Jesus nos Evangelhos: uma breve análise das cristologias nos Evangelhos de Marcos e Mateus

Jesus nos Evangelhos: uma breve análise das cristologias nos Evangelhos de Marcos e Mateus

Cynthia Muniz Soares[1]

Resumo

Resumo: Os Evangelhos são mais do que biografias no sentido moderno; seus autores tinham intenções teológicas que influenciaram a forma como desenvolveram suas narrativas, ordenaram ou escolheram os fatos descritos, além dos termos usados para descrever Jesus. Esses textos buscam descrever a identidade de Jesus, criando uma cristologia implícita que vai além do uso de títulos cristológicos. Perspectivas recentes nos estudos dos Evangelhos apontam a necessidade de considerar aspectos literários e a narrativa como um todo para entender sua cristologia. Este artigo analisa as cristologias nos Evangelhos de Marcos e Mateus, destacando elementos narrativos e literários utilizados para descrever Jesus, identificando semelhanças e contrastes nas cristologias desses Evangelhos. Revela como Jesus era compreendido em diferentes contextos e comunidades e destaca a importância da análise narrativa.

Palavras-chave: Cristologia, Evangelhos, Mateus, Marcos, narrativa.

Abstract: The Gospels are more than biographies in the modern sense; their authors had theological intentions that influenced how they developed their narratives, ordered or selected the described facts, and chose the terms used to describe Jesus. These texts seek to describe Jesus' identity, creating an implicit Christology that goes beyond the use of Christological titles. Recent perspectives in Gospel studies highlight the need to consider literary aspects and the narrative as a whole to understand their Christology. This article analyzes the Christologies in the Gospels of Mark and Matthew, emphasizing the narrative and literary elements used to describe Jesus, identifying similarities and contrasts in the Christologies of these Gospels. It reveals how Jesus was understood in different contexts and communities and underscores the importance of narrative analysis.

Keywords: Christology, Gospels, Matthew, Mark, narrative.

Resumo: Os Evangelhos são mais do que biografias no sentido moderno; seus autores tinham intenções teológicas que influenciaram a forma como desenvolveram suas narrativas, ordenaram ou escolheram os fatos descritos, além dos termos usados para descrever Jesus. Esses textos buscam descrever a identidade de Jesus, criando uma cristologia implícita que vai além do uso de títulos cristológicos. Perspectivas recentes nos estudos dos Evangelhos apontam a necessidade de considerar aspectos literários e a narrativa como um todo para entender sua cristologia. Este artigo analisa as cristologias nos Evangelhos de Marcos e Mateus, destacando elementos narrativos e literários utilizados para descrever Jesus, identificando semelhanças e contrastes nas cristologias desses Evangelhos. Revela como Jesus era compreendido em diferentes contextos e comunidades e destaca a importância da análise narrativa.

Palavras-chave: Cristologia, Evangelhos, Mateus, Marcos, narrativa.

Abstract: The Gospels are more than biographies in the modern sense; their authors had theological intentions that influenced how they developed their narratives, ordered or selected the described facts, and chose the terms used to describe Jesus. These texts seek to describe Jesus' identity, creating an implicit Christology that goes beyond the use of Christological titles. Recent perspectives in Gospel studies highlight the need to consider literary aspects and the narrative as a whole to understand their Christology. This article analyzes the Christologies in the Gospels of Mark and Matthew, emphasizing the narrative and literary elements used to describe Jesus, identifying similarities and contrasts in the Christologies of these Gospels. It reveals how Jesus was understood in different contexts and communities and underscores the importance of narrative analysis.

Keywords: Christology, Gospels, Matthew, Mark, narrative.

Artigo

1. Introdução

Evangelhos são muito mais do que biografias no sentido moderno do termo. Seus autores, possuíam uma intenção teológica e crenças a respeito de Jesus que se refletiram na forma como desenvolveram suas narrativas, ordenaram ou escolheram os fatos que foram descritos, além dos termos e "títulos" usados para descrever Jesus. Sendo assim, podemos dizer que esses textos desenvolvem uma cristologia, uma vez que procuram descrever a identidade de Jesus.

Nesse sentido, Rausch afirma:

Quem é Jesus? Esta é a questão fundamental para a cristologia. Desde os primeiros dias da comunidade cristã, várias respostas foram dadas a esta pergunta. Os primeiros cristãos usaram vários títulos, a maioria deles extraídos a maioria deles extraídos do Antigo Testamento ou das Escrituras Hebraicas, para expressar sua fé em Jesus. Eles o chamavam de profeta mestre, Messias, Filho de Davi, Filho do Homem, Senhor, Filho de Deus, Palavra de Deus e ocasionalmente até Deus. O Novo Testamento oferece uma rica variedade de cristologias.[2]

Porém, é importante ressaltar que a mera busca por títulos cristológicos não é a melhor nem a única metodologia para compreender a cristologia presente nos textos dos Evangelhos, ou a intenção de seus autores dentro da estrutura redacional, como aponta Grindheim:

Não é suficiente minerar os Evangelhos em busca de declarações diretas sobre quem é Jesus. A antiga erudição era centrada quase exclusivamente nos títulos cristológicos (“Filho de Deus”, “Filho do Homem”, “Messias” e “Senhor”), mas essa abordagem ignora a “cristologia implícita” dos Evangelhos. Em contraste, estudos mais recentes geralmente empregam crítica narrativa focando no que podemos aprender sobre Jesus da maneira como as histórias do Evangelho se desenrolam. O que Jesus diz e faz, como ele interage com os outros e como as outras pessoas reagem a ele são fatores que compõem os retratos de Jesus nos Evangelhos. Os títulos desempenham um papel importante, mas não devem ser analisados isoladamente. Em vez disso, os vários títulos são preenchidos com significado pela maneira como funcionam na história do Evangelho.[3]

Como destaca Jeannine Brown, a trajetória recente dos estudos dos Evangelhos envolveu a retomada de sua forma narrativa, especialmente à medida que mais atenção tem sido dada à Bíblia como literatura. Além disso, os estudos na área de cristologia, com seu foco obstinado nos títulos de Jesus como chave para desvendar sua identidade, quase desapareceram da discussão acadêmica atual e das pesquisas sobre o tema. No entanto, alguns autores ainda publicam trabalhos relevantes utilizando esse tipo de abordagem.[4][5][6]

Dessa forma, a análise narrativa dos Evangelhos, considerando elementos básicos da história como o cenário, os personagens e o enredo, e o discurso da narrativa – ou seja, a forma como o autor conta a história – é importante para perceber como cada Evangelho caracteriza Jesus, apresentando facetas distintas da cristologia conforme o retrato de Jesus é delineado.[7]

Neste artigo, pretende-se descrever aspectos das cristologias presentes nos Evangelhos de Marcos e Mateus, pontuando alguns elementos narrativos e literários presentes no desenvolvimento dos textos, bem como o uso de alguns termos específicos que os autores utilizaram para descrever a vida e obra de Jesus.

Embora no Evangelho de Marcos Jesus seja apresentado como o "Filho de Deus" e como aquele que traz o Reino de Deus, conectando-o às expectativas messiânicas e escatológicas, observamos que no Evangelho de Mateus o autor procurou desenvolver os temas presentes em Marcos com uma ênfase maior na demonstração de que Jesus é o pleno cumprimento das profecias messiânicas do Antigo Testamento. Além disso, Mateus apresenta outras descrições de Jesus, como a sua identificação como o novo Israel, em contraste com figuras como Moisés e Salomão, além de outras imagens do Antigo Testamento. Essas adições enriquecem a narrativa de Mateus, conferindo-lhe um maior nível de desenvolvimento em comparação com a de Marcos, como será demonstrado mais adiante.

