Raízes Antigas, Ramos Novos: a Reforma e a essência universal da igreja – um ensaio a partir da Confissão de Fé Batista de 1689 (capítulo XXVI)
Raízes Antigas, Ramos Novos: a Reforma e a essência universal da igreja – um ensaio a partir da Confissão de Fé Batista de 1689 (capítulo XXVI)
Erick Veiga de Lima.[1]
Resumo
Resumo: A CFB 1689 reafirma a identidade batista e a fé reformada, enfatizando as Escrituras e a soberania de Deus. Este artigo analisa a catolicidade da Igreja no capítulo XXVI da confissão e sua relação com a Reforma Protestante, demonstrando que esta foi um retorno às raízes apostólicas. Diante dos desvios teológicos contemporâneos, destaca-se a necessidade de resgatar a tradição cristã genuína. A verdadeira universalidade da Igreja está fundamentada em Cristo, na Palavra e no Espírito Santo.
Palavras-chave: Catolicidade reformada; Credos cristãos; Igreja apostólica; Reforma Protestante; Sola Scriptura
Abstract: CFB 1689 reaffirms Baptist identity and the Reformed faith, emphasizing the Scriptures and the sovereignty of God. This article analyzes the catholicity of the Church in chapter XXVI of the confession and its relationship with the Protestant Reformation, demonstrating that this was a return to apostolic roots. In view of contemporary theological deviations, the need to rescue the genuine Christian tradition is highlighted. The true universality of the Church is founded on Christ, the Word and the Holy Spirit.
Keywords: Reformed catholicity; Christian creeds; Apostolic church; Protestant Reformation; Sola Scriptura
Resumo: A CFB 1689 reafirma a identidade batista e a fé reformada, enfatizando as Escrituras e a soberania de Deus. Este artigo analisa a catolicidade da Igreja no capítulo XXVI da confissão e sua relação com a Reforma Protestante, demonstrando que esta foi um retorno às raízes apostólicas. Diante dos desvios teológicos contemporâneos, destaca-se a necessidade de resgatar a tradição cristã genuína. A verdadeira universalidade da Igreja está fundamentada em Cristo, na Palavra e no Espírito Santo.
Palavras-chave: Catolicidade reformada; Credos cristãos; Igreja apostólica; Reforma Protestante; Sola Scriptura
Abstract: CFB 1689 reaffirms Baptist identity and the Reformed faith, emphasizing the Scriptures and the sovereignty of God. This article analyzes the catholicity of the Church in chapter XXVI of the confession and its relationship with the Protestant Reformation, demonstrating that this was a return to apostolic roots. In view of contemporary theological deviations, the need to rescue the genuine Christian tradition is highlighted. The true universality of the Church is founded on Christ, the Word and the Holy Spirit.
Keywords: Reformed catholicity; Christian creeds; Apostolic church; Protestant Reformation; Sola Scriptura
Artigo
1. INTRODUÇÃO
A Confissão de Fé Batista de 1689 é um importante tratado teológico dos batistas particulares, abordando temas como a natureza divina, de Cristo e da Igreja, Trindade, criação, queda, salvação e ordenanças. Enfatiza o papel do ministério pastoral e a pregação das Escrituras, além de defender o credobatismo em oposição ao pedobatismo e destacar a liberdade de consciência, características centrais da identidade batista.
Produzida entre intensos debates teológicos e políticos, a confissão ofereceu uma sólida base aos batistas, distinguindo-os dos demais grupos, como os congregacionais e presbiterianos. Sua relevância histórica é grande, pois estabeleceu um marco para a identidade e fé batistas, dando corpo a uma eclesiologia robusta e pautada na Bíblia. Ao longo do tempo, a CFB1689 tem servido como referência para pastores, teólogos e igrejas em diversos contextos, propiciando coesão e crescimento no movimento batista.
Além da relevância na tradição batista, a CFB1689 também contribuiu para o pensamento reformado, sendo considerada por tradições que compartilham doutrinas similares. Em resumo, a CFB1689 desempenha um papel indispensável na definição da identidade batista e na formação teológica e prática das igrejas, deixando um legado significativo para o movimento reformado em geral.
Este artigo tem como foco investigar a catolicidade da Igreja conforme citado no início do capítulo XXVI da CFB1689 que define a igreja universal como composta por todos os eleitos, que são unidos a Cristo. A igreja local é formada por pessoas que professam a fé cristã e vivem de acordo com essa fé.
A partir de uma abordagem histórica e teológica da Igreja Primitiva e dos Credos, vamos averiguar a Reforma Protestante e sua catolicidade, refletindo se ela foi um movimento rebelde de inovação ou um retorno às origens da verdadeira Igreja católica, governada por Cristo.
Inspirado na ilustração de Jesus em João 15 sobre a videira e os ramos, ambiciona-se que, ao final, o leitor tenha uma compreensão mais profunda sobre a relação entre a Reforma e a catolicidade, sendo provocado a enxergar o Protestantismo como um ramo novo, mas que brotou de antigas raízes.
2. RAMOS INFRUTÍFEROS DE HOJE
Olhando para o que o Protestantismo se tornou em todo o mundo, existem muitas críticas a serem feitas, e é por isso que se faz necessária a visão de um “catolicismo protestante”. A teologia atual se afastou muito das Escrituras e da doutrina dos Apóstolos, sendo necessário um renovo com foco em recuperar as práticas e a tradição cristã. Tal ação não é uma estratégia de ganho ou uma onda “vintage”; não pode ter foco apenas intelectual, mas precisa ser o reconhecimento de uma real necessidade espiritual e eclesiológica baseada num retorno às Escrituras, tanto nos seminários teológicos quanto nas igrejas locais.
Como se já não bastasse o Liberalismo, há as igrejas teologicamente fracas, que não fazem uma exposição bíblica cristocêntrica e se apoiam em entretenimento e emocionalismo. Muitos resistem ao pastor-teólogo, acham necessário largar a teologia para “botar a mão na massa” e ser mais humanos. Se não nos dedicarmos a conhecer a Deus por meio da Palavra, quem o fará? Se a Igreja não amar, zelar e ensinar a Bíblia, quem fará isso? É necessário que a Palavra seja o centro das nossas vidas, púlpitos e gabinetes.
