Genealogias no Pentateuco: funções e contextos de um gênero esquecido

Genealogias no Pentateuco: funções e contextos de um gênero esquecido

Douglas Alves de Sousa[1]

Resumo

Resumo: As genealogias estão presentes em muitas partes da Bíblia, sobretudo da Bíblia Hebraica/Antigo Testamento. Ainda que para nós do ocidente, no século XXI, este tipo de texto soe enfadonho, difícil e desinteressante, tal mentalidade nos impede de perceber como as genealogias eram essenciais e valiosas para as sociedades da antiguidade e para o texto bíblico em si. Nossa tarefa neste artigo é analisar as genealogias do pentateuco de forma breve e sucinta tendo por objetivo perceber sua relevância e importância para uma compressão adequada dos livros bíblicos e sua história.

Palavras-chave: Genealogias; Pentateuco; Função; Gênero literário

Abstract: Genealogies are present in many parts of the Bible, especially in the Hebrew Bible/Old Testament. Although for us in the West, in the 21st century, this type of text may seem boring, difficult and uninteresting, such a mentality prevents us from realizing how essential and valuable genealogies were for ancient societies and for the biblical text itself. Our task in this article is to analyze the genealogies of the Pentateuch in a brief and succinct way, with the aim of perceiving their relevance and importance for an adequate understanding of the biblical books and their history.

Keywords: Genealogies; Petateuch; Function; Literary genres

Resumo: As genealogias estão presentes em muitas partes da Bíblia, sobretudo da Bíblia Hebraica/Antigo Testamento. Ainda que para nós do ocidente, no século XXI, este tipo de texto soe enfadonho, difícil e desinteressante, tal mentalidade nos impede de perceber como as genealogias eram essenciais e valiosas para as sociedades da antiguidade e para o texto bíblico em si. Nossa tarefa neste artigo é analisar as genealogias do pentateuco de forma breve e sucinta tendo por objetivo perceber sua relevância e importância para uma compressão adequada dos livros bíblicos e sua história.

Palavras-chave: Genealogias; Pentateuco; Função; Gênero literário

Abstract: Genealogies are present in many parts of the Bible, especially in the Hebrew Bible/Old Testament. Although for us in the West, in the 21st century, this type of text may seem boring, difficult and uninteresting, such a mentality prevents us from realizing how essential and valuable genealogies were for ancient societies and for the biblical text itself. Our task in this article is to analyze the genealogies of the Pentateuch in a brief and succinct way, with the aim of perceiving their relevance and importance for an adequate understanding of the biblical books and their history.

Keywords: Genealogies; Petateuch; Function; Literary genres

Artigo

1. Introdução

As genealogias eram muito importantes nas sociedades do mundo antigo, fossem em ambientes predominantemente orais ou escritos e não seria diferente para aqueles que escreveram a Bíblia hebraica. O pentateuco, em especial, contém grande material genealógico. Nosso artigo tomará o caminho de iniciar conceituando o que é genealogia e delineando seus formatos. Depois mostrará algumas das principais genealogias conhecidas do antigo oriente próximo, excetuando-se as da Bíblia hebraica, apresentando suas principais ênfases e funções naquele contexto histórico-social. A partir disso, analisaremos as genealogias bíblicas do Pentateuco observando quais papéis históricos, sociais, políticos, literários e teológicos tais textos desempenham em seus respectivos contextos. Esperamos que este trabalho sirva para avanços hermenêuticos ao ajudar os leitores e estudantes a compreenderem cada vez melhor o texto bíblico.

2. O que são genealogias?

Genealogia pode ser entendida como uma lista de ancestrais ou na definição clássica de Robert R. Wilson como uma expressão oral ou escrita dos descendentes de alguém ou de seus antepassados. É importante notar que genealogias são um tipo de lista e listas são incluídas em diversas narrativas da Bíblia Hebraica. Nas palavras de Klein, Blomberg e Hubbard tais listas são: [2][3][4]

Uma relação de nomes ou itens cujas características em comum permitem a sua classificação lógica. No mundo antigo, fazer listas era uma prática comum. Às vezes essas listas serviam como meio de contabilidade ou controle de inventário; outras vezes elas funcionavam como uma classificação primitiva de fenômenos observados. As narrativas do AT incluem listas que refletem uma atividade semelhante no Israel antigo: e.g., listas de espólio (Nm 31:32-40), ofertas votivas (Êx 35:5b-9; cf. v. 21-39), cidades israelitas (Js 15—19), membros da guarda real (2Sm 23:24-29), e oficiais do rei (1Rs 4:2-6, 8-19).

Apesar de as genealogias serem listas isto não significa que sejam sempre iguais ou registradas do mesmo modo. Três distinções podem ser destacadas em suas variações: a) as listas genealógicas podem ser registradas sob formatos linear ou segmentado; b) focadas nos ancestrais (para trás) ou nos descendentes (para a frente); c) podem ser patrilineares ou matrilineares. [5]

O formato linear é aquele no qual é informado uma pessoa por geração (e.g Adão gerou Sete), enquanto a segmentada informa mais de uma pessoa por geração, apresentando vários filhos/irmãos (e.g Isaque gerou Esaú e Jacó). Desta maneira, as genealogias lineares respondem a questões de vasta amplitude (quantas gerações anteriores ou posteriores da história da família serão descritas?) enquanto as genealogias segmentadas lidam com a profundidade (quantos membros/irmãos vão ser listados dentro de uma geração?). Quanto à direção temporal, toda lista genealógica será registrada a respeito dos antepassados (quem foi gerado de quem) ou dos descendentes de alguém ou algum grupo. Além disso, a informação de como a geração foi sendo multiplicada vai ter como foco o pai, sendo patrilinear, ou das mães, sendo matrilinear. Eventualmente, uma mesma genealogia pode ser registrada contendo mais de um destes polos opostos, ou seja, podendo ser linear e conter trechos segmentados, ou ser patrilinear mas a certa altura falar das mães. Isto mostra que as genealogias se comportam com certa flexibilidade nos seus formatos e direções, a depender dos seus propósitos.

Uma outra característica comum a muitas genealogias antigas é a fluidez. Isto significa que nomes, parentescos ou posições podem variar nas genealogias a depender de seus propósitos e ênfases, geralmente mudando a sequência dos nomes nas genealogias lineares ou reordenando as relações nas segmentadas. John Walton diz que essas mudanças normalmente apontam para “realidades mutáveis ​​ou tentativas polêmicas de moldar as realidades presentes por pessoas que buscam apoiar suas agendas políticas, sociais ou religiosas” e que essa convenção também era comum porque “como nomes são continuamente adicionados ao final de uma lista, outros nomes serão descartados ou mesclados”. Citando Josefo, Walton nos lembra que esse tipo de fluidez era comum na relação entre judeus e samaritanos no século 1 da nossa era: [6][7]

Pois tal é a natureza dos samaritanos… Quando os judeus estão em dificuldades, eles negam que tenham qualquer parentesco com eles, admitindo assim a verdade, mas sempre que veem algum pedaço esplêndido de boa sorte chegar até eles, eles de repente se agarram à conexão com eles, dizendo que são parentes deles e traçando sua linhagem de volta a Efraim e Manassés, os descendentes de José” (Josefo Ant. 11.341)

Desta maneira, Josefo mostra como os samaritanos se viam livres para se entrelaçar ou se separar de laços com os judeus, evidenciando alguma fluidez. Na próxima seção, discutiremos se esta convenção significa que as genealogias são criativas, inventivas, pouco precisas e não confiáveis. [8]

Contudo, antes de encerrarmos este tópico de apresentação do conceito geral de genealogia, uma ilustração em termos modernos e de realidades mais próximas pode ajudar a nossa compreensão. Walton ilustra as genealogias antigas, em toda a sua fluidez, variações lineares e segmentadas, sentidos ascendentes ou descendentes com um exemplo útil da estrutura ou hierarquia de uma corporação. Um olhar linear indicaria o meu chefe, o chefe dele e seguiria até o CEO ou presidente da empresa. Neste caso, níveis poderiam ser omitidos sem nenhum problema e um funcionário poderia ignorar vários superiores e informar o CEO como seu chefe. Já uma visão segmentada assinalaria os diversos departamentos começando do presidente, passando para o vice, descendo até os níveis mais inferiores. Nestas circunstâncias, às vezes uma equipe é reorganizada, alguns funcionários podem mudar de departamentos, ou exercer mais de uma função estando debaixo de mais de um chefe ou sobre mais de uma pessoa/equipe. Essas dinâmicas incluem ainda pessoas que são promovidas ou demitidas e refletem realidades atuais e dinâmicas, mas não a história da corporação, nem ter valor historiográfico em um primeiro momento, ainda que possa ser consultado para tais fins. Organogramas de empresas como os citados acima devem estar abertos a mudanças de modo a refletir novas situações e relações, e poderia ser classificado como errado ou inventivo ao não refletir as realidades atuais. [9]

3. Genealogias no antigo oriente próximo

As genealogias aparecem em variados documentos na antiguidade e, para nossos propósitos, focaremos naqueles que faziam parte das culturas do Antigo Oriente Próximo e que nos legaram importantes listas como os sumérios, babilônios, assírios e egípcios. Apesar de haver exceções, essas genealogias não costumavam ser extensas e apareciam como inserções breves, algo distinto do seu uso na Bíblia Hebraica. As genealogias que chegaram até nós do Egito trazem informações especialmente sobre as famílias reais e sacerdotais, num aspecto linear sobre os descendentes da família até o membro mais recente. Os registros estão escritos principalmente em monumentos como templos, tumbas e murais, mas, ainda assim muito desse material se encontra fragmentado ou apagado. Havia um foco na lista ser patrilinear, entretanto mulheres poderiam ser incluídas também. É válido ressaltar que existiam também genealogias das divindades, já que se acreditava que certos deuses haviam dado origem a outros deuses. Embora a maior parte do nosso conhecimento sobre as genealogias do antigo Egito advenham de inscrições em edifícios, também temos o relato de Mâneto que, sendo historiador e sacerdote egipcio do século 3 a.c, escreveu um tratado sobre a história e cronologia das dinastias egípcias, mas que hoje sobrevive apenas em citações de outros autores. O principal propósito destas genealogias parece ter sido o de emprestar legitimidade e autoridade para os membros do presente a partir da importância dos antepassados.[10][11][12][13][14][15]

Exemplos da região mesopotâmica incluem a lista de reis sumérios, o Enuma Elish, a genealogia da dinastia de Hamurabi e a lista dos reis assírios. Muitas das cópias dessas genealogias foram escritas em cuneiforme e preservadas em tábuas de argilas sendo mais comum do que no Egito a versão genealógica segmentada, na qual é indicada múltiplos descendentes de um ancestral com uma proeminência patrilinear maior que no Egito. A lista dos reis da Suméria, por exemplo, são:

Dezenove cópias fragmentadas da lista dos reis e não existem sequer duas iguais. No entanto, há suficientes dados compartilhados que permitem entender que elas tiveram origem em um relato comum da história suméria. A lista dos reis é essencialmente um registro real de oito governantes sumérios que viveram nas eras pré e pós-dilúvio. Depois do dilúvio, os reis que governavam as cidades-estado assumiram o poder sobre os outros. O mais antigo governante relacionado, cuja historicidade foi arqueologicamente verificada, é En-me-brarage-si de Kish (c. 2600 a.C.), portanto é plausível que o documento contenha algumas figuras históricas que foram posteriormente mitificadas.[16]

Para nosso objetivo, é importante notar como essa lista “fornece uma sequência unificada, porém seletiva, de dinastias que se sucedem e substituem umas às outras.’’ concedendo aos governantes pós-catástrofe diluviana uma noção de continuidade e legitimidade em paralelo com a realeza pré-diluviana. [17]

Já o conhecido poema Enuma Elish, preservado em cuneiformes acadianos na biblioteca assíria de Assurbanipal, parece representar uma versão babilônica da origem do cosmos e dos deuses. Este poema, em suas linhas iniciais, versa sobre quando, em meio às águas primordiais, Apsu e Tiamat, deram origem (e função) a elementos do universo e outros deuses. Isso pode ser visto também como uma forma de lista genealógica sobre a qual Walton, citando J. Assmann, diz que “Os deuses tinham nomes, genealogias e toda uma gama miticamente revelada de funções; eles tinham um ‘portfólio’, uma esfera de competências cósmicas, vegetativas ou culturais; e finalmente tinham locais de culto de onde exerciam seu domínio terrestre”. Sob essa perspectiva é fácil notar que nestas culturas as genealogias escritas eram algo reservado para seres importantes e de autoridade, tanto os deuses, quanto famílias de sacerdotes ou dinastias da realeza. É interessante relacionar isto com o que G.N. Knoppers comenta ao afirmar que “Genealogias, sejam de Israel, Egito, Mesopotâmia, Fenícia ou Grécia, não são simplesmente compilações de material tradicional, mas são afirmações sobre identidade, território e relacionamentos’’. Aqui ele fala sobre as genealogias humanas, porém é intrigante que o mesmo sirva para as genealogias divinas já que dentro desses relatos os deuses são localizados, mapeados e classificados em diferentes funções no universo a partir de sua origem, seus relacionamentos e sua identidade. [18][19][20]

A genealogia de Hamurabi, também chamado de Hammurapi, é reconstruída a partir de diversas listas, inscrições e documentos administrativos, o que torna o assunto complexo. Ao esquematizar uma genealogia é possível verificar que segue um padrão linear, patrilinear e nas origens mais remotas dessa linhagem reside uma associação com os amoritas e com a ascendência de deuses. Como não é difícil de ver, isso reforçava a autoridade do governador, pois tem seu poder vindo tanto de importantes antepassados quanto dos deuses. A lista dos reis assírios, compilada entre os séculos 10 e 8 a.c, reflete as mesmas características e formatos das listas acima, principalmente a de Hamurabi. Muitas outras linhas genealógicas são conhecidas da antiguidade e, além de legitimar a autoridade dos reis ou sacerdotes, também preservavam a memória destes ancestrais.[21][22][23]

Um outro ponto altamente relevante para este assunto tem a ver com o funcionamento e preservação das genealogias em culturas orais. Os estudos feitos em sociedades orais contemporâneas indicam que elas possuem claros limites de comprimento e profundidade, são marcadas por certa fluidez e são preservadas e transmitidas mais por propósitos sociais atuais do que por razões históricas. Neste caso, a pesquisa antropológica lida com sociedades tribais:[24]

onde o parentesco é a estrutura da sociedade. No nível individual, os laços de parentesco de uma pessoa servem como base para direitos e obrigações. Genealogias lineares oferecem uma compreensão dos laços de parentesco de um indivíduo e, como tal, funcionam como a base de reivindicações de poder, status, classificação, cargo ou herança[25]

Já no nível coletivo, as genealogias expressam o relacionamento atual entre tribos e clãs (disputa, guerra, tensão, acordo, proteção). Isso, é claro, nos leva a questão da possibilidade de tratar as genealogias antigas como confiáveis para um conhecimento histórico. Como já foi dito anteriormente, um dos principais propósitos das genealogias, tanto em culturas orais quanto escritas, tinha a ver com as relações e situações contemporâneas, não um foco preciso do passado. No entanto, podemos concordar com os estudos antropológicos de R.R.Wilson ao reconhecer que:

Embora não tenhamos visto nenhuma evidência antropológica indicando que as genealogias são criadas com o propósito de fazer um registro histórico, as genealogias podem, no entanto, ser consideradas historicamente precisas no sentido de que frequentemente expressam relacionamentos domésticos, políticos e religiosos reais. Elas são, portanto, fontes potencialmente valiosas para o historiador moderno. No entanto, a natureza da genealogia exige que a questão do valor historiográfico seja feita em cada caso individual, pois somente dessa forma as complexidades da forma e função genealógicas podem ser levadas em consideração. Ao lidar com a questão do valor historiográfico da genealogia, nenhuma generalização é possível.

Também é apropriado acrescentar que as genealogias orais eram/são mais fluidas do que as escritas, o que sugere que ao serem registradas por escrita, uma genealogia assumia mais estabilidade e passavam a ser reconhecidas e tratadas como algo historicamente confiável, além de refletir a “realidade de que genealogias escritas serviam para funções diferentes das orais.”[26]

4. Genealogias no pentateuco

Nossa pesquisa agora passará a focar nas genealogias presentes no pentateuco, o conjunto inicial de livros na ordem canônica da Bíblia Hebraica/Antigo Testamento. Mas antes de abordarmos os textos, é necessário apresentarmos as principais funções das genealogias no texto bíblico. A medida que os textos e contextos forem expostos, as funções serão mais detalhadas e aprofundadas. O seguinte resumo das principais funções vem da clássica obra de Marshall D. Johnson: [27]

Função social coletiva, que envolve estabelecer a identidade e relação de um grupo em relação a outros;

Função legitimadora individual, ligada a estabelecer direitos, privilégios e benefícios que alguém pode receber ao estar conectado ou inserido em algum grupo/família;

Função teológica, quando uma genealogia conecta pessoas a antepassados com fins espirituais ou religiosos;

Função histórica, ao fornecer informações do passado ordenadas para compreensão do presente;

Função literária, quando dentro de um quadro narrativo mais amplo, desempenha um papel crucial no movimento das histórias;

Função esquemática, ao organizar a história do mundo em ciclos/etapas;

Função militar, quando classifica homens do clã ou tribo a serem recrutados para serviço militar.

Após reconhecermos as múltiplas funções genealógicas, estamos preparados para nos voltarmos para o texto do pentateuco.

