diz que não há evidências claras de que, nos censos romanos, as pessoas iam à cidade dos seus ancestrais para se registrarem. Mas, apesar do enunciado acima, defende que a afirmação lucana é de um censo por linhagem e que isso aponta para uma imprecisão histórica. Porém, embora de fato Lucas conecte o fato de José ser da linhagem davídica com a sua ida até Belém (cidade de Davi) para se alistar (2.4), isso não seria uma contradição com a possibilidade de José possuir propriedade em Belém. Lucas pode estar apenas destacando a linhagem davídica do pai legal de Jesus (como fez no cp. 1.27) a fim de validar a genealogia deste como descendente de Davi (cf. Lc 3.23-38). De qualquer forma, a informação acerca de como era feito o recenseamento romano pode explicar por que Mateus parece dizer que os pais de Jesus moravam em Belém, enquanto Lucas diz ser em Nazaré.

Já o fato de, estando em Belém, não haver lugar para eles na hospedaria ou quarto de hóspedes (Lc 2.7) pode ser explicado devido a superlotação da casa por causa do censo (assim pensa KEENER, 2017). Sendo assim, é pelos menos possível que, embora José e Maria morassem em Nazaré (conforme Lucas), eles passaram um tempo em Belém pelo fato de sua propriedade de lá estar no registro do Império Romano, sendo, portanto, requerido que participassem do recenseamento naquele local. Assim, enquanto estavam em Belém, Jesus nasce.[24]

6.4 Descrição dos Rituais Judaicos

Marguerat (2015) afirma que Lucas errou ao confundir os dois rituais em 2.22-24, uma vez que no ritual de purificação da mãe não era necessário que o recém-nascido estivesse presente e que o resgate do primogênito não precisava ser feito no Templo. Porém, ele não leva em consideração duas coisas importantes. [25]

Primeiro, o fato de não ser requerido a presença do recém-nascido na cerimônia de purificação da mãe, não é a mesma coisa de não ser permitido. Como bem afirma Morris (1983, p.83), a “presença da criança não era necessária, mas era natural quando os pais estavam suficientemente perto de Jerusalém”.

Segundo, é verdade que em Êxodo 13 não há a exigência de consagrar o primogênito a Deus e resgatá-lo no espaço sagrado (o tabernáculo nem mesmo havia sido construído). Porém, em Números 18.1-19 (cf. Ne 10.36) Deus estabelece que várias das ofertas trazidas a ele pelos israelitas seriam destinadas a Arão e a sua descendência, ou seja, aos sacerdotes. Uma dessas ofertas seria todo primogênito, seja humano (que deveria ser resgatado) ou animal (que deveria ser resgatado caso fosse um animal inapropriado para o sacrifício). No caso de um animal puro, deveria ser morto e queimado sobre o altar, o que mostra que tal ritual deveria ser feito no espaço sagrado, local de atuação dos sacerdotes. “Não pode haver dúvida que a Torá requer que o primogênito seja apresentado ao Senhor no Templo (BAUCKHAM, 2022, p. 203). Além disso, é dito no v.16 que os primogênitos deveriam ser resgatados quando tivessem um mês de idade (idade mínima, não máxima, conforme BAUCKHAM, 2022), o que está em harmonia com o que podemos inferir do relato lucano sobre a idade que Jesus estava quando seus pais o levaram ao Templo. Portanto, não há nada de anormal no relato de Lucas. Era uma questão de praticidade para José e Maria cumprirem as duas exigências da Torah na mesma visita ao Templo. [26][27]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida, ainda há várias tensões entre os Evangelhos e em especial entre as narrativas da infância que geram dificuldades em serem conciliadas e defendidas como relatos de eventos históricos. Este estudo focalizou principalmente em um aspecto das aparentes contradições, a saber, a cronologia dos eventos após o nascimento de Jesus segundo Mateus e Lucas.

Dessa forma, pôde ser visto que as narrativas mateana e lucana da infância de Jesus não são inconciliáveis e, portanto, não comprometem sua validade histórica. Afinal, o período da infância de Jesus narrada em Mt 2 é diferente da narrada em Lc 2, deixando espaço para uma conciliação na sequência dos eventos após o nascimento dele. Em outras palavras, a defesa da implausibilidade histórica das narrativas da infância não se sustenta em uma suposta contradição entre os relatos mateanos e lucanos da infância de Jesus. A confiabilidade histórica dos Evangelhos não é tão frágil como as vezes se é afirmado.

Ademais, tanto o estudioso mais conservador quanto o mais crítico possuem vários desafios nessa área e não podem simplesmente sustentar sua concepção acerca da historicidade (ou não historicidade) dos Evangelhos de forma irrefletida, sem diálogo com visões diferentes e, sobretudo, sem uma análise paciente e cuidadosa do texto bíblico.

1. INTRODUÇÃO

Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são classificados nos estudos bíblicos como “Evangelhos Sinóticos” por causa da semelhança entre os relatos sobre Jesus. Segundo D. A. Carson, Douglas Moo e Leon Morris (1997), tais semelhanças não se aplicam apenas ao conteúdo, mas também a forma que os evangelistas estruturam os Evangelhos e as ênfases dadas. Porém, embora haja de fato muita similaridade entre os relatos, eles também possuem descrições de um mesmo evento com diferenças por vezes consideráveis e aparentemente sem conciliação, a ponto de soar como contradições. Tal tensão constitui o “problema sinótico”. Daniel Marguerat (2015, p. 17) arremata:

Ao se comparar os textos dos três evangelhos com o auxílio de uma sinopse, constata-se que suas relações recíprocas são feitas, ao mesmo tempo, de semelhanças impressionantes e de inegáveis divergências. Semelhanças e divergências caracterizam tanto a estrutura e o conteúdo da narrativa como a sucessão das perícopes (unidades literárias) ou a formulação do texto.

Diante desses vários relatos acerca da vida, missão e dos ensinos de Jesus (incluindo a versão joanina), e da tensão entre semelhanças e dessemelhanças, desde cedo os cristãos buscaram uma forma de harmonizar os Evangelhos canônicos e conciliar seus relatos aparentemente contraditórios. O testemunho mais antigo e famoso que se tem até então desse esforço de conciliar os registros evangélicos vem de Taciano, um cristão sírio. No século dois, ele escreveu um documento chamado “Diatessarão” (através dos quatro), onde buscou produzir uma harmonia entre os evangelhos canônicos, juntando os relatos em apenas uma narrativa. Richard Bauckham (2022) cita o “Evangelho dos Ebionitas” como um exemplo da tendência de combinar os relatos dos sinóticos no segundo século.[2][3]

Para Craig Blomberg (2019), uma das questões principais que fazem alguns críticos desconsiderarem a validade histórica dos Evangelhos são as claras diferenças na cronologia de alguns acontecimentos da vida de Cristo. Dentre as várias tensões cronológicas nos Evangelhos, há um importante nas narrativas mateana e lucana da infância de Jesus (Mt 1–2; Lc 1–2). Como afirma Marguerat (2015, p. 25): “Mateus e Lucas divergem consideravelmente em seus evangelhos da infância [...]”. [4]

A dificuldade, porém, não está apenas no fato de que “a narrativa de Mt a respeito da infância tem um conteúdo totalmente diferente da de Lc” (KONINGS, 2016, p. xi). Em termos histórico-geográficos, o desafio maior é sobre a possibilidade de conciliar a narrativa de Lucas que diz que Jesus (com um pouco mais de um mês de vida) é levado a Jerusalém para ser apresentado no Templo conforme as prescrições da Torah (Lc 2.22-24) e depois retorna a Nazaré com seu pais, enquanto que na narrativa de Mateus, ele, após seu nascimento, permanece com sua família em Belém durante um tempo, depois fogem para o Egito e quando voltam a Palestina se dirigem diretamente a Nazaré na Galiléia (Mt 2). Para Raymond Brown (2005, p. 595), em seu comentário seminal e de alto rigor técnico das narrativas da infância de Jesus, “os esforços para harmonizar as narrativas em uma história consecutiva são quase impossíveis”.[5]

O crítico textual Bart Ehrman (2017), por exemplo, classificou essa tensão como uma possível diferença, uma contradição que aponta para erros cometidos pelos autores dos Evangelhos. Destarte, Brown (2005) afirma que a rejeição desses relatos por parte da crítica bíblica se dá parcialmente devido seus problemas históricos. Será então que há realmente contradições entre as narrativas da infância? Será que um dos evangelistas se confundiu na cronologia dos fatos ou inseriu episódios não históricos?