3. RAMOS INFRUTÍFEROS DE ONTEM
A palavra "Católico" vem do grego katholikós e significa "universal". Desde seu início, os crentes usaram o termo para se referir à verdadeira e santa Igreja de Jesus, uma comunidade global. Com o tempo, "Igreja Católica" passou a ser associado à igreja que reconhecia a autoridade do papa em Roma, sendo considerada a única e verdadeira Igreja de Cristo. Apenas no século XVI, com a Reforma Protestante e a revolta popular, esse império começou a ruir, mas seu domínio foi um marco histórico sem precedentes.
Agora precisamos entender a origem do Catolicismo e sua finalidade. Seu surgimento se deu pelo crescimento do Cristianismo Primitivo e pela necessidade de estruturação e critérios eclesiásticos, teológicos e apologéticos. Começou como uma Igreja universal, mas depois se consolidou como uma instituição altamente organizada e ligada ao Estado. Com isso, inicia-se a saga da Igreja Católica Romana, a igreja que atua e governa como Estado, ambicionando expansão e domínio político, econômico e social. Para entendermos sua identidade, é importante abordarmos a evolução teológica, os aspectos históricos da Igreja Primitiva e suas características político-econômicas e sociais.
Após a ressurreição e ascensão de Jesus, seus primeiros seguidores se juntaram em comunidades voltadas para o crescimento espiritual, ensino, guarda e partilha da fé ensinada por Ele. Estes eram liderados pelos Apóstolos, autorizados por Jesus, e pelos presbíteros, autorizados pelos Doze e pela Igreja. A base de fé deles era o Antigo Testamento, os ensinos e vida de Jesus contidos nos Evangelhos e a doutrina dos Apóstolos, que ainda estava em processo de revelação. O Cristianismo cresceu rapidamente, saindo dos guetos judaicos para a Europa e a Ásia. Com Roma, Antioquia e Alexandria, a Igreja passou a se organizar formalmente com bispos que eram autoridade nas igrejas locais.
O bispo de Roma, devido à importância política e cultural da cidade, passou a ser visto com certa preeminência sobre os demais líderes. Essa posição de preeminência passou a ser associada à tradição de que o Apóstolo Pedro foi o primeiro bispo de Roma, e que sua autoridade apostólica teria sido transferida aos seus sucessores. Esse conceito ficou conhecido como Primado Petrino. Dessa forma, o bispo de Roma, mais tarde chamado de papa, passou a ter autoridade não apenas sobre a igreja e os bispos, mas também sobre toda a sociedade. Então se formou a visão de que o bispo de Roma tinha autoridade universal sobre a Igreja de Cristo.
Em paralelo, ocorria uma evolução teológica e institucional. O Cristianismo avançava no processo de estruturação eclesiástica e teológica. Os debates e controvérsias sobre a pessoa de Cristo e a Trindade exigiram respostas mais claras e a realização de concílios, como o de Nicéia em 325 d.C. Nesses concílios, bispos cristãos se esforçaram para consolidar a estrutura da Igreja e o pensamento bíblico-teológico. Assim, formalizou-se a figura dos bispos como líderes religiosos locais e regionais. Embora o bispo de Roma tivesse influência, especialmente por estar na capital do império, ele ainda não havia alcançado uma preeminência universal, mas estava em processo avançado.
A relação entre a Igreja Primitiva e o Estado Romano foi crucial para o surgimento e consolidação da Igreja Romana no Ocidente. Até o início do século IV, Roma perseguiu a Igreja, mas com a conversão de Constantino e o Édito de Milão em 313 d.C., o Cristianismo foi legalizado e favorecido pelo Estado, fortalecendo sua posição. Em 380 d.C., Teodósio I tornou o Cristianismo a religião oficial do Império, acelerando a organização e institucionalização da Igreja, com Roma se tornando o centro administrativo e espiritual do Cristianismo ocidental.
O bispo de Roma, reconhecido como papa, assumiu liderança universal, consolidada no século V por Leão Magno, que, a partir da sucessão de Pedro, estabeleceu a supremacia papal. Assim, a Igreja Romana se consolidou como a principal instituição cristã no Ocidente, centralizando-se na figura do papa e na tradição eclesiástica que foi se desenvolvendo ao longo dos séculos.
4. RAMOS NOVOS E FRUTÍFEROS SURGEM
Ainda que a Igreja Católica tenha adotado princípios antibíblicos, as raízes teológicas e documentais demonstram que ela e a tradição reformada não se excluem totalmente. A verdadeira catolicidade apostólica, que precisa ser resgatada, tem mais ligação com o protestantismo do que se imagina. A universalidade não se apoia em Pedro ou no papa, mas em Cristo – em sua vida, morte, ressurreição e na doutrina apostólica. Só Jesus garante a verdadeira unidade, santidade e ortodoxia da Igreja em qualquer tempo e espaço.
Para um verdadeiro catolicismo, é fundamental o entendimento correto da Cristologia, tanto nos seminários quanto nas igrejas. Cristo é 100% homem e 100% Deus, nasceu do Espírito, é eterno e nos salvou com sua vida, morte, ressurreição e ascensão. Esse entendimento é essencial para a unidade cristã, pois há divergências secundárias entre as tradições, mas a identidade da Igreja universal deve estar enraizada em quem é Cristo e no que é o Evangelho.
sus é o único caminho para a unidade, Ele é a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (Jo 14:6). A verdadeira catolicidade não está na estrutura institucional de uma igreja visível, mas na fidelidade a Cristo, que une sua Igreja espalhada pelo mundo por meio da Palavra e do Espírito.
Além da cristologia, a correta compreensão do Espírito Santo é essencial, pois Ele glorifica Cristo, edifica a Igreja e ilumina a verdade da Escritura. A ação do Espírito é crucial tanto teológica quanto eclesiologicamente, pois é Ele quem traz luz à Palavra e nos direciona a aplicá-la corretamente. Uma catolicidade reformada deve ser pneumatológica, reconhecendo que a obra do Espírito é determinante para a edificação da Igreja.
Outro pilar fundamental da catolicidade é a tradição. Ela se torna um obstáculo quando se afasta da Bíblia, mas é valiosa quando alinhada às Escrituras. Construir sobre o trabalho de grandes teólogos do passado nos protege de erros e fortalece uma teologia sólida. O erro da Igreja Romana foi colocar a tradição acima das Escrituras para manter sua estrutura de poder, mas a tradição deve estar a serviço da Palavra, nunca sobre ela. Uma universalidade cristã saudável lança mão da tradição sem abandonar a primazia da Escritura, pois a Bíblia é a única autoridade final.