O pentateuco é um bloco literário composto de 5 livros tradicionalmente atribuídos a Moisés, tendo sido compostos totalmente ou em sua maior parte por volta do século 15 a.c ou 13 a.c. Este bloco conta uma história que começa com Deus criando o cosmos e a humanidade, passa pela rebelião humana contra Deus, dispersão humana pela terra, chamado de Deus a Abraão e início do povo de Israel a partir de seus descendentes que se tornam escravos no Egito e, ao serem libertos, são conduzido para a terra que Deus havia lhes prometido, Canaã. Esta longa história implica em um grande período de tempo e um enorme crescimento populacional, de modo que Gênesis, Êxodo e Números lidam e registram. É a isto que daremos atenção nesta seção.[28]

4.1 Genealogia em Gênesis

Nas palavras de Dillard e Longman, Gênesis é comparável a uma pizza que pode ser dividida em mais de uma maneira, mas a melhor estrutura para repartir o livro tem sido vista como sendo por meio da fórmula hebraica ‘elleh tôlĕdôt, com a segunda palavra vindo de um verbo com a ideia de “dar a luz’’, fazendo com que a ideia da frase seja traduzida como “essas são as gerações de x” ou “essa é a história da família de x’’. Após o prólogo inicial de Gn 1:1-2:3 essa frase aparece organizando o livro em dez seções (Gn 2:4; 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1; 37:2) sendo seguida por um nome pessoal, com exceção da primeira ocorrência em 2:4. Há um debate sobre se a fórmula tôlĕdôt está concluindo as seções ou abrindo novas, contudo neste artigo seguiremos a interpretação de que ela abre um novo ciclo. Essas fórmulas podem introduzir “listas genealógicas (por exemplo, Gn 5:1; 11:10) ou narrativas (e.g Gn 37:2), governar seções maiores (e.g Gn 25:19—35:29) ou menores (e.g Gn 25:12-18) do livro”, porém algo comum a todas é que apesar de a expressão ser seguida por um nome pessoal, a figura principal da seção nunca é o ancestral titular. Em relação ao formato, dentro de Gênesis há tanto listas lineares quanto segmentadas. As lineares aparecem com o objetivo geral de “estabelecer pontes entre eventos principais’’; já as listas segmentadas apontam para o lugar e a legitimidade dos descendentes de uma família em relação aos outros grupos.[29][30][31][32][33][34]

Começamos a notar, então, que as genealogias cumprem um papel vital no livro de Gênesis. Além da divisão de Gênesis pelas tôlĕdôt, também é comum dividir o livro em duas grandes seções, a História Primitiva de Gênesis 1-11 e a História Patriarcal de 12-50. Essas duas formas de abordar e dividir o livro são comuns e possíveis, pois o livro é um composto de genealogias e narrativas. A divisão em história primitiva e patriarcal pode ser feita por questões históricas, formas das narrativas ou motivos teológicos (e.g aliança de Deus com Abraão), mas é interessante que essa divisão, de História Primitiva e Patriarcal, também nos revele algo sobre as genealogias. Na seção Gênesis 2:4—11:26 encontramos cinco blocos de tôlĕdôt e de 11:27—50:26 encontramos mais cinco formando assim um contorno estrutural em que cada ciclo de cinco gira em torno de um centro — o tôlĕdôt de Noé (Gn 6:9—9:29) e o tôlĕdôt de Isaque/Jacó (Gn 25:19—35:29). Esses dois grandes ciclos de cinco “histórias da família/das gerações’’ são marcados por estratégias literárias específicas indicando uma simetria artística. Por exemplo, há um padrão estilizado nas genealogias da história primitiva de dez gerações de Adão a Noé em Gn 5:3-32, e dez do filho de Noé, Sem, até Abraão em Gn 11:10-26, além disso vincular os relatos da criação ao do dilúvio. Na história patriarcal, há uma sequência alternada de eleição/ não eleição/ eleição, pois as gerações são apresentadas na sequência de Terá/Abrão(eleito)—Ismael(não eleito)—Isaque/Jacó(eleito)—Esaú(não eleito)—Jacó/José (eleito) esquematizando a família de Jacó na história do pentateuco de forma central. Wenham demonstra que “Ambas as seções contêm três seções narrativas e duas genealogias. Isso é significativo, pois mostra que essencialmente a primeira seção antecipa a segunda, de modo que não podemos realmente entender os capítulos iniciais sem entender os capítulos posteriores e vice-versa.”.[35][36][37][38]

Ainda dentro desse aspecto estrutural do livro, a tôlĕdôt funciona como uma leitwort, ou seja, uma raiz lexical ou radical verbal que ao ser repetida muitas vezes forma um senso de unidade, continuidade ou movimento entre as partes. Segundo Steiner “os títulos tôlĕdôt colocam toda a história do pentateuco em movimento ao focar no relato contínuo de uma linha de promessa eleita estreita com uma semente providencialmente preservada que vai desempenhar um papel vital papel na mediação da bênção de Deus a todas as nações’’. Isso faz sentido porque o quadro geral de Gênesis envolve narrativas e genealogias que avançam e por isso J. Wright vê que a narrativa se desenvolve linearmente segundo uma estrutura genealógica “do céu e da terra a Adão, a Noé, aos filhos de Noé e a Sem. As narrativas que ocorrem entre a fórmula genealógica ‘preenchem’ as genealogias. O livro começa com expansões narrativas dentro de sua estrutura genealógica fundamental.’’[39][40][41]

As genealogias também cumprem funções teológicas ao demonstrar a benção de Deus ao frutificar a descendência humana e também nos leva a focar nos personagens que Deus está elegendo para usar em seu plano; muitas vezes eles são os últimos a serem mencionados na lista e logo depois há narrativas explorando sua vida. Deste modo, aqueles que não foram eleitos não possuem narrativas expandido as suas genealogias. Assim, J. Wright observa que:

O tôlĕdôt de Isaque (Gn 25:19) segue imediatamente Ismael (Gn 25:12-18), e Jacó (Gn 37:2) segue imediatamente Esaú (Gn 36:1—37:1). Nesses casos, literalmente nenhum espaço narrativo resta para desenvolver as genealogias anteriores para estender a narrativa. O enredo deve mudar para a genealogia seguinte.

É importante agora nos voltarmos para as genealogias de Gênesis baseado nas funções das genealogias bíblicas que mencionamos acima. Listas de genealogia lineares como a de Caim em Gn 4:17-19 dão continuidade à narrativa, concluem com um personagem cuja história é expandida e demonstram um avanço da crueldade iniciada no ancestral Caim. O registro da descendência geral de Adão em Gênesis 5:1-31 é linear e faz uma ligação entre Adão até Noé, do fundador da humanidade até o refundador ligando não só personagens como eventos importantes. A sequência das idades nesta etapa também fornece uma organização da criação até o dilúvio em ciclos e pode-se notar aqui que em contraste com a linhagem de Caim propagando o pecado, o foco é a longevidade e frutificação que vem de Deus pela linhagem de Sete, na qual Deus começou a ser invocado, sendo marcante que nesta sequência de 10 pessoas até Noé, o sétimo seja Enoque, o único a receber um comentário, para além da sua idade e filiação, mostrando algo extraordinário sobre ter andando com Deus e ter sido tomado, o que perturba o refrão “e ele morreu” anexado a todas as outras gerações. A próxima história familiar é de Noé, iniciada em Gn 6:9 e encerrada em Gn 9:28. Na abertura e no fechamento somos apresentados aos seus três filhos, sempre na ordem Sem, Cam e Jafé, provavelmente indicando ordem de importância na história subsequente e também para a tabela das nações no capítulo 10, a tôlĕdôt seguinte. [42][43][44][45]

A tabela das nações é o nome dado para a lista genealógica de Gn 10:1-32. Esse registro é algo único tanto em Gênesis quanto na antiguidade. É do tipo segmentado, apresentando as relações entre vários povos e sua distribuição no mundo conhecido. As principais regiões da época estão representadas. Nós podemos notar que “Não há nenhuma tentativa de estabelecer ligações entre esses povos tendo como critério diferenças raciais. Os povos antigos estavam mais preocupados com as diferenças baseadas na nacionalidade, língua e etnia”. Essa preocupação é demonstrada com a repetição no estilo formulaico ao final das três subseções da tabela após a lista dos filhos de Jafé (10:4), filhos de Cam (10:20) e filhos de Sem (10:31). Observamos também que há uma inversão na ordem dos filhos de Noé, pois o mais velho, Sem, surge por último, estando no lugar de clímax da genealogia. Isso é fácil de entender já que de Sem virá Abraão e o povo de Israel. [46][47]

Essa lista talvez seja a mais complexa e obscura de todo o livro. Muitos nomes não são de indivíduos, mas de povos ou nações, há nomes duplicados em mais de uma genealogia (e.g os lídios chamados de Ludim Gn 10:13 e Lud Gn 10:22; Havilá em Gn 10:7 e 29), o que leva alguns estudiosos a concluírem que seria o resultado de fontes que um editor uniu, todavia é mais provável que isso tenha a ver com o propósito do texto em demonstrar os relacionamentos entre os povos, o que comportaria relações duplicadas e alternantes entre si. Ligado a isto está a ideia de que nem sempre os termos “filho” e “gerou” nesta lista tem o sentido de filiação sanguínea, mas também, como em outras partes da Bíblia Hebraica e do mundo antigo, carrega a ideia de laços políticos e sociais. [48][49]

Após a tabela das nações encontramos a narrativa da Torre de Babel que explica como e porque os povos se dividiram em diferentes grupos e línguas e a seguir, fechando o bloco da História Primitiva, encontramos a tôlĕdôt de Sem retomando e ampliando a genealogia semita anterior. Tal linhagem “consiste do título típico (11.10a), o cenário cronológico inicial, ‘dois anos após o dilúvio’ (11.10b), a genealogia linear (11.10b-25) e a genealogia segmentada de Terá (11.10b).’’ Além disso, ela “é semelhante à genealogia de Adão a Noé (5:1–32) tanto na forma quanto no fato de que termina com uma geração de três irmãos (5:32; 11:26)” deste modo ligando tanto os dois blocos, da história primitiva e patriarcal, como conectando a linhagem que veio de Adão por meio de Sete passando por Noé e seguindo por Sem até Abraão, o último da lista. É, portanto, uma ponte em que “cada um está à frente de uma nova época na história mundial: Adão, o primeiro homem; Noé, chefe da nova humanidade pós-dilúvio; Abraão, pai de Israel, o povo escolhido.”[50][51]

A seção da história patriarcal, que vai do capítulo 12 ao 50, contém a mesma quantidade de tôlĕdôt que na história primitiva, fazendo com que cada bloco maior tenha 5 dessas divisões. Porém a história patriarcal é muito mais longa, o que faz com que a fórmula tôlĕdôt se torne menos frequente no todo. Ela aparece com os ancestrais Terá (Gn 11:27), Ismael (Gn 25:12), Isaque (Gn 25:19), Esaú (Gn 36:1, 9) e Jacó (Gn 37:2). Neste bloco, a principal função da tôlĕdôt é fazer a narrativa avançar de forma linear, mas não de forma simples. Nestes casos, a expressão forma uma estrutura literária que enfatiza o primeiro, terceiro e quinto tôlĕdôt, de maneira que a de Terá, Isaque e Jacó tenham suas narrativas familiares expandidas, enquanto Ismael e Esaú não. [52]

Contudo, a fórmula tôlĕdôt de modo algum esgota todas as genealogias presentes em Gênesis, já que outras listas genealógicas se acham preservadas fora das listas tôlĕdôt como em Gn 4:17-26; 9:18-19; 22:20-24;25:1-6; 35:22b-29; 46:8-27. Ainda temos narrativas que mostram, num ritmo acelerado, o nascimento de filhos, como no caso dos filhos de Jacó com suas esposas e concubinas em Gn 29-30 ou a narrativa sobre os filhos de Judá em Gn 38. Nesses casos, as histórias assumem certas características genealógicas e fornecem um meio de desenvolver a narrativa ainda mais ou resumos narrativos ou pausas dentro das unidades mais amplas. Poderíamos até conceber como uma espécie de narrativa genealógica ou genealogia dramatizada pela narrativa.

Deste modo, notamos que “A estrutura genealógica da fórmula tôlĕdôt dá a Gênesis sua natureza distinta como a história de uma família em particular em meio a todas as famílias do mundo”. Gênesis se torna um livro singular em toda a bíblia e história antiga, ao ser movido e estruturado por narrativas e genealogias, e estas em alto número.[53]

4.2. Genealogias em Êxodo

O livro de Êxodo é a continuação do livro de Gênesis. O nome do livro como o conhecemos “provém do Antigo Testamento Exodos, que significa ‘saída’’ ou ‘partida’. O título é lógico porque a saída de Israel do Egito é o tema predominante do livro’’. Todavia, o título hebraico é ‘‘E estes são os nomes’’, seguindo a prática dos antigos hebreus de nomear o livro com suas primeiras palavras. De acordo com esse título, Êxodo demonstra sua conexão com Gênesis ao iniciar com a conjunção “E” e porque essa frase de abertura repete a frase de Gn 46:8, em que os nomes dos descendentes de Israel (Jacó) passam a ser listados. [54][55]

O título do livro em hebraico também é muito sugestivo quanto a questões genealógicas já que tem a ver com nomes de membros de um povo. Apesar disso, Êxodo contém apenas duas listas genealógicas, uma em Ex 1:1-7 e outra em Ex 6:14-27, e em nenhum destes casos a fórmula tôlĕdôt aparece. Enquanto em Gênesis, as genealogias ajudam a estruturar o livro e movimentar a narrativa, em Êxodo as estruturas literárias podem ser identificadas com os locais em que Israel está ou o conteúdo geral da história. Diante disso, qual seria então a importância e o papel das genealogias em Êxodo?[56]

A primeira lista que abre o livro é do tipo segmentado, patrilinear e inicia com a fórmula “Estes são os nomes’’, algo comum a outras genealogias conhecidas da Bíblia Hebraica e de registros assírios. Essa fórmula de abertura ecoa as palavras de outra genealogia, em Gn 46:7, no entanto a genealogia de Êxodo está bem mais próxima em conteúdo àquela de Gn 35:23-26. Como Victor Hamilton demonstra, a organização da lista em Êxodo 1 funciona como um quiasma colocando Raquel (mãe de José e Benjamim) no centro ficando desta forma:

A os filhos de Lia (Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom)

B Segundo filho de Rachel (Benjamin)

B′ os filhos da serva de Raquel, Bilhah (Dan, Naftali)

A′ os filhos da serva de Lia, Zilpa (Gade, Aser).[57]

Após o relato destes nomes, o versículo 5 informa que 70 descendentes de Jacó entraram no Egito, o versículo 6 diz que a geração de hebreus que entrou no Egito morreu e o 7 explica que as próximas gerações foram muito férteis e numerosas enchendo o país. Este breve relato tem a função teológica de demonstrar como Deus abençoou a descendência de Jacó em cumprimento às promessas feitas a Abraão. [58]

Duas ironias estão aqui. A primeira é que a multiplicação da descendência aconteceu fora de Canaã, a terra prometida, e a segunda é que essa enorme fertilidade provocará temor e desejo de extermínio no faraó egipcio. Esta genealogia, portanto, resume, no nome dos líderes tribais, a descendência de Jacó que entrou no Egito, os identificando e separando dos egípcios, além de expor uma perspectiva teológica sobre a benção da promessa divina e literária ao continuar a sequência de Gênesis e preparar a história dos capítulos seguintes.[59]

A segunda genealogia aparece no capítulo 6 quando Moisés se recusa a continuar na missão de falar com o faraó sobre libertar Israel e Deus providencia Arão, o irmão mais velho de Moisés, como porta-voz. É uma genealogia que inicia com outra fórmula, a expressão “Os chefes da família”. É uma lista altamente seletiva, pois apresenta apenas os descendentes de Rúben, Simeão e Levi, os três primeiros filhos de Jacó. O formato também é segmentado, e Rúben e Simeão aparecem em poucas linhas, sendo listados apenas os descendentes imediatos. Por outro lado, a maior parte da atenção é dada a Levi e sua descendência ao serem listadas seis gerações culminando em Finéias. O próprio papel de Rúben e Simeão aqui parece servir ao propósito de mostrar Levi como o terceiro mais velho. Portanto, fica claro que o foco está em Levi. [60]

Na leitura de Êxodo 2:1 já descobrimos que o pai de Moisés e Arão era um levita, mas aqui o conhecemos por nome. E ainda que Moisés seja o personagem humano mais proeminente do livro, o foco em Arão é explicado pelo contexto, pois neste momento ele será introduzido como o porta voz e auxiliar de Moisés. Ryken nota que “A primeira metade da genealogia reconstrói os ancestrais de Arão, de Levi e Coate até Anrão. A segunda metade identifica os filhos de Arão – Nadabe e Abiú, Eleazar e Itamar – e termina com o nascimento do seu neto Finéias (6.23, 25) "; essa organização coloca Arão no centro também em termos de conteúdo. A ênfase araônica também é observada no fato de Moisés não ter sua esposa ou descendência nomeada e na ordem “Arão e Moisés” do versículo 10. Embora Arão seja o mais velho e seja esperado que seu nome ocorra primeiro, por conta do papel de Moisés na história, o nome deste também aparece antes do nome do irmão, exceto em listas genealógicas, o que sugere a preservação de um material antigo.

Uma outra característica desta lista é a inclusão de mulheres. Isso já aconteceu antes em Gênesis, porém bem pouco. Aqui, encontramos a menção de uma cananéia no verso 15, Joquebede, mãe de Moisés no verso 20, Eliseba no verso 23 e uma filha anônima de Putiel, que seria esposa de Eleazar, nora de Arão e mãe de Finéias no verso 25. Hamilton comenta que “o que torna a presença dessas mulheres tão única aqui é que essa genealogia é sobre quem tem as linhagens adequadas para servir como sumo sacerdote ou apenas como sacerdotes, um ofício restrito por sexo aos homens. Não há “sacerdotisas no AT.” ; também é intrigante que este material afirme vir de um pano de fundo egipcio e era neste ambiente, mais do que em outros do Antigo Oriente Próximo, que mulheres eram mais propensas a serem adicionadas em genealogias.[61][62]

Os nomes dos descendentes imediatos de Levi eram conhecidos dos antigos leitores hebreus e carregam a importância de nos apresentar as origens de homens que terão relevância posterior no pentateuco. Ainda que os filhos de Gerson e os de Merari não tenham recebido tanta atenção neste trecho, a eles foram atribuídas funções importantes em relação ao tabernáculo. Os gersonitas realizavam transporte do material, de acordo com Nm 3:25-26, e os filhos de Merari eram como engenheiros estruturais fazendo o trabalho mais pesado, de acordo com Nm 3:36-37. Já os Coatitas, de onde vem Arão, eram responsáveis pelo santuário interno, como relata Nm 3:31. Somos apresentados também a Corá, um primo de Arão e Moisés, filho primogênito de Isar, que tentou usurpar a autoridade de Moisés e Arão como os mediadores autorizados em relação a Deus em Nm 16. Quando prestamos atenção neste trecho observamos que a tensão era familiar.

Outros personagens relevantes introduzidos aqui são os filhos de Arão. Os dois mais velhos, Nadabe e Abiú, foram consagrados como sacerdotes ungidos para servir diante de Deus (Ex 28:1, 40:15, Nm 3:3). Todavia, em Levítico 10 eles oferecem um fogo estranho diante do Senhor e são mortos por isso. Os filhos seguintes, Eleazar e Itamar, atuaram como sacerdotes e geraram clãs poderosos como descobrimos em outras genealogias. Aqui é suficiente percebermos que a linhagem passa de Arão para Eleazar e culmina em Finéias. Certamente, Moisés seleciona apenas ele dentre os netos de Arão por ser o mais famoso e oferecer um contraste positivo em relação a outros descendentes de Arão como Nadabe e Abiú, especialmente por causa de sua ação zelosa no caso de Baal-Peor em Nm 25. A lista se encerra, então, com Finéias, um personagem significativo no pentateuco e no judaísmo do segundo templo. Na finalização deste bloco “A declaração ‘estes eram os chefes das famílias levitas, clã por clã’ leva a genealogia levita a uma conclusão formal por meio de sua retomada ligeiramente expandida das palavras de abertura da genealogia (estes eram os chefes de suas famílias) no v. 14.”[63][64][65]

Depois que a genealogia é encerrada, há um comentário retomando o que foi dito no versículo 13 sobre Deus ordenar a saída dos hebreus do Egito, mas agora com uma expansão acerca de uma organização como um exército. Então, a narrativa volta para a sequencia de Deus falando à Moisés para regressar ao Faraó, desta vez porém com seu irmão, a quem agora o público já conhece por meio da genealogia: um homem de linhagem israelita e levítica, marcada por alto zelo pelo Senhor em distinção de homens rebeldes como Corá, Nadabe e Abiú.