De acordo com Craig Keener (2021), atualmente é lugar-comum entre a maioria dos estudiosos que os Evangelhos pareçam ter sido influenciados pelas biografias greco-romanas (bios), embora ele alerte sobre a diferença em relação as biografias modernas pelo fato de muitas vezes os relatos evangélicos seguirem uma abordagem temática, em vez de cronológica. Ou seja, nas biografias antigas não havia essa convenção de seguir toda a linha do tempo do personagem retratado de forma precisa. Todavia, a questão aqui não é a omissão de certos períodos da vida de Jesus e nem o rearranjo temático, mas sim aparentes contradições na cronologia dos fatos da sua infância.

Diante dessa discussão, o propósito do presente artigo é analisar os registros de Mateus e Lucas da infância de Jesus a fim de verificar se eles podem ser conciliados ou se são inconciliáveis na cronologia dos eventos narrados e assim demonstrar se os Evangelhos são dignos de confiança histórica ou não naquilo que relatam. A ideia é contribuir com os estudos nos Evangelhos sinóticos e com a discussão acerca da sua confiabilidade histórica.

Para tanto, na primeira seção, em grande parte baseada no livro “A Confiabilidade Histórica dos Evangelhos” de Craig Blomberg (2019), será examinado de maneira suscinta como se deu a discussão da validade histórica dos Evangelhos ao longo dos séculos. Na segunda e terceira seções, as duas narrativas da infância de Jesus contidas nos dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas serão analisadas de forma panorâmica respectivamente. Na quarta seção, serão apontadas algumas tensões e aparentes contradições entre os relatos mateano e lucano analisados. Por fim, na quinta e última seção, será investigado se as contradições se confirmam ou se há possiblidades de conciliação, bem como de defesa da confiabilidade histórica dos relatos da infância.

2. A DISCUSSÃO SOBRE A HISTORICIDADE DOS EVANGELHOS

Por muito tempo na história da igreja, as aparentes contradições e disparidades entre os evangelhos canônicos não foram um grande problema e nem motivo de desconfiança do seu valor histórico. Durante o período no qual “se consideravam os autores dos evangelhos testemunhas oculares da vida de Jesus e se acolhiam acriticamente as tradições da Igreja antiga [...], as diferenças entre os evangelhos representavam um problema somente para poucos” (SCHNELLE, 2004, p. 58). Sobre isso, Blomberg (2019, p. 32) afirma que

A convicção de que os apóstolos ou colaboradores próximos dos apóstolos escreveram os quatro Evangelhos já no primeiro século levou cristãos ao longo da maior parte da história da igreja a acreditar que eles registraram material historicamente confiável e não apenas teologicamente sancionado. Dessa maneira, tentavam regularmente conciliar contradições aparentes, confiantes de que surgiriam soluções plausíveis.

O mesmo autor (BLOMBERG, 2019) diz que o esforço para harmonizar os testemunhos dos Evangelhos e o foco naquilo que concordam foi o modus operandi preponderante da reflexão cristã durante 17 séculos. Udo Schnelle (2004), inclusive, aponta que tentativas intencionais de harmonizar relatos paralelos entre os sinóticos são uma das causas da existência de variantes nos manuscritos. Só a partir do final do século 18 que os estudos nos Evangelhos começaram a se concentrar nas suas dessemelhanças e aparentes contradições (BLOMBERG, 2019).

Isso não quer dizer que não haviam críticas já nos primeiros séculos. Richard Bauckham (2022, p. 319) diz que críticos “dentro e fora da igreja faziam muito caso destas diferenças [entre os evangelhos] durante o segundo século”. O próprio Blomberg (2019) cita Orígenes de Alexandria como alguém que admitiu que havia de fato contradições históricas e que algumas tentativas de combinação entre os relatos eram impossíveis (embora tenha seguido o caminho da alegorizarão dos textos como solução para essas contradições).

De acordo com Marguerat (2015), dentre os pais da igreja, quem primeiro lidou com a intertextualidade dos sinóticos foi Agostinho de Hipona, o qual em 400 d. C. escreveu uma obra (Sobre a Harmonia dos Evangelhos) a fim de dar uma resposta às críticas acerca das contradições entre os Evangelhos.

Em 1555, João Calvino (2023, pos. 636) publicou uma obra chamada “Harmonia dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas”, onde buscou “organizar as três histórias numa cadeia contínua, ou num quadro único, no qual o leitor conseguiria perceber, à primeira vista, eventuais semelhanças ou diversidades”.

Porém, com o surgimento do Iluminismo e sua grande ênfase na razão humana e no avanço científico, bem como sua descontinuidade no que se refere a submissão a autoridade da religião para responder questões acerca da vida humana, os estudos bíblicos e teológicos tomaram outro rumo. Na academia, se iniciou um movimento de estudiosos críticos da Bíblia, os quais começaram a abandonar as tentativas de harmonização dos Evangelhos e passaram a defender que algumas diferenças entre os relatos apontavam para contradições históricas irreconciliáveis. Marguerat (2015) declara que a partir do final do século 18 a questão da dependência literária entre os sinóticos migrou do campo dogmático para o histórico-literário.

Segundo Blomberg (2019), J. S. Semler e J. D. Michaelis, dois estudiosos alemães do século 18, são tidos como pioneiros dessa nova abordagem. De acordo com Paulo Won (2020), Hermann S. Reimarus e Heinrich Paulus também são nomes importantes desse período, os quais buscaram ler os Evangelhos como qualquer outro tipo de literatura. Com isso, começou a haver um esforço de separar aquilo que era de fato histórico de relatos fantasiosos nos Evangelhos. Esse tendência ganhou força no século 19, com D. F. Strauss, o qual apontava que a presença de contradições entre os relatos paralelos dos Evangelhos era possivelmente um sinal de que essas narrativas eram mitos (BLOMBERG, 2019). Ainda de acordo com Blomberg (2019, p. 38), a partir da aplicação da dialética hegeliana nos estudos críticos do Novo Testamento por F. C. Baur (século 19), “seu princípio geral de que teologias contraditórias são a melhor explicação para as divergências entre os Evangelhos é um pressuposto comum da pesquisa atual”.[6][7]

Como descreve Bauckham (2011), há quem defenda, inclusive, que os Evangelhos são coleções de tradições adaptadas e criadas a fim de atender as demandas das comunidades, sem muito interesse em conservar tradições do passado sobre Jesus. Devido a isso, os Evangelhos não seriam fontes históricas confiáveis acerca de Jesus. Em consonância, David deSilva (2004), se referindo aos pressupostos da crítica da forma, diz que muitos estudiosos que seguem essa abordagem creem que várias unidades nos Evangelhos servem mais para conhecer a vida da igreja da época do que a vida de Jesus.

Por outro lado, alguns estudiosos se posicionam contra uma tentativa forçada de conciliar as narrativas evangélicas, defendendo que o formato canônico dos quatro Evangelhos precisa ser respeitado. Carson, Moo e Morris citam um desses estudiosos (Brevard Childs) e concordam em parte com a crítica acerca de uma harmonização que desconsidera o valor dos relatos em seus próprios termos. Porém, alertam que “a verdade daquilo que os evangelistas dizem está inevitavelmente vinculada à realidade histórica daquilo que narram”. Assim, a “tentativa de costurar essa realidade — a vida e o ministério de Jesus de Nazaré — é ao mesmo tempo necessária e significativa” (1997, p. 61).