Quanto ao Cânon bíblico, a tradição e a Igreja foram canais para sua formação, mas a autoridade da Bíblia não está nos concílios ou na igreja, está em Deus, na inspiração divina e na própria Palavra que se auto autentica. John Murray destaca que os céus testemunham a glória de Deus e a Bíblia testemunha Sua personalidade. Suas obras carregam Suas digitais, e a própria Escritura contém evidências de sua inspiração, inerrância e autoridade. A fé cristã e sua universalidade repousam na Escritura como Palavra final de Deus e não em crenças humanas ou tradições.[2]
Murray também ressalta que há uma evidência interna dada pelo Espírito ao crente, um testemunho subjetivo, mas essencial. A capacidade transformadora da Bíblia é uma prova de sua inspiração divina. A Escritura reivindica ser a Palavra de Deus e também prova essa realidade por meio de suas características únicas, do cumprimento de suas profecias, da ausência de contradições e do impacto que tem na vida das pessoas.[3]
5. RAÍZES ANTIGAS E ETERNAS
O que é um credo e qual sua finalidade? A falta de compreensão sobre esse tema leva muitos a rejeitá-lo como fonte confiável de conhecimento e tradição. Os credos, além de resumirem as bases da fé, demonstram que a Igreja Católica se afastou das origens apostólicas e que a Reforma Protestante foi um retorno às tradições iniciais, não uma inovação. Albert Mohler Jr. afirma que "todos os cristãos acreditam mais do que está contido no Credo dos Apóstolos, mas ninguém pode acreditar menos". Um credo religioso é uma declaração oficial de fé que resume princípios fundamentais inegociáveis que norteiam a fé e a prática de um grupo religioso ou de um indivíduo.[4]
O próprio termo credo significa "eu creio", e frequentemente esses documentos foram usados para reafirmar as doutrinas centrais do Cristianismo. Eles servem como um guia para os fiéis, um ponto comum de crenças e valores, ajudando na identidade da Igreja. Além disso, os credos desempenham um papel fundamental na definição da doutrina e da eclesiologia, proporcionando unidade e coesão doutrinária ao longo dos séculos. Servem também como ferramentas de ensino e defesa contra heresias, protegendo a fé cristã.
Na própria Bíblia, há credos primitivos, pequenas confissões de fé usadas pela Igreja primitiva para reafirmar a verdade cristã. Exemplos incluem "Jesus é o Senhor" (Rm 10:9; 1Co 12:2) e a declaração de 1Co 15:3-8, que resume a fé na morte, sepultamento e ressurreição de Cristo, testemunhada pelos Apóstolos.
De acordo com o Centro de Estudos Anglicanos, o credo contido nessa passagem tem uma construção literária que difere do estilo paulino, sendo possivelmente uma tradição anterior a Paulo, demonstrando que já nos primeiros anos da Igreja havia um conjunto de verdades essenciais compartilhadas e preservadas..[5]
Dentre os principais credos cristãos, destacam-se:
Credo Apostólico: Um dos mais antigos e ainda utilizado pela Igreja até hoje. Finalizado no século VI, embora não tenha sido escrito pelos Apóstolos, expõe as doutrinas essenciais da fé primitiva: Deus Pai, Jesus Cristo, o Espírito Santo, a Igreja, a remissão dos pecados e a vida eterna.[6]
Credo Niceno (325 d.C.): Foi formulado no Concílio de Nicéia para combater heresias cristológicas, especialmente o arianismo, reafirmando a plena divindade de Cristo e a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Credo de Constantinopla (381 d.C.): Reafirma e expande o Credo Niceno, detalhando mais a doutrina do Espírito Santo e da Igreja.
Credo de Calcedônia (451 d.C.): Define a doutrina das duas naturezas de Cristo em uma única pessoa, estabelecendo a união hipostática.[7]
Credo Atanasiano (500 d.C.): Enfatiza a doutrina da Trindade e da cristologia, sendo o primeiro a declarar que as três Pessoas da Trindade são iguais e de mesma essência.[8]
Os credos têm um papel crucial na formação da teologia e da fé cristã, refletem a luta da Igreja contra heresias e a necessidade de preservar a sã doutrina. A Reforma Protestante, ao rejeitar a tradição humana que contradizia a Escritura, na verdade retornou ao Catolicismo Primitivo, aquele que rejeitava inovações doutrinárias e se apegava ao ensinamento apostólico. Assim, podemos afirmar que um cristão pode ser, corretamente, um "católico protestante", desde que compreenda a universalidade da Igreja como uma realidade fundamentada em Cristo e na Palavra de Deus, e não na hierarquia eclesiástica de Roma.
5.1. UM RAMO A SER LANÇADO FORA E QUEIMADO
Jesus disse: "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam" (Jo 15:6). Essa advertência nos lembra da necessidade de uma fé verdadeira e fundamentada em Cristo, pois aqueles que se afastam da verdade apostólica tornam-se ramos infrutíferos que, no tempo determinado, serão cortados e lançados ao fogo.
O Tomo de Leão, escrito pelo Papa Leão I (Leão Magno) por volta de 449 d.C., foi uma carta endereçada ao Concílio de Calcedônia (451 d.C.) para esclarecer questões cristológicas e consolidar a autoridade do bispo de Roma. Esse documento foi fundamental para a teologia católica posterior e teve um impacto profundo na formação da eclesiologia romana.
No Tomo de Leão, há uma defesa clara da dupla natureza de Cristo (totalmente Deus e totalmente homem), combatendo heresias como o monofisismo, que negava a plena humanidade de Jesus. No entanto, o documento também apresenta uma extensa defesa da autoridade papal, utilizando o conceito do Primado Petrino, argumentando que a liderança do bispo de Roma é uma sucessão direta da autoridade concedida a Pedro por Cristo.
Essa visão se tornou um dos pilares do papado medieval, que consolidou a ideia de que o papa tem jurisdição universal sobre toda a Igreja. Esse desenvolvimento doutrinário distanciou-se da estrutura colegiada dos bispos que existia na Igreja Primitiva e abriu caminho para a centralização extrema do poder eclesiástico em Roma.