O objetivo deste artigo não se limita apenas à descrição, mas tem a intenção de verificar as similaridades e contrastes no desenvolvimento das cristologias dos Evangelhos de Marcos e Mateus, identificando aspectos da estrutura narrativa e literária, bem como as intenções teológicas dos autores por meio da escolha dos fatos narrados e dos termos e títulos utilizados para descrever Jesus. Dessa forma, podemos obter informações valiosas sobre como Jesus era compreendido em diferentes contextos e comunidades, considerando a pluralidade de tradições que existiram durante o desenvolvimento da igreja nos seus primeiros séculos, justificando a importância desse tipo de estudo.

2. Aspectos da cristologia no Evangelho de Marcos

É praticamente consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito, hipótese que ficou conhecida como “prioridade marcana”. Desse modo, Marcos teria sido uma das fontes utilizadas nos evangelhos de Mateus e Lucas, pois boa parte de seu material está contida nesses dois evangelhos, além da ordem das narrativas presentes em Marcos serem constitutivas para as estruturas de Mateus e Lucas e, também, pelo refinamento da linguagem e estilo de Marcos nos demais evangelhos.[8]

No que diz respeito à datação, existe um amplo consenso que o Evangelho tenha sido escrito por volta do ano 70 d.C, mas há estudiosos que atribuem ao texto uma data anterior. Já os destinatários, segundo fontes extrabíblicas, teriam sido cristão gentílicos, uma vez que há inferências sobre sua procedência romana bem como a ausência de reflexões profundas sobre a Torah, diferente do Evangelho de Mateus.[9][10][11]

Quanto à redação literária, de acordo com Vielhauer, Marcos ofereceu uma exposição coesa da atividade de Jesus, desde seu batismo até a sua morte e ressurreição. Ele formou a imagem de Jesus por meio das narrativas dos seus feitos, incluindo histórias de milagres e ditos, além de elementos de sua doutrina, de modo que tal seleção literária constitui-se num ato teológico.[12]

Morna Hooker afirma que os prólogos dos evangelhos, ou de qualquer narrativa, são importantes pois fornecem informações fundamentais que vão nos orientar quanto ao modo pelo qual o autor espera que sua obra seja lida, bem como indicações do desenlace de sua narrativa. No caso de Marcos, vale a pena destacar alguns aspectos como a ausência de uma narrativa sobre o nascimento de Jesus ou detalhes de sua infância, o uso do termo “evangelho” (Ευαγγέλιο), não como um novo gênero literário em si, mas como anúncio das boas novas do Reino que o advento de Jesus representava, o uso do título cristológico “filho de Deus” logo no primeiro versículo, bem como sua identificação como o “Cristo”, ou seja, um título messiânico (Este é o princípio das boas-novas a respeito de Jesus Cristo, o Filho de Deus (Mc 1:11 NVT).[13][14]

O prólogo é seguido da narrativa do ministério de João Batista e o batismo de Jesus que valida mais uma vez sua filiação divina (E uma voz do céu disse: "Você é meu Filho amado, que me dá grande alegria". Mc 1:11 NVT), e o breve relato da tentação de Jesus no deserto, impelido pelo Espírito, dando início então a descrição do ministério de Jesus na Galileia.

Ainda sobre a identidade de Jesus revelada no prólogo, Bauckham pontua algo importante sobre a descrição do ministério de João Batista em Mc 1:3:

Devemos notar que Marcos, já em seu prólogo, onde ele enraíza a narrativa nas Escrituras Hebraicas citando Isaías (Is 40:3, confundido com Mal 3:1), segue o generalizado cristianismo primitivo prática de aplicar a Jesus os textos bíblicos em que “o Senhor” (gr. ho kyrios) refere-se a Javé (Is 40:3 = Mc 1:3). Para leitores atentos às escrituras, a identidade divina pode assim ser discernida desde o início.[15]

O relato marcano dá ênfase à ação no ministério de Jesus, contendo pouco dos seus ensinos mais extensos, e apresentando trocas de cena rápidas (marcadas por conectivos como “imediatamente”) sendo que Jesus é apresentado sempre em movimento, realizando curas, exorcismos, confrontando seus adversários ou discipulando, numa narrativa em ritmo acelerado. Quanto à estrutura da narrativa, segundo Blomberg, há certo consenso de que a primeira parte do livro (8 primeiros capítulos) apresentam narrativas de ação concentradas no ministério poderoso de Jesus. Já na segunda metade, os eventos são apresentados de forma mais cronológica, com ênfase nos ensinos de Jesus culminando com a sua ida à Jerusalém, e o relato da paixão, com redução considerável do tempo narrativo a partir de 11:1.[16][17]

Assim como os prólogos são importantes, os finais também revelam muito sobre as intenções do autor. No caso de Marcos, a despeito das questões de autenticidade que não serão discutidas aqui, grande parte dos estudiosos consideram que o Evangelho termina de forma abrupta em 16:8 (final curto), e que os versículos 16:9-20 (final longo) seriam um acréscimo posterior. Teria Marcos pretendido que sua história terminasse com as mulheres assustadas e como medo de testemunhar a ressurreição? Permanece, assim o clima de mistério, que por sinal, permeia toda a narrativa marcana.[18]

Desse modo, encerramos as observações sobre a estrutura literária de Marcos com a descrição de N. T. Wright:

O Evangelho parece apresentar um esboço simples: oito capítulos para explicar quem Jesus é, mais oito para explicar que ele irá morrer. Um começo abrupto e um fim misterioso, diga-se; mas um relato direto entre ambos. A rispidez da abertura e a obscuridade do fim permeiam todo o livro. Marcos é um livro de segredos, de véus, de mistérios.[19]

Passando agora a tratar de temas teológicos, um tema muito importante em Marcos é aquele que ficou conhecido como segredo marcano. Esse certamente é um tema importante da cristologia marcana, uma vez que a narrativa revela uma tensão sobre a verdadeira identidade de Jesus, que deveria ser ocultada até o momento oportuno (por exemplo: Enquanto desciam do monte, Jesus lhes ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dos mortos. Mc 9:9 NVT). Sobre isso, Grindheim conclui: A identidade de Jesus, que só lenta e gradualmente se torna conhecida pelos personagens do Evangelho de Marcos, é revelada ao público de Marcos desde o começo. [...] Com um uso cuidadoso do tema do sigilo, Marcos também mostra a natureza atraente da pessoa de Jesus. Sua fama não pôde ser contida e as pessoas tinham que responder a ele como divino - mesmo involuntariamente. O tema do sigilo marcano também conecta inextricavelmente a identidade de Jesus ao seu sacrifício. Somente à luz da cruz é que os seres humanos podem conhecê-lo como o Filho de Deus.[20][21]

Dentro dessa temática, podemos perceber que uma das preocupações de Marcos é responder à pergunta “Quem é Jesus?”. Ben Witherington destaca a presença de várias perguntas relacionadas à identidade de Jesus na primeira parte do Evangelho, que estão resumidas na tabela abaixo:[22][23]

Além disso, o mesmo autor identifica a resposta para todos os questionamentos mencionados no versículo que ele aponta como o clímax da história,[24]

Jesus e seus discípulos deixaram a Galileia e foram para os povoados perto de Cesareia de Filipe. Enquanto caminhavam, Jesus lhes perguntou: "Quem as pessoas dizem que eu sou?". Eles responderam: "Alguns dizem que o senhor é João Batista; outros que é Elias ou um dos profetas". "E vocês?", perguntou ele. "Quem vocês dizem que eu sou?" Pedro respondeu: "O senhor é o Cristo!". Mc 8:27-29 NVT.

Segundo Ralph P. Martin, o Evangelho de Marcos é o que melhor representa uma ênfase equilibrada na divindade de Jesus com a sua humanidade. Os diferentes títulos cristológicos de Marcos corroboram essa ideia. Os principais títulos usados ao longo do Evangelho são: Mestre, Filho do Homem (termo que em determinados momentos está relacionado ao Filho do Homem em Daniel 7:13), além de outros como Filho de Davi, Rei dos Judeus, Profeta e Senhor. Mas certamente o mais importante deles é o título Filho de Deus e expressões correlatas. Além disso, embora Marcos não utilize essa expressão de forma exata, é evidente que o tema do Servo sofredor também está presente.[25][26][27][28]

Também é importante destacar que a identidade de Jesus está intimamente ligada à chegada do Reino de Deus, além do aspecto escatológico, que perpassa a narrativa para além do capítulo 13. Nas palavras de Wright, toda a narrativa de Marcos sobre a história de Jesus foi projetada para funcionar como um apocalipse. Há sempre algo sobre Jesus a ser “revelado”, a ser descoberto.