Acerca das diferenças entre os Evangelhos, Blomberg (2019, p. 84) afirma que “muitas simplesmente refletem interpretações teológicas variadas dos mesmos acontecimentos históricos, sem pôr em questão a historicidade fundamental dos acontecimentos em si”. Com entusiasmo e confiança, o mesmo autor também declara:

Se problemas anteriormente “intratáveis” foram solucionados com uma análise paciente, o comentarista pode estar cada vez mais confiante de que novos desafios podem ser enfrentados com igual êxito e cada vez menos disposto a ingenuamente equiparar divergência superficial com contradição real. E, apesar de dois séculos de investidas céticas, é justo dizer que todas as supostas incoerências entre os Evangelhos receberam soluções pelo menos plausíveis (2019, p. 41).

O esforço para conciliar os evangelhos em uma narrativa única e coerente continua sendo uma empreitada ainda hoje. Uma obra atual que serve de exemplo é a do James Barlow chamada “Jesus, o livro” (2024), na qual o autor organiza uma única narrativa de forma cronológica da história de Cristo, costurando os relatos dos quatro Evangelhos.[8]

Assim, para R. T. France (2003, p. 281), há espaço para uma harmonização dos Evangelhos, “contanto que seja feita com a devida sensibilidade literária e histórica, e não com uma determinação mecânica, que visa eliminar todas as diferenças a qualquer custo, independente da probabilidade histórica”.

Por fim, de acordo com Brown (2005) — escrevendo em meados da década de 1970, mas que ainda pode ser afirmado como tendência atual —, nas últimas décadas o foco da pesquisa nos Evangelhos deixou de ser na história anterior aos relatos evangélicos para o papel desses relatos no texto definitivo.

3. NARRATIVA DA INFÂNCIA EM MATEUS 1—2

Mateus começa seu relato com o registro da genealogia de Jesus, retrocedendo até Abraão, não sem enfatizar que ele é filho de Davi, uma vez que faz parte do propósito do autor demonstrar que Jesus é o Messias-Rei prometido (1.1-17). Em seu evangelho, Mateus demonstra como em Jesus as esperanças de Israel e as promessas de Deus encontram seu cumprimento escatológico. Ele faz isso ao destacar pontos que deixam claro a origem judaica de Jesus, bem como sua linhagem davídica, repetidamente.

Após isso, há uma versão resumida da gravidez de Maria, operada pelo Espírito, e da manifestação de um anjo de Deus a José a fim de impedi-lo em sua intenção de não tomar Maria como esposa. O anjo explica a José (e Mateus descreve isso a fim de comunicar aos seus leitores e ouvintes) que aquele que está no útero de Maria foi gerado pelo poder do Espírito de Deus e que ele será aquele que irá salvar seu povo dos seus pecados e que seu nome deverá ser Jesus. Diante disso, José concretiza e oficializa o casamento com Maria (1.18-24).

No início do capítulo 2, o autor informa o local do nascimento de Jesus: Belém da Judeia. Segundo Carson (2010), ele especifica porque havia outro local chamado Belém de Zebulom. Isso já funciona como uma preparação do que Mateus irá descrever a seguir, ou seja, a profecia acerca do local do nascimento do Messias. O evangelista passa então a relatar a chegada de magos pagãos em Jerusalém vindos do Oriente, os quais perguntaram: “onde está o recém-nascido rei dos judeus?” (v.2), pois eles tinham sido guiados por uma estrela até lá e vieram para adorá-lo. “Aparentemente, esses homens foram a Belém estimulados por cálculos astrológicos” (CARSON, 2010, p. 112). Ao ouvir isso, Herodes, rei da Judeia, fica perturbado, pois seu trono estava sendo ameaçado.[9][10]

Assim, Herodes manda chamar alguns líderes religiosos dos judeus, incluindo os especialistas na Escritura, e pergunta onde está previsto que o Messias nasça. A resposta dos líderes é que a cidade de Belém (a qual ficava cerca de 8km a sudoeste de onde eles estavam, i.e., Jerusalém) é aquela que está predita como o local do nascimento do Messias, conforme Mq 5.2 (2.3-6).[11]

Herodes, então, chama os magos e questiona quando exatamente a estrela apareceu a eles, fingindo que também queria adorar o menino e reconhecer a sua realeza, e os envia a Belém para que encontrem a Jesus e o informe onde ele está. Para Carson (2010), a razão de Herodes coletar essas informações com os magos é porque o assassinato dos bebês de Belém já estava em seus planos. Em seguida, Mateus relata que a estrela que os guiou até a Judeia os leva agora até o local onde o menino está com a sua família. Destarte, eles reverenciam Jesus, entregam presentes e retornam ao seu local de origem depois de serem avisados por meio de um sonho sobre as reais intenções de Herodes. Comparado com histórias de nascimento milagroso na antiguidade, nas quais era comum o uso de linguagem mítica e enfeitada, Keener (2017) afirma que isso contrasta com forma direta e simples de Mateus narrar o nascimento de Jesus (2.7-12).

Após a partida dos magos, um anjo do Senhor aparece a José novamente em sonho e o alerta sobre os planos perversos de Herodes de matar Jesus. Então, conforme a ordem do anjo, José foge com Maria e Jesus para o Egito, a fim de se refugiarem (2.13-15). Pois o Egito era “uma província romana próxima, bem organizada e fora da jurisdição de Herodes[...] (CARSON, 2010, p. 119)”. Mateus faz questão de registrar isso a fim de destacar a correlação da história de Jesus com a de Israel e em cumprimento desta, algo que fica explícito quando o autor cita Os 11.1 (que se refere originalmente a saída de Israel do Egito e, de acordo com o contexto maior, também a promessa de um novo êxodo) no v.15.

Ao perceber que foi enganado pelos magos, Mateus diz que Herodes, cheio de fúria, ordena que todas as crianças do sexo masculino com até dois anos sejam assassinadas em Belém e região (2.16-18).[12]

Mateus, então, encerra o capítulo informando que após a morte de Herodes o anjo do Senhor aparece mais uma vez a José e o informa que ele e sua família já podem retornar à terra de Israel. Eles obedecem ao anjo e voltam a Palestina, passando a ficar não mais em Belém, na Judeia (pois o filho de Herodes era o novo governante dali), mas sim em Nazaré, na Galiléia (2.19-23). Assim, um “tema geográfico percorre o cap. 2, de modo que o nascimento em Belém, a fuga para o Egito e a viagem de volta a Nazaré constituem um itinerário de orientação divina” (BROWN, 2005, p. 62, grifos do autor).

Portanto, nesses capítulos Mateus “apresenta temas como o Filho de Davi, o cumprimento de profecia, a origem sobrenatural de Jesus, o Messias, e a proteção soberana do Filho pelo Pai a fim de o levar a Nazaré e realizar o plano divino de salvação do pecado” (CARSON, 2010, p. 84). Destarte, “toda a ‘narrativa da infância’ apresenta uma demonstração da evidencia escritural para a pessoa e para a origem de Jesus como o Messias” (FRANCE, 2003, p. 287).

4. NARRATIVA DA INFÂNCIA EM LUCAS 1—2

Lucas inicia com um prefácio à sua obra. Ele menciona relatos anteriores que foram produzidos, os quais foram baseados no testemunho de testemunhas oculares, e informa que decidiu investigar acuradamente e escrever um relato ordenado do que aconteceu quando Jesus se manifestou (1.1-4). O uso do termo διήγησιν (relato/narração) era comum na historiografia antiga (KEENER, 2017; MARGUERAT, 2015). Para Marguerat (2015), nesse prefácio transparece as habilidades de Lucas como historiador, escritor e teólogo.

Após isso, Lucas passa a descrever a história de João Batista antes de iniciar a narrativa acerca de Jesus. Ele relata como um anjo aparece a um sacerdote chamado Zacarias e revela que sua mulher, Isabel, terá um filho dele e que deverá se chamar João (ambos já tinham idade avançada e Isabel era estéril). O anjo avisa também que o ministério de João será conduzir os judeus de volta ao Senhor em preparação para a sua vinda (1.5-25).