Contudo, o Tomo de Leão também teve influência indireta na teologia mariana. No processo de defesa da divindade de Cristo, Leão se refere a Maria como Theotokos (Mãe de Deus), um título que havia sido reafirmado pelo Concílio de Éfeso (431 d.C.). O termo Theotokos, quando compreendido corretamente, não exalta Maria, mas enfatiza a união inseparável entre a divindade e a humanidade de Cristo. No entanto, essa designação, ao longo do tempo, passou a ser utilizada para justificar práticas devocionais a Maria que se afastaram da centralidade de Cristo.
A Reforma Protestante rejeitou a mariolatria, mantendo o uso ortodoxo de Theotokos apenas no contexto cristológico. Os reformadores sustentavam que Maria foi mãe do Deus encarnado, mas que isso não implicava que ela possuía qualquer participação na divindade. Dessa forma, o Protestantismo se posicionou contra a adoração ou qualquer tipo de intercessão mariana, reafirmando a suficiência de Cristo como único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2:5).[9]
Outro aspecto importante do Tomo de Leão é sua visão sobre o pecado original. Leão afirma que: "O Senhor tomou da mãe a natureza, não a culpa."Essa declaração reconhece que Maria era uma pecadora necessitada de redenção, em total contraste com as doutrinas marianas posteriores, como a Imaculada Conceição, que afirmam que Maria nasceu sem pecado. Esse é um exemplo claro de como a tradição posterior da Igreja Romana desenvolveu doutrinas que não estavam presentes nos ensinamentos patrísticos iniciais. A veneração excessiva a Maria e a elevação do papa a uma posição de supremacia absoluta são exemplos de ramos que secaram ao longo da tradição eclesiástica. Essas inovações representam desvios da fé apostólica e mostram como a Igreja Romana se distanciou de suas raízes bíblicas.
Como disse Jesus: "Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta." (Jo 15:2). A verdadeira Igreja de Cristo é aquela que permanece fiel à Palavra de Deus, rejeitando tudo aquilo que contradiz a sã doutrina.
Diante disso, a Reforma Protestante pode ser entendida como um ato de poda espiritual na vinha do Senhor. O Protestantismo removeu os ramos secos da tradição e restaurou a centralidade de Cristo e das Escrituras na fé cristã. Esse processo foi essencial para a preservação da verdadeira Igreja, garantindo que ela permanecesse viva, frutífera e enraizada na Palavra de Deus.
6. CONCLUSÃO
A Confissão de Fé Batista de 1689 (CFB1689), além de estabelecer bases teológicas essenciais como a natureza de Deus, a Trindade e a salvação, também reforça a importância da Escritura como única autoridade final em questões de fé e prática. Seu valor não está apenas na sistematização doutrinária, mas na sua função como um baluarte contra desvios e heresias, ajudando igrejas e crentes a manterem uma fé pura e bíblica. A discussão sobre a relação entre tradição e Escritura é crucial, pois evidencia a necessidade de submeter toda tradição à autoridade suprema da Palavra de Deus. A CFB1689 não descarta a tradição cristã, mas a coloca em seu devido lugar: como um recurso valioso, mas subordinado às Escrituras. Isso é essencial para compreender a verdadeira catolicidade da Igreja, pois reafirma que a unidade cristã não pode se basear em sistemas humanos de autoridade, mas na verdade revelada por Deus.
Os credos históricos, como o Credo dos Apóstolos, o Credo Niceno e o Credo de Calcedônia, demonstram que a Reforma Protestante não foi uma revolução, mas um retorno às raízes do Cristianismo Primitivo. A Reforma rejeitou as tradições humanas que corromperam a Igreja e reafirmou as doutrinas fundamentais da fé cristã, recuperando a verdadeira identidade da Igreja Universal.
A CFB1689 oferece uma estrutura eclesiológica sólida, promovendo o entendimento de que a verdadeira Igreja é aquela que se submete a Cristo e à Sua Palavra. Essa Igreja não está restrita a uma denominação específica ou a uma sede institucional, mas é composta por todos aqueles que, em qualquer tempo e lugar, confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador e vivem de acordo com o Evangelho.
O conceito de catolicidade reformada, conforme abordado neste ensaio, não nega a diversidade de expressões dentro do Cristianismo Protestante, mas enfatiza que a unidade da Igreja só é verdadeira quando fundamentada na Palavra de Deus. O verdadeiro protestante católico é aquele que reconhece a universalidade da Igreja e, ao mesmo tempo, rejeita as corrupções institucionais que afastam a fé cristã de suas raízes bíblicas.
Por fim, a CFB1689 continua a ser uma referência vital para pastores, teólogos e crentes, oferecendo uma base teológica robusta que sustenta a prática da fé batista reformada. Este ensaio convida o leitor a reconhecer que, embora a Reforma pareça um ramo novo, ela brota de antigas raízes que buscam a fidelidade e a verdade de Deus.
Assim, a Igreja de Cristo permanece firme, sendo edificada por Ele mesmo, purificada pela Sua Palavra e sustentada pelo Espírito Santo. Como ramos frutíferos da videira verdadeira, devemos permanecer alicerçados nas Escrituras, comprometidos com a sã doutrina e dedicados a glorificar a Deus em tudo o que fazemos.
1. INTRODUÇÃO
A Confissão de Fé Batista de 1689 é um importante tratado teológico dos batistas particulares, abordando temas como a natureza divina, de Cristo e da Igreja, Trindade, criação, queda, salvação e ordenanças. Enfatiza o papel do ministério pastoral e a pregação das Escrituras, além de defender o credobatismo em oposição ao pedobatismo e destacar a liberdade de consciência, características centrais da identidade batista.
Produzida entre intensos debates teológicos e políticos, a confissão ofereceu uma sólida base aos batistas, distinguindo-os dos demais grupos, como os congregacionais e presbiterianos. Sua relevância histórica é grande, pois estabeleceu um marco para a identidade e fé batistas, dando corpo a uma eclesiologia robusta e pautada na Bíblia. Ao longo do tempo, a CFB1689 tem servido como referência para pastores, teólogos e igrejas em diversos contextos, propiciando coesão e crescimento no movimento batista.
Além da relevância na tradição batista, a CFB1689 também contribuiu para o pensamento reformado, sendo considerada por tradições que compartilham doutrinas similares. Em resumo, a CFB1689 desempenha um papel indispensável na definição da identidade batista e na formação teológica e prática das igrejas, deixando um legado significativo para o movimento reformado em geral.