Também é importante destacar que a identidade de Jesus está intimamente ligada à chegada do Reino de Deus, além do aspecto escatológico, que perpassa a narrativa para além do capítulo 13. Nas palavras de Wright, toda a narrativa de Marcos sobre a história de Jesus foi projetada para funcionar como um apocalipse. Há sempre algo sobre Jesus a ser “revelado”, a ser descoberto.[29]

Por fim, vale a mencionar a afirmação de Witherington sobre a narrativa marcana e sua cristologia:

Houve uma época no início deste século em que muitos estudiosos viam Marcos como uma narrativa quase pura e sem verniz, com pouca profundidade ou densidade teológica. É seguro dizer que esses dias já se foram. Onde quer que Marcos tenha obtido seu material do Evangelho, ele o moldou de forma a apresentar um retrato muito impressionante de Jesus como Cristo, como Filho de Deus e como Filho do Homem - o homem destinado a morrer, o Filho amado destinado a salvar e ser levantado da sepultura. [...] Em particular, Marcos está preocupado que títulos reais como Cristo ou Filho de Deus ou Rei não sejam mal interpretados para sugerir que Jesus era algum tipo de figura política e aspirante.[30]

3. Aspectos da cristologia no Evangelho de Mateus

O Evangelho de Mateus, que já chegou a ser apontado como o primeiro Evangelho, certamente utilizou Marcos como uma de suas fontes. O texto é frequentemente datado entre os anos 80 e 90 d.C. sendo o público-alvo do Evangelho muito provavelmente uma comunidade de judeus cristãos. Além disso, é evidente que Mateus aproveitou a estrutura de Marcos, pois a partir de 14:1 a sequência de unidades comuns aos dois é praticamente a mesma.[31][32]

Ainda sobre esse tema, Kümmel aponta que de maneira geral Mateus aproveitou o esquema marcano tomando-o como base para sua narrativa mais extensa, transformando o relato por meio de retoques, inserindo grande quantidade de material, em especial discursos de Jesus arranjando o material sob o ponto de vista tópico e catequético.[33]

O prólogo de Mateus apresenta acréscimos importantes em relação ao material de Marcos que são uma genealogia e um relato da natividade. Alguns aspectos importantes estão contidos na genealogia que evidenciam a teologia de Mateus. Em primeiro lugar, temos uma genealogia que apresenta Jesus Cristo como um descendente direto de Davi e Abraão, e que segue em três blocos de 14 gerações que são marcadas por eventos chave da história de Israel e terminando com José, marido de Maria, da tribo de Judá, conforme conclusão apresentada pelo autor: Portanto, são catorze gerações de Abraão até Davi, catorze de Davi até o exílio na Babilônia e catorze do exílio na Babilônia até Cristo (Mt 1:17 NVT).[34]

Dessa forma, Jesus é apresentado como descendente de Davi, justificando sua posição régia, bem como descendente de Abraão, o que o vincula diretamente a Israel e à promessa de que em Abraão seriam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12:3), apontando para a universalidade da salvação (inclusão dos gentios). Sobre isso, vale a pena apontar a inserção bastante atípica de quatro personagens femininas no prólogo que são: Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba. A inclusão dessas mulheres que são gentias e com histórias nada convencionais podem ser um recurso para reforçar tanto o caráter da universalidade da salvação, já mencionado, como para “abrir o caminho” para a história da gravidez de Maria, que era virgem, uma história que também não é em nada convencional.[35][36]

Também podemos destacar o uso, pela primeira vez, da fórmula de cumprimento, típica da narrativa mateana (Tudo isso aconteceu para cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Vejam! A virgem ficará grávida! Ela dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa ‘Deus conosco’". Mt 1:22,23 NVT), bem como a identificação de Jesus como Emanuel, mais um aspecto importante da cristologia de Mateus que será retomado mais adiante.

Também podemos destacar o uso, pela primeira vez, da fórmula de cumprimento, típica da narrativa mateana (Tudo isso aconteceu para cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Vejam! A virgem ficará grávida! Ela dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa ‘Deus conosco’". Mt 1:22,23 NVT), bem como a identificação de Jesus como Emanuel, mais um aspecto importante da cristologia de Mateus que será retomado mais adiante.

Finalmente, merece destaque a narrativa dos magos do oriente no capítulo 2, que reconhecem os sinais do nascimento do Rei e prestam-lhe a devida adoração, mais um sinal da universalidade já mencionada e uma provável alusão à Isaías: As nações virão à sua luz, os reis verão o seu esplendor (Is 60:3 NVT). Além disso, Mateus reforça sua narrativa com intervenções sobrenaturais de Deus, com diversos avisos e orientações dadas por meio de sonhos e figuras angelicais.

Mateus escreveu um Evangelho mais longo que Marcos e sua narrativa acontece em um ritmo mais lento, organizada em blocos de material. Enquanto Marcos tem poucas seções de ensinos de Jesus, Mateus apresenta cinco grandes blocos de material discursivo de cunho catequético, intercalados com material narrativo, organizados da seguinte forma: Sermão da montanha (capítulos 5-7), Discurso missionário (capítulo 10), Discurso em parábolas (capítulo 13), Discurso sobre a comunidade (capítulo 18) e o Discurso apocalíptico (capítulos 23-25).[37][38][39]

Diferente de Marcos, Mateus apresenta uma narrativa bem elaborada da ressurreição e de suas aparições às mulheres e aos demais discípulos. No final do evangelho temos o texto conhecido como a Grande comissão” onde a autoridade de Jesus é afirmada, bem como a continuidade da missão de Jesus por meio dos seus discípulos, que tem a presença de Jesus garantida em meio à comunidade (retomando a ideia desenvolvida desde o primeiro capítulo de que Jesus é o Emanuel – Deus presente). Por fim, a fórmula trinitária presente do batismo denota a alta cristologia presente em Mateus, ao mencionar Jesus junto ao Deus Pai e Espírito.

Diferente de Marcos, Mateus apresenta uma narrativa bem elaborada da ressurreição e de suas aparições às mulheres e aos demais discípulos. No final do evangelho temos o texto conhecido como a Grande comissão” onde a autoridade de Jesus é afirmada, bem como a continuidade da missão de Jesus por meio dos seus discípulos, que tem a presença de Jesus garantida em meio à comunidade (retomando a ideia desenvolvida desde o primeiro capítulo de que Jesus é o Emanuel – Deus presente). Por fim, a fórmula trinitária presente do batismo denota a alta cristologia presente em Mateus, ao mencionar Jesus junto ao Deus Pai e Espírito.