O autor, então, interrompe sua narrativa da história de João Batista e passa a relatar a manifestação de um anjo à uma mulher chamada Maria, a qual morava em Nazaré e estava prestes a se casar com um homem por nome José. O anjo diz a Maria que ela ficará grávida (pelo poder do Espírito de Deus, pois é uma jovem virgem) e que a criança deverá se chamar Jesus. O anjo avisa que é nesse Jesus que se cumprirá as esperanças de Israel e as promessas de Deus acerca do rei davídico esperado, o qual reinará para sempre (1.26-38).

Com grande habilidade narrativa, Lucas faz com que o relato de Zacarias, Isabel e seu bebê se conecte com Maria e seu bebê. Como o anjo havia informado que sua parente Isabel estava grávida, Maria vai até a casa dela. Então, ao receber uma inspiração profética, Isabel cumprimenta Maria, declarando o quão especial é o filho que ela está esperando. Dessa forma, assim como fez com Isabel no v.25, Lucas descreve um cântico de Maria, no qual ela glorifica ao Senhor por abater os soberbos e levantar os humildes, fazendo com que seus propósitos para o seu povo se cumpram por meio dos pequenos, desprezados e fracos, algo bem comum na teologia lucana (1.39-56).

Destarte, o autor retoma o seu relato sobre João Batista, narrando como foi seu nascimento e o temor que sobreveio aos vizinhos quando ouviram falar da obra do Senhor na vida da sua família e que o menino exerceria um papel importante nos planos salvíficos de Deus. Mais uma vez, Lucas insere um cântico em seu relato, os quais “são um modo de comentar a significância dos eventos na narrativa [...]” (BAUCKHAM, 2022, p. 197). Agora, de Zacarias, o qual profetiza declarando que Deus irá cumprir as suas promessas de visitar o seu povo, trazendo perdão e salvação dos seus inimigos, e que seu filho João terá um papel importante nesse processo (1.57-80).

Após isso, Lucas volta a narrar a história de Jesus. Ele não só descreve que Jesus nasceu em Belém da Judéia, pois informa as circunstâncias que levaram a família de Jesus até lá, uma vez que moravam em Nazaré, na Galiléia. Ele diz que José e Maria, ainda grávida, precisaram ir a Belém devido um recenseamento feito pelo então Imperador César Augusto. As informações que ele traz sobre os governantes que estavam no poder nessa época servem para localizar historicamente, de acordo com as convenções da época, o evento do nascimento de Jesus que irá descrever a seguir. Ao que parece, faz parte do programa de Lucas “colocar sua história no contexto secular (cf. 3.1)” (MORRIS, 1983, p. 79). Sendo José da linhagem de Davi (como ficará ainda mais claro na genealogia que Lucas irá inserir mais adiante no cp. 3.23-38), ele se alista na cidade de Davi. Estando em Belém, Lucas informa que Jesus nasce em um contexto nada pomposo e solene, como era de se esperar se tratando do nascimento de um rei (2.1-6).

Após isso, Lucas diz que um anjo do Senhor aparece a uns pastores que estavam trabalhando próximo a Belém e os avisa sobre o nascimento do Messias, do Salvador. Diante dessa proclamação, os pastores vão a Belém e encontram o bebê Jesus e passam a contar tudo o que viram e ouviram às pessoas (2.7-20).

Assim como fez com João Batista, Lucas relata a circuncisão de Jesus ao oitavo dia, conforme a Torah, e o registro do seu nome. Depois, narra a ida dos pais de Jesus (presumivelmente) de Belém até Jerusalém a fim de cumprirem com os ritos estipulados na Torah: consagração e resgate do primogênito e os sacrifícios pela purificação da mãe após o parto (Cf. Êx 13.1-16; Lv 12). Uma vez que Lv 12.2-4 diz que a mãe ficaria ritualmente impura por 40 dias após o parto de um menino, e só depois disso ela poderia ir ao espaço sagrado realizar os ritos exigidos pela sua purificação, Jesus e seus pais só vão ao templo em Jerusalém depois desse período. Lucas registra mais declarações proféticas feitas em Jerusalém sobre quem é Jesus e sua missão. “Jesus é o Messias que Deus envia a seu povo Israel para salvá-lo: o evangelho da infância significa isso claramente no limiar do relato[...]” (MARGUERAT, 2015, p. 129). “Um grupo dentro da religião antiga, portanto, estava esperando o Messias” (MORRIS, 1983, p. 86). Dessa forma, após cumprirem com as exigências da Torah, Lucas informa que José, Maria e Jesus voltam para o local onde moravam antes de Jesus nascer, a cidade de Nazaré, e diz que Jesus crescia e se desenvolvia cada dia mais (2.21-40).[13]

Por fim, Lucas informa que todos os anos os pais de Jesus iam a Jerusalém para participar da Páscoa. Depois ele dá um salto temporal e narra um episódio quando Jesus tinha 12 anos. Eles vão a Jerusalém participar da festa novamente e Jesus fica no Templo conversando com os mestres. Seus pais, ao retornarem para Nazaré, percebem a ausência de Jesus e voltam a Jerusalém para o buscar. Assim, Lucas encerra a narrativa da infância de Jesus com uma nota sobre sua obediência aos pais e, mais uma vez, sobre o seu crescimento (2.41-52).

5. TENSÕES ENTRE AS NARRATIVAS

Algumas diferenças entre Mateus e Lucas em seu relato da infância de Jesus podem ser explicadas pela intenção teológica e/ou pela tradição recebida de cada autor. O fato de Lucas gastar mais tempo e dar mais detalhes sobre como foi o nascimento de Jesus, enquanto que Mateus é bem mais sucinto, não se constitui um problema. Cada autor resolver registrar ou omitir certos eventos e detalhes de uma mesma história não necessariamente implica em contradições. Por questões linguísticas, tanto Blomberg (2019) quanto Marguerat (2015) falam da probabilidade de Lucas ter dependido de uma tradição mais antiga e já consagrada em seus dois primeiros capítulos. Bauckham (2022), no entanto, não crer ser provável que Lucas tenha feito uso de fontes escritas em seu relato da infância, devido as suas habilidades como escritor.

Os dois evangelistas estão de acordo quanto ao local do nascimento de Jesus e sobre quem são seus pais. Além disso, embora em Mateus o anjo apareça e fale com José enquanto que em Lucas isso acontece com Maria (informações que não são auto excludentes), em ambos os relatos vemos declarações semelhantes acerca da identidade e missão de Jesus. Também é destacado pelos autores a natureza miraculosa da gestação de Maria. A cidade de Nazaré também aparece nos dois Evangelhos, embora em Lucas já seja informado desde o início que José e Maria moravam nessa cidade antes de Jesus nascer e em Mateus só é dito que após voltarem do Egito eles passam a morar lá. Conforme Johan Konings (2016, p. xi):[14]

Quanto ao anúncio do nascimento, Mt o narra do ponto de vista de José, Lc do ponto de vista de Maria. Mas ambos concordam em transmitir que Jesus nasceu em Belém, o povoado de Davi, e que seu nascimento é “assinalado” pelo poder de Deus (nasce de uma virgem, realizando a profecia de Is 7,14). Esta é a tradição transmitida por ambos, mas não há indícios de uma fonte escrita comum.[15]

Entretanto, embora Carson, Moo e Morris (1997) afirmem que as divergências entre Mateus e Lucas em suas narrativas da infância de Jesus não apresentem contradições, e sim, relatos que quase não possuem similaridades, há diferenças na cronologia dos acontecimentos que são bastante difíceis de serem conciliadas e parecem apontar para contradições histórico-geográficas entre os relatos. Ulrich Luz (2007) defende que as tradições mateana e lucana da narrativa da infância são inconciliáveis em muitos pontos (inclusive cronológicos), não só divergentes. Em consonância, Brown (2005, p. 46) afirma que isso “nos leva a observar que as duas narrativas não são só diferentes; são opostas em vários detalhes”.