Este artigo tem como foco investigar a catolicidade da Igreja conforme citado no início do capítulo XXVI da CFB1689 que define a igreja universal como composta por todos os eleitos, que são unidos a Cristo. A igreja local é formada por pessoas que professam a fé cristã e vivem de acordo com essa fé.
A partir de uma abordagem histórica e teológica da Igreja Primitiva e dos Credos, vamos averiguar a Reforma Protestante e sua catolicidade, refletindo se ela foi um movimento rebelde de inovação ou um retorno às origens da verdadeira Igreja católica, governada por Cristo.
Inspirado na ilustração de Jesus em João 15 sobre a videira e os ramos, ambiciona-se que, ao final, o leitor tenha uma compreensão mais profunda sobre a relação entre a Reforma e a catolicidade, sendo provocado a enxergar o Protestantismo como um ramo novo, mas que brotou de antigas raízes.
2. RAMOS INFRUTÍFEROS DE HOJE
Olhando para o que o Protestantismo se tornou em todo o mundo, existem muitas críticas a serem feitas, e é por isso que se faz necessária a visão de um “catolicismo protestante”. A teologia atual se afastou muito das Escrituras e da doutrina dos Apóstolos, sendo necessário um renovo com foco em recuperar as práticas e a tradição cristã. Tal ação não é uma estratégia de ganho ou uma onda “vintage”; não pode ter foco apenas intelectual, mas precisa ser o reconhecimento de uma real necessidade espiritual e eclesiológica baseada num retorno às Escrituras, tanto nos seminários teológicos quanto nas igrejas locais.
Como se já não bastasse o Liberalismo, há as igrejas teologicamente fracas, que não fazem uma exposição bíblica cristocêntrica e se apoiam em entretenimento e emocionalismo. Muitos resistem ao pastor-teólogo, acham necessário largar a teologia para “botar a mão na massa” e ser mais humanos. Se não nos dedicarmos a conhecer a Deus por meio da Palavra, quem o fará? Se a Igreja não amar, zelar e ensinar a Bíblia, quem fará isso? É necessário que a Palavra seja o centro das nossas vidas, púlpitos e gabinetes.
3. RAMOS INFRUTÍFEROS DE ONTEM
A palavra "Católico" vem do grego katholikós e significa "universal". Desde seu início, os crentes usaram o termo para se referir à verdadeira e santa Igreja de Jesus, uma comunidade global. Com o tempo, "Igreja Católica" passou a ser associado à igreja que reconhecia a autoridade do papa em Roma, sendo considerada a única e verdadeira Igreja de Cristo. Apenas no século XVI, com a Reforma Protestante e a revolta popular, esse império começou a ruir, mas seu domínio foi um marco histórico sem precedentes.
Agora precisamos entender a origem do Catolicismo e sua finalidade. Seu surgimento se deu pelo crescimento do Cristianismo Primitivo e pela necessidade de estruturação e critérios eclesiásticos, teológicos e apologéticos. Começou como uma Igreja universal, mas depois se consolidou como uma instituição altamente organizada e ligada ao Estado. Com isso, inicia-se a saga da Igreja Católica Romana, a igreja que atua e governa como Estado, ambicionando expansão e domínio político, econômico e social. Para entendermos sua identidade, é importante abordarmos a evolução teológica, os aspectos históricos da Igreja Primitiva e suas características político-econômicas e sociais.
Após a ressurreição e ascensão de Jesus, seus primeiros seguidores se juntaram em comunidades voltadas para o crescimento espiritual, ensino, guarda e partilha da fé ensinada por Ele. Estes eram liderados pelos Apóstolos, autorizados por Jesus, e pelos presbíteros, autorizados pelos Doze e pela Igreja. A base de fé deles era o Antigo Testamento, os ensinos e vida de Jesus contidos nos Evangelhos e a doutrina dos Apóstolos, que ainda estava em processo de revelação. O Cristianismo cresceu rapidamente, saindo dos guetos judaicos para a Europa e a Ásia. Com Roma, Antioquia e Alexandria, a Igreja passou a se organizar formalmente com bispos que eram autoridade nas igrejas locais.
O bispo de Roma, devido à importância política e cultural da cidade, passou a ser visto com certa preeminência sobre os demais líderes. Essa posição de preeminência passou a ser associada à tradição de que o Apóstolo Pedro foi o primeiro bispo de Roma, e que sua autoridade apostólica teria sido transferida aos seus sucessores. Esse conceito ficou conhecido como Primado Petrino. Dessa forma, o bispo de Roma, mais tarde chamado de papa, passou a ter autoridade não apenas sobre a igreja e os bispos, mas também sobre toda a sociedade. Então se formou a visão de que o bispo de Roma tinha autoridade universal sobre a Igreja de Cristo.
Em paralelo, ocorria uma evolução teológica e institucional. O Cristianismo avançava no processo de estruturação eclesiástica e teológica. Os debates e controvérsias sobre a pessoa de Cristo e a Trindade exigiram respostas mais claras e a realização de concílios, como o de Nicéia em 325 d.C. Nesses concílios, bispos cristãos se esforçaram para consolidar a estrutura da Igreja e o pensamento bíblico-teológico. Assim, formalizou-se a figura dos bispos como líderes religiosos locais e regionais. Embora o bispo de Roma tivesse influência, especialmente por estar na capital do império, ele ainda não havia alcançado uma preeminência universal, mas estava em processo avançado.
A relação entre a Igreja Primitiva e o Estado Romano foi crucial para o surgimento e consolidação da Igreja Romana no Ocidente. Até o início do século IV, Roma perseguiu a Igreja, mas com a conversão de Constantino e o Édito de Milão em 313 d.C., o Cristianismo foi legalizado e favorecido pelo Estado, fortalecendo sua posição. Em 380 d.C., Teodósio I tornou o Cristianismo a religião oficial do Império, acelerando a organização e institucionalização da Igreja, com Roma se tornando o centro administrativo e espiritual do Cristianismo ocidental.
O bispo de Roma, reconhecido como papa, assumiu liderança universal, consolidada no século V por Leão Magno, que, a partir da sucessão de Pedro, estabeleceu a supremacia papal. Assim, a Igreja Romana se consolidou como a principal instituição cristã no Ocidente, centralizando-se na figura do papa e na tradição eclesiástica que foi se desenvolvendo ao longo dos séculos.