As genealogias em Êxodo assumem um papel bem diferente do apresentado em Gênesis. Temos apenas duas, uma breve e outra mais longa, uma conectando as histórias patriarcais com os descendentes de Jacó no Egito e a outra legitimando Arão e a descendência de Eleazar como sacerdotes consagrados, capazes de mediar a relação de Israel com Deus assim como no passado o ancestral mediou a comunicação entre Moisés e o Faraó. Também é possível concordar com J.Wright de que:

As genealogias servem nesses contextos para "reunir" o povo de Israel ao longo de seu caminho, à medida que novos estágios de sua jornada se desenrolam diante deles. Êxodo começa com uma breve genealogia segmentada para colocar os israelitas no Egito (Ex 1:1-7). Uma genealogia parcial de Israel coloca a linhagem de Moisés e Arão dentro de Israel (Ex 6:14-27). A genealogia divide a renovação do chamado de Moisés (Êx 6:1-13) da instrução de Deus para Arão funcionar como porta-voz de Moisés (Êx 6:28—7:7).[66]

4.3 Números

O último caso que nosso artigo se propõe a analisar é o do livro de Números, o quarto livro dentro do pentateuco. O livro inicia com a conjunção “e’’, deste modo “mostrando a continuidade que existe entre os livros do pentateuco”, e o seu título “Números” vem da Septuaginta onde é chamado de Arithmoi e na Vulgata latina de Numeri “evocando a ideia de recenseamento e outras listas”, algo que aparece no livro, e tem um papel importante, apesar de não ser tão frequente. O nome em hebraico é “bəmidbar’’ que significa “No deserto’’, uma das palavras iniciais do livro ambientando “todo o livro, à medida que os israelitas se deslocam do Sinai, para o deserto de Parã e finalmente para as planícies de Moabe”. No entanto, mais do que localização geográfica, é também “uma frase ligada às muitas experiências fundamentais de Israel durante seus quarenta anos no caminho do Egito para a terra prometida, experiências que formam o coração do Pentateuco.”[67][68][69][70]

Números apresenta a sequência final do que é conhecido como a perícope do Sinai, que começa em Êxodo 19 e vai até Numeros 10. Neste sentido, Números continua a narrativa de onde Êxodo parou, tanto em termos geográficos (Sinai) quanto retomando o tema da instrução de Êxodo 25-40 sobre a tenda da reunião e o sacerdócio moldando uma inclusio em torno de Levítico. Em todo este quadro, qual a importância das genealogias? Neste livro, as listas de ancestrais assumem um outro papel e não falam tanto sobre quem gerou quem, mas reúnem o povo de Deus em suas tribos e clãs para tarefas específicas. Agora o cenário não é mais de Israel em meio às outras nações recebendo identificação, mas sim em torno de questões internas. As listas principais aparecem em Números 1-3 e 26 marcando duas fases do livro que podem ser lidas como um modelo de estruturação maior. Além disso “temos as listas, completas com medidas e números, de presentes trazidos pelos representantes das tribos israelitas para a dedicação do altar (7.10–83)” e após o censo de Nm 26 “a lista, novamente provida de números exatos, das ofertas a serem trazidas em dias de festa e festivais ao longo do ano (28.1–29.38); e, por fim, a enumeração do butim da guerra contra os midianitas (31.32–52).” Apesar de a maior parte do conteúdo do livro ser de narrativas que, em poucos momentos são entrelaçadas com leis e listas, é inegável que o tamanho das listas causam um impacto que desanima a leitura de muitos. Isto que é desanimador para nós, Robert Alter, ao comentar sobre as técnicas de repetições no que diz respeito à enorme porção de Nm 7, em que cada tribo leva um conjunto igual de presentes e isso é repetido por dezenas de versículos, explica que é razoável supor que tais repetições tivessem um papel histórico ou até ritual, de modo que podemos imaginar as pessoas de cada tribo aguardando a menção de cada item e a participação de seus ancestrais..[71][72][73][74]

No entanto, nosso foco principal deve ser as listas de Nm 1-3, do capítulo 26 e algumas outras pequenas porções. A constituição do material de Nm 1 não é sobre descendência ou ascendência, mas sobre alistamento, pois Israel está prestes a partir para a terra prometida e possui uma função militar com semelhanças ao que outros povos faziam. Timothy Ashley nos diz que:

As listas de censo são amplamente difundidas no mundo antigo: do Egito do Antigo Reino, cujo estado-maior do exército contava suas tropas e faraós que emitiam pesquisas bienais e anuais de propriedade de terras, a Mari (Síria), Ras Shamra (Síria) e Alalakh (Turquia/antiga Síria); de Roma e Grécia à Índia, Japão e China. Essas listas de censo tinham como objetivo principal cobrar e coletar impostos ou alistar homens que eram obrigados a servir no exército. [75]

A lista de Nm 1 abre o primeiro bloco do livro. Ela é marcada por um comando inicial de Deus, a contagem das doze tribos com exceção de Levi, e os contados sendo registrados por famílias/clãs em um elevado número total. Já havia se passado dois anos do êxodo e após as contagens e preparações o povo está finalmente pronto para marchar, porém surge uma série de episódios negativos e falhas como rebelião, murmuração e falta de fé na promessa divina depois do relatório dos espiões enviados a Canaã. Nesta altura, em Nm 14, Deus condena a geração que saiu do Egito, composta pelos maiores de 20 anos, a morrerem no deserto. Esta quebra de expectativa em relação a toda a preparação que vinha ocorrendo desde o início, quando o povo estava em obediência, segue até Nm 25 com outras pragas, mortes e revoltas, vindas até mesmo da família próxima de Moisés. O tom negativo da primeira parte encontra seu ápice na apostasia nacional provocada pelo esquema de Balaão no episódio em Baal Peor. Essa realidade só poderá mudar quando a geração seguinte assumir, o que ocorre em Nm 26. Este tema compõe um dos principais assuntos de Números, que seria “a transferência da velha geração para nova geração de esperança na beira da Terra prometida’’ e promove a expectativa de que estes filhos sejam fiéis a Deus e diferentes dos seus pais.[76][77]

Quando lemos o segundo bloco de Números, do capítulo 26 ao 36, notamos que um tom positivo é inserido nesta seção. O censo inicial desta nova geração compartilha características da primeira como o comando divino, ordem das tribos, ausência levita, mas ninguém que foi contado da geração anterior permanece vivo, com exceção de Josué e Calebe. Olson percebe que “Vida e esperança em vez de rebelião e morte, caracterizam a história desta nova geração”, onde nenhuma morte é registrada na segunda parte do livro, crises que poderiam gerar revoltas são resolvidas, há vitórias militares contra os midianitas e muitas leis carregam uma expectativa de moradia na terra prometida. Além disso, enquanto a geração anterior foi retratada no deserto, esta nova geração se encontra nas planícies de Moabe, perto do rio Jordão.[78]

Todavia, outras listagens importantes estão presentes no livro. Em Nm 2 encontramos a disposição das tribos em torno da tenda do encontro, tendo os levitas ao redor da tenda e as demais tribos acampadas em um formato retangular com três tribos a cada lado. Este formato pode sugerir um pano de fundo egipcio, mas dois pontos são importantes de serem destacados. O primeiro tem a ver com a disposição em si das tribos, com Judá liderando a parte oriental onde ficava a entrada da tenda; Rúben, o primogênito de Jacó, liderando o lado sul; Dã, o primogênito das concubinas de Jacó, liderando o lado norte e o lado oeste sendo organizado com as tribos dos descendentes de Raquel (Benjamim, Manassés e Efraim), liderados por Efraim. O segundo ponto a ser destacado é que quem está no centro deste povo peregrino não é um governante humano mas a presença de Deus ou nas palavras de Mark Awabdy “Yahweh é o rei que fixou residência no centro do acampamento militar de seu povo”.[79]

Outro censo neste início do livro é o dos levitas nos capítulos 3 e 4. No final do capítulo 1, entre o censo geral das tribos e suas disposições em torno da tenda, já consta a informação de que os levitas não foram contados. O objetivo desta distinção tribal é bem claro, como diz Wenham, pois “as tribos seculares estavam sendo organizadas em unidades guerreiras, mas os levitas tinham uma função diferente. Sua tarefa primária é o serviço de Deus”. Somente os levitas poderiam erguer, desmontar e carregar a tenda e ao estarem acampados somente eles podiam amar tendas ao redor do tabernáculo. A lista do capítulo 3 conta os levitas homens a partir de um mês enquanto o capítulo 4 registra os levitas entre trinta e cinquenta anos. Segundo Ashley:[80][81][82][83]

O censo não é introduzido como um todo, mas apenas pelos clãs. A introdução de cada um dos clãs é basicamente a mesma (vv. 1–3, 21–23, 29–30) e é seguida por um esboço do trabalho que cada clã deveria fazer (vv. 4–15, 24–27, 31–32). Em seguida, vem uma declaração sobre qual dos filhos de Arão tinha autoridade sobre o trabalho específico (vv. 16, 28, 33).[84]

Esta distribuição de trabalho entre as famílias levitas é explicada nos seguintes termos:

Os 7.500 gersonitas eram responsáveis ​​pelas cortinas protetoras do local de habitação e do pátio; os 8.600 coatitas eram responsáveis ​​pelos móveis; os 6.200 meraritas eram responsáveis ​​pela estrutura de madeira da tenda de reunião na qual as cortinas eram penduradas. O narrador marca o status especial de Eleazar, o filho mais velho sobrevivente de Arão: embora ele fosse numerado e, portanto, responsável perante Moisés e Arão, ele recebeu o alto status de chefe da tribo de Levi e a responsabilidade pelos móveis mais sagrados da tenda de Yahweh.[85]

A estrutura interna dentro dos clãs de Israel fornece a imagem de que enquanto as doze tribos guerreavam contra exércitos inimigos, os levitas desempenhavam a função de servir, cercar e proteger o santuário de Deus, que é quem lutará por eles de forma que “essa relação recíproca entre honrar a tenda de reunião e a arca contendo a aliança, por um lado, e a guerra vitoriosa, por outro, é posteriormente explicitada nas costuras da perícope do Sinai e da narrativa do deserto (Números 10:3, 33–36)”. [86]

Na segunda seção de Números, iniciada no capítulo 26, observamos novamente um recenseamento militar. Mais uma vez há o comando divino, a ordem das tribos, uma quantidade geral parecida, indicando que não houve grandes perdas ou acréscimos entre uma geração e outra. Awabdy percebe que este segundo censo apresenta algumas distinções em relação ao primeiro. Enquanto o foco do primeiro é apenas militar, o foco deste é mais familiar. Isto também interfere na forma do relato, especialmente que chefes militares não são nomeados no segundo censo. Além disso, este censo acontece em Moabe, em frente a Jericó, com a terra de Canaã a vista, já o outro censo foi feito no deserto no Sinai, Aqui, o sumo sacerdote é Eleazar, não mais Arão. De maneira geral, esta perspectiva mais familiar do censo é explicada por Hamilton ao reconhecer que “O propósito imediato desta pesquisa é fornecer dados estatísticos para a distribuição da terra depois que ela foi conquistada" (vv. 52–56).” No comentário da distribuição das terras duas questões teológicas são realçadas. A primeira é que o comentário sobre a herança aparece em tom profético antecipando aquilo que eles ainda tomarão posse e o segundo é que a decisão será por sorte e não por escolha humana, ou seja, Deus é quem decidirá o local de habitação de cada tribo. Já o tom geral destes grandes números dos censos das tribos, tanto no sentido militar quanto do serviço religioso enfatiza a bênção divina sobre a descendência de Jacó pois “a promessa de fertilidade de Yahweh aos patriarcas se manifesta na população tribal de Israel.”[87][88]

Esta lista, de acordo com Awabdy, apresenta ainda notas importantes a respeito de alguns personagens. O comentário de 26:10 alerta a nova geração quanto a não seguir os passos dos rebeldes do passado como Datã, Abirão e Corá e ímpios da família de Judá como Er e Onã no versículo 19. Outra nota relevante aparece no versículo 33 sobre Zelofeade, um homem que teve somente filhas e cuja situação interferiria na distribuição das terras como veremos mais à frente.

Depois disso há um registro do censo das famílias levitas (Nm 26:57-64). Enquanto na primeira lista os levitas eram distinguidos por não serem guerreiros militares, aqui eles o são por não terem uma região própria como herança à semelhança das demais tribos; contudo receberam o território de 48 aldeias espalhadas por Israel. O versículo 63 encerra o censo retomando algumas expressões formulaicas do início da lista. Timothy aponta que “Após a conclusão do próprio documento do censo, o todo é colocado dentro da estrutura teológica dos anos de peregrinação no deserto.” O aviso de juízo divino contra a geração anterior foi executado e somente Josué e Calebe permanecem vivos e aptos para conhecer Canaã.[89][90]

Um último registro que vale a pena ser comentado é sobre o caso das filhas de Zelofeade. Como dissemos acima, Zelofeade morreu sem filhos e naquele contexto normalmente as mulheres não recebiam heranças. Moisés busca a Deus para resolver a questão já que não estava previsto na Lei e Deus responde dizendo que as filhas poderiam receber a herança do pai. Essa “ decisão afirma o valor importante de manter a terra com cada família para que a base econômica para cada família esteja garantida para o futuro”. O relato de Josué 17:3-6 confirma que elas permaneceram de posse da terra. Ainda que Deus tenha fornecido a possibilidade de que as filhas recebam a herança do pai, alguém pode se perguntar o porquê Israel ter mantido este modelo patrilinear da terra do pai sendo dada principalmente aos filhos. Stubbs parece estar certo ao dizer que é [91]

razoável entender que o sistema patrilinear de herança foi motivado em parte pelo desejo de preservar a estrutura tribal…Se a terra fosse distribuída igualmente para filhos e filhas após a morte de seus pais, os casamentos entre tribos dissolveriam rapidamente o sistema de terras tribais..[92]

Este tipo de prioridade demonstra o valor que a terra possuía para o antigo Israel e que a todo custo deveria ser mantido em seus limites familiares. Para que a porção da terra das filhas de Zelofeade não se misturasse com a de outras tribos Deus afirmou, posteriormente, que elas deviam se casar com alguém de sua própria tribo. [93]

Certamente o problema que estas cinco irmãs trouxeram à tona e obteve uma favorável resposta divina não dizia respeito somente a filhas recebendo herança na ausência de outros parentes homens próximos. Concordamos com R.G. Branch de que:

A solução de herança parece ter abordado outra situação também, uma em que uma esposa e mãe também morreram e um casamento levirato não ocorreu. As decisões buscavam manter a equidade entre as doze tribos e não permitiam que uma tribo ganhasse status e terra de uma maneira desproporcional com as outras. Esta questão era particularmente importante à luz do iminente assentamento de Israel em Canaã.[94]

A situação apresentada pelas cinco filhas de Zelofeade é colocada em um lugar significativo na segunda seção de Números. Ela aparece como a primeira ação dos israelitas após a realização do segundo censo e também é a cena que conclui o livro, quando chefes do clã de Gileade, da tribo de Manásses, perguntam a Moisés sobre com quem elas poderiam se casar. Esta posição, dentre várias outras coisas, parece realçar o tom positivo desta parte do livro, na qual conflitos são resolvidos e o caráter desta geração que, ao invés de se rebelar como a anterior, sabe argumentar com humildade e sabedoria.[95]

Essas listas e censos são altamente relevantes para a hermenêutica de Números pois fazem parte dos diversos estilos que compõem o livro e que tem gerado controvérsia entre os estudiosos a respeito de fontes anteriores e de como entender o livro em termos de unidade, coesão e coerência. No caso de Números, as listas de antepassados são importantes em relação à preparação do povo para guerrear pela terra prometida, marchar em sua direção, se posicionar em torno da presença de Deus e da distribuição de terras na Canaã. As listas também inserem os levitas e sacerdotes dentro da nação em suas respectivas funções. J.W.Wright sintetiza isto muito bem:[96]

Em vez de definir a trajetória da atividade divina em meio à criação boa, embora caída, de Deus e Israel (Gn 1:1—11:26) e o lugar de Israel em meio às nações (Gn 11:27—50:26), as genealogias em Êxodo e Números definem relacionamentos internos-israelitas em pontos cruciais de transição na narrativa conforme eles se movem para o próximo estágio de sua jornada divinamente ordenada. A jornada em si, em vez da reunião de um povo em meio às nações, move-se para o centro do palco dentro da narrativa.[97]

Portanto, apesar da ideia de genealogia em Números ser diferente do esperado e numa frequência não tão grande, este tipo de texto deve ser lido com atenção para que o livro, e todo o pentateuco, sejam compreendidos de forma apropriada.

5. Considerações finais

Cada um dos nomes nas genealogias carrega, em seus contextos, uma história e apontam para os papéis familiares, sociais, religiosos, militares ou políticos que estes personagens exerceram. Longe de ser um conteúdo desnecessário, as genealogias resumem e contam histórias, desempenham funções semelhantes a narrativas, nos informam e preparam para algo posterior e ajudam a organizar obras complexas bem como grandes períodos de tempo. Ainda há muito a ser discutido e pesquisado sobre as genealogias no pentateuco, na Bíblia hebraica e no antigo oriente próximo como um todo. Esperamos que este breve trabalho inspire outros a seguirem nesta pesquisa e auxilie estudiosos, leitores e pregadores na árdua e prazerosa tarefa de entender e comunicar o texto bíblico.

1. Introdução

As genealogias eram muito importantes nas sociedades do mundo antigo, fossem em ambientes predominantemente orais ou escritos e não seria diferente para aqueles que escreveram a Bíblia hebraica. O pentateuco, em especial, contém grande material genealógico. Nosso artigo tomará o caminho de iniciar conceituando o que é genealogia e delineando seus formatos. Depois mostrará algumas das principais genealogias conhecidas do antigo oriente próximo, excetuando-se as da Bíblia hebraica, apresentando suas principais ênfases e funções naquele contexto histórico-social. A partir disso, analisaremos as genealogias bíblicas do Pentateuco observando quais papéis históricos, sociais, políticos, literários e teológicos tais textos desempenham em seus respectivos contextos. Esperamos que este trabalho sirva para avanços hermenêuticos ao ajudar os leitores e estudantes a compreenderem cada vez melhor o texto bíblico.

2. O que são genealogias?

Genealogia pode ser entendida como uma lista de ancestrais ou na definição clássica de Robert R. Wilson como uma expressão oral ou escrita dos descendentes de alguém ou de seus antepassados. É importante notar que genealogias são um tipo de lista e listas são incluídas em diversas narrativas da Bíblia Hebraica. Nas palavras de Klein, Blomberg e Hubbard tais listas são: [2][3][4]

Uma relação de nomes ou itens cujas características em comum permitem a sua classificação lógica. No mundo antigo, fazer listas era uma prática comum. Às vezes essas listas serviam como meio de contabilidade ou controle de inventário; outras vezes elas funcionavam como uma classificação primitiva de fenômenos observados. As narrativas do AT incluem listas que refletem uma atividade semelhante no Israel antigo: e.g., listas de espólio (Nm 31:32-40), ofertas votivas (Êx 35:5b-9; cf. v. 21-39), cidades israelitas (Js 15—19), membros da guarda real (2Sm 23:24-29), e oficiais do rei (1Rs 4:2-6, 8-19).