Em Lucas, após o nascimento de Jesus, sua família parece permanecer em Belém até cumprir todos os ritos conforme a Torah em Jerusalém e depois retornam a Nazaré, não a Belém. Já em Mateus, a família de Jesus foge de Belém para o Egito, fica lá até a morte de Herodes e depois retorna para a Palestina, se dirigindo a Nazaré. A complexidade dessa tensão se mostra na afirmação de Morris (1983) de que, a partir do relato lucano, não há como saber se a visita a Jerusalém foi antes ou depois da fuga para o Egito.

Assim, a ida da família de Jesus a Jerusalém a fim de cumprir com as exigências da lei de Moisés, conforme Lucas registra, parece não encontrar espaço na linha do tempo da narrativa da infância de Mateus. Em outras palavras, a questão toda é onde seria possível encaixar a sequência de acontecimentos da infância de Jesus segundo Lucas na cronologia dos eventos conforme a narrativa mateana. Onde se encaixaria a fuga de Jesus e seus pais do relato mateano na narrativa de Lucas, uma vez que de Belém eles vão a Jerusalém e depois a Nazaré? Da mesma forma, onde a visita a Jerusalém do relato lucano se encaixaria na narrativa de Mateus, uma vez que de Belém, Jesus e seus pais precisam fugir para o Egito e então de lá é que eles vão para Nazaré na Galiléia, e não para Judéia? Luz (2007, p. 106)assevera, por exemplo, que “o fato de Lucas não conhecer nada similar à [...] história [mateana] fala contra um núcleo histórico”.[16]

É verdade que vários eruditos bíblicos tem visto no relato da infância de Jesus segundo Mateus um paralelo com a história de Moisés (BAUCKHAM, 2022; FRANCE, 2003; KEENER, 2017; BROWN, 2005; OVERMAN, 2020; SILVA; NOBRE, 2016), embora Carson (2010) seja reticente quanto a isso. No que diz respeito à narrativa da infância segundo Lucas, tem sido visto alusões a Samuel (BAUCKHAM, 2022; KEENER, 2017; BROWN, 2005). Além disso, alguns estudiosos destacam também a importância que a cidade de Jerusalém tem em todo Evangelho de Lucas (MARGUERAT, 2015; BLOMBERG, 2019; BROWN, 2005; MOREIRA, 2012). Isso pode ser visto no fato de que a narrativa começa (1.5-25) e termina (24.53) no Templo em Jerusalém e de que quase metade do Evangelho se encontra durante a viagem de Jesus até Jerusalém (Lc 9.51—19.28). Talvez isso explique, pelo menos parcialmente, a seleção dos evangelistas de quais eventos registar. Não obstante o entendimento dos propósitos teológicos dos evangelistas seja fundamental no estudo dos Evangelhos, isso ainda não explica a aparente contradição entre a sequências dos eventos da infância de Jesus nas narrativas mateana e lucana e nem contribui para a defesa da confiabilidade histórica dos relatos. Ao invés disso, a simetria com a história de Moisés vista em Mateus, por exemplo, “suscita a dúvida da historicidade do fato. Afinal, a narrativa seria histórica ou apenas uma releitura teológica do episódio descrito no Êxodo à luz do evento Jesus de Nazaré?” (SILVA; NOBRE, 2016, p. 157).

Assim, o grande problema não é com o fato de Mateus omitir a ida da família de Jesus a Jerusalém e nem de Lucas não ter relatado a fuga deles para o Egito devido a perseguição de Herodes, uma vez que é sabido que os Evangelistas nem sempre seguem uma cronologia rígida e precisa no arranjo do seu relato como em biografias modernas. A questão é sobre como lidar com as aparentes contradições entre a sequência dos eventos relatados e com o fato de parecer ser impossível conciliar as duas narrativas do trajeto da família de Jesus após seu nascimento. Principalmente pelo fato de Lucas demonstrar sua preocupação com a historicidade do relato, algo que vemos tanto no prefácio quanto em seu uso de “indicações de cronologia mundial (1,5; 2,1; 3,1-2, etc.)” (KONINGS, 2016, p. xiii). Por causa disso, Brown (2005, p. 223) declara:

O harmonizador mais determinado seria vencido pela impossibilidade de conciliar uma viagem da família de Belém para o Egito com o relato lucano de que José e Maria levaram o menino a Jerusalém quando ele completou quarenta dias e que, de Jerusalém, foram para Nazaré, onde permaneceram.

É aqui que diferenças começam a se parecer com contradições entre os relatos. Diferenças podem sem explicadas pela forma e propósito de cada autor em contar uma história, mas contradições apontam para implausibilidade e equívocos históricos. Por isso que, segundo Blomberg (2019), tanto a narrativa da infância de Lucas quanto a de Mateus são tidas por alguns estudiosos como criativas a fim de atender os seus objetivos literários. Brown (2005) afirma que, de fato, uma das evidências de que as narrativas não são completamente históricas é a discordância entre elas.

6. PROPOSTA DE CONCILIAÇÃO

Em uma leitura mais atenta à narrativa de Mateus é possível identificar algumas informações que podem trazer luz à discussão sobre a aparente contradição e implausibilidade histórica dos relatos. Mateus inicia o cp. 2 dizendo que após Jesus nascer os magos vieram a Jerusalém. O autor não deixa claro quanto tempo depois do nascimento de Jesus ocorreu a chegada dos magos. Todavia, na ordem para matar as crianças dada por Herodes está algo implícito que ajuda nessa informação.

Herodes ordena o assassinato de “todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades [...]” (Mt 2.16, grifo nosso). Mas por que incluir crianças de até dois anos se Jesus tivesse nascido a pouco tempo? Segundo Carson (2010), esse limite de idade tinha por objetivo assassinar Jesus de qualquer forma, uma vez que ele tinha na época entre seis a vinte meses de vida. Vemos um sinal disso antes de finalizar o versículo, quando Mateus diz que Herodes estabeleceu esse limite de idade com base nas informações dos magos. O autor parece estar se referindo ao que disse em no cp. 2.7: “Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido”. Ele mataria “todas as crianças do sexo masculino em Belém e suas redondezas, a saber, as que tivessem nascido a partir do tempo em que os astrólogos primeiro viram a estrela[...]” (TASKER, 1980, p. 34). Brown (2005) vê o v.7 como uma preparação de Mateus para a ordem de Herodes no v.16.

Ou seja, as informações que Herodes recebeu dos magos foi sobre o tempo exato que eles viram a estrela que os guiou até a Judéia. Isso parece apontar para o fato de que quando os magos foram visitar Jesus já tinha se passado um período desde o seu nascimento. Tanto Carson (2010) quanto R. V. G. Tasker (1980), afirmam que quando os magos visitaram Jesus já havia passado algum tempo desde o seu nascimento, de modo que ele já estava na casa, não no local onde nasceu. Inclusive, como observa Tasker (1980), o termo usado em Mateus 2.11 para se referir ao menino (παιδίον) Jesus é distinto do que Lucas 2.16 usa em referência a Jesus enquanto recém-nascido (βρέφος), o que está de acordo com o uso do mesmo termo por Lucas em outras passagens que claramente designam fetos ou bebês (cf. ainda no útero, 1.41,44; recém-nascido, 2.12). Embora Luz (2007, p. 75) afirme que Lc 2.21-40 e Mt 2.1-15 podem ser reconciliados “somente quando alguém assume partes da tradição da igreja antiga de que os magos não vieram a Belém até dois anos depois”, isso parece claro no próprio texto, sem a necessidade de apelar para a tradição da igreja. Até mesmo Brown (2005), que não considera que as duas narrativas possam ser completamente históricas, reconhece que no relato de Mateus 2 Jesus tinha quase dois anos quando teve que fugir com sua família para o Egito. [17]

Dessa forma, haveria tempo suficiente para que os pais de Jesus o levassem a Jerusalém e cumprissem com os rituais exigidos. Afinal, qual judeu, ainda mais estando tão perto de Jerusalém, não observaria algo tão importante da Torah como a apresentação e resgate do primogênito, o qual servia como sinal da ação de Deus no Egito para libertar o seu povo (cf. Êx 13.13-16)? Além disso, é dificil pensar que uma mulher judia piedosa não passaria pelas cerimônias que marcavam sua purificação após o período de impureza ritual/cultual devido ao parto. A devoção de José e Maria e seu compromisso com a Torah é visto, dentre outras passagens, em Lc 2.41,42.

