Regenerados para Crer: a Ordo Salutis na análise exegética de Ezequiel 36.24-27
Regenerados para Crer: a Ordo Salutis na análise exegética de Ezequiel 36.24-27
Vinícius Barreto Machado[1]
Resumo
Resumo: Como foi confirmado diversas vezes ao longo dos milênios de história da igreja, a incorporação indiscriminada de doutrinas e crenças em desacordo com os ensinos das Escrituras pode levar a uma jornada de fé marcada por heresias e especulações que atentam contra a Revelação divina, conduzindo indivíduos e comunidades por caminhos de destruição. Diante disso, este artigo justifica-se pela necessidade urgente de abordagens teológicas e exegéticas saudáveis do texto bíblico, especificamente do trecho de Ezequiel 36:24-27, com o intuito de esclarecer o papel da regeneração na ordem da salvação (ordo salutis), ajudando os cristãos a evitar teologias distorcidas e sistemas soteriológicos frágeis e mal fundamentados, caso se confirme a hipótese de que o texto bíblico em questão indica a regeneração como antecedente da fé e da obediência. O artigo alcança seu principal objetivo ao fortalecer a capacidade crítica e teológica dos leitores ao estudarem e adotarem sistemas soteriológicos, especialmente ao analisarem a ordem da salvação à luz de Ezequiel 36:24-27, promovendo, assim, uma fé madura, refletida, bíblica e coerente. Através da exegese e da revisão de bibliografia relevante sobre o tema, observou-se que Deus proclama uma mensagem de esperança que transcende o merecimento e a capacidade de Israel de cumprir sua aliança com o Senhor, mesmo diante do sofrimento e do exílio. O texto deixa claras as etapas da redenção de Israel, destacando a necessidade de que Deus tome, de forma primária, a iniciativa da regeneração para que seus corações não permaneçam petrificados, impuros, em rebelião e desobediência aos preceitos divinos. Ao reunir seu povo, perdoá-lo e purificá-lo, Deus provê em sua graça um novo coração, não apenas capacitado a obedecer e temer ao Senhor, mas também para ser habitação do seu próprio Espírito.
Palavras-chave: Ordo Salutis; Soterologia; Exegese de Ezequiel.
Abstract: As has been demonstrated countless times throughout church history, the indiscriminate adoption of doctrines and beliefs that contradict Scripture can lead a person's faith journey into heresies and speculations that undermine divine revelation, ultimately guiding individuals and communities toward destruction. With this in mind, this article aims to address the urgent need for sound theological and exegetical approaches to the biblical text, specifically Ezekiel 36:24-27. Its goal is to clarify the role of regeneration in the order of salvation (ordo salutis) and help Christians avoid misguided theologies and weak, poorly grounded soteriological systems, assuming the passage indeed points to regeneration as preceding faith and obedience. This article achieves its primary objective by strengthening readers' critical and theological abilities as they study and adopt soteriological frameworks, especially when reflecting on the order of salvation in light of Ezekiel 36:24-27, fostering a mature, thoughtful, biblical, and coherent faith. Through careful exegesis and a review of relevant literature, it becomes clear that God’s message of hope surpasses Israel’s ability or worth to fulfill its covenant with the Lord, even in the midst of judgment, suffering, and exile. The text lays out the stages of Israel's redemption, emphasizing that unless God takes the initiative through regeneration, their hearts will remain hardened, impure, and in rebellion against His commands. When God gathers His people, forgives them, and purifies them, He graciously gives them a new heart—one that is not only capable of obeying and fearing Him but is also meant to be the dwelling place of His Spirit.
Keywords: Ordo Salutis; Soteriology; Exegesis of Ezekiel.
Resumo: Como foi confirmado diversas vezes ao longo dos milênios de história da igreja, a incorporação indiscriminada de doutrinas e crenças em desacordo com os ensinos das Escrituras pode levar a uma jornada de fé marcada por heresias e especulações que atentam contra a Revelação divina, conduzindo indivíduos e comunidades por caminhos de destruição. Diante disso, este artigo justifica-se pela necessidade urgente de abordagens teológicas e exegéticas saudáveis do texto bíblico, especificamente do trecho de Ezequiel 36:24-27, com o intuito de esclarecer o papel da regeneração na ordem da salvação (ordo salutis), ajudando os cristãos a evitar teologias distorcidas e sistemas soteriológicos frágeis e mal fundamentados, caso se confirme a hipótese de que o texto bíblico em questão indica a regeneração como antecedente da fé e da obediência. O artigo alcança seu principal objetivo ao fortalecer a capacidade crítica e teológica dos leitores ao estudarem e adotarem sistemas soteriológicos, especialmente ao analisarem a ordem da salvação à luz de Ezequiel 36:24-27, promovendo, assim, uma fé madura, refletida, bíblica e coerente. Através da exegese e da revisão de bibliografia relevante sobre o tema, observou-se que Deus proclama uma mensagem de esperança que transcende o merecimento e a capacidade de Israel de cumprir sua aliança com o Senhor, mesmo diante do sofrimento e do exílio. O texto deixa claras as etapas da redenção de Israel, destacando a necessidade de que Deus tome, de forma primária, a iniciativa da regeneração para que seus corações não permaneçam petrificados, impuros, em rebelião e desobediência aos preceitos divinos. Ao reunir seu povo, perdoá-lo e purificá-lo, Deus provê em sua graça um novo coração, não apenas capacitado a obedecer e temer ao Senhor, mas também para ser habitação do seu próprio Espírito.
Palavras-chave: Ordo Salutis; Soterologia; Exegese de Ezequiel.
Abstract: As has been demonstrated countless times throughout church history, the indiscriminate adoption of doctrines and beliefs that contradict Scripture can lead a person's faith journey into heresies and speculations that undermine divine revelation, ultimately guiding individuals and communities toward destruction. With this in mind, this article aims to address the urgent need for sound theological and exegetical approaches to the biblical text, specifically Ezekiel 36:24-27. Its goal is to clarify the role of regeneration in the order of salvation (ordo salutis) and help Christians avoid misguided theologies and weak, poorly grounded soteriological systems, assuming the passage indeed points to regeneration as preceding faith and obedience. This article achieves its primary objective by strengthening readers' critical and theological abilities as they study and adopt soteriological frameworks, especially when reflecting on the order of salvation in light of Ezekiel 36:24-27, fostering a mature, thoughtful, biblical, and coherent faith. Through careful exegesis and a review of relevant literature, it becomes clear that God’s message of hope surpasses Israel’s ability or worth to fulfill its covenant with the Lord, even in the midst of judgment, suffering, and exile. The text lays out the stages of Israel's redemption, emphasizing that unless God takes the initiative through regeneration, their hearts will remain hardened, impure, and in rebellion against His commands. When God gathers His people, forgives them, and purifies them, He graciously gives them a new heart—one that is not only capable of obeying and fearing Him but is also meant to be the dwelling place of His Spirit.
Keywords: Ordo Salutis; Soteriology; Exegesis of Ezekiel.
Artigo
1. INTRODUÇÃO
Leituras descuidadas e superficiais das Escrituras muito comumente podem ser relacionadas a desvios maiores de fé e piedade na vida de indivíduos e até comunidades de fé inteiras, em razão de equívocos de interpretação intencionais ou não. Em se tratando de doutrinas que exigem maior cautela e profundidade na análise teológica para o seu debate, como a Soteriologia, esta percepção se torna ainda mais agravada. Neste contexto, este estudo propõe-se a contribuir com esclarecimentos acerca do posicionamento da regeneração na ordem da salvação (ordo salutis), seguindo cuidadosa observação exegética de Ezequiel 36.24-27, na busca por uma teologia sadia e biblicamente embasada, que fundamente sua piedade e fé na gratidão pelo misericordioso e gracioso plano divino de redenção.
A seleção do trecho mencionado se dá por sua significância para o cristianismo, em especial às suas expressões reformadas, tanto por sua importância para a compreensão do drama da redenção nas promessas realizadas ao seu destinatário original (povo de Israel), quanto no que diz respeito à ordo salutis e sua apresentação da regeneração como precedente à fé e obediência dos estatutos do Senhor. Espera-se trazer ainda mais substância à ideia de que Deus, em seu infinito poder, graça, amor e sabedoria, é quem realiza todo o processo de redenção do homem, em oposição às inúmeras correntes teológicas que tentam perverter esta ideia, colocando as obras humanas como determinantes para sua própria salvação.
Pretende-se, com este trabalho, confirmar a hipótese de que a exegese do trecho bíblico em questão apontará para a regeneração como precedente à fé e a obediência, um conceito bastante reconhecido e estimado pela teologia reformada. A profundidade desta compreensão deriva-se tanto da leitura histórico-gramatical de Ezequiel 36, quanto de uma abordagem mais teológico-redentiva, interpretando o texto veterotestamentário sob a luz da revelação do Novo Testamento, que trata como crucial a adoção da graça divina e o sacrifício de Cristo como fundamentos da fé. A ausência da adoção destas crenças basilares pode facilitar escolhas arbitrárias e incoerentes de estruturas doutrinárias frágeis ou equivocadas, bem como colocar em risco a fé e espiritualidade daqueles que a elas se submetem.
Ao alcançar seu objetivo mais amplo, este artigo contribuirá para a reflexão e fundamentação bíblica da ordem da salvação na análise do texto de Ezequiel 36.24-27, no intuito de fortalecer a capacidade crítica e teológica de seus leitores ao estudarem e adotarem sistemas soteriológicos. Promove-se assim, o amadurecimento de uma fé coerente, bem refletida, e submetida ao texto sagrado. Para tanto, os esforços neste artigo se desdobram em: analisar o texto de Ezequiel 36.24-27 por meio de ferramentas exegéticas adequadas, apontando sua relevância para a teologia cristã; abordar introdutoriamente o conceito de ordo salutis; identificar implicações exegéticas do texto bíblico para a compreensão da regeneração como anterior à fé, seguindo os padrões defendidos na teologia reformada. Em concordância com o caráter religioso e, em certa medida, subjetivo do tema proposto neste trabalho, os métodos para sua realização se detiveram à pesquisa e revisão bibliográfica, e aprofundamentos exegéticos no texto do profeta Ezequiel.
A mistura indiscriminada de elementos teológicos, sem respeitar as construções doutrinárias encontradas nas Escrituras podem encaminhar o crente a uma jornada de fé incoerente e inconsistente, sob o risco de lançá-lo a posteriores confabulações e heresias, conforme já ocorrido múltiplas vezes na história milenar da igreja cristã. Este artigo, neste ínterim, justifica-se na necessidade urgente de abordar teológica e exegeticamente o texto bíblico com temor, rigor, e cautela, para mitigar estes tipos de confusões doutrinárias e aceitações acríticas de elementos incoerentes e contraditórios em sua prática religiosa. Entende-se que esforços assim são sempre úteis e bem-vindos na busca pelo fortalecimento de fé e uma espiritualidade robusta e bem arraigada na Palavra do Senhor.
2. ANÁLISE EXEGÉTICA
De modo a obter uma interpretação mais aproximada do intento original de textos bíblicos, a utilização de ferramentas de exegese como análise sintática e lexical se torna fundamental. Idiomas antigos trazem consigo desafios que exigem cautela redobrada para a adequada assimilação do sentido de um texto, tanto em seu contexto imediato, quanto para seus leitores milênios após sua escrita.
2.1. Delimitação da Unidade Textual Completa
Por meio da observação da continuidade de elementos textuais e da comparação das fontes listadas a seguir, foi possível destacar a perícope de Ezequiel 36:24-27 de seu contexto anterior e posterior, para um melhor aprofundamento em um intervalo mais reduzido das Escrituras, viabilizando assim, uma compreensão melhor das razões pelas quais este texto segue-se tão estimado pela ortodoxia cristã.
O trecho em questão encontra-se dentro de uma seção maior, frequentemente relacionada à promessa divina de restauração de Israel. Esta seção, que é em boa medida, consensual, vai de Ezequiel 36:16 até o final do capítulo (v. 38), como pode ser observado na Bíblia Nova Almeida Atualizada (2018) e na tradução Nova Versão Internacional (2001). Antônio Gusso (2014, p. 111) destaca a união dos vinte e três versículos mencionados ao apontarem juntos para o retorno do cativeiro, e aludirem à Nova Aliança, ainda que o termo ‘aliança’ não seja encontrado em Ezequiel. Indo além desta divisão temática da perícope, há ainda outras subdivisões deste segmento das Escrituras. Ao tratar sobre Ezequiel 36.16-38, Jesus Asurmendi afirma:
As fórmulas do texto, fáceis de se encontrar, nos apresentam sua organização e as diferentes partes: os vv. 16-21 relatam a história do povo; os vv. 22-32, a primeira parte da ação que o Senhor prepara, bem como as consequências desta ação; os vv. 33-36 e 37-38, finalmente, as perspectivas de reconstrução que se situam, também elas, em seguimento à ação do Senhor (ASURMENDI, 1985, p. 58).
A sinalização desta unidade textual menor, que se inicia em 36.22 e vai até 36.32, é confirmada novamente pela Nova Almeida Atualizada (2018) e pela tradução inglesa King James Version (2002), na maneira com que estas versões aglutinam toda esta seção em um só parágrafo. John Taylor (1984, p. 207) corrobora ao destacar que neste texto, tratado como o âmago da Soteriologia de Ezequiel, ao restaurar Israel, Deus vindica a sua própria santidade.
Por ventura da brevidade deste artigo, foi necessário buscar uma segmentação ainda mais minimizada nesta parcela dos escritos proféticos, de modo que viabilizasse posteriores discussões semânticas, textuais e contextuais acerca de cada versículo. Para tal, foi adotado como objeto deste estudo a divisão realizada pela Berean Standard Bible (2023), que concorda com as divisões apresentadas acima, nomeando a seção maior (Ez 36.16-38) como “um novo coração e um novo espírito”, mas divide os parágrafos em agrupamentos menores, de análise mais simplificada, destacando o trecho de 36.24 a 36.27 como uma dessas micro-divisões.
Estes últimos quatro versículos mencionados, Ezequiel 36.24-27, por sua aparente unidade interna e por terem sua divisão abonada pelas menções acima, foram adotados como objeto de estudo deste trabalho. Isto se deu, especialmente, em virtude da relevância que este excerto tem para a compreensão de importantes doutrinas como regeneração, purificação, bem como o correto entendimento da participação divina na redenção seu povo.