Apesar de as genealogias serem listas isto não significa que sejam sempre iguais ou registradas do mesmo modo. Três distinções podem ser destacadas em suas variações: a) as listas genealógicas podem ser registradas sob formatos linear ou segmentado; b) focadas nos ancestrais (para trás) ou nos descendentes (para a frente); c) podem ser patrilineares ou matrilineares. [5]

O formato linear é aquele no qual é informado uma pessoa por geração (e.g Adão gerou Sete), enquanto a segmentada informa mais de uma pessoa por geração, apresentando vários filhos/irmãos (e.g Isaque gerou Esaú e Jacó). Desta maneira, as genealogias lineares respondem a questões de vasta amplitude (quantas gerações anteriores ou posteriores da história da família serão descritas?) enquanto as genealogias segmentadas lidam com a profundidade (quantos membros/irmãos vão ser listados dentro de uma geração?). Quanto à direção temporal, toda lista genealógica será registrada a respeito dos antepassados (quem foi gerado de quem) ou dos descendentes de alguém ou algum grupo. Além disso, a informação de como a geração foi sendo multiplicada vai ter como foco o pai, sendo patrilinear, ou das mães, sendo matrilinear. Eventualmente, uma mesma genealogia pode ser registrada contendo mais de um destes polos opostos, ou seja, podendo ser linear e conter trechos segmentados, ou ser patrilinear mas a certa altura falar das mães. Isto mostra que as genealogias se comportam com certa flexibilidade nos seus formatos e direções, a depender dos seus propósitos.

Uma outra característica comum a muitas genealogias antigas é a fluidez. Isto significa que nomes, parentescos ou posições podem variar nas genealogias a depender de seus propósitos e ênfases, geralmente mudando a sequência dos nomes nas genealogias lineares ou reordenando as relações nas segmentadas. John Walton diz que essas mudanças normalmente apontam para “realidades mutáveis ​​ou tentativas polêmicas de moldar as realidades presentes por pessoas que buscam apoiar suas agendas políticas, sociais ou religiosas” e que essa convenção também era comum porque “como nomes são continuamente adicionados ao final de uma lista, outros nomes serão descartados ou mesclados”. Citando Josefo, Walton nos lembra que esse tipo de fluidez era comum na relação entre judeus e samaritanos no século 1 da nossa era: [6][7]

Pois tal é a natureza dos samaritanos… Quando os judeus estão em dificuldades, eles negam que tenham qualquer parentesco com eles, admitindo assim a verdade, mas sempre que veem algum pedaço esplêndido de boa sorte chegar até eles, eles de repente se agarram à conexão com eles, dizendo que são parentes deles e traçando sua linhagem de volta a Efraim e Manassés, os descendentes de José” (Josefo Ant. 11.341)

Desta maneira, Josefo mostra como os samaritanos se viam livres para se entrelaçar ou se separar de laços com os judeus, evidenciando alguma fluidez. Na próxima seção, discutiremos se esta convenção significa que as genealogias são criativas, inventivas, pouco precisas e não confiáveis. [8]

Contudo, antes de encerrarmos este tópico de apresentação do conceito geral de genealogia, uma ilustração em termos modernos e de realidades mais próximas pode ajudar a nossa compreensão. Walton ilustra as genealogias antigas, em toda a sua fluidez, variações lineares e segmentadas, sentidos ascendentes ou descendentes com um exemplo útil da estrutura ou hierarquia de uma corporação. Um olhar linear indicaria o meu chefe, o chefe dele e seguiria até o CEO ou presidente da empresa. Neste caso, níveis poderiam ser omitidos sem nenhum problema e um funcionário poderia ignorar vários superiores e informar o CEO como seu chefe. Já uma visão segmentada assinalaria os diversos departamentos começando do presidente, passando para o vice, descendo até os níveis mais inferiores. Nestas circunstâncias, às vezes uma equipe é reorganizada, alguns funcionários podem mudar de departamentos, ou exercer mais de uma função estando debaixo de mais de um chefe ou sobre mais de uma pessoa/equipe. Essas dinâmicas incluem ainda pessoas que são promovidas ou demitidas e refletem realidades atuais e dinâmicas, mas não a história da corporação, nem ter valor historiográfico em um primeiro momento, ainda que possa ser consultado para tais fins. Organogramas de empresas como os citados acima devem estar abertos a mudanças de modo a refletir novas situações e relações, e poderia ser classificado como errado ou inventivo ao não refletir as realidades atuais. [9]

3. Genealogias no antigo oriente próximo

As genealogias aparecem em variados documentos na antiguidade e, para nossos propósitos, focaremos naqueles que faziam parte das culturas do Antigo Oriente Próximo e que nos legaram importantes listas como os sumérios, babilônios, assírios e egípcios. Apesar de haver exceções, essas genealogias não costumavam ser extensas e apareciam como inserções breves, algo distinto do seu uso na Bíblia Hebraica. As genealogias que chegaram até nós do Egito trazem informações especialmente sobre as famílias reais e sacerdotais, num aspecto linear sobre os descendentes da família até o membro mais recente. Os registros estão escritos principalmente em monumentos como templos, tumbas e murais, mas, ainda assim muito desse material se encontra fragmentado ou apagado. Havia um foco na lista ser patrilinear, entretanto mulheres poderiam ser incluídas também. É válido ressaltar que existiam também genealogias das divindades, já que se acreditava que certos deuses haviam dado origem a outros deuses. Embora a maior parte do nosso conhecimento sobre as genealogias do antigo Egito advenham de inscrições em edifícios, também temos o relato de Mâneto que, sendo historiador e sacerdote egipcio do século 3 a.c, escreveu um tratado sobre a história e cronologia das dinastias egípcias, mas que hoje sobrevive apenas em citações de outros autores. O principal propósito destas genealogias parece ter sido o de emprestar legitimidade e autoridade para os membros do presente a partir da importância dos antepassados.[10][11][12][13][14][15]

Exemplos da região mesopotâmica incluem a lista de reis sumérios, o Enuma Elish, a genealogia da dinastia de Hamurabi e a lista dos reis assírios. Muitas das cópias dessas genealogias foram escritas em cuneiforme e preservadas em tábuas de argilas sendo mais comum do que no Egito a versão genealógica segmentada, na qual é indicada múltiplos descendentes de um ancestral com uma proeminência patrilinear maior que no Egito. A lista dos reis da Suméria, por exemplo, são:

Dezenove cópias fragmentadas da lista dos reis e não existem sequer duas iguais. No entanto, há suficientes dados compartilhados que permitem entender que elas tiveram origem em um relato comum da história suméria. A lista dos reis é essencialmente um registro real de oito governantes sumérios que viveram nas eras pré e pós-dilúvio. Depois do dilúvio, os reis que governavam as cidades-estado assumiram o poder sobre os outros. O mais antigo governante relacionado, cuja historicidade foi arqueologicamente verificada, é En-me-brarage-si de Kish (c. 2600 a.C.), portanto é plausível que o documento contenha algumas figuras históricas que foram posteriormente mitificadas.[16]

Para nosso objetivo, é importante notar como essa lista “fornece uma sequência unificada, porém seletiva, de dinastias que se sucedem e substituem umas às outras.’’ concedendo aos governantes pós-catástrofe diluviana uma noção de continuidade e legitimidade em paralelo com a realeza pré-diluviana. [17]

Já o conhecido poema Enuma Elish, preservado em cuneiformes acadianos na biblioteca assíria de Assurbanipal, parece representar uma versão babilônica da origem do cosmos e dos deuses. Este poema, em suas linhas iniciais, versa sobre quando, em meio às águas primordiais, Apsu e Tiamat, deram origem (e função) a elementos do universo e outros deuses. Isso pode ser visto também como uma forma de lista genealógica sobre a qual Walton, citando J. Assmann, diz que “Os deuses tinham nomes, genealogias e toda uma gama miticamente revelada de funções; eles tinham um ‘portfólio’, uma esfera de competências cósmicas, vegetativas ou culturais; e finalmente tinham locais de culto de onde exerciam seu domínio terrestre”. Sob essa perspectiva é fácil notar que nestas culturas as genealogias escritas eram algo reservado para seres importantes e de autoridade, tanto os deuses, quanto famílias de sacerdotes ou dinastias da realeza. É interessante relacionar isto com o que G.N. Knoppers comenta ao afirmar que “Genealogias, sejam de Israel, Egito, Mesopotâmia, Fenícia ou Grécia, não são simplesmente compilações de material tradicional, mas são afirmações sobre identidade, território e relacionamentos’’. Aqui ele fala sobre as genealogias humanas, porém é intrigante que o mesmo sirva para as genealogias divinas já que dentro desses relatos os deuses são localizados, mapeados e classificados em diferentes funções no universo a partir de sua origem, seus relacionamentos e sua identidade. [18][19][20]

A genealogia de Hamurabi, também chamado de Hammurapi, é reconstruída a partir de diversas listas, inscrições e documentos administrativos, o que torna o assunto complexo. Ao esquematizar uma genealogia é possível verificar que segue um padrão linear, patrilinear e nas origens mais remotas dessa linhagem reside uma associação com os amoritas e com a ascendência de deuses. Como não é difícil de ver, isso reforçava a autoridade do governador, pois tem seu poder vindo tanto de importantes antepassados quanto dos deuses. A lista dos reis assírios, compilada entre os séculos 10 e 8 a.c, reflete as mesmas características e formatos das listas acima, principalmente a de Hamurabi. Muitas outras linhas genealógicas são conhecidas da antiguidade e, além de legitimar a autoridade dos reis ou sacerdotes, também preservavam a memória destes ancestrais.[21][22][23]

Um outro ponto altamente relevante para este assunto tem a ver com o funcionamento e preservação das genealogias em culturas orais. Os estudos feitos em sociedades orais contemporâneas indicam que elas possuem claros limites de comprimento e profundidade, são marcadas por certa fluidez e são preservadas e transmitidas mais por propósitos sociais atuais do que por razões históricas. Neste caso, a pesquisa antropológica lida com sociedades tribais:[24]

onde o parentesco é a estrutura da sociedade. No nível individual, os laços de parentesco de uma pessoa servem como base para direitos e obrigações. Genealogias lineares oferecem uma compreensão dos laços de parentesco de um indivíduo e, como tal, funcionam como a base de reivindicações de poder, status, classificação, cargo ou herança[25]

Já no nível coletivo, as genealogias expressam o relacionamento atual entre tribos e clãs (disputa, guerra, tensão, acordo, proteção). Isso, é claro, nos leva a questão da possibilidade de tratar as genealogias antigas como confiáveis para um conhecimento histórico. Como já foi dito anteriormente, um dos principais propósitos das genealogias, tanto em culturas orais quanto escritas, tinha a ver com as relações e situações contemporâneas, não um foco preciso do passado. No entanto, podemos concordar com os estudos antropológicos de R.R.Wilson ao reconhecer que:

Embora não tenhamos visto nenhuma evidência antropológica indicando que as genealogias são criadas com o propósito de fazer um registro histórico, as genealogias podem, no entanto, ser consideradas historicamente precisas no sentido de que frequentemente expressam relacionamentos domésticos, políticos e religiosos reais. Elas são, portanto, fontes potencialmente valiosas para o historiador moderno. No entanto, a natureza da genealogia exige que a questão do valor historiográfico seja feita em cada caso individual, pois somente dessa forma as complexidades da forma e função genealógicas podem ser levadas em consideração. Ao lidar com a questão do valor historiográfico da genealogia, nenhuma generalização é possível.

Também é apropriado acrescentar que as genealogias orais eram/são mais fluidas do que as escritas, o que sugere que ao serem registradas por escrita, uma genealogia assumia mais estabilidade e passavam a ser reconhecidas e tratadas como algo historicamente confiável, além de refletir a “realidade de que genealogias escritas serviam para funções diferentes das orais.”[26]

4. Genealogias no pentateuco

Nossa pesquisa agora passará a focar nas genealogias presentes no pentateuco, o conjunto inicial de livros na ordem canônica da Bíblia Hebraica/Antigo Testamento. Mas antes de abordarmos os textos, é necessário apresentarmos as principais funções das genealogias no texto bíblico. A medida que os textos e contextos forem expostos, as funções serão mais detalhadas e aprofundadas. O seguinte resumo das principais funções vem da clássica obra de Marshall D. Johnson: [27]

Função social coletiva, que envolve estabelecer a identidade e relação de um grupo em relação a outros;

Função legitimadora individual, ligada a estabelecer direitos, privilégios e benefícios que alguém pode receber ao estar conectado ou inserido em algum grupo/família;

Função teológica, quando uma genealogia conecta pessoas a antepassados com fins espirituais ou religiosos;

Função histórica, ao fornecer informações do passado ordenadas para compreensão do presente;

Função literária, quando dentro de um quadro narrativo mais amplo, desempenha um papel crucial no movimento das histórias;

Função esquemática, ao organizar a história do mundo em ciclos/etapas;

Função militar, quando classifica homens do clã ou tribo a serem recrutados para serviço militar.

Após reconhecermos as múltiplas funções genealógicas, estamos preparados para nos voltarmos para o texto do pentateuco.

O pentateuco é um bloco literário composto de 5 livros tradicionalmente atribuídos a Moisés, tendo sido compostos totalmente ou em sua maior parte por volta do século 15 a.c ou 13 a.c. Este bloco conta uma história que começa com Deus criando o cosmos e a humanidade, passa pela rebelião humana contra Deus, dispersão humana pela terra, chamado de Deus a Abraão e início do povo de Israel a partir de seus descendentes que se tornam escravos no Egito e, ao serem libertos, são conduzido para a terra que Deus havia lhes prometido, Canaã. Esta longa história implica em um grande período de tempo e um enorme crescimento populacional, de modo que Gênesis, Êxodo e Números lidam e registram. É a isto que daremos atenção nesta seção.[28]

4.1 Genealogia em Gênesis

Nas palavras de Dillard e Longman, Gênesis é comparável a uma pizza que pode ser dividida em mais de uma maneira, mas a melhor estrutura para repartir o livro tem sido vista como sendo por meio da fórmula hebraica ‘elleh tôlĕdôt, com a segunda palavra vindo de um verbo com a ideia de “dar a luz’’, fazendo com que a ideia da frase seja traduzida como “essas são as gerações de x” ou “essa é a história da família de x’’. Após o prólogo inicial de Gn 1:1-2:3 essa frase aparece organizando o livro em dez seções (Gn 2:4; 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1; 37:2) sendo seguida por um nome pessoal, com exceção da primeira ocorrência em 2:4. Há um debate sobre se a fórmula tôlĕdôt está concluindo as seções ou abrindo novas, contudo neste artigo seguiremos a interpretação de que ela abre um novo ciclo. Essas fórmulas podem introduzir “listas genealógicas (por exemplo, Gn 5:1; 11:10) ou narrativas (e.g Gn 37:2), governar seções maiores (e.g Gn 25:19—35:29) ou menores (e.g Gn 25:12-18) do livro”, porém algo comum a todas é que apesar de a expressão ser seguida por um nome pessoal, a figura principal da seção nunca é o ancestral titular. Em relação ao formato, dentro de Gênesis há tanto listas lineares quanto segmentadas. As lineares aparecem com o objetivo geral de “estabelecer pontes entre eventos principais’’; já as listas segmentadas apontam para o lugar e a legitimidade dos descendentes de uma família em relação aos outros grupos.[29][30][31][32][33][34]

Começamos a notar, então, que as genealogias cumprem um papel vital no livro de Gênesis. Além da divisão de Gênesis pelas tôlĕdôt, também é comum dividir o livro em duas grandes seções, a História Primitiva de Gênesis 1-11 e a História Patriarcal de 12-50. Essas duas formas de abordar e dividir o livro são comuns e possíveis, pois o livro é um composto de genealogias e narrativas. A divisão em história primitiva e patriarcal pode ser feita por questões históricas, formas das narrativas ou motivos teológicos (e.g aliança de Deus com Abraão), mas é interessante que essa divisão, de História Primitiva e Patriarcal, também nos revele algo sobre as genealogias. Na seção Gênesis 2:4—11:26 encontramos cinco blocos de tôlĕdôt e de 11:27—50:26 encontramos mais cinco formando assim um contorno estrutural em que cada ciclo de cinco gira em torno de um centro — o tôlĕdôt de Noé (Gn 6:9—9:29) e o tôlĕdôt de Isaque/Jacó (Gn 25:19—35:29). Esses dois grandes ciclos de cinco “histórias da família/das gerações’’ são marcados por estratégias literárias específicas indicando uma simetria artística. Por exemplo, há um padrão estilizado nas genealogias da história primitiva de dez gerações de Adão a Noé em Gn 5:3-32, e dez do filho de Noé, Sem, até Abraão em Gn 11:10-26, além disso vincular os relatos da criação ao do dilúvio. Na história patriarcal, há uma sequência alternada de eleição/ não eleição/ eleição, pois as gerações são apresentadas na sequência de Terá/Abrão(eleito)—Ismael(não eleito)—Isaque/Jacó(eleito)—Esaú(não eleito)—Jacó/José (eleito) esquematizando a família de Jacó na história do pentateuco de forma central. Wenham demonstra que “Ambas as seções contêm três seções narrativas e duas genealogias. Isso é significativo, pois mostra que essencialmente a primeira seção antecipa a segunda, de modo que não podemos realmente entender os capítulos iniciais sem entender os capítulos posteriores e vice-versa.”.[35][36][37][38]

Ainda dentro desse aspecto estrutural do livro, a tôlĕdôt funciona como uma leitwort, ou seja, uma raiz lexical ou radical verbal que ao ser repetida muitas vezes forma um senso de unidade, continuidade ou movimento entre as partes. Segundo Steiner “os títulos tôlĕdôt colocam toda a história do pentateuco em movimento ao focar no relato contínuo de uma linha de promessa eleita estreita com uma semente providencialmente preservada que vai desempenhar um papel vital papel na mediação da bênção de Deus a todas as nações’’. Isso faz sentido porque o quadro geral de Gênesis envolve narrativas e genealogias que avançam e por isso J. Wright vê que a narrativa se desenvolve linearmente segundo uma estrutura genealógica “do céu e da terra a Adão, a Noé, aos filhos de Noé e a Sem. As narrativas que ocorrem entre a fórmula genealógica ‘preenchem’ as genealogias. O livro começa com expansões narrativas dentro de sua estrutura genealógica fundamental.’’[39][40][41]

As genealogias também cumprem funções teológicas ao demonstrar a benção de Deus ao frutificar a descendência humana e também nos leva a focar nos personagens que Deus está elegendo para usar em seu plano; muitas vezes eles são os últimos a serem mencionados na lista e logo depois há narrativas explorando sua vida. Deste modo, aqueles que não foram eleitos não possuem narrativas expandido as suas genealogias. Assim, J. Wright observa que:

O tôlĕdôt de Isaque (Gn 25:19) segue imediatamente Ismael (Gn 25:12-18), e Jacó (Gn 37:2) segue imediatamente Esaú (Gn 36:1—37:1). Nesses casos, literalmente nenhum espaço narrativo resta para desenvolver as genealogias anteriores para estender a narrativa. O enredo deve mudar para a genealogia seguinte.