Destarte, ao que parece, após irem a Jerusalém, José, Maria e Jesus retornam a Belém, ficam ainda quase dois anos lá, fogem para o Egito quando são avisados pelo anjo acerca da ordem de Herodes e de lá eles se dirigem a cidade onde moravam, Nazaré. Portanto, a afirmação de Brown (2005, p. 268) de que “uma viagem ao Egito é inconciliável com o relato de Lucas de uma volta pacífica e rotineira de Belém para Nazaré logo depois do nascimento do menino” é, no mínimo, exagerada. Pois não parece haver uma real contradição histórico-geográfica entre as narrativas. Todavia, algumas questões se interpõem à essa reconstrução da cronologia dos fatos e conciliação entre os relatos.

6.1 Recém-Nascido?

A palavra recém-nascido que aparece na maioria das versões em português (Mt 2.2, ARA/NAA/NVI/NVT) parece indicar que quando os magos chegaram em Jerusalém, Jesus tinha nascido a pouco tempo.

Sobre a expressão recém-nascido, o que aparece no texto grego é o termo τεχθεὶς que indica apenas que alguém nasceu, nesse caso “o rei dos judeus”. Nada no termo em si estabelece o tempo que alguém tem de nascido. Isso deve ser determinado pelo contexto que, como já foi exposto, parece indicar um período maior de tempo entre o nascimento de Jesus e a visita dos magos. Carson (2010, p. 114, grifo nosso) defende que a melhor tradução para a pergunta dos magos seja: onde está “o que nasceu rei dos judeus?”. Enquanto Tasker (1980, p. 16, grifo nosso) apresenta a opção: onde está a “criança nascida para ser ‘Rei dos Judeus’”? Outros, conforme Brown (2005, p. 201, grifo nosso), “traduzem apositivamente: [onde está] ‘o que acabou de nascer, a saber, o rei dos judeus’”? Independentemente de qual seja a melhor tradução, o “particípio na construção ὁ τεχθεὶς βασιλεὺς [...] é adjetivo, não substantivo e é usado atributivamente. Além disso, não há sugestão de ‘recém-nascido’ [...], o que já foi descartado pelas notas cronológicas[...]” (CARSON, 2010, p. 118, n. 2). Dessa forma, a “tradução usual ‘o recém-nascido rei’ dá ocasião para enganos, pois induz sempre de novo à suposição de que a história dos ‘magos’ teria acontecido imediatamente após o nascimento de Jesus” (RIENECKER, 1998, p. 23).[18][19]

6.2 Retorno a Nazaré

A segunda dificuldade é mais complexa e de difícil resolução. Lucas 2.39 parece mesmo afirmar que Jesus e seus pais retornaram a Nazaré após cumprirem com as exigências da Torah em Jerusalém. Isso fica ainda mais complicado quando se lembra o que Lucas disse em seu prefácio: “Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado [καθεξῆς], ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas” (1.3,4, grifo nosso). Uma vez que desde o início o autor deixa claro que fez uma exposição sobre Jesus em ordem, como ele poderia deixar passar um episódio tão importante como a volta de Jesus e seus pais a Belém e sua fuga para o Egito? Há pelo menos duas hipóteses que podem servir de alternativas a afirmação de que Lucas ou Mateus cometeram erros históricos ou fabricaram alguns eventos na narrativa da infância de Jesus. [20]

Primeiro, a afirmação lucana de que Jesus e sua família retornaram a Nazaré não quer dizer necessariamente que fizeram isso imediatamente após a ida a Jerusalém. Lucas pode estar muito bem resumindo o itinerário da família de Jesus ou pode estar seguindo o resumo da tradição que recebeu. Alguém que relata como foi até Santa Catarina e que depois de alguns meses retornou a Bahia, sem mencionar que passou em São Paulo antes de retornar, não está de maneira nenhuma cometendo um erro na sequência dos eventos (o mesmo vale para o relato mateano). Como afirma Carson (2010, p. 111): “Lucas 2.39 não faz menção de uma estadia prolongada em Belém e uma viagem ao Egito antes do retorno a Nazaré; se Lucas conhecia esses eventos, achou-os irrelevantes para seu propósito”. Ademais, o v. 39 faz parte de uma moldura literária lucana, pois serve de desfecho à perícope iniciada no v.22 (ULLOA, 2013). Assim, o v.39 “faz parte da estrutura da cena da apresentação, relacionada, por meio de inclusão, com” os vv.22-24 (BROWN, 2005, p. 561).

Segundo, embora menos provável, Lucas diz no cp. 2.41 que todos os anos os pais de Jesus se dirigiam a Jerusalém. Não se sabe se levavam Jesus com eles, mas se sim, pode ter ocorrido que em uma dessa ocasiões durante os dois primeiros anos de vida de Jesus sua fuga de Belém para o Egito possa ter acontecido. [21]

Sobre a questão da aparente contradição entre o método de Lucas de expor os acontecimentos em ordem e a possiblidade de ele ter omitido parte da sequência dos acontecimentos da infância de Jesus não gera nenhuma surpresa, uma vez que há um grande salto temporal dos primeiros meses do nascimento de Jesus, para ele com doze anos (2.42) e para depois com trinta anos (3.23). De acordo com Morris (1983, p. 64), tomar a expressão do prefácio como “‘ordem cronológica’ [...] atribui demais ao texto”. Pois, frequentemente “o sentido lucano de ‘ordem’ é lógico, não cronológico” (BROWN, 2005).

6.3 Local Onde José e Maria Moravam

Enquanto Mateus perece apontar Belém como o local que José e Maria moravam e que eles se mudaram para Nazaré só depois de voltarem do Egito, Lucas informa que os pais de Jesus moravam em Nazaré, foram a Belém apenas para participar do censo e depois retornaram pra lá. Assim, os relatos aparentemente contraditórios sobre o local que os pais de Jesus moravam também se constitui uma grande dificuldade para uma harmonia entre eles e para validação da sua historicidade, conforme aponta Luz (2007).

Porém, Keener (2017) afirma que, devido os critérios de recenseamento da época, é bem provável que José possuísse alguma propriedade em Belém e que sua residência legal era lá. Além disso, Lucas diz no cp. 2.3 que as pessoas iam se alistar “cada um à sua própria cidade” (ACF/ARA/NAA). Brown (2005, p. 531) assevera que “Belém era ‘sua cidade’ (de José), em Lc 2.3”. Uma vez que Lucas parece afirmar que Belém era o local de origem de José, será que não é possível inferir que ele possuía propriedade lá, a qual constava nos registros romanos? Isso explicaria como Jesus e seus pais puderam ficar tanto tempo em Belém (cerca de dois anos, conforme a proposta exposta acima). [22][23]

Embora Morris (1983) concorde também que era no local de residência que se baseava o censo segundo os critérios do Império Romano, ele diz que o registro foi feito baseado no lar dos antepassados (cf. Lc 2.4), isso devido a uma articulação política de Herodes como disfarce para uma ordem estrangeira. Brown (2005), por sua vez, também diz que não há evidências claras de que, nos censos romanos, as pessoas iam à cidade dos seus ancestrais para se registrarem. Mas, apesar do enunciado acima, defende que a afirmação lucana é de um censo por linhagem e que isso aponta para uma imprecisão histórica. Porém, embora de fato Lucas conecte o fato de José ser da linhagem davídica com a sua ida até Belém (cidade de Davi) para se alistar (2.4), isso não seria uma contradição com a possibilidade de José possuir propriedade em Belém. Lucas pode estar apenas destacando a linhagem davídica do pai legal de Jesus (como fez no cp. 1.27) a fim de validar a genealogia deste como descendente de Davi (cf. Lc 3.23-38). De qualquer forma, a informação acerca de como era feito o recenseamento romano pode explicar por que Mateus parece dizer que os pais de Jesus moravam em Belém, enquanto Lucas diz ser em Nazaré.