2.2. Análise de vocábulos no idioma original
Abaixo são demonstrados o texto de Ezequiel 36.24-27 em seu idioma original, bem como uma resumida análise de sua gramática e palavras utilizadas.
Texto no idioma original - hebraico (The Westminster Leningrad Codex, 2016):
וְלָקַחְתִּ֤י אֶתְכֶם֙ מִן־הַגֹּויִ֔ם וְקִבַּצְתִּ֥י אֶתְכֶ֖ם מִכָּל־הָאֲרָצֹ֑ות וְהֵבֵאתִ֥י אֶתְכֶ֖ם אֶל־אַדְמַתְכֶֽם׃
וְזָרַקְתִּ֧י עֲלֵיכֶ֛ם מַ֥יִם טְהֹורִ֖ים וּטְהַרְתֶּ֑ם מִכֹּ֧ל טֻמְאֹותֵיכֶ֛ם וּמִכָּל־גִּלּ֥וּלֵיכֶ֖ם אֲטַהֵ֥ר אֶתְכֶֽם׃
וְנָתַתִּ֤י לָכֶם֙ לֵ֣ב חָדָ֔שׁ וְר֥וּחַ חֲדָשָׁ֖ה אֶתֵּ֣ן בְּקִרְבְּכֶ֑ם וַהֲסִ֨רֹתִ֜י אֶת־לֵ֤ב הָאֶ֙בֶן֙ מִבְּשַׂרְכֶ֔ם וְנָתַתִּ֥י לָכֶ֖ם לֵ֥ב בָּשָֽׂר׃
וְאֶת־רוּחִ֖י אֶתֵּ֣ן בְּקִרְבְּכֶ֑ם וְעָשִׂ֗יתִי אֵ֤ת אֲשֶׁר־בְּחֻקַּי֙ תֵּלֵ֔כוּ וּמִשְׁפָּטַ֥י תִּשְׁמְר֖וּ וַעֲשִׂיתֶֽם׃
Tabela 1 - Análise gramatical de Ezequiel 36.24-27
[Baixe o artigo para ver a imagem]
Fonte: BROWN, DRIVER e BRIGGS, 1994.
2.3. Verificação de Textos Variantes
No final da década de 30, com a publicação de um novo manuscrito grego do livro de Ezequiel no Chester Beatty Biblical Papyri e no John H. Schiede Biblical Papyri, novas discussões acerca do escrito profético se irromperam. Este manuscrito, conhecido como p967, data entre o final do Século II e início do Século III d.C, sendo a cópia mais antiga do códice da Septuaginta descoberta na época. A principal diferença deste papiro com o Texto Massorético se dá na omissão do texto de Ezequiel 36.23c-28 e na transposição dos capítulos 37 e 38-39, colocando a batalha de Gogue e Magogue precedendo o relato do vale dos ossos secos. Contudo, o estudo acerca deste manuscrito grego foi ofuscado pela descoberta dos manuscritos do Mar Morto na década de 40, que apontaram severas incongruências entre o texto grego da LXX e os materiais em hebraico recém encontrados (LILLY, 2010, p. 2).
A melhor hipótese acerca das diferenças notadas no p967 propões que este se trata de uma variante literária de Ezequiel, que reflete uma edição mais antiga e distinta do texto hebraico Massorético, como uma cópia grega do livro para sua audiência do terceiro século, possivelmente cristã. Ingrid Lilly (id., p. 312) categoriza o p967 desta forma devido à sua produção, conteúdo, formato, contrações, notas e marcas de leitura revelarem interesses e o caráter de uma comunidade cristã de leitores originais.
Descobertas posteriores, sob o piso de uma sinagoga em Masada, encontraram fragmentos contendo boas preservações do texto de Ez 35.11 a 38.14, com apenas algumas poucas variantes em relação ao texto massorético. Sua principal atestação foi da presença do trecho omitido pelo p967 em manuscritos anteriores a 73 d.C., bem como da ordem tradicional dos capítulos 35 a 38 (POPOVIC, 2010, p. 251). Este achado, dentre outros, aponta a incompatibilidade do manuscrito grego p967 com outros documentos históricos relativos ao livro de Ezequiel, restringindo a relevância da análise de tal material como estritamente acadêmica.
2.4. Tradução do Texto e Comparação Entre Versões
Após observada a análise lexical e gramatical da perícope escolhida como objeto deste estudo, apresenta-se abaixo a tradução do excerto, como elaborada pelo autor deste artigo:
Texto traduzido pelo autor (2024):
24. E eu tomarei vocês dentre as nações e ajuntarei vocês de todos os países, e conduzirei vocês para sua terra.
25. Aspergirei sobre vocês águas limpas, e vocês serão limpos: de toda sua imundícia e de todos os seus ídolos, eu os purificarei.
26. E darei a vocês um coração novo e um espírito novo colocarei em seu interior. Removerei o coração de pedra da sua carne e darei a vocês um coração de carne.
27. Meu Espírito colocarei em seu interior e farei com que vocês andem em meus estatutos, e meus julgamentos, vocês observem e cumpram.
Para além de uma tradução gramática e lexicalmente bem embasada, a comparação do texto traduzido com versões já respeitadas no meio teológico sempre é um esforço que auxilia intérpretes contemporâneos a respeitarem limites de compreensão já estabelecidos e provados no decorrer da história da Igreja. Abaixo, são demonstradas algumas versões de tradução do trecho analisado neste artigo:
Texto traduzido ao português (Nova Almeida Atualizada, 2018):
24. Eu os tirarei do meio das nações, eu os congregarei de todos os países e os trarei de volta para a sua própria terra.
25. Então aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos.
26. Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.
27. Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem e observem os meus juízos.
Texto traduzido ao português (Nova Versão Internacional, 2001):
24. ‘Pois eu os tirarei das nações, os ajuntarei do meio de todas as terras e os trarei de volta para a sua própria terra.
25. Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos.
26. Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.
27. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis.
Texto traduzido ao inglês (Berean Standard Bible, 2023):
24. For I will take you from among the nations and gather you out of all the countries, and I will bring you back into your own land.
25. I will also sprinkle clean water on you, and you will be clean. I will cleanse you from all your impurities and all your idols.
26. I will give you a new heart and put a new spirit within you; I will remove your heart of stone and give you a heart of flesh.
27. And I will put My Spirit within you and cause you to walk in My statutes and to carefully observe My ordinances.
2.5. Análise Histórica
Por ventura de muitos anacronismos, exageros e interpretações errôneas de escritos antigos, especialmente nesta era da informação, faz-se necessário estudar os textos bíblicos para além da análise textual. Fatos e hipóteses relevantes sobre o contexto histórico e geográfico do escrito, bem como sua autoria, audiência, e propósito original são bons condutores para um entendimento bíblico mais aproximado das intenções contidas no texto e inspiradas pelo Espírito Santo, quando percebidos em um cenário de oração e piedosa vida cristã.
2.5.1. Autoria
O livro de Ezequiel possui uma série de dificuldades em relação ao seu conteúdo e contexto histórico. Não porque seu conteúdo não tenha proveito teológico ou por ser um texto de canonicidade questionável, mas sim porque sua colocação no desenrolar da história do povo judeu, bem como seu material profundamente profético, imagético e misterioso, tornam a sua interpretação um grande desafio até mesmo para os círculos acadêmicos mais habilitados para tal. Ainda assim, a autoria do livro pelo próprio profeta Ezequiel possui considerável consenso, e auxilia os desenvolvimentos exegéticos no livro. Sobre o assunto, Cecil Weir acrescenta:
Críticos estão, no presente, praticamente de acordo que o Livro de Ezequiel é substancialmente da mão de um autor que estava bem familiarizado com os eventos na Ásia Ocidental entre 593 e cerca de 570 a.C. e não sabia nada dos eventos posteriores” (WEIR, 1957, p. 7, tradução livre).
Em movimento contrário à concordância mencionada, alguns teólogos do Século XX, como Charles Torrey e Joachim Becker, se posicionaram a favor de uma autoria posterior e pseudoepígrafica de Ezequiel, por motivos literários e redacionais alinhados à crítica-textual. Contudo, suas elaborações atribuíram mais dificuldades interpretativas do que soluções ao texto, sendo por isto, comumente tidas como inconclusivas (ERHLICH, 1999, pp. 120-121).
Acerca do profeta Ezequiel, pode-se afirmar que este provinha de família sacerdotal, que ficara viúvo jovem (Ez 24.18), e que teria sido exilado na Babilônia em conjunto com a aristocracia de Judá por volta de 597 a.C., dez anos antes do Templo ser destruído e Jerusalém ser tomada. Ezequiel teria sido um personagem de grande importância entre os cativos, uma vez que os próprios anciãos do povo que também estavam no cativeiro reuniam-se em sua casa (Ez 8.1). Seu ministério se deu em um intervalo de pelo menos vinte e três anos, tendo seu início no quinto ano de exílio do rei Joaquim, girando em torno especialmente na proclamação e juízo ao seu povo, que tendia à adoção dos imorais costumes estrangeiros e uma vida de idolatria (GUSSO, 2014, pp. 91-92).
Devido ao cuidadoso preparo e reflexão do profeta em seus escritos, permeados por vários estilos de prosa e poesia, assim como pela riqueza e profundidade teológica encontrada em meio às muitas alegorias e imagens do livro, Ezequiel tem sido conhecido como “o primeiro dogmático do Velho Testamento, o Calvino do Velho Testamento, o mais influente homem em todo o curso da história hebraica, o pai do Judaísmo, o profeta da responsabilidade pessoal, etc.” (PFEIFFER, 2017, p. 1170). Do mesmo modo em que muitos atribuíam relevância e importância à sua mensagem em sua época original, seu ministério, através de seus escritos inspirados pelo Espírito, segue fundamentando e guiando a fé cristã na atualidade.
2.5.2. Data e local
Diferente da maioria dos textos bíblicos, que apresentam espaço para o debate e discussão a respeito de sua data de autoria tendo em vista a falta de informações explícitas, o livro de Ezequiel pelo contrário, traz no corpo de seu texto ao menos doze datas seguras. Até mesmo as três grandes visões do profeta (capítulos 1-3.16; 8-11; 40-48) são datadas de maneira cuidadosa. E sete das datas informadas pertencem ao período imediatamente próximo à queda de Jerusalém. Tomando por conta a primeira informação listada em Ez 1.1 (quinto ano do exílio do rei Joaquim), e a última data informada, em Ez 29.17 (vigésimo sétimo ano), conclui-se que o livro fora escrito aproximadamente entre 593 a.C. e 571 a.C. (ASURMENDI, 1985, p. 6).
A respeito do local de escrita, entende-se, com base do que foi anotado em Ez 1.1 e 3.15, que o profeta teria escrito seus oráculos de um acampamento de refugiados chamado Tel-Abibe, às margens do rio Quebar, que conectava os rios Tigre e Eufrates como uma importante rota comercial. Já houveram tentativas de alocar Ezequiel em datas anteriores ao período relatado no livro (décadas antes), nas imediações de Jerusalém. Nestas hipóteses, um editor posterior, talvez discípulo de Ezequiel, teria compilado o conteúdo e adicionado trechos como o capítulo 1, e dos capítulos 40 a 48. Porém, análises posteriores demonstraram que havia menos dificuldades na aceitação da proposta tradicional, do que nas postulações de extensas edições no texto para encaixá-lo em um contexto histórico-geográfico diferente de sua origem como relatada nas Escrituras (TAYLOR, 1984, p. 19).
2.5.3. Análise do Contexto Político, Religioso e Geográfico
Os reinos de Judá e Israel, dentre os séculos VIII e VII a.C., foram amplamente abalados pelo domínio de seus impérios vizinhos. Em um cenário de exílios, violência e julgamento divino, enquanto o profeta Ezequiel analisava a queda e restauração da casa de Israel diretamente de seu cativeiro na Babilônia, o já mais idoso profeta contemporâneo Jeremias observava os últimos batimentos do reino de Judá. A própria Assíria, que submeteu o povo de Deus ao terror por mutios anos, se viu encurralada pelos medos e babilônicos na queda de Assur (614 a.C.) e na completa destruição de Nínive (607 a.C.). Judá, na pessoa de seu último grande monarca, Josias, viu então espaço para o fortalecimento de seu reino, mas teve seu avanço impedido pelo confronto com o Faraó Neco II do Egito, que também viu a oportunidade para reestabelecer seu poderio. Após derrotar Josias e deportar seu sucessor para o Egito, e antes de ter suas forças sobrepujadas por Nabucodonosor, que emergiria como o novo dominador do mundo, o Faraó estabelece o infame Jeoaquim, filho mais velho de Josias, no trono de Judá (PFEIFFER, 2017, p. 1172). A respeito do péssimo reinado de Jeoaquim, John Taylor afirma:
Jeoaquim foi um governante totalmente irresponsável no que dizia respeito às necessidades do seu povo, e mereceu o total desprezo do profeta Jeremias, especialmente por seus planos grandiosos para reformas no palácio e pela imposição de trabalhos forçados para leva-las a efeito... Os cultos pagãos referidos por Ezequiel em 8.1-8 não passaram da continuação de um movimento que começou com a ascensão de Jeoaquim (TAYLOR, op. cit., p.28).
O reinado imprudente e pagão de Jeoaquim chega ao fim com sua morte perante Nabucodonosor, e é sucedido pelo governo de seu herdeiro, Joaquim. No entanto, por motivação voluntária ou não, após apenas alguns meses, Joaquim submeteu-se ao domínio babilônico. Este evento culminou na primeira deportação de Judá, em 597, que levou cativa toda a família real, e um bom número de soldados de elite, sacerdotes, e artesãos, junto com os tesouros do templo. O profeta Ezequiel teria sido parte desta primeira deportação. Alguns anos mais tarde, após movimentos de rebelião orquestrados por aqueles que ficaram em Jerusalém e alguns povos vizinhos, interrupções no pagamento dos tributos à Babilônia, e intervenções egípcias, Nabucodonosor faz sua ofensiva à Jerusalém, cercando, tomando e incendiando a cidade e o Templo, reduzindo o reino de Judá a ruínas e exilando aqueles que desempenhavam posições importantes para o cativeiro, como já havia realizado (ASURMENDI, 1985, p. 8).