4. RAMOS NOVOS E FRUTÍFEROS SURGEM
Ainda que a Igreja Católica tenha adotado princípios antibíblicos, as raízes teológicas e documentais demonstram que ela e a tradição reformada não se excluem totalmente. A verdadeira catolicidade apostólica, que precisa ser resgatada, tem mais ligação com o protestantismo do que se imagina. A universalidade não se apoia em Pedro ou no papa, mas em Cristo – em sua vida, morte, ressurreição e na doutrina apostólica. Só Jesus garante a verdadeira unidade, santidade e ortodoxia da Igreja em qualquer tempo e espaço.
Para um verdadeiro catolicismo, é fundamental o entendimento correto da Cristologia, tanto nos seminários quanto nas igrejas. Cristo é 100% homem e 100% Deus, nasceu do Espírito, é eterno e nos salvou com sua vida, morte, ressurreição e ascensão. Esse entendimento é essencial para a unidade cristã, pois há divergências secundárias entre as tradições, mas a identidade da Igreja universal deve estar enraizada em quem é Cristo e no que é o Evangelho.
sus é o único caminho para a unidade, Ele é a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (Jo 14:6). A verdadeira catolicidade não está na estrutura institucional de uma igreja visível, mas na fidelidade a Cristo, que une sua Igreja espalhada pelo mundo por meio da Palavra e do Espírito.
Além da cristologia, a correta compreensão do Espírito Santo é essencial, pois Ele glorifica Cristo, edifica a Igreja e ilumina a verdade da Escritura. A ação do Espírito é crucial tanto teológica quanto eclesiologicamente, pois é Ele quem traz luz à Palavra e nos direciona a aplicá-la corretamente. Uma catolicidade reformada deve ser pneumatológica, reconhecendo que a obra do Espírito é determinante para a edificação da Igreja.
Outro pilar fundamental da catolicidade é a tradição. Ela se torna um obstáculo quando se afasta da Bíblia, mas é valiosa quando alinhada às Escrituras. Construir sobre o trabalho de grandes teólogos do passado nos protege de erros e fortalece uma teologia sólida. O erro da Igreja Romana foi colocar a tradição acima das Escrituras para manter sua estrutura de poder, mas a tradição deve estar a serviço da Palavra, nunca sobre ela. Uma universalidade cristã saudável lança mão da tradição sem abandonar a primazia da Escritura, pois a Bíblia é a única autoridade final.
Quanto ao Cânon bíblico, a tradição e a Igreja foram canais para sua formação, mas a autoridade da Bíblia não está nos concílios ou na igreja, está em Deus, na inspiração divina e na própria Palavra que se auto autentica. John Murray destaca que os céus testemunham a glória de Deus e a Bíblia testemunha Sua personalidade. Suas obras carregam Suas digitais, e a própria Escritura contém evidências de sua inspiração, inerrância e autoridade. A fé cristã e sua universalidade repousam na Escritura como Palavra final de Deus e não em crenças humanas ou tradições.[2]
Murray também ressalta que há uma evidência interna dada pelo Espírito ao crente, um testemunho subjetivo, mas essencial. A capacidade transformadora da Bíblia é uma prova de sua inspiração divina. A Escritura reivindica ser a Palavra de Deus e também prova essa realidade por meio de suas características únicas, do cumprimento de suas profecias, da ausência de contradições e do impacto que tem na vida das pessoas.[3]
5. RAÍZES ANTIGAS E ETERNAS
O que é um credo e qual sua finalidade? A falta de compreensão sobre esse tema leva muitos a rejeitá-lo como fonte confiável de conhecimento e tradição. Os credos, além de resumirem as bases da fé, demonstram que a Igreja Católica se afastou das origens apostólicas e que a Reforma Protestante foi um retorno às tradições iniciais, não uma inovação. Albert Mohler Jr. afirma que "todos os cristãos acreditam mais do que está contido no Credo dos Apóstolos, mas ninguém pode acreditar menos". Um credo religioso é uma declaração oficial de fé que resume princípios fundamentais inegociáveis que norteiam a fé e a prática de um grupo religioso ou de um indivíduo.[4]
O próprio termo credo significa "eu creio", e frequentemente esses documentos foram usados para reafirmar as doutrinas centrais do Cristianismo. Eles servem como um guia para os fiéis, um ponto comum de crenças e valores, ajudando na identidade da Igreja. Além disso, os credos desempenham um papel fundamental na definição da doutrina e da eclesiologia, proporcionando unidade e coesão doutrinária ao longo dos séculos. Servem também como ferramentas de ensino e defesa contra heresias, protegendo a fé cristã.
Na própria Bíblia, há credos primitivos, pequenas confissões de fé usadas pela Igreja primitiva para reafirmar a verdade cristã. Exemplos incluem "Jesus é o Senhor" (Rm 10:9; 1Co 12:2) e a declaração de 1Co 15:3-8, que resume a fé na morte, sepultamento e ressurreição de Cristo, testemunhada pelos Apóstolos.
De acordo com o Centro de Estudos Anglicanos, o credo contido nessa passagem tem uma construção literária que difere do estilo paulino, sendo possivelmente uma tradição anterior a Paulo, demonstrando que já nos primeiros anos da Igreja havia um conjunto de verdades essenciais compartilhadas e preservadas..[5]
Dentre os principais credos cristãos, destacam-se:
Credo Apostólico: Um dos mais antigos e ainda utilizado pela Igreja até hoje. Finalizado no século VI, embora não tenha sido escrito pelos Apóstolos, expõe as doutrinas essenciais da fé primitiva: Deus Pai, Jesus Cristo, o Espírito Santo, a Igreja, a remissão dos pecados e a vida eterna.[6]
Credo Niceno (325 d.C.): Foi formulado no Concílio de Nicéia para combater heresias cristológicas, especialmente o arianismo, reafirmando a plena divindade de Cristo e a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Credo de Constantinopla (381 d.C.): Reafirma e expande o Credo Niceno, detalhando mais a doutrina do Espírito Santo e da Igreja.