Já o fato de, estando em Belém, não haver lugar para eles na hospedaria ou quarto de hóspedes (Lc 2.7) pode ser explicado devido a superlotação da casa por causa do censo (assim pensa KEENER, 2017). Sendo assim, é pelos menos possível que, embora José e Maria morassem em Nazaré (conforme Lucas), eles passaram um tempo em Belém pelo fato de sua propriedade de lá estar no registro do Império Romano, sendo, portanto, requerido que participassem do recenseamento naquele local. Assim, enquanto estavam em Belém, Jesus nasce.[24]

6.4 Descrição dos Rituais Judaicos

Marguerat (2015) afirma que Lucas errou ao confundir os dois rituais em 2.22-24, uma vez que no ritual de purificação da mãe não era necessário que o recém-nascido estivesse presente e que o resgate do primogênito não precisava ser feito no Templo. Porém, ele não leva em consideração duas coisas importantes. [25]

Primeiro, o fato de não ser requerido a presença do recém-nascido na cerimônia de purificação da mãe, não é a mesma coisa de não ser permitido. Como bem afirma Morris (1983, p.83), a “presença da criança não era necessária, mas era natural quando os pais estavam suficientemente perto de Jerusalém”.

Segundo, é verdade que em Êxodo 13 não há a exigência de consagrar o primogênito a Deus e resgatá-lo no espaço sagrado (o tabernáculo nem mesmo havia sido construído). Porém, em Números 18.1-19 (cf. Ne 10.36) Deus estabelece que várias das ofertas trazidas a ele pelos israelitas seriam destinadas a Arão e a sua descendência, ou seja, aos sacerdotes. Uma dessas ofertas seria todo primogênito, seja humano (que deveria ser resgatado) ou animal (que deveria ser resgatado caso fosse um animal inapropriado para o sacrifício). No caso de um animal puro, deveria ser morto e queimado sobre o altar, o que mostra que tal ritual deveria ser feito no espaço sagrado, local de atuação dos sacerdotes. “Não pode haver dúvida que a Torá requer que o primogênito seja apresentado ao Senhor no Templo (BAUCKHAM, 2022, p. 203). Além disso, é dito no v.16 que os primogênitos deveriam ser resgatados quando tivessem um mês de idade (idade mínima, não máxima, conforme BAUCKHAM, 2022), o que está em harmonia com o que podemos inferir do relato lucano sobre a idade que Jesus estava quando seus pais o levaram ao Templo. Portanto, não há nada de anormal no relato de Lucas. Era uma questão de praticidade para José e Maria cumprirem as duas exigências da Torah na mesma visita ao Templo. [26][27]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida, ainda há várias tensões entre os Evangelhos e em especial entre as narrativas da infância que geram dificuldades em serem conciliadas e defendidas como relatos de eventos históricos. Este estudo focalizou principalmente em um aspecto das aparentes contradições, a saber, a cronologia dos eventos após o nascimento de Jesus segundo Mateus e Lucas.

Dessa forma, pôde ser visto que as narrativas mateana e lucana da infância de Jesus não são inconciliáveis e, portanto, não comprometem sua validade histórica. Afinal, o período da infância de Jesus narrada em Mt 2 é diferente da narrada em Lc 2, deixando espaço para uma conciliação na sequência dos eventos após o nascimento dele. Em outras palavras, a defesa da implausibilidade histórica das narrativas da infância não se sustenta em uma suposta contradição entre os relatos mateanos e lucanos da infância de Jesus. A confiabilidade histórica dos Evangelhos não é tão frágil como as vezes se é afirmado.

Ademais, tanto o estudioso mais conservador quanto o mais crítico possuem vários desafios nessa área e não podem simplesmente sustentar sua concepção acerca da historicidade (ou não historicidade) dos Evangelhos de forma irrefletida, sem diálogo com visões diferentes e, sobretudo, sem uma análise paciente e cuidadosa do texto bíblico.

Notas

[1] Pós-graduado em Teologia do Novo Testamento pelo STJE/UNIFIL. Graduado em Teologia pela Universidade Estácio de Sá. E-mail: laion.gargano@gmail.com

[2] Os Evangelhos apócrifos também servem como testemunhas desse interesse por Jesus e da tendência de se escrever sobre ele. Porém, o que será dito a seguir irá se restringir apenas aos Evangelhos canônicos.

[3] Quando se refere as narrativas da infância de Jesus (assunto principal deste artigo), Bauckham (2022) defende que o “Protoevangelho de Tiago” seja o primeiro intento literário de conciliar os dois relatos canônicos.

[4] Para outros exemplos, veja: BLOMBERG, 2019, p. 184-187.

[5] Publicado originalmente em 1977, a importância da sua obra pode ser vista no fato de que praticamente todos os outros autores citados neste artigo citam e/ou dialogam com ela.

[6] Segundo Won (2020, p. 295), a classificação das narrativas evangélicas como “mito” significava que “não faria muita diferença se os eventos sobrenaturais tivessem ou não ocorrido historicamente”.

[7] O mesmo autor afirma que quando o sistema interpretativo de tese-antítese-síntese foi aplicado aos evangelhos, “Mateus foi visto como o mais judaico e, portanto, o mais autêntico dos Sinóticos; Lucas, como o mais gentio ou paulino; e Marcos, como uma tentativa do segundo século de conciliar os dois” (2019, p.38).

[8] Publicado originalmente em inglês nos EUA com o título “God With Us Formatting” em 2023.

[9] A menos que haja indicação de outras, a versão usada nas citações deste artigo é a NVI.

[10] Para Brown (2005), os magos viram uma estrela a qual eles associaram ao rei judeu. Diante disso, eles foram a Jerusalém (principal cidade judaica) a fim de buscarem mais informações.

[11] Cf. Dicionário Eerdmans, 2021, p. 218.

[12] A crueldade de Herodes, o Grande é bem conhecida. De acordo com Keener (2017), esse governante mandou assassinar uma de suas esposas e alguns dos seus filhos, dentre outras ordens semelhantes.

[13] “Em Lc 2,22 foi de Belém que os pais levaram Jesus para Jerusalém” (BROWN, 2005, p. 581, n. 21). Já segundo Boris Ulloa (2013, p. 465), “o deslocamento de retorno é um movimento em sentido inverso ao inicial [de Nazaré a Jerusalém], de Jerusalém até Nazaré na Galileia”.

[14] Brown (2005) afirma que Mateus 2.11 sugere que José e Maria moravam numa casa em Belém e que as tentativas de conciliar isso com as informações do relato lucano são forçadas.

[15] De fato, em sua sinopse dos sinóticos, o autor demonstra que não há correspondência entre o material mateano e lucano na narrativa da infância de Jesus (KONINGS, 2016, p. 4-17).

[16] Todas as traduções foram feitas pelo autor deste artigo.

[17] Segundo William D. Mounce (2013), o termo no NT é geralmente equivalente a παῖς, o qual pode ser usado para se referir a alguém de qualquer idade entre a infância e a vida adulta. Fora da narrativa da infância, o mesmo termo (παιδίον) é usado por Mateus no cp. 18.2,3,5, onde fica claro que não se refere a bebê de colo. Lucas usa παιδίον no cp. 2.40. Para Morris (1983, p. 87), Lucas, ao usar termos diferentes, faz um contraste entre os vv. 16 e 40, o que deixa “um registro de desenvolvimento”. O fato de Lucas também usar παιδίον no cp. 2.17,27 para se referir a Jesus enquanto bebê, só demonstra que esse termo era usado para idades variadas, enquanto βρέφος parece ser usado de maneira mais restrita por Lucas em seu relato da infância.

[18] Além do mais, classificações detalhas e precisas acerca dos períodos da criança, como as que são vistas nos estudos neonatológicos, é fruto da ciência moderna. Segundo a neonatologia, a criança é considerada recém-nascida apenas até do 28º dia de vida (CHERMONT, 2010).