No que se refere à vida dos exilados, a Bíblia traz muito pouco conteúdo, e Ezequiel é ainda menos detalhista. Sabe-se que alguns se tornaram escravos, enquanto outros tiveram espaço para prosperarem e liderarem o povo, mesmo em meio ao império dominador. Menções são feitas também a exilados vivendo em suas próprias casas, muitas vezes em colônias destacadas, e a organizações de anciãos que conduziam o povo não-oficialmente. E muitos mantiveram a sua fé, apesar da falta de seus símbolos, sacrifícios e locais de culto, dando ênfase ao jejum, ao Shabat, à circuncisão, e à elementos que precederiam a organização em sinagogas, como a oração, a leitura das Escrituras e o cântico dos salmos (PFEIFFER, 2017, p. 1175).
2.6. Análise Literária
Tão importante quanto observar os contornos da história junto de um texto antigo, é buscar compreender os desenvolvimentos e categorias literárias às quais este pertence. A subestimação de mudanças de gênero literário, formato, e temática pode comprometer em muito o entendimento de um texto, podendo conduzir até os melhores historiadores e tradutores das Escrituras a interpretações bastantes distintas dos propósitos intentados pelo texto originalmente.
2.6.1. Análise de Contexto Literário
O trecho maior (Ez 36.16-38) em que a perícope selecionada para este trabalho está inserida (24-27) está cercado por importantes passagens do livro profético em questão. Enquanto é precedido pela célebre proclamação contra os pastores de Israel (Ez 34), o mais longo desenvolvimento veterotestamentário da figura do povo como rebanho do Senhor, e pelo julgamento dos montes de Seir e Israel (35.1-36.15), é sucedido pela visão do vale dos ossos secos (37.1-14), um dos escritos mais conhecidos da lavra de Ezequiel.
Esta sequência de textos monta o cenário mais adequado para as definições soterológicas do profeta exilado. Em meio à corrupção de Israel, que resulta na queda de Jerusalém, e à latente influência de paganismo e imoralidade dos povos vizinhos, o Senhor se dispõe a restaurar o Seu povo misericordiosa e graciosamente, para a glória Seu próprio nome. Joseph Blenkinsopp, tratando sobre o emudecimento de Ezequiel (3.26-27), acrescenta:
À medida que nos aproximamos desse ponto central, fica claro que a morte de Israel está correlacionada com a ausência de Deus. Mas o Deus de Israel é o Deus que pode trazer vida da morte, o Deus que, em tempos antigos, criou vida no ventre morto de Sara e nos lombos mortos de Abraão. Justamente no momento em que a notícia do desastre chega a ele, a língua de Ezequiel é solta para proclamar uma nova vida e as condições necessárias para sustentá-la. E, como a nova vida é possibilitada pela recuperação da presença divina, a resolução ou desfecho é alcançada com o retorno dessa presença ao santuário interno do templo (BLENKINSOPP, 1990, p. 22, tradução livre).
Aproximando o foco da discussão ao contexto imediato do objeto deste trabalho, é necessário discorrer a respeito da estrutura interna do grande trecho de 36.16 a 36.38, para observar os contextos imediatos do excerto aqui analisado. Esta extensa perícope, frequentemente conhecida como ‘a restauração de Israel’ ou nomes similares, divide-se em quatro etapas menores: os versos 16-21 fazem relato da história do povo judeu até então; 22-32 tratam da ação primária do Senhor e as consequências desta ação; e finalmente, 33-36 e 37-38 destacam as perspectivas de reconstrução em seguimento aos movimentos divinos (ASURMENDI, 1985, p. 58).
A Berean Standard Bible (2023), como já mencionado em ponto anterior, segmenta ainda mais o texto de Ezequiel. Os agrupamentos de versículos 22-23 e 28-30 avizinham-se do texto estudado, tratando o primeiro grupo, do imerecimento da profana casa de Israel de receber a salvação do Senhor, que ainda assim a libertará pela santidade do Seu nome entre as nações, e o segundo, da reunião e prosperidade que Deus concederá ao seu povo agora revivido, purificado, e redimido.
2.6.2. Análise de Gênero Literário e Propósitos Centrais
O livro de Ezequiel possui uma série de características marcantes, em especial por se tratar de um material do Antigo Testamento. Antônio Gusso (2014, pp. 92-93) aponta no livro uma estrutura equilibrada, sem interrupções, consistência interna ancorada no evento da queda de Jerusalém, unidade de estilo e linguagem, e um modo de escrita permeado com o caráter e personalidade do profeta em todos os seus escritos. Se por um lado esta formatação unificada e sólida, que mescla elementos autobiográficos e numerosos oráculos, permite ao livro uma clareza pouco percebida em outros textos antigos, por outro, tende a tornar a leitura repetitiva e pesarosa, em especial para novos leitores, indoutos do cenário histórico de Ezequiel.
Ainda sobre o propósito e temática do livro de Ezequiel como um todo, John Taylor (1984, pp. 38-44) oferece cinco assuntos recorrentes na prosa, poesia e oráculos do profeta: a transcendência de Deus, como nas visões do trono divino; a pecaminosidade de Israel, relatando a persistente infidelidade de Israel à aliança de Deus; o fato do julgamento, com as advertências às desgraças que estavam prestes a recaírem sobre o povo; a responsabilidade individual, tratando cada homem como único perante o Senhor; e a promessa de restauração, a ser usufruída por aqueles que, após redimidos e purificados, fariam parte de uma comunidade misericordiosamente restaurada pelo próprio Deus.
Acerca do gênero da perícope de Ezequiel 36.24-27, por este estar inserido no agrupamento dos versos 22 a 32, pode ser classificado como oráculo de restauração ou redenção, objetivado na santificação do nome do Senhor por meio da libertação final de Israel:
O retorno do exílio não será pelo mérito dos deportados, mas por virtude da preocupação de Yahweh com seu nome sagrado... o objetivo da existência é a "santificação" de Deus - o reconhecimento de Deus como ele é, com [...] [...] todas as suas ramificações - nunca pode ser suficientemente enfatizado. O oráculo da restauração (vs. 22-32) começa fazendo o mesmo ponto. O retorno do exílio não é por causa dos méritos de Israel; não é nem mesmo, basicamente, pelo bem de Israel, mas sim para vindicar o nome sagrado de Deus (BLENKINSOPP, 1990, p. 203, tradução livre).
A delimitação clara do oráculo observado (22-32), bem como a familiaridade do método e estilo de Ezequiel diminuem quase à nulidade os debates acerca da autenticidade do livro e das possíveis adições ou omissões ao determinado excerto. Por consequência, os versos 24 a 27 devem ser lidos em seu contexto oracular, como parte da ação monergista de Deus, que resgata o seu povo em fidelidade às Suas promessas anteriores e para dar glória ao Seu nome dentre todos os povos.
2.7. Análise Semântica
Consideradas a análise histórica, literária e gramatical do texto de Ezequiel 36.24-27, apresenta-se neste capítulo os avanços semânticos realizados em expressões-chave encontradas no texto, para sua adequada interpretação. Esta última etapa da pesquisa exegética se faz extremamente necessária na busca por uma leitura mais integrada entre texto e contexto, mitigando possíveis compreensões equivocadas de figuras de linguagem, coloquialismos, e ideias obscurecidas pela distância temporal e geográfica entre a origem do texto e seus pesquisadores atuais.
2.7.1. (v. 24) – tomarei vocês dentre as nações e ajuntarei vocês de todos os países
Para compreender que Deus “ajuntará o seu povo dentre as nações”, o leitor primeiramente deve assimilar as razões pela quais Israel se encontra disperso em meio a outros povos. E estes motivos, que aparecem alguns versículos antes no mesmo capítulo, dão a entender que se há algum merecimento no povo do Senhor, este está no castigo de suas ações perversas e pecaminosas. Lê-se em Ez 36.17-19:
Filho do homem, quando os da casa de Israel moravam na sua terra, eles a contaminaram com os seus caminhos e as suas ações. Aos meus olhos, o caminho deles era como a impureza da menstruação. Por isso, derramei o meu furor sobre eles, por causa do sangue que derramaram sobre a terra e por causa dos seus ídolos com que a contaminaram. Eu os dispersei entre as nações, e foram espalhados por outras terras; segundo os seus caminhos e segundo as suas ações, eu os castiguei (BÍBLIA, NAA, 2018).
O próprio Deus teria enviado sua nação escolhida para o exílio pela rebeldia, imoralidade e idolatria que apresentavam. Ainda assim, destaca Landon Dowden (2015, p. 359), o Senhor não os abandonaria em terras inimigas. Sua aliança, pela glória de seu próprio nome e por causa de sua misericórdia e graça, ainda vigorava sobre o seu povo. As perversas nações vizinhas apenas mantinham o domínio sobre Israel e Judá na medida em que Deus desejasse fazê-lo, e nem um segundo a mais. E o mesmo Deus que aplicou sua severa justiça ao permitir o exílio de seu povo, agora anunciava também a sua libertação final. Espelhando sua poderosa mão e grandioso coração demonstrados no Êxodo, mas indo ainda além, o oráculo divino dessa vez aponta para uma vitória definitiva e final sobre as trevas em sua totalidade.
A menção a “todos os países”, sinaliza que o profeta não apenas enxerga um futuro imediato, mas possui algo além em sua perspectiva, visto que Israel, na época do relato profético, ainda não havia sido dispersado com tanta severidade quanto em séculos (e milênios) posteriores, não podendo, obviamente, ser reunido na mesma medida. Logo, é possível inferir que Ezequiel ao menos se refere a um evento que ainda não havia ocorrido em sua completude, e que este apenas aconteceria plenamente quando os propósitos eternos e finais sobre o povo escolhido encontrassem seu derradeiro cumprimento (EXELL e SPENCE-JONES, 1985).
2.7.2. (v. 25) – Aspergirei sobre vocês águas limpas, e vocês serão limpos
A menção da purificação por aspersão de água no verso 25 apenas faz sentido se integrada ao background sacerdotal de Ezequiel. Rituais como a purificação de casas atingidas por pragas e leprosos curados de sua doença, como relatados em Levítico 14, contam como elemento central, a aspersão de água misturada com sangue de animais para a limpeza final das chagas acometidas. Aqueles que tinham contato com cadáveres, segundo o relato de Nm 19.11-22, também necessitavam de passar pela aspersão de água para a sua descontaminação.
A consagração de levitas também se iniciava por meio da aspersão de água. Em Nm 8.7 (BÍBLIA, NAA, 2018), lê-se as instruções claras que Senhor dá a Moisés: “Faça o seguinte para purificá-los: você aspergirá sobre eles a água da expiação; e eles farão passar a navalha sobre todo o corpo deles, lavarão as suas roupas e se purificarão”. Esta prescrição contida na Lei, e posteriormente trabalhada pelos profetas, possivelmente é a responsável pelo uso de água na admissão de prosélitos ao judaísmo séculos mais tarde. E sua menção por Ezequiel fornece um meio de compreender o desejo divino por pureza na vida não apenas do coletivo, mas também de forma individual e transformadora (BARNES, 1834).
Muito além do que uma limpeza externa, as três menções à palavra hebraica טָהוֹר (tahor – limpo, puro) encontradas no verso 25 apontam para um estado de pureza moral e espiritual obtidas neste processo de purificação. Joseph Blenkinsopp amplia esta ideia:
A limpeza simbólica com água não é apenas um ato ritual rotineiro. Ela significa o fim de um período de desordem (impureza) e o início de uma nova fase de existência. Este é claramente o sentido na passagem presente: a renúncia a um passado desordenado e idólatra e um começo totalmente novo (BLENKINSOPP, 1990, p. 345, tradução livre).
Landon Dowden (2015, p. 361) denota que nesta purificação, Deus não pede ao povo que limpem-se e venham até Ele. Pelo contrário, o Senhor é quem ativamente reúne o seu povo e realiza sua purificação. Deus compreende que os seus escolhidos não apenas necessitam de perdão, mas também de limpeza e cura de todas as chagas e más práticas influenciadas por seu estado pecaminoso anterior. Esta ação divina de forma ativa não é realizada por merecimento algum de Israel (Ez 36.22), mas sim porque Deus decidiu fazer seu santo nome conhecido por meio da santidade de seu povo separado.
2.7.3. (v. 26) – Darei a vocês um coração novo e um espírito novo
Chega-se então ao clímax da mudança realizada por Deus no seio de Israel. Se em momentos iniciais o povo fora perdoado, reunido de sua dispersão, e purificado pelo próprio Senhor, nesta etapa se realiza aquilo que de fato mudará os caminhos da nação escolhida. Seus antigos corações duros e empedernidos, que rejeitavam escutar os preceitos do Senhor e render-se a Ele, são transformados em corações de carne, revividos, regenerados, e reiniciados para uma nova vida. E isto é anunciado ao povo em um paralelo quase literal do que havia sido relatado em Ez 11.14-20.
Sobre os vocábulos לֵב (lev – coração) e רוּחַ (ruah – espírito) John Taylor aponta a necessidade de uma interpretação cuidadosa:
Não são tanto partes da constituição do homem quanto aspectos da sua personalidade total. O coração inclui a mente e a vontade, bem como as emoções, é, na realidade,[...] [...] a sede da personalidade, a natureza mais interior do homem. O espírito é o impulso que o dirige e regula seus desejos, seus pensamentos, e sua conduta. Os dois serão substituídos e renovados; o coração que é teimoso, rebelde e insensível (o coração de pedras) por um que é macio, impressionável e responsivo (coração de carne), e o espírito da desobediência pelo Espírito de Deus (TAYLOR, 1984, p. 207)
Israel, por ter sido incapaz de fazer para si mesma um coração novo e um espírito novo (Ez 18.31), recebe então a promessa de ser alcançada por um Deus gracioso e zeloso com sua própria glória. Sem a operação desta divina graça, o povo escolhido jamais seria capaz de agradar e aprazer o coração do Senhor. Apenas na transformação iniciada e desempenhada primeiramente por Yahweh na ‘encarnação’ de seus corações petrificados é que o povo pode ser por em correta obediência e adoração a Deus, usufruindo de suas bênçãos eternas.