É importante agora nos voltarmos para as genealogias de Gênesis baseado nas funções das genealogias bíblicas que mencionamos acima. Listas de genealogia lineares como a de Caim em Gn 4:17-19 dão continuidade à narrativa, concluem com um personagem cuja história é expandida e demonstram um avanço da crueldade iniciada no ancestral Caim. O registro da descendência geral de Adão em Gênesis 5:1-31 é linear e faz uma ligação entre Adão até Noé, do fundador da humanidade até o refundador ligando não só personagens como eventos importantes. A sequência das idades nesta etapa também fornece uma organização da criação até o dilúvio em ciclos e pode-se notar aqui que em contraste com a linhagem de Caim propagando o pecado, o foco é a longevidade e frutificação que vem de Deus pela linhagem de Sete, na qual Deus começou a ser invocado, sendo marcante que nesta sequência de 10 pessoas até Noé, o sétimo seja Enoque, o único a receber um comentário, para além da sua idade e filiação, mostrando algo extraordinário sobre ter andando com Deus e ter sido tomado, o que perturba o refrão “e ele morreu” anexado a todas as outras gerações. A próxima história familiar é de Noé, iniciada em Gn 6:9 e encerrada em Gn 9:28. Na abertura e no fechamento somos apresentados aos seus três filhos, sempre na ordem Sem, Cam e Jafé, provavelmente indicando ordem de importância na história subsequente e também para a tabela das nações no capítulo 10, a tôlĕdôt seguinte. [42][43][44][45]

A tabela das nações é o nome dado para a lista genealógica de Gn 10:1-32. Esse registro é algo único tanto em Gênesis quanto na antiguidade. É do tipo segmentado, apresentando as relações entre vários povos e sua distribuição no mundo conhecido. As principais regiões da época estão representadas. Nós podemos notar que “Não há nenhuma tentativa de estabelecer ligações entre esses povos tendo como critério diferenças raciais. Os povos antigos estavam mais preocupados com as diferenças baseadas na nacionalidade, língua e etnia”. Essa preocupação é demonstrada com a repetição no estilo formulaico ao final das três subseções da tabela após a lista dos filhos de Jafé (10:4), filhos de Cam (10:20) e filhos de Sem (10:31). Observamos também que há uma inversão na ordem dos filhos de Noé, pois o mais velho, Sem, surge por último, estando no lugar de clímax da genealogia. Isso é fácil de entender já que de Sem virá Abraão e o povo de Israel. [46][47]

Essa lista talvez seja a mais complexa e obscura de todo o livro. Muitos nomes não são de indivíduos, mas de povos ou nações, há nomes duplicados em mais de uma genealogia (e.g os lídios chamados de Ludim Gn 10:13 e Lud Gn 10:22; Havilá em Gn 10:7 e 29), o que leva alguns estudiosos a concluírem que seria o resultado de fontes que um editor uniu, todavia é mais provável que isso tenha a ver com o propósito do texto em demonstrar os relacionamentos entre os povos, o que comportaria relações duplicadas e alternantes entre si. Ligado a isto está a ideia de que nem sempre os termos “filho” e “gerou” nesta lista tem o sentido de filiação sanguínea, mas também, como em outras partes da Bíblia Hebraica e do mundo antigo, carrega a ideia de laços políticos e sociais. [48][49]

Após a tabela das nações encontramos a narrativa da Torre de Babel que explica como e porque os povos se dividiram em diferentes grupos e línguas e a seguir, fechando o bloco da História Primitiva, encontramos a tôlĕdôt de Sem retomando e ampliando a genealogia semita anterior. Tal linhagem “consiste do título típico (11.10a), o cenário cronológico inicial, ‘dois anos após o dilúvio’ (11.10b), a genealogia linear (11.10b-25) e a genealogia segmentada de Terá (11.10b).’’ Além disso, ela “é semelhante à genealogia de Adão a Noé (5:1–32) tanto na forma quanto no fato de que termina com uma geração de três irmãos (5:32; 11:26)” deste modo ligando tanto os dois blocos, da história primitiva e patriarcal, como conectando a linhagem que veio de Adão por meio de Sete passando por Noé e seguindo por Sem até Abraão, o último da lista. É, portanto, uma ponte em que “cada um está à frente de uma nova época na história mundial: Adão, o primeiro homem; Noé, chefe da nova humanidade pós-dilúvio; Abraão, pai de Israel, o povo escolhido.”[50][51]

A seção da história patriarcal, que vai do capítulo 12 ao 50, contém a mesma quantidade de tôlĕdôt que na história primitiva, fazendo com que cada bloco maior tenha 5 dessas divisões. Porém a história patriarcal é muito mais longa, o que faz com que a fórmula tôlĕdôt se torne menos frequente no todo. Ela aparece com os ancestrais Terá (Gn 11:27), Ismael (Gn 25:12), Isaque (Gn 25:19), Esaú (Gn 36:1, 9) e Jacó (Gn 37:2). Neste bloco, a principal função da tôlĕdôt é fazer a narrativa avançar de forma linear, mas não de forma simples. Nestes casos, a expressão forma uma estrutura literária que enfatiza o primeiro, terceiro e quinto tôlĕdôt, de maneira que a de Terá, Isaque e Jacó tenham suas narrativas familiares expandidas, enquanto Ismael e Esaú não. [52]

Contudo, a fórmula tôlĕdôt de modo algum esgota todas as genealogias presentes em Gênesis, já que outras listas genealógicas se acham preservadas fora das listas tôlĕdôt como em Gn 4:17-26; 9:18-19; 22:20-24;25:1-6; 35:22b-29; 46:8-27. Ainda temos narrativas que mostram, num ritmo acelerado, o nascimento de filhos, como no caso dos filhos de Jacó com suas esposas e concubinas em Gn 29-30 ou a narrativa sobre os filhos de Judá em Gn 38. Nesses casos, as histórias assumem certas características genealógicas e fornecem um meio de desenvolver a narrativa ainda mais ou resumos narrativos ou pausas dentro das unidades mais amplas. Poderíamos até conceber como uma espécie de narrativa genealógica ou genealogia dramatizada pela narrativa.

Deste modo, notamos que “A estrutura genealógica da fórmula tôlĕdôt dá a Gênesis sua natureza distinta como a história de uma família em particular em meio a todas as famílias do mundo”. Gênesis se torna um livro singular em toda a bíblia e história antiga, ao ser movido e estruturado por narrativas e genealogias, e estas em alto número.[53]

4.2. Genealogias em Êxodo

O livro de Êxodo é a continuação do livro de Gênesis. O nome do livro como o conhecemos “provém do Antigo Testamento Exodos, que significa ‘saída’’ ou ‘partida’. O título é lógico porque a saída de Israel do Egito é o tema predominante do livro’’. Todavia, o título hebraico é ‘‘E estes são os nomes’’, seguindo a prática dos antigos hebreus de nomear o livro com suas primeiras palavras. De acordo com esse título, Êxodo demonstra sua conexão com Gênesis ao iniciar com a conjunção “E” e porque essa frase de abertura repete a frase de Gn 46:8, em que os nomes dos descendentes de Israel (Jacó) passam a ser listados. [54][55]

O título do livro em hebraico também é muito sugestivo quanto a questões genealógicas já que tem a ver com nomes de membros de um povo. Apesar disso, Êxodo contém apenas duas listas genealógicas, uma em Ex 1:1-7 e outra em Ex 6:14-27, e em nenhum destes casos a fórmula tôlĕdôt aparece. Enquanto em Gênesis, as genealogias ajudam a estruturar o livro e movimentar a narrativa, em Êxodo as estruturas literárias podem ser identificadas com os locais em que Israel está ou o conteúdo geral da história. Diante disso, qual seria então a importância e o papel das genealogias em Êxodo?[56]

A primeira lista que abre o livro é do tipo segmentado, patrilinear e inicia com a fórmula “Estes são os nomes’’, algo comum a outras genealogias conhecidas da Bíblia Hebraica e de registros assírios. Essa fórmula de abertura ecoa as palavras de outra genealogia, em Gn 46:7, no entanto a genealogia de Êxodo está bem mais próxima em conteúdo àquela de Gn 35:23-26. Como Victor Hamilton demonstra, a organização da lista em Êxodo 1 funciona como um quiasma colocando Raquel (mãe de José e Benjamim) no centro ficando desta forma:

A os filhos de Lia (Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom)

B Segundo filho de Rachel (Benjamin)

B′ os filhos da serva de Raquel, Bilhah (Dan, Naftali)

A′ os filhos da serva de Lia, Zilpa (Gade, Aser).[57]

Após o relato destes nomes, o versículo 5 informa que 70 descendentes de Jacó entraram no Egito, o versículo 6 diz que a geração de hebreus que entrou no Egito morreu e o 7 explica que as próximas gerações foram muito férteis e numerosas enchendo o país. Este breve relato tem a função teológica de demonstrar como Deus abençoou a descendência de Jacó em cumprimento às promessas feitas a Abraão. [58]

Duas ironias estão aqui. A primeira é que a multiplicação da descendência aconteceu fora de Canaã, a terra prometida, e a segunda é que essa enorme fertilidade provocará temor e desejo de extermínio no faraó egipcio. Esta genealogia, portanto, resume, no nome dos líderes tribais, a descendência de Jacó que entrou no Egito, os identificando e separando dos egípcios, além de expor uma perspectiva teológica sobre a benção da promessa divina e literária ao continuar a sequência de Gênesis e preparar a história dos capítulos seguintes.[59]

A segunda genealogia aparece no capítulo 6 quando Moisés se recusa a continuar na missão de falar com o faraó sobre libertar Israel e Deus providencia Arão, o irmão mais velho de Moisés, como porta-voz. É uma genealogia que inicia com outra fórmula, a expressão “Os chefes da família”. É uma lista altamente seletiva, pois apresenta apenas os descendentes de Rúben, Simeão e Levi, os três primeiros filhos de Jacó. O formato também é segmentado, e Rúben e Simeão aparecem em poucas linhas, sendo listados apenas os descendentes imediatos. Por outro lado, a maior parte da atenção é dada a Levi e sua descendência ao serem listadas seis gerações culminando em Finéias. O próprio papel de Rúben e Simeão aqui parece servir ao propósito de mostrar Levi como o terceiro mais velho. Portanto, fica claro que o foco está em Levi. [60]

Na leitura de Êxodo 2:1 já descobrimos que o pai de Moisés e Arão era um levita, mas aqui o conhecemos por nome. E ainda que Moisés seja o personagem humano mais proeminente do livro, o foco em Arão é explicado pelo contexto, pois neste momento ele será introduzido como o porta voz e auxiliar de Moisés. Ryken nota que “A primeira metade da genealogia reconstrói os ancestrais de Arão, de Levi e Coate até Anrão. A segunda metade identifica os filhos de Arão – Nadabe e Abiú, Eleazar e Itamar – e termina com o nascimento do seu neto Finéias (6.23, 25) "; essa organização coloca Arão no centro também em termos de conteúdo. A ênfase araônica também é observada no fato de Moisés não ter sua esposa ou descendência nomeada e na ordem “Arão e Moisés” do versículo 10. Embora Arão seja o mais velho e seja esperado que seu nome ocorra primeiro, por conta do papel de Moisés na história, o nome deste também aparece antes do nome do irmão, exceto em listas genealógicas, o que sugere a preservação de um material antigo.

Uma outra característica desta lista é a inclusão de mulheres. Isso já aconteceu antes em Gênesis, porém bem pouco. Aqui, encontramos a menção de uma cananéia no verso 15, Joquebede, mãe de Moisés no verso 20, Eliseba no verso 23 e uma filha anônima de Putiel, que seria esposa de Eleazar, nora de Arão e mãe de Finéias no verso 25. Hamilton comenta que “o que torna a presença dessas mulheres tão única aqui é que essa genealogia é sobre quem tem as linhagens adequadas para servir como sumo sacerdote ou apenas como sacerdotes, um ofício restrito por sexo aos homens. Não há “sacerdotisas no AT.” ; também é intrigante que este material afirme vir de um pano de fundo egipcio e era neste ambiente, mais do que em outros do Antigo Oriente Próximo, que mulheres eram mais propensas a serem adicionadas em genealogias.[61][62]

Os nomes dos descendentes imediatos de Levi eram conhecidos dos antigos leitores hebreus e carregam a importância de nos apresentar as origens de homens que terão relevância posterior no pentateuco. Ainda que os filhos de Gerson e os de Merari não tenham recebido tanta atenção neste trecho, a eles foram atribuídas funções importantes em relação ao tabernáculo. Os gersonitas realizavam transporte do material, de acordo com Nm 3:25-26, e os filhos de Merari eram como engenheiros estruturais fazendo o trabalho mais pesado, de acordo com Nm 3:36-37. Já os Coatitas, de onde vem Arão, eram responsáveis pelo santuário interno, como relata Nm 3:31. Somos apresentados também a Corá, um primo de Arão e Moisés, filho primogênito de Isar, que tentou usurpar a autoridade de Moisés e Arão como os mediadores autorizados em relação a Deus em Nm 16. Quando prestamos atenção neste trecho observamos que a tensão era familiar.

Outros personagens relevantes introduzidos aqui são os filhos de Arão. Os dois mais velhos, Nadabe e Abiú, foram consagrados como sacerdotes ungidos para servir diante de Deus (Ex 28:1, 40:15, Nm 3:3). Todavia, em Levítico 10 eles oferecem um fogo estranho diante do Senhor e são mortos por isso. Os filhos seguintes, Eleazar e Itamar, atuaram como sacerdotes e geraram clãs poderosos como descobrimos em outras genealogias. Aqui é suficiente percebermos que a linhagem passa de Arão para Eleazar e culmina em Finéias. Certamente, Moisés seleciona apenas ele dentre os netos de Arão por ser o mais famoso e oferecer um contraste positivo em relação a outros descendentes de Arão como Nadabe e Abiú, especialmente por causa de sua ação zelosa no caso de Baal-Peor em Nm 25. A lista se encerra, então, com Finéias, um personagem significativo no pentateuco e no judaísmo do segundo templo. Na finalização deste bloco “A declaração ‘estes eram os chefes das famílias levitas, clã por clã’ leva a genealogia levita a uma conclusão formal por meio de sua retomada ligeiramente expandida das palavras de abertura da genealogia (estes eram os chefes de suas famílias) no v. 14.”[63][64][65]

Depois que a genealogia é encerrada, há um comentário retomando o que foi dito no versículo 13 sobre Deus ordenar a saída dos hebreus do Egito, mas agora com uma expansão acerca de uma organização como um exército. Então, a narrativa volta para a sequencia de Deus falando à Moisés para regressar ao Faraó, desta vez porém com seu irmão, a quem agora o público já conhece por meio da genealogia: um homem de linhagem israelita e levítica, marcada por alto zelo pelo Senhor em distinção de homens rebeldes como Corá, Nadabe e Abiú.

As genealogias em Êxodo assumem um papel bem diferente do apresentado em Gênesis. Temos apenas duas, uma breve e outra mais longa, uma conectando as histórias patriarcais com os descendentes de Jacó no Egito e a outra legitimando Arão e a descendência de Eleazar como sacerdotes consagrados, capazes de mediar a relação de Israel com Deus assim como no passado o ancestral mediou a comunicação entre Moisés e o Faraó. Também é possível concordar com J.Wright de que:

As genealogias servem nesses contextos para "reunir" o povo de Israel ao longo de seu caminho, à medida que novos estágios de sua jornada se desenrolam diante deles. Êxodo começa com uma breve genealogia segmentada para colocar os israelitas no Egito (Ex 1:1-7). Uma genealogia parcial de Israel coloca a linhagem de Moisés e Arão dentro de Israel (Ex 6:14-27). A genealogia divide a renovação do chamado de Moisés (Êx 6:1-13) da instrução de Deus para Arão funcionar como porta-voz de Moisés (Êx 6:28—7:7).[66]

4.3 Números

O último caso que nosso artigo se propõe a analisar é o do livro de Números, o quarto livro dentro do pentateuco. O livro inicia com a conjunção “e’’, deste modo “mostrando a continuidade que existe entre os livros do pentateuco”, e o seu título “Números” vem da Septuaginta onde é chamado de Arithmoi e na Vulgata latina de Numeri “evocando a ideia de recenseamento e outras listas”, algo que aparece no livro, e tem um papel importante, apesar de não ser tão frequente. O nome em hebraico é “bəmidbar’’ que significa “No deserto’’, uma das palavras iniciais do livro ambientando “todo o livro, à medida que os israelitas se deslocam do Sinai, para o deserto de Parã e finalmente para as planícies de Moabe”. No entanto, mais do que localização geográfica, é também “uma frase ligada às muitas experiências fundamentais de Israel durante seus quarenta anos no caminho do Egito para a terra prometida, experiências que formam o coração do Pentateuco.”[67][68][69][70]

Números apresenta a sequência final do que é conhecido como a perícope do Sinai, que começa em Êxodo 19 e vai até Numeros 10. Neste sentido, Números continua a narrativa de onde Êxodo parou, tanto em termos geográficos (Sinai) quanto retomando o tema da instrução de Êxodo 25-40 sobre a tenda da reunião e o sacerdócio moldando uma inclusio em torno de Levítico. Em todo este quadro, qual a importância das genealogias? Neste livro, as listas de ancestrais assumem um outro papel e não falam tanto sobre quem gerou quem, mas reúnem o povo de Deus em suas tribos e clãs para tarefas específicas. Agora o cenário não é mais de Israel em meio às outras nações recebendo identificação, mas sim em torno de questões internas. As listas principais aparecem em Números 1-3 e 26 marcando duas fases do livro que podem ser lidas como um modelo de estruturação maior. Além disso “temos as listas, completas com medidas e números, de presentes trazidos pelos representantes das tribos israelitas para a dedicação do altar (7.10–83)” e após o censo de Nm 26 “a lista, novamente provida de números exatos, das ofertas a serem trazidas em dias de festa e festivais ao longo do ano (28.1–29.38); e, por fim, a enumeração do butim da guerra contra os midianitas (31.32–52).” Apesar de a maior parte do conteúdo do livro ser de narrativas que, em poucos momentos são entrelaçadas com leis e listas, é inegável que o tamanho das listas causam um impacto que desanima a leitura de muitos. Isto que é desanimador para nós, Robert Alter, ao comentar sobre as técnicas de repetições no que diz respeito à enorme porção de Nm 7, em que cada tribo leva um conjunto igual de presentes e isso é repetido por dezenas de versículos, explica que é razoável supor que tais repetições tivessem um papel histórico ou até ritual, de modo que podemos imaginar as pessoas de cada tribo aguardando a menção de cada item e a participação de seus ancestrais..[71][72][73][74]

No entanto, nosso foco principal deve ser as listas de Nm 1-3, do capítulo 26 e algumas outras pequenas porções. A constituição do material de Nm 1 não é sobre descendência ou ascendência, mas sobre alistamento, pois Israel está prestes a partir para a terra prometida e possui uma função militar com semelhanças ao que outros povos faziam. Timothy Ashley nos diz que:

As listas de censo são amplamente difundidas no mundo antigo: do Egito do Antigo Reino, cujo estado-maior do exército contava suas tropas e faraós que emitiam pesquisas bienais e anuais de propriedade de terras, a Mari (Síria), Ras Shamra (Síria) e Alalakh (Turquia/antiga Síria); de Roma e Grécia à Índia, Japão e China. Essas listas de censo tinham como objetivo principal cobrar e coletar impostos ou alistar homens que eram obrigados a servir no exército. [75]