[19] Embora em uma nota de rodapé no suplemento à sua obra original, Brown (2005, p. 729, n. 115) afirme que “o termo tem ampla abrangência”. Porém, ele não dá mais detalhes sobre as implicações disso.

[20] Advérbio que, segundo Mounce (2013, p. 331), significa “em uma ordem ou série contínua, sucessivamente, consecutivamente [...], que se segue, subsequente [...]”

[21] Morris (1983) afirma que, embora não tenha como ter certeza, é possível que Jesus fosse levado todos os anos por seu pais. O fato de Lucas dizer que Jesus foi com eles quando tinha 12 anos só serve para o seu propósito ao fazer um salto temporal e destacar esse episódio da infância dele. Não parece ser intenção de Lucas dizer que ele só foi levado pelos seus pais quando tinha essa idade, depois de ter sido apresentado no templo quando era bebê.

[22] Brown (2005) rejeita essa hipótese devido a linguagem usada por Lucas e o contexto imediato.

[23] A NVI traduz esse versículo assim: “E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se”. Embora seja uma inferência totalmente plausível, no texto grego aparece somente “sua própria cidade” (ἑαυτοῦ πόλιν).

[24] Reconhecendo a dificuldade com o termo, Brown (2005) o traduz como “alojamento” a fim de manter a ambiguidade. A crença de que Jesus nasceu em uma gruta foi formulada pela tradição cristã posterior.

[25] Brown (2005) também afirma que o entendimento de Lucas dessas cerimônias judaicas estava errado e se vale de alguns dos mesmos argumentos.

[26] Para uma defesa mais extensa sobre as evidências bíblicas ao fato de que os primogênitos eram apresentados e resgatados no templo contra as acusações de imprecisão lucana, veja: BAUCKHAM, 2022, p. 200-206.

[27] Para Ulloa (2013), de fato não havia uma exigência na tradição judaica de realizar esses ritos no Templo, porém a realização delas no espaço sagrado pelos pais de Jesus indicam sua devoção e compromisso com a Lei.

[1] Pós-graduado em Teologia do Novo Testamento pelo STJE/UNIFIL. Graduado em Teologia pela Universidade Estácio de Sá. E-mail: laion.gargano@gmail.com

[2] Os Evangelhos apócrifos também servem como testemunhas desse interesse por Jesus e da tendência de se escrever sobre ele. Porém, o que será dito a seguir irá se restringir apenas aos Evangelhos canônicos.

[3] Quando se refere as narrativas da infância de Jesus (assunto principal deste artigo), Bauckham (2022) defende que o “Protoevangelho de Tiago” seja o primeiro intento literário de conciliar os dois relatos canônicos.

[4] Para outros exemplos, veja: BLOMBERG, 2019, p. 184-187.

[5] Publicado originalmente em 1977, a importância da sua obra pode ser vista no fato de que praticamente todos os outros autores citados neste artigo citam e/ou dialogam com ela.

[6] Segundo Won (2020, p. 295), a classificação das narrativas evangélicas como “mito” significava que “não faria muita diferença se os eventos sobrenaturais tivessem ou não ocorrido historicamente”.

[7] O mesmo autor afirma que quando o sistema interpretativo de tese-antítese-síntese foi aplicado aos evangelhos, “Mateus foi visto como o mais judaico e, portanto, o mais autêntico dos Sinóticos; Lucas, como o mais gentio ou paulino; e Marcos, como uma tentativa do segundo século de conciliar os dois” (2019, p.38).

[8] Publicado originalmente em inglês nos EUA com o título “God With Us Formatting” em 2023.

[9] A menos que haja indicação de outras, a versão usada nas citações deste artigo é a NVI.

[10] Para Brown (2005), os magos viram uma estrela a qual eles associaram ao rei judeu. Diante disso, eles foram a Jerusalém (principal cidade judaica) a fim de buscarem mais informações.

[11] Cf. Dicionário Eerdmans, 2021, p. 218.

[12] A crueldade de Herodes, o Grande é bem conhecida. De acordo com Keener (2017), esse governante mandou assassinar uma de suas esposas e alguns dos seus filhos, dentre outras ordens semelhantes.

[13] “Em Lc 2,22 foi de Belém que os pais levaram Jesus para Jerusalém” (BROWN, 2005, p. 581, n. 21). Já segundo Boris Ulloa (2013, p. 465), “o deslocamento de retorno é um movimento em sentido inverso ao inicial [de Nazaré a Jerusalém], de Jerusalém até Nazaré na Galileia”.

[14] Brown (2005) afirma que Mateus 2.11 sugere que José e Maria moravam numa casa em Belém e que as tentativas de conciliar isso com as informações do relato lucano são forçadas.

[15] De fato, em sua sinopse dos sinóticos, o autor demonstra que não há correspondência entre o material mateano e lucano na narrativa da infância de Jesus (KONINGS, 2016, p. 4-17).

[16] Todas as traduções foram feitas pelo autor deste artigo.

[17] Segundo William D. Mounce (2013), o termo no NT é geralmente equivalente a παῖς, o qual pode ser usado para se referir a alguém de qualquer idade entre a infância e a vida adulta. Fora da narrativa da infância, o mesmo termo (παιδίον) é usado por Mateus no cp. 18.2,3,5, onde fica claro que não se refere a bebê de colo. Lucas usa παιδίον no cp. 2.40. Para Morris (1983, p. 87), Lucas, ao usar termos diferentes, faz um contraste entre os vv. 16 e 40, o que deixa “um registro de desenvolvimento”. O fato de Lucas também usar παιδίον no cp. 2.17,27 para se referir a Jesus enquanto bebê, só demonstra que esse termo era usado para idades variadas, enquanto βρέφος parece ser usado de maneira mais restrita por Lucas em seu relato da infância.

[18] Além do mais, classificações detalhas e precisas acerca dos períodos da criança, como as que são vistas nos estudos neonatológicos, é fruto da ciência moderna. Segundo a neonatologia, a criança é considerada recém-nascida apenas até do 28º dia de vida (CHERMONT, 2010).

[19] Embora em uma nota de rodapé no suplemento à sua obra original, Brown (2005, p. 729, n. 115) afirme que “o termo tem ampla abrangência”. Porém, ele não dá mais detalhes sobre as implicações disso.

[20] Advérbio que, segundo Mounce (2013, p. 331), significa “em uma ordem ou série contínua, sucessivamente, consecutivamente [...], que se segue, subsequente [...]”

[21] Morris (1983) afirma que, embora não tenha como ter certeza, é possível que Jesus fosse levado todos os anos por seu pais. O fato de Lucas dizer que Jesus foi com eles quando tinha 12 anos só serve para o seu propósito ao fazer um salto temporal e destacar esse episódio da infância dele. Não parece ser intenção de Lucas dizer que ele só foi levado pelos seus pais quando tinha essa idade, depois de ter sido apresentado no templo quando era bebê.

[22] Brown (2005) rejeita essa hipótese devido a linguagem usada por Lucas e o contexto imediato.

[23] A NVI traduz esse versículo assim: “E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se”. Embora seja uma inferência totalmente plausível, no texto grego aparece somente “sua própria cidade” (ἑαυτοῦ πόλιν).

[24] Reconhecendo a dificuldade com o termo, Brown (2005) o traduz como “alojamento” a fim de manter a ambiguidade. A crença de que Jesus nasceu em uma gruta foi formulada pela tradição cristã posterior.

[25] Brown (2005) também afirma que o entendimento de Lucas dessas cerimônias judaicas estava errado e se vale de alguns dos mesmos argumentos.

[26] Para uma defesa mais extensa sobre as evidências bíblicas ao fato de que os primogênitos eram apresentados e resgatados no templo contra as acusações de imprecisão lucana, veja: BAUCKHAM, 2022, p. 200-206.

[27] Para Ulloa (2013), de fato não havia uma exigência na tradição judaica de realizar esses ritos no Templo, porém a realização delas no espaço sagrado pelos pais de Jesus indicam sua devoção e compromisso com a Lei.

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