Esta promessa a Israel de transformação de corações de pedra em carne, como uma renovação de sua disposição interior moral e espiritual, segundo o Pulpit Comentary (EXELL e SPENCE-JONES, 1985), pode ser observada no texto bíblico de quatro maneiras: a) negativamente, no processo de remoção de um coração que não ouve a palavra do Senhor, nem a pratica (Zc 7.12); b) positivamente, como um novo coração dado para conhecer e seguir a Deus e seus preceitos (Jr 24.7 e 32.39); c) causativamente, na renovação interior acontecendo por ventura da habitação do Espírito em si ou pela impressão da Lei no coração (Jr 31.33); d) de forma prática, na manifestação desta mudança na observação dos juízos e estatutos de Deus.
John Goldingay (2019, p. 248) reafirma o misericordioso e glorioso propósito divino ao lembrar que “uma mente inerte, morta como pedra, será substituída por uma mente mais parecida com a carne viva, vital e animada, ou cheia de espírito... de modo que a distinção de Yahweh se refletirá na distinção do Seu povo”. A regeneração e transformação dos caminhos de Israel, além de habilitá-lo para receber e deleitar-se nas promessas de Deus de paz e prosperidade, também rendem glória ao nome do Senhor em meio ao paganismo e corrupção dos povos que cercam a nação.
A ideia da regeneração está bastante entremeada na Soteriologia de Ezequiel. Seja pelo teor de sua mensagem, ou por, ao menos três vezes, mencionar diretamente a expressão do verso 26 aqui analisada, pode-se elucubrar que o profeta visualiza claramente no processo de redenção do povo de Deus a necessidade de uma ação divina primeira, que transforme a disposição de Israel do mal para o bem. Apesar de o Senhor ir ao encontro de seus escolhidos em meio a tanta corrupção e desesperança, Ele não permite com que permaneçam desta forma, revivendo seus corações para que vivam em novidade de vida e obediência à santa obediência divina. "A salvação não é apenas informação, mas também transformação... A cirurgia no coração que Deus realiza produz uma mudança no desejo de Seu povo, e isto leva a uma mudança em suas ações” (DOWDEN, 2015, p. 362). Esta disposição para uma fé obediente e operante como marca da ação redentora interior de Deus no indivíduo segue presente no restante das Escrituras, especialmente no Novo Testamento.
2.7.4. (v. 27a) – Meu Espírito colocarei em seu interior
A grande promessa de habitação do Espírito de Deus nos corações não está presente em muitos escritos anteriores ao exílio. Porém, em períodos posteriores, esta esperança é expressa prolificamente, como nos casos de Ez 37.14 e 39.29, Is 44.3 Jl 2.28, Zc 4.6, além do verso em questão. Jeremias, apesar de não mencionar diretamente, fala de Yahweh escrevendo sua Lei no interior dos corações, dando teor parecido à sua mensagem, e no Novo Testamento, menções à um novo espírito comumente se relacionam com o Espírito divino. (MOULE, 2015).
Matthew Poole, em seu comentário bíblico de Ezequiel 36, expõe o vocábulo רוּחִ֖י (ruhi – meu Espírito), encontrado no verso 27, como sendo:
O Espírito Santo de Deus, que é a causa principal imediata dessa mudança de um coração antigo para um novo, e de duro para suave. Pela causa eficiente, podemos conhecer o efeito; e entender o que é um novo coração e o que é o novo espírito, quando sabemos que são produzidos em nós pelo Espírito de Deus, que é dado aos santos e habita neles, tornando-os santos, e depois permanece com eles (POOLE, 1985, tradução livre).
Não é de se surpreender que o caminho lógico do processo de regeneração se encerre na maravilhosa habitação interior do Espírito Santo. Por mais puros e revividos que estejam, as ações e impulsos dos corações dos homens precisam ser direcionados, sustentados, corrigidos e supridos pela operação ativa do Espírito de Deus constantemente presente no novo coração de carne daqueles que foram alcançados pela irresistível graça de Deus. Somente desta forma serão capazes de serem portadores de uma nova natureza que glorifica o nome do Deus redentor em todas suas proclamações e atitudes.
2.7.5. (v. 27b) – Farei com que vocês andem em meus estatutos
O povo de Israel reunido por Deus, purificado com água, portando novos corações de carne, e, agora, sendo habitação do Santo Espírito, passa uma última vez pela ação ativa de Deus, que os sustentará em obediência e observação de sua vontade. “A implantação do Espírito de Deus dentro deles transformará seus motivos e lhes capacitará a viver de acordo com os estatutos e juízos de Deus” (TAYLOR, 1984, p. 207). Enfim, o processo de santificação do nome do Senhor nas ações de seu povo escolhido encontra seu cumprimento, mais uma vez, na iniciativa graciosa do próprio Deus, que efetua neles tanto o querer, quanto o realizar (Fp 2.13).
Handley Moule (2015) salienta que o povo andará nos estatutos de Deus por estas serem expressões do próprio Espírito habitando dentro de si. Estas expressões podem aparecer tanto na forma de impulsos internos para cumprir a vontade divina, quanto na capacidade e poder de obedecer aos estatutos de Deus. Estes últimos não apenas se referem a atos externos, mas à totalidade da lei moral do Senhor, como exemplificada nos capítulos 18, 22, 33 e 34 do livro de Ezequiel.
A aliança mencionada no versículo seguinte à unidade textual analisada neste trabalho, “vocês serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (v. 28) finalmente se torna uma realidade em seu cumprimento bilateral iniciado, sustentado, e finalizado monergisticamente pelo Divino. E nesta Israel restaurada e reconstruída, por meio de sua obediência e do cumprimento das promessas divinas, todas as nações reconhecerão que apenas Yahweh, o Santo de Israel, é o Senhor sobre tudo que há.
3. A ORDO SALUTIS
Após a análise exegética ter sido concluída, faz-se necessário uma breve apresentação conceitual da ordo salutis e do posicionamento da regeneração nas reflexões lógicas acerca da salvação cristã, em especial quando sob a luz do texto observado neste estudo. Os esforços aqui empregados não pretendem esgotar as discussões acerca da ordem da salvação e seus processos, mas fortalecer a compreensão bíblica da primazia, pelo menos causal, da regeneração para toda a obra de redenção realizada na vida do cristão.
Em uma definição bastante clássica da ordo salutis, Louis Berkhof afirma que:
A ordo salutis descreve o processo pelo qual a obra de salvação, realizada em Cristo, é concretizada subjetivamente nos corações e vidas dos pecadores. Visa a descrever, em sua ordem lógica e também em sua interrelação, os vários movimentos do Espírito Santo na aplicação da obra de redenção. A ênfase não recai no que o homem faz, ao apropriar-se da graça de Deus, mas no que Deus faz, ao aplicá-la (BERKHOF, 2019, p. 408).
Na busca pelo fortalecimento de uma doutrina da salvação monergista, que evidenciasse a glória de Deus em Ele mesmo tomar a iniciativa na redenção do pecador, realizando-a e sustentando-a através de sua própria Palavra e Espírito, a concatenação lógica dos variados processos abarcados pela divina obra redentora e sua aplicação na vida do homem foi tida como urgente e essencial. Segundo Edenis Oliveira (2021, pp. 67-69), a própria luta pessoal de reformadores como Lutero, contra o status quo da teologia do Século XVI, pode ser resumida como uma busca por uma ordem da salvação que, de fato, refletisse o evangelho. Esta ordenação, de cerca maneira, opera como uma lente teológica fundamental, que pavimenta o processo de identificação cristã individual, e interfere na comunicação da fé aos descrentes.
Passando por uma observação histórica do termo, não é errado afirmar que o desenvolvimento de uma ordem da salvação que descrevesse a obra do Espírito Santo na aplicação da redenção fora uma construção teológica essencialmente localizada nos períodos da Reforma Protestante e Pós-reforma. Apesar de ter sido cunhado pelos luteranos Frank Buddeus e Jakobus Karpov, em meados do Século XVIII, suas origens são bastante relacionadas à João Calvino e seus esforços inéditos de sistematizar, ainda que de maneira simplificada, as distintas etapas da salvação cristã. Beza, Perkins, e outros de seus seguidores, no entanto, se dedicaram a desenvolver consideravelmente esta doutrina, elaborando melhor a definição de cada etapa processo. E com a interpretação de John Owen, a ordem da salvação chegou à sua formulação mais comumente adotada na teologia reformada, dando enfoque para o chamado eficaz e regeneração como anteriores a fé, diferentemente de outras linhas como a interpretação de Jacó Armínio e dos remonstrantes, que optava por colocar a fé como anterior à regeneração para dar ênfase à decisão humana (MCGOWAN, 2006, pp. 148-151).
É comum que a principal justificativa bíblica dada para este tipo de pensamento ordenado acerca da salvação encontre suas bases em Romanos 8.29-30, “aos que de antemão conheceu, também os predestinou... aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (BÍBLIA NAA, 2018). Ainda assim, é importante salientar que a aceitação destes esforços dentro do ambiente cristão não é monolítica. Ao menos três aproximações da ordo salutis são debatidas.
Primeiramente, há quem acredite que as Escrituras não apenas apontam para processos devidamente ordenados, mas explica minuciosamente quais processos são estes e em que ordem se realizam na vida do crente. John Murray é tido como o principal expoente desta perspectiva. No polo oposto, tem-se aqueles que desacreditam completamente de deduções escriturísticas acerca de uma ordem de salvação específica. Teólogos como G. C. Berkouwer preferem falar em um caminho da salvação, com elementos distintos entre si, mas não ordenados de forma rigidamente determinada. E por último, entrincheirados em uma linha mais intermediária, posicionam-se, em consonância com Louis Berkhof, aqueles que acreditam que, apesar de as Escrituras de fato não explicitarem uma ordo salutis completa, elas fornecem base suficiente e satisfatória para compreender que, apesar de a graça ser aplicada como um processo único na vida do pecador, a plenitude da salvação divina se dá em vários movimentos distintos e razoavelmente ordenáveis (HOEKEMA, 2011, p.25).
Seja qual for a relação adotada com a doutrina da ordem da salvação, ainda é possível afirmar que, mesmo nos ambientes de maiores ressalvas, “pode ser importante manter este conceito para esclarecer a natureza das várias doutrinas e proteger contra erros na relação postulada entre elas” (MCGOWAN, 2006, p. 163, tradução livre). Seguindo uma abordagem mais temperada, como a de Louis Berkhof, e submetendo quaisquer elaborações teológicas acerca da ordo salutis à autoridade da Palavra de Deus, entende-se que esta doutrina vai além de apenas possuir validade, auxiliando na prevenção de noções infundadas e pecaminosas de que a obra salvífica de Cristo em alguma medida pode ter sido merecida ou alcançada por seres humanos mortos em sua corruptibilidade.
3.1. A Regeneração na Ordem da Salvação
Um último destaque deve ser feito ao posicionamento da regeneração na ordo salutis. Conforme afirma Ronald Hanko (2004), há diversas coisas na perspectiva reformada da ordem da salvação que não podem ser alteradas e necessitam de ênfase especial. Dentre estas, há que a regeneração e o chamado eficaz precisam ser colocados anteriormente à fé, de modo a evitar compreensões da fé como obra humana, e, por conseguinte, também anteriores à justificação, para que seja mantida a verdade protestante da justificação somente pela fé.
Em harmonia com aquilo que já foi tratado neste trabalho a respeito da regeneração como a transformação de corações de pedra, mortos e inertes, em corações de carne, vivificados e latentes pelo Espírito de Deus e à obediência de Sua vontade, percebe-se que a visão reformada da regeneração se põe como princípio causal de toda redenção do pecador. Herman Bavinck belamente descreve a regeneração ao dizer que:
Ela é mais do que uma mudança de consciência, uma iluminação da mente ou até mesmo uma reforma de conduta, embora incluía tudo isso. Não devemos nos satisfazer com a noção gnóstica de redenção como a libertação do eu interior da “carne” ou da matéria. O racionalismo e o misticismo também não podem fornecer uma interpretação correta da regeneração. É útil reconhecer um uso mais amplo e um uso mais estrito do termo “regeneração”. No sentido mais amplo e mais pleno, a regeneração se refere à total transformação de uma pessoa; no sentido restrito, ela tem em vista a implantação da nova vida, que, então, conduz à conversão e à santificação (BAVINCK, 2019, p. 32).
Os teólogos reformados não colocam a regeneração, juntamente com a vocação eficaz, como início da ordo salutis por mera convenção teológica. Trata-se de um apontamento da aplicação da obra redentora de Cristo na vida do pecador como, já em seu inicio, uma obra do próprio Deus. Ainda que não cronologicamente, mas de maneira causal, o ato recriador que o Divino realiza no subconsciente daquele que foi alcançado pela graça, isto é, a regeneração, precede aquilo que é realizado na vida consciente do indivíduo, a sua conversão e os atos judiciais de Deus (justificação, perdão e adoção) (BERKHOF, 2019, pp. 410-412).
Na teologia do Novo Testamento, em aparente consonância ao que é encontrado em Ezequiel 36, a regeneração (ou novo nascimento, como aparece mais numerosamente) é tida como basilar naqueles que foram alcançados pelo Evangelho. Sem o novo nascimento, ninguém pode ver ou entrar no Reino de Deus (João 3.3,5). A prática do amor, da justiça, e da santidade, e a própria crença em Jesus como o Cristo, são tidas como resultantes do novo nascimento naqueles que o receberam (1 João 2.29; 3.9; 4.7; 5.1). E esta nova vida foi recebida não em meio à uma prerrogativa de iniciativa humana, mas em meio à morte em transgressões e pecados. Uma vida que é dada livre e espontaneamente por Deus, em iniciativa unicamente Sua para louvor de sua glória (Efésios 2.1-8).
Anthony Hoekema (2011, p. 27), mesmo em meio às suas críticas quanto à delimitação da ordo salutis, compreende que a regeneração necessariamente precede a conversão, em uma relação ao menos de prioridade causal, quando esta é definida como “o trabalho do Espírito Santo por meio do qual ele inicialmente nos leva a uma viva união com Cristo e transforma nosso coração de forma que nós, que estávamos espiritualmente mortos, nos tomamos espiritualmente vivos”. Esta não apenas parece ser uma definição adequada para a regeneração, mas também reflete em muito o conceito encontrado na Soterologia do profeta Ezequiel, ao destacar uma vivificação iniciada, realizada e sustentada pelo próprio Deus, que purificaria o seu povo escolhido, apesar de qualquer imerecimento, a ponto de serem habitados pelo Seu Espírito, e de viverem em santa obediência à Sua vontade.