A lista de Nm 1 abre o primeiro bloco do livro. Ela é marcada por um comando inicial de Deus, a contagem das doze tribos com exceção de Levi, e os contados sendo registrados por famílias/clãs em um elevado número total. Já havia se passado dois anos do êxodo e após as contagens e preparações o povo está finalmente pronto para marchar, porém surge uma série de episódios negativos e falhas como rebelião, murmuração e falta de fé na promessa divina depois do relatório dos espiões enviados a Canaã. Nesta altura, em Nm 14, Deus condena a geração que saiu do Egito, composta pelos maiores de 20 anos, a morrerem no deserto. Esta quebra de expectativa em relação a toda a preparação que vinha ocorrendo desde o início, quando o povo estava em obediência, segue até Nm 25 com outras pragas, mortes e revoltas, vindas até mesmo da família próxima de Moisés. O tom negativo da primeira parte encontra seu ápice na apostasia nacional provocada pelo esquema de Balaão no episódio em Baal Peor. Essa realidade só poderá mudar quando a geração seguinte assumir, o que ocorre em Nm 26. Este tema compõe um dos principais assuntos de Números, que seria “a transferência da velha geração para nova geração de esperança na beira da Terra prometida’’ e promove a expectativa de que estes filhos sejam fiéis a Deus e diferentes dos seus pais.[76][77]

Quando lemos o segundo bloco de Números, do capítulo 26 ao 36, notamos que um tom positivo é inserido nesta seção. O censo inicial desta nova geração compartilha características da primeira como o comando divino, ordem das tribos, ausência levita, mas ninguém que foi contado da geração anterior permanece vivo, com exceção de Josué e Calebe. Olson percebe que “Vida e esperança em vez de rebelião e morte, caracterizam a história desta nova geração”, onde nenhuma morte é registrada na segunda parte do livro, crises que poderiam gerar revoltas são resolvidas, há vitórias militares contra os midianitas e muitas leis carregam uma expectativa de moradia na terra prometida. Além disso, enquanto a geração anterior foi retratada no deserto, esta nova geração se encontra nas planícies de Moabe, perto do rio Jordão.[78]

Todavia, outras listagens importantes estão presentes no livro. Em Nm 2 encontramos a disposição das tribos em torno da tenda do encontro, tendo os levitas ao redor da tenda e as demais tribos acampadas em um formato retangular com três tribos a cada lado. Este formato pode sugerir um pano de fundo egipcio, mas dois pontos são importantes de serem destacados. O primeiro tem a ver com a disposição em si das tribos, com Judá liderando a parte oriental onde ficava a entrada da tenda; Rúben, o primogênito de Jacó, liderando o lado sul; Dã, o primogênito das concubinas de Jacó, liderando o lado norte e o lado oeste sendo organizado com as tribos dos descendentes de Raquel (Benjamim, Manassés e Efraim), liderados por Efraim. O segundo ponto a ser destacado é que quem está no centro deste povo peregrino não é um governante humano mas a presença de Deus ou nas palavras de Mark Awabdy “Yahweh é o rei que fixou residência no centro do acampamento militar de seu povo”.[79]

Outro censo neste início do livro é o dos levitas nos capítulos 3 e 4. No final do capítulo 1, entre o censo geral das tribos e suas disposições em torno da tenda, já consta a informação de que os levitas não foram contados. O objetivo desta distinção tribal é bem claro, como diz Wenham, pois “as tribos seculares estavam sendo organizadas em unidades guerreiras, mas os levitas tinham uma função diferente. Sua tarefa primária é o serviço de Deus”. Somente os levitas poderiam erguer, desmontar e carregar a tenda e ao estarem acampados somente eles podiam amar tendas ao redor do tabernáculo. A lista do capítulo 3 conta os levitas homens a partir de um mês enquanto o capítulo 4 registra os levitas entre trinta e cinquenta anos. Segundo Ashley:[80][81][82][83]

O censo não é introduzido como um todo, mas apenas pelos clãs. A introdução de cada um dos clãs é basicamente a mesma (vv. 1–3, 21–23, 29–30) e é seguida por um esboço do trabalho que cada clã deveria fazer (vv. 4–15, 24–27, 31–32). Em seguida, vem uma declaração sobre qual dos filhos de Arão tinha autoridade sobre o trabalho específico (vv. 16, 28, 33).[84]

Esta distribuição de trabalho entre as famílias levitas é explicada nos seguintes termos:

Os 7.500 gersonitas eram responsáveis ​​pelas cortinas protetoras do local de habitação e do pátio; os 8.600 coatitas eram responsáveis ​​pelos móveis; os 6.200 meraritas eram responsáveis ​​pela estrutura de madeira da tenda de reunião na qual as cortinas eram penduradas. O narrador marca o status especial de Eleazar, o filho mais velho sobrevivente de Arão: embora ele fosse numerado e, portanto, responsável perante Moisés e Arão, ele recebeu o alto status de chefe da tribo de Levi e a responsabilidade pelos móveis mais sagrados da tenda de Yahweh.[85]

A estrutura interna dentro dos clãs de Israel fornece a imagem de que enquanto as doze tribos guerreavam contra exércitos inimigos, os levitas desempenhavam a função de servir, cercar e proteger o santuário de Deus, que é quem lutará por eles de forma que “essa relação recíproca entre honrar a tenda de reunião e a arca contendo a aliança, por um lado, e a guerra vitoriosa, por outro, é posteriormente explicitada nas costuras da perícope do Sinai e da narrativa do deserto (Números 10:3, 33–36)”. [86]

Na segunda seção de Números, iniciada no capítulo 26, observamos novamente um recenseamento militar. Mais uma vez há o comando divino, a ordem das tribos, uma quantidade geral parecida, indicando que não houve grandes perdas ou acréscimos entre uma geração e outra. Awabdy percebe que este segundo censo apresenta algumas distinções em relação ao primeiro. Enquanto o foco do primeiro é apenas militar, o foco deste é mais familiar. Isto também interfere na forma do relato, especialmente que chefes militares não são nomeados no segundo censo. Além disso, este censo acontece em Moabe, em frente a Jericó, com a terra de Canaã a vista, já o outro censo foi feito no deserto no Sinai, Aqui, o sumo sacerdote é Eleazar, não mais Arão. De maneira geral, esta perspectiva mais familiar do censo é explicada por Hamilton ao reconhecer que “O propósito imediato desta pesquisa é fornecer dados estatísticos para a distribuição da terra depois que ela foi conquistada" (vv. 52–56).” No comentário da distribuição das terras duas questões teológicas são realçadas. A primeira é que o comentário sobre a herança aparece em tom profético antecipando aquilo que eles ainda tomarão posse e o segundo é que a decisão será por sorte e não por escolha humana, ou seja, Deus é quem decidirá o local de habitação de cada tribo. Já o tom geral destes grandes números dos censos das tribos, tanto no sentido militar quanto do serviço religioso enfatiza a bênção divina sobre a descendência de Jacó pois “a promessa de fertilidade de Yahweh aos patriarcas se manifesta na população tribal de Israel.”[87][88]

Esta lista, de acordo com Awabdy, apresenta ainda notas importantes a respeito de alguns personagens. O comentário de 26:10 alerta a nova geração quanto a não seguir os passos dos rebeldes do passado como Datã, Abirão e Corá e ímpios da família de Judá como Er e Onã no versículo 19. Outra nota relevante aparece no versículo 33 sobre Zelofeade, um homem que teve somente filhas e cuja situação interferiria na distribuição das terras como veremos mais à frente.

Depois disso há um registro do censo das famílias levitas (Nm 26:57-64). Enquanto na primeira lista os levitas eram distinguidos por não serem guerreiros militares, aqui eles o são por não terem uma região própria como herança à semelhança das demais tribos; contudo receberam o território de 48 aldeias espalhadas por Israel. O versículo 63 encerra o censo retomando algumas expressões formulaicas do início da lista. Timothy aponta que “Após a conclusão do próprio documento do censo, o todo é colocado dentro da estrutura teológica dos anos de peregrinação no deserto.” O aviso de juízo divino contra a geração anterior foi executado e somente Josué e Calebe permanecem vivos e aptos para conhecer Canaã.[89][90]

Um último registro que vale a pena ser comentado é sobre o caso das filhas de Zelofeade. Como dissemos acima, Zelofeade morreu sem filhos e naquele contexto normalmente as mulheres não recebiam heranças. Moisés busca a Deus para resolver a questão já que não estava previsto na Lei e Deus responde dizendo que as filhas poderiam receber a herança do pai. Essa “ decisão afirma o valor importante de manter a terra com cada família para que a base econômica para cada família esteja garantida para o futuro”. O relato de Josué 17:3-6 confirma que elas permaneceram de posse da terra. Ainda que Deus tenha fornecido a possibilidade de que as filhas recebam a herança do pai, alguém pode se perguntar o porquê Israel ter mantido este modelo patrilinear da terra do pai sendo dada principalmente aos filhos. Stubbs parece estar certo ao dizer que é [91]

razoável entender que o sistema patrilinear de herança foi motivado em parte pelo desejo de preservar a estrutura tribal…Se a terra fosse distribuída igualmente para filhos e filhas após a morte de seus pais, os casamentos entre tribos dissolveriam rapidamente o sistema de terras tribais..[92]

Este tipo de prioridade demonstra o valor que a terra possuía para o antigo Israel e que a todo custo deveria ser mantido em seus limites familiares. Para que a porção da terra das filhas de Zelofeade não se misturasse com a de outras tribos Deus afirmou, posteriormente, que elas deviam se casar com alguém de sua própria tribo. [93]

Certamente o problema que estas cinco irmãs trouxeram à tona e obteve uma favorável resposta divina não dizia respeito somente a filhas recebendo herança na ausência de outros parentes homens próximos. Concordamos com R.G. Branch de que:

A solução de herança parece ter abordado outra situação também, uma em que uma esposa e mãe também morreram e um casamento levirato não ocorreu. As decisões buscavam manter a equidade entre as doze tribos e não permitiam que uma tribo ganhasse status e terra de uma maneira desproporcional com as outras. Esta questão era particularmente importante à luz do iminente assentamento de Israel em Canaã.[94]

A situação apresentada pelas cinco filhas de Zelofeade é colocada em um lugar significativo na segunda seção de Números. Ela aparece como a primeira ação dos israelitas após a realização do segundo censo e também é a cena que conclui o livro, quando chefes do clã de Gileade, da tribo de Manásses, perguntam a Moisés sobre com quem elas poderiam se casar. Esta posição, dentre várias outras coisas, parece realçar o tom positivo desta parte do livro, na qual conflitos são resolvidos e o caráter desta geração que, ao invés de se rebelar como a anterior, sabe argumentar com humildade e sabedoria.[95]

Essas listas e censos são altamente relevantes para a hermenêutica de Números pois fazem parte dos diversos estilos que compõem o livro e que tem gerado controvérsia entre os estudiosos a respeito de fontes anteriores e de como entender o livro em termos de unidade, coesão e coerência. No caso de Números, as listas de antepassados são importantes em relação à preparação do povo para guerrear pela terra prometida, marchar em sua direção, se posicionar em torno da presença de Deus e da distribuição de terras na Canaã. As listas também inserem os levitas e sacerdotes dentro da nação em suas respectivas funções. J.W.Wright sintetiza isto muito bem:[96]

Em vez de definir a trajetória da atividade divina em meio à criação boa, embora caída, de Deus e Israel (Gn 1:1—11:26) e o lugar de Israel em meio às nações (Gn 11:27—50:26), as genealogias em Êxodo e Números definem relacionamentos internos-israelitas em pontos cruciais de transição na narrativa conforme eles se movem para o próximo estágio de sua jornada divinamente ordenada. A jornada em si, em vez da reunião de um povo em meio às nações, move-se para o centro do palco dentro da narrativa.[97]

Portanto, apesar da ideia de genealogia em Números ser diferente do esperado e numa frequência não tão grande, este tipo de texto deve ser lido com atenção para que o livro, e todo o pentateuco, sejam compreendidos de forma apropriada.

5. Considerações finais

Cada um dos nomes nas genealogias carrega, em seus contextos, uma história e apontam para os papéis familiares, sociais, religiosos, militares ou políticos que estes personagens exerceram. Longe de ser um conteúdo desnecessário, as genealogias resumem e contam histórias, desempenham funções semelhantes a narrativas, nos informam e preparam para algo posterior e ajudam a organizar obras complexas bem como grandes períodos de tempo. Ainda há muito a ser discutido e pesquisado sobre as genealogias no pentateuco, na Bíblia hebraica e no antigo oriente próximo como um todo. Esperamos que este breve trabalho inspire outros a seguirem nesta pesquisa e auxilie estudiosos, leitores e pregadores na árdua e prazerosa tarefa de entender e comunicar o texto bíblico.

Notas

[1] Graduando em Teologia pela Faculdade Internacional Cidade Viva. E-mail: Douglas.sousa@cru.org.br

[2] RYKEN, Leland. Uma introdução literária à Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2023, n.p

[3] WILSON, Robert R. Genealogy and History in the Biblical World. New Haven, CT: Yale University Press, 1977, p. 9

[4] KLEIN, William W; HUBBARD JR, Robert L; BLOMBERG, Craig L. Introdução a interpretação bíblica. 1 ed- Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020, n.p

[5] Nesta seção me baseio nas definições de WALTON, J.H. “Genealogies” in ARNOLD, Bill T; WILLIAMSON, H.G.M. Dictionary of Old Testament: Historical Books (DOTHB), Downers Grove: IVP. 2005, n.p e também em WRIGHT, J.W. “Genealogies’’ in ALEXANDER ,T. Desmond; BAKER. David W. Dictionary of Old Testament: Pentateuch (DOTP), Downers Grove, IVP, 2003, n.p

[6] WALTON, John. Ibid. 2005, n.p

[7] Ibid, n.p

[8] Martin Goodman demonstra que essa ambiguidade relacional também poderia se apresentar do lado judaico, ainda que não na mesma situação. Veja no capítulo 2 “ Culto’’ ao final da seção sobre Templo em GOODMAN, Martin História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais. São Paulo: Crítica, 2020, n.p.

[9] Ibid, n.p

[10] Wright, J.W. “Genealogies’’ in DOTP comenta em seu artigo sobre como outros povos da antiguidade tardia como romanos e gregos tinham importantes listas.

[11] Wright, J.W. Ibid

[12] Um exemplo famoso de nome apagado é o da mulher faraó Hatshepsut. Sobre ela veja SILVA, Rodrigo; CARDOSO, Wilian. A bíblia e o antigo Egito. São Paulo: Novo Século, 2024, p 230-239

[13] Possivelmente esta presença estava ligada ao valor feminino no Egito, sobre o qual Reinke nos diz que “O Egito Antigo parece ter sido uma exceção na Antiguidade no que tange à presença da mulher na sociedade. A mãe era chamada a “dona da casa”, e a ascendência materna era invocada com a mesma frequência e o mesmo valor que a paterna.” em REINKE, André. Os outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019

[14] De acordo com John Walton, no capítulo 4 “Os deuses” de O pensamento do antigo oriente próximo e o antigo testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia Hebraica. São Paulo: Vida Nova, 2021, n.p “Na literatura egípcia é mais comum pensar que os primeiros deuses vieram a existir por meio de fluidos corporais (o deus criador cuspindo, espirrando, suando ou ejaculando), ao passo que as divindades posteriores são apenas a prole de uma geração anterior de deuses. Na teologia menfita, os deuses são trazidos à existência quando Atum os separa de si mesmo. Uma das maneiras de a criação ser manifestada era pela “boca que pronunciava o nome de tudo”.

[15] SILVA, Rodrigo “A bíblia e o antigo Egito’’, 2024. Parte das pesquisas em torno das genealogias do Egito tem sido sobre suas relações e contribuições para a cronologia egípcia. Veja STELLA, T.H.T. Métodos arqueológicos para o estabelecimento da cronologia histórica do Antigo Egito faraônico. R. Museu Arq. Etn. 38: 144-162, 2022, disponível em https://www.revistas.usp.br/revmae/article/view/171788/184285 e também Jansen-Winkeln, Karl. “THE RELEVANCE OF GENEALOGICAL INFORMATION FOR EGYPTIAN CHRONOLOGY.” Ägypten Und Levante / Egypt and the Levant, vol. 16, 2006, pp. 257–73. JSTOR, disponível em http://www.jstor.org/stable/23790288.

[16] PRICE, Randall e HOUSE, W. H. Manual de arqueologia bíblica Thomas Nelson, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020, n.p

[17] LIVERANI, Mario. The Ancient Near East: history, society and economy. Routledge, 2014. p 111

[18] As cópias que temos são do século 7 a.c, mas os estudiosos crêem que foi composto por volta do século 12 a.c

[19] WALTON, J.H. Op. cit, n.p

[20] KNOPPERS, Gary N. “Intermarriage, Social Complexity, and Ethnic Diversity in the Genealogy of Judah.” Journal of Biblical Literature, vol. 120, no. 1, 2001, pp. 15–30. JSTOR, disponível em https://doi.org/10.2307/3268591.

[21] LIVERANI, Mario. Op. Cit.

[22] Veja a importante revisão de Finkelstein, J. J. “The Genealogy of the Hammurapi Dynasty.” Journal of Cuneiform Studies, vol. 20, no. 3/4, 1966, pp. 95–118. JSTOR, disponível em https://doi.org/10.2307/1359643.

[23] MALAMAT, Abraham. “King Lists of the Old Babylonian Period and Biblical Genealogies.” Journal of the American Oriental Society, vol. 88, no. 1, 1968, pp. 163–73. JSTOR, disponível em https://doi.org/10.2307/597910. Este foi um importante estudo sobre as relações das genealogias de Hamurabi e dos reis assírios com a Bíblia. Um contraponto convincente demonstrando que há mais diferenças do que semelhanças entre as genealogias mesopotâmicas e as biblicas está em HESS, R. S. “The Genealogies of Genesis 1—11 and Comparative Literature,” in “I Studied Inscriptions from Before the Flood”: Ancient Near Eastern, Literary, and Linguistic Approaches to Genesis 1—11, ed. R. S. Hess and D. T. Tsumura (SBTS 4; Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1994) 58-72

[24] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2003, n.p

[25] WALTON, J. “Genealogies” in DOTH, Downers Grove: IVP. 2005

[26] WALTON, J.H. Ibid

[27] JOHNSON, M.D. The Purpose of the Biblical Genealogies (2d ed; Cambridge: Cambridge University Press, 1988 p. 77-82

[28] Estes termos refletem a perspectiva de unidade no pentateuco, não desconsiderando descontinuidades ou diferenças entre os livros. Para uma defesa e demonstração sobre isso, veja STEINER, Vernon J “ Literary Structure of the Pentateuch.” DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p.

[29] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 48

[30] WENHAM, Gordon. Genesis 1-15- Word Biblical Commentary (WBC), Zondervan, 1987, p. 55.

[31] A expressão surge em outros três momentos, Gn 10:32; 25:13; 36:9, mas concluindo uma seção genealógica como uma inclusio ou dando sequência a genealogia já iniciada.

[32] Esse debate é mais significativo a respeito do trecho Gênesis 1:1-2:3 para saber se a tôlĕdôt em 2:4 sobre a geração dos céus e da terra se refere ao que veio antes ou o que virá depois. É possível as tôlĕdôt estarem no início de seções como indicativo de que o editor estava usando-as para dar uma estrutura distinta, assumindo que estes títulos fizessem parte de tradições ou fontes prévias.