Uma característica da narrativa mateana é o uso das já mencionadas fórmulas de cumprimento que apontam claramente para o fato de que Jesus era o pleno cumprimento das profecias e expectativas messiânicas do Antigo Testamento. É importante destacar também o novo significado que Mateus atribui a várias dessas citações do Antigo Testamento, encontrando nelas um cumprimento cristológico (Exemplo: Cumpriu-se, assim, o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Do Egito chamei meu filho". Mt 2:15 NVT – citando Oséias 11:1).[40]

Quanto à cristologia, a narrativa de Mateus apresenta Jesus como o messias davídico, como o cumprimento da Torah, como a sabedoria encarnada, como o Israel representativo e a personificação de Yahweh (cristologia do Emanuel). Jesus também recebe títulos cristológicos tomados do Antigo Testamento tais como Filho de Davi, Messias e Filho do Homem, títulos que estão presentes no Evangelho de Marcos. Sobre a relação teológica entre ambos os Evangelhos, Luz afirma:[41][42]

Várias ideias teológicas básicas do Evangelho de Mateus derivam de Marcos. Basta mencionar a imitação do caminho de sofrimento de Jesus, a Igreja como assembleia de discípulos, o título de “Filho de Davi” para Jesus o curador, o título de “Filho de Deus” como conceito cristológico central, a paixão do Filho do Homem, o cumprimento da Escritura e, sobretudo, a abertura à missão dos gentios. Muitos termos teológicos importantes do primeiro Evangelho, em última análise, derivam de Marcos.[43]

Entretanto, podemos concluir que Mateus apresenta uma narrativa mais elaborada e organizada, incluindo um formato mais didático para retratar a vida e os ensinamentos de Jesus. Por conta disso, o Evangelho foi amplamente utilizado para o discipulado de novos convertidos e a edificação da comunidade durante o período da igreja antiga. Há ainda outros aspectos da cristologia de Mateus que poderiam ser abordadas, como por exemplo a importância que Jesus dá aos “pequeninos” e sua identificação com eles (- O Rei, respondendo, lhes dirá: "Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram." Mt 25:40 NAA).[44]

A respeito da cristologia apresentada no Evangelho, Hagner afirma:

Com certeza, encontramos em Mateus uma das mais elevadas cristologias do Novo Testamento. A cristologia de Mateus não está evidente apenas nos títulos dados a Jesus e nas declarações diretas feitas a respeito dele, mas também indiretamente de inúmeras outras maneiras. [...] Em suma, Jesus é uma figura muito mais exaltada em Mateus do que quaisquer outras pessoas enviadas por Deus na história de Israel - alguém "maior do que Salomão" (12:42), na verdade, alguém até mesmo "maior que o templo” (12:6). Ele é aquele que é "Deus conosco" (1:23) e cujo nome apenas, como Filho, pode, como uma fórmula, ser posto junto com o de Deus e do Espírito Santo (28:19).[45]

Considerações finais

Neste artigo, apresentamos breves descrições de cada Evangelho, destacando o desenvolvimento das narrativas sob o ponto de vista cristológico. Observamos que o Evangelho de Marcos apresenta uma descrição mais concisa em comparação com Mateus, com um ritmo narrativo acelerado, focando em demonstrar que Jesus é o Filho de Deus e o Messias de Israel. No entanto, a narrativa de Marcos possui características intrigantes, como o tema do segredo marcano, que tem despertado grande interesse e motivou numerosos estudos desde a proposta de Wrede.

Por outro lado, Mateus utiliza e expande a estrutura narrativa básica de Marcos, incorporando outras fontes e desenvolvendo ainda mais os temas cristológicos presentes no Evangelho. Há uma ênfase significativa em retratar Jesus como o Messias davídico e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. No entanto, Mateus traz novas perspectivas em sua cristologia, adicionando elementos que enriquecem a caracterização de Jesus.

Embora este estudo não seja exaustivo, ele demonstra que ao analisar os aspectos literários e narrativos desses textos, podemos reconhecer tanto suas similaridades quanto suas particularidades na cristologia dos Evangelhos, constituindo assim uma ferramenta importante para os estudos bíblicos.

1. Introdução

Evangelhos são muito mais do que biografias no sentido moderno do termo. Seus autores, possuíam uma intenção teológica e crenças a respeito de Jesus que se refletiram na forma como desenvolveram suas narrativas, ordenaram ou escolheram os fatos que foram descritos, além dos termos e "títulos" usados para descrever Jesus. Sendo assim, podemos dizer que esses textos desenvolvem uma cristologia, uma vez que procuram descrever a identidade de Jesus.

Nesse sentido, Rausch afirma:

Quem é Jesus? Esta é a questão fundamental para a cristologia. Desde os primeiros dias da comunidade cristã, várias respostas foram dadas a esta pergunta. Os primeiros cristãos usaram vários títulos, a maioria deles extraídos a maioria deles extraídos do Antigo Testamento ou das Escrituras Hebraicas, para expressar sua fé em Jesus. Eles o chamavam de profeta mestre, Messias, Filho de Davi, Filho do Homem, Senhor, Filho de Deus, Palavra de Deus e ocasionalmente até Deus. O Novo Testamento oferece uma rica variedade de cristologias.[2]

Porém, é importante ressaltar que a mera busca por títulos cristológicos não é a melhor nem a única metodologia para compreender a cristologia presente nos textos dos Evangelhos, ou a intenção de seus autores dentro da estrutura redacional, como aponta Grindheim:

Não é suficiente minerar os Evangelhos em busca de declarações diretas sobre quem é Jesus. A antiga erudição era centrada quase exclusivamente nos títulos cristológicos (“Filho de Deus”, “Filho do Homem”, “Messias” e “Senhor”), mas essa abordagem ignora a “cristologia implícita” dos Evangelhos. Em contraste, estudos mais recentes geralmente empregam crítica narrativa focando no que podemos aprender sobre Jesus da maneira como as histórias do Evangelho se desenrolam. O que Jesus diz e faz, como ele interage com os outros e como as outras pessoas reagem a ele são fatores que compõem os retratos de Jesus nos Evangelhos. Os títulos desempenham um papel importante, mas não devem ser analisados isoladamente. Em vez disso, os vários títulos são preenchidos com significado pela maneira como funcionam na história do Evangelho.[3]

Como destaca Jeannine Brown, a trajetória recente dos estudos dos Evangelhos envolveu a retomada de sua forma narrativa, especialmente à medida que mais atenção tem sido dada à Bíblia como literatura. Além disso, os estudos na área de cristologia, com seu foco obstinado nos títulos de Jesus como chave para desvendar sua identidade, quase desapareceram da discussão acadêmica atual e das pesquisas sobre o tema. No entanto, alguns autores ainda publicam trabalhos relevantes utilizando esse tipo de abordagem.[4][5][6]

Dessa forma, a análise narrativa dos Evangelhos, considerando elementos básicos da história como o cenário, os personagens e o enredo, e o discurso da narrativa – ou seja, a forma como o autor conta a história – é importante para perceber como cada Evangelho caracteriza Jesus, apresentando facetas distintas da cristologia conforme o retrato de Jesus é delineado.[7]

Neste artigo, pretende-se descrever aspectos das cristologias presentes nos Evangelhos de Marcos e Mateus, pontuando alguns elementos narrativos e literários presentes no desenvolvimento dos textos, bem como o uso de alguns termos específicos que os autores utilizaram para descrever a vida e obra de Jesus.

Embora no Evangelho de Marcos Jesus seja apresentado como o "Filho de Deus" e como aquele que traz o Reino de Deus, conectando-o às expectativas messiânicas e escatológicas, observamos que no Evangelho de Mateus o autor procurou desenvolver os temas presentes em Marcos com uma ênfase maior na demonstração de que Jesus é o pleno cumprimento das profecias messiânicas do Antigo Testamento. Além disso, Mateus apresenta outras descrições de Jesus, como a sua identificação como o novo Israel, em contraste com figuras como Moisés e Salomão, além de outras imagens do Antigo Testamento. Essas adições enriquecem a narrativa de Mateus, conferindo-lhe um maior nível de desenvolvimento em comparação com a de Marcos, como será demonstrado mais adiante.

O objetivo deste artigo não se limita apenas à descrição, mas tem a intenção de verificar as similaridades e contrastes no desenvolvimento das cristologias dos Evangelhos de Marcos e Mateus, identificando aspectos da estrutura narrativa e literária, bem como as intenções teológicas dos autores por meio da escolha dos fatos narrados e dos termos e títulos utilizados para descrever Jesus. Dessa forma, podemos obter informações valiosas sobre como Jesus era compreendido em diferentes contextos e comunidades, considerando a pluralidade de tradições que existiram durante o desenvolvimento da igreja nos seus primeiros séculos, justificando a importância desse tipo de estudo.