4. CONCLUSÃO
Este trabalho esforçou-se para compreender mais acuradamente a Soteriologia do profeta Ezequiel por meio da análise exegética de Ez 36.24-27, entendendo suas implicações para a compreensão reformada da ordo salutis, em especial, no posicionamento da regeneração como precedente à conversão. Isto não foi feito na pretensão de, com este trabalho, esgotar a discussão acerca da validade e correta ordenação da ordo salutis, mas sob o objetivo de fortalecer a fundamentação bíblica da doutrina reformada da regeneração a partir da devida interpretação do texto em questão. Em virtude da brevidade deste estudo, a comparação entre diferentes sistemas de ordenação sistemática da doutrina da salvação, bem como a implicação do texto de Ezequiel para suas organizações, foi deixada para trabalhos futuros.
Utilizando-se de ferramentas hermenêuticas e do cruzamento de bibliografia relevante foi possível observar que, em um contexto de sofrimento e exílio, Deus anuncia pelo profeta uma mensagem de esperança e vivificação que vai além do merecimento e capacidade de Israel de cumprir sua aliança com o Senhor, em um movimento muito similar à doutrina neotestamentária. As etapas da redenção do povo de Israel também se fizeram bem definidas na percepção do texto, demonstrando que, a não ser que Deus tome primariamente a iniciativa, os corações continuarão petrificados, impuros e em rebelião e desobediência aos preceitos divinos. Ao reunir, o Senhor, o seu povo, e perdoando-o e purificando-o de todo seu pecado, Deus provê amorosamente um novo coração, uma nova vida, não apenas habilitada à obediência e temor do Senhor, mas para servir de habitação ao seu próprio Espírito. O oráculo de restauração analisado talvez tivesse seu significado imediato para sua audiência que ansiava pela libertação do cativeiro babilônico, mas, definitivamente encontra seu cumprimento último na realização dos propósitos de Deus para todos os seus escolhidos em seu plano de redenção.
O apóstolo Paulo aplica de forma magistral o conceito da regeneração como iniciativa da graça divina e motivadora de uma vida de obediência ativa à vontade de Deus em sua Epístola a Tito, ao dizer que:
...nós também, no passado, éramos insensatos, desobedientes, desgarrados, escravos de todo tipo de paixões e prazeres, vivendo em maldade e inveja, sendo odiados e odiando-nos uns aos outros. Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra, e quero que você fale ousadamente a respeito dessas coisas, para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas para todas as pessoas (TITO 3.3-8, BÍBLIA, NAA, 2018).
Corações que outrora estavam empedernidos pelo pecado e pela morte, imerecedores de qualquer bondade e misericórdia divinas, hoje, por causa de um Deus que tanto os amou, se encontram em novidade de vida, purificados por Deus, habitados por Ele, e reunidos em celebração e ansiosa espera do cumprimento de suas santas promessas. Que todo cristão possa apresentar uma fé de obediência viva e influente àqueles que os cercam, marca de todo aquele alcançado pela salvação do Senhor em Cristo Jesus, de modo que seu chamado seja confirmado, como em Ezequiel 36.28, ao ouvirem que: – Vocês são o meu povo, e Eu sou o vosso Deus.
1. INTRODUÇÃO
Leituras descuidadas e superficiais das Escrituras muito comumente podem ser relacionadas a desvios maiores de fé e piedade na vida de indivíduos e até comunidades de fé inteiras, em razão de equívocos de interpretação intencionais ou não. Em se tratando de doutrinas que exigem maior cautela e profundidade na análise teológica para o seu debate, como a Soteriologia, esta percepção se torna ainda mais agravada. Neste contexto, este estudo propõe-se a contribuir com esclarecimentos acerca do posicionamento da regeneração na ordem da salvação (ordo salutis), seguindo cuidadosa observação exegética de Ezequiel 36.24-27, na busca por uma teologia sadia e biblicamente embasada, que fundamente sua piedade e fé na gratidão pelo misericordioso e gracioso plano divino de redenção.
A seleção do trecho mencionado se dá por sua significância para o cristianismo, em especial às suas expressões reformadas, tanto por sua importância para a compreensão do drama da redenção nas promessas realizadas ao seu destinatário original (povo de Israel), quanto no que diz respeito à ordo salutis e sua apresentação da regeneração como precedente à fé e obediência dos estatutos do Senhor. Espera-se trazer ainda mais substância à ideia de que Deus, em seu infinito poder, graça, amor e sabedoria, é quem realiza todo o processo de redenção do homem, em oposição às inúmeras correntes teológicas que tentam perverter esta ideia, colocando as obras humanas como determinantes para sua própria salvação.
Pretende-se, com este trabalho, confirmar a hipótese de que a exegese do trecho bíblico em questão apontará para a regeneração como precedente à fé e a obediência, um conceito bastante reconhecido e estimado pela teologia reformada. A profundidade desta compreensão deriva-se tanto da leitura histórico-gramatical de Ezequiel 36, quanto de uma abordagem mais teológico-redentiva, interpretando o texto veterotestamentário sob a luz da revelação do Novo Testamento, que trata como crucial a adoção da graça divina e o sacrifício de Cristo como fundamentos da fé. A ausência da adoção destas crenças basilares pode facilitar escolhas arbitrárias e incoerentes de estruturas doutrinárias frágeis ou equivocadas, bem como colocar em risco a fé e espiritualidade daqueles que a elas se submetem.
Ao alcançar seu objetivo mais amplo, este artigo contribuirá para a reflexão e fundamentação bíblica da ordem da salvação na análise do texto de Ezequiel 36.24-27, no intuito de fortalecer a capacidade crítica e teológica de seus leitores ao estudarem e adotarem sistemas soteriológicos. Promove-se assim, o amadurecimento de uma fé coerente, bem refletida, e submetida ao texto sagrado. Para tanto, os esforços neste artigo se desdobram em: analisar o texto de Ezequiel 36.24-27 por meio de ferramentas exegéticas adequadas, apontando sua relevância para a teologia cristã; abordar introdutoriamente o conceito de ordo salutis; identificar implicações exegéticas do texto bíblico para a compreensão da regeneração como anterior à fé, seguindo os padrões defendidos na teologia reformada. Em concordância com o caráter religioso e, em certa medida, subjetivo do tema proposto neste trabalho, os métodos para sua realização se detiveram à pesquisa e revisão bibliográfica, e aprofundamentos exegéticos no texto do profeta Ezequiel.
A mistura indiscriminada de elementos teológicos, sem respeitar as construções doutrinárias encontradas nas Escrituras podem encaminhar o crente a uma jornada de fé incoerente e inconsistente, sob o risco de lançá-lo a posteriores confabulações e heresias, conforme já ocorrido múltiplas vezes na história milenar da igreja cristã. Este artigo, neste ínterim, justifica-se na necessidade urgente de abordar teológica e exegeticamente o texto bíblico com temor, rigor, e cautela, para mitigar estes tipos de confusões doutrinárias e aceitações acríticas de elementos incoerentes e contraditórios em sua prática religiosa. Entende-se que esforços assim são sempre úteis e bem-vindos na busca pelo fortalecimento de fé e uma espiritualidade robusta e bem arraigada na Palavra do Senhor.
2. ANÁLISE EXEGÉTICA
De modo a obter uma interpretação mais aproximada do intento original de textos bíblicos, a utilização de ferramentas de exegese como análise sintática e lexical se torna fundamental. Idiomas antigos trazem consigo desafios que exigem cautela redobrada para a adequada assimilação do sentido de um texto, tanto em seu contexto imediato, quanto para seus leitores milênios após sua escrita.
2.1. Delimitação da Unidade Textual Completa
Por meio da observação da continuidade de elementos textuais e da comparação das fontes listadas a seguir, foi possível destacar a perícope de Ezequiel 36:24-27 de seu contexto anterior e posterior, para um melhor aprofundamento em um intervalo mais reduzido das Escrituras, viabilizando assim, uma compreensão melhor das razões pelas quais este texto segue-se tão estimado pela ortodoxia cristã.
O trecho em questão encontra-se dentro de uma seção maior, frequentemente relacionada à promessa divina de restauração de Israel. Esta seção, que é em boa medida, consensual, vai de Ezequiel 36:16 até o final do capítulo (v. 38), como pode ser observado na Bíblia Nova Almeida Atualizada (2018) e na tradução Nova Versão Internacional (2001). Antônio Gusso (2014, p. 111) destaca a união dos vinte e três versículos mencionados ao apontarem juntos para o retorno do cativeiro, e aludirem à Nova Aliança, ainda que o termo ‘aliança’ não seja encontrado em Ezequiel. Indo além desta divisão temática da perícope, há ainda outras subdivisões deste segmento das Escrituras. Ao tratar sobre Ezequiel 36.16-38, Jesus Asurmendi afirma:
As fórmulas do texto, fáceis de se encontrar, nos apresentam sua organização e as diferentes partes: os vv. 16-21 relatam a história do povo; os vv. 22-32, a primeira parte da ação que o Senhor prepara, bem como as consequências desta ação; os vv. 33-36 e 37-38, finalmente, as perspectivas de reconstrução que se situam, também elas, em seguimento à ação do Senhor (ASURMENDI, 1985, p. 58).
A sinalização desta unidade textual menor, que se inicia em 36.22 e vai até 36.32, é confirmada novamente pela Nova Almeida Atualizada (2018) e pela tradução inglesa King James Version (2002), na maneira com que estas versões aglutinam toda esta seção em um só parágrafo. John Taylor (1984, p. 207) corrobora ao destacar que neste texto, tratado como o âmago da Soteriologia de Ezequiel, ao restaurar Israel, Deus vindica a sua própria santidade.
Por ventura da brevidade deste artigo, foi necessário buscar uma segmentação ainda mais minimizada nesta parcela dos escritos proféticos, de modo que viabilizasse posteriores discussões semânticas, textuais e contextuais acerca de cada versículo. Para tal, foi adotado como objeto deste estudo a divisão realizada pela Berean Standard Bible (2023), que concorda com as divisões apresentadas acima, nomeando a seção maior (Ez 36.16-38) como “um novo coração e um novo espírito”, mas divide os parágrafos em agrupamentos menores, de análise mais simplificada, destacando o trecho de 36.24 a 36.27 como uma dessas micro-divisões.
Estes últimos quatro versículos mencionados, Ezequiel 36.24-27, por sua aparente unidade interna e por terem sua divisão abonada pelas menções acima, foram adotados como objeto de estudo deste trabalho. Isto se deu, especialmente, em virtude da relevância que este excerto tem para a compreensão de importantes doutrinas como regeneração, purificação, bem como o correto entendimento da participação divina na redenção seu povo.
2.2. Análise de vocábulos no idioma original
Abaixo são demonstrados o texto de Ezequiel 36.24-27 em seu idioma original, bem como uma resumida análise de sua gramática e palavras utilizadas.
Texto no idioma original - hebraico (The Westminster Leningrad Codex, 2016):
וְלָקַחְתִּ֤י אֶתְכֶם֙ מִן־הַגֹּויִ֔ם וְקִבַּצְתִּ֥י אֶתְכֶ֖ם מִכָּל־הָאֲרָצֹ֑ות וְהֵבֵאתִ֥י אֶתְכֶ֖ם אֶל־אַדְמַתְכֶֽם׃
וְזָרַקְתִּ֧י עֲלֵיכֶ֛ם מַ֥יִם טְהֹורִ֖ים וּטְהַרְתֶּ֑ם מִכֹּ֧ל טֻמְאֹותֵיכֶ֛ם וּמִכָּל־גִּלּ֥וּלֵיכֶ֖ם אֲטַהֵ֥ר אֶתְכֶֽם׃
וְנָתַתִּ֤י לָכֶם֙ לֵ֣ב חָדָ֔שׁ וְר֥וּחַ חֲדָשָׁ֖ה אֶתֵּ֣ן בְּקִרְבְּכֶ֑ם וַהֲסִ֨רֹתִ֜י אֶת־לֵ֤ב הָאֶ֙בֶן֙ מִבְּשַׂרְכֶ֔ם וְנָתַתִּ֥י לָכֶ֖ם לֵ֥ב בָּשָֽׂר׃
וְאֶת־רוּחִ֖י אֶתֵּ֣ן בְּקִרְבְּכֶ֑ם וְעָשִׂ֗יתִי אֵ֤ת אֲשֶׁר־בְּחֻקַּי֙ תֵּלֵ֔כוּ וּמִשְׁפָּטַ֥י תִּשְׁמְר֖וּ וַעֲשִׂיתֶֽם׃
Tabela 1 - Análise gramatical de Ezequiel 36.24-27
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Fonte: BROWN, DRIVER e BRIGGS, 1994.
2.3. Verificação de Textos Variantes
No final da década de 30, com a publicação de um novo manuscrito grego do livro de Ezequiel no Chester Beatty Biblical Papyri e no John H. Schiede Biblical Papyri, novas discussões acerca do escrito profético se irromperam. Este manuscrito, conhecido como p967, data entre o final do Século II e início do Século III d.C, sendo a cópia mais antiga do códice da Septuaginta descoberta na época. A principal diferença deste papiro com o Texto Massorético se dá na omissão do texto de Ezequiel 36.23c-28 e na transposição dos capítulos 37 e 38-39, colocando a batalha de Gogue e Magogue precedendo o relato do vale dos ossos secos. Contudo, o estudo acerca deste manuscrito grego foi ofuscado pela descoberta dos manuscritos do Mar Morto na década de 40, que apontaram severas incongruências entre o texto grego da LXX e os materiais em hebraico recém encontrados (LILLY, 2010, p. 2).
A melhor hipótese acerca das diferenças notadas no p967 propões que este se trata de uma variante literária de Ezequiel, que reflete uma edição mais antiga e distinta do texto hebraico Massorético, como uma cópia grega do livro para sua audiência do terceiro século, possivelmente cristã. Ingrid Lilly (id., p. 312) categoriza o p967 desta forma devido à sua produção, conteúdo, formato, contrações, notas e marcas de leitura revelarem interesses e o caráter de uma comunidade cristã de leitores originais.