[33] TURNER, Laurence A. “Genesis, book of” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005

[34] WALTON, John H; MATTHEWS, Victor H; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 41

[35] SAILHAMER, John “Genesis” in RYKEN, Leland; LONGMAN III, Tremper. A complete literary Guide to the Bible. Zondervan, 1993, n.p

[36] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Op.Cit, p. 48

[37] STEINER , Vernon J “Literary Structure of the Pentateuch.” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[38] WENHAM, Gordon. Exploring the old testament: Pentateuch. Downers Grove, IL. 2013, n.p

[39] Robert Alter explica que “Por meio da abundante repetição a raiz lexical é explorada em seu âmbito semântico e diferentes formas do radical são aplicadas, divididas as vezes em correlatos fonéticos (formando jogos de palavras), sinônimos, antônimos; em virtude de seu caráter verbal, a Leitwort remete diretamente ao significado e, por conseguinte, ao tema’’ A arte da narrativa Bíblica. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 147

[40] STEINER, Vernon Op. Cit, n.p

[41] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[42] Gordon Wenham comentando Gênesis 4:18-19 diz que o texto está “preocupado em ilustrar como toda atividade humana, incluindo o casamento, é afetada pelo pecado. No entanto, o fato de que Gênesis 2 retrata o relacionamento ideal entre homem e mulher pode sugerir que o autor considera a monogamia como a norma e que a bigamia de Lameque reflete um aspecto de seu declínio do padrão do criador para a vida humana.” Genesis 1-15- Word Biblical Commentary (WBC), Zondervan, 1987, p. 94

[43] Uma questão intrigante é que diferente de todas as outras tôlĕdôt, a frase aqui não é apenas sobre o relato da família de Adão, mas faz referência a um livro que poderia ser uma fonte sendo utilizada. Veja a discussão e bibliografia em WENHAM, Gordon, Ibid, p. 112

[44] STEINER , Vernon J. Op. Cit, n.p

[45] Um exemplo disso é que em Gn 9:18, Cam já é apresentado como pai de Canaã, e este seria importante na cena seguinte sobre a maldição de Noé, bem como em todo o pentateuco e restante da Bíblia Hebraica.

[46] Os detalhes sobre estas representações são complexos, porém concordamos com os que dizem que, de forma geral, os descendentes de Jafé apontam para os povos mais distantes de Israel, em especial povos de ilhas do mediterraneo, do além mar e do extremo norte. Wenham, G. Op. Cit, p. 216 diz: “A tabela das nações começa com os descendentes de Jafé, o grupo de nações vizinhas com quem Israel tinha menos a ver. Sua distância de Israel explica a brevidade desta seção em comparação com o tratamento dos camitas e semitas mais adiante no capítulo.” A descendência de Cam representa povos conhecidos da África (Egito, Líbia, Cuxe), de Canaã e da Mesopotâmia. Esses foram alguns dos mais terríveis inimigos de Israel. É aqui que, de maneira inesperada, encontramos uma quebra de ritmo ao ser inserido duas narrativas breves sobre Ninrode e Canaã. As questões sobre estes personagens, especialmente o primeiro, não podem ser discutidas aqui, mas parece apontar para um tipo de projeto dominador e violento como dos dias de antes do dilúvio. Também encontramos aqui uma nota explicativa sobre os filisteus nos versos 14 e 18. Talvez estas notas ajudassem os antigos israelitas a compreenderem com quem estavam se relacionando ao entrar em Canaã. Os semitas aparecem por último, destes vindo Héber, comumente associado como pai dos hebreus, contudo num olhar etnico há semitas e não semitas nesta lista como mostra Elão, Lude, Sabá, Ofir e outros, que embora não sejam semitas tiveram relações históricas com essa região no segundo milênio a.c. Aqui também há uma nota explicativa sobre Pelegue, um nome que contém um jogo de palavras com “dividido’’, o que poderia ser uma referência a dispersão humana de Babel enquanto Pelegue estava vivo ou algum outro tipo de espalhamento ou migração humana em diferentes comunidades.

[47] WALTON, John H; MATTHEWS, Victor H; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 47

[48] Essa é uma característica compartilhada com a lista de Hamurabi. “Na genealogia de Hamurabi vários nomes são tribais ou geográficos, o que permite concluir que não era algo incomum em documentos antigos. Por ser uma genealogia vertical, a lista simplesmente procura estabelecer relações de diversos tipos’’ Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Ibid, p. 49. Para as relações da lista de Hamurabi com a bíblia veja MALAMAT, Abraham. “King Lists of the Old Babylonian Period and Biblical Genealogies.” Journal of the American Oriental Society, vol. 88, no. 1, 1968, pp. 163–73.

[49] OSBORNE, W. “Nations, Table of” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[50] WALTKE, Bruce “Comentário do antigo testamento: Gênesis”São Paulo: Cultura cristã, 2010, p 224

[51] WENHAM, Gordon. Genesis 1-15- Word Biblical Commentary (WBC), Zondervan, 1987, p. 249

[52] Não mencionamos anteriormente, mas a mesma estrutura literária ocorre na história primitiva. Ali temos cinco tôlĕdôt, sendo que a história geral é continuada pela primeira, terceira e quinta tôlĕdôt, a saber os “descendentes” dos céus e da terra (Gn 2:4), Noé (Gn 6:9) e Sem (Gn 11:10). Por outro lado, a segunda e a quarta tôlĕdôt , Adão e os filhos de Noé, contém histórias mais curtas e que levam a julgamentos divinos como dilúvio e a divisão das nações em Babel.

[53] WRIGHT, J.W. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p.

[54] HILL, Andrew; WALTON, John. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2007, p. 91.

[55] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 58

[56] Veja essas duas principais propostas em Introdução ao Antigo Testamento. Op. Cit. p 63

[57] HAMILTON, Victor P. Exodus: As exegetical commentary. Grand Rapids: Baker Academic, 2011, p. 4

[58] A Septuaginta grega, um texto Êxodo em Qumrã (4QEx a ), Josefo ( Ant . 2.7.4 §176), o livro dos Jubileus (44.33) e Estevão em Atos 7:14 trazem “setenta e cinco” no lugar de “setenta”.

[59] STUART, Douglas. K. Exodus: An exegetical and theological exposition of Holy Scripture (New American Commentary). B&H Publishing Group. 2006, n.p

[60] RYKEN, Philip Graham. Estudos bíblicos expositivos em Êxodo(vol 1). São Paulo: Cultura Cristã, 2022, n.p

[61] A lista é ampliada se seguirmos a leitura da Septuaginta e do Pentateuco Samaritano no verso 20 que inclui Miriam, filha de Joquebede, irmã de Arão e Moisés.

[62] HAMILTON, Victor P. Op Cit. p 108

[63] Existe uma complexa discussão sobre o que teria sido esse fogo estranho. A ideia geral parece ser de que os primogênitos de Arão ofereceram algo que Deus não havia requerido ou fizeram isto de uma forma inadequada, ou ainda em um local inadequado. A literatura sobre isso é vasta, mas veja MORALES, L, Michael. Quem subirá ao monte do Senhor?. São Paulo: Cultura Cristã, 2022, n.p; PENTIUC, E, J. “Nadab and Abihu” in DOTP, 2003, n.p; J. C. H.LAUGHLIN, “The ‘strange fire’ of Nadab and Abihu”, JBL 95 (1976), p. 559-65; DOUGLAS, Mary. Levítico como literatura. São Paulo: Edições Loyola, 2019, p 192-196

[64] STUART, Douglas. Op. Cit. 2006, n.p

[65] Ibid

[66] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[67] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 82

[68] Ibid, p 82

[69] Ibid, p 82

[70] AWABDY, Mark. Numbers (Baker commentary on the old testament Pentateuch), Baker Academic 2023, n.p

[71] Ibid, n.p

[72] O livro de Números pode ser dividido de mais de uma maneira. A abordagem trabalhada neste artigo (das duas gerações) não é a única nem a melhor, mas é útil para a perspectiva genealógica e vem de Olson. Este modelo pode ser encontrado tanto no artigo de Olson citado abaixo quanto em The Death of the Old and the Birth of the New: The Framework of the Book of Numbers and the Pentateuch , BJS 71 (Chico, CA: Scholars Press, 1985) e Numbers (Interpretation: A Commentary for Teaching and Preaching [Louisville: Westminster John Knox, 1996]). Dillard e Longman, op. cit, p 84-85 mencionam as duas propostas de Jacob Milgrom. Uma é cronológica (1:10-10:11 nove dias de peregrinação no deserto, 21:10-36:13 cinco meses no ano 40 do deserto e 10:12-21:9 sendo material não datado dos 40 anos) e a outra é topográfica (1:1-10:10 no deserto do Sinai, 10:11-20:13 perto de Cades e 20:14-36:13). Para mais detalhes de ambas, veja MILGROM, J. Numbers:The JPS Torah Commentary. Jewish Publication Society, 1990. Outra proposta seguindo uma ideia temática é a de Budd, sendo cap 1:1—9:14 a constituição da comunidade no Sinai; cap 9:15—25:18 a jornada — seus contratempos e sucessos; cap 26:1—35:34 os preparativos finais para o assentamento. Para um tratamento recente sobre isso, dialogando com outras abordagens veja ASHLEY, Timothy, R. The Book of Numbers - The new international commentary on the Old Testament (NICOT). 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans. 2022, n.p

[73] NOTH, Martin. Numbers: A commentary. Philadelphia: Westminster Press, 1968, p. 1

[74] ALTER, Robert. Op. Cit, p. 138

[75] ASHLEY, Timothy, R, Op. Cit, n.p. Apesar do último comentário, não temos certeza de que estes dois censos envolveram pagamento de imposto. Veja uma discussão sobre isso nos comentários em Ex 30:11-16 do Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Ibid, p. 144

[76] As explicações para estes números elevados têm variado entre os especialistas. A contagem de Êxodo 12 e de Números 1 coloca Israel na casa dos milhões em termos de população. Para lidar com as dificuldades desse número exorbitante os estudiosos têm variado entre cinco posições gerais: 1- Erro do copista na transmissão textual; 2 - São verdadeiros, porém de uma época posterior como a da monarquia; 3- São números exatos da era mosaica; 4 São simbólicos em algum sentido; 5- A expressão hebraica ʾelep normalmente traduzida como “mil”deveria ser lida como “grupo, clã’’ ou até “líderes’’. A maioria dos estudiosos têm seguido as ideias 4 e 5, sempre com variações, sendo a quarta aquela com maior adeptos e variações como de uma convenção literária hiperbólica comum à época para demonstrar poder e glória, ligação com cálculos astronômicos mesopotâmicos ou até com recursos de gematria, em que os números representam nomes ou letras hebraicas. Para um tratamento mais completo dessas abordagens veja WENHAM, Gordon. Números: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1985. p. 64-71; ASHLEY, Timothy, R. Op. Cit; FOUTS, D.M. “Numbers, large numbers’’ in DOHB, 2005; HILL, Andrew. WALTON, John. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2007, p. 135-138

[77] OLSON, D.T “Numbers, book of” in DOTP, 2003, n.p

[78] Ibid

[79] AWABDY, Mark. Op. Cit, n.p

[80] WENHAM, Gordon. Números: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1985. p 74

[81] BUDD, Philip, J. Numbers: Word Biblical Commentary. Zondervan, 1984, p. 18

[82] Awabdy entende que a contagem feita a partir dos indivíduos de um mês de vida em diante seria levaria em conta a circuncisão ao oitavo dia e mais alguns dias para recuperação da cirurgia. Além disso, a taxa de mortalidade entre recém nascidos, especialmente na primeira semana, era elevada e a espera de um mês indicaria que o bebê tem mais chances de sobrevivência.

[83] Hamilton explica: “Não é muito errado traduzir a palavra “serviço/obra” (4:3, 23, 24, 27, 30, 31, 33, 35, 39, 43, 47) como “trabalho físico extenuante”. Por essa razão, uma idade de aposentadoria é prescrita, cinquenta, e uma idade inicial é prescrita, trinta. É interessante que a idade mínima no cap. 1 para elegibilidade para servir no exército é vinte, mas no cap. 4 a idade mínima para elegibilidade para servir como levita em relação ao santuário é trinta. Mais dez anos de maturação são necessários para aqueles que entrariam no serviço do Senhor, em oposição àqueles que entrariam no exército do Senhor.” HAMILTON, Victor P. Handbook of the Pentateuch, Grand Rapids: Baker Academic, 1982, p. 308. Wenham faz um comentário que complementa este entendimento “Este trabalho era perigoso, porque inclui o manuseio de equipamento sagrado, que além disso era pesado. por estas razões, era trabalho restrito a homens que provavelmente eram de aspecto sóbrio e fisicamente fortes, isto é, os que constavam entre trinta e cinquenta anos’’ WENHAM, Gordon, Op. Cit, p. 64

[84] ASHLEY, Timothy, R.The Book of Numbers - The new international commentary on the Old Testament (NICOT). 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans. 2022, n.p

[85] AWABDY, Mark. Op. Cit, n.p

[86] Ibid

[87] HAMILTON, Victor P. Handbook of the Pentateuch, Grand Rapids: Baker Academic, 1982, p. 352

[88] AWABDY, Mark. Op. Cit, n.p

[89] ASHLEY, Timothy, R. Op. Cit, n.p

[90] Ibid

[91] BRANCH, R, G. “Zelofead, daughters of ”in DOTP, n.p

[92] STUBBS, David L. Numbers (Brazos Theological commentary on the Bible. Brazos Press. 2020, n.p

[93] Por isso o ano do jubileu estava preocupado não apenas com cancelamento de dividas e libertação da escravidão mas também com retorno das terras aos respectivos donos.

[94] BRANCH, R, G. Op .Cit, n.p

[95] A humildade e sabedoria delas é percebida ao se dirigirem a Moisés e Eleazar como representantes de Deus, ao explicarem que seu pai morreu no deserto mas não fez parte da rebelião de Corá, tão somente morreu como toda a geração. Branch reforça que na história da recepção do judaísmo rabínico elas são muito bem vistas: “A tradição judaica elogia as filhas de Zelofeade por escolherem sagazmente o momento certo para abordar Moisés, um momento em que ele estava expandindo a lei do casamento levirato. As filhas mostraram notável habilidade exegética ao apresentar seu caso. A tradição judaica as elogia por sua virtude e pelo cuidado que demonstraram na escolha de maridos. A mais jovem, por exemplo, não se casou até os quarenta anos, quando encontrou um marido digno.”

[96] A questão da unidade e coesão interna de Números tem intrigado muitos estudiosos. Victor P. Hamilton cita a percepção de dois estudiosos importantes sobre isso. Um é B. A. Levine vendo o livro como “o menos coerente de todos os livros da Torá” e o outro é R. C. Dentan : “Como o livro não tem unidade real e não foi composto de acordo com nenhum plano lógico e predeterminado, qualquer esboço que possa ser imposto a ele terá que ser reconhecido como amplamente subjetivo e arbitrário”. Em parte, isso tem a ver com a desconcertante quantidade de gêneros diferentes e a conhecida lista de Jacob Milgrom que apresenta cerca de quatorze gêneros: “narrativa (Números 4:1-3), poesia (Números 21:17-18), profecia (Números 24:3-9), canção de vitória (Números 21:27-30), oração (Números 12:13), bênção (Números 6:24-26), sátira (Números 22:22-35), carta diplomática (Números 20:14-19), direito civil (Números 27:1-11), direito cultual (Números 15:17-21), decisão oracular (Números 15:32-36), lista do censo (Números 26:1-51), arquivo do templo (Números 7:10-88) e itinerário (Números 33:1-49)” WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, 2003, n.p. No entanto, Dillard e Longman (p. 84-87) estão corretos em dizer que estes gêneros existem dentro de um contexto literário mais amplo, o de escrita histórica instrutiva. Eles também citam a perspicaz visão de Milgrom sobre como todas estas partes estão conectadas sutilmente por meio de vários dispositivos literários e temáticos. O tema e a forma do censo e das listas fazem parte disso e o estudo sobre isso pode nos recompensar com uma compreensão deste livro desprezado.

[97] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, 2003

[1] Graduando em Teologia pela Faculdade Internacional Cidade Viva. E-mail: Douglas.sousa@cru.org.br

[2] RYKEN, Leland. Uma introdução literária à Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2023, n.p

[3] WILSON, Robert R. Genealogy and History in the Biblical World. New Haven, CT: Yale University Press, 1977, p. 9

[4] KLEIN, William W; HUBBARD JR, Robert L; BLOMBERG, Craig L. Introdução a interpretação bíblica. 1 ed- Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020, n.p

[5] Nesta seção me baseio nas definições de WALTON, J.H. “Genealogies” in ARNOLD, Bill T; WILLIAMSON, H.G.M. Dictionary of Old Testament: Historical Books (DOTHB), Downers Grove: IVP. 2005, n.p e também em WRIGHT, J.W. “Genealogies’’ in ALEXANDER ,T. Desmond; BAKER. David W. Dictionary of Old Testament: Pentateuch (DOTP), Downers Grove, IVP, 2003, n.p

[6] WALTON, John. Ibid. 2005, n.p

[7] Ibid, n.p

[8] Martin Goodman demonstra que essa ambiguidade relacional também poderia se apresentar do lado judaico, ainda que não na mesma situação. Veja no capítulo 2 “ Culto’’ ao final da seção sobre Templo em GOODMAN, Martin História do judaísmo: a saga de um povo: das suas origens aos tempos atuais. São Paulo: Crítica, 2020, n.p.

[9] Ibid, n.p

[10] Wright, J.W. “Genealogies’’ in DOTP comenta em seu artigo sobre como outros povos da antiguidade tardia como romanos e gregos tinham importantes listas.

[11] Wright, J.W. Ibid

[12] Um exemplo famoso de nome apagado é o da mulher faraó Hatshepsut. Sobre ela veja SILVA, Rodrigo; CARDOSO, Wilian. A bíblia e o antigo Egito. São Paulo: Novo Século, 2024, p 230-239

[13] Possivelmente esta presença estava ligada ao valor feminino no Egito, sobre o qual Reinke nos diz que “O Egito Antigo parece ter sido uma exceção na Antiguidade no que tange à presença da mulher na sociedade. A mãe era chamada a “dona da casa”, e a ascendência materna era invocada com a mesma frequência e o mesmo valor que a paterna.” em REINKE, André. Os outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019

[14] De acordo com John Walton, no capítulo 4 “Os deuses” de O pensamento do antigo oriente próximo e o antigo testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia Hebraica. São Paulo: Vida Nova, 2021, n.p “Na literatura egípcia é mais comum pensar que os primeiros deuses vieram a existir por meio de fluidos corporais (o deus criador cuspindo, espirrando, suando ou ejaculando), ao passo que as divindades posteriores são apenas a prole de uma geração anterior de deuses. Na teologia menfita, os deuses são trazidos à existência quando Atum os separa de si mesmo. Uma das maneiras de a criação ser manifestada era pela “boca que pronunciava o nome de tudo”.

[15] SILVA, Rodrigo “A bíblia e o antigo Egito’’, 2024. Parte das pesquisas em torno das genealogias do Egito tem sido sobre suas relações e contribuições para a cronologia egípcia. Veja STELLA, T.H.T. Métodos arqueológicos para o estabelecimento da cronologia histórica do Antigo Egito faraônico. R. Museu Arq. Etn. 38: 144-162, 2022, disponível em https://www.revistas.usp.br/revmae/article/view/171788/184285 e também Jansen-Winkeln, Karl. “THE RELEVANCE OF GENEALOGICAL INFORMATION FOR EGYPTIAN CHRONOLOGY.” Ägypten Und Levante / Egypt and the Levant, vol. 16, 2006, pp. 257–73. JSTOR, disponível em http://www.jstor.org/stable/23790288.