2. Aspectos da cristologia no Evangelho de Marcos

É praticamente consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito, hipótese que ficou conhecida como “prioridade marcana”. Desse modo, Marcos teria sido uma das fontes utilizadas nos evangelhos de Mateus e Lucas, pois boa parte de seu material está contida nesses dois evangelhos, além da ordem das narrativas presentes em Marcos serem constitutivas para as estruturas de Mateus e Lucas e, também, pelo refinamento da linguagem e estilo de Marcos nos demais evangelhos.[8]

No que diz respeito à datação, existe um amplo consenso que o Evangelho tenha sido escrito por volta do ano 70 d.C, mas há estudiosos que atribuem ao texto uma data anterior. Já os destinatários, segundo fontes extrabíblicas, teriam sido cristão gentílicos, uma vez que há inferências sobre sua procedência romana bem como a ausência de reflexões profundas sobre a Torah, diferente do Evangelho de Mateus.[9][10][11]

Quanto à redação literária, de acordo com Vielhauer, Marcos ofereceu uma exposição coesa da atividade de Jesus, desde seu batismo até a sua morte e ressurreição. Ele formou a imagem de Jesus por meio das narrativas dos seus feitos, incluindo histórias de milagres e ditos, além de elementos de sua doutrina, de modo que tal seleção literária constitui-se num ato teológico.[12]

Morna Hooker afirma que os prólogos dos evangelhos, ou de qualquer narrativa, são importantes pois fornecem informações fundamentais que vão nos orientar quanto ao modo pelo qual o autor espera que sua obra seja lida, bem como indicações do desenlace de sua narrativa. No caso de Marcos, vale a pena destacar alguns aspectos como a ausência de uma narrativa sobre o nascimento de Jesus ou detalhes de sua infância, o uso do termo “evangelho” (Ευαγγέλιο), não como um novo gênero literário em si, mas como anúncio das boas novas do Reino que o advento de Jesus representava, o uso do título cristológico “filho de Deus” logo no primeiro versículo, bem como sua identificação como o “Cristo”, ou seja, um título messiânico (Este é o princípio das boas-novas a respeito de Jesus Cristo, o Filho de Deus (Mc 1:11 NVT).[13][14]

O prólogo é seguido da narrativa do ministério de João Batista e o batismo de Jesus que valida mais uma vez sua filiação divina (E uma voz do céu disse: "Você é meu Filho amado, que me dá grande alegria". Mc 1:11 NVT), e o breve relato da tentação de Jesus no deserto, impelido pelo Espírito, dando início então a descrição do ministério de Jesus na Galileia.

Ainda sobre a identidade de Jesus revelada no prólogo, Bauckham pontua algo importante sobre a descrição do ministério de João Batista em Mc 1:3:

Devemos notar que Marcos, já em seu prólogo, onde ele enraíza a narrativa nas Escrituras Hebraicas citando Isaías (Is 40:3, confundido com Mal 3:1), segue o generalizado cristianismo primitivo prática de aplicar a Jesus os textos bíblicos em que “o Senhor” (gr. ho kyrios) refere-se a Javé (Is 40:3 = Mc 1:3). Para leitores atentos às escrituras, a identidade divina pode assim ser discernida desde o início.[15]

O relato marcano dá ênfase à ação no ministério de Jesus, contendo pouco dos seus ensinos mais extensos, e apresentando trocas de cena rápidas (marcadas por conectivos como “imediatamente”) sendo que Jesus é apresentado sempre em movimento, realizando curas, exorcismos, confrontando seus adversários ou discipulando, numa narrativa em ritmo acelerado. Quanto à estrutura da narrativa, segundo Blomberg, há certo consenso de que a primeira parte do livro (8 primeiros capítulos) apresentam narrativas de ação concentradas no ministério poderoso de Jesus. Já na segunda metade, os eventos são apresentados de forma mais cronológica, com ênfase nos ensinos de Jesus culminando com a sua ida à Jerusalém, e o relato da paixão, com redução considerável do tempo narrativo a partir de 11:1.[16][17]

Assim como os prólogos são importantes, os finais também revelam muito sobre as intenções do autor. No caso de Marcos, a despeito das questões de autenticidade que não serão discutidas aqui, grande parte dos estudiosos consideram que o Evangelho termina de forma abrupta em 16:8 (final curto), e que os versículos 16:9-20 (final longo) seriam um acréscimo posterior. Teria Marcos pretendido que sua história terminasse com as mulheres assustadas e como medo de testemunhar a ressurreição? Permanece, assim o clima de mistério, que por sinal, permeia toda a narrativa marcana.[18]

Desse modo, encerramos as observações sobre a estrutura literária de Marcos com a descrição de N. T. Wright:

O Evangelho parece apresentar um esboço simples: oito capítulos para explicar quem Jesus é, mais oito para explicar que ele irá morrer. Um começo abrupto e um fim misterioso, diga-se; mas um relato direto entre ambos. A rispidez da abertura e a obscuridade do fim permeiam todo o livro. Marcos é um livro de segredos, de véus, de mistérios.[19]

Passando agora a tratar de temas teológicos, um tema muito importante em Marcos é aquele que ficou conhecido como segredo marcano. Esse certamente é um tema importante da cristologia marcana, uma vez que a narrativa revela uma tensão sobre a verdadeira identidade de Jesus, que deveria ser ocultada até o momento oportuno (por exemplo: Enquanto desciam do monte, Jesus lhes ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dos mortos. Mc 9:9 NVT). Sobre isso, Grindheim conclui: A identidade de Jesus, que só lenta e gradualmente se torna conhecida pelos personagens do Evangelho de Marcos, é revelada ao público de Marcos desde o começo. [...] Com um uso cuidadoso do tema do sigilo, Marcos também mostra a natureza atraente da pessoa de Jesus. Sua fama não pôde ser contida e as pessoas tinham que responder a ele como divino - mesmo involuntariamente. O tema do sigilo marcano também conecta inextricavelmente a identidade de Jesus ao seu sacrifício. Somente à luz da cruz é que os seres humanos podem conhecê-lo como o Filho de Deus.[20][21]

Dentro dessa temática, podemos perceber que uma das preocupações de Marcos é responder à pergunta “Quem é Jesus?”. Ben Witherington destaca a presença de várias perguntas relacionadas à identidade de Jesus na primeira parte do Evangelho, que estão resumidas na tabela abaixo:[22][23]

Além disso, o mesmo autor identifica a resposta para todos os questionamentos mencionados no versículo que ele aponta como o clímax da história,[24]

Jesus e seus discípulos deixaram a Galileia e foram para os povoados perto de Cesareia de Filipe. Enquanto caminhavam, Jesus lhes perguntou: "Quem as pessoas dizem que eu sou?". Eles responderam: "Alguns dizem que o senhor é João Batista; outros que é Elias ou um dos profetas". "E vocês?", perguntou ele. "Quem vocês dizem que eu sou?" Pedro respondeu: "O senhor é o Cristo!". Mc 8:27-29 NVT.

Segundo Ralph P. Martin, o Evangelho de Marcos é o que melhor representa uma ênfase equilibrada na divindade de Jesus com a sua humanidade. Os diferentes títulos cristológicos de Marcos corroboram essa ideia. Os principais títulos usados ao longo do Evangelho são: Mestre, Filho do Homem (termo que em determinados momentos está relacionado ao Filho do Homem em Daniel 7:13), além de outros como Filho de Davi, Rei dos Judeus, Profeta e Senhor. Mas certamente o mais importante deles é o título Filho de Deus e expressões correlatas. Além disso, embora Marcos não utilize essa expressão de forma exata, é evidente que o tema do Servo sofredor também está presente.[25][26][27][28]

Também é importante destacar que a identidade de Jesus está intimamente ligada à chegada do Reino de Deus, além do aspecto escatológico, que perpassa a narrativa para além do capítulo 13. Nas palavras de Wright, toda a narrativa de Marcos sobre a história de Jesus foi projetada para funcionar como um apocalipse. Há sempre algo sobre Jesus a ser “revelado”, a ser descoberto.