Descobertas posteriores, sob o piso de uma sinagoga em Masada, encontraram fragmentos contendo boas preservações do texto de Ez 35.11 a 38.14, com apenas algumas poucas variantes em relação ao texto massorético. Sua principal atestação foi da presença do trecho omitido pelo p967 em manuscritos anteriores a 73 d.C., bem como da ordem tradicional dos capítulos 35 a 38 (POPOVIC, 2010, p. 251). Este achado, dentre outros, aponta a incompatibilidade do manuscrito grego p967 com outros documentos históricos relativos ao livro de Ezequiel, restringindo a relevância da análise de tal material como estritamente acadêmica.
2.4. Tradução do Texto e Comparação Entre Versões
Após observada a análise lexical e gramatical da perícope escolhida como objeto deste estudo, apresenta-se abaixo a tradução do excerto, como elaborada pelo autor deste artigo:
Texto traduzido pelo autor (2024):
24. E eu tomarei vocês dentre as nações e ajuntarei vocês de todos os países, e conduzirei vocês para sua terra.
25. Aspergirei sobre vocês águas limpas, e vocês serão limpos: de toda sua imundícia e de todos os seus ídolos, eu os purificarei.
26. E darei a vocês um coração novo e um espírito novo colocarei em seu interior. Removerei o coração de pedra da sua carne e darei a vocês um coração de carne.
27. Meu Espírito colocarei em seu interior e farei com que vocês andem em meus estatutos, e meus julgamentos, vocês observem e cumpram.
Para além de uma tradução gramática e lexicalmente bem embasada, a comparação do texto traduzido com versões já respeitadas no meio teológico sempre é um esforço que auxilia intérpretes contemporâneos a respeitarem limites de compreensão já estabelecidos e provados no decorrer da história da Igreja. Abaixo, são demonstradas algumas versões de tradução do trecho analisado neste artigo:
Texto traduzido ao português (Nova Almeida Atualizada, 2018):
24. Eu os tirarei do meio das nações, eu os congregarei de todos os países e os trarei de volta para a sua própria terra.
25. Então aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos.
26. Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.
27. Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem e observem os meus juízos.
Texto traduzido ao português (Nova Versão Internacional, 2001):
24. ‘Pois eu os tirarei das nações, os ajuntarei do meio de todas as terras e os trarei de volta para a sua própria terra.
25. Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos.
26. Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.
27. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis.
Texto traduzido ao inglês (Berean Standard Bible, 2023):
24. For I will take you from among the nations and gather you out of all the countries, and I will bring you back into your own land.
25. I will also sprinkle clean water on you, and you will be clean. I will cleanse you from all your impurities and all your idols.
26. I will give you a new heart and put a new spirit within you; I will remove your heart of stone and give you a heart of flesh.
27. And I will put My Spirit within you and cause you to walk in My statutes and to carefully observe My ordinances.
2.5. Análise Histórica
Por ventura de muitos anacronismos, exageros e interpretações errôneas de escritos antigos, especialmente nesta era da informação, faz-se necessário estudar os textos bíblicos para além da análise textual. Fatos e hipóteses relevantes sobre o contexto histórico e geográfico do escrito, bem como sua autoria, audiência, e propósito original são bons condutores para um entendimento bíblico mais aproximado das intenções contidas no texto e inspiradas pelo Espírito Santo, quando percebidos em um cenário de oração e piedosa vida cristã.
2.5.1. Autoria
O livro de Ezequiel possui uma série de dificuldades em relação ao seu conteúdo e contexto histórico. Não porque seu conteúdo não tenha proveito teológico ou por ser um texto de canonicidade questionável, mas sim porque sua colocação no desenrolar da história do povo judeu, bem como seu material profundamente profético, imagético e misterioso, tornam a sua interpretação um grande desafio até mesmo para os círculos acadêmicos mais habilitados para tal. Ainda assim, a autoria do livro pelo próprio profeta Ezequiel possui considerável consenso, e auxilia os desenvolvimentos exegéticos no livro. Sobre o assunto, Cecil Weir acrescenta:
Críticos estão, no presente, praticamente de acordo que o Livro de Ezequiel é substancialmente da mão de um autor que estava bem familiarizado com os eventos na Ásia Ocidental entre 593 e cerca de 570 a.C. e não sabia nada dos eventos posteriores” (WEIR, 1957, p. 7, tradução livre).
Em movimento contrário à concordância mencionada, alguns teólogos do Século XX, como Charles Torrey e Joachim Becker, se posicionaram a favor de uma autoria posterior e pseudoepígrafica de Ezequiel, por motivos literários e redacionais alinhados à crítica-textual. Contudo, suas elaborações atribuíram mais dificuldades interpretativas do que soluções ao texto, sendo por isto, comumente tidas como inconclusivas (ERHLICH, 1999, pp. 120-121).
Acerca do profeta Ezequiel, pode-se afirmar que este provinha de família sacerdotal, que ficara viúvo jovem (Ez 24.18), e que teria sido exilado na Babilônia em conjunto com a aristocracia de Judá por volta de 597 a.C., dez anos antes do Templo ser destruído e Jerusalém ser tomada. Ezequiel teria sido um personagem de grande importância entre os cativos, uma vez que os próprios anciãos do povo que também estavam no cativeiro reuniam-se em sua casa (Ez 8.1). Seu ministério se deu em um intervalo de pelo menos vinte e três anos, tendo seu início no quinto ano de exílio do rei Joaquim, girando em torno especialmente na proclamação e juízo ao seu povo, que tendia à adoção dos imorais costumes estrangeiros e uma vida de idolatria (GUSSO, 2014, pp. 91-92).
Devido ao cuidadoso preparo e reflexão do profeta em seus escritos, permeados por vários estilos de prosa e poesia, assim como pela riqueza e profundidade teológica encontrada em meio às muitas alegorias e imagens do livro, Ezequiel tem sido conhecido como “o primeiro dogmático do Velho Testamento, o Calvino do Velho Testamento, o mais influente homem em todo o curso da história hebraica, o pai do Judaísmo, o profeta da responsabilidade pessoal, etc.” (PFEIFFER, 2017, p. 1170). Do mesmo modo em que muitos atribuíam relevância e importância à sua mensagem em sua época original, seu ministério, através de seus escritos inspirados pelo Espírito, segue fundamentando e guiando a fé cristã na atualidade.
2.5.2. Data e local
Diferente da maioria dos textos bíblicos, que apresentam espaço para o debate e discussão a respeito de sua data de autoria tendo em vista a falta de informações explícitas, o livro de Ezequiel pelo contrário, traz no corpo de seu texto ao menos doze datas seguras. Até mesmo as três grandes visões do profeta (capítulos 1-3.16; 8-11; 40-48) são datadas de maneira cuidadosa. E sete das datas informadas pertencem ao período imediatamente próximo à queda de Jerusalém. Tomando por conta a primeira informação listada em Ez 1.1 (quinto ano do exílio do rei Joaquim), e a última data informada, em Ez 29.17 (vigésimo sétimo ano), conclui-se que o livro fora escrito aproximadamente entre 593 a.C. e 571 a.C. (ASURMENDI, 1985, p. 6).
A respeito do local de escrita, entende-se, com base do que foi anotado em Ez 1.1 e 3.15, que o profeta teria escrito seus oráculos de um acampamento de refugiados chamado Tel-Abibe, às margens do rio Quebar, que conectava os rios Tigre e Eufrates como uma importante rota comercial. Já houveram tentativas de alocar Ezequiel em datas anteriores ao período relatado no livro (décadas antes), nas imediações de Jerusalém. Nestas hipóteses, um editor posterior, talvez discípulo de Ezequiel, teria compilado o conteúdo e adicionado trechos como o capítulo 1, e dos capítulos 40 a 48. Porém, análises posteriores demonstraram que havia menos dificuldades na aceitação da proposta tradicional, do que nas postulações de extensas edições no texto para encaixá-lo em um contexto histórico-geográfico diferente de sua origem como relatada nas Escrituras (TAYLOR, 1984, p. 19).
2.5.3. Análise do Contexto Político, Religioso e Geográfico
Os reinos de Judá e Israel, dentre os séculos VIII e VII a.C., foram amplamente abalados pelo domínio de seus impérios vizinhos. Em um cenário de exílios, violência e julgamento divino, enquanto o profeta Ezequiel analisava a queda e restauração da casa de Israel diretamente de seu cativeiro na Babilônia, o já mais idoso profeta contemporâneo Jeremias observava os últimos batimentos do reino de Judá. A própria Assíria, que submeteu o povo de Deus ao terror por mutios anos, se viu encurralada pelos medos e babilônicos na queda de Assur (614 a.C.) e na completa destruição de Nínive (607 a.C.). Judá, na pessoa de seu último grande monarca, Josias, viu então espaço para o fortalecimento de seu reino, mas teve seu avanço impedido pelo confronto com o Faraó Neco II do Egito, que também viu a oportunidade para reestabelecer seu poderio. Após derrotar Josias e deportar seu sucessor para o Egito, e antes de ter suas forças sobrepujadas por Nabucodonosor, que emergiria como o novo dominador do mundo, o Faraó estabelece o infame Jeoaquim, filho mais velho de Josias, no trono de Judá (PFEIFFER, 2017, p. 1172). A respeito do péssimo reinado de Jeoaquim, John Taylor afirma:
Jeoaquim foi um governante totalmente irresponsável no que dizia respeito às necessidades do seu povo, e mereceu o total desprezo do profeta Jeremias, especialmente por seus planos grandiosos para reformas no palácio e pela imposição de trabalhos forçados para leva-las a efeito... Os cultos pagãos referidos por Ezequiel em 8.1-8 não passaram da continuação de um movimento que começou com a ascensão de Jeoaquim (TAYLOR, op. cit., p.28).
O reinado imprudente e pagão de Jeoaquim chega ao fim com sua morte perante Nabucodonosor, e é sucedido pelo governo de seu herdeiro, Joaquim. No entanto, por motivação voluntária ou não, após apenas alguns meses, Joaquim submeteu-se ao domínio babilônico. Este evento culminou na primeira deportação de Judá, em 597, que levou cativa toda a família real, e um bom número de soldados de elite, sacerdotes, e artesãos, junto com os tesouros do templo. O profeta Ezequiel teria sido parte desta primeira deportação. Alguns anos mais tarde, após movimentos de rebelião orquestrados por aqueles que ficaram em Jerusalém e alguns povos vizinhos, interrupções no pagamento dos tributos à Babilônia, e intervenções egípcias, Nabucodonosor faz sua ofensiva à Jerusalém, cercando, tomando e incendiando a cidade e o Templo, reduzindo o reino de Judá a ruínas e exilando aqueles que desempenhavam posições importantes para o cativeiro, como já havia realizado (ASURMENDI, 1985, p. 8).
No que se refere à vida dos exilados, a Bíblia traz muito pouco conteúdo, e Ezequiel é ainda menos detalhista. Sabe-se que alguns se tornaram escravos, enquanto outros tiveram espaço para prosperarem e liderarem o povo, mesmo em meio ao império dominador. Menções são feitas também a exilados vivendo em suas próprias casas, muitas vezes em colônias destacadas, e a organizações de anciãos que conduziam o povo não-oficialmente. E muitos mantiveram a sua fé, apesar da falta de seus símbolos, sacrifícios e locais de culto, dando ênfase ao jejum, ao Shabat, à circuncisão, e à elementos que precederiam a organização em sinagogas, como a oração, a leitura das Escrituras e o cântico dos salmos (PFEIFFER, 2017, p. 1175).
2.6. Análise Literária
Tão importante quanto observar os contornos da história junto de um texto antigo, é buscar compreender os desenvolvimentos e categorias literárias às quais este pertence. A subestimação de mudanças de gênero literário, formato, e temática pode comprometer em muito o entendimento de um texto, podendo conduzir até os melhores historiadores e tradutores das Escrituras a interpretações bastantes distintas dos propósitos intentados pelo texto originalmente.
2.6.1. Análise de Contexto Literário
O trecho maior (Ez 36.16-38) em que a perícope selecionada para este trabalho está inserida (24-27) está cercado por importantes passagens do livro profético em questão. Enquanto é precedido pela célebre proclamação contra os pastores de Israel (Ez 34), o mais longo desenvolvimento veterotestamentário da figura do povo como rebanho do Senhor, e pelo julgamento dos montes de Seir e Israel (35.1-36.15), é sucedido pela visão do vale dos ossos secos (37.1-14), um dos escritos mais conhecidos da lavra de Ezequiel.
Esta sequência de textos monta o cenário mais adequado para as definições soterológicas do profeta exilado. Em meio à corrupção de Israel, que resulta na queda de Jerusalém, e à latente influência de paganismo e imoralidade dos povos vizinhos, o Senhor se dispõe a restaurar o Seu povo misericordiosa e graciosamente, para a glória Seu próprio nome. Joseph Blenkinsopp, tratando sobre o emudecimento de Ezequiel (3.26-27), acrescenta:
À medida que nos aproximamos desse ponto central, fica claro que a morte de Israel está correlacionada com a ausência de Deus. Mas o Deus de Israel é o Deus que pode trazer vida da morte, o Deus que, em tempos antigos, criou vida no ventre morto de Sara e nos lombos mortos de Abraão. Justamente no momento em que a notícia do desastre chega a ele, a língua de Ezequiel é solta para proclamar uma nova vida e as condições necessárias para sustentá-la. E, como a nova vida é possibilitada pela recuperação da presença divina, a resolução ou desfecho é alcançada com o retorno dessa presença ao santuário interno do templo (BLENKINSOPP, 1990, p. 22, tradução livre).
Aproximando o foco da discussão ao contexto imediato do objeto deste trabalho, é necessário discorrer a respeito da estrutura interna do grande trecho de 36.16 a 36.38, para observar os contextos imediatos do excerto aqui analisado. Esta extensa perícope, frequentemente conhecida como ‘a restauração de Israel’ ou nomes similares, divide-se em quatro etapas menores: os versos 16-21 fazem relato da história do povo judeu até então; 22-32 tratam da ação primária do Senhor e as consequências desta ação; e finalmente, 33-36 e 37-38 destacam as perspectivas de reconstrução em seguimento aos movimentos divinos (ASURMENDI, 1985, p. 58).
A Berean Standard Bible (2023), como já mencionado em ponto anterior, segmenta ainda mais o texto de Ezequiel. Os agrupamentos de versículos 22-23 e 28-30 avizinham-se do texto estudado, tratando o primeiro grupo, do imerecimento da profana casa de Israel de receber a salvação do Senhor, que ainda assim a libertará pela santidade do Seu nome entre as nações, e o segundo, da reunião e prosperidade que Deus concederá ao seu povo agora revivido, purificado, e redimido.