[16] PRICE, Randall e HOUSE, W. H. Manual de arqueologia bíblica Thomas Nelson, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020, n.p

[17] LIVERANI, Mario. The Ancient Near East: history, society and economy. Routledge, 2014. p 111

[18] As cópias que temos são do século 7 a.c, mas os estudiosos crêem que foi composto por volta do século 12 a.c

[19] WALTON, J.H. Op. cit, n.p

[20] KNOPPERS, Gary N. “Intermarriage, Social Complexity, and Ethnic Diversity in the Genealogy of Judah.” Journal of Biblical Literature, vol. 120, no. 1, 2001, pp. 15–30. JSTOR, disponível em https://doi.org/10.2307/3268591.

[21] LIVERANI, Mario. Op. Cit.

[22] Veja a importante revisão de Finkelstein, J. J. “The Genealogy of the Hammurapi Dynasty.” Journal of Cuneiform Studies, vol. 20, no. 3/4, 1966, pp. 95–118. JSTOR, disponível em https://doi.org/10.2307/1359643.

[23] MALAMAT, Abraham. “King Lists of the Old Babylonian Period and Biblical Genealogies.” Journal of the American Oriental Society, vol. 88, no. 1, 1968, pp. 163–73. JSTOR, disponível em https://doi.org/10.2307/597910. Este foi um importante estudo sobre as relações das genealogias de Hamurabi e dos reis assírios com a Bíblia. Um contraponto convincente demonstrando que há mais diferenças do que semelhanças entre as genealogias mesopotâmicas e as biblicas está em HESS, R. S. “The Genealogies of Genesis 1—11 and Comparative Literature,” in “I Studied Inscriptions from Before the Flood”: Ancient Near Eastern, Literary, and Linguistic Approaches to Genesis 1—11, ed. R. S. Hess and D. T. Tsumura (SBTS 4; Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1994) 58-72

[24] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2003, n.p

[25] WALTON, J. “Genealogies” in DOTH, Downers Grove: IVP. 2005

[26] WALTON, J.H. Ibid

[27] JOHNSON, M.D. The Purpose of the Biblical Genealogies (2d ed; Cambridge: Cambridge University Press, 1988 p. 77-82

[28] Estes termos refletem a perspectiva de unidade no pentateuco, não desconsiderando descontinuidades ou diferenças entre os livros. Para uma defesa e demonstração sobre isso, veja STEINER, Vernon J “ Literary Structure of the Pentateuch.” DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p.

[29] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 48

[30] WENHAM, Gordon. Genesis 1-15- Word Biblical Commentary (WBC), Zondervan, 1987, p. 55.

[31] A expressão surge em outros três momentos, Gn 10:32; 25:13; 36:9, mas concluindo uma seção genealógica como uma inclusio ou dando sequência a genealogia já iniciada.

[32] Esse debate é mais significativo a respeito do trecho Gênesis 1:1-2:3 para saber se a tôlĕdôt em 2:4 sobre a geração dos céus e da terra se refere ao que veio antes ou o que virá depois. É possível as tôlĕdôt estarem no início de seções como indicativo de que o editor estava usando-as para dar uma estrutura distinta, assumindo que estes títulos fizessem parte de tradições ou fontes prévias.

[33] TURNER, Laurence A. “Genesis, book of” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005

[34] WALTON, John H; MATTHEWS, Victor H; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 41

[35] SAILHAMER, John “Genesis” in RYKEN, Leland; LONGMAN III, Tremper. A complete literary Guide to the Bible. Zondervan, 1993, n.p

[36] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Op.Cit, p. 48

[37] STEINER , Vernon J “Literary Structure of the Pentateuch.” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[38] WENHAM, Gordon. Exploring the old testament: Pentateuch. Downers Grove, IL. 2013, n.p

[39] Robert Alter explica que “Por meio da abundante repetição a raiz lexical é explorada em seu âmbito semântico e diferentes formas do radical são aplicadas, divididas as vezes em correlatos fonéticos (formando jogos de palavras), sinônimos, antônimos; em virtude de seu caráter verbal, a Leitwort remete diretamente ao significado e, por conseguinte, ao tema’’ A arte da narrativa Bíblica. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 147

[40] STEINER, Vernon Op. Cit, n.p

[41] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[42] Gordon Wenham comentando Gênesis 4:18-19 diz que o texto está “preocupado em ilustrar como toda atividade humana, incluindo o casamento, é afetada pelo pecado. No entanto, o fato de que Gênesis 2 retrata o relacionamento ideal entre homem e mulher pode sugerir que o autor considera a monogamia como a norma e que a bigamia de Lameque reflete um aspecto de seu declínio do padrão do criador para a vida humana.” Genesis 1-15- Word Biblical Commentary (WBC), Zondervan, 1987, p. 94

[43] Uma questão intrigante é que diferente de todas as outras tôlĕdôt, a frase aqui não é apenas sobre o relato da família de Adão, mas faz referência a um livro que poderia ser uma fonte sendo utilizada. Veja a discussão e bibliografia em WENHAM, Gordon, Ibid, p. 112

[44] STEINER , Vernon J. Op. Cit, n.p

[45] Um exemplo disso é que em Gn 9:18, Cam já é apresentado como pai de Canaã, e este seria importante na cena seguinte sobre a maldição de Noé, bem como em todo o pentateuco e restante da Bíblia Hebraica.

[46] Os detalhes sobre estas representações são complexos, porém concordamos com os que dizem que, de forma geral, os descendentes de Jafé apontam para os povos mais distantes de Israel, em especial povos de ilhas do mediterraneo, do além mar e do extremo norte. Wenham, G. Op. Cit, p. 216 diz: “A tabela das nações começa com os descendentes de Jafé, o grupo de nações vizinhas com quem Israel tinha menos a ver. Sua distância de Israel explica a brevidade desta seção em comparação com o tratamento dos camitas e semitas mais adiante no capítulo.” A descendência de Cam representa povos conhecidos da África (Egito, Líbia, Cuxe), de Canaã e da Mesopotâmia. Esses foram alguns dos mais terríveis inimigos de Israel. É aqui que, de maneira inesperada, encontramos uma quebra de ritmo ao ser inserido duas narrativas breves sobre Ninrode e Canaã. As questões sobre estes personagens, especialmente o primeiro, não podem ser discutidas aqui, mas parece apontar para um tipo de projeto dominador e violento como dos dias de antes do dilúvio. Também encontramos aqui uma nota explicativa sobre os filisteus nos versos 14 e 18. Talvez estas notas ajudassem os antigos israelitas a compreenderem com quem estavam se relacionando ao entrar em Canaã. Os semitas aparecem por último, destes vindo Héber, comumente associado como pai dos hebreus, contudo num olhar etnico há semitas e não semitas nesta lista como mostra Elão, Lude, Sabá, Ofir e outros, que embora não sejam semitas tiveram relações históricas com essa região no segundo milênio a.c. Aqui também há uma nota explicativa sobre Pelegue, um nome que contém um jogo de palavras com “dividido’’, o que poderia ser uma referência a dispersão humana de Babel enquanto Pelegue estava vivo ou algum outro tipo de espalhamento ou migração humana em diferentes comunidades.

[47] WALTON, John H; MATTHEWS, Victor H; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 47

[48] Essa é uma característica compartilhada com a lista de Hamurabi. “Na genealogia de Hamurabi vários nomes são tribais ou geográficos, o que permite concluir que não era algo incomum em documentos antigos. Por ser uma genealogia vertical, a lista simplesmente procura estabelecer relações de diversos tipos’’ Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Ibid, p. 49. Para as relações da lista de Hamurabi com a bíblia veja MALAMAT, Abraham. “King Lists of the Old Babylonian Period and Biblical Genealogies.” Journal of the American Oriental Society, vol. 88, no. 1, 1968, pp. 163–73.

[49] OSBORNE, W. “Nations, Table of” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[50] WALTKE, Bruce “Comentário do antigo testamento: Gênesis”São Paulo: Cultura cristã, 2010, p 224

[51] WENHAM, Gordon. Genesis 1-15- Word Biblical Commentary (WBC), Zondervan, 1987, p. 249

[52] Não mencionamos anteriormente, mas a mesma estrutura literária ocorre na história primitiva. Ali temos cinco tôlĕdôt, sendo que a história geral é continuada pela primeira, terceira e quinta tôlĕdôt, a saber os “descendentes” dos céus e da terra (Gn 2:4), Noé (Gn 6:9) e Sem (Gn 11:10). Por outro lado, a segunda e a quarta tôlĕdôt , Adão e os filhos de Noé, contém histórias mais curtas e que levam a julgamentos divinos como dilúvio e a divisão das nações em Babel.

[53] WRIGHT, J.W. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p.

[54] HILL, Andrew; WALTON, John. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2007, p. 91.

[55] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 58

[56] Veja essas duas principais propostas em Introdução ao Antigo Testamento. Op. Cit. p 63

[57] HAMILTON, Victor P. Exodus: As exegetical commentary. Grand Rapids: Baker Academic, 2011, p. 4

[58] A Septuaginta grega, um texto Êxodo em Qumrã (4QEx a ), Josefo ( Ant . 2.7.4 §176), o livro dos Jubileus (44.33) e Estevão em Atos 7:14 trazem “setenta e cinco” no lugar de “setenta”.

[59] STUART, Douglas. K. Exodus: An exegetical and theological exposition of Holy Scripture (New American Commentary). B&H Publishing Group. 2006, n.p

[60] RYKEN, Philip Graham. Estudos bíblicos expositivos em Êxodo(vol 1). São Paulo: Cultura Cristã, 2022, n.p

[61] A lista é ampliada se seguirmos a leitura da Septuaginta e do Pentateuco Samaritano no verso 20 que inclui Miriam, filha de Joquebede, irmã de Arão e Moisés.

[62] HAMILTON, Victor P. Op Cit. p 108

[63] Existe uma complexa discussão sobre o que teria sido esse fogo estranho. A ideia geral parece ser de que os primogênitos de Arão ofereceram algo que Deus não havia requerido ou fizeram isto de uma forma inadequada, ou ainda em um local inadequado. A literatura sobre isso é vasta, mas veja MORALES, L, Michael. Quem subirá ao monte do Senhor?. São Paulo: Cultura Cristã, 2022, n.p; PENTIUC, E, J. “Nadab and Abihu” in DOTP, 2003, n.p; J. C. H.LAUGHLIN, “The ‘strange fire’ of Nadab and Abihu”, JBL 95 (1976), p. 559-65; DOUGLAS, Mary. Levítico como literatura. São Paulo: Edições Loyola, 2019, p 192-196

[64] STUART, Douglas. Op. Cit. 2006, n.p

[65] Ibid

[66] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, Downers Grove, IVP, 2005, n.p

[67] DILLARD, Raymond; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 82

[68] Ibid, p 82

[69] Ibid, p 82

[70] AWABDY, Mark. Numbers (Baker commentary on the old testament Pentateuch), Baker Academic 2023, n.p

[71] Ibid, n.p

[72] O livro de Números pode ser dividido de mais de uma maneira. A abordagem trabalhada neste artigo (das duas gerações) não é a única nem a melhor, mas é útil para a perspectiva genealógica e vem de Olson. Este modelo pode ser encontrado tanto no artigo de Olson citado abaixo quanto em The Death of the Old and the Birth of the New: The Framework of the Book of Numbers and the Pentateuch , BJS 71 (Chico, CA: Scholars Press, 1985) e Numbers (Interpretation: A Commentary for Teaching and Preaching [Louisville: Westminster John Knox, 1996]). Dillard e Longman, op. cit, p 84-85 mencionam as duas propostas de Jacob Milgrom. Uma é cronológica (1:10-10:11 nove dias de peregrinação no deserto, 21:10-36:13 cinco meses no ano 40 do deserto e 10:12-21:9 sendo material não datado dos 40 anos) e a outra é topográfica (1:1-10:10 no deserto do Sinai, 10:11-20:13 perto de Cades e 20:14-36:13). Para mais detalhes de ambas, veja MILGROM, J. Numbers:The JPS Torah Commentary. Jewish Publication Society, 1990. Outra proposta seguindo uma ideia temática é a de Budd, sendo cap 1:1—9:14 a constituição da comunidade no Sinai; cap 9:15—25:18 a jornada — seus contratempos e sucessos; cap 26:1—35:34 os preparativos finais para o assentamento. Para um tratamento recente sobre isso, dialogando com outras abordagens veja ASHLEY, Timothy, R. The Book of Numbers - The new international commentary on the Old Testament (NICOT). 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans. 2022, n.p

[73] NOTH, Martin. Numbers: A commentary. Philadelphia: Westminster Press, 1968, p. 1

[74] ALTER, Robert. Op. Cit, p. 138

[75] ASHLEY, Timothy, R, Op. Cit, n.p. Apesar do último comentário, não temos certeza de que estes dois censos envolveram pagamento de imposto. Veja uma discussão sobre isso nos comentários em Ex 30:11-16 do Comentário histórico cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Ibid, p. 144

[76] As explicações para estes números elevados têm variado entre os especialistas. A contagem de Êxodo 12 e de Números 1 coloca Israel na casa dos milhões em termos de população. Para lidar com as dificuldades desse número exorbitante os estudiosos têm variado entre cinco posições gerais: 1- Erro do copista na transmissão textual; 2 - São verdadeiros, porém de uma época posterior como a da monarquia; 3- São números exatos da era mosaica; 4 São simbólicos em algum sentido; 5- A expressão hebraica ʾelep normalmente traduzida como “mil”deveria ser lida como “grupo, clã’’ ou até “líderes’’. A maioria dos estudiosos têm seguido as ideias 4 e 5, sempre com variações, sendo a quarta aquela com maior adeptos e variações como de uma convenção literária hiperbólica comum à época para demonstrar poder e glória, ligação com cálculos astronômicos mesopotâmicos ou até com recursos de gematria, em que os números representam nomes ou letras hebraicas. Para um tratamento mais completo dessas abordagens veja WENHAM, Gordon. Números: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1985. p. 64-71; ASHLEY, Timothy, R. Op. Cit; FOUTS, D.M. “Numbers, large numbers’’ in DOHB, 2005; HILL, Andrew. WALTON, John. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2007, p. 135-138

[77] OLSON, D.T “Numbers, book of” in DOTP, 2003, n.p

[78] Ibid

[79] AWABDY, Mark. Op. Cit, n.p

[80] WENHAM, Gordon. Números: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1985. p 74

[81] BUDD, Philip, J. Numbers: Word Biblical Commentary. Zondervan, 1984, p. 18

[82] Awabdy entende que a contagem feita a partir dos indivíduos de um mês de vida em diante seria levaria em conta a circuncisão ao oitavo dia e mais alguns dias para recuperação da cirurgia. Além disso, a taxa de mortalidade entre recém nascidos, especialmente na primeira semana, era elevada e a espera de um mês indicaria que o bebê tem mais chances de sobrevivência.

[83] Hamilton explica: “Não é muito errado traduzir a palavra “serviço/obra” (4:3, 23, 24, 27, 30, 31, 33, 35, 39, 43, 47) como “trabalho físico extenuante”. Por essa razão, uma idade de aposentadoria é prescrita, cinquenta, e uma idade inicial é prescrita, trinta. É interessante que a idade mínima no cap. 1 para elegibilidade para servir no exército é vinte, mas no cap. 4 a idade mínima para elegibilidade para servir como levita em relação ao santuário é trinta. Mais dez anos de maturação são necessários para aqueles que entrariam no serviço do Senhor, em oposição àqueles que entrariam no exército do Senhor.” HAMILTON, Victor P. Handbook of the Pentateuch, Grand Rapids: Baker Academic, 1982, p. 308. Wenham faz um comentário que complementa este entendimento “Este trabalho era perigoso, porque inclui o manuseio de equipamento sagrado, que além disso era pesado. por estas razões, era trabalho restrito a homens que provavelmente eram de aspecto sóbrio e fisicamente fortes, isto é, os que constavam entre trinta e cinquenta anos’’ WENHAM, Gordon, Op. Cit, p. 64

[84] ASHLEY, Timothy, R.The Book of Numbers - The new international commentary on the Old Testament (NICOT). 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans. 2022, n.p

[85] AWABDY, Mark. Op. Cit, n.p

[86] Ibid

[87] HAMILTON, Victor P. Handbook of the Pentateuch, Grand Rapids: Baker Academic, 1982, p. 352

[88] AWABDY, Mark. Op. Cit, n.p

[89] ASHLEY, Timothy, R. Op. Cit, n.p

[90] Ibid

[91] BRANCH, R, G. “Zelofead, daughters of ”in DOTP, n.p

[92] STUBBS, David L. Numbers (Brazos Theological commentary on the Bible. Brazos Press. 2020, n.p

[93] Por isso o ano do jubileu estava preocupado não apenas com cancelamento de dividas e libertação da escravidão mas também com retorno das terras aos respectivos donos.

[94] BRANCH, R, G. Op .Cit, n.p

[95] A humildade e sabedoria delas é percebida ao se dirigirem a Moisés e Eleazar como representantes de Deus, ao explicarem que seu pai morreu no deserto mas não fez parte da rebelião de Corá, tão somente morreu como toda a geração. Branch reforça que na história da recepção do judaísmo rabínico elas são muito bem vistas: “A tradição judaica elogia as filhas de Zelofeade por escolherem sagazmente o momento certo para abordar Moisés, um momento em que ele estava expandindo a lei do casamento levirato. As filhas mostraram notável habilidade exegética ao apresentar seu caso. A tradição judaica as elogia por sua virtude e pelo cuidado que demonstraram na escolha de maridos. A mais jovem, por exemplo, não se casou até os quarenta anos, quando encontrou um marido digno.”

[96] A questão da unidade e coesão interna de Números tem intrigado muitos estudiosos. Victor P. Hamilton cita a percepção de dois estudiosos importantes sobre isso. Um é B. A. Levine vendo o livro como “o menos coerente de todos os livros da Torá” e o outro é R. C. Dentan : “Como o livro não tem unidade real e não foi composto de acordo com nenhum plano lógico e predeterminado, qualquer esboço que possa ser imposto a ele terá que ser reconhecido como amplamente subjetivo e arbitrário”. Em parte, isso tem a ver com a desconcertante quantidade de gêneros diferentes e a conhecida lista de Jacob Milgrom que apresenta cerca de quatorze gêneros: “narrativa (Números 4:1-3), poesia (Números 21:17-18), profecia (Números 24:3-9), canção de vitória (Números 21:27-30), oração (Números 12:13), bênção (Números 6:24-26), sátira (Números 22:22-35), carta diplomática (Números 20:14-19), direito civil (Números 27:1-11), direito cultual (Números 15:17-21), decisão oracular (Números 15:32-36), lista do censo (Números 26:1-51), arquivo do templo (Números 7:10-88) e itinerário (Números 33:1-49)” WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, 2003, n.p. No entanto, Dillard e Longman (p. 84-87) estão corretos em dizer que estes gêneros existem dentro de um contexto literário mais amplo, o de escrita histórica instrutiva. Eles também citam a perspicaz visão de Milgrom sobre como todas estas partes estão conectadas sutilmente por meio de vários dispositivos literários e temáticos. O tema e a forma do censo e das listas fazem parte disso e o estudo sobre isso pode nos recompensar com uma compreensão deste livro desprezado.

[97] WRIGHT, J. “Genealogies” in DOTP, 2003

Referências

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