Também é importante destacar que a identidade de Jesus está intimamente ligada à chegada do Reino de Deus, além do aspecto escatológico, que perpassa a narrativa para além do capítulo 13. Nas palavras de Wright, toda a narrativa de Marcos sobre a história de Jesus foi projetada para funcionar como um apocalipse. Há sempre algo sobre Jesus a ser “revelado”, a ser descoberto.[29]

Por fim, vale a mencionar a afirmação de Witherington sobre a narrativa marcana e sua cristologia:

Houve uma época no início deste século em que muitos estudiosos viam Marcos como uma narrativa quase pura e sem verniz, com pouca profundidade ou densidade teológica. É seguro dizer que esses dias já se foram. Onde quer que Marcos tenha obtido seu material do Evangelho, ele o moldou de forma a apresentar um retrato muito impressionante de Jesus como Cristo, como Filho de Deus e como Filho do Homem - o homem destinado a morrer, o Filho amado destinado a salvar e ser levantado da sepultura. [...] Em particular, Marcos está preocupado que títulos reais como Cristo ou Filho de Deus ou Rei não sejam mal interpretados para sugerir que Jesus era algum tipo de figura política e aspirante.[30]

3. Aspectos da cristologia no Evangelho de Mateus

O Evangelho de Mateus, que já chegou a ser apontado como o primeiro Evangelho, certamente utilizou Marcos como uma de suas fontes. O texto é frequentemente datado entre os anos 80 e 90 d.C. sendo o público-alvo do Evangelho muito provavelmente uma comunidade de judeus cristãos. Além disso, é evidente que Mateus aproveitou a estrutura de Marcos, pois a partir de 14:1 a sequência de unidades comuns aos dois é praticamente a mesma.[31][32]

Ainda sobre esse tema, Kümmel aponta que de maneira geral Mateus aproveitou o esquema marcano tomando-o como base para sua narrativa mais extensa, transformando o relato por meio de retoques, inserindo grande quantidade de material, em especial discursos de Jesus arranjando o material sob o ponto de vista tópico e catequético.[33]

O prólogo de Mateus apresenta acréscimos importantes em relação ao material de Marcos que são uma genealogia e um relato da natividade. Alguns aspectos importantes estão contidos na genealogia que evidenciam a teologia de Mateus. Em primeiro lugar, temos uma genealogia que apresenta Jesus Cristo como um descendente direto de Davi e Abraão, e que segue em três blocos de 14 gerações que são marcadas por eventos chave da história de Israel e terminando com José, marido de Maria, da tribo de Judá, conforme conclusão apresentada pelo autor: Portanto, são catorze gerações de Abraão até Davi, catorze de Davi até o exílio na Babilônia e catorze do exílio na Babilônia até Cristo (Mt 1:17 NVT).[34]

Dessa forma, Jesus é apresentado como descendente de Davi, justificando sua posição régia, bem como descendente de Abraão, o que o vincula diretamente a Israel e à promessa de que em Abraão seriam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12:3), apontando para a universalidade da salvação (inclusão dos gentios). Sobre isso, vale a pena apontar a inserção bastante atípica de quatro personagens femininas no prólogo que são: Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba. A inclusão dessas mulheres que são gentias e com histórias nada convencionais podem ser um recurso para reforçar tanto o caráter da universalidade da salvação, já mencionado, como para “abrir o caminho” para a história da gravidez de Maria, que era virgem, uma história que também não é em nada convencional.[35][36]

Também podemos destacar o uso, pela primeira vez, da fórmula de cumprimento, típica da narrativa mateana (Tudo isso aconteceu para cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Vejam! A virgem ficará grávida! Ela dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa ‘Deus conosco’". Mt 1:22,23 NVT), bem como a identificação de Jesus como Emanuel, mais um aspecto importante da cristologia de Mateus que será retomado mais adiante.

Também podemos destacar o uso, pela primeira vez, da fórmula de cumprimento, típica da narrativa mateana (Tudo isso aconteceu para cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Vejam! A virgem ficará grávida! Ela dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa ‘Deus conosco’". Mt 1:22,23 NVT), bem como a identificação de Jesus como Emanuel, mais um aspecto importante da cristologia de Mateus que será retomado mais adiante.

Finalmente, merece destaque a narrativa dos magos do oriente no capítulo 2, que reconhecem os sinais do nascimento do Rei e prestam-lhe a devida adoração, mais um sinal da universalidade já mencionada e uma provável alusão à Isaías: As nações virão à sua luz, os reis verão o seu esplendor (Is 60:3 NVT). Além disso, Mateus reforça sua narrativa com intervenções sobrenaturais de Deus, com diversos avisos e orientações dadas por meio de sonhos e figuras angelicais.

Mateus escreveu um Evangelho mais longo que Marcos e sua narrativa acontece em um ritmo mais lento, organizada em blocos de material. Enquanto Marcos tem poucas seções de ensinos de Jesus, Mateus apresenta cinco grandes blocos de material discursivo de cunho catequético, intercalados com material narrativo, organizados da seguinte forma: Sermão da montanha (capítulos 5-7), Discurso missionário (capítulo 10), Discurso em parábolas (capítulo 13), Discurso sobre a comunidade (capítulo 18) e o Discurso apocalíptico (capítulos 23-25).[37][38][39]

Diferente de Marcos, Mateus apresenta uma narrativa bem elaborada da ressurreição e de suas aparições às mulheres e aos demais discípulos. No final do evangelho temos o texto conhecido como a Grande comissão” onde a autoridade de Jesus é afirmada, bem como a continuidade da missão de Jesus por meio dos seus discípulos, que tem a presença de Jesus garantida em meio à comunidade (retomando a ideia desenvolvida desde o primeiro capítulo de que Jesus é o Emanuel – Deus presente). Por fim, a fórmula trinitária presente do batismo denota a alta cristologia presente em Mateus, ao mencionar Jesus junto ao Deus Pai e Espírito.

Diferente de Marcos, Mateus apresenta uma narrativa bem elaborada da ressurreição e de suas aparições às mulheres e aos demais discípulos. No final do evangelho temos o texto conhecido como a Grande comissão” onde a autoridade de Jesus é afirmada, bem como a continuidade da missão de Jesus por meio dos seus discípulos, que tem a presença de Jesus garantida em meio à comunidade (retomando a ideia desenvolvida desde o primeiro capítulo de que Jesus é o Emanuel – Deus presente). Por fim, a fórmula trinitária presente do batismo denota a alta cristologia presente em Mateus, ao mencionar Jesus junto ao Deus Pai e Espírito.

Uma característica da narrativa mateana é o uso das já mencionadas fórmulas de cumprimento que apontam claramente para o fato de que Jesus era o pleno cumprimento das profecias e expectativas messiânicas do Antigo Testamento. É importante destacar também o novo significado que Mateus atribui a várias dessas citações do Antigo Testamento, encontrando nelas um cumprimento cristológico (Exemplo: Cumpriu-se, assim, o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Do Egito chamei meu filho". Mt 2:15 NVT – citando Oséias 11:1).[40]

Quanto à cristologia, a narrativa de Mateus apresenta Jesus como o messias davídico, como o cumprimento da Torah, como a sabedoria encarnada, como o Israel representativo e a personificação de Yahweh (cristologia do Emanuel). Jesus também recebe títulos cristológicos tomados do Antigo Testamento tais como Filho de Davi, Messias e Filho do Homem, títulos que estão presentes no Evangelho de Marcos. Sobre a relação teológica entre ambos os Evangelhos, Luz afirma:[41][42]

Várias ideias teológicas básicas do Evangelho de Mateus derivam de Marcos. Basta mencionar a imitação do caminho de sofrimento de Jesus, a Igreja como assembleia de discípulos, o título de “Filho de Davi” para Jesus o curador, o título de “Filho de Deus” como conceito cristológico central, a paixão do Filho do Homem, o cumprimento da Escritura e, sobretudo, a abertura à missão dos gentios. Muitos termos teológicos importantes do primeiro Evangelho, em última análise, derivam de Marcos.[43]