Credo de Calcedônia (451 d.C.): Define a doutrina das duas naturezas de Cristo em uma única pessoa, estabelecendo a união hipostática.[7]
Credo Atanasiano (500 d.C.): Enfatiza a doutrina da Trindade e da cristologia, sendo o primeiro a declarar que as três Pessoas da Trindade são iguais e de mesma essência.[8]
Os credos têm um papel crucial na formação da teologia e da fé cristã, refletem a luta da Igreja contra heresias e a necessidade de preservar a sã doutrina. A Reforma Protestante, ao rejeitar a tradição humana que contradizia a Escritura, na verdade retornou ao Catolicismo Primitivo, aquele que rejeitava inovações doutrinárias e se apegava ao ensinamento apostólico. Assim, podemos afirmar que um cristão pode ser, corretamente, um "católico protestante", desde que compreenda a universalidade da Igreja como uma realidade fundamentada em Cristo e na Palavra de Deus, e não na hierarquia eclesiástica de Roma.
5.1. UM RAMO A SER LANÇADO FORA E QUEIMADO
Jesus disse: "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam" (Jo 15:6). Essa advertência nos lembra da necessidade de uma fé verdadeira e fundamentada em Cristo, pois aqueles que se afastam da verdade apostólica tornam-se ramos infrutíferos que, no tempo determinado, serão cortados e lançados ao fogo.
O Tomo de Leão, escrito pelo Papa Leão I (Leão Magno) por volta de 449 d.C., foi uma carta endereçada ao Concílio de Calcedônia (451 d.C.) para esclarecer questões cristológicas e consolidar a autoridade do bispo de Roma. Esse documento foi fundamental para a teologia católica posterior e teve um impacto profundo na formação da eclesiologia romana.
No Tomo de Leão, há uma defesa clara da dupla natureza de Cristo (totalmente Deus e totalmente homem), combatendo heresias como o monofisismo, que negava a plena humanidade de Jesus. No entanto, o documento também apresenta uma extensa defesa da autoridade papal, utilizando o conceito do Primado Petrino, argumentando que a liderança do bispo de Roma é uma sucessão direta da autoridade concedida a Pedro por Cristo.
Essa visão se tornou um dos pilares do papado medieval, que consolidou a ideia de que o papa tem jurisdição universal sobre toda a Igreja. Esse desenvolvimento doutrinário distanciou-se da estrutura colegiada dos bispos que existia na Igreja Primitiva e abriu caminho para a centralização extrema do poder eclesiástico em Roma.
Contudo, o Tomo de Leão também teve influência indireta na teologia mariana. No processo de defesa da divindade de Cristo, Leão se refere a Maria como Theotokos (Mãe de Deus), um título que havia sido reafirmado pelo Concílio de Éfeso (431 d.C.). O termo Theotokos, quando compreendido corretamente, não exalta Maria, mas enfatiza a união inseparável entre a divindade e a humanidade de Cristo. No entanto, essa designação, ao longo do tempo, passou a ser utilizada para justificar práticas devocionais a Maria que se afastaram da centralidade de Cristo.
A Reforma Protestante rejeitou a mariolatria, mantendo o uso ortodoxo de Theotokos apenas no contexto cristológico. Os reformadores sustentavam que Maria foi mãe do Deus encarnado, mas que isso não implicava que ela possuía qualquer participação na divindade. Dessa forma, o Protestantismo se posicionou contra a adoração ou qualquer tipo de intercessão mariana, reafirmando a suficiência de Cristo como único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2:5).[9]
Outro aspecto importante do Tomo de Leão é sua visão sobre o pecado original. Leão afirma que: "O Senhor tomou da mãe a natureza, não a culpa."Essa declaração reconhece que Maria era uma pecadora necessitada de redenção, em total contraste com as doutrinas marianas posteriores, como a Imaculada Conceição, que afirmam que Maria nasceu sem pecado. Esse é um exemplo claro de como a tradição posterior da Igreja Romana desenvolveu doutrinas que não estavam presentes nos ensinamentos patrísticos iniciais. A veneração excessiva a Maria e a elevação do papa a uma posição de supremacia absoluta são exemplos de ramos que secaram ao longo da tradição eclesiástica. Essas inovações representam desvios da fé apostólica e mostram como a Igreja Romana se distanciou de suas raízes bíblicas.
Como disse Jesus: "Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta." (Jo 15:2). A verdadeira Igreja de Cristo é aquela que permanece fiel à Palavra de Deus, rejeitando tudo aquilo que contradiz a sã doutrina.
Diante disso, a Reforma Protestante pode ser entendida como um ato de poda espiritual na vinha do Senhor. O Protestantismo removeu os ramos secos da tradição e restaurou a centralidade de Cristo e das Escrituras na fé cristã. Esse processo foi essencial para a preservação da verdadeira Igreja, garantindo que ela permanecesse viva, frutífera e enraizada na Palavra de Deus.
6. CONCLUSÃO
A Confissão de Fé Batista de 1689 (CFB1689), além de estabelecer bases teológicas essenciais como a natureza de Deus, a Trindade e a salvação, também reforça a importância da Escritura como única autoridade final em questões de fé e prática. Seu valor não está apenas na sistematização doutrinária, mas na sua função como um baluarte contra desvios e heresias, ajudando igrejas e crentes a manterem uma fé pura e bíblica. A discussão sobre a relação entre tradição e Escritura é crucial, pois evidencia a necessidade de submeter toda tradição à autoridade suprema da Palavra de Deus. A CFB1689 não descarta a tradição cristã, mas a coloca em seu devido lugar: como um recurso valioso, mas subordinado às Escrituras. Isso é essencial para compreender a verdadeira catolicidade da Igreja, pois reafirma que a unidade cristã não pode se basear em sistemas humanos de autoridade, mas na verdade revelada por Deus.
Os credos históricos, como o Credo dos Apóstolos, o Credo Niceno e o Credo de Calcedônia, demonstram que a Reforma Protestante não foi uma revolução, mas um retorno às raízes do Cristianismo Primitivo. A Reforma rejeitou as tradições humanas que corromperam a Igreja e reafirmou as doutrinas fundamentais da fé cristã, recuperando a verdadeira identidade da Igreja Universal.
A CFB1689 oferece uma estrutura eclesiológica sólida, promovendo o entendimento de que a verdadeira Igreja é aquela que se submete a Cristo e à Sua Palavra. Essa Igreja não está restrita a uma denominação específica ou a uma sede institucional, mas é composta por todos aqueles que, em qualquer tempo e lugar, confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador e vivem de acordo com o Evangelho.