2.6.2. Análise de Gênero Literário e Propósitos Centrais
O livro de Ezequiel possui uma série de características marcantes, em especial por se tratar de um material do Antigo Testamento. Antônio Gusso (2014, pp. 92-93) aponta no livro uma estrutura equilibrada, sem interrupções, consistência interna ancorada no evento da queda de Jerusalém, unidade de estilo e linguagem, e um modo de escrita permeado com o caráter e personalidade do profeta em todos os seus escritos. Se por um lado esta formatação unificada e sólida, que mescla elementos autobiográficos e numerosos oráculos, permite ao livro uma clareza pouco percebida em outros textos antigos, por outro, tende a tornar a leitura repetitiva e pesarosa, em especial para novos leitores, indoutos do cenário histórico de Ezequiel.
Ainda sobre o propósito e temática do livro de Ezequiel como um todo, John Taylor (1984, pp. 38-44) oferece cinco assuntos recorrentes na prosa, poesia e oráculos do profeta: a transcendência de Deus, como nas visões do trono divino; a pecaminosidade de Israel, relatando a persistente infidelidade de Israel à aliança de Deus; o fato do julgamento, com as advertências às desgraças que estavam prestes a recaírem sobre o povo; a responsabilidade individual, tratando cada homem como único perante o Senhor; e a promessa de restauração, a ser usufruída por aqueles que, após redimidos e purificados, fariam parte de uma comunidade misericordiosamente restaurada pelo próprio Deus.
Acerca do gênero da perícope de Ezequiel 36.24-27, por este estar inserido no agrupamento dos versos 22 a 32, pode ser classificado como oráculo de restauração ou redenção, objetivado na santificação do nome do Senhor por meio da libertação final de Israel:
O retorno do exílio não será pelo mérito dos deportados, mas por virtude da preocupação de Yahweh com seu nome sagrado... o objetivo da existência é a "santificação" de Deus - o reconhecimento de Deus como ele é, com [...] [...] todas as suas ramificações - nunca pode ser suficientemente enfatizado. O oráculo da restauração (vs. 22-32) começa fazendo o mesmo ponto. O retorno do exílio não é por causa dos méritos de Israel; não é nem mesmo, basicamente, pelo bem de Israel, mas sim para vindicar o nome sagrado de Deus (BLENKINSOPP, 1990, p. 203, tradução livre).
A delimitação clara do oráculo observado (22-32), bem como a familiaridade do método e estilo de Ezequiel diminuem quase à nulidade os debates acerca da autenticidade do livro e das possíveis adições ou omissões ao determinado excerto. Por consequência, os versos 24 a 27 devem ser lidos em seu contexto oracular, como parte da ação monergista de Deus, que resgata o seu povo em fidelidade às Suas promessas anteriores e para dar glória ao Seu nome dentre todos os povos.
2.7. Análise Semântica
Consideradas a análise histórica, literária e gramatical do texto de Ezequiel 36.24-27, apresenta-se neste capítulo os avanços semânticos realizados em expressões-chave encontradas no texto, para sua adequada interpretação. Esta última etapa da pesquisa exegética se faz extremamente necessária na busca por uma leitura mais integrada entre texto e contexto, mitigando possíveis compreensões equivocadas de figuras de linguagem, coloquialismos, e ideias obscurecidas pela distância temporal e geográfica entre a origem do texto e seus pesquisadores atuais.
2.7.1. (v. 24) – tomarei vocês dentre as nações e ajuntarei vocês de todos os países
Para compreender que Deus “ajuntará o seu povo dentre as nações”, o leitor primeiramente deve assimilar as razões pela quais Israel se encontra disperso em meio a outros povos. E estes motivos, que aparecem alguns versículos antes no mesmo capítulo, dão a entender que se há algum merecimento no povo do Senhor, este está no castigo de suas ações perversas e pecaminosas. Lê-se em Ez 36.17-19:
Filho do homem, quando os da casa de Israel moravam na sua terra, eles a contaminaram com os seus caminhos e as suas ações. Aos meus olhos, o caminho deles era como a impureza da menstruação. Por isso, derramei o meu furor sobre eles, por causa do sangue que derramaram sobre a terra e por causa dos seus ídolos com que a contaminaram. Eu os dispersei entre as nações, e foram espalhados por outras terras; segundo os seus caminhos e segundo as suas ações, eu os castiguei (BÍBLIA, NAA, 2018).
O próprio Deus teria enviado sua nação escolhida para o exílio pela rebeldia, imoralidade e idolatria que apresentavam. Ainda assim, destaca Landon Dowden (2015, p. 359), o Senhor não os abandonaria em terras inimigas. Sua aliança, pela glória de seu próprio nome e por causa de sua misericórdia e graça, ainda vigorava sobre o seu povo. As perversas nações vizinhas apenas mantinham o domínio sobre Israel e Judá na medida em que Deus desejasse fazê-lo, e nem um segundo a mais. E o mesmo Deus que aplicou sua severa justiça ao permitir o exílio de seu povo, agora anunciava também a sua libertação final. Espelhando sua poderosa mão e grandioso coração demonstrados no Êxodo, mas indo ainda além, o oráculo divino dessa vez aponta para uma vitória definitiva e final sobre as trevas em sua totalidade.
A menção a “todos os países”, sinaliza que o profeta não apenas enxerga um futuro imediato, mas possui algo além em sua perspectiva, visto que Israel, na época do relato profético, ainda não havia sido dispersado com tanta severidade quanto em séculos (e milênios) posteriores, não podendo, obviamente, ser reunido na mesma medida. Logo, é possível inferir que Ezequiel ao menos se refere a um evento que ainda não havia ocorrido em sua completude, e que este apenas aconteceria plenamente quando os propósitos eternos e finais sobre o povo escolhido encontrassem seu derradeiro cumprimento (EXELL e SPENCE-JONES, 1985).
2.7.2. (v. 25) – Aspergirei sobre vocês águas limpas, e vocês serão limpos
A menção da purificação por aspersão de água no verso 25 apenas faz sentido se integrada ao background sacerdotal de Ezequiel. Rituais como a purificação de casas atingidas por pragas e leprosos curados de sua doença, como relatados em Levítico 14, contam como elemento central, a aspersão de água misturada com sangue de animais para a limpeza final das chagas acometidas. Aqueles que tinham contato com cadáveres, segundo o relato de Nm 19.11-22, também necessitavam de passar pela aspersão de água para a sua descontaminação.
A consagração de levitas também se iniciava por meio da aspersão de água. Em Nm 8.7 (BÍBLIA, NAA, 2018), lê-se as instruções claras que Senhor dá a Moisés: “Faça o seguinte para purificá-los: você aspergirá sobre eles a água da expiação; e eles farão passar a navalha sobre todo o corpo deles, lavarão as suas roupas e se purificarão”. Esta prescrição contida na Lei, e posteriormente trabalhada pelos profetas, possivelmente é a responsável pelo uso de água na admissão de prosélitos ao judaísmo séculos mais tarde. E sua menção por Ezequiel fornece um meio de compreender o desejo divino por pureza na vida não apenas do coletivo, mas também de forma individual e transformadora (BARNES, 1834).
Muito além do que uma limpeza externa, as três menções à palavra hebraica טָהוֹר (tahor – limpo, puro) encontradas no verso 25 apontam para um estado de pureza moral e espiritual obtidas neste processo de purificação. Joseph Blenkinsopp amplia esta ideia:
A limpeza simbólica com água não é apenas um ato ritual rotineiro. Ela significa o fim de um período de desordem (impureza) e o início de uma nova fase de existência. Este é claramente o sentido na passagem presente: a renúncia a um passado desordenado e idólatra e um começo totalmente novo (BLENKINSOPP, 1990, p. 345, tradução livre).
Landon Dowden (2015, p. 361) denota que nesta purificação, Deus não pede ao povo que limpem-se e venham até Ele. Pelo contrário, o Senhor é quem ativamente reúne o seu povo e realiza sua purificação. Deus compreende que os seus escolhidos não apenas necessitam de perdão, mas também de limpeza e cura de todas as chagas e más práticas influenciadas por seu estado pecaminoso anterior. Esta ação divina de forma ativa não é realizada por merecimento algum de Israel (Ez 36.22), mas sim porque Deus decidiu fazer seu santo nome conhecido por meio da santidade de seu povo separado.
2.7.3. (v. 26) – Darei a vocês um coração novo e um espírito novo
Chega-se então ao clímax da mudança realizada por Deus no seio de Israel. Se em momentos iniciais o povo fora perdoado, reunido de sua dispersão, e purificado pelo próprio Senhor, nesta etapa se realiza aquilo que de fato mudará os caminhos da nação escolhida. Seus antigos corações duros e empedernidos, que rejeitavam escutar os preceitos do Senhor e render-se a Ele, são transformados em corações de carne, revividos, regenerados, e reiniciados para uma nova vida. E isto é anunciado ao povo em um paralelo quase literal do que havia sido relatado em Ez 11.14-20.
Sobre os vocábulos לֵב (lev – coração) e רוּחַ (ruah – espírito) John Taylor aponta a necessidade de uma interpretação cuidadosa:
Não são tanto partes da constituição do homem quanto aspectos da sua personalidade total. O coração inclui a mente e a vontade, bem como as emoções, é, na realidade,[...] [...] a sede da personalidade, a natureza mais interior do homem. O espírito é o impulso que o dirige e regula seus desejos, seus pensamentos, e sua conduta. Os dois serão substituídos e renovados; o coração que é teimoso, rebelde e insensível (o coração de pedras) por um que é macio, impressionável e responsivo (coração de carne), e o espírito da desobediência pelo Espírito de Deus (TAYLOR, 1984, p. 207)
Israel, por ter sido incapaz de fazer para si mesma um coração novo e um espírito novo (Ez 18.31), recebe então a promessa de ser alcançada por um Deus gracioso e zeloso com sua própria glória. Sem a operação desta divina graça, o povo escolhido jamais seria capaz de agradar e aprazer o coração do Senhor. Apenas na transformação iniciada e desempenhada primeiramente por Yahweh na ‘encarnação’ de seus corações petrificados é que o povo pode ser por em correta obediência e adoração a Deus, usufruindo de suas bênçãos eternas.
Esta promessa a Israel de transformação de corações de pedra em carne, como uma renovação de sua disposição interior moral e espiritual, segundo o Pulpit Comentary (EXELL e SPENCE-JONES, 1985), pode ser observada no texto bíblico de quatro maneiras: a) negativamente, no processo de remoção de um coração que não ouve a palavra do Senhor, nem a pratica (Zc 7.12); b) positivamente, como um novo coração dado para conhecer e seguir a Deus e seus preceitos (Jr 24.7 e 32.39); c) causativamente, na renovação interior acontecendo por ventura da habitação do Espírito em si ou pela impressão da Lei no coração (Jr 31.33); d) de forma prática, na manifestação desta mudança na observação dos juízos e estatutos de Deus.
John Goldingay (2019, p. 248) reafirma o misericordioso e glorioso propósito divino ao lembrar que “uma mente inerte, morta como pedra, será substituída por uma mente mais parecida com a carne viva, vital e animada, ou cheia de espírito... de modo que a distinção de Yahweh se refletirá na distinção do Seu povo”. A regeneração e transformação dos caminhos de Israel, além de habilitá-lo para receber e deleitar-se nas promessas de Deus de paz e prosperidade, também rendem glória ao nome do Senhor em meio ao paganismo e corrupção dos povos que cercam a nação.
A ideia da regeneração está bastante entremeada na Soteriologia de Ezequiel. Seja pelo teor de sua mensagem, ou por, ao menos três vezes, mencionar diretamente a expressão do verso 26 aqui analisada, pode-se elucubrar que o profeta visualiza claramente no processo de redenção do povo de Deus a necessidade de uma ação divina primeira, que transforme a disposição de Israel do mal para o bem. Apesar de o Senhor ir ao encontro de seus escolhidos em meio a tanta corrupção e desesperança, Ele não permite com que permaneçam desta forma, revivendo seus corações para que vivam em novidade de vida e obediência à santa obediência divina. "A salvação não é apenas informação, mas também transformação... A cirurgia no coração que Deus realiza produz uma mudança no desejo de Seu povo, e isto leva a uma mudança em suas ações” (DOWDEN, 2015, p. 362). Esta disposição para uma fé obediente e operante como marca da ação redentora interior de Deus no indivíduo segue presente no restante das Escrituras, especialmente no Novo Testamento.
2.7.4. (v. 27a) – Meu Espírito colocarei em seu interior
A grande promessa de habitação do Espírito de Deus nos corações não está presente em muitos escritos anteriores ao exílio. Porém, em períodos posteriores, esta esperança é expressa prolificamente, como nos casos de Ez 37.14 e 39.29, Is 44.3 Jl 2.28, Zc 4.6, além do verso em questão. Jeremias, apesar de não mencionar diretamente, fala de Yahweh escrevendo sua Lei no interior dos corações, dando teor parecido à sua mensagem, e no Novo Testamento, menções à um novo espírito comumente se relacionam com o Espírito divino. (MOULE, 2015).
Matthew Poole, em seu comentário bíblico de Ezequiel 36, expõe o vocábulo רוּחִ֖י (ruhi – meu Espírito), encontrado no verso 27, como sendo:
O Espírito Santo de Deus, que é a causa principal imediata dessa mudança de um coração antigo para um novo, e de duro para suave. Pela causa eficiente, podemos conhecer o efeito; e entender o que é um novo coração e o que é o novo espírito, quando sabemos que são produzidos em nós pelo Espírito de Deus, que é dado aos santos e habita neles, tornando-os santos, e depois permanece com eles (POOLE, 1985, tradução livre).
Não é de se surpreender que o caminho lógico do processo de regeneração se encerre na maravilhosa habitação interior do Espírito Santo. Por mais puros e revividos que estejam, as ações e impulsos dos corações dos homens precisam ser direcionados, sustentados, corrigidos e supridos pela operação ativa do Espírito de Deus constantemente presente no novo coração de carne daqueles que foram alcançados pela irresistível graça de Deus. Somente desta forma serão capazes de serem portadores de uma nova natureza que glorifica o nome do Deus redentor em todas suas proclamações e atitudes.