Entretanto, podemos concluir que Mateus apresenta uma narrativa mais elaborada e organizada, incluindo um formato mais didático para retratar a vida e os ensinamentos de Jesus. Por conta disso, o Evangelho foi amplamente utilizado para o discipulado de novos convertidos e a edificação da comunidade durante o período da igreja antiga. Há ainda outros aspectos da cristologia de Mateus que poderiam ser abordadas, como por exemplo a importância que Jesus dá aos “pequeninos” e sua identificação com eles (- O Rei, respondendo, lhes dirá: "Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram." Mt 25:40 NAA).[44]

A respeito da cristologia apresentada no Evangelho, Hagner afirma:

Com certeza, encontramos em Mateus uma das mais elevadas cristologias do Novo Testamento. A cristologia de Mateus não está evidente apenas nos títulos dados a Jesus e nas declarações diretas feitas a respeito dele, mas também indiretamente de inúmeras outras maneiras. [...] Em suma, Jesus é uma figura muito mais exaltada em Mateus do que quaisquer outras pessoas enviadas por Deus na história de Israel - alguém "maior do que Salomão" (12:42), na verdade, alguém até mesmo "maior que o templo” (12:6). Ele é aquele que é "Deus conosco" (1:23) e cujo nome apenas, como Filho, pode, como uma fórmula, ser posto junto com o de Deus e do Espírito Santo (28:19).[45]

Considerações finais

Neste artigo, apresentamos breves descrições de cada Evangelho, destacando o desenvolvimento das narrativas sob o ponto de vista cristológico. Observamos que o Evangelho de Marcos apresenta uma descrição mais concisa em comparação com Mateus, com um ritmo narrativo acelerado, focando em demonstrar que Jesus é o Filho de Deus e o Messias de Israel. No entanto, a narrativa de Marcos possui características intrigantes, como o tema do segredo marcano, que tem despertado grande interesse e motivou numerosos estudos desde a proposta de Wrede.

Por outro lado, Mateus utiliza e expande a estrutura narrativa básica de Marcos, incorporando outras fontes e desenvolvendo ainda mais os temas cristológicos presentes no Evangelho. Há uma ênfase significativa em retratar Jesus como o Messias davídico e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. No entanto, Mateus traz novas perspectivas em sua cristologia, adicionando elementos que enriquecem a caracterização de Jesus.

Embora este estudo não seja exaustivo, ele demonstra que ao analisar os aspectos literários e narrativos desses textos, podemos reconhecer tanto suas similaridades quanto suas particularidades na cristologia dos Evangelhos, constituindo assim uma ferramenta importante para os estudos bíblicos.

Notas

[1] Mestranda em estudos bíblicos e teológicos do Novo Testamento pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards – STJE. Pós-graduada em Teologia do Novo Testamento pelo STJE/UNIFIL. Pós-graduada em Teologia e Literatura Paulina pela Faculdade Unida de Vitória. Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana. Mestre em Saúde Pública pela FSP/USP. Contato: cyn_biose@hotmail.com

[2] RAUSCH, Thomas. Who is Jesus?: A introduction to Christology, Minnesota: Michael Glazier Books, 2003. p. 01.

[3] GRINDHEIM, Sigurd. Christology in the Synoptic Gospels: God or God’s Servant? London: T&T Clark International, 2012., xii.

[4] BROWN, Jeannine K. The Gospels. In CARMICHAEL, Calum (editor), the Cambridge companion to the Bible and Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. p.132.

[5] AHEARNE-KROLL, Stephen P. The Scripturally Complex Presentation of Jesus in the Gospel of Mark, Tübingen: Mohr Siebeck, 2012. P. 46.

[6] Como por exemplo, o lançamento recente de Stanley E. Porter e Brian R. Dyer “Origins of New Testament Christology: An Introduction to the Traditions and Titles Applied to Jesus” pela Baker Academic em 2023. Embora o autor considere fundamental as contribuições da cristologia narrativa ao demonstrar que os títulos frequentemente funcionam dentro de uma estrutura maior narrativa criada pelo autor.

[7] BROWN, p. 134, 135.

[8] VIELHAUER, Philipp. História da literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã, 2015. p. 300-301.

[9] STEIN, Robert H. Marcos: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2022. p. 15.

[10] CARSON, D.A., MOO, Douglas & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 112.

[11] MARGUERAT, Daniel. Novo Testamento: História, escritura e teologia. São Paulo: Loyola, 2009. p. 62.

[12] VIELHAUER, p. 361,367.

[13] HOOKER, Morna. Inícios: chaves que abrem os evangelhos. São Paulo: Loyola, 1998. p. 12.

[14] Embora Bauckham afirme que expressão “Filho de Deus” provavelmente não estava presente no texto original. Em BAUCKHAM, Richard. Christology, em Dictionary of Jesus and the Gospels. Editado por Joel B. Green, Jeannine K. Brown & Nicholas Perrin. Downers Grove: IVP, 2013. p. 127.

[15] BAUCKHAM, Christology, p. 127.

[16] CARSON, MOO & MORRIS, p. 99.

[17] BLOMBERG, Craig. Introdução aos Evangelhos: Uma pesquisa abrangente sobre Jesus e os quatro evangelhos. São Paulo, Vida Nova, 2009. p. 152-153.

[18] Os principais argumentos a favor de que 16:8 é o final pretendido de Marcos são: Não há material marcano autêntico após 16:8, não seria incomum Marcos terminar seu evangelho com um “pois”, além do fato de que esse final harmonizaria com os temas marcanos de espanto e medo encontrados ao longo do texto. Já principais os argumentos contrários são: os relatos dos demais sinóticos e João de que as mulheres contaram aos discípulos sobre a ressurreição, as aparições de Jesus eram parte importante da pregação da igreja primitiva, não há motivo convincente para Marcos terminar seu texto de forma abrupta, entre outros. STEIN, p. 902-903.

[19] WRIGHT, N. T. O Novo Testamento e o povo de Deus. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2022. p. 517.

[20] William Wrede foi o primeiro a declarar esta ideia, baseado na alusão ao silêncio ordenado por Jesus nas instruções dadas somente aos discípulos e no sentido oculto presente nas parábolas. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p. 105.

[21] GRINDHEIM, p. 75.

[22] BAUCKHAM, Christology, p. 127.

[23] WITHERINGTON, História e histórias do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 213.

[24] Ibid, 214.

[25] MARTIN, Ralph P. Mark: Evangelist anf theologian apud BLOMBERG, p. 155.

[26] BLOMBERG, p. 155.

[27] STEIN, p. 27.

[28] Ibid, p. 157.

[29] WRIGHT, p. 523.

[30] WITHERINGTON, Ben. The Gospel of Mark, versão digital (Perlego), p. 1.

[31] MARGUERAT, p. 89.

[32] VIELHAUER, p. 386.

[33] KÜMMEL, p. 127.

[34] Um indício de gematria hebraica, uma vez que 14 corresponde às letras do hebraico דוד (David). Em HOOKER, p. 33.

[35] BROWN, Jeannine. The Gospel as Stories, 2020, versão digital.

[36] LEVINE, Amy Jill. The Jewish Origins of the Christmas Story.

[37] BLOMBERG, Introdução aos Evangelhos, 167.

[38] No início do século XX foi popularizada a ideia por B. W. Bacon de que os cinco sermões eram uma chave para a estrutura de Mateus, de modo que o autor havia criado um novo tipo de Lei ou Pentateuco, com os cinco sermões correspondendo aos cinco livros de Moisés. BLOMBERG, p. 167- 168.

[39] Ibid, 167; VIVIANO, O Evangelho segundo Mateus, p. 133.

[40] Segundo Marguerat, há dez dessas passagens que são consenso entre estudiosos (1:23; 2:15; 2:18, 2:23; 4:15-16; 8:17; 12:18-21; 13:35; 21:5 e 27:9-10. Entre as que são discutidas estão: 2:5-6; 3:3; 13:14-15 e 26:56. Em MARGUERAT, p. 84.

[41] BROWN, Jeannine K. Matthew: Teach the text commentary series. John. Grand Rapids: Baker Books, 2015.

[42] MARGUERAT, p. 97.