O conceito de catolicidade reformada, conforme abordado neste ensaio, não nega a diversidade de expressões dentro do Cristianismo Protestante, mas enfatiza que a unidade da Igreja só é verdadeira quando fundamentada na Palavra de Deus. O verdadeiro protestante católico é aquele que reconhece a universalidade da Igreja e, ao mesmo tempo, rejeita as corrupções institucionais que afastam a fé cristã de suas raízes bíblicas.
Por fim, a CFB1689 continua a ser uma referência vital para pastores, teólogos e crentes, oferecendo uma base teológica robusta que sustenta a prática da fé batista reformada. Este ensaio convida o leitor a reconhecer que, embora a Reforma pareça um ramo novo, ela brota de antigas raízes que buscam a fidelidade e a verdade de Deus.
Assim, a Igreja de Cristo permanece firme, sendo edificada por Ele mesmo, purificada pela Sua Palavra e sustentada pelo Espírito Santo. Como ramos frutíferos da videira verdadeira, devemos permanecer alicerçados nas Escrituras, comprometidos com a sã doutrina e dedicados a glorificar a Deus em tudo o que fazemos.
Notas
[1] Pós-graduado em Pentateuco pela Fabapar; Mestrando em Teologia Batista Reformada pelo Seminário Batista Confessional do Brasil; Pastor auxiliar da Igreja Batista Nova Betel - RJ; Capelão Universitário de Missões Estaduais na UFRRJ; e-mail: erickveiga22@gmail.com; instagram: @pr.erickveiga.
[2] Allen, Michael; Swain, Scott R. Catolicidade Reformada: A Promessa de Recuperação Para a Teologia e a Interpretação Bíblica. Monergismo, Brasília- DF, 2020.
[3] Murray, John; Editado por Stonehouse, N. B. e Woolley, Paul. “The Attestation of Scripture,” em The Infallible Word. P & R Publishing Company, Phillipsburg-NJ, 2002, p. 46-47.
[4] Mohler, Richard Albert. O Credo dos Apóstolos: Descobrindo o Cristianismo Autêntico em Uma Era de Falsificações. Pro Nobis, Rio de Janeiro-RJ, 2021.
[5] Bíblia de Estudo: Apologética com Apócrifos - Tradução João Ferreira de Almeida. Instituto Cristão de Pesquisas, Rio de Janeiro-RJ, 1997, p. 1474.
[6] Anglada, Paulo. Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. Knox, São Paulo-SP, 2016, p. 178-79.
[7] Mathison, Keith A. 5 Coisas Que Você Deve Saber Sobre os Credos. Ministério Ligonier, Sanford-FL. Disponível em: https://pt.ligonier.org/artigos/5-coisas-que-voce-deve-saber-sobre-os-credos/. Acesso em 10 de set. de 2024.
[8] Anglada, Paulo. Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. Knox, São Paulo-SP, 2016, p. 180-182.
[9] González. Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Cultura Cristã, São Paulo-SP, 2004, p. 325-367.
[1] Pós-graduado em Pentateuco pela Fabapar; Mestrando em Teologia Batista Reformada pelo Seminário Batista Confessional do Brasil; Pastor auxiliar da Igreja Batista Nova Betel - RJ; Capelão Universitário de Missões Estaduais na UFRRJ; e-mail: erickveiga22@gmail.com; instagram: @pr.erickveiga.
[2] Allen, Michael; Swain, Scott R. Catolicidade Reformada: A Promessa de Recuperação Para a Teologia e a Interpretação Bíblica. Monergismo, Brasília- DF, 2020.
[3] Murray, John; Editado por Stonehouse, N. B. e Woolley, Paul. “The Attestation of Scripture,” em The Infallible Word. P & R Publishing Company, Phillipsburg-NJ, 2002, p. 46-47.
[4] Mohler, Richard Albert. O Credo dos Apóstolos: Descobrindo o Cristianismo Autêntico em Uma Era de Falsificações. Pro Nobis, Rio de Janeiro-RJ, 2021.
[5] Bíblia de Estudo: Apologética com Apócrifos - Tradução João Ferreira de Almeida. Instituto Cristão de Pesquisas, Rio de Janeiro-RJ, 1997, p. 1474.
[6] Anglada, Paulo. Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. Knox, São Paulo-SP, 2016, p. 178-79.
[7] Mathison, Keith A. 5 Coisas Que Você Deve Saber Sobre os Credos. Ministério Ligonier, Sanford-FL. Disponível em: https://pt.ligonier.org/artigos/5-coisas-que-voce-deve-saber-sobre-os-credos/. Acesso em 10 de set. de 2024.
[8] Anglada, Paulo. Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. Knox, São Paulo-SP, 2016, p. 180-182.
[9] González. Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Cultura Cristã, São Paulo-SP, 2004, p. 325-367.
Referências
ALLEN, Michael; SWAIN, Scott R. Catolicidade Reformada: A Promessa de Recuperação Para a Teologia e a Interpretação Bíblica. Monergismo, Brasília-DF, 2020.
ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. Knox, São Paulo-SP, 2016.
Bíblia de Estudo: Apologética com Apócrifos - Tradução João Ferreira de Almeida. Instituto Cristão de Pesquisas, Rio de Janeiro-RJ, 1997.
ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. Vida Nova, São Paulo-SP, 1997.
GONZÁLEZ. Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Cultura Cristã, São Paulo-SP, 2004.
MATHISON, Keith A. 5 Coisas Que Você Deve Saber Sobre os Credos. Ministério Ligonier, Sanford-FL. Disponível em: https://pt.ligonier.org/artigos/5-coisas-que-voce-deve-saber-sobre-os-credos/. Acesso em 10 de set. de 2024.
MURRAY, John; “The Attestation of Scripture,” em The Infallible Word. P & R Publishing Company, Phillipsburg-NJ, 2002.
PAULA, Juan de. Cristologia e Credo de Calcedônia (451). Coalizão Pelo Evangelho, São Paulo-SP, mar. de 2021. Disponível em: https://coalizaopeloevangelho.org/article/cristologia-e-credo-de-calcedonia-451/. Acesso em 12 de set. de 2024.
ALLEN, Michael; SWAIN, Scott R. Catolicidade Reformada: A Promessa de Recuperação Para a Teologia e a Interpretação Bíblica. Monergismo, Brasília-DF, 2020.
ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. Knox, São Paulo-SP, 2016.
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