2.7.5. (v. 27b) – Farei com que vocês andem em meus estatutos
O povo de Israel reunido por Deus, purificado com água, portando novos corações de carne, e, agora, sendo habitação do Santo Espírito, passa uma última vez pela ação ativa de Deus, que os sustentará em obediência e observação de sua vontade. “A implantação do Espírito de Deus dentro deles transformará seus motivos e lhes capacitará a viver de acordo com os estatutos e juízos de Deus” (TAYLOR, 1984, p. 207). Enfim, o processo de santificação do nome do Senhor nas ações de seu povo escolhido encontra seu cumprimento, mais uma vez, na iniciativa graciosa do próprio Deus, que efetua neles tanto o querer, quanto o realizar (Fp 2.13).
Handley Moule (2015) salienta que o povo andará nos estatutos de Deus por estas serem expressões do próprio Espírito habitando dentro de si. Estas expressões podem aparecer tanto na forma de impulsos internos para cumprir a vontade divina, quanto na capacidade e poder de obedecer aos estatutos de Deus. Estes últimos não apenas se referem a atos externos, mas à totalidade da lei moral do Senhor, como exemplificada nos capítulos 18, 22, 33 e 34 do livro de Ezequiel.
A aliança mencionada no versículo seguinte à unidade textual analisada neste trabalho, “vocês serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (v. 28) finalmente se torna uma realidade em seu cumprimento bilateral iniciado, sustentado, e finalizado monergisticamente pelo Divino. E nesta Israel restaurada e reconstruída, por meio de sua obediência e do cumprimento das promessas divinas, todas as nações reconhecerão que apenas Yahweh, o Santo de Israel, é o Senhor sobre tudo que há.
3. A ORDO SALUTIS
Após a análise exegética ter sido concluída, faz-se necessário uma breve apresentação conceitual da ordo salutis e do posicionamento da regeneração nas reflexões lógicas acerca da salvação cristã, em especial quando sob a luz do texto observado neste estudo. Os esforços aqui empregados não pretendem esgotar as discussões acerca da ordem da salvação e seus processos, mas fortalecer a compreensão bíblica da primazia, pelo menos causal, da regeneração para toda a obra de redenção realizada na vida do cristão.
Em uma definição bastante clássica da ordo salutis, Louis Berkhof afirma que:
A ordo salutis descreve o processo pelo qual a obra de salvação, realizada em Cristo, é concretizada subjetivamente nos corações e vidas dos pecadores. Visa a descrever, em sua ordem lógica e também em sua interrelação, os vários movimentos do Espírito Santo na aplicação da obra de redenção. A ênfase não recai no que o homem faz, ao apropriar-se da graça de Deus, mas no que Deus faz, ao aplicá-la (BERKHOF, 2019, p. 408).
Na busca pelo fortalecimento de uma doutrina da salvação monergista, que evidenciasse a glória de Deus em Ele mesmo tomar a iniciativa na redenção do pecador, realizando-a e sustentando-a através de sua própria Palavra e Espírito, a concatenação lógica dos variados processos abarcados pela divina obra redentora e sua aplicação na vida do homem foi tida como urgente e essencial. Segundo Edenis Oliveira (2021, pp. 67-69), a própria luta pessoal de reformadores como Lutero, contra o status quo da teologia do Século XVI, pode ser resumida como uma busca por uma ordem da salvação que, de fato, refletisse o evangelho. Esta ordenação, de cerca maneira, opera como uma lente teológica fundamental, que pavimenta o processo de identificação cristã individual, e interfere na comunicação da fé aos descrentes.
Passando por uma observação histórica do termo, não é errado afirmar que o desenvolvimento de uma ordem da salvação que descrevesse a obra do Espírito Santo na aplicação da redenção fora uma construção teológica essencialmente localizada nos períodos da Reforma Protestante e Pós-reforma. Apesar de ter sido cunhado pelos luteranos Frank Buddeus e Jakobus Karpov, em meados do Século XVIII, suas origens são bastante relacionadas à João Calvino e seus esforços inéditos de sistematizar, ainda que de maneira simplificada, as distintas etapas da salvação cristã. Beza, Perkins, e outros de seus seguidores, no entanto, se dedicaram a desenvolver consideravelmente esta doutrina, elaborando melhor a definição de cada etapa processo. E com a interpretação de John Owen, a ordem da salvação chegou à sua formulação mais comumente adotada na teologia reformada, dando enfoque para o chamado eficaz e regeneração como anteriores a fé, diferentemente de outras linhas como a interpretação de Jacó Armínio e dos remonstrantes, que optava por colocar a fé como anterior à regeneração para dar ênfase à decisão humana (MCGOWAN, 2006, pp. 148-151).
É comum que a principal justificativa bíblica dada para este tipo de pensamento ordenado acerca da salvação encontre suas bases em Romanos 8.29-30, “aos que de antemão conheceu, também os predestinou... aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (BÍBLIA NAA, 2018). Ainda assim, é importante salientar que a aceitação destes esforços dentro do ambiente cristão não é monolítica. Ao menos três aproximações da ordo salutis são debatidas.
Primeiramente, há quem acredite que as Escrituras não apenas apontam para processos devidamente ordenados, mas explica minuciosamente quais processos são estes e em que ordem se realizam na vida do crente. John Murray é tido como o principal expoente desta perspectiva. No polo oposto, tem-se aqueles que desacreditam completamente de deduções escriturísticas acerca de uma ordem de salvação específica. Teólogos como G. C. Berkouwer preferem falar em um caminho da salvação, com elementos distintos entre si, mas não ordenados de forma rigidamente determinada. E por último, entrincheirados em uma linha mais intermediária, posicionam-se, em consonância com Louis Berkhof, aqueles que acreditam que, apesar de as Escrituras de fato não explicitarem uma ordo salutis completa, elas fornecem base suficiente e satisfatória para compreender que, apesar de a graça ser aplicada como um processo único na vida do pecador, a plenitude da salvação divina se dá em vários movimentos distintos e razoavelmente ordenáveis (HOEKEMA, 2011, p.25).
Seja qual for a relação adotada com a doutrina da ordem da salvação, ainda é possível afirmar que, mesmo nos ambientes de maiores ressalvas, “pode ser importante manter este conceito para esclarecer a natureza das várias doutrinas e proteger contra erros na relação postulada entre elas” (MCGOWAN, 2006, p. 163, tradução livre). Seguindo uma abordagem mais temperada, como a de Louis Berkhof, e submetendo quaisquer elaborações teológicas acerca da ordo salutis à autoridade da Palavra de Deus, entende-se que esta doutrina vai além de apenas possuir validade, auxiliando na prevenção de noções infundadas e pecaminosas de que a obra salvífica de Cristo em alguma medida pode ter sido merecida ou alcançada por seres humanos mortos em sua corruptibilidade.
3.1. A Regeneração na Ordem da Salvação
Um último destaque deve ser feito ao posicionamento da regeneração na ordo salutis. Conforme afirma Ronald Hanko (2004), há diversas coisas na perspectiva reformada da ordem da salvação que não podem ser alteradas e necessitam de ênfase especial. Dentre estas, há que a regeneração e o chamado eficaz precisam ser colocados anteriormente à fé, de modo a evitar compreensões da fé como obra humana, e, por conseguinte, também anteriores à justificação, para que seja mantida a verdade protestante da justificação somente pela fé.
Em harmonia com aquilo que já foi tratado neste trabalho a respeito da regeneração como a transformação de corações de pedra, mortos e inertes, em corações de carne, vivificados e latentes pelo Espírito de Deus e à obediência de Sua vontade, percebe-se que a visão reformada da regeneração se põe como princípio causal de toda redenção do pecador. Herman Bavinck belamente descreve a regeneração ao dizer que:
Ela é mais do que uma mudança de consciência, uma iluminação da mente ou até mesmo uma reforma de conduta, embora incluía tudo isso. Não devemos nos satisfazer com a noção gnóstica de redenção como a libertação do eu interior da “carne” ou da matéria. O racionalismo e o misticismo também não podem fornecer uma interpretação correta da regeneração. É útil reconhecer um uso mais amplo e um uso mais estrito do termo “regeneração”. No sentido mais amplo e mais pleno, a regeneração se refere à total transformação de uma pessoa; no sentido restrito, ela tem em vista a implantação da nova vida, que, então, conduz à conversão e à santificação (BAVINCK, 2019, p. 32).
Os teólogos reformados não colocam a regeneração, juntamente com a vocação eficaz, como início da ordo salutis por mera convenção teológica. Trata-se de um apontamento da aplicação da obra redentora de Cristo na vida do pecador como, já em seu inicio, uma obra do próprio Deus. Ainda que não cronologicamente, mas de maneira causal, o ato recriador que o Divino realiza no subconsciente daquele que foi alcançado pela graça, isto é, a regeneração, precede aquilo que é realizado na vida consciente do indivíduo, a sua conversão e os atos judiciais de Deus (justificação, perdão e adoção) (BERKHOF, 2019, pp. 410-412).
Na teologia do Novo Testamento, em aparente consonância ao que é encontrado em Ezequiel 36, a regeneração (ou novo nascimento, como aparece mais numerosamente) é tida como basilar naqueles que foram alcançados pelo Evangelho. Sem o novo nascimento, ninguém pode ver ou entrar no Reino de Deus (João 3.3,5). A prática do amor, da justiça, e da santidade, e a própria crença em Jesus como o Cristo, são tidas como resultantes do novo nascimento naqueles que o receberam (1 João 2.29; 3.9; 4.7; 5.1). E esta nova vida foi recebida não em meio à uma prerrogativa de iniciativa humana, mas em meio à morte em transgressões e pecados. Uma vida que é dada livre e espontaneamente por Deus, em iniciativa unicamente Sua para louvor de sua glória (Efésios 2.1-8).
Anthony Hoekema (2011, p. 27), mesmo em meio às suas críticas quanto à delimitação da ordo salutis, compreende que a regeneração necessariamente precede a conversão, em uma relação ao menos de prioridade causal, quando esta é definida como “o trabalho do Espírito Santo por meio do qual ele inicialmente nos leva a uma viva união com Cristo e transforma nosso coração de forma que nós, que estávamos espiritualmente mortos, nos tomamos espiritualmente vivos”. Esta não apenas parece ser uma definição adequada para a regeneração, mas também reflete em muito o conceito encontrado na Soterologia do profeta Ezequiel, ao destacar uma vivificação iniciada, realizada e sustentada pelo próprio Deus, que purificaria o seu povo escolhido, apesar de qualquer imerecimento, a ponto de serem habitados pelo Seu Espírito, e de viverem em santa obediência à Sua vontade.
4. CONCLUSÃO
Este trabalho esforçou-se para compreender mais acuradamente a Soteriologia do profeta Ezequiel por meio da análise exegética de Ez 36.24-27, entendendo suas implicações para a compreensão reformada da ordo salutis, em especial, no posicionamento da regeneração como precedente à conversão. Isto não foi feito na pretensão de, com este trabalho, esgotar a discussão acerca da validade e correta ordenação da ordo salutis, mas sob o objetivo de fortalecer a fundamentação bíblica da doutrina reformada da regeneração a partir da devida interpretação do texto em questão. Em virtude da brevidade deste estudo, a comparação entre diferentes sistemas de ordenação sistemática da doutrina da salvação, bem como a implicação do texto de Ezequiel para suas organizações, foi deixada para trabalhos futuros.
Utilizando-se de ferramentas hermenêuticas e do cruzamento de bibliografia relevante foi possível observar que, em um contexto de sofrimento e exílio, Deus anuncia pelo profeta uma mensagem de esperança e vivificação que vai além do merecimento e capacidade de Israel de cumprir sua aliança com o Senhor, em um movimento muito similar à doutrina neotestamentária. As etapas da redenção do povo de Israel também se fizeram bem definidas na percepção do texto, demonstrando que, a não ser que Deus tome primariamente a iniciativa, os corações continuarão petrificados, impuros e em rebelião e desobediência aos preceitos divinos. Ao reunir, o Senhor, o seu povo, e perdoando-o e purificando-o de todo seu pecado, Deus provê amorosamente um novo coração, uma nova vida, não apenas habilitada à obediência e temor do Senhor, mas para servir de habitação ao seu próprio Espírito. O oráculo de restauração analisado talvez tivesse seu significado imediato para sua audiência que ansiava pela libertação do cativeiro babilônico, mas, definitivamente encontra seu cumprimento último na realização dos propósitos de Deus para todos os seus escolhidos em seu plano de redenção.
O apóstolo Paulo aplica de forma magistral o conceito da regeneração como iniciativa da graça divina e motivadora de uma vida de obediência ativa à vontade de Deus em sua Epístola a Tito, ao dizer que:
...nós também, no passado, éramos insensatos, desobedientes, desgarrados, escravos de todo tipo de paixões e prazeres, vivendo em maldade e inveja, sendo odiados e odiando-nos uns aos outros. Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra, e quero que você fale ousadamente a respeito dessas coisas, para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas para todas as pessoas (TITO 3.3-8, BÍBLIA, NAA, 2018).
Corações que outrora estavam empedernidos pelo pecado e pela morte, imerecedores de qualquer bondade e misericórdia divinas, hoje, por causa de um Deus que tanto os amou, se encontram em novidade de vida, purificados por Deus, habitados por Ele, e reunidos em celebração e ansiosa espera do cumprimento de suas santas promessas. Que todo cristão possa apresentar uma fé de obediência viva e influente àqueles que os cercam, marca de todo aquele alcançado pela salvação do Senhor em Cristo Jesus, de modo que seu chamado seja confirmado, como em Ezequiel 36.28, ao ouvirem que: – Vocês são o meu povo, e Eu sou o vosso Deus.
Notas
[1] Especialista em Teologia pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ). Pós-graduando em Teologia Sistemática pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards (STJE). Bacharel em Engenharia Civil pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) com período sanduíche em California State University, Long Beach (CSULB). Bacharelando em Teologia pela Faculdade Teológica Betânia (FATEBE) e pelo Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão Curitiba (SPS). vinibmac@gmail.com
[1] Especialista em Teologia pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ). Pós-graduando em Teologia Sistemática pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards (STJE). Bacharel em Engenharia Civil pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) com período sanduíche em California State University, Long Beach (CSULB). Bacharelando em Teologia pela Faculdade Teológica Betânia (FATEBE) e pelo Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão Curitiba (SPS). vinibmac@gmail.com
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