[43] LUZ, Ulrich. The theology of the Gospel of Matthew. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. p. 9.

[44] MARGUERAT, p. 81.

[45] HAGNER, Donald A. Mateus: Judaísmo cristão ou cristianismo judaico? Em MCKNIGHT, Scot e OSBORNE, Grant R, Faces do Novo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p. 287.

[1] Mestranda em estudos bíblicos e teológicos do Novo Testamento pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards – STJE. Pós-graduada em Teologia do Novo Testamento pelo STJE/UNIFIL. Pós-graduada em Teologia e Literatura Paulina pela Faculdade Unida de Vitória. Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana. Mestre em Saúde Pública pela FSP/USP. Contato: cyn_biose@hotmail.com

[2] RAUSCH, Thomas. Who is Jesus?: A introduction to Christology, Minnesota: Michael Glazier Books, 2003. p. 01.

[3] GRINDHEIM, Sigurd. Christology in the Synoptic Gospels: God or God’s Servant? London: T&T Clark International, 2012., xii.

[4] BROWN, Jeannine K. The Gospels. In CARMICHAEL, Calum (editor), the Cambridge companion to the Bible and Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. p.132.

[5] AHEARNE-KROLL, Stephen P. The Scripturally Complex Presentation of Jesus in the Gospel of Mark, Tübingen: Mohr Siebeck, 2012. P. 46.

[6] Como por exemplo, o lançamento recente de Stanley E. Porter e Brian R. Dyer “Origins of New Testament Christology: An Introduction to the Traditions and Titles Applied to Jesus” pela Baker Academic em 2023. Embora o autor considere fundamental as contribuições da cristologia narrativa ao demonstrar que os títulos frequentemente funcionam dentro de uma estrutura maior narrativa criada pelo autor.

[7] BROWN, p. 134, 135.

[8] VIELHAUER, Philipp. História da literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã, 2015. p. 300-301.

[9] STEIN, Robert H. Marcos: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2022. p. 15.

[10] CARSON, D.A., MOO, Douglas & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 112.

[11] MARGUERAT, Daniel. Novo Testamento: História, escritura e teologia. São Paulo: Loyola, 2009. p. 62.

[12] VIELHAUER, p. 361,367.

[13] HOOKER, Morna. Inícios: chaves que abrem os evangelhos. São Paulo: Loyola, 1998. p. 12.

[14] Embora Bauckham afirme que expressão “Filho de Deus” provavelmente não estava presente no texto original. Em BAUCKHAM, Richard. Christology, em Dictionary of Jesus and the Gospels. Editado por Joel B. Green, Jeannine K. Brown & Nicholas Perrin. Downers Grove: IVP, 2013. p. 127.

[15] BAUCKHAM, Christology, p. 127.

[16] CARSON, MOO & MORRIS, p. 99.

[17] BLOMBERG, Craig. Introdução aos Evangelhos: Uma pesquisa abrangente sobre Jesus e os quatro evangelhos. São Paulo, Vida Nova, 2009. p. 152-153.

[18] Os principais argumentos a favor de que 16:8 é o final pretendido de Marcos são: Não há material marcano autêntico após 16:8, não seria incomum Marcos terminar seu evangelho com um “pois”, além do fato de que esse final harmonizaria com os temas marcanos de espanto e medo encontrados ao longo do texto. Já principais os argumentos contrários são: os relatos dos demais sinóticos e João de que as mulheres contaram aos discípulos sobre a ressurreição, as aparições de Jesus eram parte importante da pregação da igreja primitiva, não há motivo convincente para Marcos terminar seu texto de forma abrupta, entre outros. STEIN, p. 902-903.

[19] WRIGHT, N. T. O Novo Testamento e o povo de Deus. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2022. p. 517.

[20] William Wrede foi o primeiro a declarar esta ideia, baseado na alusão ao silêncio ordenado por Jesus nas instruções dadas somente aos discípulos e no sentido oculto presente nas parábolas. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p. 105.

[21] GRINDHEIM, p. 75.

[22] BAUCKHAM, Christology, p. 127.

[23] WITHERINGTON, História e histórias do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 213.

[24] Ibid, 214.

[25] MARTIN, Ralph P. Mark: Evangelist anf theologian apud BLOMBERG, p. 155.

[26] BLOMBERG, p. 155.

[27] STEIN, p. 27.

[28] Ibid, p. 157.

[29] WRIGHT, p. 523.

[30] WITHERINGTON, Ben. The Gospel of Mark, versão digital (Perlego), p. 1.

[31] MARGUERAT, p. 89.

[32] VIELHAUER, p. 386.

[33] KÜMMEL, p. 127.

[34] Um indício de gematria hebraica, uma vez que 14 corresponde às letras do hebraico דוד (David). Em HOOKER, p. 33.

[35] BROWN, Jeannine. The Gospel as Stories, 2020, versão digital.

[36] LEVINE, Amy Jill. The Jewish Origins of the Christmas Story.

[37] BLOMBERG, Introdução aos Evangelhos, 167.

[38] No início do século XX foi popularizada a ideia por B. W. Bacon de que os cinco sermões eram uma chave para a estrutura de Mateus, de modo que o autor havia criado um novo tipo de Lei ou Pentateuco, com os cinco sermões correspondendo aos cinco livros de Moisés. BLOMBERG, p. 167- 168.

[39] Ibid, 167; VIVIANO, O Evangelho segundo Mateus, p. 133.

[40] Segundo Marguerat, há dez dessas passagens que são consenso entre estudiosos (1:23; 2:15; 2:18, 2:23; 4:15-16; 8:17; 12:18-21; 13:35; 21:5 e 27:9-10. Entre as que são discutidas estão: 2:5-6; 3:3; 13:14-15 e 26:56. Em MARGUERAT, p. 84.

[41] BROWN, Jeannine K. Matthew: Teach the text commentary series. John. Grand Rapids: Baker Books, 2015.

[42] MARGUERAT, p. 97.

[43] LUZ, Ulrich. The theology of the Gospel of Matthew. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. p. 9.

[44] MARGUERAT, p. 81.

[45] HAGNER, Donald A. Mateus: Judaísmo cristão ou cristianismo judaico? Em MCKNIGHT, Scot e OSBORNE, Grant R, Faces do Novo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p. 287.

Referências

AHEARNE-KROLL, Stephen P. The Scripturally Complex Presentation of Jesus in the Gospel of Mark em Portraits of Jesus Studies in Christology. Editado por Susan E. Myers.Tübingen: Mohr Siebeck, 2012.

BAUCKHAM, Richard J. “Christology.” Páginas 125–134 em Dictionary of Jesus and the Gospels. Editado por Joel B. Green, Jeannine K. Brown & Nicholas Perrin. Downers Grove: IVP, 2013.

BLOMBERG, Craig. Introdução aos Evangelhos: Uma pesquisa abrangente sobre Jesus e os quatro evangelhos. São Paulo, Vida Nova, 2009.

BROWN, Jeannine K. Matthew: Teach the text commentary series. John. Grand Rapid: Baker Books, 2015.

BROWN, Jeannine K. The Gospel as Stories. A narrative approach to Matthew, Mark, Luke and John. Grand Rapids: Baker Academic, 2020.

BROWN, Jeannine K. The Gospels. In, CARMICHAEL, Calum (editor), the Cambridge companion to the Bible and Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2020.

CARSON, D. A., MOO, Douglas e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

GRINDHEIM, Sigurd. Christology in the Synoptic Gospels: God or God’s Servant?. London: T&T Clark International, 2012.

HAGNER, Donald A. Mateus: Judaísmo cristão ou cristianismo judaico? Em McKnight, Scot e Osborne, Grant R, Faces do Novo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.

HOOKER, Morna. Inícios: chaves que abrem os evangelhos. São Paulo: Loyola, 1998.

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LEVINE, Amy-Jill. The Jewish Origins of the Christmas Story. TheTorah.com., 2019; https://thetorah.com/article/the-jewish-origins-of-the-christmas-story

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